As bibliotecas como solução para as termoelétricas

Carlos Chagas

Durante a expansão árabe, quando o general Ibn-El-Abbas cercou Alexandria, hesitou sobre a ordem de destruir tudo, como vinha fazendo em outras cidades. Afinal, a então considerada capital do mundo estava plena de palácios, jardins, prédios públicos e a mais espetacular biblioteca jamais reunida no planeta. Até originais de Homero encontravam-se em suas prateleiras, se é que Homero existiu.

Para não arcar sozinho com a responsabilidade, o general mandou consultar o califa, em Bagdá, sobre o que fazer com aquela riqueza excepcional. Veio a resposta: “Se todos esses escritos concordam com o Al-Corão, são supérfluos e devem ser destruídos. Se discordam, são perniciosos e precisam ser queimados”.

Diz a lenda que durante meses as termas de Alexandria deixaram de ser alimentadas com carvão, substituído pelas centenas de milhares de papiros que a intolerância humana transformou em fumaça e em água quente.

Recorda-se o episódio por conta do argumento da equipe energética do governo, que diante da acentuada queda no nível dos reservatórios das usinas hidrelétricas, acaba de recomendar a utilização das termoelétricas. Elas são movidas a óleo diesel, em vez de carvão, mas nem por isso, ou por isso mesmo, somos levados a imaginar estarmos em Alexandria. Não tem limites o mal causado ao meio ambiente por conta dessa alternativa, lembrando-se que no Antigo Egito, pelo menos, a biblioteca queimada não gerou igual quantidade de gás carbônico.

Assim, ninguém duvide se aparecer um tecnocrata sugerindo que em vez de óleo diesel, nossas termoelétricas venham a ser alimentadas com o acervo da Biblioteca Nacional e congêneres. Estaria protegida a camada de ozônio e liberado espaço público hoje muito pouco frequentado no Rio de Janeiro, por conta da infiltração, do pouco ou nenhum cuidado com livros e documentos lá mantidos e até pelo não funcionamento dos aparelhos de ar refrigerado.

Espera-se que não passe pela cabeça de ninguém incluir na fogueira a preciosa biblioteca do palácio do Planalto, reunida por Juscelino Kubitschek e há muitos anos coberta de poeira, pelo desuso total dos inquilinos da residência oficial.

MÚLTIPLO USO?

Uma das grandes dúvidas a perturbar uns poucos parlamentares ainda afetos a utilizar a inteligência no exercício de seus mandatos, refere-se a o que fazer com os faraônicos estádios de futebol em vias de conclusão para a Copa das Confederações e a Copa do Mundo de 2014. Bilhões tem sido gastos, sem falar em desvios e comissões de diversos matizes, mas quando as competições terminarem, fazer o quê com a maioria dos estádios? Talvez no Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre ainda haverá uma certa freqüência popular quando partidas importantes forem disputadas. A maioria, porém, ficará às moscas.

Quando encomendou o Sambódromo a Oscar Niemeyer, Leonel Brizola sugeriu que durante o ano, fora do Carnaval, aquele elefante branco servisse para abrigar salas de aula. Foi um sucesso, infelizmente interrompido há algum tempo.

Há quem sonhe com a hipótese de os modernos estádios de futebol poderem ser adaptados para funcionar como universidades. Seria uma excelente alternativa, com transformações nem tão impossíveis assim de implantar. Até os gramados seriam utilizados, senão para práticas esportivas dos universitários, quem sabe como campo para nele pastarem certas autoridades municipais e estaduais.

Por que não transformá-los em penitenciárias, também? Sempre haveria o risco de, em dias de jogos, os presos forçarem entrada nas arquibancadas. E com a opção de as arquibancadas invadirem as celas para libertar amigos. Mesmo assim, seria uma tentação.

“MINHA ALMA FICOU LÁ FORA!”

Senador por dois mandatos, antes de assumir a presidência da República, e depois eleito para mais um, o saudoso Itamar Franco voou para o céu semanas depois de empossado. Mas costumava queixar-se a auxiliares, nessa terceira representação do povo mineiro: “Sempre que chego para trabalhar, tenho a impressão de que minha alma ficou lá fora…”

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