As eleições e a tradução dos resultados das urnas

Pedro do Coutto

O Globo e a Folha de São Paulo de terça-feira, 30, publicaram matérias importantes sobre resultados das eleições municipais. Maria Lima e Guilherme Vottch, O Globo, focalizaram as vitórias da oposição no Nordeste, principal ponto geográfico do programa Bolsa Família. A FSP, texto sem assinatura, acentua o fato de candidatos de oposição aos atuais prefeitos terem vencido na maioria das cidades, ao contrário do que se verificou no pleito de 2008. A mesma FSP, em reportagem de Erich Decat, revela que a abstenção foi muito menor nos municípios em que houve recadastramento eleitoral. Vamos por partes.

No primeiro caso, não se trata de fenômeno partidário, mas sim administrativo. Os ocupantes atuais dos cargos assumiram pesada carga de compromissos na campanha passada e deixaram a desejar. Os eleitores preferiram mudar, a sequência lógica, pois política, como definia o presidente Juscelino, é esperança. Ela se renova, surgem atores, outras propostas.

As vitórias oposicionistas na região nordestina não representam uma contestação à presidente Dilma ou ao ex presidente Lula. São reações a poderes locais. Relativamente ao programa Bolsa Família, não se trata de reação contrária ou ingratidão. É que o eleitorado de menor renda sentiu que o programa encontra-se efetivamente consolidado, de forma a não existir preocupação em consolidá-lo. Ele é, efetivamente, irreversível. Intocável. Podem ocorrer ampliações, não reduções. Uma atitude humana, só revelada pelo voto. Como provavelmente aconteceu.

Quanto à reportagem de Erich Decat, trata-se do processo para o qual sempre focalizo. A abstenção (aparente) cresce à medida em que distancia o último recadastramento da eleição que se realiza. Tanto assim que a média nacional foi, sem números redondos de 19%, enquanto caiu à metade nas cidades onde a Justiça Eleitoral promoveu um novo alistamento. Existirá sempre uma abstenção efetiva, por doença, desinteresse, desobrigação de votar. Porém esses fatores somados não chegam a 19 pontos. Dezenove por cento dividem-se entre os que se situam no primeiro caso e aqueles que morreram no período.

O voto é um instrumento de afirmação. Os eleitores, no fundo, sentem isso. Sabem disso. É quando têm vez e voz. Quando são bem tratados pelos candidatos e pelos partidos. Recebem tratamento condizente com a dignidade humana. São reconhecidos, já que cada voto é um voto. E os grupos sociais de menor renda, que formam a maioria do eleitorado, em seu conjunto tornam-se até mais decisivos no rumo das urnas. No destino dos votos.

Exatamente por isso é que evidenciam-se reviravoltas, como a que ocorreu na cidade de São Paulo. As correntes de renda mais baixa deixam sempre para decidir no final. O ex presidente Lula tem pleno conhecimento dessa mobilidade decisiva. Na sucessão presidencial de 2010, Dilma Rousseff custou a decolar, mas quando decolou, disparou nas pesquisas e na computação dos votos. Venceu por 56 a 44 de José Serra. Agora, na capital paulista, verificou-se algo semelhante. No final, Fernando Haddad derrotou o mesmo Serra por 55 a 45.

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