Fernando de Noronha, 5 de agosto de 1967: silêncio, solidão, reflexão, e a descoberta de um poema genial, lembrado até hoje. Transcrito para que todos possam conhecê-lo e compreendê-lo.

Helio Fernandes

Parece surpreendente o que eu vou dizer, mas é rigorosamente o meu pensamento neste tórrido dia 5 de agosto de 1967: com todo o desconforto, com toda a solidão, com toda a saudade, Fernando de Noronha me dá uma visão nova e diferente dos homens e das coisas deste tremendo país, que cada vez penetra mais fundo no abismo dos seus problemas e cada vez se envolve em mais complicações para voltar à superfície. Só porque me ofereceu inesperadamente este posto de observação, talvez eu seja até grato ao governo que me desterrou.

E vou mais longe: todo homem público devia passar 30 dias em Fernando de Noronha. Presidente da República, ministros, generais, intelectuais, trabalhadores, estudantes, padres, donas de casa. Mas um de cada vez, enfrentando a mesma solidão que eu enfrentei, para dentro de si mesmo, como se Fernando de Noronha fosse uma Clinica Mayo Psicológica, mas onde não houvesse nem hospitais, nem hotéis de luxo, nem passagens subterrâneas, nem doentes privilegiados. Todos perdidos nos seus próprios pensamentos, pondo em ordem suas ideias, discutindo consigo mesmo. Todos desterrados dentro de si mesmo, obrigados a traduzirem depois o que sentiram e a experiência que viveram.

São 3 horas da manhã. E como não consigo dormir, escrevo. E daqui desta torre de silêncio, o mundo parece inteiramente diferente. O Brasil me dá a ideia de um grande palco, onde todos os personagens são brechtianos, todos precisam aprender a estar de acordo, ninguém sabe o fazer diante de uma nova situação. É puro Brecht, talvez em versão de Fernando de Noronha. Mas de qualquer maneira, não deixará de ser Brecht por causa disso.

Talvez se passasse 30 dias em Fernando de Noronha, o general Moniz de Aragão (que provavelmente vai pensar que Brecht é algum guerrilheiro preso na Bolívia ao lado de Debray) pudesse compreender que ninguém pertence a nenhuma classe privilegiada e ninguém, a ser o seu próprio povo, é dono do futuro de nenhum país. Quem sabe se aqui em Fernando de Noronha o general não adquirisse humildade para compreender que um homem não é dono de nada, a não ser das suas dúvidas e das suas contradições?

Imaginemos o ministro Gama e Silva 30 dias em Fernando de Noronha, sem Balaio, sem iê-iê-iê, fechado num barraco caindo aos pedaços, ratos e lagartixas desprezando solenemente a sua importância de ministro, desconhecendo que aquele desterrado se julga com poder de desterrar outros homens. Imaginemos a autocrítica do ministro. Inicialmente ele teria humildade e capacidade para fazê-la? A autocrítica pressupõe experiência  de vida, sofrimento, dúvidas, a convicção de que a única verdade eterna é a de Sócrates, que o “só sei que nada sei” é a única resposta para alguns dos problemas mais angustiantes do nosso tempo.

Mas o ministro (que não sabe quem é Brecht, embora talvez desconfie quem seja Sócrates) é tão seguro de tudo, é tão dono da verdade, que 30 dias de Fernando de Noronha não produziriam nenhum efeito sobre ele. Sem contar que a sua capacidade de concentração é igual a zero, e se o deixasse 30 dias em Fernando de Noronha, com máquina, papel e tempo, ele provavelmente quebraria a máquina, comeria o papel e desperdiçaria o tempo, que é o que faz há quase 60 anos.

Desisti, olho para o lado, e tapando uma brecha na tela de arame, brecha por onde, apesar de tudo, se infiltram as terríveis muriçocas, vejo uma página de jornal. É o primeiro jornal que vejo em Fernando de Noronha. Por inspiração divina, me levanto e vou olhá-lo. E nessa página meio rasgada de um jornal de Recife, cujo nome não sei, pois estava precisamente na parte rasgada, encontro um dos mais bonitos poemas da língua portuguesa. Não resisto e copio o poema, que é este, na íntegra:

Tece, tece, tece, tece,
Bem tecida essa canção,
Um a um, fio por fio,
Como faz o tecelão
Que fabrica o seu tecido
De cambraia-de-algodão.
Prende os fios coloridos
No labor da tua mão,
Tece, tece, tece, tece,
Bem tecida essa canção,
Com carinho, com cuidado,
Com silêncio e solidão.
Tece, tece, que tecendo
Cresce, cresce a fiação,
Urde as formas das estampas,
Firma as cores do padrão,
Roda a roda, tece, tece,
Bem tecida essa canção.
Noite e noite, sempre e sempre,
Nunca inútil, nunca em vão,
Dia a dia te aproximas
Mais e mais da perfeição.
Não te falte uma esperança
Nem te falte uma razão
Que tecida por ti mesmo
Faz nascer essa canção.
Tece, tece, muito e muito,
Por dever e obrigação,
(Pois tecer é teu ofício
De poeta e tecelão).
Tece como se tecesses
Tua morte ou redenção,
Com amor e sacrifício,
Rapidez e lentidão,
Muito embora ninguém saiba
Que teceste esta canção
Com os fios do teu pranto
No tear do coração.

Como provavelmente eu ainda não gastei Deus com a mesma intensidade do Carlos Heitor Cony, tive a felicidade de encontrar na página dilacerada o nome do autor do poema tão genial. É o pernambucano Marcus Acioly, que eu jamais vi, que não conheço, que não sei quantos anos tem, se é moço ou velho, mas a quem fico devendo favor que jamais poderei pagar. É que esse poema ficou sendo o meu companheiro de todas as noites, das horas de cansaço, do intervalo das leituras, quando enjoava das teclas da máquina de escrever, quando o silêncio e a solidão me assaltavam, com vontade mesmo de me destruir.

Li e reli esse poema em Fernando de Noronha centenas de vezes, e agora, devolvido à civilização, cada vez gosto mais dele.

Não sei por que, na distante solidão de Fernando de Noronha, fiquei pensando que esse poema poderia ser o hino oficial da libertação econômica nacional. Tem tudo para isso: emoção, lucidez, sentimento, ritmo, objetivo, a vida vibrando em cada uma de suas frases. E talvez eu tenha me lembrado desse poema junto à luta pela libertação econômica nacional, por causa de sua ligação com a indústria têxtil, a indústria que mais gente emprega no Brasil, a mais ameaçada pelos poderosos trustes estrangeiros, e a talvez a única no Brasil que mais tenha resistido a todos os assédios, pela razão muito simples de ser liderada por alguns homens de  fibra.

Marcus Acioly, poeta genial que não conheço, eu te saúdo e te agradeço pelo poema que tanta companhia me fez em Fernando de Noronha.

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PS – Gosto do poema e de algumas coisas que escrevi em Fernando de Noronha. Assim que se soube que eu vinha com um livro pronto, todos queriam editá-lo.

PS2 – Quando a ditadura intimidou e ameaçou editores, distribuidoras, livrarias, até diletos e queridos amigos desapareceram.

PS3 – Não era mais possível realmente publicá-lo, mesmo com o sucesso garantido. Imprimimos 600 ou 700 exemplares, em Nova Iguaçu, não dava mais do que isso.

PS4 – Não podia exigir nada de ninguém. A História dos povos e das nações, não se escreve com a omissão dos que se entregam, e sim com a bravura e a intrepidez dos que resistem.

Kassab vai pagar 12 mil reais mensais a Marco Maciel para não fazer nada. É a história do serviçal da ditadura.

Helio Fernandes

Quase completando 71 anos, recebe mais uma sinecura, que palavra. Passou a vida se “elegendo” de forma indireta, pelo regime que era ditatorial e autoritário, mas não com ele.

Foi presidente da Câmara, governador, senador, ministro, vice-presidente, por favor, coloquem aspas em tudo.

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PS – Em 2010, na eleição verdadeira, perdeu. O misterioso Kassab veio socorrê-lo, com esses 12 mil mensais, e tudo pago. Detalhe: Maciel recebe aposentadoria do Senado, no valor de R$ 24 mil mensais.

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REFORMA MINISTERIAL

Quem segura a ministra da Cultura é a propria Dilma Rousseff. Tem certeza de que muitos ministros não podem continuar, mas acha que não pode demiti-los agora.

Homenagem a um cara genial, que está sofrendo mais do que devia

Helio Fernandes

A frase é conhecida e repetida: “A Justiça tarda mas não falha”.

Em plena ditadura, Millor Fernandes corrigiu a frase, ficou perfeita para aqueles tempos: “A Justiça FARDA, mas não TALHA”.

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PS – Ia sendo preso, não fugiu mas mandou o recado: “Se me prenderem, quando for solto, irei para o exterior e contarei tudo o que está acontecendo no país.

PS2 – Em plena época da farsa e da fraude delfínica, e do “ame-o ou deixe-o”.

Presidentes de partidos sem expressão ou partidos com presidentes sem perfil?

Carlos Chagas                                               

Com todo o respeito, mas os principais partidos, com raras exceções, estão disputando o campeonato nacional com o segundo time, daí as arquibancadas vazias.  Em vez de figuras exponenciais em suas presidências, como era de praxe, os partidos são hoje dirigidos por políticos de menor expressão e perfil, desconhecidos até da maioria de seus correligionários.

O PMDB, para começar: de Ulisses Guimarães a Orestes Quércia, Paes de Andrade e até Michel Temer, está presidido por Waldir Raupp, senador por Rondônia, que pelo noticiário ainda não reuniu uma só vez a executiva nacional. Nenhum pronunciamento se conhece de sua autoria, apenas ocupa a vaga aberta com a ida de Michel Temer para a vice-presidência da República, abrindo-se a dúvida sobre quem manda mesmo na legenda.

O PT, depois de fundado e presidido pelo Lula, seguido de José Dirceu, vê-se agora conduzido por Rui Falcão, deputado estadual em São Paulo,  senão contestado ao menos ignorado  pelo fundador e pela presidente Dilma Rousseff.  Fosse feita uma enquete entre os companheiros do país inteiro, quantos responderiam conhecer o passado e até o nome do atual presidente?

O PSDB sofreu uma diminuição de fato, pois o atual presidente, Sérgio Guerra, sequer conseguiu manter sua cadeira no Senado, representando Pernambuco.  Conformou-se com a eleição para deputado federal.  É dos que mais se pronunciam, mas perdeu a unanimidade. José Serra gostaria de ocupar a vaga, coisa de que Aécio Neves e Geraldo Alckmin discordam, preferindo a continuação do titular, que influenciam.

O PTB, de Getúlio Vargas e João Goulart, vive hoje num cone de sombra, presidido pelo ex-deputado Roberto Jefferson, cassado e permanentemente excluído das reuniões com o governo, de Lula a Dilma Rousseff. Jamais cumprimentou a presidente e não foi convidado para sua posse,  apesar de o PTB  integrar a base parlamentar oficial e ter ministros. Jefferson detém o controle das bancadas mas não aparece.

Leonel Brizola, se estivesse entre nós, perguntaria quem é Ernani Mello, substituto de Carlos Lupi, que foi para o ministério do Trabalho desde os tempos do Lula. Já não era figura nacional, apesar do esforço continuado para suceder o criador do PDT, mas deixou a presidência mais ou menos  como Michel Temer deixou o PMDB, atuando na sombra.

Duas exceções, em matéria de ausência de líderes de primeiro time, são registradas no DEM, cujo presidente é o senador José Agripino, e no Partido Socialista, presidido pelo governador Eduardo Campos. Fala-se muito na paulicéia em Gilberto Kassab, prefeito da capital e articulador da fundação do PSD, mas trata-se de um exagero da mídia concentrada na maior cidade do país. Afinal, poucos o conhecem em Araçatuba, Pindamonhangaba ou Ribeirão Preto. Menos ainda tem lembrança do que foi o velho PSD, mas ganhará um prêmio quem supuser o que vai ser.

Vale o mesmo para os pequenos partidos de pouca expressão e ainda menor conhecimento de quem são seus condutores, uma evidência de que, acima e além da reforma política, precisaria acontecer uma revolução na vida partidária. Também, a culpa é deles, que quase sem exceção só pensam em conseguir nomeações.

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DOIS CANDIDATOS BRASILEIROS

Que Deus dê vida longa a Bento XVI, mas projeções a respeito de quem será o futuro Papa fazem-se desde a prisão de São Pedro. Depois de um polonês e de um alemão, são grandes as chances de o trono voltar a um italiano, mas a composição do colégio dos cardeais favorece os estrangeiros.

Na hipótese de emergir uma candidatura do Terceiro Mundo, jamais da Igreja da Libertação, mas de um cardeal moderado porém oriundo das regiões mais pobres do planeta, o Brasil teria duas opções: D. Odilo Scherer e D. Raimundo Damasceno, os dois últimos brasileiros nomeados pelo Vaticano. O primeiro, cardeal de São Paulo, o outro de Aparecida do Norte, ambos acabam de disputar uma espécie de preliminar em torno da presidência da CNBB. Ganhou D. Damasceno, coisa que não significa vantagem na futura decisão maior.

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MAIS UM QUE SE VAI

Até o movimento militar de 1964 não havia limite para a permanência de oficiais generais no serviço ativo das forças armadas.  Foi o marechal Castello Branco que promoveu modificações profundas, acabando com o posto de marechal em tempos de paz, menos o dele, é claro. E o de Costa e Silva também.

O primeiro presidente do ciclo castrense estabeleceu que um general, almirante ou brigadeiro só poderia permanecer 12 anos no serviço ativo, no máximo 4 anos como general de Brigada, 4 como general de Divisão e 4 como general de Exército. Por conta disso obrigaram-se a passar para a reserva grandes lideranças, cortadas suas carreiras no auge do prestígio.

Ainda esta semana a compulsória atingiu um dos generais mais prestigiados do Exército, Augusto Heleno, primeiro comandante das tropas brasileiras no Haiti, Comandante Militar da Amazônia e depois, como ele mesmo ressaltou, “o homem errado no lugar errado”, chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia. Conhecido por suas posições nacionalistas em defesa da Amazônia e sem evitar críticas à política dos governos Fernando Henrique e Lula para a região, no último 31 de março viu-se proibido de discursar em homenagem à data. Obedeceu a ordem, mas segunda-feira, em seu pronunciamento de despedida junto ao Alto Comando, falou o que não pode falar antes. Elogiou o golpe e lembrou o perigo comunista na época. 

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REAÇÃO NO SENADO

Nasceu na Câmara, não no Senado, a proposta para se acabar com a figura de suplentes de senador, aqueles que sem terem recebido um voto costumam exercer mandatos longos ou curtos. O argumento é de que sem respaldo popular ninguém deve ocupar cadeiras legislativas.  No caso de doença ou viagem do senador, o estado respectivo ficaria sem a representação. Na sua falta, novas eleições precisariam realizar-se em tempo recorde.

Os senadores conseguiram virar parte do jogo, sugerindo que em vez de dois suplentes, deveria existir pelo menos um, fórmula capaz de reduzir mordomias. A sugestão colou, mas agora chega o segundo tempo da discussão: no Senado, a maioria já fecha com a permanência de dois suplentes, alegando que quando a vaga é aberta para sempre, até o final do mandato, se for um só o novo titular fica impedido de viajar e de ficar doente, se não quiser ver seu estado sem representação durante o período. Daí a necessidade do segundo suplente.

Em suma e pelo jeito, trata-se de mais uma proposta de reforma política que vai para o espaço. A menos, é claro, que os deputados, em maior número, aferrem-se à mudança como forma de impedir que os senadores se intrometam em suas prerrogativas.

Mano Menezes entre a teoria tática e a realidade prática

Pedro do Coutto

O seminário promovido pelo Globo sobre a Copa de 2014 montou segunda-feira, no Hotel Windsor Copacabana, painel de debates reunindo o atual treinador da Seleção Brasileira, Mano Menezes, e os ex-técnicos Zagalo e Carlos Alberto Parreira. Ótima reportagem de Ary Cunha conduziu o tema ao alto da primeira página da edição do dia 10. Mas debate não houve.
Menezes expôs esquemas táticos, dois previamente traçados no papel, Zagalo e Parreira concordarem em todos os pontos. Um colocado pelo veterano ponta-esquerda não foi rebatido nem endossado: Ronaldinho Gaúcho não tem condições de integrar a equipe. Inclusive não só em relação a daqui a três anos, mas agora mesmo, 2011, na Copa América, julho na Argentina. Mas esta é outra questão.

Mano Menezes teorizou de forma tão acentuada a respeito das alternativas que deseja colocar em campo, que me lembrei da frase clássica do velho senador de Minas, Benedito Valadares. Eis a frase: a teoria na prática é outra coisa. Totalmente certo. Sob o ângulo da ponta-direita, a frase, da década de 40, seria repetida em 58, dez anos depois, por Garrincha na Copa da Suécia, em que Zagalo desempenhou papel tático da maior importância, tornando-se o terceiro homem no meio campo ao lado de Zito (do Santos) e Didi. Estou fazendo a ressalva para que leitores mais jovens não confundam Zito com Zico, do Flamengo. Ao ouvir instruções táticas do técnico Feola, Garrincha, o grande herói do esporte brasileiro, presença decisiva nas jornadas de 58 e 62, indagou: o senhor já combinou tudo isso com o adversário?

De Valadares a Garrincha, realidade balança entre a teoria e a prática. Não apenas no futebol. Sobretudo na economia no caso da inflação e das soluções (no papel) para contê-la. O técnico disse que o escrete ou vai atuar na base 4-3-1-2, ou então a partir de um esquema de 4-3-3. Sempre portanto, uma linha de quatro zagueiros. Mano Menezes fez a firmação para concordar previamente com Zagalo e Parreira. Pois – frisou – na verdade Menezes arma sempre 4-4-2. Quatro atrás, quatro no meio, dois na frente. Júlio Cesar, aliás, como não pode deixar de ser, na meta para operar os milagres que só os goleiros são capazes de fazer.

O fato essencial é que a armação tática é complexa. Depende da forma de jogar dos adversários. Vamos supor que nossa armação seja 4-4-2. Uma armação defensiva. E o time contrário venha com 5-4-1, atestando ser tecnicamente inferior. O que irá suceder?

Espaços vazios enormes no gramado, transformando o desequilíbrio em equilíbrio. Menezes, diante da alternativa, teria que mudar o esquema e avançar. Portanto, a hipótese, bastante viável, e que antes já sucedeu inúmeras vezes no futebol, demonstra que estilos táticos não podem ser rígidos, tampouco imitáveis ou inflexíveis.

Quantas vezes nas histórias de bola as partidas começam de um jeito e terminam de outro? Quantas vezes craques extraordinários em suas equipes não repetem suas atuações na seleção? Eis, por exemplo, os casos de Zico do Flamengo, Cristiano Ronaldo no time de Portugal, de Lionel Messi na seleção argentina. Há muitos outros na estrada da história. É só iluminar o caminho e a memória. A diferença de jogar num time e num selecionado oscila no meio de um abismo. Nesse abismo os projetos táticos desaparecem. No papel, na teoria, são uma coisa. Na realidade passam a ser outra. Até porque o futebol é dinâmico e os projetos arquitetados não se movem. Ficam nas pranchetas.

Moralismo antidemocrático

Humberto Braga 

Moralidade é acatamento e respeito aos valores e princípios éticos (o que se deve e o que não se deve fazer) dominantes na sociedade. Não  é finalidade (ponto de chegada) e sim fundamento (ponto de partida). Ela se aprende no lar, na escola, nas igrejas (pelos que as frequentam), no trabalho.

Política é luta pelo poder e, na democracia, tem de travar-se no espaço da legalidade. É um disparate pretender a regeneração moral na sociedade pela ação política. Não é função do Estado a reforma de costumes e valores. Isso é tarefa para educadores e pregadores.

Os fins do governo democrático devem ser: o cumprimento da lei (o que exclui patrocínio da corrupção ou tolerância com ela), o respeito aos direitos e garantias fundamentais dos cidadãos, a segurança pública e a manutenção da ordem, a prosperidade econômica, a redação das desigualdades sociais, a eficiente administração dos serviços públicos, o incentivo e o amparo ao desenvolvimento educativo e cultural, a proteção ao meio ambiente e à saúde pública, a harmonia entre os poderes, a defesa nacional, etc.

Num Estado de Direito, todos reconhecem a legitimidade desses fins. As divergências surgem quanto à escolha e eficácia dos meios. Então se revela bem clara a mistificação que aponta a política como saneamento ético e propõe como programa, a luta contra uma corrupção indeterminada.

Patenteia-se aí a manobra dos fariseus para conquistar o apoio dos ingênuos. A escolha dos dirigentes não mais seria inspirada na competência e na operosidade e sim apenas no comportamento supostamente correto. Probidade é pré-requisito para qualquer atividade pública ou privada, mas não deve ser o único critério de avaliação dos que disputam o poder. Muitos Estados foram conduzidos ao desastre por governantes honestos, porém ineptos.

A corrupção tem de ser reprimida objetivamente, isto é, com o senso da responsabilidade e as armas da lei. Não é possível combatê-la eficazmente com um moralismo demagógico, suspeito nos seus fins e inescrupuloso nos seus métodos.

Em nenhuma democracia do mundo a simples má reputação de um homem público é suficiente para a sua proscrição política. A lei julga o crime com base em provas, o eleitorado julga o representante pelo seu desempenho. E a condenação generalizante, indiscriminada, da atividade política brasileira é um insensato ataque ao regime democrático. Só podem aplaudi-la os saudosistas da noite ditatorial, em cuja sombra, na falta de denúncias públicas, é fácil furtar com segurança e tranquilidade. 
 
Humberto Braga é conselheiro
aposentado do TCE-RJ 

No NBB, Flamengo perde três vezes para o Franca, eliminado lamentavelmente

Helio Fernandes

É a primeira vez que o time de basquete perde três vezes seguidas para o mesmo adversário. Embora seja o poderoso Franca, acontece.

O que não pode acontecer: o espetáculo vergonhoso provocado pelo time, quando já estava derrotado. Vergonhoso. Tendo perdido no Rio, o Flamengo dificilmente venceria em Franca. Mas perdeu e devia aceitar. Além do mais, faltavam 40 segundos. E o Flamengo estava 12 pontos atrás. Desespero, descontrole, como se diz, “perderam a cabeça”. E a diretoria, não fará nada?

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NADAL QUASE ELIMINADO

Perdeu o primeiro set no tiebreak, no segundo não conseguia derrotar o italiano (148 do ranking), mas quem errava era ele. Conseguiu fazer 6/4.

Aí “conversou consigo mesmo”, fez 6/0 no terceiro set. Desgaste enorme, 2 horas e 37 minutos de jogo. Terminou assustadíssimo.

Genoino, emocionado, recebe a Medalha da Vitória, numa cerimônia que manchou a memória dos pracinhas que morreram na Itália

Carlos Newton

No último Dia das Mães, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, deu um presente homoafetivo a seu assessor José Genoino, ao condecorá-lo como a Medalha da Vitória, exclusiva a “ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira  e civis que tenham prestado serviços relevantes ou apoiado o Ministério da Defesa no cumprimento de suas missões constitucionais”.

Por favor, não entendam mal. Quando se usa a expressão “homoafetivo”, é sem conotação sexual, mostrando apenas a afetividade que hoje (sem interesse de parte a parte) existe entre o maior representante das Forças Armadas e o antigo guerrilheiro que tanto lutou, de armas na mão, para tirar os militares do poder.

“Olha, tem acontecido tanta coisa na minha vida e na história do Brasil que a gente só tem que acreditar no Brasil e no futuro, porque muita coisa surpreendente vem acontecendo positivamente”, desabafou Genoino, com os olhos marejados de emoção, comemorando a soma de seu salário de assessor com a aposentadoria que recebe da Câmara Federal, superior a R$ 20 mil por mês. Só faltou dizer, fazendo rima: “O ministro Jobim é uma mãe para mim”.

Já o titular da pasta da Defesa aproveitou a cerimônia para passar ao ataque. Fez questão de ele próprio condecorar Genoino, e declarou solenemente: “O que o Brasil deseja fazer é um grande ajuste de contas com seu futuro. O Brasil não quer retaliar seu passado”. E deu um comovido abraço em seu protegido.

Emocionante, se não fosse uma ofensa à cidadania, um escárnio aos cidadãos de bem, uma bofetada na face de quem trabalha honestamente para se manter, ao invés de abrir os bolsos para a corrupção e sair colocando dólares até na cueca, como aconteceu com o assessor do irmão de Genoino, na época do Mensalão.

Assim como todo cidadão é inocente até prova em contrário, todo cidadão denunciado à Justiça só é inocentado quando sua absolvição transita em julgado. Como se pode conceder a mais honrosa condecoração militar a quem está respondendo a processo no Supremo Tribunal Federal por corrupção e formação de quadrilha? Esse tipo de comportamento, sem dúvida, deveria significar a demissão do ministro, antes mesmo de concretizar o ato. Mas quem se interessa por isso?

Podíamos então indagar, mais uma vez: Que país é esse, Francelino Pereira? E ele responderia: “Pergunte ao Renato Russo, que era de Brasília”.

Duas vacas, cem galinhas e Al-Qaeda: bem-vindos à “granja Bin Laden”

Carlos Newton

Quando a Al-Qaeda enfim resolve se manifestar e denuncia que a foto de Bin Laden assistindo à televisão é falsa, (como muita coisa sobre esse eletrizante caso também é falsa), um dos melhores artigos publicados na imprensa internacional a respeito da morte do terrorista levou o singelo título de “Duas vacas, cem galinhas e Al-Qaeda: bem-vindos à “granja Bin Laden”.

Escrito por Emmanuel Duparcq e distribuído pela agência de notícias France Press, o texto exibe a verdade sobre Osama Bin Laden e seu dia a dia, mostrando que o perigoso terrorista (trucidado pelos militares norte-americanos com tamanha violência que nem as fotos podem ser exibidas) não passava de um guerrilheiro aposentado, que já não representava perigo algum.

Duparcq se baseia nas imagens de um video feito por um soldado paquistanês e nos chama atenção para a realidade da vida de um ancião doente e decrépito, um tigre desdentado que já não tinha forças para nada. Na realidade, a única força de que Bin Laden ainda dispunha era a imagem do passado, que agora está sendo usada para reeleger o presidente Barack Obama.

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Cercado por três mulheres, uma dezena de crianças, uma centena de galinhas, duas vacas e coelhos, o chefe da Al-Qaeda, Osama Bin Laden, desfrutava de uma vida tranquila, ritmada pelas colheitas de sua pequena granja paquistanesa em Abbottabad.

Em um vídeo gravado com a câmera de um celular por um soldado paquistanês, é possível ver uma dúzia de ovos em cima da pia da cozinha, possivelmente recém-chegados do galinheiro mantido pela família Bin Laden em sua casa, situada no sopé do Himalaia paquistanês.

Na casa branca de três andares, cerca de 20 pessoas viviam em torno do homem mais procurado do mundo.

Cinco delas morreram durante o ataque das forças americanas do último domingo: Bin Laden, um de seus filhos, seus dois guarda-costas – apelidados de “kwuaitianos” – e uma mulher, segundo fontes da segurança paquistanesa.

Os sobreviventes, as três mulheres de Bin Laden e seus filhos, foram detidos pelo exército paquistanês. Durante o interrogatório, Amal Ahmed Adbulfata, uma iemenita de 29 anos, esposa mais jovem do terrorista, afirmou que seu marido vivia naquela casa há cinco anos.

Segundo Washington, os documentos apreendidos na residência de Bin Laden durante a operação que o matou mostram que ele era “o líder ativo da Al-Qaeda”.

O vídeo do soldado paquistanês, gravado na última terça-feira antes que o exército paquistanês esvaziasse por completo a casa, dão uma ideia do dia-a-dia da família e seus agregados, cuja organização ficava a cargo de “Tariq” e “Arshad”, dois irmãos paquistaneses nascidos no Kwuait (daí o apelido), onde seu pai conheceu e tornou-se amigo de Bin Laden.

Ao contrário do que dizem os americanos, a casa de três andares não era luxuosa; mais que uma mansão, o lugar parece uma pequena clínica, um tanto sinistra.

Seu interior é espartano: azulejos cinza, paredes e escadas de concreto nu, móveis rústicos de madeira, colchões de espuma e televisões velhas. O quarto do chefe da Al-Qaeda, cuja família ocupava os dois andares superiores, não é uma exceção.

No jardim, à sombra de altos muros de concreto e grandes choupos, os Bin Laden tinham “duas vacas, dois cachorros e mais de cem galinhas”, enumera Qasim Mohamad, que mora na casa vizinha.

O jovem Zarar, de 14 anos, que também vive ali perto, afirma ter entrado na casa uma vez.

“Vi duas mulheres que falavam em árabe e me deram de presente dois coelhos”, conta.

Apenas um homem era autorizado a entrar de vez em quando nos jardins: Shamrez Mohamad, pai de Qasim, um agricultor que dava de comer aos animais e ajudava a plantar batatas, couve-flor e feijões.

Preso pelo exército paquistanês depois do ataque americano, Mohamad – considerado uma testemunha crucial – foi libertado na sexta-feira. Segundo seu filho, ele deixou Abbottabad.

As vacas, por outro lado, foram levadas pelo exército, e provavelmente acabarão servindo aos soldados de algum quartel.

Na manhã de segunda-feira, Mohammad Kareem, um agente imobiliário, contou ter visto “soldados correndo atrás de galinhas” ao redor da casa.

“Certamente vão comê-las com suas famílias”, comentou.

O que aconteceu com os coelhos, entretanto, ainda é um mistério.

                                                                                                Emmanuel Duparcq | AFP

 

Nelson Jobim confessou ter falsificado a Constituição. Expulso do Supremo, fardado de oficial do Exército. Não pagará pela afronta ao Legislativo, Judiciário e Executivo?

Helio Fernandes

Não conheço, pelo menos no momento, cidadão (?) que tenha mais sem credibilidade do que o personagem citado no titulo destas notas. Foi Legislativo, Judiciário e Executivo, e em todos os Poderes deixou a marca indelével da desfiguração da vida pública.

No Brasil de hoje e de quase sempre, cuidam apenas da corrupção em dinheiro, esquecem ou não tratam de fatos, fatos, fatos, muito mais desmoralizantes, degradantes, revoltantes. Só escreverei sobre o que o próprio personagem praticou ou confessou, o resto ficará para outra oportunidade.

Legislativo – Foi constituinte eleito em 1986, participando da elaboração da Constituinte de 1988. Sua atuação ostensiva não foi destacada, a falta de importância ainda não se concretizara. Mas nos subterrâneos da Constituinte, agiu inescrupulosamente (ou melhor, criminosamente), falsificando o que havia sido aprovado pelas Comissões e pelo plenário.

Foi então, à noite, e na Comissão de Redação, onde estava o que fora decidido, só faltava o texto final a ser redigido. E alterou partes do que seria conhecido como a “Constituição Cidadã” (Ulisses Guimarães). E ninguém saberia, se o próprio Nelson Jobim não confessasse em entrevista a falsificação.

Por que essa confissão inédita e extravagante? Dois motivos. 1 – Cometera o chamado “crime perfeito”, e através da História, mesmo que seja ato criminal, o tormento do criminoso é que ninguém saiba da sua “perfeição”. Então, pode ser surpreendente, ele confessa. Foi o caso de Nelson Jobim.

2 – Sabia que nada lhe aconteceria, presidia o Supremo, não seria denunciado pelos seus “pares”, embora fosse impar.

Judiciário – Como é um espantoso cavador de cargos, conquistando sempre o que pretende, foi para o Supremo Tribunal Federal. E chegou rapidamente a presidente. Além da confissão do “crime” praticado contra a Constituição, desmoralizou de tal maneira seu dia-a-dia, que foi impossível se manter no mais alto tribunal do país.

A legitimação do decreto 9078 (de FHC, contra a Petrobras) foi a menor das falsificações ou deslizes. Suas incongruências, que palavra, foram de tal ordem que a revolta contra ele foi dominando todos, sua atuação era estarrecedora.

Até que o advogado Ivan Nunes Ferreira protestou perante o próprio Supremo. E sua intervenção teve tal repercussão, que a OAB do Rio Grande do Sul e centenas de advogados e juízes do seu próprio estado, pediram a saída dele do tribunal.

Os ministros do Supremo permanecem na ativa até os 70 anos. Saem no que é chamado de “expulsória”. Concordaram que Jobim, estando com 60, teria que sair imediatamente. Trocaram então a “expulsória pela expulsão”, só que deram a chance que o Ministro aproveitou imediatamente.

A “solução” menos traumática: como já acumulara tempo para aposentadoria, sabendo que não havia nenhuma possibilidade de continuar, saiu pela porta degradante da “expulsão”, jogando fora 10 anos de permanência.

Além do mais, tinha certeza de que “arranjaria” um novo cargo. Poderia demorar algum tempo, mas não ficaria no ostracismo. Embora nunca tenha visto ou falado com Jobim (fico longe de Brasília, sempre, falo com meus informantes por telefone ou fax), acredito que o cargo “conquistado” jamais entrara nos seus cálculos.

Ministro da Defesa – Sem intermediários, sem consultá-lo, sem temor de uma recusa, o presidente Lula chamou-o ao Planalto. E disparou: “Estou nomeando você para o Ministério da Defesa”. Cínico, confiando no passado e no futuro, Jobim considerou que esse presente (palavra com duplo sentido, principalmente no caso) merecia um pouco de silêncio.

Aí perguntou, sabendo a resposta: “Presidente, e os militares?” Lula respondeu prontamente, como o constitucionalista que sempre foi: “Eu sou o Comandante em Chefe das Forças Armadas, ninguém vai questionar ou recusar a nomeação”.

Foi o que aconteceu. Assim que notificados do fato, consideraram que era ofensivo e negativo para eles. Mas alguns, conhecendo o passado e as fragilidades de Jobim, “abriram champanhe”. Na verdade, o novo ministro, para os generais, “caíra do céu”, (desculpem), mesmo que de paraquedas.

A “lua de mel” Jobim/oficiais generais, durou e dura, embora completamente inútil para o país. Como o ministro é falastrão e adora holofotes, está sempre na televisão, logicamente “mostrando” o excelente relacionamento entre eles.

Só que agora, os próprios oficiais-generais acharam (e conversaram entre eles) que Jobim exagerou em dois episódios.

1 – Falou na televisão, depois da decisão do Supremo sobre os “homoafetivos”, como chamam agora. Jornalistas perguntaram ao ministro, “qual seria a reação dos militares diante do que fora votado por unanimidade”.

Resposta do ministro: “Os militares cumprirão o que foi decidido, não haverá contestação” Não gostaram, esperavam que o ministro pelo menos conversasse com eles antes. Mas mantiveram o silêncio, não admitem, de jeito algum, a demissão de Nelson Jobim. Igual a ele não existe, não quiseram arriscar.

2 – Palhaçada completa e desrespeito à Constituição: o Ministério da Defesa foi criado para ser comandado por civis. (Epitácio Pessoa nomeou civis para o Ministério da Guerra e da Marinha. Não havia ainda o Ministério da Aeronáutica, só seria criado em 1941, e ocupado também por um civil. Foram essas as únicas exceções, nenhum protesto. Epitácio não aceitava restrições, a família Pessoa tinha fama de violenta. Até 1941 não havia nenhum brigadeiro, a Aeronáutica se dividia em “aviação embarcada” (Marinha) e “aviação militar” (Exercito).

FHC, que criou esse Ministério da Defesa, logicamente nomeou um civil, Elcio Álvares, seriíssimo, não fazia concessões (não era nenhum Jobim), pediu demissão. Foram nomeados outros, até que veio a palhaçada (desculpem a repetição, não existe palavra tão apropriada) de Jobim aparecendo em público daquela maneira esdrúxula e vergonhosa.

De que maneira? Fardado da cabeça aos pés, botas e boina. Incrível, pois os oficiais generais só andam fardados nos quartéis, ele apareceu em público, chamando as televisões para mostrá-lo.

***

PS – Dona Dilma marcaria pontos, em grande quantidade, se demitisse esse “civil fardado”. Não vai demiti-lo, nunca praticaria um ato como esse.

A fragilidade da internet é o esconderijo atrás de nomes falsos ou apenas uma sigla. Alguns só ofendem, como esse “Jo”.

Helio Fernandes

Aparece para criticar meu artigo sobre o atentado à Tribuna, em março de 1981, deve ser um  militar torturador, que diz: “Vigarista Rui Falcão, bandido bem conhecido seu, vocês podem até passear juntos, de mãos dadas!”. Covardia, impunidade, espero que “Jo” abandone as ofensas, fique para sempre se admirando no espelho.

Outro que aproveita “as criancinhas sem lanche” para exibir seu ódio, é esse que se assina Valdenor de Souza. Também deve ser militar, pois intima: “DEIXEM o seu Otávio (Medeiros) descansar em paz, como diz no próprio TEXTO, morreu no OSTRACISMO E POBRE”.

Todos morrem, em paz ou no crime, como foi o caso do general que massacrou a Tribuna. E queria matar milhares no Riocentro para manter a sua “esperança” de ser “presidente”, com todas aspas. Quando era todo poderoso, andava com “10 mil seguranças”, dia e noite.

Por que preservar os assassinos? Por que morreram? Diz que ele era pobre. Só por causa disso está justificada uma existência de crimes, maculando o nome do Exército? E não precisava de dinheiro, a vida inteira foi “financiado” pelo cidadão-contribuinte-eleitor, que não sabia que sustentava um assassino.

Parabéns à Mariposa e a Ofelia Alvarenga, que reconheceram a coragem que é necessária para escrever, pois em várias oportunidades, TIVE MEDO. Mas não pedia nem concedia nada.

Uma vez, preso com Carlos Lacerda, Mario lago e o jornalista Osvaldo Peralva, critiquei o ex-governador intensamente. Ele tinha três filhos, cada um recebeu “missão” especial. Um, falar com o cardeal, outro, com o “governador” de São Paulo, Abreu Sodré, o terceiro, com o general Sizeno Sarmento, que fora Secretário de Segurança do seu governo.

Minhas palavras textuais: “Carlos, prisioneiro não fala com o carceireiro”. Não gostou, mas não se irritou. Acabou saindo no dia 22 de dezembro desse 1968.

Ainda não estava cassado, se irritou mesmo quando eu falei: “Não adianta sair, Carlos, você será cassado do mesmo modo”. O que aconteceu no dia 30. No dia 2 de janeiro de 1969, viajou para a Europa, teve a generosidade de ir se despedir de Mario Lago e de mim.

Nós ficamos até o dia 6 de janeiro, “Dia de Reis”. Os generais-torturadores costumam ser muito religiosos e “tementes” a Deus. Torturam, mas têm o costume de antes, benzer os aparelhos e as ferramentas da tortura, fazendo o “sinal da cruz”.

Meus parabéns e agradecimento a Francisco José Corrêa, que teve a coragem e a sinceridade de se manifestar em relação a alguns pronunciamentos feitos aqui, visivelmente odientos. (Francisco José Corrêa pode até ser militar, conheci militares corajosos, sinceros e constrangidos com o comportamento de colegas).

Textual: “Não entendi o porquê da menção a Lula com 2 letras “l”, nem a menção a Rui Falcão como “vigarista, bandido bem conhecido seu”, terminando com “Helio podia até andar de mãos dadas com ele”. Nada a ver com a matéria, apenas desejo de ofender.

E Francisco José Corrêa termina de forma magistral: “Além da vontade de ofender, deve ser saudade de um período tétrico (e fétido) de nossa história recente (1964 a 1990)”.

Admirável o comentário de Marcio Morato: “O caso do Riocentro somente veio à tona porque deu errado. Queria ver estes senadores se o depoimento de Helio Fernandes fosse depois do 30 de abril de 1981”.

 ***

PS – Se tivesse dado certo, e alguma CPI chamasse, o depoimento seria praticamente o mesmo, pois os personagens principais foram os que destruíram a Tribuna.

PS2 – Só que o Riocentro precisou de muito mais gente e planejamento. O ataque à Tribuna foi o teste, o do Riocentro a finalização.

P3 – Apenas o óbvio, Marcio: se esse massacre final tivesse “dado certo”, não haveria CPI nem depoimento de Helio Fernandes para comentar. Seria a vitoria dos radicais, a nova ditadura, absorvente e cruel, começaria muito mais violenta, “aproveitando” os 17 anos (na época) de destruição civil e pessoal.

O que é mais eficaz – e também mais perverso – na estratégia de desmoralização da democracia é que o seu sucesso é tanto maior quanto maior é o escândalo perpetrado por seus beneficiários.

Altamir Tojal

Está sendo executada no Brasil uma estratégia de desmoralização da democracia, que tem sido bem sucedida até agora na reprodução do poder. É um processo que naturaliza a corrupção, afasta a população da política e instrumentaliza a indignação popular.

Além de naturalizada, a corrupção é manipulada como espetáculo para fortalecer e assegurar a permanência da aliança de poder do PT, PMDB e demais partidos aliados, sustentada por bancos, empreiteiras e pelo sindicalismo colonizado e demais beneficiários de privilégios oficiais no país.

***
RENAN E DELÚBIO

A elevação de mensaleiros e outros acusados de corrupção a posições de relevo no executivo, no Congresso Nacional e no PT tem o valor simbólico de reforçar drasticamente os sentimentos já amplamente difundidos na população de que a política não serve para o povo e que votar não adianta, a não ser em troca de algo tangível, como emprego, cargo, bolsa, cesta, patrocínio ou dinheiro vivo mesmo, em estado natural.

Esta é a lógica de atos de ampla repercussão na opinião pública, como as escolhas de Renan Calheiros para o Conselho de Ética do Senado, de João Paulo Cunha para a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, as de Paulo Maluf e Valdemar Costa Neto para a Reforma Política e por aí vai. O mesmo raciocínio vale para a eleição de Rui Falcão, em nome de José Dirceu, para a presidência do PT, e para o apoteótico retorno de Delúbio Soares ao partido.

A volta desses zumbis aos holofotes da política neste momento não é um acontecimento fortuito nem inocente. O seu protagonismo ao lado da presença eterna de José Sarney no núcleo do poder, tem a força avassaladora de catapultar a desconfiança da sociedade em relação à democracia.

***
CLIENTELISMO E ASSISTENCIALISMO

Esta estratégia deliberada busca assegurar, por antecipação, o êxito do modelo eleitoral que deu ao PT e ao PMDB o domínio absoluto sobre o governo, baseado no clientelismo, assistencialismo e aparelhamento do estado, ou seja, o modelo da troca do voto por alguma vantagem.

A desmoralização da política, do voto e da democracia é crucial para isso, porque desqualifica o debate, nivela por baixo todas as opiniões e barateia a cidadania. Ironicamente, a validação do sucesso dessa estratégia é dada pela justa indignação da sociedade. As ressurreições de Renan e Delúbio, por exemplo, episódios mais recentes e emblemáticos dessa estratégia de permanência no poder, produziram milhares de protestos em cartas de leitores, twitters e posts em blogs e redes sociais, quase sempre esculachando os políticos, como espécie, e as instituições políticas todas, com destaque para a comparação do Congresso Nacional com um prostíbulo.

Essa indignação se reproduz aos milhões, em lamentos e impropérios dos que não se dão ao trabalho de teclar e clicar, mas comentam e resmungam em casa com a família, na rua com os vizinhos, no trabalho com os colegas, sem falar nos que nem isso fazem, mas sedimentam na mente a ideia de que política é coisa de ladrão e sentem no peito a frustração por não serem suficientemente espertos para monetizar o próprio voto.

Como em outras ocasiões terríveis da história, a indignação do povo está sendo instrumentalizada hoje no Brasil pelo bloco de poder.

Uma definição precisa desse processo foi dada pelo leitor Mário Barilá Filho, em carta publicada na edição de 30 de abril do Globo: “Com Renan no Conselho de Ética, a volta de Delúbio à vida pública e Palocci no Ministério, imagino que não deve faltar muito para a presidente Dilma reabilitar sua amiga de fé Erenice Guerra, talvez criando algum ministério para ela. A dita oposição poderia resolver a sua crise de identidade organizando uma passeata pacífica de 190 milhões de brasileiros pedindo o fim da ditadura da corrupção”.

O que é mais eficaz – e também mais perverso – nessa estratégia de desmoralização da democracia é que o seu sucesso é tanto maior quanto maior é o escândalo perpetrado por seus beneficiários.

Altamir Tojal é jornalista
e mantém um blog na internet

Se Bin Laden estivesse no Brasil

Carlos Chagas

Vamos supor, só para argumentar, que em vez de descoberto, vigiado  e assassinado na cidadezinha de Abbotabad, próximo da capital, Islamabad,   Osama Bin Laden tivesse sido detectado em Ceilândia, perto de Brasília. Ou em Petrópolis, a um pulo do Rio. Quem sabe em São Bernardo, ao lado de São Paulo? Possíveis essas hipóteses seriam, dadas as redes de  proteção que hoje  favorecem os bandidos em todo o planeta.

Teriam feito o quê, os Estados Unidos? Não se duvide, a mesma coisa que acabam de fazer no Paquistão:  montariam em segredo excepcional esquema de vigilância, organizariam uma equipe de assalto e,  depois da execução e do sumiço do cadáver,  diriam-se desconfiados do apoio do Brasil ao inimigo público número 1 da Humanidade. Para justificar a quebra da soberania brasileira e o sigilo da operação, nada como lançar depois o boato da cumplicidade de grupos locais, até integrantes do governo. Por isso Dilma Rousseff não teria sido avisada…

Não se trata do teatro do absurdo, mas de um real e abominável expediente capaz de confirmar Nietzsche e seus seguidores:  verdadeira é a versão do  mais forte. Ético, justo e até bonito é o vencedor, importando menos quantas leis internacionais possam ter sido quebradas.

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JOGO SUJO

Fica evidente a relação de causa e efeito entre a “operação Bin Laden” e a sucessão presidencial americana. Porque se desde 2009 a CIA tinha detectado a presença de Osama Bin Laden próximo da capital do Paquistão, porque só agora desencadeou-se a operação para o seu assassinato? Justo na hora em que despencava a popularidade do presidente  Barack Obama e quando parece prestes a se abrir a temporada sucessória nos Estados Unidos?

Nossas oposições e seus porta-vozes na mídia acabam de desencadear intensa campanha contra o Lula. Divulgam o quanto aumentou, em 2010, a distribuição de publicidade governamental, assim como quantas obras do PAC foram anunciadas nos meses anteriores à eleição de Dilma Rousseff. Chegam a ligar a perspectiva de aumento da inflação ao comportamento do ex-presidente na campanha, enquanto acham plenamente justa a manobra de Obama para pleitear um seguindo mandato.

***
VOTAR NUM E ELEGER O OUTRO

Em artigo de inequívoca oportunidade o senador Francisco Dornelles acaba matar dois coelhos num tiro só. Fulminou o atual sistema de votação em deputados federais, que pelo expediente das coligações partidárias não raro dá a vitória a quem teve menos votos, derrotando os mais votados. Mas também estraçalhou a proposta de votação em listas elaboradas pelos caciques dos partidos, com a proibição de o eleitor escolher o seu candidato personalizado. Para o representante do Rio, a solução está no chamado “distritão”, quer dizer, cada estado formaria um único distrito eleitoral, elegendo-se simplesmente os candidatos que recebessem mais votos.

Sobra lógica no raciocínio, ainda que certamente venham a faltar  votos no Congresso para a  aprovação  desse óbvio ululante.  

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PARTIDO FANTASMA

Ao contrário do que poderia parecer, enfraquecem-se o prefeito Gilberto Kassab e o seu PSD a cada dia que conquistam mais um deputado ou um vereador. A razão é simples: chamados de trânsfugas pelos partidos que vêm abandonando, os novos adeptos vão ingressando naquele nevoeiro característico de filmes de vampiro. A nova legenda surge amorfa, insossa e inodora, na medida em que possui filiados, mas não possui doutrina nem  ideologia. É marcada apenas pelo açodamento da adesão.

No caso, adesão ao governo Dilma Rousseff, já que sem exceção seus quadros formam-se com oriundos da oposição. O que sustentam em termos de política econômica, financeira, social, ambiental, de desenvolvimento ou de soberania nacional? Apenas aquilo que o governo adota. Nenhuma contribuição surgiu até agora do PSD, sequer seu programa parece esboçado. Uma pena.

Sarney deve liberar para a história trabalho da CPI do Riocentro

Pedro do Coutto

Leio na Folha de São Paulo, edição de segunda-feira 9, artigo do senador Renan Calheiros sob o título inventário de uma crise, no qual se defende das acusações que sofreu a partir do episódio Mônica Veloso. Acentua ter respondido e esclarecido todas as acusações e estar absolvido de todas elas.

Inventário pode ser de bens, de potencial hidrelétrico de rios, e também de fatos históricos. Entre estes nada mais importante do que a trilha da explosão ocorrida no Riocentro, 30 de abril de 81, onde não fosse o destino, teriam morrido milhares de pessoas. O Globo vem publicando uma série de reportagens excelentes de Chico Otávio revivendo o passado e iluminando a trágica farsa que se montou na época.

Em vez de uma bomba, está comprovado hoje, apareceram trinta anos depois, as fotos de mais duas no Puma modelo esportivo da Volks, do então capitão, hoje coronel da reserva, Wilson Machado. Sem dúvida um dos impunes executores do ato terrorista. Há um volumoso material no Senado, que constituiu uma CPI no esforço de chegar aos autores da tentativa de homicídio em massa. A Comissão de Inquérito foi presidida pelo senador Mendes Canale, do Mato Grosso. Um dos depoentes, por iniciativa do senador Franco Montoro, foi o jornalista Hélio Fernandes.

Por que Helio Fernandes? Porque no dia 26 de março, também, 1981, atentado com características semelhantes havia sido desfechado contra a Tribuna da Imprensa fazendo sua rotativa voar pelos ares e incendiando o prédio da Rua do Lavradio. Antes da Tribuna, os ativistas do terror haviam enviado uma bomba à OAB-RJ, que causou a morte da funcionária Lida Monteiro. Outra bomba, através de sinistra correspondência, deixou cego o servidor da Câmara dos Vereadores Ribamar de Freitas.

Várias bancas de jornais foram explodidas no Rio de madrugada. Governo Chagas Freitas, secretário de Segurança o general Valdir Moniz, por coincidência, era o representante do SNI, então chefiado pelo general Otávio Medeiros, no Rio de Janeiro. Chagas Freitas, claro não tinha autonomia no setor de segurança.

Convocado por Montoro, em face da semelhança entre os atentados e as detonações, Hélio Fernandes foi a Brasília no final de abril para falar da insegurança. Seu depoimento estendeu-se por seis horas. Acusou frontalmente o general Otávio Medeiros como o mentor de todos os crimes e apontou os autores do incêndio da Tribuna da Imprensa. Afirmou que sabia até os nomes de alguns agentes policiais e militares que detonaram as rotativas. Em relação ao Riocentro, sustentou que o governo João Figueiredo não determinava a prisão dos responsáveis porque não desejava ou não podia fazê-lo.

A CPI do Terror – como foi chamada na época – reuniu uma série de depoimentos que agora motivam o jornalista Chico Otávio. Porém um deles desapareceu. O de Hélio Fernandes, exatamente o que apontava os responsáveis nominalmente, incluindo suas tarefas e até seus locais de trabalho. Se o senador José Sarney não tomar providências para reconstruir a sequência histórica que O Globo está documentando em sequência, a história moderna do Brasil perderá muito com a omissão e a evaporação dos textos gravados e taquigrafados.

Sarney, um homem ligado à literatura, conhece bem a importância da preservação histórica dos documentos. Vários encontram-se no Congresso, do qual é presidente. O processo da Carta Brandi, (falsa) divulgada por Carlos Lacerda em 55, o impeachment de Carlos Luz e o de Café Filho, ambos no mesmo ano, a renúncia de Jânio Quadros, a posse de João Goulart.

A emenda das Diretas Já, a eleição de Tancredo Neves e a sua própria posse na presidência da República em 85. Sarney tem que encontrar e liberar os depoimentos sobre a noite de horror do Riocentro. Não pode contribuir para travar a história. Afinal a história , como disse Hélio Silva, não espera o amanhecer.

Em Roma, Bellucci é eliminado pelo 148 do ranking, 29 anos, 11 de profissionalismo, a primeira vitória.

Helio Fernandes

Estreando no belíssimo Forum Italico, o brasileiro ficou longe de Madri, embora as duas capitais não sejam distantes.

No primeiro set, o pessoal do SporTV, que transmitia o jogo, surpreendidíssimo. O comentarista, competente mas superexagerado, insistia no “vamo, vamo”, como se isso adiantasse.

Larri precisa orientar Bellucci para não insistir nas “deixadinhas”. No primeiro set, tentou 8, acertou duas, ficou claro que não é a solução.

Ia perdendo com extrema facilidade, fez grande esforço, perdeu no tiebreak, assim mesmo, um desastre. O segundo set, rigorosamente igual. Perdendo por 5 a 1, Bellucci deu a impressão de reagir, mas perdeu logo.

Notável a tranqüilidade de Bellucci, nenhuma reclamação, protesto, educadíssimo.

***

PS – Como sempre existe “compensação”, amanhã o brasileiro não precisará enfrentar Nadal. Uns 15 dias de descanso.

Com olhar de cineasta, Ieda Marcondes dá um big close na obra de Chesterton sobre religião e heresia.

Carlos Newton

Como muitos comentaristas tem discutido aqui assuntos ligados às mais diversas religiões, com muitos prós e outros tantos contras, vale a pena transcrever na Tribuna da Imprensa a resenha do livro “Hereges”, de Chesterton, que Ieda Marcondes publicou recentemente no site da editora Ecclesiae, a propósito do relançamento da importante obra.

Publicado originalmente em junho de 1905, “Hereges” é o primeiro trabalho polêmico importante do jornalista e escritor inglês G.K. Chesterton. Pouco antes disso, ele havia se envolvido numa série de controvérsias com o editor do jornal Clarion, Robert Blatchford ‒ quem, curiosamente, abriu espaço em seu jornal para uma série de respostas do próprio Chesterton. Tais respostas e os seus artigos no jornal Daily News são a matéria-prima principal da visão única de vida que ele apresenta em “Hereges”.

Nascido em 1874, quando a religião e a ética vitoriana já estavam enfraquecidas, Chesterton foi criado em ambiente anglicano, mas, de acordo com o próprio autor, com pouco ou nenhum incentivo à crença ou prática religiosa. Em sua autobiografia, ele define o período de 1892 a 1895 como uma época de pessimismo e desespero, de uma obsessão incontrolável por idéias e imagens horríveis que o levavam a mergulhar cada vez mais fundo em um suicídio espiritual. Depois de certo tempo imerso nas “profundezas obscuras do pessimismo contemporâneo”, ele se revolta e cria, então, a teoria rudimentar de que a mera existência, reduzida aos seus limites primários, é extraordinária o suficiente para ser excitante. Conectado aos restos de um pensamento religioso por uma linha fina de gratidão, ele começa a ler os evangelhos; termos e imagens religiosas começam a aparecer cada vez mais em suas anotações.

Em 1896, Chesterton conhece sua futura esposa, Frances Blogg, quem exerce grande influência religiosa por toda a sua vida ‒ junto de outras figuras como o padre anglicano Conrad Noel e do historiador e escritor Hilaire Belloc. Já em 1904, em uma de suas respostas aos ataques de Robert Blatchford ao cristianismo no jornal Clarion, Chesterton diz, “Nós todos somos agnósticos até descobrirmos que o agnosticismo não vai funcionar”. Assim, com “Hereges”, é possível delinear o começo de um caminho que só chegaria ao seu destino em 1922, quando o autor finalmente se converte ao catolicismo.

No Brasil, pela editora Ecclesiae, é a primeira vez que uma edição em língua portuguesa de “Hereges” está sendo publicada. Apesar de chegar em momento não menos importante, o atraso que vinha desde o século passado é praticamente inexplicável. Uma das obras mais importantes de Chesterton, “Ortodoxia”, não poderia existir sem “Hereges”. Pois “Ortodoxia” foi escrita em resposta às críticas de “Hereges”; a primeira foi dedicada ao pai, a segunda foi dedicada à mãe; são, portanto, obras irmãs que se complementam e que conversam constantemente entre si. “Ortodoxia” apenas delimita e organiza de forma autobiográfica as conclusões que ele teve primeiro com “Hereges”. Ao mostrar o que implica em heresia, Chesterton ilustra o que implica em ortodoxia, e vice-e-versa.
Hereges” apresenta vinte capítulos, cada um destinado a uma figura ou tendência moderna. Assim, o autor discute Rudyard Kipling, Bernard Shaw, H.G. Wells, o Comtismo, o “carpe diem” dos estetas, o Novo Jornalismo, a comunidade científica, entre outros. Para cada caso, ele emprega uma perspectiva teológica, analisando sua heresia e ressaltando a importância da ortodoxia. Dessa forma, Kipling é um herege por ser um cidadão do mundo, por não ter tempo ou paciência de se fixar definitivamente em nenhum lugar, ele representa o cosmopolitismo da sociedade moderna que avança e expande sem saber que a vida acontece quando nos enraizamos, quando nos prendemos em determinada causa ou comunidade; Shaw é um herege por não aceitar os humanos como são, por comparar homens com super-homens, com deuses ou gigantes, quando o segredo do cristianismo, e mesmo do sucesso em vida, está na humildade; Wells é um herege por duvidar do pecado original e da possibilidade da própria filosofia ao dizer que é impossível encontrar idéias seguras e confiáveis, que tudo sempre muda, mas são apenas as aparências que mudam, as idéias permanecem sempre as mesmas.

Ironicamente, a conclusão é a de que a maior heresia não é um conjunto de determinadas afirmações, mas a falta de crença em afirmação alguma. Pois até a blasfêmia depende de um ato de fé. A sociedade moderna, em nome da expansão e do progresso, escolheu não definir nenhum padrão do que é bom, nenhuma direção distinta a seguir, nenhuma convicção específica a adotar, mas progresso só é progresso quando sabemos para onde estamos indo e o que queremos exatamente. Para Chesterton, existe um pensamento que impede o pensamento, e esse é o único a ser combatido. Se pode existir uma evolução mental, ela só pode ter a ver com um aumento de certezas, de mais e mais dogmas, e não mais e mais dúvidas.

No final do livro, fica claro que Chesterton está discutindo o papel da religião em nossas vidas. Mas, em nenhum momento, ele espera provar que suas doutrinas são verdadeiras. Ele sabe que religião é, fundamentalmente, uma questão de fé e não de demonstração; a revelação não pode ser empiricamente comprovada. Apesar de prover algumas explicações sobre a existência humana ao demonstrar casos da experiência em que o materialismo simplesmente não satisfaz, o livro contém os mistérios que vão muito além da capacidade do pensamento humano. Para Chesterton, é a escuridão do mistério cristão que ilumina a todas as coisas. Ele diz que a religião não é uma coisa que pode ser excluída justamente porque ela inclui ao todo. Não é a razão que nos mantém sãos, mas o misticismo. Racionalmente, podemos duvidar de tudo e de todos, podemos acreditar na tese de que estamos todos em um sonho e de que nossa família e nossos amigos nada são além de criações da imaginação. É o misticismo, portanto, que nos permite afirmar a própria existência como um dogma religioso. Para nos tornarmos realmente conscientes e vivos, não podemos nos perder em pessimismo e ceticismo, mas afirmar o papel da religião e do dogma e nossas vidas: “Seremos daqueles que viram e mesmo assim acreditaram.”

As obras de Chesterton impressionam por parecerem atuais, ao ponto de nos esquecermos da época em que foram concebidas. Ele aponta os erros em pensamentos e condutas correntes, como o vegetarianismo e a busca vazia de hábitos saudáveis, ou a descrença na monogamia e na instituição da família. Seus comentários são avançados para os dias de hoje no sentido em que vão contra as novidades e zelam por algo mais antigo e verdadeiro; seu conjunto de convicções é mais coerente e faz mais sentido do que o de algumas pessoas ainda muito bem vivas. Enquanto o pensamento moderno já parece desgastado por sua própria ineficácia em questões práticas, é bem provável que as obras de G.K. Chesterton permaneçam atuais e necessárias por muitos e muitos anos ainda.

Ieda Marcondes é cineasta e
roteirista em São Paulo, além de crítica
de cinema e de literatura.

Reflexões sobre a decisão do Supremo de proteger os “homoafetivos”. Muita coisa certamente terá que mudar. Afinal, daqui para a frente, como saber o que será considerado politicamente correto?

Carlos Newton

O ministro da Previdência, Garibaldi Alves, quer mudar algumas regras, alegando que ocorrem irregularidades na concessão de determinadas pensões. Deu como exemplo o casamento “arranjado”, que nunca aconteceu de verdade, mas é consumado para que seja legada a pensão do INSS a um dos falsos “cônjuges”.

Essa prática realmente existe. Aqui mesmo no blog da Tribuna da Imprensa já tivemos exemplo disso, com o relato da jornalista Ofélia Alvarenga, que certa vez entrevistou o ator e cineasta Anselmo Duarte, e ele revelou que ia casar com a empregada doméstica que o servia há anos, para que ela desfrutasse da pensão do INSS quando ele morresse.

Agora, a preocupação do ministro certamente aumentou bastante, devido à recente decisão do Supremo Tribunal Federal, ao reconhecer por unanimidade que os casais homossexuais, digo, homoafetivos, devem ter os mesmos direitos dos heterossexuais.

Como o Congresso não legislou a respeito, deixando na gaveta o velho projeto da então deputada Marta Suplicy, que era relatado por Roberto Jefferson, está agora configurado um conflito jurídico-administrativo. Como não há lei que reconheça a união homossexual, consequentemente não existem regras adotadas pela Previdência Social nesse sentido, embora já tenha sido firmada a respectiva jurisprudência no Supremo. Traduzindo: uma confusão danada.

Voltando às preocupações do ministro Garibaldi, realmente há motivos para tanto. É óbvio concluir que, da mesma forma como Anselmo Duarte pensou em lesar a Previdência (não sabemos se ele consumou o tal “casamento”), muitos homossexuais e heterossexuais também farão o mesmo, aproveitando a decisão do Supremo para celebrar falsas uniões matrimoniais, de forma a beneficiar parceiros, amigos e parentes com pensões às quais não teriam direito concreto.

O assunto é complicado e delicado. Significa uma mudança radical nas atuais regras. Por exemplo, além do casamento, certamente vai valer também o divórcio entre homossexuais. E o cônjuge que tem mais rendimentos será obrigado a pagar pensão alimentícia ao outro. Podem até ser criadas delegacias específicas para investigar violências contra homossexuais, como já existem para as mulheres.

Na lista de candidatos a cargos eletivos, conforme consta do anteprojeto de Reforma Política e Partidária, sabemos que terá de haver um candidato feminino para cada masculino, quando a nova lei for aprovada. Então, por que não exigir logo a obrigatoriedade de abrir espaços também para os candidatos homoafetivos, no estilo 3 em 1? Pelo menos, depois a lei não precisaria ser mudada novamente para atender ao Supremo.

E a prática politicamente correta, qual será agora? Passará a ser proibido chamar alguém de gay, GLS ou homossexual, como ocorre com os afrodescendentes, que antigamente eram simplesmente negros. E as mulatas? É politicamente correto continuar a chamá-las assim. Ou isso também já constitui crime de racismo?

As certidões de nascimento também precisarão ser alteradas, devido à abertura para casais homoafetivos adotarem crianças. É conveniente que não haja mais espaço obrigatório para identificar pai ou mãe. Ao que tudo indica, será melhor deixar espaço apenas para pais, no plural, ou para mães, conforme o caso.

Como existe o Dia Internacional da Mulher, seria interessante também serem criados o Dia Internacional do Homoafetivo e o Dia Internacional da Homoafetiva, para deixar cada macaco no seu galho, digamos assim, sem a menor intenção de ofender a ninguém.

Aliás, a grande inovação do Supremo foi a homoafetividade. Muitos direitos consolidados no tribunal já existiam na prática. No Rio de Janeiro, por exemplo, o governo estadual reconhece e garante as conquistas sociais dos casais assumidamente homossexuais do serviço público. Grandes empresas e instituições, como BNDES, também o fazem. Quando você é contratado, no formulário perguntam se é homossexual e se tem parceiro estável, para efeitos de pensão, plano de saúde etc. Mas a genial criação da homoafetividade, esta é exclusiva do Supremo brasileiro, que deve receber royalties internacionais, pois a nova expressão está destinada a correr o mundo.

E fica assim confirmada a previsão do genial jornalista Sergio Porto, que no início dos anos 60, na coluna de “Stanislaw Ponte Preta”, já previa: “O terceiro sexo está crescendo tanto, que em breve passará para segundo”. Se não tivesse morrido tão moço, Sergio Porto iria constatar que há também o quarto sexto, que logo pode passar para terceiro, como se estivéssemos numa corrida de espermatozóides, já que estamos tratando de assunto tão específico.

E antes que comecem a me chamar de homofóbico, esclareço que existem muitos homoafetivos na minha família, nós os amamos e respeitamos, desde sempre. Não foi preciso nem o Supremo criar a jurisprudência para que passássemos a prestigiá-los.

O estranho mundo de Bin Laden, agora habitado por Obama. A falsidade e a hipocrisia viajam pelo mundo. Enquanto a CIA exalta e incentiva a tortura.

Helio Fernandes

É impossível continuar fazendo análises diárias sobre um dos fatos mais importantes dos últimos tempos, mas totalmente deturpado, desfigurado (como Obama diz que está o rosto e o resto do líder terrorista) pela Casa Branca. E até pela CIA, que recuperou (ou reconquistou?) a importância que teve durante os longos tempos da Guerra Fria.

Ninguém podia supor que a eleição de Obama (o primeiro negro a ser eleito presidente dos EUA) trouxesse para as manchetes do mundo, um órgão como esse. A CIA sempre foi considerada corrupta, violenta e discriminadora. Mas continuadamente poderosa.

No governo do canastrão e delator Ronald Reagan, quem foi 4 anos diretor-geral da Cia? Bush pai. Depois desse importantíssimo cargo, foi presidente, eleito pelo próprio Reagan. Só ficou 4 anos.

Assim que assumiu em 1989, perdendo depois para Clinton, sua primeira providência: mandar tropas do Exercito invadirem o Panamá e sequestrarem o próprio presidente Manuel Noriega.

Por que essa predileção de violência concentrada no presidente de um outro país? É porque esse presidente do Panamá assustava Bush. Acontece que Noriega havia sido o “segundo” do próprio Bush na CIA. E Bush tinha certeza de que o seu ex-colaborador sabia demais, era arriscado deixá-lo em liberdade. Como diretor-geral de um órgão poderoso e corruptíssimo, devia pelo menos “prever que Noriega tivesse um dossiê”.

O presidente do Panamá foi levado preso para os EUA (naquele tempo Guantánamo não existia como prisão) e julgado rapidamente. Foi um escândalo, vergonha nacional, mas ninguém disse nada, não protestou, fazer o quê? O já ex-presidente do Panamá, condenado a 40 anos em prisão de segurança máxima, morreu lá mesmo. Bush só aceitava libertá-lo em troca dos arquivos.

Mas o ex-presidente do Panamá insistia que não tinha arquivo algum, o que parecia verdade. Se tivesse, trocaria pela liberdade.

Se isso não é terrorismo, não sei o que era. Dessa forma, ficava provado que os americanos no Poder, fazem qualquer coisa. E têm pânico e pavor dos que trabalharam com eles. Reagan sofreu atentado, muito mais grave do que foi noticiado, aí disseram que era “por causa da segurança nacional”. Até justificável.

Reagan precisou ser operado, mas não queria entregar o cargo ao vice, precisamente Bush pai. Quando ia sendo levado para a sala de cirurgia, chegou o Procurador-Geral da República, que falou: “Presidente, o cirurgião-chefe me falou que o senhor será operado com anestesia geral. Nesse caso, tem que passar o cargo ao vice”. (Que estava presente).

Reagan imediatamente perguntou ao cirurgião-chefe: “Posso operar com anestesia local?”. Eram três médicos, incluindo esse cirurgião-chefe, ficaram impressionados, enorme a responsabilidade. Mas contrariar o próprio presidente?

Como se fosse não uma operação, mas um jogo de basquete, o cirurgião-chefe “pediu tempo”. Voltaram mais ou menos em meia hora, com a resposta: “O senhor não precisará de anestesia geral”.

E Reagan não passou o cargo ao vice, que estava ao seu lado. O que, assumindo, o vice e seu amigo poderia fazer para prejudicá-lo?

Decididamente, esse Obama de agora, com as mais fantásticas invenções, mistificações e empulhações, não é o Obama no qual “votei” em 2008. Ficará mais 4 anos, não por causa da morte de Bin Laden, mas pela inexistência de adversários. Os Republicanos estão mais frágeis do que na derrota anterior.

Não consigo entender o que acontece com o presidente dos EUA. Termino estas notas com a declaração, TEXTUAL, de Obama: “A operação militar que eliminou Bin Laden, foi a maior de toda a nossa História”

Impressionante esse equívoco histórico-militar, esquecendo até as batalhas ou guerras, mantidas em nome da segurança e independência dos Estados Unidos.

A “Segunda Frente”, decidindo a Guerra? A luta do Vietnã, derrota irrecuperável de anos e anos, mas sem qualquer dúvida mais importante do que a farsa de agora?

Obama, que parecia uma “revolução” mais do que política, faz tudo para sair da História ou entrando nela pela porta dos fundos. Onde já está, exuberante, ou sem ter percebido nada.

São tantas as versões sobre o que aconteceu na mansão de Bin Laden, que o próprio Obama está completamente perdido. (Palavra com duplo sentido)

Inicialmente era apenas 1 helicóptero, que segundo a Casa Branca, “atirou de fora mesmo, atingindo Bin Laden dentro da mansão”.

Essa versão era confirmada pelo próprio presidente, que anunciou, “vou condecorar o homem que matou Bin Laden”. Mais tarde, quando o assassinato passou a ser (ainda segundo Obama), “a maior operação militar da História dos Estados Unidos”, como condecorar apenas um militar?

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PS – Nenhuma dificuldade, distribuíram “condecorações coletivas”, mais gente satisfeita.

PS2 – Agora, em plena campanha eleitoral para o ano que vem, Obama visitará o país inteiro, sabe que precisa. Sorte dele: não existe um só Republicano “candidatável”.

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AMANHÃ
Nelson Jobim: a palhaçada do ano,
se exibindo fardado. Já fora “expulso”
do Supremo e confessara que falsificou
a Constituição de 1988

 

Quem presidia o Senado, em 1981, era o Coronel Passarinho. Quem diz é o bravo advogado José Carlos Werneck.

Helio Fernandes

Obrigado, Werneck, tinha que ser um homem com o perfil dele. Logo no 1º de abril de 1964, assaltou o palácio no Pará, “se fez governador”. Na primeira “eleição”, foi senador, não parou mais. Ministro muitas vezes e além do mais usando a “menas verdade”, dizendo em entrevista à  TV Senado: “Insistiram muito, não quis ser presidente”.

O Exercito jamais aceitaria um coronel como presidente, mesmo com aspas. Só para confirmar: antes do golpe, estabeleceram as seguintes condições para alguém chegar a presidente. 1 – Ser general de 4 estrelas. 2 – Da ativa. 3 – Não reivindicar nem aceitar reeleição.

Lógico, Passarinho não tinha nenhuma dessas condições, mas exibia total falta de caráter.

No dia 13 de dezembro de 1968, todos os ministros assinaram o amaldiçoado AI-5, em silêncio, Passarinho, para se exibir, exclamou: “Às favas os escrúpulos”, nem sabia o que era isso. Está na ata da sessão histórica.

Durante o período Castelo Branco, não parei de escrever sobre ele, dura e francamente. Quando houve o choque do seu avião com um outro (que não foi investigado, achavam que foi premeditado e planejado), escrevi o último artigo sobre ele. Se eu não tivesse escrito antes, não poderia escrever depois. Essa é a ordem natural das coisas.

Aí, alguns como os que se escondem atrás de pseudônimos, queriam se vingar de mim. Não sabiam o que fazer, o carreirista e sem escrúpulos Passarinho “sugeriu” me mandar para Fernando de Noronha. Me mandaram.

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PS – Quando voltei, pediu a um grande amigo do repórter que me desse o seguinte recado: “Sugeri Fernando de Noronha, sabia que o Exército pretendia matá-lo”.

PS2 – Covarde sempre: a ideia de Fernando de Noronha foi dele. Depois, para se livrar, transferiu toda a responsabilidade para o Exército.

PS3 – Deve ter dado o meu depoimento, em mãos, ao futuro “presidente”, general Otavio Medeiros.

Nada atinge este repórter, mesmo que repitam o Equador

Helio Fernandes

O Brasil é “escola” para o presidente do Equador. A chamada “Secretaria dos Direitos Humanos”, no governo Lula, queria “restringir” os meios de comunicação, através de uma Comissão. Não conseguiram. O presidente duríssimo do Equador conseguiu, através de REFERENDO.

Há mais de 30 anos não apareço na televisão ou no rádio. Meu nome é “vetado” em todos os jornalões, mesmo que sejam algumas palavras, ditas num enterro.

No enterro de Lacerda, estávamos em plena ditadura, até o artigo que escrevi na primeira página da Tribuna impressa, foi todo cortado. No de Brizola, já na proclamada democracia, me ouviram (por equívoco ou engano da repórter), mas não publicaram, nem rádio ou televisão.

Sem esquecer que em 1963 (antes da ditadura aberta e ostensiva), fui o único jornalista preso. Qual a razão? Revelei um documento que o Ministro da Guerra mandara para 12 generais. No envelope, as palavras: “Sigiloso-Confidencial”. Eu deveria ser preso,  se não publicasse o documento.