Assombraes, vida e morte num vale de lgrimas

Jacques Gruman

O nome, no lembro. Talvez seja uma obra menor na filmografia do Al Pacino. Um motorista bbado atropela e mata uma moa. condenado a alguns anos de priso. O pai dela, inconformado, planeja vingar-se. Obcecado, sua vida passa a girar em torno de uma imagem nica: o tiro que daria no assassino de sua filha, no momento exato em que ele sasse da cadeia. O tempo emocional para, a vida afetiva entra em colapso quem aguenta um monotemtico? -, no consegue se manter em nenhum emprego. Vira um trapo, riscando cada dia na folhinha e lustrando o revlver que sequestrara sua alma.

Chega o dia to sonhado. Segue-se uma perseguio hollywoodiana, que termina num cemitrio. Prestes a consumar sua vingana, o homem percebe que est na frente do tmulo da filha. Leva um choque, em tantos anos jamais tinha estado ali, artifcio inconsciente para negar a tragdia. A pedra tumular tem um efeito libertador. Cai de joelhos, larga a arma e, finalmente, admite a morte da filha, dura e inevitvel realidade, longamente soterrada por outra morte, a planejada.

Neste momento, lembrei de um velho ditado em dish: trern zainen di zaif fun di neshome (numa traduo livre: lgrimas so o detergente da alma). O protagonista da histria levou anos para admitir a perda e transitar para uma nova etapa. Chorar ajuda a atravessar o rio da nossa desesperana. Quantos de ns no enfrentam dilema semelhante, sejam perdas fsicas ou simblicas ?

O CHORO E O LUTO

O Menino teve a sua cota. O Grande, aflito profissional, no resistiu a um ataque cardaco. Tinha pouco mais de quarenta anos. A primeira reao foi letrgica. Olhos, corao, corpo, tudo congelou no Menino. Foi nesse momento que veio o socorro providencial de uma vizinha com esprito mediterrneo. Quebrou a couraa gelada na base do grito e de uma vigorosa sacudida. Chora!, ordenou aquela mulher sbia. E umidades ancestrais brotaram no rosto assustado.

O luto, entretanto, migrou rapidamente para o subterrneo e s veio tona depois de vinte e dois anos, tempo em que se recusou a visitar o cemitrio. Quando o fez, foi surpreendido por sensaes desconhecidas. Sobretudo chorou. Muito. Cada vez que olhou de frente para aquela pedra preta. A elaborao de tudo aquilo, to fortemente negado, no foi fcil, mas, como frequente em situaes de perda, despedir-se termina por abrir caminhos.

CAPRICHOS DO TEMPO

Tal como a Histria, o tempo tambm cultiva seus caprichos. No se comove com ansiedades, nem negocia aceleraes. Vocs sabem que no sou religioso. No entanto, reconheo que certos rituais condensam um acmulo de vivncias que no vale a pena desprezar. Veja-se o caso do luto no judasmo. H pelo menos dois momentos em que se concede um tempo para que os enlutados mergulhem na memria afetiva e iniciem o lento e doloroso processo de despedida. Este convite, se debulhado da carga dogmtica, uma inspirao para a ultrapassagem da dor. Ateno: ultrapassagem no significa negao. O contato com o vazio existencial ou a morte fsica pode ser to inaceitvel, a dor to corrosiva, que certas culturas terceirizaram o luto.

Bom exemplo disso so as carpideiras, que teatralizam a tristeza alheia, contratadas para honrar com lgrimas a memria do morto. difcil, talvez mesmo inadmissvel na nossa matriz de valores morais, imaginar um velrio sem choro. Hoje, esto confinadas em regies pobres, que relutam em abandonar tradies. Descobri uma gravao interessante sobre estas profissionais da dor, feita no interior de Portugal. Vale a visita: https://www.youtube.com/watch?v=8iEoWiQ1wQU.

FINITUDE DA VIDA

Andei pensando nesta peleja do homem com o horizonte de sua finitude, com a sensao de isolamento que acompanha as perdas inevitveis. Como suportar a conscincia destes chicotes? Conta-se que alguns dos povos que formam a nao peruana acreditam na existncia de trs mundos: o do cu, o do inferno e o da terra. Ao deixar esta vida, os malvados seriam precipitados num abismo em que aparecem todos os males que conhecemos na terra. Com uma diferena importante: nele no h descanso, nem esperana.

Eis a palavra chave: esperana. No a esperana mstica num ps-morte que apenas alivia a tenso existencial, mas a que chamo de esperana operria. Aquela que se constri e se modifica ao longo da vida, dando-lhe significados e renovando sentidos. Sem essa trajetria criativa e mutante, corremos o risco de cair no vale de lgrimas a que se refere uma certa tradio catlica: A vs bradamos, os degredados filhos de Eva. A vs suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lgrimas (Ad te clamamus, exsules filii Hevae, ad te suspiramus, gementes et flentes in hac lacrimarum Valle).

(artigo enviado por Mrio Assis)

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