As esquisitices de Brasília e o ano que pode nem existir

Sandra Starling

Hoje, aqueles que se derem ao trabalho de ler este artigo poderão estar às voltas com mais um escândalo – desses de arrepiar os cabelos – com as revelações de Tuma Jr. sobre os dossiês encomendados pelos petistas. Ou pela denúncia de que Lula teria sido o Barba. Isto é, que Lula teria sido informante quando o pai dele (senador Tuma) era chefe do Dops e prendera o ex-presidente, enquadrado na Lei de Segurança Nacional.

Poderão os leitores estar boquiabertos ou, simplesmente, nada ter acontecido: Brasília é isso mesmo. Num abrir e fechar de olhos, tudo pode acontecer ou não acontecer nada. Ainda mais no fim do ano. Já se ouvem “Jingle Bells” por todos os lados, as árvores de Natal aqui ficam prontas muito antes do Advento, no Congresso todo mundo já comprou suas passagens “de volta às bases” e o governo… ah, o governo!, isto é, a presidente e sua turma todo dia pegam o helicóptero e ali, do heliporto do Palácio da Alvorada, decolam para algum ponto do país, onde vão inaugurar alguma obra, ou simplesmente, fazer campanha, que ano que vem é ano de reeleição.

NADA A ESTRANHAR

Entre as oposições, também nada a estranhar: o longo artigo, seguido da publicação escrita em inglês das memórias pessoais de Fernando Henrique Cardoso são mais um grande exemplo que ilustra o título que estou adotando. Primeira esquisitice: o ex-presidente se sentiu “mais confortável” revelando sua vida em inglês. Vá lá você entender o que isso quer dizer. Segunda: quanta lacuna também reveladora. Por exemplo: ele não lembra que ajudou – e como!!! – a transformar isto aqui em um grande hospício, patrocinando a tal da reeleição. Ou não foi dele a iniciativa? Temeria estar ficando louca se àquele tempo não tivesse sido eu a líder da bancada do PT na Câmara e, como tal, principal opositora daquilo de que hoje o PT faz largo uso e… abuso, por suposto.

Depois que Zé Dirceu, num ataque de apoplexia contra a imprensa burguesa que o persegue, desistiu do empreguinho de R$ 20 mil, acabo passando a acreditar no que me revelou a manicure que me atende: corremos o risco de não ter ano algum em 2014. Verdade verdadeira. Tem de tudo que todo ano tem: Ano-Novo, Carnaval, Semana Santa e mais Copa do Mundo, quiçá uma série de manifestações de rua, e para coroar tudo é ano de eleições presidenciais. Um prato mais que cheio para quem não quiser trabalhar.

De minha parte, fico ruminando uma alucinação de Nelson Rodrigues. Aliás, ele próprio, em suas “Memórias”, avisou que ia escrever sobre o que viveu, que se recordava e sobre suas alucinações. Vai ver que de agora em diante também vamos sofrer alucinações, como ele sofreu no dia seguinte ao da entrada em vigor da Constituição Federal de 1967, quando jurou ter ouvido um pequeno jornaleiro apregoar na avenida Rio Branco: “A Nova Prostituição do Brasil!, a Nova Prostituição do Brasil!”. E ele próprio ainda se autointitulava “o Reacionário”. Talvez andemos precisando de um reacionário assim… (transcrito de O Tempo)

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