Assim como o Posto Ipiranga j est perdendo gs, a caneta BIC tambm pode perder a tinta

Guerra ao parlevu - 04/09/2019 - Ruy Castro - Folha

A caneta Bic precisa assinar decises realmente acertadas

Eliane Cantanhde
Estado

O embate entre o capito da caneta Bic e o general de Exrcito com ordem de comando marca uma nova etapa na relao do presidente Jair Bolsonaro no s com o vice-presidente Hamilton Mouro, mas com as Foras Armadas. A unanimidade aparente ruiu, a insatisfao silenciosa emergiu e o momento de avaliao de danos, ou de contagem de votos para um lado e para outro.

Sem noo da gravidade na sade, na economia, no ambiente, na poltica, o presidente acha que pode falar e fazer o que lhe vai pela cachola, trocando a responsabilidade do cargo pelo oba-oba de uma campanha extempornea, divertindo-se com a boiolagem cor-de-rosa do Guaran Jesus, humilhando o general da Sade, tirando o gs do ministro da Economia e guerreando contra a vacina do Dria.

MANDA E OBEDECE – puro non-sense, mas Bolsonaro vai comprando lealdade com cargos e camaradagem. Qual um paizo s antigas, grita e d umas palmadas, fingindo no ver a safadeza do caula com o mais velho, mas resolve tudo bajulando o ofendido. A vtima d um sorrisinho e cede: um manda, o outro obedece.

Pergunte-se a Paulo Guedes e aos generais Luiz Eduardo Ramos, Augusto Heleno e Eduardo Pazuello e todos reagem com um sorriso condescendente: o presidente assim mesmo, diz tudo na bucha, mas gosta muito de mim.

O passo seguinte descrever uma situao em que Bolsonaro, depois de mais uma bordoada, fez uma gracinha e alisou o ego do subordinado diante de um microfone. Pazuello teve direito a vdeo no leito da covid, Ramos foi paparicado com passeio de moto e num discurso em que foi tratado como meu amigo, no Secretrio de Governo e articulador poltico. Comovido, deixou pra l o Maria Fofoca disparado por Ricardo Salles.

GUERREANDO ENTRE SI – Desanimado, mas tentando demonstrar o contrrio, Guedes tem definido o governo como um forte apache cercado de ndios e flechas, mas com todo mundo dentro guerreando entre si. Ele no diz, mas isso s ocorre em forte apache em que o comandante no comanda e soldados fazem o que querem.

Um dado relevante no incmodo crescente do oficialato a desenvoltura que Bolsonaro confere tal ala ideolgica dos filhos, Salles e os Weintraub que pululam no governo. O prprio, demitido da Educao, foi curtir a vida nos States, ganhando em dlar no Banco Mundial.

Em sequncia, Bolsonaro disse que no vai comprar a vacina da China e desautorizou o anncio feito por Pazuello aos governadores e ao Pas, Salles atacou Ramos como Maria Fofoca e o presidente da Cmara como Nhonho, at que o general e ex-porta-voz Otvio do Rgo Barros alertou em artigo que o poder inebria, corrompe e destri e que lderes no podem ficar refns de comentrios babes e demonstraes alucinadas.

AVALIAES DIFERENTES – Na contabilidade do Planalto, 90% dos militares ficaram irritados com Rgo Barros. Nos corredores militares, a avaliao diferente, com muitos aliviados por algum, enfim, sair da toca para reforar o general Santos Cruz e dizer o que precisava ser dito. A diferena que, nos palcios, dizem o que os poderosos querem ouvir. Nos bastidores, mais fcil ser sincero.

No fim, Mouro firmou sua independncia (ou descolamento), desdenhando da briga poltica com o governador de So Paulo, falando pragmaticamente sobre a China e desdizendo o presidente: O governo vai comprar a vacina, lgico que vai. A reao de Bolsonaro foi de confronto: A caneta Bic minha. A guerra est s comeando.

O desconforto bate nas Foras Armadas, Itamaraty, vrias reas de governo e da sociedade, com reflexo no Congresso, onde nada anda e h um risco real: chegar a 2021 sem Oramento aprovado. O Forte Apache precisa de um chacoalho. Assim como o Posto Ipiranga est perdendo gs, a caneta BIC tambm pode perder a tinta.

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