As diversas revoltas da Marinha, e o estranho caso do duelo de morte entre o comandante Cascardo e Roberto Marinho (que faltou ao embate, certamente devido ao engarrafamento).

Ricardo Salles Sobrinho:
“O senhor esqueceu a Revolta da Chibata”.

Comentário de Helio Fernandes:

Não esqueci, Ricardo, é que estava inteiramente em outro contexto. Não poderia esquecer, pois é um dos fatos mais importantes da Marinha. Mas era a revolta de um homem, (em 1910), o Almirante Negro, contra toda uma instituição.

Não tinha nada a ver com a “Revolta da Marinha” ou com a “Revolta da Armada”, apenas lutas pelo Poder. Curiosamente (será mesmo essa a palavra?) chefiadas pelo mesmo almirante, CONTRA e a FAVOR do mesmo general (Floriano), que empolgara o Poder sem eleição, desrespeitando a Constituição.

Já o “Almirante Negro”, apenas um marinheiro (João Candido), açoitado diariamente, violentado de todas as maneiras, lutava pelo direito de todos e entrou para a História pela porta da bravura e do heroísmo.

Não estava, nem estou, Ricardo, escrevendo a história da Marinha. Mesmo episodicamente, não poderia deixar de citar a revolta do Encouraçado “São Paulo” (1922), chefiada pelo almirante Augusto Amaral Peixoto, irmão do também almirante Ernane do Amaral Peixoto, que não chefiou nenhuma revolta. Mas chegou ao Poder pelo “genrismo”. Ajudante de ordens do ditador Vargas, casou com sua filha Alzira, e fez carreira extraordinária, sem entrar num navio.

E muito menos eu poderia deixar de lado a atuação dos “comandantes”, que fizeram história a partir de 1932, chegando ao auge em 1935. Nesse ano, na Escola Nacional de Música, (hoje, “tombada”) fizeram uma grande concentração, de repercussão nacional.

Todos eram importantes, mas o mais destacado, comandante Hercolino Cascardo. O senhor Roberto Marinho, no jornal “O Globo”, (que havia sido fundado pelo pai, Irineu Marinho) fazia campanha contra eles, especialmente atacando o comandante Hercolino Cascardo, insultando-os como comunistas.

Bravo, heróico e destemido, Hercolino Cascardo, que não tinha nenhuma ligação com comunistas, embora fosse progressista, se revoltou e desafio Roberto Marinho para um duelo. (Isso era comum naquela época, herança dos tempos românticos da Idade Média).

Roberto Marinho aceitou, marcaram o duelo para dentro de uma semana, às 6 da manhã (o habitual), na Quinta da Boavista. Designados os padrinhos, todos estava lá, menos o senhor Roberto Marinho.

Não pensem que foi covardia do dono de “O Globo”, é que naquele 1935, o trânsito era um engarrafamento completo, não se chegava a lugar algum.

Dona Darcy Vargas, pouco tempos sofreu um terrível acidente de carro. Estava com ela o ajudante de ordens de Vargas, que morreu na hora, abriu-se a vaga para o então capitão-tenente Amaral Peixoto.

***

PS – Os médicos queriam amputar as duas pernas de Dona Darcy. O primeiro prefeito eleito do Distrito Federal, e grande médico, Pedro Ernesto, assumiu o comando da recuperação de Dona Darcy, impediu toda e qualquer AMPUTAÇÃO.

PS2 – Numa dedicação que levou meses, praticamente sem sair do hospital, Pedro Ernesto salvou a vida e a integridade física da Primeira-Dama. Numa prova de falta de caráter, Vargas logo depois mandava prender (e demitir) Pedro Ernesto, acusando-o de comunista e de ter participado do que se chamou de “Intentona Comunista”, de 27 de novembro de 1935, liderada por Prestes.

PS3 – A verdade e o objetivo, no entanto, eram outros, não estavam nem escondidos. Aproximava-se a eleição de 3 de outubro de 1938 (que não haveria) e Pedro Ernesto era um dos nomes mais falados. Prendendo-o, Vargas desaparecia com um possível candidato.

PS4 – Grandes protestos de amigos e até de populares, fizeram Vargas entender que precisava libertar Pedro Ernesto, mas não com a possibilidade dele sair candidato e sucedê-lo. Conversou com amigos do ex-prefeito e decidiu o seguinte.

PS5 – Pedro Ernesto escreveria carta pessoal a Vargas, se COMPROMETENDO a abandonar totalmente a vida pública, não aceitar nenhum cargo nem se candidatar a qualquer outro. Assim, seria libertado.

PS6 – Melancólica e lamentavelmente, Pedro Ernesto teve que escrever a carta para ser libertado. É lembrado como o melhor prefeito do Rio, poucos sabem que poderia ter sido um grande presidente.

PS7 – A Marinha teve episódios menores, mas que poderiam ter desaguado em consequências históricas. Foi o que aconteceu em 11 de novembro de 1955, com o Alto Comando (?) da Marinha embarcando no Tamandaré, (por que sempre ele?) para impedir a posse de um presidente da República eleito.

PS8 – Vejam quem viajava no Tamandaré, indo para São Paulo pedir ao governador Jânio Quadros, que chefiasse “um governo no exílio”. (Como fez De Gaulle na Inglaterra, mas a França estava em guerra, já ocupada pelos nazistas, desde 22 de abril de 1940).

PS9 – Os nomes: Amorim do Valle, ministro da Marinha. Pena Boto, comandante da Esquadra. Eduardo Gomes, ministro da Aeronáutica. Carlos Luz, presidente da República, que assumiu com o impedimento de Café Filho. Carlos Lacerda, deputado federal. E uma quantidade enorme de oficiais de Marinha, todos frustrados pela recusa de Jânio Quadros.

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3 thoughts on “As diversas revoltas da Marinha, e o estranho caso do duelo de morte entre o comandante Cascardo e Roberto Marinho (que faltou ao embate, certamente devido ao engarrafamento).

  1. Hélio Fernandes não praticava a política jornalística da “padaria de notícias” de Lacerda (acho), onde notícia tem que ser como pão, só vende quando está quente….. rsss…!Devo estar super desinformado, mas não tenho conhecimento de como se concluiram as relações de Hélio com o “CORVO”, rssss…. Já com o Murilo Melo Filho, ficou bem claro de como “CORVO” E ele, Murilo, “se entenderam”, segundo o Testemunho Político,obra
    da maior importância do grande jornalista (Murilo). Dois Carlos… Lacerda e Boto….. Sobre “CORVO”, quem tem mais idade já sabe….
    Sobre o outro Carlos, Pena Boto, foi recebido por JK , contra quem tinha conspirado, em Palácio. Há uma foto onde JK aperta a mão do Almirante. (está no “Porque Construi Brasília, de JK). Aquele aperto de mão selava a verdadeira “ANISTIA,AMPLA,GERAL E IRRESTRITA” a todos os que participaram de ações políticas entre 10/11/1955 e Jacareacanga(FEV 56).
    Acompanho Hélio de há muito tempo. Seu ápice foi num “JÔ SOARES”, QDO O DEIXOU órfão diante as câmeras. Já tentei obter esse vídeo, mas nunca vou conseguir, por motivos óbvios, até pq já tem algum tempo.
    Hélio já tem idade. A ele NÃO SE APLICA “os canalhas tb envelhecem”, já ao FHC…..

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