Arruda pode ser julgado quinta-feira. Mas absolvido ou condenado, (perde por 10 a 0 ou 10 a 1), quem estará no banco dos réus será a própria capital. SEM DEFESA.

É possível mas não garantido, que o governador “licenciado” de Brasília seja julgado quinta-feira. Mas pode haver adiamento, pedido de vista, a questão não é simples. E além da prisão (preventiva, não nos esqueçamos) existem outros complicadores.

Brasília está numa situação única e inédita em matéria de política. Tem um governador, Arruda, preso, mas demonstrando que não quer sair do jogo, antes, pediu LICENÇA.

Foi substituído por um amigo, sócio e parceiro, Paulo Octavio, que disse, “não quero assumir”, mas assumiu. Depois, mentiu sobre a conversa com Lula, RENUNCIOU, DESRENUNCIOU, continua no cargo.

Pela regulamentação feita pela Constituinte de 1945, ficou estabelecida a linha sucessória. Depois do presidente assume o vice, o presidente da Câmara, do Senado, presidente do Supremo. Nos Estados (e em Brasília) vigora a mesma ordem, só com menos um sucessor, do Legislativo, pois em Brasília, há apenas um representante desse Poder.

Por enquanto, o Poder sucessório “parou” em Paulo Octavio. Ele tenta salvar seus negócios pessoais, defendendo os interesses criados. Quando disse, “a maioria de Brasília me apóia”, são os representantes que movimentam os “bunkeres” financeiros da capital. Se conseguirem ligar o pessoal, particular e privado ao que a população espera, Paulo Octavio fica no cargo, até quando não se sabe.

Se não aguentar, e tiver que sair, o substituto SERIA (o condicional é importantíssimo) o presidente da Assembléia Distrital. Mas são tão desmoralizados os 24 deputados, que nenhum deles, esteja ou não esteja na presidência, não assumirá.

(Proporcionalmente, desses 24, apenas 5 por cento não são comprometidos, ou seja, 1,2 por cento. O que estatisticamente, dá 1 deputado e um quinto de outro).

Aí então, a vez é do presidente do Tribunal de Justiça de Brasília. Para tumultuar ainda mais as coisas, o Tribunal está em fase de transição. O desembargador presidente acabou o mandato, foi eleito outro, mas que ainda não tomou posse.

De qualquer maneira essa linha sucessória não é o mais difícil de resolver. Embora seja inadequado e nada aconselhável dizer, “Brasília não tem solução”, será ainda mais tumultuado, complicado e insensato, acreditar: “Resolveremos tudo com a INTERVENÇÃO”. E cada vez mais personalidades admitem que é por aí que se resolverá tudo ou alguma coisa. Não é.

A reconstrução de uma capital aceitável, habitável e defensável, teria que começar no dia 1º de fevereiro de 1956, 24 horas depois da posse, quando Juscelino começou a transportar a cidade, da sua imaginação para o território simplesmente imaginário. Como isso não existe, como a imaginação e o imaginário não se fundem nem se completam, o que surgiu foi a imagem deturpada, deslocada, desambientada, desvirtuada, deteriorada, de uma cidade que surgiu desencaminhada, ou melhor, encaminhada para o privilégio, o favoritismo, a mordomia, a facilidade, a concessão, o “chamamento” para que todos gozem igualmente das fábulas de benefícios que seriam despejados naquele deserto onde enterrariam a capital que ainda nem nascera.

Brasília não foi construída, foi seduzida.

Na campanha, (e depois em 30 dias de viagem pelo mundo com ele eleito e ainda não empossado), convivi o suficiente com Juscelino para compreender que o futuro presidente não era uma poderosa inteligência, mas tinha uma esperteza que inseminaria em todos que herdariam a sua criação.

(Durante a campanha me fartei de entregar discursos a JK, escritos por Alvaro Lins, Augusto Frederico Schmidt e este repórter. Tudo se repetia. Juscelino dava uma olhada, colocava no bolso e falava de improviso. Nunca fez um grande discurso).

A não ser uma vez, em Jacarepaguá, na Escola Sousa Marques, hoje Universidade do mesmo nome. Entreguei a ele um discurso escrito pelo grande poeta que era Schmidt, que tinha a frase que o fascinou: “Deus poupou-me o sentimento do medo”. Juscelino se agarrou à frase, que era a súmula e a síntese do que acontecia naquele ano trágico, dramático e fascinante que foi 1955.

Não há nada melhor do que uma campanha eleitoral. E para Presidente da República. Eu sou “abençoado”, participei de duas, com a liberdade e a convicção de que podia romper com o vencedor, imediatamente. O que fiz sem remorso, lamento ou arrependimento. Durante a campanha, nunca fomos a Brasília, ali só existia aquele assombroso e assombrado deserto, que depois, nominalmente, passaria a se chamar de Brasília.

Esse deserto gerou duas ideias. Uma rigorosamente SALVADORA, que surgiu da cabeça de Lucio Costa. A outra DESTRUIDORA, que veio da obsessão de Juscelino, que plantaria a cidade contaminada, contaminação que só seria constatada mas contestada, 54 anos mais tarde.

Da cabeça de Lucio Costa jorrou a ideia que se transformaria no lago. Sem este a cidade morreria antes mesmo de habitá-la. Juscelino, diante da imensidão daquele deserto, teve uma ideia não tão nobre nem tão desprendida, mas que para ele foi a VISÃO DA REALIZAÇÃO: se distribuísse aquelas terras, e juntasse outros privilégios, poderia transportar para a ambição de tantos o que era apenas um ato e um fato insensato.

Diante disso, Juscelino criou a NOVACAP. Se alguém tem que ser culpado pela capital que jamais existirá, esse alguém é Juscelino Kubtischek. Se algum órgão tem que ser responsabilizado pela CORRUPÇÃO QUE NASCIA E SE INSTITUCIONALIZAVA, não se percam nem percam tempo: é a NOVACAP.

Não há possibilidade de criar, recriar, destruir, reconstruir, salvar ou abandonar Brasília, pela razão muito simples, de que ela nasceu e cresceu sem nome ou sobrenome. Portanto, temos que conviver com uma capital que não deveria ter surgido de maneira alguma, e que tenta viver dos escombros da própria maldição, e da saudade da capital antiga mas não substituída.

 ***

PS – Enquanto deixo o resto para outros episódios ou oportunidades, façam o seguinte. Abandonem o 21 de abril que vem por aí, não finjam comemorar esses 50 anos que só estão marcados no calendário.

PS2 – Se quiserem alguma solução, plantar uma nova cidade, que sirva às centenas de milhares de cidadãos-contribuintes-eleitores, que pagam pelo crime que não cometeram, se fixem no 1º de fevereiro de 1956. Até 21 de abril de 1960.

PS3 – A catástrofe teve início aí. Já devem estar todos mortos, pelo menos da primeira geração. Mas os Arruda, os Roriz, os Paulo Octavio, os Argello, todos que enriqueceram e empobreceram a capital do futuro, têm que ser extirpados.

     

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *