As tragédias da Nicarágua, ao final de uma revolução que se perdeu

Resultado de imagem para revolta na nicaragua

É preciso usar máscara, para não ser reconhecido

Sebastião Nery

No muro velho, coberto de limo e furado de balas, a denúncia: “Os direitos humanos são três: ver, ouvir e calar”. Em outro muro, branco e limpo, a esperança: “Bolívar y Sandino, este es El Camino”. Nas vésperas de fugir, Somoza fez um apelo final ao embaixador norte-americano: “Não podemos entregar o país a nossos inimigos. Precisamos vencer nem que para isso seja preciso destruir a metade da pátria.” O embaixador americano sorriu: “Qual? A sua ou a nossa?”

A menina linda, cabelos negros e olhos puxados, estudante e guerrilheira, sentada a meu lado no avião, conta a piada para mostrar como seu povo sabia bem quais eram seus principais inimigos. E por isso é que a unidade nacional tão poderosa se fez na hora da luta final.

SANGUE E LUCIDEZ – A história destes povos tão miseráveis e tão sofridos da América Central está sendo escrita com sangue, mas também com uma dura lucidez. Eles aprenderam em séculos de dominação e dependência que o caminho da liberdade é a decisão de lutar. Como Bolívar e Sandino ensinaram.

Desço no aeroporto, está lá em letras enormes: “Bem vindos à Nicarágua livre.” E um retrato do general Augusto Cesar Sandino, o herói da independência nas lutas contra os Estados Unidos no começo do século: chapéu, lenço no pescoço e o lema: “Pátria livre ou morrer.”

Não parecia que este povo acabara de derrubar uma ditadura com uma guerra civil. A alfândega é apenas um rapaz olhando e carimbando o passaporte, outro abrindo e fechando as malas mecanicamente e em menos de um minuto para ver se há armas, e uma garota na caixa cobrando um dólar e meio de taxa de desembarque. Nenhum ar de desconfiança ou de receio.

DOIS GUERRILHEIROS – Armados, apenas dois guerrilheiros, com suas fardas verdes e boinas vermelhas: um jovem de no máximo vinte anos e uma menina morena, muito morena e muito menina, dizendo amavelmente: “Bienvenido.” E só. Nada daquele clima de terror policial que se vê em tantos cantos do mundo.

Eles aprenderam, de um duro aprender, que só há uma segurança: a vontade nacional.

Não sei o que aconteceu com os mais velhos nesta incrível terra de jovens. Só se veem jovens. Chego ao Palácio da Revolução – que era o Palácio Nacional tomado pelo Comando Zero e seus companheiros em agosto – um garoto de farda verde e metralhadora na mão pergunta se estou armado e passa a mão em minha cintura.

– Por que esse cuidado todo?

– Os inimigos. Ainda não ganhamos tudo. Há inimigos ainda por toda a parte.

MAIS POBRE – Volto para o Hotel Intercontinental, abro a janela do oitavo andar e de repente entendo porque tudo aconteceu. Outras vezes estive aqui, em 1958 e 1960. E percebo que esta capital da Nicarágua, tantos anos depois, neste outubro de 19798, é muito mais pobre e abandonada.

Claro que houve o terremoto de 1972, que destruiu o centro quase todo, mas o maior crime de Somoza foi exatamente ficar com o dinheiro da solidariedade internacional e depositar em dólares nos bancos dos Estados Unidos. Manágua é a capital mais pobre de toda a América Central.

UMA FAZENDA – Da janela vejo o quadro da ditadura. Somoza fez daqui uma fazenda sem metáfora. Atrás do hotel, o bunker de onde ele governava. Em frente, o único edifício alto da cidade, o Banco da América. Lá no fundo a catedral. E as casas de barro cobertas de papelão espalhadas por todo canto.

Tudo exatamente como em uma grande fazenda. O povo muito pobre andando nas ruas e a rádio no quarto do hotel cantando a vitória sobre a ditadura: “Rádio amor, pobre, mas honrada como a Pátria.”

20 thoughts on “As tragédias da Nicarágua, ao final de uma revolução que se perdeu

  1. As pessoas não aprendem que o Estado não é solução, é o problema.

    Infelizmente, o Brasil adotou a corrente social-fascista com Getúlio em 35, assim a a Argentina também o fizeram com Peron e o México com o PRI. As outras correntes de socialismo, inventado por Marx, são o nacional-socialismo e o social-comunismo. Essa duas últimas, foram radicalmente violentas, deixando um saldo de quase 100 milhões de assassinados pelo Estado.

    Enfim, o estado tem que ser o mínimo. Intervir o mínimo possível, principalmente na produção, que é o que emprega o povo de um país.

    A realidade não cabe em ideologias.

  2. Nicarágua, Venezuela, Cuba, Bolívia, Brasil, o que acontece com a esquerda quando implanta o comunismo?

    A lei é roubar e explorar?

    Manter-se no poder à força, a ferro e fogo?

    Enganar o inculto e incauto?

    Empobrecer o país e transformá-lo em um bolsão de miséria?!

    A esquerda tem o quê de útil e de medidas criadas nos países onde atuou?

    Nada?
    Só fome, desespero, liberdade cerceada, direitos individuais e coletivos negados?
    E matar quem dela discorde, mesmo compatriotas?

    Por que os regimes comunistas e falsos socialistas são registrados na história como tragédias?!

    União Soviética, China, Coréia do Norte, Camboja, Cuba, Vietnã, Nicarágua, Venezuela, Romênia, por que não existem dados positivos a respeito desse regime totalitário?!

    Os professores de História estão lecionando muito mal esta matéria, respeitosamente!

  3. Na ditadura Somoza não havia o narcotráfico ? Há uns dois anos um dos chefes do DEA disse que enquanto houver um mercado de U $ 200 bilhões de cocaína nos EUA nada mudará.
    Na ditadura militar chilena até quarteis viraram ” refinarias ” .

  4. Não sou a favor de ditadura alguma, venha ela de onde vier, se da esquerda ou da direita mas, em nome da verdade, torna-se obrigação dizer o seguinte:

    Nossos generais, que foram presidentes da República, morreram da mesma forma como subiram a rampa do Planalto;

    Jamais se ouviu que estivessem envolvidos em corrupção;

    Incomparável e indiscutivelmente menor, as vítimas do regime militar brasileiro com aquelas produzidas pelo Chile, Uruguai e Argentina!

    A ditadura brasileira foi branda, pois havia eleições, menos para presidente e governador, prefeituras que fossem estâncias hidrominerais e litorâneas, mas tínhamos o direito de ir e vir, emprego, estudos, a vida do cidadão que não fosse comunista ou simpatizante desse movimento era absolutamente normal!

    Apesar de eu ser favorável à intervenção militar -única chance que temos de mudar esta conjuntura que nos rouba e explora, amassa e nos oprime, e depois o poder ser devolvido ao povo -, as atrocidades cometidas pelos militares desses países citados não são diferentes daquelas cometidas pelos nazistas em campos de concentração!

  5. Mais um “bandido do Foro de São Paulo” igual a Maduro e Lula, a cadeia tem que ser a morada dessa “canalha corrupta/cleptômana/terrorista” , Cadeia Nelles !

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *