Anastasia aceita voto em Dilma e abre dissidência no PSDB

Pedro do Coutto

Ao participar de uma sabatina terça-feira, na Folha de São Paulo, o governador Antônio Anastasia, ao afirmar que aceita como legítimo o voto dilmasia (Dilma para presidente, ele para governador), na realidade abriu uma dissidência no PSDB mineiro, liberado por Aécio Neves, e cujo compromisso no plano federal é (ou era?) com a candidatura José Serra. Se o compromisso continuar, estará enfraquecido. Se não persistir, será uma verdadeira bomba no quadro da sucessão presidencial. Pois em política apoios têm que ser totais e aparentemente incondicionais. Qualquer vacilação ou dualidade representa não só a ruptura tácita, como, o que é ainda mais essencial, uma transferência de votos. Participaram da sabatina, que incluiu também o portal UOL, os jornalistas Júlio Veríssimo, Paulo Peixoto, Valdo Cruz e Vinícius Mota. A matéria foi publicada na edição de 11 de agosto, Dia do Advogado.

Com base nas duas pesquisas mais recentes, a do Datafolha e a do Ibope, Anastasia vem bem atrás de Hélio Costa. Mas o fato é que ele tem o apoio total do ex-governador Aécio Neves, de quem foi vice e de quem recebeu o Palácio da Liberdade, já que Aécio saiu em abril para disputar o Senado nas urnas de outubro. Ele não jogaria um lance de dados como esse sem que obtivesse a concordância ou até mesmo o incentivo prévio do ex-governador. Pelo Ibope, Hélio Costa mantém uma frente de 39 a 21 pontos. Em relação à pesquisa do Datafolha que antecedeu, Hélio Costa recuou 5% a Anastasia avançou outros tantos. Para presidente da República, em Minas, pelo Ibope, Dilma tem 35 contra 32 pontos de Serra. Uma dissidência em terras mineira é importantíssima, já que o estado é o segundo colégio eleitoral do país. E não é só. Refletirá em todo panorama político nacional.

Uma onda pode desencadear outra. Um elo se liga a outro e pode ensejar a formação de uma corrente. Antônio Anastasia, lutando pelo seu fortalecimento, enfraqueceu a posição do ex-governador paulista. Basta acentuar que na sabatina-entrevista à Folha de São Paulo, o chefe do executivo mineiro não tocou uma vez sequer no nome de Serra. Além disso, pouco antes de recorrer ao neologismo, tomou a iniciativa de condenar, antes que alguém o fizesse, uma possível investida dos tucanos contra Rousseff, com base em seu passado de luta armada contra o regime ditatorial de 64. Isso não interessa a pessoa alguma – frisou, acrescentando não ter sentido retornar a um passado do qual poucos se recordam. Foi nesse momento da sabatina que disparou o foguete dilmasia.

Não tenho idéia sobre a posição do ex-presidente Itamar Franco em relação à hipótese, já que o segundo colocado nas pesquisas para senador, treze pontos à frente do terceiro, Fernando Pimentel, está com José Serra. Aécio, que lidera disparado o páreo, atingindo 70 por cento das intenções de voto, tenho minhas dúvidas. São, creio, razoáveis. Sendo um dos dois primeiros nomes do PSDB no país, Aécio Neves não aceitou ser vice de Serra e não tem lá muitos motivos para desejar sua vitória. Ao contrário. Uma eleição de José Serra seria seu afastamento do quadro de sucessão presidencial por oito anos. Sim. Porque o ex-governador paulista tentaria a reeleição em 2014. E o outro quadro sucessório somente ocorrerá em 2018.

Para Aécio, no fundo da questão, é preferível aguardar quatro anos como senador do que ter de esperar um espaço de oito ano. Se em quatro anos, acontece muita coisa, que dirá no dobro do tempo? Política se faz a curto, ou no máximo, a médio prazo. A longo prazo, jamais. A longo prazo, o binóculo do destino perde seu foco. Política é assim. A própria vida humana também.

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