Aumento do consumo de importados levará o Brasil a ter o primeiro déficit comercial dos últimos 12 anos. E o que faz o governo? Nada. Ou melhor, apenas gasta bilhões tentando elevar o dólar. Por que não imitar os EUA?

Carlos Newton

Essa política de abrir os portos às nações amigas, no estilo D. João VI, faz bonito nos livros de História para adolescentes. Na vida real e nos tempos atuais, é preciso tomar muito cuidado com a farra dos importados, propiciada pela cotação baixa do dólar, que incentiva também os alegres passeios da classe média pelas Disneylandias da vida, dando um tremendo prejuízo ao país.

Segundo o economista Roberto Giannetti da Fonseca, diretor de Comércio Exterior da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), o aumento das importações fará com que o Brasil volte a registrar déficit comercial em 2012. Recorde-se que as importações do país ultrapassaram as exportações pela última vez em 2000, quando a balança comercial brasileira registrou déficit de US$ 732 milhões. 

A tendência realmente é essa, e a Fiesp já divulgou que a parcela do consumo brasileiro suprida por importados bateu recorde em 2010. De acordo com esses dados, o chamado Coeficiente de Importações (que mede a parcela dos produtos vindos do exterior no consumo)  fechou o ano passado em 21,8%, o maior nível da série iniciada em 2003, primeiro ano do governo Lula.

Em 2009, o número havia sido de 18,3%. Os dados mostram que, do crescimento de 14,2% no consumo dos brasileiros em 2010, 46,8% foi suprido por produtos importados. Considerando só manufaturados, houve aumento de 45% nas importações, contra alta de 18% nas exportações. Os chineses, sejam de Taiwan ou do continente, dão gargalhadas.

O pior é que os economistas e governantes moderninhos não admitem nem tocar no assunto protecionismo. Agem como se o resto do mundo funcionasse na maior liberalidade, mas não é bem assim. Veja-se o exemplo dos Estados Unidos, a Matriz do nosso planeta, que serve de exemplo para tudo. Os EUA deveriam ser a pátria do liberalismo, mas não são.

Nesse particular, com certeza, o Brasil devia proceder como os EUA, adotando uma política de proteção a seus produtores, que evitasse os excessos das importações de artigos estrangeiros, muitos deles subsidiados nos países de origem ou fruto de trabalho escravo ou semi-escravo. Se a nossa “Matrix” age assim, por que a Filial não poderia. Lembrem-se de que este país já se chamou “Estados Unidos do Brasil”. Agora, parece que pretendem chamá-lo de “Brasil dos Estados Unidos”.

Para demonstrar essa equação comercial, basta conferir o que acontece com o etanol, que antigamente a gente chamava de álcool. No governo Geisel, quando foi lançado o Proálcool, o sucesso do programa brasileiro despertou interesse internacional. Afinal, o combustível alternativo tinha também a grande vantagem de poder ser misturado à gasolina, substituindo o chumbo tetraetila, altamente poluidor.

Diversos estados americanos começaram a importar o etanol brasileiro, para adicionar à gasolina, reduzir custos e diminuir a poluição ambiental. Até que o Congresso americano decidiu impor sobretaxas protecionistas às importações do álcool brasileiro, para beneficiar os produtores locais de álcool de sorgo e milho, muito mais caros. E o então presidente Ronald Reagan apoiou o projeto, transformando-o em lei. (Nos EUA, diferentemente do Brasil, o presidente não pode vetar projetos parcialmente, apenas “in totum”). E a Petrobras levou um baita prejuízo, porque alugara grande número de tanques nos EUA, para estocar e comercializar o álcool brasileiro.    

Desde então, a sobretaxa prevalece. Mesmo assim, empresas norte-americanas continuaram importando álcool produzido no Brasil, mediante um ardil comercial. Nosso álcool é exportado para o Caribe. O navio-tanque faz uma parada lá, troca-se a nota fiscal, e o álcool segue para os EUA, como se tivesse sido produzido no Caribe, cujos países não são atingidos pela tal sobretaxa, apenas o Brasil.

Agora, anuncia-se que a anglo-holandesa Shell e a Cosan criaram a Raízen, uma empresa gigantesca para produzir etanol no Brasil. Traduzindo: a sobretaxa às exportações brasileiras de álcool para os Estados Unidos em breve será levantada. Barack Obama vem aí, e pode até anunciar essa abertura ao nosso álcool, ainda que tardia.

E o governo brasileiro, o que faz contra a farra dos importados? Praticamente, nada. Limita-se a comprar dólares, tentando elevar a cotação da moeda americana. No ano passado, jogou fora cerca de R$ 50 bilhões nessa política equivocada, exatamente a quantia que agora o governo Dilma tenta economizar, às custas do desenvolvimento brasileiro. Que tal fazer como os EUA?

Diante dessa situação, convém sempre repetir que um pouquinho de protecionismo nao faz mal a ninguém. Se reclamarem, a gente discute na Organização Mundial do Comércio, onde os processos são como a Justiça brasileira. Levam anos para serem decididos. E no final fica tudo numa boa.

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