As duas vezes em que Brasília ganhou alma

JK levava na carteira um artigo escrito sobre ele

Carlos Chagas

Sábado completam-se 39 anos da morte de Juscelino Kubitschek, em desastre de carro na via Dutra. Fenômeno singular aconteceu dois dias depois, quando foi sepultado em Brasília. Multidão calculada em um milhão de pessoas acompanhou o corpo do morto ilustre, da Catedral ao cemitério Campo da Esperança. A capital inaugurada em 1960 ganhava alma.  Indiferentes à ameaça de que os militares então no poder perturbariam a despedida, os populares marcharam os poucos quilômetros do trajeto levando o esquife nos ombros. JK descansaria para sempre na cidade que fundara.

Era presidente da República o general Ernesto Geisel, que até as quatro horas da tarde hesitou em decretar luto oficial e determinar fosse a bandeira hasteada a meio pau, no palácio do Planalto. Desde a manhã que o presidente do Senado, Magalhães Pinto, tomara essa providência defronte ao Congresso, mesmo contrariando o humor do ministro Silvio Frota, do Exército. O presidente da Câmara, Célio Borja, não acompanhou o senador mineiro. Só tomou a mesma providência depois de olhar pela janela e verificar o gesto do Executivo, ainda que com atraso.

Anos depois, já presidente o general João Figueiredo, coube-lhe reparar as agressões feitas ao antecessor, cassado, processado e exilado, oferecendo à viúva e às filhas do presidente a mais nobre colina de Brasília, para ser erguido lá o memorial ao fundador da cidade. Os milhões de cidadãos que desde então o visitam podem ver, numa vitrina posta no salão de entrada, os objetos que levava no bolso. Seu bilhete de identidade, uma medalha de Nossa Senhora Aparecida, sua fotografia em três por quatro e, dobradinha para caber na  carteira de couro, a copia de um artigo  publicado anos antes no jornal  “Estado de S. Paulo”, sob o título “Brasília não  vê JK chorar”. O texto reportava uma travessura dele, nos anos mais bicudos da ditadura. Estava proibido de entrar na capital, obrigando-se a contornar o Distrito Federal para sair de sua fazendinha e entrar num teco-teco, no pequeno aeroporto de Formosa, em Goiás. Uma das violentas tempestades, comuns no Planalto Central, impedia a visão dos motoristas além de dois ou três metros da estrada. Ele sugeriu ao amigo que o transportava na cabina de um caminhão para dobrar à direita, ou seja, entrar no território proibido. Afinal, há anos que não podia ver sua obra.

Entrou no Catetinho, primeiro barracão de madeira que o abrigava quando Brasília ainda não existia. Pregou um susto imenso no vigia da entrada, que jurou nunca mais beber. Extasiou-se com a catedral, que só conhecera nos desenhos de Oscar Niemayer. Depois, a Esplanada dos Ministérios, já completada, e a Praça dos Três Poderes, com os palácios e o pequeno museu erigido em sua homenagem. Chovia como nunca, mas foram suas lágrimas a expressão de que, apesar de tudo, a cidade tinha dado certo. Sentiu-se, como diria depois, um súdito das Gálias  pela primeira  vez visitando Roma.  Antes de morrer, a alma incorporava-se à matéria. É fascinante notar como 39 anos passam rápido.

###
NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGO artigo “Brasília não vê JK chorar”, que o ex-presidente guardava na carteira, foi escrito pelo próprio Carlos Chagas. É uma crônica linda e emocionante, que a gente lê e também chora. (C.N.)

21 thoughts on “As duas vezes em que Brasília ganhou alma

  1. Meus parabéns, nobre jornalista Carlos Chagas, pela homenagem a este gigante político do Brasil.
    Nosso editor Carlos Newton poderia em algum momento publicar o artigo em homenagem a JK. É um pedido que faço para que os leitores da TI possam também chorar nesse momento de vácuo de políticos do naipe do fundador de Brasília.

  2. Juscelino Kubitschek foi um dos mais dignos políticos e administradores do Brasil. Quando era prefeito de Belo Horizonte fez nada mais, nada menos, a Lagoa da Pampulha e seu planejamento entorno, incluindo a igreja da Pampulha desenhada por Oscar Niemayer e decorada por Portinari. A igreja era tão futurista que passaram-se anos para que a cúria católica a reconhecesse como santuário, lá proibindo missas e casamentos. Hoje é do maior bom gosto belo-horizontino casar e assistir missa na igreja da Pampulha, que, junto com a Lagoa é uma das principais atrações turísticas e áreas de lazer da capital mineira. O Bairro da Pampulha, hoje populoso, criado por Juscelino, abriga mansões e é um dos mais cobiçados locais de moradia de Belo Horizonte. Para criar a Pampulha Juscelino dispôs de um único mandato.

    Quando chegou à Presidência da República, passou por cima da hostilidade da UDN e seus representantes políticos Carlos Lacerda (o pior inimigo, chamado de “o corvo”) e da hostilidade de generais, cumpriu as promessas de campanha: fazer o Brasil andar 50 anos em cinco, e com um único mandato construiu e inaugurou Brasília. A criação de Brasília estava no mandamento de uma antiga Constituição da República. Juscelino foi um homem que estava além de seu tempo.

    Os generais golpistas de 1964, além de perseguir e cassar Juscelino, em requintes de crueldade, proibiram Juscelino Kubitschek de entrar na Brasília que ele criou. Este fato histórico trazido à lembrança torna os generais ditadores mais nojentos para os sentimento da população. Juscelino foi cassado pela Ditadura embora não fosse comunista nem socialista, e depois de sua morte, com a parca herança que deixou, ficou provado que não foi corrupto, como a Ditadura, a imprensa udenista e Carlos Lacerda alegavam enquanto Juscelino vivia. A Ditadura o cassou porque os generais golpistas quiseram livrar-se de qualquer liderança que o país tivesse. Assim cassaram Juscelino, cassaram Brizola, cassaram Arrais, cassação que também atingiu o próprio “Corvo”, caluniador e que provocou o suicídio de Getúlio e enxia seus jornais de acusação de corrupção para Juscelino, o Sr. Carlos Lacerda, de triste memória.

    Junto-me à imensidão de brasileiros que sábado rememorarão Juscelino Kubitschek, pela ocasião do passamento dos 39 anos de sua morte, até hoje mal explicada, num suspeito “desastre” na Via Dutra.

    • Prezado Dr. EDNEI FREITAS,
      Até aonde eu saiba, o Jornalista CARLOS LACERDA, em tudo o que escreveu e acusou, sempre apresentou PROVAS. Sua CREDIBILIDADE era grande, reconhecida pela maioria até de seus Adversários Políticos. O próprio caso da falsa Carta BRANDI, em que acusava o Vice-Presidente JOÃO GOULART de “receber Fundos do Governo Peronista da Argentina, para Campanhas Políticas do PTB, em troca de algumas cargas de madeira serrada de pinho”, ele reconheceu de público, e assumiu o erro e o desgaste.
      O grande Presidente GETÚLIO VARGAS se suicidou, não por causa dos artigos de CARLOS LACERDA, mas por causa da morte do Maj. Aer. RUBENS VAZ que estava junto com CARLOS LACERDA, que foi ferido no pé, no atentado da Rua Toneleros de 5 Ago 1954, atentado contratado pelo Ten. GREGÓRIO, Chefe da Guarda Pessoal do Presidente GETÚLIO VARGAS, que atuou, sem o conhecimento do Presidente GETÚLIO VARGAS. ( O tiro que matou o Maj. Aer. VAZ, me atingiu também pelas costas” ( Presidente VARGAS).
      O Gov. CARLOS LACERDA foi cassado pela revolução de 64, porque era um PATRIOTA NACIONALISTA, DESENVOLVIMENTISTA, de viés INICIATIVA PRIVADA NACIONAL, o que contrariava interesses do Capitalismo Americano. Abrs.

      • Pois não meu caro Sr. Flávio José Bortolotto,

        Mas o senhor que acompanhou Carlos Lacerda deve lembrar-se das inúmeras vezes que em discursos, artigos em jornais ou reuniões públicas afirmava que Juscelino Kubitschek era um corrupto. Os fatos após sua morte (a de Juscelino) provaram que não: ele só deixou para a família a casa em Belo Horizonte e um pequeno sítio em Goiás. Isto foi muito divulgado na imprensa, na época. Carlos Lacerda nunca se desculpou das calúnias que fez contra Juscelino. Carlos Lacerda foi tão inimigo e tão agressivo com Juscelino quanto foi com Getúlio, com expressões :”Mar de Lama”, referindo-se ao governo. E Getúlio também não deixou um mar de lama. E Carlos Lacerda, junto com Magalhães Pinto, que também eram inimigos, embora os dois fossem da UDN, juntaram forças para ajudar as Forças Armadas a darem o Golpe Militar de 1964.

        • Nas últimas semanas do governo Vargas até o suicídio do presidente em 24 de agosto
          de 1954, o jornal de Carlos Lacerda radicalizava seus ataques contra qualquer membro da
          esfera de relações de Getúlio, de membros de sua família, a aliados político e até os assim
          chamados “chapas brancas” da UDN. Segundo Maria Gusmão: A derrota do impeachment mostrara aos setores anti-getulistas que todas as tentativas legais de afastar Vargas do poder seriam vãs. Restava, portanto, a alternativa da deposição pura e simples, cujo sucesso dependia da criação de um clima de total hostilidade à própria figura do presidente.

          Lacerda novamente buscaria a quebra da legalidade “em nome da democracia”, já que
          no “mar de lama” getulista, isso jamais seria alcançado. Essa tese golpista em nome da
          legalidade era diariamente construída pelo seu jornal, formando aos poucos um discurso pronto e definido aos grupos simpáticos a UDN que justificariam seus métodos autoritários, e golpistas dos próximos anos até o Golpe de 1964. As várias denúncias de corrupção no governo sempre eram ligadas diretamente ao presidente Vargas. Este, sempre tratado como “ex-ditador” e“inimigo da democracia”, também era sempre representado com charges irônicas e depreciativas, ou com fotos baforando a fumaça de seu charuto para cima, o que forçaria uma imagem de arrogância e insensibilidade aos problemas do país.

          24 DULCI, Otávio. Op. Cit., p . 122. 25 MENDONÇA, Marina Gusmão de. Op. Cit, p. 144-145. 26 Ibidem. 27 Idem, p. 147.

  3. Excelente o artigo de Carlos Chagas. Guardo com admiração diversos livros sobre a era JK, mas é sempre motivo de satisfação ler artigos, crônicas e comentários sobre esse grande político.

  4. Não apenas Juscelino, um social democrata, estava acima dos políticos de hoje. Aliás vale comparar. E chorar
    Juscelino Kubitschek X FHC
    Plínio Salgado X Jair Bolsonaro
    Carlos Lacerda X Ronaldo Caiado
    Luiz Carlos Prestes X Luciana Genro
    Getúlio X Lula

  5. Para quem teve o privilégio de conhecer e fazer parte da construção de Brasília, EU, que para lá fui em 1960, antes da inauguração, em abril, cheguei no Natal de 59, portanto, não considero este ano como válido na contagem do tempo que morei no Planalto Central, Brasília não só foi o último eldorado do Planeta como se tornou o sonho de milhões de brasileiros, que observaram o local como a oportunidade de suas vidas!
    Jamais poderei esquecer a capital do Brasil quando nascia dos cerrados, emergindo em grandes edifícios, ruas sem cruzamentos, uma cidade planejada por inteiro.
    No entanto – e escrevi esta passagem na TI por duas vezes – a lembrança que carregarei comigo para o resto de minha vida será o aperto de mão que recebi de Juscelino quando este foi visitar Taguatinga, em meados de 62, agradecendo a população do DF que o ajudara na construção de Brasília, pois Jango era o presidente – Jânio havia renunciado – uma das três cidades satélites onde moravam os trabalhadores: Taguatinga, Gama e Sobradinho, além do Núcleo Bandeirante, a famosa “cidade livre”.
    JK vinha em seu carro conversível, e parou o seu veículo em frente à antiga caixa d’água, bem no início da cidade, hoje não mais existe, mas os antigos se lembrarão dela, pois ficava na parte alta de Taguatinga antes da descida que levava à rua Comercial, a principal avenida, e se dirigindo ao grupo onde eu me encontrava cumprimentou a gurizada, estendo a mão, algumas guarias e senhoras que nos acompanhava e seguiu adiante!
    Claro que ao voltarmos para casa – ali perto, na QNB 12 – o comentário era a respeito do aperto de mão do célebre ex-presidente que, de certa forma, era o responsável pela migração de brasileiros de norte a sul e leste a oeste em, busca de trabalho e dinheiro, realização e estabilidade.
    Naturalmente, como os sonhos para a maioria é um doce com açúcar ao redor e recheio de marmelada ou doce de leite ou creme ou, então, transforma-se em pesadelo, muitos não concretizaram seus objetivos, e assim como foram voltaram às suas terras frustrados e vencidos pelas circunstâncias.
    Assisti várias famílias que foram embora por várias razões; desde a econômica até a perda de entes queridos em acidentes, além da dificuldade de adaptação para uma terra inóspita, sem diversão, somente trabalho, clima extremamente seco, e as casas sem luz e água. Eu, minha mãe e irmão moramos por quase um ano sem água e luz, em Taguatinga.
    Para beber, comprávamos água em garrafões de dois litros, e para banho e limpeza a água vinha em caminhões pipa duas vezes por semana, então tínhamos dois tonéis de duzentos litros cada um.
    O dia que a luz chegou à nossa rua, a festa foi parecida com a do PT com a encrenca entre Renan e Cunha, e este último sendo denunciado pelo Procurador Janot.
    Finalmente ouvíamos rádio!
    O programa por excelência era através da Rádio Alvorada, comandado por Meira Filho, diariamente pelas manhãs. Eu soube mais tarde que o radialista havia sido eleito senador, mas bem depois do nosso retorno ao sul.
    Paro por aqui.
    Brasília foi muita intensa para mim, desde quando pisei naquela bendita terra, meus amigos, o Colégio Dom Bosco, a construção da Barragem do Paranoá, as Doze Horas de Brasília, onde o circuito era em frente ao BB e no andar de baixo da Rodoviária, contornando onde seria depois o Teatro Nacional, início da asa Norte, uma corrida de carros com veículos Simca, DKW, Dauphine, JK, e os célebres Abarth, onde cheguei a conhecer Chico Landi, o famoso piloto brasileiro, que veio a ser colega de profissão de um grande amigo meu, que estudou comigo no Dom Bosco e, volta e meia, ainda nos comunicamos, José Carlos Cantanhêde, irmão da jornalista do mesmo sobrenome, que veio a ser piloto profissional mais tarde.
    Como diz a letra de uma canção de Roberto Carlos – que assisti em um circo de lona, juro pela minha mãe e filhos! -, em Taguatinga, em 1962, são muitas as emoções, e elas me deixam extremamente nostálgico e triste.
    Mas, EU, sou testemunha ocular da História, e dela fiz parte na construção da capital federal, um marco em minha vida que levarei orgulhoso para onde Deus me levar após esta vida repleta de lembranças, nem sempre alegres, porém todas muito importantes!

    • Pois é, Bendl: fui conhecer Brasília em 1979, procedente de Manaus. Amei a cidade como amei Manaus também (hoje em dia, a cidade que menos gosto é Rio de Janeiro). Estive lá em Junho, andei muito para recordar meus tempos mais difíceis, quando táxi era um luxo. Tenho muitos amigos lá, inclusive do antigo primário (Dr Heleno), tenho afilhado, enfim, muitos amigos, como a família Muniz Lima e outros do Serpro.

      Se não fosse por causas familiares, já teria ido pra lá.

      Abraços !!!

  6. Encantador o seu relato apaixonado e cheio de vida de Brasília.

    A vida hoje é agitada e sequelada pelo histórico de roubalheira das últimas décadas sobre jovem Senhora, de 55 anos, que carrega a alma do Brasil e é a síntese do século XX em sua arquitetura e é também um polo (além de ilha da fantasia) de ocupação e crescimento demográfico e econômico do centro-oeste.

    Cada um vem de um canto do país. Vivem em torno do serviço público, ou como empresários ligados ao governo ou como pequenos comerciantes e rentistas, em sua maioria. Prepara-se para concursos públicos desde o jardim de infância.

    Muitas drogas, playboys e mautoristas demais, mas, no geral, um grau de civilidade aparente. Pessoas brutas e arrogantes, que andam de nariz em pé, achando que, por seus cargos e seu status na corte estatal-empresarial, são melhores que todos a sua volta, por quem não se interessam em conhecer. Brutalidade rudimentar, ignorância e prepotência, em meio à aparencia de civilidade, pessoas que não querem dizer obrigado e não aprenderam a pedir licença, saem empurrando e pisoteando quem vêem pela frente.

    Muita violência, grande abismo social, reforçado pela ostentação. Imprensa fraca, quase nula, dominada por interesses políticos, que tentam esconder e varrer a criminalidade e todos os perigos para debaixo do tapete. Ai daquele que escrachar a verdade! Não sobrevive nessa imprensa prostituída.

    Transporte, se resume a um pequeno e insuficiente metrô. Indigno da capital do país. Obras tão superfaturadas que nem a Asa Norte tem metrô até hoje.

    Qualidade de vida dos mais pobres comparável à periferia do Rio e de São Paulo. Horas no trânsito, desorganização, capital abandonada.

    Falta de água e de luz até hoje, nos mesmos lugares e no inchaço que parece infinito, na contínua ilusão da capital.

    Crescimento explosivo. Área urbana supervalorizada. Mansões de políticos e ministros e privilegiados. Muita ostentação e pouca alma. Beleza exótica, mas estática. Intenso isolamento, insensibilidade, intolerância, cultura estatal de parecer ter, de ser amigo do rei, de parecer dono e beneficiado pelos tributos alheios.

    Apesar disso tudo, a diversidade, de diversas partes do Brasil, e sua síntese, salvam Brasília, desenvolvem o seu entorno e reavivam a dinâmica esperançosa da geografia humana dessa parte importante do planeta, experimento interessante na História Mundial.

    • Percinotto, meu caro,
      A tua abordagem sobre Brasília é atual, quando o sonho de antes agora é pesadelo!
      Brilhante comparação que fazes entre a realidade de uma época que se apresenta meramente pragmática, e um período que podíamos sonhar com um futuro, que estava em nossas mãos se soubéssemos lidar com as dificuldades naturais de um País subdesenvolvido, carente, e ainda a ser desbravado em plena metade do século XX!
      Imagina, a construção de uma capital federal e estradas sendo rasgadas Brasil afora, com a similaridade de pessoas em busca de reconstruírem as suas vidas, ou seja, Brasília e seus migrantes eram uma peça só!
      Se as lembranças de mais de cinquenta anos atrás, quase sessenta(!), me transportam para uma cidade sem vícios, sem drogas, sem violência, de certa forma ingênua porque desacostumada às tradições e costumes de várias regiões mesmo que brasileiras, tais diferenças eram aplainadas pelo objetivo comum de trabalhar e ganhar dinheiro; de negócios que surgiam da noite para o dia e de descobertas surpreendentes em torno do Distrito Federa,l que eram as minas de cristal!
      Para um guri de dez até os dezesseis anos, que aprendeu a dirigir tratores de esteiras até motoniveladoras, caminhões, camionetes e automóveis, aventura alguma de cinema se comparava àquela que era a minha vida!
      E a primeira namorada?!
      Jamais vou esquecer daquela goiana, amável, carinhosa, uma guria de quinze anos, que um dia nos despedimos porque eu estava vindo embora.
      Da mesma forma, a música que iniciava os filmes no Cine Paranoá, em Taguatinga, que entoava Billy Vaughn, A Summer Place, inesquecível, e que me traz uma saudade quase que insuportável.
      Pois foi esta fase repleta de episódios e fatos que me enriqueceram sobremaneira a vida e que me deram uma base notável para enfrentar depois o Exército, na PE, onde fiquei quase quatro anos e saí um portentoso Cabo, em pleno auge do regime militar, 1.972, para na vida civil eu ser promovido, ou não, mas ganhar o sustento da minha família porque eu casara ainda servindo, em 1971, e o soldo não era o que eu desejava.
      Lutar sempre foi a minha especialidade, ainda mais acompanhado da mulher que eu quis e amava, e que me acompanha até hoje, 45 anos depois!
      De certa forma estava escrito nas estrelas que a minha mulher seria uma gaúcha, e não do centro do Brasil, e que a minha vida teria o seu epílogo no sul, mas que devo a Brasília um tempo de inestimável valor, declaro de público este meu amor por aquela terra abençoada, lamentavelmente tão mal usada atualmente, e que a deixam conhecida como, A Ilha da Fantasia, uma torpeza para a cidade dos sonhos realizados na sua grande maioria!
      Muito obrigado pelo excelente comentário, Percinotto.
      Um abraço do meu tamanho.

  7. Mesmo contrariado devo dizer que Chagas teve mesmo relaçãoes muito próximas com os militares. Chagas sabe até da hesitação do general Geisel até as quatro horas da tarde. Fala com conhecimento e intimidade do humor do duplamente golpista general Frota.”Ghagas é o Chagas”. Juscelino tinha a simpatia o dinamismo e a coragem como suas melhores armas. O Brasil lamentou sua morte e até hoje ainda pairam muitas dúvidas sobre sua morte. Eu que só tenho intimidade com a história. Lembro que um dia antes, à morte de Juscelino foi noticiada em uma rádio. Talvez em razão disso ele tenha deixado de vir de avião preferindo vir de carro. Não sou profeta e nem o dono da verdade; dizem agora que sou esquizofrênico, portanto posso ser facilmente criticado, repudiado, que pouco se me dá. Só não posso escrever contra o que penso e sei. E escrever o que outras pessoas querem que eu escreva.

  8. “Como diz a letra de uma canção de Roberto Carlos – que assisti em um circo de lona, juro pela minha mãe e filhos! -, em Taguatinga, em 1962, são muitas as emoções, e elas me deixam extremamente nostálgico e triste.”
    Bendl, em 1974 eu estava prestando o serviço militatar, Tiro de Guerra, Roberto Carlos foi cantar em minha cidade, Curvelo/MG, nós, os atiradores, fomos fazer a segurança da apresentação, Roberto Carlos Cantou em um palco armado debaixo de um pé de manga na praça de esportes. Acho mais comico do que o seu circo.
    Um Abraço.

    • Luiz Antônio,
      Roberto Carlos em início de carreira – não tanto em 74, pois já era o “rei” nesta época -, não se importava de se apresentar em locais simples, pois precisava ganhar o seu dinheiro com o seu talento e vocação.
      Quem dera que a maioria seguisse o seu exemplo, e hoje estivesse sem as dificuldades que atravancam uma vida ser mais fácil e melhor de ser levada adiante.
      Outro abraço.

  9. Homens como JK e os trabalhadores, destemidos e desbravadores candangos (de norte a sul, leste a oeste e fortemente com coraçao no nordeste, representando a sintese da alma brasileira) marcam o seu tempo e demarcam territorio cultural precioso, inalienavel, imprescritivel.

    Valor sublime e imaterial de um oceano cultural de mergulho e integração, que corre em arterias e veias, coordenadas pelo coraçao, tanto circulatorio quanto emocional, do maravilhoso sistema limbico encefalico.

    Parabens ao Carlos Chagas e ao Carlos Newton pela força simbolica, objetiva e tambem sentimental, visto que fomos feitos para recordar com a força da emoção.

    Abraço forte e fraterno em Francisco Bendl, que compartilha sua alma, peças preciosas armazenadas na estrutura fisica, quimica e eletrica dos seus neuronios.

    A singularidade fenotipica-genotipica da consciência e da personalidade humana, combinada à semelhança e à unidade simbolica nos processos comunicativos.

    Muito alem da reproduçao ou tentativa de conservaçao (por criogenia, correçao biologica evolutiva ou programaçao genetica), a transmissao jornalistica ou narrativas nos faz viver junto as suas expreriencias e passamos a te carregar cada dia mais conosco, para compartilharmos sempre, ja que somos todos integrantes de um mesmo organismo vivo e continuo.

    • Prezado Maximino,
      Muito obrigado por citares o meu nome no teu comentário irrepreensível, elogiável e muito bem feito!
      De fato, entendo que o compartilhamento de experiências é uma homenagem ao semelhante, uma confiança que se estende para quem está vivo, mesmo que não tenha a idade do autor ou mesmo até mais, mas que não tenha tido as oportunidades em sua existência de momentos intensos, históricos e altamente emotivos!
      Eu ter morado em Brasília a partir da sua inauguração e ter acompanhado e crescimento da cidade e chegada diária de gente dos mais longínquos rincões do Brasil, foi algo indescritível, corroborado pelos caminhões “pau-de-arara” que traziam irmãos do nordeste, que viajavam nas carrocerias por dias a fio em completo desconforto!
      Também presenciei inúmeras vezes pequenos grupos de índios xavantes, atordoados com o barulho e movimento intenso de veículos e de pessoas e, certa feita, em Taguatinga, um gesto da minha inesquecível e amada mãe, que foi embora aos 42 anos de idade, vítima de câncer, alcançar uma panela de carreteiro e dar para oito ou dez índios comerem, pois estavam com fome.
      Brasília é recordação, lembranças, momentos indeléveis, uma trajetória que se desgarra da minha vida porque sublime, única, e que me divide em antes e depois da minha vida no DF, e porque o dia que eu partir deste mundo, certamente parte do meu coração estará sedimentado naquela terra árida, seca, solo partido pela falta de chuvas, e que as lágrimas das pessoas ora alegres pelas conquistas ora tristes pelas derrotas, faziam brotar o verde das superquadras, que contrastava com o amarelo avermelhado da poeira fina, que levantava alto os redemoinhos que apelidávamos de “lacerdinhas”, alusão a Carlos Lacerda, que foi contrário à mudança da capital.
      Ah, Brasília …
      Um abraço, Maximino.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *