Aprenda como o governo manipula os números do desemprego

Wagner Pires

Ao divulgar a taxa de desocupação, excluindo no seu cômputo as pessoas que não estão procurando emprego e as que estão recebendo o Seguro Desemprego, o IBGE induz o usuário da informação a um erro de compreensão, de julgamento.

Presta assim um desserviço à sociedade brasileira que deve observar, em verdade, outra informação dada pelo órgão – o nível de ocupação – que leva em consideração toda a população em idade de trabalhar, isto é, de 14 anos acima.

No caso do seguro, é possível observar a distorção causada na estatística, observando a correlação entre a redução da taxa de desemprego e o aumento do Seguro Desemprego com o passar do tempo.

Em 2000 (governo FHC) havia 12 milhões de desempregados e pagou-se R$ 4 bilhões; em 2004, primeiro ano do governo Lula, eram 11,4 milhões de desocupados e o seguro chegava a R$ 7,2 bilhões; em 2010, último ano de Lula, eram 6,7 milhões de desempregados e o Seguro Desemprego subira para R$ 20,4 bilhões; e em 2012, terceiro ano de Dilma, eram 5,4 milhões de desocupados, mas o seguro aumentara para R$ 31,9 bilhões.

SEGURO-DESEMPREGO

Quanto maior é o volume de Seguro Desemprego pago pela União, menores são os números para a taxa de desempregados, já que, estatisticamente, os que recebem o benefício do Seguro Desemprego não são computados como desocupados pelo IBGE.

Analisando-se a taxa de desemprego e o volume pago em Seguro Desemprego, chega-se a um elevado índice de correlação (de -0,96%), que é negativo, na medida em que se percebe que, com o aumento do volume pago do Seguro Desemprego, há diminuição da taxa de desocupação. Como o governo vem aumentando o total pago a título de Seguro Desemprego, essa sistemática reproduz uma subavaliação da taxa de desocupação do mercado de trabalho.

A não contabilização dos segurados na estatística dos desocupados acarreta uma falsa melhora nos índices de desocupação do mercado de trabalho. E tal fato tem servido mais à propaganda de governo do que para indicar caminhos alternativos para a expansão efetiva dos postos de trabalho.

CAMUFLAGEM

A não contabilização de quem está recebendo Seguro Desemprego ajuda a camuflar a incompetência do governo na condução de sua política econômica, que se traduz em menor produtividade, menor competitividade e na desindustrialização da economia nacional. Estes fatos têm contribuído para aumentar o número de trabalhadores desocupados e dependentes do Seguro Desemprego, o que vai de encontro à estatística oficial.

Mas, isto não é tudo. Para engrossar os números em favor do governo, existe um contingente enorme de pessoas dentro da população que está em idade de trabalhar, mas que não está trabalhando e não está recebendo o Seguro Desemprego, mas, mesmo assim, não é contabilizado como desempregado, já que tanto a Pesquisa Mensal de Emprego como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNDA), produzidas pelo IBGE, o desconsideram, simplesmente pelo fato dessa massa de pessoas, da ordem de 63 milhões de brasileiros, não estar à procura de emprego.

TAXA FRAUDADA

O último levantamento da PNAD, no segundo trimestre de 2014, apontou em 6,8% o índice de desemprego. Esta é a taxa oficial, que desconsidera todo o contingente de cidadãos que não estão à procura de emprego ou que estão recebendo Seguro Desemprego. Enquanto isso, a taxa de ocupação – utilizando os dados da própria pesquisa – não passou de 56,9%, no mesmo período.

Ora, se a taxa de ocupação da população em idade de trabalhar, isto é, de 14 anos acima, é de 56,9%, efetivamente a de desocupação é de 43,1%. A propósito, a nossa população em idade de trabalhar é formada por 161 milhões de brasileiros, segundo o IBGE.

Por isso, da próxima vez que o IBGE divulgar os números da PNAD, duvide da taxa de desemprego divulgada, e faça a contraprova com a taxa de ocupação que o órgão disponibilizar. Fazendo isso, pode-se chegar a um valor mais aproximado para o índice de desocupação da população brasileira em idade de trabalhar.

E, por favor, não deem atenção à taxa de desocupação dada pela pesquisa mensal de emprego. Aí o erro é maior ainda!

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Essa sistemática, que considera empregado aquele que desistiu de procurar emprego, foi criada em 2002 pelo governo FHC, que também era chegado a uma maquiagem de estatísticas. Como se dizia antigamente, a estatística é a ciência em que você tortura os números até que eles confessem o que você pretende demonstrar. (C.N.)

 

9 thoughts on “Aprenda como o governo manipula os números do desemprego

  1. A frase de Carlos Newton,na nota da redação do blog,vale por um artigo:

    “A estatística é a ciência em que você tortura os números até que eles confessem o que você pretende demonstrar”.

    • Seja bem-vindo, Carlo Germani, já tinha lido seu comentário anterior. Sua presença é indispensável, porque este blog só existe devido à sua participação. Você lutou para manter a Tribuna na internet, num momento em que eu estava muito desanimado e ia interromper a publicação.

      Vamos em frente, juntos, como antes e sempre.

      CN

      • Obrigado,Carlos Newton.Se estou de volta é porque os valores pessoais estão acima das divergências ideológicas.Você,Carlos Newton,é um lutador incansável e no mundo
        de hoje,é como “ararinha-azul”,uma espécie em extinção.Abraço,Germani.

  2. Justo o CN ao relembrar que a maquiagem não é de hoje, mas queimou uma ciência que não é culpada pelas distorções em seu uso. Afinal, se o chefe quer que 5 + 3 = 6, assim será e a aritmética nada tem a ver com isso.
    A propósito, acabei de ver um trecho de uma entrevista com o falecido Adib Jatene (não sei por que nada dele se falou neste blog) em que lhe perguntam qual era a razão de se preocupar com o orçamento destinado à saúde ao invés da própria saúde. Resposta: “Porque quem tem que fazer isso não o faz”. Direto, forte, rasteiro, no canto.

  3. Gostaria de saber se os presidiários e detentos entram no cálculo da taxa de desemprego? Porque o que está havendo por todo o Brasil, em todos os estados, é o aumento de construções de presídios, e todos estão superlotados em média de 300 a 800 presos, tem presidio que comporta mais de 1000 presos.
    Acho que o governo anda enchendo os presídios para que os índices de desemprego caiam, esta forma é a mais verdadeira forma de mascaração de números que ocorre. Ou seja, estar preso não é estar desempregado para o governo? Mas gnt se houvesse empregos bons e a vontade não ia ter tanta gente presa neh? Falta emprego sim, e muito, se soltar todo mundo que está preso, o índice de desemprego vai as alturas. O bang-bang que já está instaurado, vai aumentar, alguém matando o outro só para tomar o emprego. Ai o ciclo de mascaração continua, porque quem morre não entra no índice de desemprego também.

    • Concordo com o sentido lógico da sua opinião. Contudo a população carcerária que, salvo engano, não passa de 500 mil presidiários, não arranharia a estatística do governo, ainda que fosse englobada no cômputo da população ocupada.

      É como a estatística do trabalho infantil, pois, ainda que execrável, estatisticamente é insignificante, computando algo em torno de 200 mil.

      Grande abraço!

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