Ataque com mísseis não afeta Assad e mostra contradições de Trump

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Charge do Lézio Junior (Diário da Região)

Guga Chacra
O Globo

O ataque dos EUA e seus aliados franceses e britânicos a supostas instalações ligadas a um programa de armas químicas na Síria não alterará em nada o andamento da guerra da Síria. O regime de Bashar al-Assad não foi afetado pela ação militar. O líder sírio inclusive apareceu normalmente este sábado para trabalhar e as imagens de Damasco mostravam uma cidade normal. Há, no entanto, uma série de perguntas a serem feitas sobre a ação da madrugada deste sábado.

1) Por que os EUA e os aliados não aguardaram as inspeções da Organização de Proibição de Armas Químicas (OPAQ) em Douma para verificar os detalhes do ataque?

2) Como eles conseguiram provas tão rapidamente de ter sido Assad o responsável, se em fevereiro deste ano o secretário da Defesa dos EUA admitiu ao Congresso que, mesmo dez meses depois do ataque químico de 2017, ainda não podia confirmar ter sido o regime de Assad o responsável?

3) Desde quando eles sabiam que os alvos atingidos neste sábado seriam parte do programa de armas químicas da Síria? Se soubessem antes, por que não denunciaram a Síria por violação do tratado de proibição do uso de armas químicas? Se souberam depois, como conseguiram, em menos de uma semana, as informações de inteligência destas instalações? Por que não enviaram os inspetores da OPAQ ao local?

NÃO HAVIA LÓGICA – De acordo com o Pentágono, a arma química usada foi o cloro. Como impedir que o regime de Assad ou os jihadistas da oposição tenham acesso a cloro se este produto tem uma série de finalidades, além de possível uso como armas químicas? A OPAQ disse em 2014 que o regime de Assad havia entregue todo seu arsenal químico, incluindo sarin, em acordo entre os EUA e a Rússia. Houve falha dos americanos, que referendaram o acordo?

Como escrevi neste jornal, não havia lógica para Assad usar armas químicas neste momento (usou certamente no passado, quando se sentiu ameaçado), já que o líder sírio podia atingir seus objetivos com armas convencionais, como inclusive vinha acontecendo.

Segundo integrantes dos governos dos EUA, França e Reino Unido, Assad usou o armamento porque seria um monstro e mata por matar. Mas disseram que o ataque de ontem mudaria o cálculo dele. Como?

MAIS DÚVIDAS – Até concordo com a parte do monstro, mas o considero um monstro estratégico. Por que Assad teria matado por matar em Douma e, após este ataque, pensaria duas vezes? Afinal, Trump já havia o bombardeado no ano passado. O líder sírio teria passado a ser racional após ontem na visão deles? Por quê?

4) Caso Assad volte a usar armas químicas, qual será a reação? Novo bombardeio? Há alguma estratégia para um envolvimento militar maior? Mesmo que Assad não use, qual a estratégia dos EUA?

5) Trump havia dito que pretendia retirar as tropas que atuam junto com os curdos contra o grupo Estado Islâmico. E agora? Além disso, os curdos possuem boa relação com Assad. Como os EUA veem os grupo jihadistas inimigos de Assad, como o Jaysh al Islam e o Hayet Tahrir al Sham (al-Qaeda na Síria)?

6) Os EUA dizem estar preocupados com os civis na Síria. Mas por que receberam apenas 11 refugiados sírios em 2018?

7) Por último, o problema é apenas arma química? Assad e os jihadistas da oposição podem matar com armas convencionais? E a Arábia Saudita, que bombardeia casamentos, funerais e hospitais no Iêmen? Será punida? Por que o ditador saudita, Mohammad bin Salman, foi recebido nas últimas semanas por May, Macron e Trump?

23 thoughts on “Ataque com mísseis não afeta Assad e mostra contradições de Trump

  1. Caro Jornalista,

    -A lógica é que “não se mexe (nas táticas) de time que está ganhando”, principalmente quando essa mudança de tática provocaria uma revolta mundial. Portanto, pela lógica, o ataque foi baseado em mentiras, pois o jogo já estava ganho, já estava definido.
    -Então, já que motivo para o mais fraco apanhar não faltam, o Assad sabe que poderá esperar mais ataques com essa mesma justificativa.
    E, se não fosse o interesse da Rússia em manter as suas duas (importantes) bases no país, ele já estaria com o Saddan, o Noriega, o Muamar e muitos outros que ousaram desafiar a “lei do mais forte”:

    “Já hoje (15), Haley disse à emissora Fox News que os EUA não retirariam suas tropas da Síria até que seus objetivos sejam concretizados. De acordo com a agência Reuters, a embaixadora indicou três principais objetivos:
    01- garantir que as armas químicas não sejam usadas de maneira a porem em risco os interesses dos EUA;
    02- alcançar a derrota total do Daesh;
    03- e ter uma boa posição estratégica para ver o que o Irã está fazendo.
    “O nosso objetivo é que as tropas estadunidenses retornem a casa, mas não planejamos sair até termos a certeza que concretizamos esses objetivos”, disse a diplomata.”

    -Portanto, o ataque dessa semana não passou de um “ensaio”, de um “exercício militar”, onde os americanos testaram as armas de defesa da Síria e os russos aproveitaram para monitorar, passivamente, o desempenho das armas de ataque da OTAN, principalmente daquelas que são “furtivas” aos radares:

    “Durante o bombardeio noturno na Síria, a Força Aeroespacial russa também obteve uma experiência muito valiosa. Os sistemas russos S-300 e S-400 deslocados na Síria detectaram e seguiram os mísseis ocidentais, recolhendo informações para análise e estudo posterior.
    “Os exercícios militares e, em especial, as operações militares reais sempre são úteis do ponto de vista informativo […] Disso podemos concluir que é preciso aperfeiçoar o sistema de reconhecimento dos meios de ataque aéreo. Precisamos de criar um espaço comum de gerência da informação. Nesse caso, nenhumas surpresas serão ameaças”, concluiu o militar.”

    Abraços.

  2. Já disse e repito: se ocorreram mais vítimas civis ou somente essas, a quem interessa esse ataque? Não seria lógico Assad matar mais rebeldes do que civis, de preferência todos os rebeldes? Não ocorreu uma ajuda humanitária para esses mesmos há pouco tempo? A Verdade tem alguma importância neste cenário? É simplesmente a maior vítima.

      • Já pensou se só pudesse publicar artigos, opiniões e comentários aqui, na Tribuna da Internet, quem fosse famoso no mundo da política e do jornalismo internacionais?

      • Eu não sou jornalista. Ele é. Ele é pago para informar, e informar bem. Eu tantos aqui expressamos, sim, opiniões.

        Mas se eu fosse trabalhar para uma revista VEJA (apenas a título de ilustração) e juntasse abobrinhas com devaneios jornalísticos, não duraria uma semana.

    • Guga Chacra era do Estadão. Conhece muito sobre o Oriente Médio. Foi contratado há pouco tempo pela Rede Globo. Como há pessoas – babões como tu – que só vêem a emissora do Grupo Time-Life, pensam que ele sempre foi da Globo.

  3. A tese é simples: veio do Trump é ruim, mesmo com a Merkel apoiando. veio da Hilary-Obama é bom, mesmo parindo o Estado Islâmico. Canhotice social aguda.

  4. Guga Chacra fez um bom trabalho de desconstrução da propaganda oficial anglo-americana, que atingiu um nível de absurdidade digno do Ministério da Verdade do livro 1984, de George Orwell.
    Esperar um discurso coerente das grandes potências é perda de tempo. As mesmas coisas podem ser condenadas ou louvadas, conforme sirvam aos interesses de Washington.

        • Não. Estou sendo irônico e dizendo que se Chacra ou quem acha que ele é mais que o discurso das potências supostamente ‘inúteis’ é que jornalisticamente inúteis jornalisticamente o são.

          • Discordar do discurso das grandes potências não é pretender ser ‘mais’ que elas.Ainda mais quando os poderosos usam argumentos incoerentes ou inverossímeis para justificar seus excessos.
            Questionar essas coisas é apenas uma forma de preservar alguma sanidade no mundo, e mesmo exercer a liberdade. Liberdade é basicamente liberdade de discordar. Aplaudir os poderosos você fazer sob qualquer regime.

          • Conversa Meira, sua observação apenas indica uma leitura superficial e enviesada do Chacra. Incoerentes e inverossímeis é poeira, e Chacra é ‘mestre’. Fico com as potenciais, usando filtros, claro. Chacra? Ele nem acesso tem às fontes.

          • Leitura superficial e enviesada porque? O Chacra não está questionando as justificativas dadas pelos americanos para o bombardeio ao Iraque? O Chacra disse de forma clara o que pensa e eu, no caso, acho que ele teve razão.

            E se alguém tem leituras superficiais e enviesadas, francamente, é o seu caso, como demonstrou quando citei aquela matéria do Peter Hitchens, “The Claim that Russia has Vetoed Calls for an Inquiry into Alleged Gas Attacks at the UN”, na qual você leu que ele afirmava que a Rússia se opôs uma investigação de armas químicas na Síria, quando na verdade ele disse o oposto, e isso é evidenciado até no título do artigo, pois “claim” (clamor, alegação) é uma coisa que alguém diz, o que vem a ser algo diferente de um fato.
            A propósito, Hitchens oferece aqui novas leituras ‘superficiais e enviesadas’ sobre a Síria. Talvez você possa provar que ele apóia os ataques ocidentais:
            http://hitchensblog.mailonsunday.co.uk/2018/04/how-on-earth-would-killing-more-people-rescue-syria.html

            Ah, claro, ninguém pode duvidar do governo americano porque só ele tem acesso às fontes, fontes super-sigilosas que nunca podem ser conhecidas. Como quando ele disse que Saddam tinha um arsenal de destruição em massa.
            O governo americano tem uma longa história de mentiras para justificar guerras e pilhagens, pelo menos desde a acusação de que em 1898 os espanhóis por pura maldade explodiram o navio “USS Maine”, em nome do que os americanos tomaram à Espanha Cuba, Porto Rico e as Filipinas. Hoje se sabe que a explosão do Maine foi acidental.

            Só escrevo isso porque penso ainda ter o direito de manter uma opinião pessoal e sustentá-la.

  5. “É comum a expectativa incongruente de tudo criticar e, ao mesmo tempo, pensar que pode
    oferecer algo não passível de sofrer críticas. (Metodologia do Trabalho Científico) “

  6. Na minha opinião, tudo não passou de um grande circo armado. O ataque foi previamente combinado entre os USA e a Rússia. Os alvos atingidos já estavam destruídos (um deles inclusive já estava programado para demolição no fim do ano). As pessoas e equipamentos próximos foram retirados e não houve danos materiais sérios nem feridos. Foi uma solução para não deixar transparecer que os americanos fossem fracos e saíssem desmoralizados. No fim, ficaram bem na fita os americanos, que cumpriram o que vinham prometendo, os russos, que diziam que iriam interceptar os mísseis, e o governo sírio, que não sofreu nenhuma perda.
    Tudo um grande circo!!!

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