As revoltas nos povos árabes reacendem as discussões sobre o que diferencia uma democracia e uma ditadura. Por trás de tudo, protegendo os ditadores, há sempre o manto sagrado do imperialismo ocidental.

 Carlos Newton

Muitos comentaristas têm se manifestado acertadamente aqui sobre a existência de diversos níveis de democracia, que realmente variam de acordo com o que acontece em cada país. Isso significaria que o conceito de democracia é variável, quando não deveria ser. Da mesma forma, o conceito de ditadura também poderia variar.

São opiniões interessantíssimas, que podem produzir teses e mais teses de mestrado e doutorado, em discussões proveitosas e intermináveis. Nesse particular, na verdade temos poucas certezas absolutas. Uma dessas certezas é de que a política internacional difere completamente das políticas internas dos países.

Na política externa, o que sempre prevalece é o interesse das grandes potências. Por isso, países que se consideram generosas e sólidas democracias costumam sustentar sangrentas ditaduras, desde que sejam favoráveis às suas pretensões imperialistas, do ponto de vista estratégico ou comercial.

Em recente artigo, o jornalista Igor Fuser fez uma revelação absolutamente verdadeira: “Quando ingressei como redator na Editoria Internacional da Folha de S. Paulo, um colega veterano me ensinou como se fazia para definir, entre as centenas de notícias que recebíamos diariamente, quais seriam merecedoras de destaque no jornal do dia seguinte. ‘É só olhar os telegramas das agências e ver o que elas acham mais importante’, sentenciou. Pragmático, ele adotava esse método como um meio seguro de evitar que o noticiário da Folha destoasse dos jornais concorrentes, os quais, por sua vez, se comportavam do mesmo modo. Na realidade, portanto, quem pautava a cobertura internacional da imprensa brasileira era um restrito grupo de três agências noticiosas – Reuters, Associated Press e United Press International, todas afinadíssimas com as prioridades geopolíticas dos Estados Unidos”.

Era o que acontecia e ainda acontece nas redações, porque embora existam outros fornecedores de informação, como a CNN, a BBC, as agências ocidentais France Presse, Ansa e EFE, assim como as agências estatais da Rússia e de Cuba, por exemplo, a imprensa não mudou nada, especialmente porque os interesses dos Estados Unidos muitas vezes se confundem com os interesses dos países europeus.

É por isso mesmo que, na imprensa internacional e também na mídia brasileira (o que acontece na “Matrix” sempre é seguido rigorosamente aqui na filial), existem tratamentos diferenciados para as ditaduras que são do interesse do Ocidente e as que lhe são hostis.

Agora, com a ocorrência de revoltas em países como Tunísia, Egito, Bahrein, Líbia etc., “de repente”, como dizia Vinicius de Moraes, “não mais do que de repente”, a imprensa ocidental passa a lembrar que se trata de ditaduras, cada uma a seu modo e com sua intensidade.

Essa revelação então dá margem a todo tipo de saudáveis discussões, especialmente sobre os limites das ditaduras e das democracias. É muito interessante notar como as opiniões variam. Há quem considere que Israel não é uma democracia, embora nas eleições concorram partidos árabes e islamitas. Da mesma forma, há quem considere que a Turquia é uma democracia, também porque promove eleições e tem partidos livres.

Pessoalmente, eu prefiro ser julgado pela Justiça israelense do que pela Justiça turca, o que representa um dos parâmetros que utilizo para identificar alguma coisa que se aproxime de democracia. Em grande número de países da África, por exemplo, o que menos existe é democracia. As ditaduras são sangrentas e racistas, as etnias se digladiam e se destróem, o Ocidente assiste a tudo passivamente, como se ninguém tivesse nada a ver com isso.

O que ocorre na Guiné Equatorial, por exemplo, é de revoltar qualquer pessoa com um mínimo de consciência. O petróleo e as demais riquezas do país – madeira e minérios – estão sendo dilapidados por uma ditadura terrível, que deposita em bancos ocidentais o dinheiro roubado ao povo, de tal forma que o ditador Teodoro Obiang é considerado pela revista Forbes como o oitavo governante mais rico do mundo.

Hipoteticamente, por essas distorções que costumam haver nas estatísticas, a Guiné Equatorial tem o maior PIB per capita da África, o que é uma falácia, porque o país registra um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano. Motivo: o dinheiro é quase todo desviado pela quadrilha de Obiang. Os hospitais não têm remédios, lençóis, quem quiser se tratar tem de levar tudo de casa e ainda pagar o médico. A média de expectativa de vida não passa de 44 anos. Não é preciso dizem mais nada.

E ninguém parece se incomodar. Há 31 anos no poder, Obiang é saudado na ONU como estadista, e os antigos colonizadores (a Espanha) fazem homenagens a ele. Aqui no Ocidente, ninguém fala em derrubar o déspota Teodoro Obiang. Por essas e outras, quando se discute democracia e ditadura, é sempre bom lembrar o célebre pensador britânico, Lord Kenneth Clark, que dizia: “Civilização? Não sei o que é isso. Mas tenho certeza de que, se algum dia eu encontrar, saberei reconhecer”.

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