As coisas de São Paulo resolvem-se em São Paulo

Carlos Chagas

Todo muro tem o seu tijolo de sustentação, quer dizer, se retirada a unidade fundamental, o risco é de desabar o conjunto inteiro. A vitória de Fernando Haddad nas eleições para a prefeitura de São Paulo tem esse papel, para o PT. Ganhando, o ex-ministro da Educação neutralizará os tucanos na sua maior base eleitoral, poderá ameaçar a reeleição de Geraldo Alckmin em 2014 e, naquele ano, sedimentar a permanência de Dilma Rousseff na presidência da República por mais um mandato. Perdendo…

Perdendo, em especial se for para José Serra, ficará ameaçado o sonho dos companheiros de governar o país por 30 ou 40 anos. No meio dessa equação inconclusa encontra-se o Lula. Recuperado, 16 quilos mais magro, o ex-presidente planeja reentrar no debate político e elevar o candidato por ele lançado dos pífios 3% nas preferências paulistanas.

Impossível não é, mas o PT precisará gastar muita sola de sapato. Tendo pés para calçá-los, tudo bem, ainda que o risco seja de alguns líderes petistas fixarem prazo para a virada do jogo: junho, mês das convenções partidárias. Sem ter dado a volta por cima naquele mês, ninguém garante a sobrevida de Haddad. Ele precisará chegar reforçado em agosto, quando começa a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão.

Substituí-lo será missão quase impossível, dada a presença do Lula no processo, mas deixar que marche para o cadafalso em outubro equivalerá a ver o muro desabando dois anos depois. Espera-se que a própria presidente Dilma embarque na campanha, ainda que sem a participação da máquina administrativa federal.

A base parlamentar do governo encontra-se dividida entre Haddad, do PT, e Gabriel Chalita, do PMDB, com o PTB, PSB, PDT, PP e PR sem saber onde se abrigarão, aberta até a oportunidade para José Serra. Na verdade, as coisas de São Paulo resolvem-se em São Paulo.

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DEMOCRACIA SOCIALISTA?

Quem rompeu o círculo de giz foi o governador Tarso Genro, no fim de semana. Trouxe de volta o debate enterrado desde a posse do Lula, sobre ser o PT um partido socialista. Com a Carta aos Brasileiros, divulgada pelo ex-presidente, socialismo passou a palavrão, entre os companheiros. Nada que ferisse os brios do neoliberalismo poderia ser lembrado por eles, de lá para cá muito mais dedicados a ocupar funções no governo e a fundar ONGS, nem sempre honestas.

Pois vem agora o governador gaúcho e levanta a questão da incompatibilidade entre o processo de enriquecimento sem trabalho e os sistemas socialdemocráticos. Fala da importância de se abrir um debate entre a democracia e a idéia reguladora do socialismo. Porque o PT já foi socialista, não na forma autoritária que levou a extinta URSS para o buraco, mas como ideal de igualdade e justiça social.

É pena que a maioria dos caciques do PT fuja dessa discussão como o diabo foge da cruz. Melhor oportunidade não há para o ressurgimento das origens petistas do que depois do julgamento dos réus do mensalão. Será a hora do mea-culpa.

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