Ancelmo Gois e Herminio Belo acendem o Chão de Estrelas de novo

Pedro do Coutto

Na sua página tradicional de O Globo, edição de 17, Ancelmo Góis deu sequência a eleição informal que vem realizando junto a artistas para escolha do novo nome do Canecão. Vai reabrir em breve – informa o jornalista – agora sob total responsabilidade da UFRJ, aliás dona do prédio há muitos anos. O Canecão, casa de shows, começou a funcionar em 67 através de contrato, me parece, tanto de locação quanto de arrendamento. Mas este aspecto, no caso da arte, é secundário, a não ser para quem tem direito legítimo de receber os aluguéis.

O essencial é que, no dia 17 de fevereiro, data em que meu grande amigo José Aparecido de Oliveira, embaixador do cristianismo, completaria 80 anos, Ancelmo Góis publicou as opiniões de Hermínio Belo de Carvalho e da cantora Beth Carvalho. Esta sugeriu “Aplauso”. Mas, a meu ver, a do compositor parceiro de Paulinho da Viola é perfeita: “CHÃO DE ESTRELAS”.

Não poderia ser melhor, mais leve, mais expressivo, mais bonito, o toque que, no fundo, representa uma homenagem ao talento de Orestes Barbosa e o reconhecimento da eternidade de uma das mais belas canções da música popular brasileira. O antigo Canecão é, de fato, um chão de estrelas. Como em dimensão maior são também o Teatro Municipal do Rio, o Metropolitan de Nova Iorque, o Colón em Buenos Aires, o Scala de Milão, a majestosa Opera de Paris. São, todas estas casas, templos encantados pelos artistas que pisaram seus palcos e passaram por suas calçadas. Caruso, Benamino Gigli, Renata Tebaldi, Sarah Bernard,Lawrence Olivier, Nijinski, Ana Pavlova, Mario Del Mônaco, Margot Fonteyn, Paulo Autran, já se foram para a eternidade. Mas os chãos de estrelas brilham e aguardam para sempre os grandes artistas do presente e do futuro. Nunca deixaram de aparecer.

Confesso que a iniciativa de Ancelmo Góis e o título de Hermínio Carvalho me emocionaram e, a exemplo do que fez em sua notável coluna no Jornal do Brasil, em época passada, Carlos Castelo Branco, me deixei levar pela poesia para – repito o Castelinho – não dizer que não falei de flores. E que só me motivo pela política e pelas estatísticas econômicas, cujas fontes cito nominal e obrigatoriamente.

Outro dia um leitor desta coluna indagou onde eu colhia tantos números. Em várias origens. Todas elas invariavelmente citadas por mim. Considero falta de ética alguém abordar um tema a partir de qualquer autor ou fonte de pesquisa, sem informar a autoria ou a origem. Afinal de contas, sempre se escreve a partir de algo. Principalmente no jornalismo. Mas também na ficção.

Vejam só. A maior tragédia de amor produzida até hoje, Romeu e Julieta, de Shakespeare, é baseada em texto original de um jornalista italiano chamado Luigi de Comba, que relatou o episódio, texto original até hoje exposto na Casa de Cultura de Verona. Também chamada  CASA DE JULIETA, bem perto da praça em que aconteceu duelo de morte entre Teobaldo e Romeu. Comba escreveu em torno de 1600, poucos anos antes de Shakespeare receber uma cópia e dar à história sua magia dramática inigualável. Na pequena casa de Verona em que Romeu subindo por uma árvore entrava pela varanda estreita, existe também um chão de estrelas.

É assim a história, é assim a arte. São assim os artistas. Têm que se inspirar em algo e traduzir sentimentos. Como Manuel bandeira reconheceu em Orestes Barbosa o mais belo verso – disse ele – da língua portuguesa: TU PISAVAS EM ASTROS DISTRAIDA.  Ela e todos nós pisamos em astros distraídos. Chão de estrelas é o melhor nome para o Canecão, que ressurge das cinzas que o sopro do passado desfaz. Como no samba que compuseram Bide e Marçal.

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