As galinhas do PMDB

Sebastião Nery

Em 2002, da tribuna da convenção do PMDB, em São Paulo, o senador Pedro Simon fazia um patético apelo ao presidente do partido, Michel Temer, e a seus líderes no Senado e na Câmara, Renan Calheiros e Gedel Vieira Lima, para que “não vendam nossa casa de tantos anos, tantas lutas, tantas alegrias e tantas dores, desde a resistência à ditadura, à gloriosa legenda de Ulysses, Teotônio e Tancredo, e apoiem um candidato do partido à Presidência da República”.

No canto do auditório, um senhor gordo, corado e suado, vereador no interior de São Paulo, sorriu incrédulo:

– O senador está perdendo tempo com esse discurso bonito. Conheço o Michel há muito tempo, de várias campanhas. Ele não quer saber de Ulysses, Teotônio, Tancredo, história, nada disso. Atrás daquela fachada, daquela cara morta, indefinida, de professor sem aluno, está a alma miúda de um homenzinho que só pensa em vantagens e posições, só pensa nele e para ele. Com ele não adianta discurso alto. Galinha come milho com bico no chão.

E foi beber um copo d’água.

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O MILHO DE MICHEL

Quando Itamar Franco então chegou à tribuna e começou a dar nome aos bois, cobrando do bando governista sua traição ao partido, o vereador gordo, corado e suado tinha bebido sua água, voltado e ouvia Itamar atento:

– Essa gente não tem nenhum amor à Pátria nem ao partido. Um dia eles vão ter que se explicar pelo que fizeram contra o País nesses oito anos de FHC. Esta convenção majoritária, com a maioria dos convencionais do PMDB exigindo um candidato próprio, é uma resposta aos percevejos de gabinete e aos que vendem a alma. Michel Temer devia ter vergonha e renunciar à presidência de um partido em que ele é minoria e quer negociar, vender. O nosso partido ser liderado por Gedel Vieira Lima e a Fundação Ulysses Guimarães presidida por Moreira Franco, serviçal da ditadura, é uma vergonha para todos nós. Não vamos permitir que três pessoas leiloem nosso partido, que é nossa vida política! O sonho e a luta de Paes de Andrade, de sete anos, para que o PMDB tenha candidato próprio, tornou-se afinal majoritário no partido.

O vereador gordo, corado e suado ficou animado:

– É isso aí. Galinha só vai embora se tirar o milho. Michel também

E até hoje as michélicas, calhéricas e gedélicas galinhas do PMDB podem comer o milho que quiserem. Estarão sempre de bico no chão.

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