As crianças e a guerra declarada

Jorge Folena

No sábado passado escrevemos sobre o “mito da pacificação” das favelas do Rio de Janeiro. Na verdade, o que foi realizado de concreto pelo atual governo do Estado, nos últimos 4 anos, quanto à melhoria do ensino nas escolas públicas, por exemplo? Acredito que todos sabem a resposta, pois se algo de novo realmente tivesse acontecido, com certeza o senhor governador já teria propagado por todos os cantos.

EDUCAÇÃO E CULTURA

Mas então, como acreditar em pacificação, se as crianças pobres, que habitam as favelas, não têm o direito essencial a uma vida digna, que tem na educação o mais importante elemento de transformação e de melhor compreensão do mundo.

Como exigir de jovens que não receberam qualquer atenção do Poder Público (exceto nos períodos compreendidos entre 1983 a 1986 e 1990 a 1994), que não se prostituam ou se marginalizem? Ou seja, são crianças que foram violentadas já na sua origem, por uma sociedade que fecha os olhos para este grave problema, e que só se manifesta quando o mal chega até suas portas.

O INDIVIDUALISMO

Uma parcela da sociedade acredita que este fenômeno não seja problema dela, pois cada um que trate de si. Este mesmo grupo é o que defende que apenas os melhores, por seus méritos, devem ingressar nas universidades públicas (custeadas por todos, principalmente pelos pobres, maioria esmagadora no país), ocupar os melhores cargos públicos e empregos, porém esquecem que aquela grande massa marginalizada nunca teve acesso a nada

Então, como falar em igualdade de condições? Por exemplo, este tema tem ligação direta com as “cotas sociais” para ingresso nas universidades públicas, que está pendente de julgamento no Supremo Tribunal Federal, por questionamento apresentado pelo Partido dos Democratas (DEM), que, na audiência pública realizada em março de 2010, no STF, defendeu, de forma distorcida, o princípio da igualdade, sem entender que tratar com isonomia é, acima de tudo, contornar as desigualdades. Caso contrário, como exigir de quem nunca teve nada as mesmas condições de combate?

A MENTIRA

Acredito que atribuir a responsabilidade pelas mazelas da violência a meia dúzia de jovens marginalizados (transformados em feras) que estão nas favelas do Rio de Janeiro é uma grande mentira que, quando reiteradamente repetida, pode se tornar uma falsa verdade.

A sociedade que se queixa da violência é a mesma que nada cobrou quanto a investimentos e políticas públicas para educação, cultura, habitação digna, saúde e lazer durante os 121 anos da República no Brasil.

Mas propagar a formação do “Ministério da Segurança Pública”, como ocorreu na última campanha presidencial, tornou-se prioridade para muita gente, que acredita ser o único caminho para combater a violência.

A FORÇA

A solução do problema não está no uso desmedido da força, com ocupações policiais e operações militares de guerra. Vivemos num país riquíssimo em tudo, mas paupérrimo em desenvolvimento humano e social, o que se constitui numa contradição.

Por que os mesmos que pedem o uso das forças militares não exigem também o melhor emprego do orçamento público em ações sociais para todos (não apenas para os ricos e a classe média), que possam, de fato, transformar o ser humano?

Com efeito, só para recordar, a dívida pública brasileira já superou a casa de R$ 2,3 trilhões, e grande parte do que é arrecadado, do trabalho de todos, é destinado ao pagamento dos encargos desta falsa dívida, que os dirigentes brasileiros se negam a auditar, apesar de previsto no artigo 26 do Ato das Disposições Transitórias da Constituição de 1988.

A ESPERANÇA DO MUNDO

Dizem que “a infância é a esperança do mundo”. E como toda criança nasce de uma mulher, fica claro por que salvar a mulher é salvar o mundo. Mas pouco temos feito pelas mulheres e crianças, que diariamente morrem em conseqüência da violência, que beneficia apenas os que movimentam os recursos financeiros oriundos do comércio das drogas, do jogo, da prostituição etc.

Portanto, que esperança pode haver para um país tão rico, mas no qual um grande número de crianças e mulheres sobrevivem na total falta de dignidade, em condições precárias  e carentes de tudo, em lugares onde o Poder Público somente se apresenta como se armado para a guerra?

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