As CPIS abalaram Vargas, derrubaram Collor, Dirceu e agora Demóstenes

Pedro do Coutto

O acordo entre governo e oposição proporcionando a criação da CPI sobre a rede de interesses ilegítimos operada pelo senador Demóstenes Torres e o empresário Carlos Ramos Cachoeira, este homem fatal, deixa claro que a presidente Dilma Roussef, sob o ângulo político, tem interesse no aprofundamento das investigações. Sobretudo na medida em que o fato reduz a pressão da base partidária sobre o Palácio do Planalto.

Em política não existem – nunca existiram – acontecimentos isolados através da história. Isso de um lado. De outro, o apoio à Comissão de Inquérito, cujos desdobramentos são difíceis de prever, como a direção das nuvens, representa um aviso indireto ao Supremo Tribunal Federal de que a presidente da República não se empenha em nada que possa ser interpretado como interesse em absolver os réus do mensalão. Pelo contrário.

Também sob o prisma político, com a condenação, ela se fortalece ainda mais junto à opinião pública e se livra tanto de aliados incômodos quanto dos falsos amigos que são tão eternos como os diamantes. Todos temos sempre a ideia de nos libertarmos de fantasmas. Principalmente, é evidente, os que detêm o poder.

Política é assim. Quem não compreender pelo menos um pouco dessas sombras, não pode analisar o próprio processo humano. Mas no título falei na saga das Comissões Parlamentares de Inquérito. Comecei com Vargas, CPI da Última Hora, 53, e cheguei a Demóstenes Cachoeira, 2012. Sei que, como sempre, muitos vão dizer que CPI não dá em nada. Errado. Os exemplos apontam na direção contrária. Getúlio Vargas, em 52, mandou o Banco do Brasil financiar o jornal Última Hora, de Samuel Wainer. Foi seu grande erro. Mais grave num político como ele.

Não levou em conta que os grandes jornais da época, Correio da Manhã, O Globo, Diário de Notícias, Jornal do Brasil, Tribuna da Imprensa, O Jornal, ficariam ainda mais contra ele e seu governo. O desfecho todos conhecem ou dele ouviram falar.

Houve CPI, da qual se dizia que não levaria a lugar algum, que culminou com o impeachment do presidente Collor, em 92. Houve CPI dos Anões do Orçamento. Fraudes em cima de fraudes reveladas. Em 2005, foi instalada a CPI dos Correios e do Mensalão. O chefe da Casa Civil do presidente Lula, José Dirceu, acabou exonerado do cargo e, ainda por cima, teve seu mandato parlamentar cassado pela Câmara Federal.

Não se deve esquecer a CPI da Carta Brandi, cujo esclarecimento tornou-se peça fundamental para o movimento político militar que, liderado pelos generais Teixeira Lott e Odilo Denys, assegurou a posse de Juscelino Kubitscheck. O deputado Carlos Lacerda, assegurou, em 55, revelou um documento apontando comprometimento internacional entre João Goulart e Juan Perón, então presidente da Argentina, envolvendo suposto fornecimento de armas. Era falso. Foi forjado por uma dupla de uruguaios, Cordero e Malfussi, e tinha o nome de Brandi, destinatário fictício da carta no Brasil.

Desvendada a trama para comprometer Jango e, por tabela, JK, pois Goulart era seu vice, a carta foi divulgada por Lacerda às vésperas das eleições. Por uma coincidência dramática, exatamente a 3 de outubro, Perón era derrubado da Casa Rosada e se asilava numa corveta paraguaia no rio da Prata, ancorada no atual Porto Madero.

A reportagem a respeito da CPI Demóstenes-Cachoeira, O Globo de quarta-feira 11, é de Maria Lima, Paulo Cesar Pereira e Fernanda Krakovics. Grande matéria. A foto de Ailton Freitas. A matéria imprime mais um capítulo à história das Comissões de Inquérito.

Quase esqueço um episódio importante: a CPI da Rede Globo e Time Life. Havia uma associação, na época inconstitucional. Caracterizada a impossibilidade, propiciou a Roberto Marinho adquirir a parte do grupo americano e erguer, sozinho, o monumento que a emissora representa hoje. A história se escreve assim. Degrau por degrau. Qual será o próximo?

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