Assange e seu Wikileaks ganham força para seguir em frente com financiamentos por doações voluntárias. Daniel Ellsberg (o “Garganta Profunda” dos Papéis do Pentágono) considera Assange o herói do século.

Federico Rampini

Oitenta mil leitores da Time querem que Julian Assange seja o “homem do ano”, a ser colocado na capa da revista. “Ele deve ser perseguido como Osama Bin Laden”, intima a líder da direita norte-americana Sarah Palin. “Condenemos à morte todas as gargantas profundas”, invoca na Fox News o âncora Bill O’Reilly, enquanto o deputado republicano Peter King propõe o “crime de terrorismo” para os vazamentos de notícias.

Mas quem está verdadeiramente por trás do WikiLeaks? A quem é útil politicamente o cataclismo diplomático orquestrado pelo seu chefe Julian Assange? Como funciona o seu universo paralelo, que usa um impenetrável segredo interno para impor o máximo de transparência aos governos do mundo todo? Sem protetores poderosos, só um gênio pode fugir da caça planetária ao homem e ressuscitar o seu site depois de formidáveis ataques informáticos. Esse australiano de 39 anos já conquistou um lugar no Panteão dos grandes da era da internet.

Como Bill Gates (Microsoft), Larry Page (Google) ou Mark Zuckerberg (Facebook), Assange também  é um inovador revolucionário. Usando as novas tecnologias, demoliu costumes diplomáticos antigos há séculos. Um “gigante da informática”, como o definem também aqueles ex-colaboradores que decidiram abandoná-lo por divergências políticas ou éticas.

É um justiceiro ou um criminoso, anjo ou Mefistófeles? Daniel Ellsberg, a garganta profunda que, em 1971, revelou ao The New York Times as mentiras de Estado sobre o Vietnã (os Pentagon Papers), considera Assange o herói do nosso tempo: “Esperei 40 anos – diz – para ver alguém que abatesse os segredos de Estado de modo a mudar o curso da história”.

Mas as deserções polêmicas de tantos dos seus colaboradores podem retratar um outro personagem: ambíguo, irresponsável ou manipulado.

Da clandestinidade, respondendo por e-mail às entrevistas, Assange desafia os seus adversários: “O que fizemos até agora é uma milésima parte da nossa missão”. Sobre Hillary Clinton, que o acusa de colocar vidas humanas em perigo, ele diz: “Há 50 anos, esse é o álibi usado por todo governo norte-americano, para impedir que a opinião pública saiba o que eles fazem. Mas a coragem é contagiosa: quanto mais demonstrarmos que a verdade está vencendo, mais teremos novas revelações”.

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JAMES BOND DA CONTRAINFORMAÇÃO

Leva “uma vida de James Bond da contrainformação”, como ele mesmo a define. Viaja sob nome falso, evita os hotéis, pinta os cabelos, muda continuamente de celular (criptografado) e impõe aos seus colaboradores que façam o mesmo. Paga só em dinheiro vivo (os cartões de crédito deixam rastros), e o dinheiro também deve ser emprestado para ele, para não usar o caixa eletrônico.

Porém, o início dessa história é bem diferente, o que aumenta o mistério do WikiLeaks. Catalogada no seu batismo em 2006 como um “órgão de informação internacional não lucrativo”, ele se autodefine assim: “Um sistema à prova de censura, para gerar vazamentos maciços de documentos reservados, sem trair sua origem”. Entre as regras estatutárias: “Só aceita materiais secretos”, e os documentos devem ter “relevância política, diplomática, histórica, ética”.

Um ano depois do seu lançamento, já havia 1,2 milhão de documentos no site WikiLeaks. Nas origens, a organização se descrevia como um coletivo, animado por notáveis dissidentes chineses como Xiao Qiang, Wang Youcai e Wang Dan; jornalistas em luta contra as ditaduras; e matemáticos e especialistas em informática que cooperavam dos Estados Unidos, da Europa, da Austrália, de Taiwan e da África do Sul.

O componente chinês do núcleo fundador é importante: aqueles dissidentes se aliaram para “furar” um muro impenetrável, a Grande Muralha de Fogo, a censura informática da República Popular. A sua presença também está nas origens de venenosas suspeitas – provavelmente infundadas – sobre a infiltração dos serviços secretos de Pequim no WikiLeaks.

Nos primeiros anos, a batalha se dirigiu principalmente contra os regimes autoritários, os genocídios, a repressão do dissenso. Em 2008, o WikiLeaks ganhou um reconhecimento da Anistia Internacional pelas revelações sobre as execuções sumárias da polícia no Quênia. A revista The Economist entregou ao site o prêmio New Media Award.

Tudo mudou de repente em abril de 2010, quando, no WikiLeaks, apareceu o vídeo de um massacre de civis iraquianos por parte de soldados norte-americanos. Depois, em julho, saiu a primeira fornada de 76.900 documentos secretos sobre a guerra no Afeganistão, seguida de 400 mil comunicações confidenciais sobre o conflito no Iraque. Até chegar ao grande golpe que espalhou à luz do sol 250 despachos dirigidos ao Departamento de Estado das embaixadas dos EUA.

Os EUA de Barack Obama se tornaram o alvo número um. Coincidentemente com essa reviravolta, aumentou significativamente a visibilidade do WikiLeaks. Como líder, surge o australiano Assange, com um passado de pirata da informática. A novidade sacudiu alguns defensores do “primeiro” WikiLeaks. A agência de imprensa Associated Press, o Los Angeles Times, a federação dos editores de jornais dos EUA, que haviam financiado o site, repensam a respeito. A Anistia Internacional e os Repórteres Sem Fronteiras criticam Assange com o mesmo argumento de Hillary, “por ter colocado vidas humanas em perigo” (divulgando nomes de informantes afegãos da CIA, agora expostos à vingança dos talibãs).

À retirada dos grandes apoiadores, Assange reage apoiando-se em uma miríade de simpatizantes, os micropagamentos chegam do mundo inteiro usando o sistema Paypal. Mais inquietantes são as deserções entre os amigos e os colaboradores mais estreitos. Um verdadeiro “cisma”, acelerado depois das acusações de abusos sexuais (não usar camisinha) por parte de duas mulheres suecas contra Assange (ele nega, diz que as relações foram consensuais).

Pelo menos uma dezena de voluntários do núcleo original do WikiLeaks foram embora. Alguns se pronunciam. Como o islandês de 25 anos Herbert Snorrason, que diz o seguinte sobre Assange: “Já está fora de si”. Birgitta Jonsdottir, uma parlamentar islandesa que também havia estado entre os ativistas fundadores, acusa Assange de ter decidido tudo sozinho sobre os segredos militares norte-americanos no Afeganistão. Outros, por trás do anonimato, o acusam de ter se tornado “megalomaníaco, ditatorial”.

Os fidelíssimos, porém, não o abandonam: 40 voluntários, 800 ajudantes externos. Um milagre econômico para uma organização que sobrevive com um orçamento de só 200 mil euros por ano. Sem uma sede física. Deslocando-se virtualmente entre aquelas “praças jurídicas off-shore” das leis mais tolerantes para a liberdade de expressão. Um prodígio tecnológico principalmente: “Como é possível” – perguntaram as autoridades inglesas – “que o Pentágono, com todo o seu poder na guerra eletrônica, não consiga ocultar o WikiLeaks para sempre?”.

A resposta está totalmente no gênio de Assange. Em fuga perpétua da Austrália à Suíça, de Berlim a Londres, talvez a ponto de pedir asilo na Suíça, ele usa o mesmo método até para os servidores da Internet, mudando constantemente seus próprios pontos de comunicação. E ele tem uma arma secreta, a qual ele define como o seu “seguro de vida”: muitos documentos reservados em sua posse já foram “descarregados” via twitter em forma criptografada nos computadores de dezenas ou talvez de centenas de simpatizantes. “Se acontecer alguma coisa comigo” – ameaça Assange – “ou ao site principal, dispara automaticamente a divulgação da senha que permitirá difundir todo esse material”.

Blefe ou verdade? Tudo o que se refere a Assange se presta a leituras duplas, é circundado por uma aura de mistério. O próprio uso político que é feito dele: a direita norte-americana o denuncia como um terrorista, mas ao mesmo tempo instrumentaliza as fugas de notícias contra o governo Obama. A mídia aprendeu como Assange pode ser implacável: o The New York Times foi colocado “em quarentena” por não ter aceito, sem ter visto, os diktats do WikiLeaks, o Wall Street Journal e a CNN foram colocados de lado pelas revelações.

Buscado por polícias e magistraturas, no alvo dos hackers, o Pimpinela Escarlate que abateu toda regra dos segredos de Estado debocha do anúncio de que a Casa Branca e o Departamento de Estado irão rever todos os sistemas de comunicação: “O novo rosto da censura moderna é impedir a fuga de notícias reservadas. Mas, mesmo que inventem novas proteções, sempre será possível enganar os sistemas”.

Artigo publicado originalmente em “La Repubblica”
por Federico Rampini, tradução de Moisés Sbardelotto.

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