Amaznia venda

Carlos Chagas

Nem tudo est perdido. Esta semana, o Senado parou. Parou e tremeu com a denuncia feita pelo senador Arthur Virglio, a respeito da amaznica brecha aberta pela Lei de Concesso de Florestas Pblicas, aprovada recentemente. Para o lder do PSDB, inadmissvel que um milionrio sueco-americano se tenha vangloriado de haver adquirido, na Amaznia, rea igual da Grande Londres, da qual, atravs de parcerias com grandes grupos internacionais privados, anunciou que buscar tirar proveito comercial, explorando e vendendo tudo o que existe em seus limites, da madeira biodiversidade e ao subsolo.

O indigitado personagem da denncia chegou a declarar imprensa dispor de fora poltica para mudar o protocolo de Kioto, assinado pelas principais naes do planeta, em defesa do meio ambiente. Seria uma espcie de “liberou geral” na Amaznia.

Arthur Virglio cobrou providncias do governo federal e do governador do Amazonas, para quem, conforme acentuou, tratou-se da aplicao da lei entre dois entes privados, no cabendo interveno do poder pblico.

preciso descer raiz do problema. Essa lei celerada foi proposta ao Congresso pelo ento presidente Fernando Henrique Cardoso, que at antes de sua aprovao pelo Congresso fez propaganda dela na Europa, convidando empresrios e governos a adquirirem parcelas da floresta amaznica. Veio o governo Lula e imaginou-se a retirada do projeto, por bater de frente com a pregao do candidato, retoricamente nacionalista e cultor da soberania nacional. Ledo engano. O Lula seguiu na mesma linha e fez aprovar a lei, que sancionou sob os aplausos da ministra Marina Silva, do Meio Ambiente e do PT.

Pelo texto, qualquer cidado ou empresa nacional ou estrangeira fica autorizado a comprar a floresta por um perodo de 40 anos, renovveis por mais 40, para extrair madeira e apropriar-se da biodiversidade, patenteando milhares de recursos vegetais ainda desconhecidos da cincia, assim como explorar o subsolo.

O resultado que a Amaznia vem sendo vendida. Dilapidada. O prprio sueco-americano, referindo-se aos milhes que pagou pelo seu pedao, vangloriou-se de que a Amaznia inteira pode ser comprada por 50 bilhes de dlares. Foi o que recomendou aos bancos internacionais.

Na sesso onde a denncia de Virglio foi feita, seguiram-se dezenas de apartes, todos na condenao da iminncia da perda total da propriedade do nosso territrio. Trata-se da internacionalizao da regio, h tantas dcadas e at h sculos cobiada pelas naes ricas, sob o pretexto de que a Amaznia pertence Humanidade e os brasileiros no tem capacidade para cuidar dela. O crime praticado de lesa-ptria, pelo qual deveriam responder os presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Incio da Silva. Eles e o Congresso, que aprovou o projeto.

Nas terras adquiridas de acordo com essa lei, fica o poder pblico impedido de atuar, abrindo-se outra alternativa, no caso para os que pretendem manter intocada a mais rica reserva natural do mundo. Depois de receberem a concesso, podero mandar os amaznidas embora de suas glebas, proibindo qualquer projeto nacional de desenvolvimento.

Conforme o senador Gilberto Mestrinho, a internacionalizao da Amaznia s no aconteceu at hoje graas ao Exrcito, s Foras Armadas. Para ele, a viso colonizadora dos pases ricos permanece a mesma, s que agora estimulada pelo prprio governo brasileiro.

O grave nessa histria a acomodao da maior parte da mdia, h muito aberta para falsas denncias de que o Brasil queima a floresta, acabando com o pulmo do mundo. No verdade. O oxignio exarado de dia substitudo pelo gs carbnico, noite.

No d para entender como a ministra Marina Silva se tenha deixado enredar pelas falcias dos neoliberais defensores da lei de concesses, ela que sempre formou na primeira linha de defesa do patrimnio amaznico. Estar iludida pela verso de que os estrangeiros, to bonzinhos, vo comprando a floresta para mant-la intocada, respeitando at a biodiversidade. Pelo jeito, nunca ouviu falar daquele laboratrio japons que contrabandeou espcimes da flora medicinal da regio e, l de Tquio, patenteou remdios que hoje compramos deles.Trata-se de um sinal dos tempos, at頠 irnico, porque essa mais nova denncia acaba de ser feita por um tucano. O senador Arthur Virglio o lder do PSDB.

(Republicado a pedidos com o propsito de sentirmos como Arthur Virglio faz falta no Senado)

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