Auditores da Controladoria-Geral da União agem como se fossem advogados de Erenice Guerra, e se apressam em anunciar que não houve problemas de corrupção com parentes dela

Carlos Newton

Acredite se quiser. A Controladoria-Geral da União (CGU) divulgou esta quinta-feira a conclusão de quatro das nove auditorias que estão sendo feitas em contratos, licitações, autorizações e pagamentos suspeitos de irregularidades.

O que se vê é que a Controladoria está controlada, digo, dominada. Seus zelosos auditores atuaram no caso como se fossem advogados de Erenice Guerra. Não conseguiram enxergar irregularidade nem mesmo no contrato firmado entre o Ministério das Cidades e a Fundação Universidade de Brasília. Esse contrato teria o envolvimento de José Euricélio Alves de Carvalho, irmão de Erenice.

Por incrível que pareça, a CGU concluiu que realmente há irregularidades no pagamento de R$ 2,1 milhões para um produto que não atendeu à demanda do ministério. No entanto, as investigações não apontaram responsabilidade direta do irmão de Erenice no caso.

“O que se tem até o momento é a constatação de que ele foi assessor na Secretaria Nacional de Transportes e Mobilidade Urbana do Ministério das Cidades e contratado pela Editora UnB, em períodos próximos e seguidos, na época dos fatos”, concluiu o relatório dos controladores, que certamente esperavam encontrar a assinatura (ou as impressões digitais) do irmão de Erenice nesse contrato.

Também de acordo com a Controladoria, as acusações feitas pelo empresário Rubnei Quicoli, de que integrantes da Casa Civil tentaram intermediar financiamentos do BNDES, são infundadas. O pedido de empréstimo seguiu o trâmite normal e “teve o tratamento técnico previsto nas normas internas do BNDES”. De acordo com a investigação, o financiamento só não foi aprovado porque não atendeu integralmente às exigências do banco de fomento.

Ora, que Controladoria é essa? Tudo isso já se sabia. O crime não era a concessão do financiamento pelo BNDES, mas sim o pedido de propina pela patota de Erenice. Foi isso que o empresário denunciou: o pedido de propina, não a aprovação do empréstimo.

Em relação à compra do Tamiflu, a conclusão da investigação apontou que não houve pagamento de propina. Mas e o funcionário de Erenice que encontrou 200 mil reais em espécie dentro de sua gaveta? Mesmo se todas as notas fossem de 100 reais, daria uma belo pacote, seriam 2 mil notas. Se a propina não era do Tamiflu, veio de outra procedência, mas a Controladoria não se interessou por isso.

A CGU também garante que não houve beneficiamento da empresa Matra Mineração, ligada ao marido de Erenice. Sobre o cancelamento das multas, os zelosos auditores  apuraram que as notificações foram de fato anuladas “em decorrência de erros apontados pela própria Procuradoria-Geral do órgão quanto aos seus respectivos valores”. De acordo com a investigação, novos valores foram arbitrados.

Ora, isso também já se sabia. O que a Controladoria teria de verificar é se os erros haviam ou não. A corrupção pode estar justamente no providencial relatório da Procuradoria-Geral do órgão, que apontou os tais “erros”, mas a Controladoria também não se interessou por isso,

De acordo com a conclusão da CGU, não houve beneficiamento do escritório Trajano e Silva Associados pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia. As suspeitas de tráfico de influência envolvem uma irmã de Erenice Guerra, Maria Euriza, que era funcionária da EPE e autorizou, em agosto de 2009, a contratação do escritório, que tem entre os sócios Antônio Alves Carvalho, irmão de Maria Euriza e Erenice. De acordo com a CGU, Antônio Alves Carvalho entrou oficialmente na sociedade em novembro.

Caramba! E isso não constitui irregularidade? Para a CGU, não. Seu relatório apenas sugere à EPE “maior cuidado e precisão no enquadramento das hipóteses de inexigibilidade de licitações e recomendando que a empresa fundamente suas futuras contratações com base em amplas pesquisas de preço”.

Como diz o presidente Lula, jamais na História deste País se viu uma Controladoria tão controlada,

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