Aumentar ou reduzir o consumo?

Carlos Chagas

Mestre Hélio Fernandes, mais uma vez, acertou na mosca: para evitar a crise, Barack Obama colocou mais 600 bilhões de dólares no mercado. Pelos mesmo motivos, Henrique Meirelles tirou de circulação 61 bilhões  de reais. Lá, a estratégia é aumentar o consumo. Aqui, reduzi-lo.

Some-se à nossa política restritiva as sucessivas ameaças de Guido Mantega, que continuará na Fazenda  promete cortes nos investimentos, diminuição de gastos públicos essenciais, ajuste fiscal e até a possibilidade de aumento de impostos.

Alguém anda pisando no tomate e, pelo jeito, não é o presidente americano. A principal alegação para a popularidade do presidente Lula repousa na inclusão de milhões de cidadãos na sociedade de consumo. Quem jamais possuiu um fogareiro agora compra fogões,  geladeiras, máquinas de lavar e aparelhos de televisão. Muitos que viajavam de trem e de metrô adquiriram automóveis, mesmo usados, em prestações a perder de vista. Os que iam  de ônibus vão de avião. Aqueles acostumados a duas refeições por dia fazem três.

Se a estratégia é reduzir o consumo, a redução atingirá primeiro  os emergentes. Junto com a impopularidade previsível para o novo governo e a nova presidente da República. Dá para entender?

PREMONIÇÃO

Coincidência ou não, o presidente Lula foi vaiado pelos estudantes da Universidade de Brasília, segunda-feira, ao inaugurar um pavilhão que homenageia a  memória de Darcy Ribeiro. A prioridade, para os jovens, era outra, numa instituição que cada dia mais deixa a desejar. Não passou recibo,  o primeiro-companheiro, acompanhado do presidente do Uruguai. Sem referir-se aos apupos, ateve-se ao texto do discurso preparado  antes, surpreendendo pela falta de seus peculiares improvisos. Raríssimas vezes nos últimos oito anos o Lula recebeu vaias. Estariam os estudantes reagindo às medidas de contenção anunciadas pela equipe econômica de Dilma Rousseff?

CONSIDERAÇÕES SOBRE O CONTEÚDO

Aferram-se os meios de comunicação na defesa da  proibição constitucional de restrições à liberdade de expressão do pensamento. Nada mais justo e necessário.  Censura, nunca mais!  Anuncia-se estar o poder público, também pela Constituição, buscando mecanismos para evitar excessos e abusos praticados através da mídia. Fala-se numa agência a ser  criada, composta e mantida  pelo Poder Executivo, com a função de analisar e determinar punições para abusos e excessos.  Sempre a posteriori,  depois das matérias divulgadas, para não exprimir atentado ao conteúdo jornalístico.

Mas quem garante que depois de sucessivas multas,  suspensões e até cassação de concessões, os meios de comunicação não venham a  suprimir determinado tipo de matéria descritiva ou opinativa que  desagrade aqueles a quem coube  aplicar as punições? Estará o conteúdo, então, sofrendo restrições.  Solução, mesmo, para evitar o mau uso dos meios de comunicação, só pode estar no Poder Judiciário. Estimular  preconceitos de raça,  classe ou religião, induzir ao crime, à violência e ao tóxico, contrariar os bons costumes, ofender a honra alheia – tudo isso precisa ser punido, depois de acontecido. Mas apenas por decisão da Justiça.

UM VERBO PERNICIOSO

Volta à moda o verbo “refundar”, aliás, um atentado à semântica. Porque se uma determinada instituição vai ser “refundada”, é porque deixou de existir a que foi “fundada”. A palavra certa seria reformar.  Ou então fundar outra instituição.

O raciocínio vale para os partidos políticos, no caso,  para o PSDB.  Seus líderes, a começar pelos  luminares, os portadores de mil diplomas, estão falando em “refundá-lo”. Com todo o respeito, uma bobagem, até porque como seria o novo ninho tucano? Adotaria agora, ou deixaria sair pelo ralo, se já adotada, a social-democracia? No  máximo deveriam ser revistos o programa e os estatutos do PSDB, bem como renovada sua direção. Ou, então, programe-se o enterro do partido  e providencie-se a troca ornitológica: em vez de tucanos, a Fênix…

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