As mesmas receitas de sempre

Carlos Chagas 

Nem só da execução de Osama Bin Ladem e do assassinato do filho e netos de Muhamar Kadaffi vive o noticiário internacional. Revelaram-se, na semana que passou, as condições impostas pelo FMI para emprestar 78 bilhões de dólares a Portugal, a título de ajuda econômica. Privatizações em massa, daquilo que  restou de atividades do estado; cortes em educação e saúde pública; demissões no funcionalismo estatal  e nas empresas privadas; congelamento de salários, pensões e aposentadorias; aumento de impostos e extinção de benefícios fiscais. 

Em suma, a mesma receita para empobrecer nações, ainda que a pretexto de Portugal pagar suas dívidas externas e continuar remunerando o capital especulativo nacional e estrangeiro, bem como financiando o lucro dos bancos que lá operam.

O pior nessa novela de horror, com capítulos já encenados pela Irlanda, Grécia, Turquia e alhures é que o governo português aceitou, com o apoio da própria oposição parlamentar. 
No governo Fernando Henrique o Brasil submeteu-se a essas mesmas imposições, sem que a população fosse às ruas para protestar. E com o agravante da alienação de riquezas naturais que temos e Portugal não tem, assim como a supressão de monopólios constitucionais ausentes na Constituição de nossos avós. O diabo é que os portugueses também não estão protestando. O controle de seus meios de comunicação é semelhante ao que vigorou aqui, por muito tempo. Ou ainda vigora?

***                                          
DENÚNCIA AMPLA E IRRESTRITA
 
Passou despercebido dos jornalões um grave discurso pronunciado quarta-feira pelo senador Jarbas Vasconcelos. Tratou-se tanto  de um alerta contra a inflação quanto de veemente crítica ao governo atual. 

Para o representante de Pernambuco, passou a época da farra, o comportamento “Papai Noel” adotado pelo Lula para poder eleger Dilma Rousseff. Mas a prepotência continua, apenas com novos argumentos. A equipe econômica atribui o perigoso aumento da inflação ao crescimento. Tudo é culpa das demandas de uma população falsamente enriquecida: crise nos aeroportos, falta de etanol, reajustes nos serviços públicos, até os apagões seriam sinais, para os donos do poder, da pujança de nosso crescimento.

Jarbas criticou duramente o ex-presidente Lula, que mandou o povo comprar, apostando no consumo demasiado. Os brasileiros foram às compras, inclusive no exterior, e o resultado agora se vê: a inflação, de um lado, e o calote, de outro. A temporada de alta nos serviços continua, mas o governo corta investimentos e a produção fica impedida de crescer. Obras públicas estão paralisadas, como a transposição das águas do rio São Francisco e a ferrovia transnordestina.

Para o ano em curso, o prenúncio foi cruel, nas palavras do orador: apesar da submissão das centrais sindicais ao palácio do Planalto, começam a estourar movimentos de protesto, como nas usinas em construção no Norte do país e  em Itaipu. Logo o Sudeste será atingido pela onda de justas reivindicações, mais combustível para a inflação. E o governo, fará o quê?
 
***
RETROCESSO
 
Nos tempo bicudos da ditadura, era comum os detentores do poder justificarem a tortura como forma de evitar atentados, sequestros e assaltos. Diziam variados integrantes dos governos dos generais-presidentes que se não autorizassem a tortura montes de inocentes sofreriam e as instituições seriam postas em frangalhos. 

Pois é. O país libertou-se daquelas práticas execráveis e dos raciocínios esdrúxulos, mas qual  a surpresa quando vemos renascer a fórmula animalesca sendo utilizada lá fora? As principais figuras do governo dos Estados Unidos deixam cair a máscara e justificam atos de vandalismo explícito executados por seus agentes, como o afogamento simulado. 

Estaria a História transcorrendo às avessas? Se for assim, seria bom passar os olhos no almanaque militar dos americanos para ver que generais ocupam os primeiros lugares…
 
***
SEIS BILHÕES PARA O PARAGUAI
 
Caridade tem limite. O Congresso autorizou o governo a atender as exigências do Paraguai, que pretende a duplicação dos recursos pagos pelo Brasil para comprar, dos paraguaios, a energia de Itaipu que nos produzimos e vendemos para eles. O total do que iremos pagar por ano chega aos seis bilhões  de  reais. 

Virou lugar comum, mas é sempre bom repetir: para a implantação de uma das  maiores  usinas produtoras de energia do mundo, nós entramos com o capital, as obras e manutenção. Eles, apenas com a água, mesmo assim na base de um terço do total. 

Imagina-se que seis bilhões anuais serviriam para investimentos em educação, saúde, transportes e muita coisa a mais. Para doação é que não dá.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *