As primeiras cargas lanadas ao mar

Carlos Chagas

Coincidncia ou no, na mesma semana os dois principais candidatos demonstraram a disposio de livrar-se de carga incmoda em suas respectivas campanhas. No se trata de ingratido e nem se fala da ao que vinham tendo ou poderiam ter Fernando Henrique Cardoso e Jos Dirceu na conquista de votos para Dilma Rousseff e Jos Serra. Muito menos no eventual governo de um dos dois candidatos. A verdade, porm, que tanto o ex-presidente da Repblica quanto o antigo chefe da Casa Civil vinham tentando ocupar espaos a eles no franqueados e acabaram recebendo um chega para l.

Dilma Rousseff, num programa de televiso, afirmou ter muito respeito pelo Z, que no estar no cerne de seu governo. Sendo militante do PT, ter sempre seu lugar no partido. No tem conversado com ele.

J Jos Serra, indagado numa emissora de rdio sobre qual o papel do socilogo em seu governo, disse que ex-presidentes da Repblica esto num patamar especial e no podem ser aproveitados como colaboradores comuns, devendo ser preservados por conta de seu passado.

Traduzindo, apesar dos naturais elogios: fiquem de fora porque no h lugar para eles, nem agora nem depois. claro que nem Fernando Henrique nem Jos Dirceu acusaram o golpe, mas devem ter entendido perfeitamente os comentrios. Serra e Dilma no querem orculos nem corpos estranhos sua sombra. Prevalece aquela mxima to a gosto do falecido Antnio Carlos Magalhes: no se deve nomear quem no se pode demitir.

Fica tudo como est

Marina Silva acaba de confirmar nos Estados Unidos aquilo que Dilma Rousseff e Jos Serra vem dizendo por aqui: no muda nada na poltica macro-econmica, ou seja, se eleitos mantero as mesmas linhas fundamentais adotadas h quase dezesseis anos, quando Fernando Henrique assumiu o poder. Nada de reformas de base, sequer mudanas capazes de cercear benefcios ao capital estrangeiro. Facilidades aos investimentos externos, inclusive a especulao, campo aberto para os bancos e suas atividades financeiras, nenhuma taxao extraordinria para a especulao, muito pelo contrrio. Sem esquecer a flexibilizao de eventuais entraves constitucionais no setor social.

Numa palavra, os trs propem-se a desenvolver o mesmo modelo de FHC e de Lula, ainda que dando nfase ao assistencialismo. De uma forma ou de outra, trs neoliberais…

Cuidado com ele

Em So Paulo, no se deve esperar de Geraldo Alckmin que faa um governo de continuao nem de continuidade da administrao Jos Serra e Alberto Goldmann. O ex-governador tem contas a acertar com o candidato presidencial, especialmente se for derrotado por Dilma Rousseff. Serra no Planalto exigiria uma certa flexibilidade do novo governador, mas fora dele seria apenas uma sombra a reverenciar, jamais a temer ou copiar.

At agora so evidentes os sinais da vitria de Alckmin, apesar de sua cautela. Est preparado para a eventualidade da vitria de Dilma Rousseff, de quem depender para realizar um bom governo. Por isso no ataca o adversrio, Aloysio Mercadante, muito menos participa das baixarias que tem marcado a campanha no plano nacional. H quem jure ter ouvido do candidato frases de censura performance do candidato a vice na chapa de Serra, ndio da Costa.

Encruzilhada

Se na economia equivalem-se Jos Serra e Dilma Rousseff, em termos de planos para o futuro, diversas parecem as concepes dos dois candidatos para a poltica externa. A ex-ministra, se eleita, dever manter Celso Amorim por pelo menos mais um ano no Itamaraty. Conservar as mesmas diretrizes de independncia e no alinhamento automtico com os Estados Unidos.

J o ex-governador de So Paulo tende a refluir nas aventuras terceiro-mundistas do Lula, buscando integrao maior com as grandes potncias. Os dois nomes mais citados para chanceler, num eventual governo Serra, so os embaixadores j aposentados Rubens Barbosa e Srgio Amaral.

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