As aventuras do gângster Murdoch, que se tornou o maior dono de jornais do mundo, e a morte do Jornal do Brasil (que não foi causada pela internet)

Helena Martins:
“Um dos homens poderosos do que se chama de empresário jornalístico, chegou da Austrália como dono de um mísero jornalzinho, dominou o mundos de jornais impressos, rádios, televisão aberta e por assinatura, é invencível. Como conseguiu isso? Você, é evidente, sabe de quem estou falando”.

Comentário de Helio Fernandes:
Só pode ser o gângster maior, Rupert Murdoch. Isso que você citou, rigorosamente verdadeiro. E também totalmente vitorioso. Começou a emergir a partir de 1985, portanto 25 anos, quando comprou um jornal no interior dos EUA. Não parou mais, só que nenhuma explicação.

Há 8 anos, por volta de 2002, comprou a DirecTV, nos EUA, pagando 27 BILHÕES de dólares. (Ainda não chegara a Era do TRILHÃO). E cumpriu as rígidas regras impostas, dava o “sinal” de graça, para localidades sem poder aquisitivo, que somavam 300 mil pessoas.

Apesar do preço, foi um negócio que não podia dar errado. Televisão aberta ou por assinatura depende da programação e da capacidade de comercialização, ninguém quer saber quem é o dono, como acontece com jornais e revistas.

A primeira grande operação audaciosa que pretendeu fazer, foi a compra do “New York Times”. Ele mesmo retrocedeu, não tinha (e continua não tendo) caráter, escrúpulos, dignidade, mas possui a enorme sensibilidade. Quando o seu emissário conversou com o porta-voz do jornal, recebeu a resposta: “Não queremos vender nada, mas começando em 10 BILHÕES DE DÓLARES, podemos conversar”.

Viu então, que quando soubessem que o “New York Times” passara a ser dele, seria uma catástrofe financeira. E sai comprando outros jornais, no EUA e em outros países. Decidido a penetrar no alto mundo jornalístico, planejou e executou o que ninguém imaginava: comprou o “Wall Street Journal”, que representava para as Bolsas, para os negócios, para a Economia e as Finanças, o que o “Times” representava no geral. Assombro, mas nenhuma restrição visível.

Permaneceu desconhecido, (principalmente pela “elite”, o que lhe interessava) não era recebido nem temido, mesmo constrangido continuou. E mais ou menos há 6 meses, deu entrevista até lógica e de certa maneira lúcida. Que deveria ter grande repercussão, só não conseguiu porque vinha com o carimbo do seu nome desprestigiado.

O que ele disse, sintetizado.

1 – “A internet começou toda errada”.

2 – “Deveria ser paga, não seria a bagunça na qual se transformou”.

3 – “Dentro de algum tempo, vou lançar um completo jornal diário pela internet, pago, mas pela metade do preço da banca.

4 – “A excessiva liberdade da internet, acabará por provocar uma forma de censura”.

5 – “Não sei como será feita, mas haverá. Se tivesse iniciado com pagamento, como o jornal que entregarei aos internautas, não haveria esse risco”.

***

PS – Esse Murdoch é o maior proprietário de órgãos de comunicação, mas não conhece a “1ª Emenda”.

PS2 – É um defensor intrépido da Liberdade de Imprensa, só que com todas as aspas possíveis e imagináveis. Mas também não é o ÚNICO. Não sei a razão de ser tão desprezado pelos COMPANHEIROS DE PROFISSÃO.

Antigamente, o cidadão
comprava vários jornais

Custódio: “Com o fim da edição impressa do JB e com a crise que atinge vários jornais internacionais, pode ser dito que a tendência é acabar ou pelo menos restringir a venda de jornais em banca? Você lembrou que o Rio já teve 18 jornais”.

Comentário de Helio Fernandes:

Não foi a internet que atingiu os jornais impressos. Diminuiu a compra, mas não vai acabar com eles. Os fatores são vários. 1 – Antigamente o cidadão comprava 3 e até 4 jornais por dias, hoje quase não tem tempo para ler um,

2 – Os jornais tinham 16, 24 ou no máximo 32 páginas, dava para diversificar. 3 – Hoje têm no mínimo 100 páginas, e às vezes mais. 4 – Um exemplo: antes da Segunda Guerra Mundial, o “Jornal dos Sports” era absoluto e continuou por muito tempo.

5 – Os jornais “tinham uma página de esportes, ou uma seção de esportes, a mesma coisa”.

6 – Quando os jornais cresceram em número de páginas, o “Jornal dos Sports” foi sendo atingido. E a partir de determinado momento, todos passaram a ter Cadernos especializados, o “Jornal dos Sports” desapareceu. Não é lamento, tristeza, saudosismo, mas seu proprietário, Mario Filho, foi um dos maiores jornalistas brasileiros.

7 – Entre os 18 jornais que havia no Rio, (que destaquei e você citou) os mais importantes, lidíssimos, e de maior prestígio eram matutinos. “Correio da Manhã”, “Diário de Notícias”, “Diário Carioca”, “O Jornal” (órgão líder associado), morreram antes do aparecimento da internet.

8 – Eles saíam à meia noite, os vespertinos ao meio dia. Isso durou até 1966. Com o engarrafamento do trânsito, era impossível começar a distribuir jornal ao meio dia. Os vespertinos não circulavam aos domingos, os matutinos não saíam às segundas-feiras.

(Por causa desse funcionamento dos jornais aos domingos e segundas-feiras, Lacerda, já inimigo de Golbery (chefe do SNI), fez a seguinte piada que levou, o espião-mor ao desespero: “No fim de semana, o chefe do SNI não sabe de nada, porque não consegue ler jornais”).

Também muito antes, o “Estado de S. Paulo”, matutino, decidiu lançar um vespertino, “Jornal da Tarde”, para ser distribuído depois da 16 horas, na periferia, chegava às 17 horas. Foi a segunda grande crise do jornal. Durou anos, quase a falência, solução que continua até hoje: o vespertino e o matutino saem juntos, distribuídos da mesma forma e à mesma hora.

***

PS – Para terminar, o assunto é vasto e importantíssimo, os jornais internacionais. O mais atingido foi o “The New York Times”. A razão? Todos têm blogs, sites, publicam mais cedo, o que imprimirão e distribuirão mais tarde.

PS2 – A publicidade no impresso, diminuiu, mas todos conseguiram transferir para os sites, o que perderam. O “Times” perdeu para ele mesmo. A publicidade diminuiu no impresso, e não foi o mínimo dos mínimos, para a internet.

PS3 – Daí as dívidas astronômicas, a venda de “BLOCOS” de ações para aventureiros da lista de RIQUÍSSIMOS da “Fortune” e da “Forbes”.

PS4 – Mas não perderão o controle, nos EUA existe a Golden Share, com a qual o maior acionista controla tudo. Estão tentando capitalizar os sites, acabarão conseguindo.

Não foi a internet que
matou o Jornal do Brasil

Guilherme Corrêa: “Helio, gostaria que você escrevesse sobre a lenta agonia do Jornal do Brasil (JB). Já teve rádio e queria TV, hoje deve 100 milhões de reais. Quando o jornal mudou para o formato tablóide, com impressão mal feita e conteúdo fraco, percebi que o JB jamais seria o mesmo. O jornal O Dia segue o mesmo caminho”.

Comentário de Helio Fernandes:
Uma lástima pelo passado, mas já não existia há muito tempo. Você teve uma boa intuição, mas a morte não veio embrulhada no tablóide. O jornal saiu em 1891. Quando fez 100 anos, (lógico, em 1991), Barbosa Lima Sobrinho, que escrevia no jornal há mais de 50 anos, muito justamente decidiu homenagear esses 100 anos.

Não conseguimos sair da sua sala, éramos tão poucos que no plenário, surpresa lastimável. (Eu fui conselheiro da ABI durante 18 anos, meu compromisso com o Doutor Barbosa era ficar com ele, enquanto ele fosse presidente. Era a razão de estar ali).

O jornal foi realmente importante. No mundo inteiro, nenhum teve ao mesmo tempo, como Redator-Chefe, (editor, só a partir dos anos 50) Rui Barbosa, (o maior brasileiro vivo) e Joaquim Nabuco, (o estadista da República) que não emprestavam apenas o nome, davam expediente diário.

E mais tarde, teve outro Redator-Chefe, nomeado para o Supremo Tribunal Federal. Qual o jornal que poderia ostentar essas identificações?

Riquíssimos, esbanjavam dinheiro. Desde 1908 ou 1909, funcionavam na Avenida Rio Branco, 110. Como nunca houve revisão de numeração, ficou lá uma redação ótima, simpaticíssima, até o início dos anos 80, quando resolveram mudar. Não apenas de local, mas também de ritmo jornalístico. Construíram então, no início da Avenida Brasil, o que desde logo, passou a ser conhecido como ELEFANTE BRANCO. E era mesmo, o Jornal do Brasil foi enterrado ali.

***

PS – Jogaram fora o dinheiro que tinham (fortuna) e levaram a ideia até o fim. A partir de 1985 ou 1986 funcionava ali. O espaço edificado era tão grande que vai funcionar ali, um Centro de Traumatologia, o maior da América Latina.

PS2 – Foi aí afundando, financeira e jornalisticamente. Abusando do prestígio antigo, foi “tomando” dinheiro de bancos e outros órgãos, ninguém resiste a isso.

PS3 – O JB, é outro cuja morte não foi provocada pela internet, mas vai se refugiar nela para tentar manter a sobrevivência.

PS4 – “O Dia” está sendo negociado com um grupo português, que já lançou um jornal de economia, em São Paulo. José Dirceu é um bom intermediário, principalmente usando os formidáveis contatos que acumulou no governo, como “Chefe da Casa Civil”, e primeiro personagem dessa Era.

PS5 – “O Dia” também não foi derrotado pela internet, o público que compra o jornal, não acessa a tecnologia moderna.

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