As diferenças entre Lula e Dilma são espantosas. A nova presidente demonstra ter todas as condições para nos surpreender favoravelmente, mas terá que se livrar dos ministros impostos por Lula.

Carlos Newton

Dois meses depois da posse da presidente Dilma Rousseff, as diferenças de estilos são colossais, demonstrando a mudança radical que está acontecendo no Palácio do Planalto. A descontraída gestão do presidente Lula, que se apresentava ao respeitável público como um misto de administrador e comediante, sempre pronto a sacar uma boa tirada e a inserir um “caco” no roteiro, agora está sendo sepultada por uma gestão em que a seriedade é a palavra de ordem.

A primeira constatação é de que não falta disposição à presidente Dilma. Ao contrário do presidente Fernando Henrique Cardoso, que era um desocupado e só chegava ao Planalto depois do almoço, ela começa a trabalhar de manhã cedo e não tem hora para encerrar o presidente. Adotou um estilo tipo Delfim Netto ou Marco Maciel, que ficaram famosos em Brasília pelo número de horas que dedicavam ao expediente (Maciel era tão exagerado nisso quando foi ministro, que seus auxiliares mais próximos tiveram que se dividir em três equipes, para manhã, tarde e noite).

As tripulações do AeroLula e dos jatinhos da FAB estão dando graças a Deus, porque acabou aquele frenesi de viagens. As coisas agora acontecem mesmo em Brasília. Essa realidade já está mais do que percebida, levando os 37 ministros ao desespero, porque não podem mais viajar para casa às quinta-feiras, como costumavam fazer no governo Lula, mais parecendo que naqueles anos todos os fins de semana eram prolongados.

Na verdade, Lula governava da mesma forma como Silvio Santos, seu grande amigo, apresenta os programas no SBT – em ritmo de festa. A situação do Brasil, porém, não é muito confortável. As vultosas contas dos gastos no ano eleitoral foram entregues no Planalto. Não somente o PT está endividado, como também o governo enfrenta mau tempo no horizonte econômico, especialmente devido à dívida interna, que cresce progressivamente, como nunca antes na História deste país.

Este é o motivo da opção preferencial da presidente Dilma pelo ministro Guido Mantega, que hoje é o mais próximo dela, além dos ministros do Palácio, é claro, Antonio Palocci e Gilberto Carvalho (Casa Civil e Secretaria da Presidência). Mantega tem um temperamento parecido com o dela, não gosta de brincadeiras. Dificilmente o ministro esboça um sorriso. Dilma era assim (e na realidade é assim). Só passou a ter uma postura risonha e descontraída na campanha eleitoral, por obrigação profissional (todo político tem que ser um pouco ator, mas sem a necessidade dos exageros de Lula). Agora, Dilma reassumiu a própria personalidade, e Brasília não é mais uma festa, como diria Ernest Hemingway.

Quem a conhece e já esteve com ela em reunião de trabalho, sabe que a nova presidente tem um temperamento forte e sabe administrar. Na segunda metade do governo Lula, Dilma Rousseff agia como se estivesse no cargo de primeiro-ministro, enquanto o presidente exercia uma função mais representativa, viajando para lá e para cá, como um mestre de cerimônias.

Muita gente pensava que Lula se tornaria uma eminência parda, ficaria comandando o governo nos bastidores, como uma espécie de Rasputin do Planalto (ou uma versão de Garotinho no governo da mulher Rosinha). Mas isso não aconteceu nem vai acontecer. Dilma Rousseff não é Rosinha Matheus.

Temperamento à parte, na verdade Dilma Rousseff pode surpreender positivamente. Com a experiência que acumulou nos últimos oito anos, tem condições de se sair muito bem, especialmente se fizer uma limpeza no ministério, afastando determinadas figuras que precisou aceitar, para não entrar em choque com Lula antes da hora.

O ministério atual é muito fraco, está aquém das necessidades do País. A presidente terá de fazer mudanças, caso contrário o governo não chegará a bom termo. Alguns ministros podem até desistir, porque não aguentarão o ritmo de trabalho imposto pela presidente, que depois do carnaval vai rasgar a fantasia e começar a fazer cobranças. Outros ministros, ela terá que afastar pessoalmente.

Para mudar ministros, porém, será necessário que a presidente Dilma se imponha perante Lula e assuma o governo por inteiro. Este é o principal problema, é o grande enigma da esfinge do Planalto Central. Na secura de Brasília o desafio “Decifra-me ou te devoro” tem uma nova versão: “Livra-te de Lula e dos amigos dele, ou serás devorada”. Eis a questão, que apenas uma pessoa pode resolver, a própria Dilma Rousseff.

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