Ao contrário do perdão, previsão foi feita para não se dizer

Pedro do Coutto

Francamente, ao contrário do samba inesquecível de Ataulfo Alves, sucesso absoluto na voz de Orlando Silva, perdão foi feito para a gente pedir, mas previsão foi feita para não se dizer. Aliás, o ritmo das duas frases pode ser o mesmo, ou pelo menos parece. Porém nenhuma previsão se realizou até hoje, seja no Brasil, seja no mundo. Todas falharam.

Malthus, Marx, Einstein, Freud, gênios absolutos todos eles, no que se refere a momentos de suas vidas, não tiveram suas perspectivas de futuro confirmadas pelo tampo. Lord Chamberlain, primeiro ministro Britânico, em 1939, retornou a Londres no meio de intensa manifestação popular, exibindo a carta que recebera de Hitler dizendo que não haveria guerra. Quinze dias depois, a Alemanha nazista invadiu a Polônia. Chamberlain renunciou. Entrou Winston Churchill. Mas o episódio, vital para a humanidade, pertence ao passado, à História.

No presente, em nosso país, leio em O Globo de 28, terça-feira, reportagem de Cássia Almeida e Fabiana Ribeiro revelando que os economistas falharam em série quanto ao universo econômico brasileiro de 2010. Fizeram previsões e erraram em quase tudo. E olha que foram equipes superespecializadas da Consultoria Focus, do Banco Santander, da XP Corretora, do Banco do Sachain, a quem é vinculada grande empresa de cabos de transmissão de energia do país.

Calcularam o crescimento do PIB na escala de 5,2 e ele cresceu 7,5 ao longo de doze meses. Erro em torno de 50%. Estatisticamente muito alto. Projetaram em seus trabalhos uma inflação de 4,5 e ela fechou o exercício em 5,5. Equívoco de 21%. Estimaram um saldo na balança comercial (não confundir com balanço de pagamento) de 11,3 bilhões de dólares e ele atingiu 18,8 bilhões. Erro superior a 50%. Pensaram em déficit em transações correntes da ordem de 40,8 bilhões de dólares e ele atingiu 49,4. As exportações concluíram o ano com o recorde histórico de 197,9 bilhões de dólares. As importações também com o recorde de 179,1 bilhões de dólares.

Como então houve déficit nas transações correntes? É porque no balanço de pagamentos, ao lado da balança comercial, entram também as remessas de lucro para o exterior, os seguros das importações, o preço dos fretes, o Brasil é altamente deficitário em transporte marítimo, os juros dos empréstimos externos públicos e particulares, o déficit da conta turismo. Este em torno de 9 bilhões de dólares. Entram 8 bilhões de dólares, saem 17.

As previsões falharam mais uma vez no tempo. O comércio externo brasileiro não. Reside neste ponto  maior sucesso econômico, pouco divulgado do governo Lula. Não sei por quê. Em 2002, último ano de FHC, as exportações somaram 70 bilhões de dólares. As importações 68 bilhões. Quem duvidar, leia as estatísticas do Banco Central. No espaço de oito anos, as exportações atingiram um Himalaia de 197,9 bilhões de dólares (2,5 vezes mais) e as importações um Everest de 179,1 bilhões. Foi principalmente em função disso que o PIB cresceu muito, já que tanto as exportações quanto as importações, para efeito de cálculo econômico, incorporam-se à renda nacional. Que é sinônimo de PIB. O que a administração Lula fez com o saldo obtido é uma pergunta a ser respondida pelo ministro Guido Mantega.

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