Ao bater continência para Sarney, Bolsonaro indagou se Lula era amigo íntimo de Renan

Bolsonaro foi pedi a bênção ao velho cacique do MDB

Merval Pereira
O Globo

‘É verdade que o Renan é muito amigo do Lula?’, teria perguntado o presidente Bolsonaro ao ex-presidente José Sarney, para quem bateu continência na entrada e na saída, em respeito a quem, como ele é, já foi comandante em chefe das Forças Armadas.

A política brasileira segue “fulanizada”, o papel da aliança partidária quase sempre é substituído pelas relações pessoais, e aí aparece uma das fragilidades de Bolsonaro. Mesmo tendo ficado no Congresso por quase 30 anos, Bolsonaro não tem amigos na política, os seus estão em outras áreas, como a militar, com suas imbricações na vida civil, com ex-militares que se desviaram para a milícia.

RELAÇÕES LIMITADAS – O Centrão é uma base política multipartidária para Bolsonaro, mas não existe uma relação interpessoal desses neoaliados com ele, assim como não existia com o ex-presidente Lula no início de seu primeiro mandato. A aliança com o PMDB foi costurada pelo então todo-poderoso chefe do Gabinete Civil, José Dirceu, e prontamente rejeitada por Lula, que não queria peemedebistas em seu governo.

Coube ao tempo provar que Dirceu estava certo, e a aliança acabou saindo pela cooptação por meio do mensalão. A convivência estreitou essa relação, que foi eterna enquanto duraram os recursos do Caixa da União.

Rompido no governo Temer, depois do impeachment da então presidente Dilma, o Centrão custou a engrenar uma intimidade maior com Bolsonaro, cujo mote principal era acabar com a “velha política”.

NA VELHA POLÍTICA – Foi um lema autofágico, que acabou abandonado pela necessidade de defender-se e aos filhos de antigos hábitos da “velha política”, como rachadinhas, funcionários “fantasmas” e favores fisiológicos. O porto seguro foi o Centrão e sua tradição de fazer política a curto prazo. Mas surgiu Lula no caminho desse relacionamento tão frágil. Um velho amor que voltou a ter condições de oferecer expectativa de poder, que é do que vive o Centrão.

O presidente da Câmara, Arthur Lira, que um dia mostrou o cartão amarelo a Bolsonaro com palavras duras, usa hoje o mesmo tema, o combate desorganizado à pandemia, para desdenhar a CPI da Covid, que ele considera desnecessária.

O presidente da Câmara está querendo assumir o papel de grande apoiador do governo no Congresso. Defende a ideia de que a CPI da Covid está sendo superestimada e afirma que não colocará em pauta nenhum pedido de impeachment contra Bolsonaro.

DISPUTA DE PODER – Nada mais é do que uma disputa de poder com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, ambos eleitos com apoio do Palácio do Planalto, e com o senador Renan Calheiros, também de Alagoas, uma jogada política às vésperas da eleição.

A CPI tem um potencial brutal de atingir o governo. Pode até ser que não ela tenha nenhuma consequência, mas é quase inevitável que saia fragilizado.

Pacheco teve que abri-la por determinação do Supremo Tribunal Federal, e os Bolsonaros sentiram-se traídos. Lira aproveita o momento em que o pior inimigo parece a Bolsonaro ser o senador Renan Calheiros para tentar esvaziar a relatoria da CPI e ganhar o apoio de Bolsonaro na disputa eleitoral de Alagoas em 2022.

VICE DE LULA? – Calheiros, por seu lado, sonha com a vice de Lula na chapa da eleição presidencial, que não terá o General Mourão, que fica de regra três para acalmar os militares caso a CPI leve a um improvável, mas possível, impeachment de Bolsonaro.

A “fulanização” da política, que não agradava a Ulysses Guimarães, levou a que fosse criada a tese estapafúrdia de que o então juiz Moro prendeu Lula para impedir que ele derrotasse Bolsonaro na eleição de 2018, quando Moro e Bolsonaro nem sequer se conheciam.

Um encontro dos dois no saguão do Aeroporto Santos Dumont, no Rio, durante a campanha presidencial, serve bem de exemplo: Bolsonaro bateu continência a Moro, que o tratou com displicência. No futuro, se acaso Moro ou algum aliado seu for eleito para a Presidência da República, tudo mudará de novo, e dirão que o STF anulou as condenações de Lula para estimular sua candidatura à Presidência contra o próprio Moro, e Bolsonaro, que estimula seus seguidores a atacar o STF. A fulanização da política leva a essas teorias da conspiração, que são sempre certas quando coincidem com nossa opinião pessoal.

6 thoughts on “Ao bater continência para Sarney, Bolsonaro indagou se Lula era amigo íntimo de Renan

  1. O desesperado é como um náufrago: no afã de se salvar, até um porco-espinho serve-lhe de bóia!
    Conheço vários protestantes mascarados, candidatos, que, quando se aproximam as eleições, antes passam uma semana, em terreiros de magia negra!
    Essa escolha de Sarney não foi aleatória, não! O cacife dele ainda tem peso de ouro, no Judiciário e no Legislativo. Ademais, Jair Messias está de posse de todos os Órgãos de Controle e Repressão do Estado. Por outro lado, Sarney sabe que ele e sua camarilha têm pendências judiciais que, pela gravidade e se forem remexidas, levarão todos para o xadrez. O capo, especificamente, no mínimo, poderá ostentar uma tornozeleira.

  2. Que o cara não está preparado nem para ser coveiro em tempo de pandemia não há dúvida. Ele tem problema de idiotia e narcisismo conjugados.
    Sugere-se que nas próximas eleições se requeira exame psicológico dos candidatos e de dependência quimíca.

  3. Pela “efervescência” parece que este maldito pandemônio acabou e que já estamos em 2022. Não sei quem deu a partida de uma campanha que ainda tem mais de um ano para começar. Alianças firmadas hoje não duram nem até às festas de São João. A CPI do Covid nem bem começou, então existe muita coisa para ser dita e ouvida, aí saberemos quem venceu e quem pode perder, inclusive o mito pode sair vitorioso.

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