Amazônia sob risco extremo de seca, segundo pesquisadores estrangeiros de tendência alarmista

floresta amazonica

Vai demorar muito até haver consenso científico sobre a influência da Amazônia no clima mundial

Gustavo Ferreira, Alberto Alves e Rafaella Nascimento  (Site Intelectos)

O artigo a seguir foi produzido em resposta à publicação de 22 de Junho de 2021 intitulada “Amazon Forest at extreme risk of drought due to climate change”, na revista Forbes. Não há como desconsiderar a mutação da “Forbes”, desde 1917 referência no mundo liberal capitalista pelo seu rigor em informar, apurar e até auditar o mundo financeiro; para uma publicação com sua própria agenda.

Em julho de 2014 o conglomerado Forbes Media foi vendido para um grupo chinês , baseado em Hong Kong, conhecido como Integrated Whale Media (também donos das empresas China Motion Telecom, China Packaging, China Vanguard, Credit China)

DEBATE AMBIENTAL – Tal mudança da empresa é exemplificada basilarmente no caso do colunista de meio ambiente, Michael Shellenberger, que teve a sua coluna abruptamente cancelada na Forbes quanto ele publicou o livro “Apocalypse Never: Why Environmental Alarmism Hurt Us All” (Apocalipse nunca: Porque o Alarmismo Ambientalista Prejudica a Todos) em que defendia que certas fontes renováveis de energia são consideravelmente mais impactantes para o eco sistema do que os combustíveis fósseis.

No artigo em questão, de autoria de Disha Shetty, cujo tema é o risco da seca na floresta amazônica , ela segue o mesmo corolário alarmista denunciado por Shellenberger, usando frases de efeito em letras garrafais e deixando o que realmente interessa em um plano inferior.

O estudo que embasa o artigo e que foi coordenado por Jessica Baker da Escola de Geografia da Universidade de Leeds, é intitulado “Robust Amazon precipitation projections in climate models that capture realistic land–atmosphere interactions” (Projeções de grandes precipitações na Amazônia em modelos climáticos que simulem interações realistas entre solo e atmosfera”).

CONCLUSÕES ALARMISTAS – Publicado na revista Environmental Research Letters, em junho de 2021, extrapola de forma imprudente e irrefletida suas conclusões sobre a influência do clima da Amazônia sem levar em consideração algumas condições essenciais descritas a seguir:

A existência do rio Hamza, um rio subterrâneo que fica a cerca de quatro mil metros abaixo do rio Amazonas e possui o equivalente ao mesmo volume de água que ele. É um aquífero que foi descoberto por Hamza, em 2010. Ele nasce nas Cordilheira dos Andes, no Peru e deságua no Oceano atlântico seguindo praticamente o mesmo percurso que seu companheiro da superfície.

Tal descoberta coloca a Amazônia sob circunstâncias completamente diferentes daquelas apontadas pelo artigo, pois a presença do rio subterrâneo esfria a floresta e este foi o motivo que levou Hamza a descobrir a presença do aquífero.

EFEITOS  DA ESTIAGEM – Os autores concluíram o óbvio; que parte da floresta sofre com a estiagem. Ainda assim, 80% dela permanece com a mata original. Não é à toa que ela existe há pelo menos dois milhões de anos e não se destruiu com variações diversas do clima desde então.

Eles destacam que devido a antropização (ação do homem), a floresta terá a sua capacidade de recuperação reduzida. Porém, eles omitem a existência do Código Florestal brasileiro, que regulam o uso da floresta mesmo em terras privadas, ou seja, seus donos são obrigados a preservar 80% da mata nativa em sua propriedade.

Assumem em seu modelo que num cenário de aquecimento extremo, a floresta sofrerá com a seca, mas não especificam o que significa esse aquecimento extremo. Tal imprecisão não tem valor científico e abre margens para proselitismos de cunho meramente político. E sugerem ainda que tal estudo pode ser utilizado como base para outras florestas, o que multiplica ainda mais o erro de imprecisão abordado.

OUTRAS IMPRECISÕES – Além disso, o artigo contém alguns vieses de princípios. Ele assume que “a evapotranspiração das florestas é essencial para a manutenção do clima amazônico” e desconsidera conclusões importantes de autores como Angelini et al (2011) e Salati et al. (1979). Angelini et al. (2011).

Esses cientistas afirmam que “a chuva da Amazônia vem principalmente do Atlântico equatorial para o continente e não é diretamente impulsionado pela evaporação local”.

Eles também reafirmam a visão de que as mudanças na chuva no interior do continente são um produto de processos complexos apenas parcialmente influenciados por fontes locais, ou seja, por evapotranspiração, mas não controlados por elas.

VENTOS ALÍSIOS – Salati et al (1979) estimaram que grande parte do vapor que entra na região pelos ventos alísios é transportado para fora da bacia e contribui para a geração de precipitação em outras regiões. Embora haja importante contribuição da evapotranspiração, especialmente para as regiões Cento Oeste e Sudeste, esta fica longe de ser essencial.

Se fosse possível remover toda a floresta da Amazônia, o que é impossível na prática, a umidade vinda do Atlântico equatorial através dos ventos alísios alcançaria regiões mais distantes, uma vez que ela não seria absorvida pela floresta se ali existisse.

Embora as conclusões do artigo estejam dentro do esperado no tocante à dependência de fatores climáticos e/ou sazonais, o período de observação utilizado no seu estudo, de 2003 a 2013 é, em princípio, insuficiente para se levantar qualquer estimativa assertiva sobre os próximos 100 anos, muito menos para extrapolar para outras regiões, como sugere o trabalho.

EL NIÑO E LA NIÑA – Além disso, ele não considera fatores importantes e extremos realistas como a influência dos El Niño e La Niña no contexto da floresta (o que seria mais apropriado em se tratando de situações extremas), dos quais foram demonstrados serem de influência fundamental na dinâmica da floresta, como mostram os trabalho de Sousa et al. (2015) e Coutinho et al. (2018) dentre outros.

Segundo Sousa et al. (2015), “os resultados mostram que o fenômeno El Niño afeta a estação chuvosa do ano posterior ao seu inicio, nas localidades do estado do Pará e adjacências”.

Coutinho et al. (2018) conclui que “os eventos extremos e muito extremos, de seca e de cheia, apresentados na bacia do Solimões e nas sub-bacias, coincidem com os anos de ocorrência de El Niño e La Niña, respectivamente”.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG 
Importantíssimo artigo enviado por Mário Assis Causanilhas. Mostra como ainda se desconhece cientificamente a Amazônia e muito se especula. Vai demorar até existir consenso científico. Em tradução simultânea, isso significa que o Brasil vai virar um pária internacional se não proteger a Amazônia. Não basta ter o melhor Código Florestal do mundo, se o governo não consegue que seja cumprido. Eis a questão. (C.N.)  

7 thoughts on “Amazônia sob risco extremo de seca, segundo pesquisadores estrangeiros de tendência alarmista

  1. … Ainda assim, 80% dela permanece com a mata original. Não é à toa que ela existe há pelo menos dois milhões de anos e não se destruiu com variações diversas do clima desde então.
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    Se ouvisse essa lógica de um orangotango talvez entendesse, mas de um homo sapiens é muito estrume para a minha carroça. O autor deveria se imaginar com 80% do seu corpo para ter a medida do gigantismo da perda.
    Os americanos tiveram um imbecil louco que quase destruiu o Capitolio; nós temos um que está destruindo tudo – até o sentimento de cidadania.

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