Assassinato de Eliza supera até o terror de Drácula

Pedro do Coutto

O brutal e hediondo assassinato da jovem Eliza Samúdio, que pertence ao universo da vida real, sem dúvida alguma supera em crueldade o terror da ficção, na literatura e no cinema, imaginado na saga de horror absoluto do Conde Drácula e de Frankenstein.Como caso isolado não tem paralelo em matéria de planejamento de crueldade. E como expressão humana de ódio, volúpia e transtorno, só encontra correspondência no holocausto nazista praticado contra milhões de judeus nos campos de concentração, segunda guerra mundial. A atuação diabólica de Hitler, Goebbels, Goering, Himmler, Borman e Adolf Eichman, até hoje, setenta anos depois, ainda estarrece o mundo.

Drácula e Frankenstein pertencem ao universo da fantasia macabra e, figuras de ficção, foram eternizados em obras literárias e na filmografia, não só americana, mas de vários países. E aí surge a primeira questão em torno do episódio sinistro que, de acordo com a Polícia e o Ministério Público, tem como acusado central o goleiro Bruno Souza, do Flamengo, cujo contrato foi suspenso pela presidente do Clube, Patrícia Amorim, e que em torno de seu nome teve retirados os patrocínios da Petrobrás e da Olimpikus. No caso, a tragédia da vida real foi além da fantasia.

Sequestro, paternidade criando direitos de pensão, coação para que Eliza ingerisse bebidas abortivas, privação da liberdade, estrangulamento covarde ao extremo, precedido de testemunhos que o drama tornou cúmplices, esquartejamento e – ainda por cima – divisão do corpo por cães Rotweiller famintos.

Nos rastros de sangue e horror, sepultamento dos ossos em local ainda não identificado plenamente. Que mais pode se adicionar à morte da jovem? Não importa sua vida ou suas atividades profissionais praticadas à sombra dos costumes e dos padrões de normalidade. Tampouco sua investida para ter reconhecido o direito de pensão para seu filho. Nada que nem em milésima fração possa ser comparado ao abismo sem fim do desfecho fatal.

De  acordo com a Polícia do RJ, recusando-se a pagar uma pensão de 3 mil e 500 reais, o goleiro Bruno envolveu-se numa rede de crimes que o terminou devorando, após imobilizá-lo numa teia sinistra. O episódio já lhe custou infinitamente mais caro e sua situação não parece tender a melhorar. Pelo contrário.

Todos os praticantes do crime – apontados pela reportagem de O Globo de ontem, dia 8, estão mergulhados numa areia movediça e se afundam progressivamente. Não há saída para eles. A cada dia, estão pior do que na véspera. Mas o caso macabro me leva a lembrar uma velha discussão que, apesar da compreensão coletiva ter evoluído, ainda permanece.

Trata-se da posição de muitas pessoas que julgaram que obras como as que marcam a tragédia grega, muito antes de Cristo, as tragédias de Shakespeare como Otelo e Hamlet, por exemplo, as peças de Nelson Rodrigues e Tennessee Williams, somente poderiam acontecer na literatura, não na vida real. Erro total.

Sempre contestei esta visão, desde a juventude, por achar que ficção e realidade se encontram, sobretudo em matéria de maldade e hediondez. Quando achavam a obra de Nelson Rodrigues impossível de acontecer, que era impossível na vida comum, eu argumentava: o nazismo foi possível? Agora, além do exemplo dos carrascos marcados pela crueldade da suástica, devemos todos perguntar a nós mesmos: como é possível ocorrer um assassinato com as características tenebrosas que levou Eliza Samúdio à morte?

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