Apelo a Sua Santidade, o papa Francisco

Cristovam Buarque

Minha geração já assistiu a diversos milagres políticos. Um deles foi o desmonte do socialismo real no Leste Europeu, que provavelmente não teria ocorrido, naquele momento, se não fosse a liderança moral do papa João Paulo II. Com seu sentimento polonês, ele teve papel fundamental no despertar da necessidade das mudanças que as forças sociais empurravam nos países daquela área.

Nesses dias, o milagre foi a retomada das relações diplomáticas entre dois povos que viviam como inimigos a poucos quilômetros de distância, sem que um conseguisse vencer o outro. Nem os Estados Unidos estrangularam Cuba pelo uso do poder econômico, nem Cuba estrangulou os EUA com guerrilhas na América Latina.

O reatamento das relações diplomáticas entre EUA e Cuba, que um dia ocorreria pela pressão das forças sociais nos dois países, não teria acontecido agora sem a ousadia tanto do presidente Barack Obama quanto do presidente Raúl Castro, e sem, sobretudo, a força moral, aliada ao sentimento latino-americano, de Sua Santidade.

O mundo inteiro reconhece o papel de Sua Santidade na quebra do impasse de cinco décadas entre os dois países. Mesmo com a força política dos dois presidentes, as forças sociais não definiriam o momento; poderiam ficar represadas por outras décadas, até que um gesto as despertassem.

E NO BRASIL?

No Brasil, passamos por isso. A desigualdade que nos envergonha, a violência que nos mata, a corrupção que nos rouba recursos, a ineficiência que nos estrangula. Tudo isso pressiona para que algo ocorra e permita nosso salto para uma sociedade eficiente e harmônica. Sabemos o que é preciso fazer, sabemos como fazer, temos os recursos para isso, falta que as lideranças políticas se indignem, colocando a moral à frente da política, e a política tomando decisões decentes quanto ao uso dos recursos dos quais dispomos.

Mas parece que internamente não estamos conseguindo esse despertar. Agimos barrando a vontade das forças sociais, e não a favor delas.

Precisamos reatar as relações entre nossas classes sociais. E o caminho é colocar todas as nossas crianças em escolas com qualidade e com a mesma qualidade: os filhos dos pobres em escolas tão boas quanto as escolas dos filhos dos ricos. As forças sociais buscam isso, na ânsia de fazer com que o Brasil seja um país eficiente, justo, decente e com liberdade individual plena. Mas a política não se sensibiliza.

REATAMENTO SOCIAL

Aparentemente, há um divórcio entre a ansiedade das forças sociais, querendo um país melhor no futuro, e o comodismo das forças políticas, que querem apenas administrar improvisadamente o presente. Por isso, meu apelo a Sua Santidade: escreva aos líderes políticos brasileiros, do governo e da oposição, como fez para os líderes de Cuba e dos EUA, e fale da necessidade do reatamento social. Talvez Sua Santidade consiga nos despertar, como fez com os presidentes Obama e Castro.

O Ano Novo é um bom momento para isso.

4 thoughts on “Apelo a Sua Santidade, o papa Francisco

  1. Gostei do texto, mas o capitalismo selvagem neoliberal reinante em plagas brasileiras impede este diálogo social. Estamos na era do “selfie”, somos tb um povo que adora “ler” celulares (nada contra a tecnologia). A cultura humanista foi para o espaço; a curto prazo, dificilmente nossa sociedade vai presenciar autoridades respeitando as massas e vice-versa… eu gostaria de estar errado… mas nem tão cedo isso melhora ante os egoísmos e vaidades avassaladores. Se “todo poder emana do povo” então o povo é o patrão, autoridades e parlamentares são empregados, mas o povo não tem consciência disso e as classes dominantes (incluindo aí os congressistas, ministros e afins) fazem de tudo para que continuemos povão “deitado eternamente em berço esplêndido”.

  2. “E NO BRASIL?

    No Brasil, passamos por isso. A desigualdade que nos envergonha, a violência que nos mata, a corrupção que nos rouba recursos, a ineficiência que nos estrangula. Tudo isso pressiona para que algo ocorra e permita nosso salto para uma sociedade eficiente e harmônica. Sabemos o que é preciso fazer, sabemos como fazer, temos os recursos para isso, falta que as lideranças políticas se indignem, colocando a moral à frente da política, e a política tomando decisões decentes quanto ao uso dos recursos dos quais dispomos.
    Mas parece que internamente não estamos conseguindo esse despertar. Agimos barrando a vontade das forças sociais, e não a favor delas.
    Precisamos reatar as relações entre nossas classes sociais. E o caminho é colocar todas as nossas crianças em escolas com qualidade e com a mesma qualidade: os filhos dos pobres em escolas tão boas quanto as escolas dos filhos dos ricos. As forças sociais buscam isso, na ânsia de fazer com que o Brasil seja um país eficiente, justo, decente e com liberdade individual plena. Mas a política não se sensibiliza.”

    -Ora, senador…
    A causa de todas essas mazelas é a classe política da qual o senhor faz parte.
    Todas essas omissões que o senhor relatou faz parte das obrigações dos nossos homens públicos. Os senhores são pagos para isso.
    Ou teremos que pagar os 35% de imposto que já pagamos e outros 35% “por fora” para que o senhores façam o que deveria fazer por obrigação?

    Outra coisa:
    Quando o senhor usar o pronome “nós”, queira usar também a palavra “políticos” na frente, entre vírgulas: “-Nós, políticos, …” e não queira colocar quem já está escorchado de tanto carregar este país nas costas no mesmo balaio que os nossos dirigentes ladrões, ao conjugar os verbos na primeira pessoa do plural.

    Abraços.

  3. O senador até que elaborou uma teia que faz sentido…
    Pela ótica tupiniquim, o senhor Francisco Vieira, complementou a questão, muito bem.

    Sei não…
    No fundo e no raso, imagino que Francisco, o Papa, só está querendo a paz para o mundo.
    Mas, mesmo com todo mundo dizendo querer o mesmo, está parecendo que é uma missão complicada, para não dizer impossível…

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