Asilados, exilados, fugitivos, turistas, guerrilheiros. O tumulto vernacular, a interpretação de má fé. Por que esqueceram Jango?

O assunto ganhou dimensão e propensão, depois da entrevista inútil, desnecessária e até depreciativa para ele mesmo, (que não merecia) e não ocupou a chefia do CODI-DOI, depois DOI-CODI, na fase da luta armada (até 1974). E obteve repercussão com interpretação tatibitati de Dona Dilma, pré-candidata, que se julga mais do que candidata e sim presidente eleita. (O general Leônidas tentou criar fatos que não penetraram, mas de qualquer maneira é um participante).

Os jornalões e televisões, presos (nenhuma intenção) ao assunto único da sucessão de Lula, deram grandes espaços, mas como sempre, erráticos, desinformados e esquecidos, no plano vernacular, político, e desprezando a competência de muitos.

Quero chamar atenção aqui, para o fato de todos terem citados Arraes, Prestes e Brizola (três casos ou definições inteiramente diferentes), e nem dado uma palavra sobre João Goulart. Este era o presidente deposto, logicamente não podia ficar no Brasil.

Jango não se enquadra nas cinco definições do título destas notas, tentou ficar no Brasil, foi do Rio para Brasília, de lá para o Rio Grande, e só então, quando “a presidência fora considerada vaga”, atravessou a fronteira. Já os três citados têm e sempre tiveram situação inteiramente diferente.

Luiz Carlos Prestes – Viveu sempre na ilegalidade, liderou a coluna histórica que leva seu nome, não quis chefiar a “revolução” de 30, pretendia que não tivesse aspas, lançou o Manifesto Comunista de 1932, foi para a União Soviética.

Voltou em 1935, realizou a única Revolução verdadeira do Brasil, queria, abertamente, que mudasse a forma de governo, e a produção e distribuição da riqueza, Mas sem recursos, sem quadros, sem organização, foi facilmente derrotado e logo a seguir preso por 9 anos, sendo que de 1936 a 1940, foi o homem mais torturado da nossa História.

Em 1964 já estava preparado, conhecendo como ninguém os caminhos da clandestinidade, (não fez outra coisa a vida toda) foi embora sem qualquer trauma ou obstáculo, nem foi procurado, sabiam que estava longe.

Miguel Arraes – Comunista aberto e declarado, nessa condição foi eleito prefeito do Recife e depois governador de Pernambuco, (único estado onde isso podia acontecer) teria que ser o primeiro atingido.

Como a “revolução” se dizia anticomunista, (e o general Leônidas garantiu isso várias vezes na entrevista monótona e desinteressante), foi retirado do governo logo no dia 1º de abril.

Ficou ali perto, mandado para Fernando de Noronha, (que pertencia a Pernambuco), onde ficou 60 dias, junto com o também governador Seixas Dória. Não sabiam o que fazer com Arraes. Livre? Impossível. Preso e transformado em mártir? De jeito algum.

Então, um dia, chegou em Fernando de Noronha um general de patente valiosa, com uma proposta enviada e referendada pelo alto escalão.

A proposta: seria solto imediatamente, iria para o Recife, teria uma semana para ir viver no exterior, no país que escolhesse. Seu passaporte seria visado sem obstáculos nem restrições. Lógico, Arraes não poderia recusar, deixaram bem claro: “Não nos responsabilizamos pelo que acontecer se o senhor ficar no Brasil”.

Arraes escolheu a Argélia, não houve nem consulta, o país vivia sob ditadura comunista, comandada pelo “camarada” Boumedienne. Recebido com honras e foguetório, passou a ser considerado “vice-rei” da Argélia.

Entrou no mundo dos negócios, ganhou muito dinheiro, passou a perseguir os brasileiros que chegaram antes e depois dele. De tal maneira que tiveram que ir embora. Não existiam mais condições de ficarem lá. O primeiro a sair foi Marcio Moreira Alves, o grande perseguido de 1968, que se enquadra em quase todas as categorias: exilado, asilado, perseguido e até FUGITIVO, no sentido positivo, pois sua saída do Brasil, no dia 13 de dezembro de 1968, uma aventura em muitos episódios, pois para ele, fecharam todas as fronteiras.

Algum tempo depois, derrubado Boumedienne, comunista, ditador e negocista, (nem sempre divergentes, muitas vezes convergentes) veio outro do partido, o Poder de Arraes aumentou. (Há um excelente filme francês sobre a derrubada e o assassinato, mais tarde, de Boumedienne. O ator Jean-Louis Trintignant fez o papel principal).

Um dos perseguidos por Arraes foi seu adversário Francisco Julião, que teve que abandonar o país. Antes de 1964, Arraes já combatia Julião. Quando este criou as bravas Ligas Camponesas, Arraes lançou os Sindicatos Rurais, represália contra Julião, retrocesso para o povo pernambucano.

Continuou a carreira política e eleitoral, nenhum contratempo, os anos de estadia fora do país, descanso e regalia. Voltou, queria tudo, como sempre, não concedia nada.

Leonel Brizola – Era o grande inimigo da “revolução”, pode ser dito que foi feita contra ele. Não esqueciam de 1961, da “renúncia” de Janio, que com apoio dos militares queria voltar (ou continuar, a mesma coisa) com plenos Poderes.

Os militares tomariam o Poder nesse 1961, sem as dificuldades e os desgastes de 1964. Mas Brizola não deixou. Atraiu o general Machado Lopes, comandante do III Exército, e como os generais só tentavam qualquer golpe com a união dos Quatro Exércitos, “evoluíram” para o Parlamentarismo com Tancredo Neves. Só que não esqueceram de Brizola.

Este foi embora, (não há denominação que caiba no figurino de Brizola ou se ajuste ao seu tamanho), foi para o Uruguai. Ficou em Montevidéu, deu entrevista proibida pelo Tratado de Exílio, os generais brasileiros pediram aos generais uruguaios que punissem o ex-governador brasileiro.

Foram atendidos. Assim, o exilado Brizola, foi novamente exilado, obrigado a viver em Atlântida, a 120 quilômetros de Montevidéu. Nessa época eu não conhecia Brizola. Em 1979, voltando ao Brasil, aparece no dia seguinte na Tribuna, me diz: “Minha primeira visita tinha que ser para você, tua resistência no Brasil, é um marco e um fato histórico”.

Ficamos amigos, Lacerda morrera em 1977, tinha que escrever artigo sobre ele, saiu, mas todo riscado e censurado. Um dia, ou melhor, numa noite de conversa e “café gaúcho”, que eu nunca experimentara, confessou: “Não queria sair do Brasil como você, mas as informações é que seria assassinado, ameaças que você também recebeu”. Tudo verdade.

Em 1966, Lacerda foi a Montevidéu encontrar João Goulart para assinarem o Manifesto da Frente Ampla. Eu ia com ele, fui impedido. Lá, a primeira pergunta de Jango: “Governador, o Helio Fernandes não vinha com o senhor?”. Lacerda contou o que acontecera, Jango respondeu: “Aqui, nossa satisfação pela manhã, é a chegada dos exemplares da Tribuna, que são devorados por todos”.

***

PS – Definida a participação de Brizola, Arraes e Prestes, lavrado meu protesto sobre o esquecimento de Jango, confinado ao ostracismo histórico, tenho que interromper as lembranças.

PS2 – É tudo histórico, são tantos personagens, que ficaria ainda mais longo do que ficou. A História vivida e contada, inteiramente diferente da que é arrancada e desfolhada dos jornais da época, mostrada como autêntica.

Amanhã:

A definição do que é EXILADO e ASILADO, as outras denominações
que surgiram, (longe do Aurélio ou do Houaiss), as falas obtusas de Dona Dilma, absurdas do general Leônidas. Os dois podiam ficar em silêncio.

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