Aos 80 anos, o mais jovem dos senadores

Carlos Chagas

Política tem dessas coisas: aos 80 anos de idade, Itamar Franco retorna ao Senado como o mais jovem dos senadores. Lançou-se de corpo inteiro na reforma política, como integrante da comissão encarregada de propor mudanças na legislação eleitoral e partidária. E começou sustentando aquilo que o país inteiro  exige, o fim do deletério princípio da reeleição com os candidatos a um segundo mandato no exercício do primeiro.

Para presidente da República, tanto o Lula quanto Fernando Henrique reelegeram-se, pois se tiraram o paletó para fazer campanha, mantiveram firme a caneta na mão. Assim, qualquer um se reelegeria,  ainda que como exceção um ou outro governador ou prefeito tenha quebrado a cara. Como regra, porém, o segundo mandato permanece como uma espécie de estelionato eleitoral.
                                                       
Quando governador de Minas, Itamar poderia facilmente ter conquistado a reeleição, mas recusou-se. Agora, no Senado, propõe a revisão do artigo constitucional imposto ao Congresso pelo sucessor que ajudou a eleger, sabe-se lá às custas de quantos milhões. O falecido Sergio Motta poderia detalhar a operação de compra e venda de votos, já que Fernando Henrique silencia até hoje.
                                                       
A sugestão do senador é ampliar-se o mandato dos presidentes, governadores e prefeitos para cinco, quem sabe até seis anos, sem direito à reeleição imediata. Ele também defende o financiamento público das campanhas e o fim do voto obrigatório. Está afiadíssimo nessa sua volta ao Senado, onde já tinha exercido dois mandatos de oito anos cada, até ocupar a presidência da República e o governo de Minas.
 
VAMOS PARAR DE COMPARAÇÕES? 
                                                         
As bobagens vem em ondas, como o mar. Quem primeiro provocou um tsunami foi Roberto Campos, quando  levantou a comparação do Brasil  com os “tigres” asiáticos. Bons, mesmo, eram a Coréia, Singapura, Hong-Kong, Japão e Malásia, porque estavam produzindo mais do que nós e ingressavam no mundo desenvolvido.  Se eles podiam, e o Brasil não, era por conta de nosso complexo de inferioridade, de nossas preocupações sociais, de modismos esquerdistas e da falta de mais capitalismo.

Esquecia-se, o genial reacionário, da impossibilidade de comparar quantidades distintas, a começar pelo tamanho. Aqueles pequeninos países, até cidadezinhas, tinham poucos problemas de alimentação, habitação e transportes, vivendo situações bem diversas da nossa.
                                                       
Os tigres pararam de berrar, alguns  viraram gatinhos, a moda agora é a China, cujo desenvolvimento, dizem os herdeiros de Roberto Campos, deve-se ao choque de capitalismo lá verificado a partir dos anos oitenta. Não é  bem assim. De um bilhão e trezentos milhões de chineses, foram  beneficiados  trezentos milhões, mas a usina geradora localiza-se no Ocidente.

Percebendo a capacidade do povo chinês de  sacrificar-se e procurar sobreviver em meio a dificuldades sem conta, e tendo em vista miseráveis salários lá vigentes, o que fizeram as multinacionais? Transferiram-se para a China,  autorizadas que foram para operar em certas áreas  litorâneas. Mão de obra quase escrava, abundante, somada à  capacidade dos desesperados, tudo começou a gerar  lucros impressionantes, uma parte deles investida no próprio país. Isso, mais um regime político ditatorial que proíbe a maciça   população do interior de chegar às ilhas de prosperidade no litoral, dá  a impressão de um paraíso universal.  Só que um bilhão de chineses logo  começarão  a perceber estarem servindo de massa de manobra para a minoria, mesmo imensa. Vão querer entrar no jogo.  Participar dos benefícios. Nessa hora, será melhor não comparar mais nada.
 
O DIA DA VERGONHA    
 
Por mais que se procure maquiar a decisão da Câmara dos Deputados, engolindo os 545 reais de salário mínimo impostos pelo governo,  o 16 de fevereiro de 2011 entra nos anais da crônica política como o Dia da Vergonha. Primeiro porque através de um golpe regimental, Suas Excelências foram dispensados de votar individualmente o projeto de lei do palácio do Planalto. Os 388 integrantes da base oficial, menos 15 dissidentes, não tiveram o dissabor de ver seus nomes no painel eletrônico como algozes do trabalhador. Adiantou pouco porque na votação dos projetos de 560 e de 600 reais, obrigaram-se a botar o pescoço de fora.
                                                       
Três motivações  levaram a maioria da Câmara a tripudiar sobre 50 milhões de trabalhadores: medo das represálias de Dilma Rousseff; malandragem para continuarem aguardando nomeações e benesses;  e desprezo total por quantos precisam sobreviver com o salário mínimo.
                                                       
O espetáculo  encenado no plenário por mais de dez horas revelou episódios que teriam sido cômicos senão fossem trágicos. O PT, ex-Partido dos Trabalhadores, votou integralmente pela merreca, enquanto PSDB e  DEM  arvoraram-se em defensores dos menos favorecidos. O PTB, ex-trabalhista, deu o seu vexame, dividindo-se apenas o PDT.

Foi duro assistir o Vicentinho, ex-presidente da CUT, sustentar o arrocho combatido por Ronaldo Caiado. Quem tivesse passado algum tempo fora do país e chegasse na hora da sessão teria a sensação de estar embriagado,  com a inversão dos  valores tradicionais da vida partidária.  Aliás, a CUT também fica devendo, por falta total de mobilização. 
                                                       
Algum deputado governista chegou a  enfrentar dor de consciência, imaginando como seria se precisasse sustentar-se, e à sua família, com 545 reais por mês? Claro que não, desconhecendo todos o texto constitucional sobre o salário mínimo, que  deve bastar para o trabalhador enfrentar despesas com alimentação, habitação, vestuário, transportes, educação, saúde e até lazer.
                                                       
Dos 15 governistas que votaram contra o governo, pinçam-se os nomes de Paulo Maluf, Miro Teixeira, Arnaldo Faria de Sá, Paulinho Pereira da Silva e Jair Bolsonaro. Nenhum deles tinha a pretensão de indicar diretores de empresas estatais…
 
NO SENADO
 
Quarta-feira, 23, o Senado consumará a ignomínia dos 545 reais de salário mínimo. A maioria governista é ainda maior entre os senadores, valendo apenas arriscar suposições sobre quantos votarão contra,  pertencendo a partidos que apóiam o governo. Provavelmente Pedro Simon,  Roberto Requião,  Jarbas Vasconcelos, Luís Henrique, Paulo Paim e Ana Amélia marcarão posição,  nada terão  a perder em matéria de nomeações.
                                                       
PSDB, DEM, PPS  e PSOL prometem discursos candentes em favor dos trabalhadores…

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