Maiorias e minorias

Carlos Chagas

Vale lembrar a história do jornalista americano que foi a Viena, às vésperas do Anschluss, para cobrir a decisão de Adolf Hitler de incorporar a Áustria ao Reich alemão. O coleguinha escreveu que os governos e os jornais divulgavam estarem 98% dos austríacos favoráveis à incorporação, mas quando ia entrevistar os cidadãos, só encontrava os 2% discordantes…

De olho nas pesquisas…

Seria bom que Fernando Haddad atentasse para valores um pouco acima e além dos números das pesquisas e da monumental campanha desenvolvida pelos companheiros. Estas indicam dispor o ex-ministro da Educação de 60% das preferências paulistanas enquanto José Serra, menos de 40%. Ainda que não se possa discordar da inequívoca tendência de São Paulo para seguir o Lula, como explicar a existência da maioria conservadora que levou o tucano à vitória no primeiro turno?

Jamais se irá comparar o Lula a Hitler, que forçou a ocupação da Áustria pela Alemanha utilizando a Gestapo, as SS, seus exércitos e sua propaganda. Só que os austríacos, sufocados, engoliram o fato consumado, mas quando puderam manifestar-se livremente, no fim da guerra, optaram por readquirir a independência. Como estamos na democracia, certas etapas poderão ser queimadas. Essa, pelo menos, é a visão de Serra, confiando em que a maioria conservadora e silenciosa postada à margem das pesquisas e da intensa campanha do PT venha a dar sua resposta dia 28.

Longe de estar defendendo José Serra, acentuamos apenas a semelhança de situações com a Europa no final dos Anos Trinta. Muita badalação, mas quem garante não estar sufocada nas ruas uma tendência capaz de aflorar diante das urnas eletrônicas?

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ENTROU PELA CONTRAMÃO

Certas pessoas costumam escorregar em avenidas secas e amplas. Sem motivo, esborracham-se. É o caso do prefeito reeleito do Rio, Eduardo Paes, vindo de retumbante vitória ainda no primeiro turno. Elogiou como ninguém a presidente Dilma, durante e depois da campanha, mas agora acaba de armar uma bomba de alto poder explosivo.

Eduardo Paes é do PMDB, partido que mantém aliança com o governo através da presença de Michel Temer na vice-presidência da República. Trata-se da pedra de toque capaz de garantir a reeleição de Dilma e da dobradinha com o verdadeiro chefe do partido que ainda agora elegeu o maior número de prefeitos em todo o país. Para que balançar uma estrutura aparentemente sólida com a sugestão de trocar Temer pelo governador Sérgio Cabral? A proposta só servirá para rachar o PMDB e despertar reflexos na aliança que dá suporte à situação.

A história no escuro

Sebastião Nery

Oswaldo Aranha foi ministro do Exterior, da Fazenda e da Justiça de Getúlio. Como ministro da Justiça, foi visitar a Agência Nacional. O diretor tinha feito uma reforma e queria mostrar ao chefe:

– Senhor ministro, reorganizamos toda a agência. Fizemos isso, aquilo.

– Muito bem, muito bem.

E foi levando Oswaldo Aranha, com seus cabelos brancos, quase dois metros de altura, os olhos grandes, luminosos, pelos corredores.

Aranha e uma surpresa no arquivo

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ARANHA

Diante de uma porta, o diretor parou entusiasmado:

– Senhor ministro, aqui é a seção mais importante da Agência Nacional. É onde guardamos os recortes dos jornais que aproveitam as notícias que a Agência Nacional manda.

– O arquivo.

– Sim, ministro, o arquivo. Aqui está a documentação da vida brasileira. Um dia, para ser escrita a História de hoje, é só vir aqui e ver o que o governo pensava e a Agência Nacional escrevia. Está tudo aqui. Aqui se faz a História. O senhor quer ver?

O diretor empurrou a porta, acendeu a luz. Oswaldo Aranha entrou. No chão, por cima dos recortes, nus, um homem e uma mulher perdidamente se amavam. Oswaldo Aranha apagou a luz, fechou a porta:

– Realmente, senhor diretor, esta é a seção mais importante. Faz a História e a vida no escuro.

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LULA E DIRCEU

Lula e José Dirceu também pensaram que a Historia se faz no escuro. Bastou o Supremo Tribunal acender a luz para os dois e o PT aprenderem que o Mensalão não era “uma farsa”, uma “piada de salão”.

Dias de julgamento despejaram uma cachoeira de denúncias, mostrando porque o Ministerio Publico há anos investigava e denunciava “a quadrilha” de Lula, Dirceu, etc : – o Mensalão é o processo de Lula, do governo de Lula e do PT. Eles entraram para a Historia no escuro:

1.– “Não fomos eu e o Genoino os condenados. O PT é que foi condenado”(José Dirceu na “Folha de S. Paulo” de 11 de outubro de 2012).

2. – “O Mensalão é escabroso” (Ministro Marco Aurélio, no Globo).

3. – “Macrodelinquencia governamental da cúpula do PT… Grande organização criminosa… Uma ação moralmente deletéria, juridicamente criminosa e politicamente dissolvente… Falta de escrúpulos na ação criminosa por eles exercida. Arrogância e comportamento desonesto… São capazes de perpetrar delitos difamantes” (Ministro Celso de Melo, na Folha).

4. – “Catastrófico modo de fazer política com ação pecuniarizada de alianças argentarias. Um tipo de coalizão excomungado pela Constituição”. (Ministro Ayres Brito, no Globo).

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ZEZECO

Barra de São Miguel, a 36 quilômetros de Maceió, é um dos pedaços de terra e mar mais belos do pais. Um mar todo azul cercado de terra toda verde. Disputaram as eleições para prefeito : Zezeco, do PP, e Taciane, do PTB. Zezeco teve 3.354 votos (72,01%) e Taciane 1304 (27,99%).

Lendo assim, uma noticia banal, como em milhares de outros pequenos municípios do Brasil a fora. Acontece que Zezeco é um fenômeno social, econômico e político. Jovem paulista de 27 anos, bonitão e simpático, rico, muito rico, riquíssimo, chegou a Barra de São Miguel há quatro anos, encantou-se com o que viu, instalou-se em uma mansão sobre o mar, fundou uma ONG e começou a fazer política com obras sociais.

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LALAU

Candidatou-se a prefeito e teve a votação consagradora. Seu projeto é fazer uma “administração revolucionaria”, mudar a cara do município, depois ser deputado federal e governador. Vai conseguir? Com o dinheiro que tem e a cidade pequena e já bela, conseguirá, dizem seus amigos.

Ah, sim, como diria a luminosa Camila Pitanga no final da propaganda da Caixa Econômica: Zezeco é neto do famoso juiz Lalau, do escândalo da construção do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo.

sebastiaonery@ig.com.br

Barbosa absolve Duda Mendonça por evasão de divisas, mas o condena por lavagem de dinheiro

Débora Zampier (Agência Brasil)

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e relator da Ação Penal 470, Joaquim Barbosa, inocentou o publicitário Duda Mendonça e a sócia, Zilmar Fernandes, da acusação de manterem R$ 10 milhões ilegalmente no exterior. O relator os condenou, no entanto, pelo crime de lavagem de dinheiro. Barbosa entendeu que os sócios não deveriam ter aceitado receber a quantia milionária dos núcleos publicitário e financeiro do mensalão, pois sabiam que as remessas ocorreram de forma ilegal.

Duda Mendonça e Zilmar Fernandes foram denunciados pelo Ministério Público Federal (MPF) porque receberam cerca de R$ 11 milhões do chamado “valerioduto” (esquema ilegal de distribuição de dinheiro capitaneado por Marcos Valério), recebendo parte do dinheiro no exterior para ocultar as operações. As defesas alegaram que os publicitários não cometeram crime, pois apenas recebiam pagamentos referentes às dívidas do PT por serviços de publicidade prestados na campanha presidencial de 2002.

Barbosa inocentou os empresários do crime de evasão de divisas por uma questão técnica. Segundo o relator, uma circular do Banco Central determinava que os correntistas brasileiros só precisavam declarar os valores que tinham em contas no exterior se a soma ultrapassasse US$ 100 mil (dólares americanos), em 31 de dezembro do ano corrente. De acordo com Barbosa, embora Duda e Zilmar tenham movimentado milhões de reais em 2003, em 31 de dezembro daquele ano, a conta tinha menos de US$ 600.

A questão provocou discussão no plenário, pois alguns ministros, como Marco Aurélio Mello, entendem que a evasão não ficou descaraterizada por esse detalhe. Segundo Marco Aurélio, a lei que trata do crime de evasão de divisas não coloca o limite temporal de 31 de dezembro para caracterizar o delito penal. Barbosa disse que está aberto a mudar seu posicionamento para se adequar à maioria do plenário.

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CONDENADOS

Embora tenha inocentado Duda e Zilmar do crime de evasão de divisas, o mesmo não ocorreu em relação aos demais réus do núcleo publicitário e financeiro, que respondem pelo mesmo delito. Joaquim Barbosa condenou os publicitários Marcos Valério e Ramon Hollerbach e a diretora da SMP&B, Simone Vasconcelos, pela prática de 53 operações de evasão de divisas, por meio da ajuda dos réus do Banco Rural e de doleiros.

O relator também condenou dois réus do Banco Rural – a presidentE Kátia Rabello e o vice-presidente José Roberto Salgado – por 24 operações de evasão de divisas. Segundo Barbosa, eles usaram quatro empresas do conglomerado do Banco Rural para disfarçar o envio de dinheiro ao exterior, conforme orientação de Marcos Valério.

Apesar de ter absolvido Duda e Zilmar do crime de evasão de divisas, Barbosa entendeu que eles devem ser condenados por lavagem de dinheiro pelas 53 vezes que receberam dinheiro dos demais réus. Para o relator, ficou provado que os sócios sabiam que as remessas estavam sendo feitas de foram ilegal pelo núcleo publicitário e financeiro, e ainda assim aceitaram os valores.

Neste capítulo, as únicas pessoas inocentadas pelo relator, por falta de provas, são o publicitário Cristiano Paz, o então diretor do Banco Rural Vinícius Samarane e a gerente financeira da SMP&B, Geiza Dias. Barbosa também absolveu Duda Mendonça e Zilmar Fernandes da acusação de lavagem de dinheiro em cinco saques em espécie em uma agência do Banco Rural em São Paulo, totalizando R$ 1,4 milhão. Barbosa entendeu que os sócios não sabiam do esquema de desvio de dinheiro público e só estavam recebendo pelos serviços prestados ao PT durante a campanha presidencial de 2002.

“Entendo que o recebimento por Duda e Zilmar de dinheiro através dos mecanismos de lavagem do Banco Rural são suficientes na acusação de que eles participaram dos valores recebidos, mas por outro lado há uma dívida razoável para saber se eles tinham ou não ciência dos crimes antecedentes”, disse Barbosa.

O porquê do ódio a Chávez

Ignácio Ramonet

Ele cumpriu a promessa de governar para as maiorias e mostrou que História não tinha terminado. Por isso (não por seus erros) oligarquias o detestam…

Hugo Chávez é, sem dúvida, o chefe de Estado mais difamado no mundo. Com a aproximação das eleições presidenciais de 7 de outubro, essas difamações tornaram-se mais infames, em muitos países. Testemunham o desespero dos adversários da revolução bolivariana frente à perspectiva da nova vitória eleitoral de Chávez.

Um líder político deve ser valorizado por seus atos, não por rumores veiculados contra ele. Os candidatos fazem promessas para ser eleitos: poucos são aqueles que, uma vez no poder, cumprem tais promessas. Desde o início, a proposta eleitoral de Chávez foi muito clara: trabalhar em benefício dos pobres, ou seja – naquele momento – a maioria dos venezuelanos. E cumpriu sua palavra.

Por isso, este é o momento de recordar o que esteve verdadeiramente em jogo nesta eleição. A Venezuela é um país muito rico, pelos fabulosos tesouros de seu subsolo, em particular o petróleo. Mas quase toda essa riqueza estava nas mãos da elite política e das empresas transnacionais. Até 1999, o povo só recebia migalhas. Os governos que se alternavam, social-democratas ou democrata-cristãos, corruptos e submetidos aos mercados, privatizavam indiscriminadamente. Mais da metade dos venezuelanos vivia abaixo da linha de pobreza (70,8% em 1996).

Chávez fez a vontade política prevalecer. Domesticou os mercados, deteve a ofensiva neoliberal e posteriormente, graças ao envolvimento popular, fez o Estado se reapropriar dos setores estratégicos da economia. Recuperou a soberania nacional. E com ela, avançou na redistribuição da riqueza, a favor dos serviços públicos e dos esquecidos.

Políticas sociais, investimento público, nacionalizações, reforma agrária, quase pleno-emprego, salário mínimo, imperativos ecológicos, acesso à moradia, direito à saúde, à educação, à aposentadoria… Chávez também se dedicou à construção de um Estado moderno. Colocou em marcha uma ambiciosa política de planejamento do uso do território: estradas, ferrovias, portos, represas, gasodutos, oleodutos.

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INTEGRAÇÃO

Na política externa, apostou na integração latino-americana e privilegiou os eixos sul-sul, ao mesmo tempo que impunha aos Estados Unidos uma relação baseada no respeito mútuo… O impulso da Venezuela desencadeou uma verdadeira onda de revoluções progressistas na América Latina, convertendo este continente em um exemplo de resistência das esquerdas frente aos estragos causados pelo neoliberalismo.

Tal furacão de mudanças inverteu as estruturas tradicionais do poder e trouxe a refundação de uma sociedade que até então havia sido hierárquica, vertical e elitista. Isso só podia desencadear o ódio das classes dominantes, convencidas de serem donas legítimas do país. São essas classes burguesas que, com seus amigos protetores e Washington, vivem financiando as grandes campanhas de difamação contra Chávez. Até chegaram a organizar – junto com os grandes meios de comunicação lhes que pertencem – um golpe de Estado, em 11 de abril de 2002.

Estas campanhas continuam hoje em dia e certos setores políticos e midiáticos encarregam-se de fazer coro com elas. Assumindo – lamentavelmente – a repetição de pontos de vista como se demonstrasse que estão corretos, as mentes simples acabam acreditando que Hugo Chávez estaria implantando um “regime ditatorial no qual não há liberdade de expressão”.

Mas os fatos são teimosos. Alguém viu um “regime ditatorial” estender os limites da democracia em vez de restringi-los? E conceder o direito de voto a milhões de pessoas até então excluídas? As eleições na Venezuela só aconteciam a cada quatro anos, Chávez organizou mais de uma por ano (catorze, em treze anos), em condições de legalidade democrática, reconhecidas pela ONU, pela União Europeia, pela OEA, pelo Centro Carter, etc.

Chávez demonstrou que é possível construir o socialismo em liberdade e democracia. E ainda converte esse caráter democrático em uma condição para o processo de transformação social. Chávez provou seu respeito à vontade do povo, abandonando uma reforma constitucional rejeitada pelos eleitores em um referendo em 2007. Não é por acaso que a Fundação para o Avanço Democrático [Foundation for Democratic Advancement] (FDA), do Canadá, em um estudo publicado em 2011, colocou a Venezuela em primeiro lugar na lista dos países que respeitam a justiça eleitoral.

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POLÍTICAS SOCIAIS

O governo de Hugo Chávez dedica 43,2% do orçamento a políticas sociais. Resultado: a taxa de mortalidade infantil caiu pela metade. O analfabetismo foi erradicado. O número de professores, multiplicado por cinco (de 65 mil para 350 mil). O país apresenta o maior coeficiente de Gini (que mede a desigualdade) da América Latina.

Em um informe em janeiro de 2012, a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal, uma agência da ONU) estabelece que a Venezuela é o país sul americano que alcançou (junto com o Equador), entre 1996 e 2010, a maior redução da taxa de pobreza. Finalmente, o instituto estadunidense de pesquisa Gallup coloca o país de Hugo Chávez como a sexta nação “mais feliz do mundo”.

O mais escandaloso, na atual campanha difamatória, é a pretensão de que a liberdade de expressão esteja restrita na Venezuela. A verdade é que o setor privado, contrário a Chávez, controla amplamente os meios de comunicação. Qualquer um pode comprovar isso. De 111 canais de televisão, 61 são privados, 37 comunitários e 13 públicos. Com a particularidade de que a parte da audiência dos canais públicos não passa de 5,4%, enquanto a dos canais privados supera 61%… O mesmo cenário repete-se nos meios radiofônicos. E 80% da imprensa escrita está nas mãos da oposição, sendo que os jornais diários mais influentes – El Universal e El Nacional – são abertamente contrários ao governo.

Nada é perfeito, naturalmente, na Venezuela bolivariana – e onde existe um regime perfeito? Mas nada justifica essas campanhas de mentiras e ódio. A nova Venezuela é a ponta da lança da onda democrática que, na América Latina, varreu os regimes oligárquicos de nove países, logo depois da queda do Muro de Berlim, quando alguns previram o “fim da história” e o “choque de civilizações” como únicos horizontes para a humanidade.

A Venezuela bolivariana é uma fonte de inspiração da qual nos nutrimos, sem fechar os olhos e sem inocência. Com orgulho, no entanto, de estar do lado bom da barricada e de reservar nossos ataques ao poder imperial dos Estados Unidos, seus aliados do Oriente Médio, tão firmemente protegidos, e qualquer situação onde reinem o dinheiro e os privilégios. Por que Chávez desperta tanto rancor em seus adversários? Sem dúvida, porque, assim como fez Bolívar, soube emancipar seu povo da resignação. E abrir o apetite pelo impossível.

(Artigo enviado por Mário Assis)

O Supremo e os precedentes perigosos

Mauro Santayana

Nunca tivemos, no Brasil e alhures, uma justiça perfeita. A esse respeito permanece como paradigma da dúvida do julgamento político a condenação de Sócrates. A acusação que lhe fizeram foi de impiedade, o que, no léxico de então, mais do que hoje, significava heresia diante dos deuses: Sócrates estaria pervertendo os jovens com seus ensinamentos, tidos também como antidemocráticos. As lições de Sócrates sempre foram da dúvida, da incessante busca do conhecimento, mesmo que o conhecimento fosse, em sua inteligência, inalcançável. Ele dizia saber que nada sabia.

Sócrates

Nesse pensamento negativo radical, recriado e elaborado por Platão, estaria, em ultima ratio – à qual não se atreveu Platão – a suprema heresia de duvidar da existência dos deuses. Os deuses eram os fiadores da democracia, e quando esse contrato com o mito, em que se fundava a sociedade, rompeu-se, ao ser sua existência posta em dúvida, Atenas perdeu o seu ponto de gravidade e entrou em irrecorrível declínio político.

Não estamos em Atenas daquele tempo emblemático, e seria, isso, sim, impiedosa heresia comparar o julgamento atual do STF ao de Sócrates. Em certo aspecto, no entanto, os dois episódios se semelham: o do espetáculo. Como tudo em Atenas, o julgamento de Sócrates foi público, com 501 juízes. Os acusadores e Sócrates, em sua apologia, foram ouvidos por uma assembléia numerosa, de acordo com os relatos, mas os que acompanham a Ação 470 vão muito além: chegam a dezenas de milhões.

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TRANSPARÊNCIA

A transparência é salutar, mas não seria essa exposição demorada e ampla, vista pelo outro lado da razão, contaminada pela vaidade de alguns magistrados e, dela decorrente, pela influência de jurados estranhos e ilegítimos, mediante os meios de comunicação?

Todos os condenados já se encontravam, mesmo sem que se conhecessem devidamente os fatos, julgados por apresentadores de programas de televisão e políticos, sem falar nos que se identificavam como “cientistas políticos” e “juristas”, iluminados pelos holofotes, que supriam de argumentos interessados os mediadores das emissoras. Assim se desenvolveu um julgamento paralelo, que antecipava votos e açulava os telespectadores contra os réus. Por isso mesmo, e de acordo com alguns observadores, também em outros aspectos foi um julgamento que desprezou as cautelas da lei no que se refere ao direito de defesa dos acusados.

Se isso realmente ocorreu, abriu-se precedente perigoso, que poderá servir, no futuro, contra qualquer um. Ainda que os acusados fossem realmente culpados, a violação de alguns princípios, entre eles o da robustez das provas, macula o processo e o julgamento. Como dizia Maquiavel, “quando se violam as leis por uma boa causa, autoriza-se a sua violação por uma causa qualquer”, ainda que nociva ao Estado.

O que os observadores de bom senso temem é que o inconveniente espetáculo, em que se transformou o julgamento da Ação 470, excite os golpistas de sempre. Ainda que a sugestão não passe de tolice insana, há os que pretendem aproveitar-se do julgamento para promover um processo contra o presidente Lula e seu governo.

Se isso viesse a ocorrer, os juízes do Supremo teriam que admitir novos processos contra outros chefes de Estado, pelo menos no exame dos atos de governo dos últimos vinte anos. Como diz o provérbio rural, o risco que corre o pau, corre o machado.

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A IMPRENSA

A história nos mostra – e 1964 é alguma coisa recente na vida nacional – que uma das primeiras vítimas institucionais dos golpes é exatamente a imprensa. O “Correio da Manhã”, que se excedeu no entusiasmo conspiratório, e publicou o célebre editorial de primeira página em favor da deposição de Jango pela força, sob o título de “Basta, e Fora!”, foi o primeiro a se arrepender – tardiamente – e o primeiro a ser sufocado pela arbitrariedade da Ditadura.

Os outros vieram depois, amordaçados pela censura, e obrigados a beber do fel que queriam que fosse servido aos competidores. Os açodados editores dos jornais e diretores dos meios eletrônicos, como são as emissoras de rádio e televisão, devem consultar seus arquivos e meditar essas lições do passado.

Com todo o respeito pelo STF e a sua autonomia republicana, não nos parece conveniente a transmissão ao vivo dos julgamentos. Os juízes devem ser protegidos pelos ritos da discrição. Seria ideal, também, para a respeitabilidade da Justiça, que os juízes só recebessem as partes e seus advogados em audiências regulares, das quais já participam oficialmente os representantes do Ministério Público.

O ato de julgar, em todas as suas fases, deve ser visto como alguma coisa sagrada. Essa era a razão dos ainda mais antigos do que os gregos, que só escolhiam os anciãos para a difícil missão de ministrar a justiça. Os julgamentos não podem transformar-se em entretenimento ou em competição oratória.

“Cale a boca, Linda!” – As cartas de John Lennon e como seria se ele usasse o Twitter

Kiko Nogueira (Diário do Centro do Mundo)

“Cara Lavanderia,

A senhora Yoko Ono Lennon nunca tingiu e nunca vai tingir o cabelo. Ela não sua (a maioria dos orientais não sua como nós). Qual é a desculpa de vocês para transformar em amarela minha camiseta branca novinha?”

“Cale a boca, Linda!” As cartas de John Lennon e como seria se ele usasse o Twitter John adorava escrever

É difícil imaginar John Lennon, o gênio fundador dos Beatles, autor do hino messiânico (e, como definiu o nosso amigo e leitor Saulo Londres, hiperglicêmico) “Imagine”, reclamando dos danos a uma peça de roupa ordinária. Mas essa é apenas uma entre as 300 mensagens do livro “As Cartas de John Lennon”, lançado no Brasil.

Hunter Davies, autor da única biografia oficial da banda, de 1968, obteve a autorização da viúva Yoko, bem como de colecionadores e amigos, para publicar cartas, postais, rabiscos e bilhetes, à mão ou datilografados, desde a juventude de Lennon até meses antes de ele morrer. Há declarações de amor a Cynthia, a primeira mulher, e respostas a músicos, críticos, advogados, admiradores e desafetos. Davies contextualiza as missivas, explicando em que circunstâncias elas foram enviadas.

Curiosamente, há dois brasileiros entre os que receberam uma palavra de Lennon: Lizzie Bravo, a fã que fez backing vocals em Across The Universe, e o jornalista Fernando de Oliveira, que ganhou dois postais em 1979 e 1980. Oliveira havia escrito a Lennon pedindo que ele participasse do show em prol do Camboja, organizado por Paul McCartney. Semanas mais tarde, surge um cartão de Natal em sua caixa postal, assinado por JL.

Era um compulsivo. Como diz o próprio Davies, John viveu e morreu na era pré-email. Caneta e tinta eram sua mídia social. A edição reproduz o papel que ele usou, preservando sua caligrafia, rabiscos e desenhos.

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PORRADAS

As porradas nos ex-Beatles e no produtor George Martin são antológicas. Em 1971, aparentemente ofendido por uma carta anterior, ele desce a lenha em Paul, Linda e na reputação de sua antiga banda: “Quem vocês/nós somos? Eu espero que percebam a merda que vocês e o resto dos meus amigos bondosos e desinteressados jogaram em Yoko e eu desde que ficamos juntos. Linda, se você não se importa com o que eu digo, cale a boca! Deixe o Paul escrever ou qualquer coisa do tipo”.

O livro traz um retrato íntimo de um homem gentil, engraçado, brutal, amoroso, colérico, egoísta, sensível — e que vivia na premência de mandar recados para o mundo. Um jornalista inglês declarou, recentemente, que era uma lástima que Lennon não estivesse vivo para ser ouvido nestes tempos intensos e conflituosos — e ao mesmo tempo um alívio por não ter de escutar suas arengas contra a fome na África, a guerra no Afeganistão ou o desmatamento da Amazônia.

Seria fascinante vê-lo usando o Facebook e tudo o que a internet lhe permitiria hoje. Mas é bom sermos poupados de ver o grande Lennon, aos 72 anos, reclamando do atendimento da TV a cabo no Twitter. Em 140 caracteres.

Ainda a respeito dos clamoros erros da pesquisas…

Watson Brasileiro

O senador Requião já dizia com todas as letras: “Se quero comprar peixe vou a uma peixaria; se quero comprar pesquisa vou ao Ibope”.

Alguns exemplos bem evidentes do modo de agir desse Ibope dá para ver comparando a última pesquisa desse instituto (divulgada um dia antes da eleição) com os votos apurados em cinco dos maiores municípios do Paraná, primeiro turno.

LONDRINA: Belinati = 49% (Ibope) e 45% (urnas), Kireeff = 18% (Ibope) e 25% (urnas), com erro de 7% contra Kireeff.

FOZ DO IGUAÇU: Chico Brasileiro = 52% (Ibope) e 45% (urnas), Reni Pereira = 45% (Ibope) e 54% (urnas), com erro de 7% a favor de um e erro de 9% contra outro.

MARINGÁ: Enio Verri = 41% (Ibope) e 35% (urnas), Pupin = 34% (Ibope) e 42% (urnas), com erro de 6% a favor de um e erro de 8% contra outro.

PONTA GROSSA: Péricles = 41% (Ibope) e 32% (urnas), Rangel = 32% (Ibope) e 33% (urnas), com erro de 9% a favor de Péricles.

CURITIBA: o Ibope previa para Ratinho 39% e deu 34%, e pior, afirmava que iria p/ 2o. turno Ducci, porém, foi Gustavo Fruet, que recebeu 27%, apesar do Ibope atribuir-lhe só 21%.

Houve explicações ou justificativas ou desculpas convincentes? Não. Se for para estender a outros lugares no Brasil, encontram-se inúmeros casos semelhantes. Estamos diante da seguinte situação: dizer que sempre foi “erro” é admitir que o instituto não sabe fazer o trabalho e por isso deve fechar as portas; ou é preciso dizer que foi intencional o resultado apresentado e aí cabe chamar por outro nome, por ora, muito em moda: “suposto” crime de falsidade.

Agora no início do segundo turno, para influenciar o eleitorado menos esclarecido (e que quer ir com os ganhadores) coloca-se um candidato com percentual bem à frente, assim vai sendo influenciado o eleitor.

É uma forma de fazer propaganda bem diferente da conhecida de outros tempos e outros lugares. E continuam soltos… Ninguém vai preso?

O ficha suja Lindbergh pensa que será o sucessor de Dilma e faz acordo com Alexandre Cardoso, outro ficha suja.

Carlos Newton

Com um a ambição desmedida e uma folha corrida que pode expulsá-lo da política em pouquíssimo tempo, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ)  aposta na impunidade eterna e faz planos para não só chegar ao governo do Rio de Janeiro em 2014, mas até de suceder a presidente Dilma Rousseff em 2018.

Irmãos siameses…

Lindbergh surgiu na vida pública como presidente da União Nacional dos Estudantes, elegeu-se deputado pelo PCdoB, depois passou para o PSTU, perdeu duas eleições e teve entrar ao PT, onde conseguiu se eleger deputado federal, prefeito de Nova Iguaçu e senador.

No rastro dessa escalada, Lindbergh deixou suas digitais numa série de irregularidades administrativas, acumulando fama de mau pagador como pessoa física e de administrador público envolvido em todo tipo de irregularidades.

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ESCÂNDALOS EM NOVA IGUAÇU

Em sua gestão, a Secretaria de Educação de Nova Iguaçu foi denunciada pelo Ministério Público Estadual por causa de uma licitação superfaturada para compra de merenda escolar em 2006. Além disso, a responsável pelo programa era a mulher do prefeito, Maria Antônia Goulart. A ex-secretária de recursos humanos da prefeitura Lídia Cristina Esteves denunciou que havia desvio de dinheiro do programa Bairro-Escola para o prefeito e sua mulher.

Na Secretaria de Saúde, mais maracutais: três cooperativas que contratam pessoal nessa área financiaram a campanha de Lindberg: a Total, a Captar-Cooper e a Multiprof.
Lindberg Farias hoje responde a várias ações civis por improbidade administrativa, propostas pelo Ministério Público. Acaba de ser condenado pela 10ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio e teve suspenso por cinco anos os seus direitos políticos. A decisão só passa a valer, no entanto, quando os recursos da defesa do senador forem rejeitados.

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ACORDO EM DUQUE DE CAXIAS

Certo de que sairá impune de todos os processos, Lindbergh Farias passou a fechar acordos para se eleger governador em 2014. E conseguiu convencer o ex-presidente Lula a obrigar o PT de Duque de Caxias a apoiar o candidato do PSB, deputado Alexandre Cardoso, que também carrega uma pesada folha corrida de corrupção e desvio de recursos públicos.

Caxias é um dos mais importantes municípios do país e está na 15ª colocação no ranking do PIB. O acordo é de que, se for eleito, Cardoso entregará a Secretaria de Obras a algum indicado de Lindbergh, que controlará também os serviços de limpeza urbana, para financiar sua campanha a governador.

O problema é que a Justiça está de olho dos dois – Lindbergh e Cardoso, irmãos siameses em matéria de corrupção. O senador está com os bens bloqueados, enquanto o deputado que não consegue aprovar suas contas na Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia desde 2008, vejam só até onde vai a desfaçatez dessa dupla de políticos que se dizem socialistas.

Mano Menezes no divã

Tostão (O Tempo)

Essa é uma crônica imaginária, fictícia, que poderia ser real.

Mano Menezes, um homem racional, autossuficiente, tem tido ansiedade, insônia, o que nunca havia ocorrido. Pressionado por familiares, procurou ajuda psicológica. Não sabia se ia a um psicanalista ou ao Analista de Bagé, personagem de Luís Fernando Veríssimo, incorporado por um cidadão da cidade.

Falam no sul que o Analista de Bagé, com sua técnica do joelhaço, dá melhores resultados. Como é um homem convencional, Mano procurou um psicanalista. Deitou-se no divã e sentiu-se ridículo. Quase foi embora. Começou o diálogo.

– Fale tudo o que estiver em seu pensamento.

– Estou tenso, inseguro. Nunca fui assim. A responsabilidade de dirigir a seleção, em uma Copa e no Brasil, é absurda. As pessoas acham que o Brasil tem a obrigação de vencer. Se perder, serei massacrado, mais ainda do que foi Dunga. Falam ainda que convoco por outros interesses. Isso é uma ofensa. Sou um homem sério.

– Já pensou em desistir?

– Várias vezes, mas isso não vai acontecer. Sou um homem de luta. Estou tentando inovar, jogar com a bola no chão, trocar muitos passes, marcar por pressão, ter dois volantes que defendem e atacam, atuar sem centroavante fixo e sem um meia de ligação, único responsável por toda a criação de jogadas. Quero Kaká, Oscar, Hulk e Neymar jogando de meias e de atacantes, e que todos deem passes e façam gols. Na primeira derrota, vão me criticar e pedir alguns jogadores. Muitos jornalistas gostam de fazer média com os torcedores e com os clubes, para aumentar a audiência.

– Por que não conversa com alguns treinadores? Percebo que você só dialoga com seu auxiliar, durante o jogo, e que ele concorda com tudo, sempre abanando a cabeça. Não morra agarrado às suas convicções.

– Tenho várias dúvidas. Não sei se uso a mesma estratégia ofensiva contra seleções mais fortes. Se escalar mais um marcador no meio-campo, no lugar de um dos quatro da frente, e o time perder, vão dizer que sou retranqueiro. Se não fizer isso, e o time perder, dirão que faltou um brucutu no meio-campo.

– Todos temos dúvidas. A vida é feita de escolhas, que podem estar certas ou erradas.

– Já li isso em algum livro de autoajuda. Mas o que mais me preocupa é a escolha de Felipão para assessor do Ministério do Esporte. Isso parece um recado para o Marín, presidente da CBF, que o técnico preferido do governo e do povo é Felipão.

– Hummm… Acabou o tempo. Quero que fale também de você, e não somente da seleção. Te espero na próxima semana.

– Nossos encontros têm de ficar em segredo. Se descobrirem, vão dizer que sou um homem fraco, depressivo.

Manuel Bandeira era amigo do rei

O crítico literário e de arte, professor de literatura, tradutor e poeta Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho ficou conhecido como Manuel Bandeira (1886-1968) . “Vou-me embora pra Pasárgada” foi o poema de mais longa gestação de toda minha obra”, explicava o poeta, salientando que, “vi pela primeira vez o nome Pasárgada, que significa campo dos persas, quando tinha os meus dezesseis anos e foi num autor grego e isto suscitou na minha imaginação uma paisagem fabulosa, um país de delícias . Mais de vinte anos depois, quando eu morava só na minha casa da Rua do Curvelo, num momento de fundo desânimo, da mais aguda doença, saltou-me de súbito do subconsciente esse grito estapafúrdio: Vou-me embora pra Pasárgada!”.

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VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA

Manoel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha falsa e demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as hitórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Paságarda tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
– Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora para Pasárgada.

(Colaboração enviada pelo poeta Paulo Peres – site Poemas & Canções)

Com Wilton Franco, o povo passou a ser personagem da TV

Pedro do Coutto

A Rede Globo, no Jornal Nacional de sábad,o deu grande destaque à morte de Wilton Franco, não só um dos pioneiros da televisão brasileira, mas também o homem, pode-se dizer assim, que tornou o povo, além de espectador, também personagem da tela mágica. Dominava sua linguagem e sua estética, conhecia seus gostos e suas emoções. Foi o criador dos Trapalhões, que se mantiveram com sucesso incontestável durante muitos anos. Mas eu disse que ele tornou o povo personagem.


Foi isso mesmo, a partir do programa Aqui e Agora, na fase final da antiga TV Tupi. Estamos falando em 1979. Dali saltou para o SBT de Sílvio Santos, alterando o nome do programa para o expressivo título de O Povo na TV. Para dar uma ideia do êxito de audiência, basta dizer que alcançava uma média de 14 pontos, só perdendo, na faixa vespertina, para os 20% da Rede Globo. Lançou personagens de êxito, de apelo popular, como Wagner Montes, sucesso até hoje, atualmente na tela da Record, Cristina Rocha, Ana Davis, além de Roberto Jeferson, cuja popularidade o levou à política. Em 1982, pela legenda do PTB, Jeferson, por coincidência, foi eleito deputado federal com pouco mais de 82 mil votos.Naquela eleição, Brizola elegia-se governador.

Foi ele, Wilton Franco, quem realizou o primeiro debate reunindo Brizola, Moreira Franco, Miro Teixeira, Sandra Cavalcanti e Lisâneas Maciel. O confronto promovido pela Globo veio depois.
E foi decisivo para a vitória de Brizola.

O Povo na TV, apesar de seu sucesso de audiência, saiu do ar não se sabe por que, já que acentuava e se ajustava à trilha marcadamente popular, linha traçada e razão do sucesso de Sílvio Santos. Meses depois retornou, mas se manteve por pouco tempo. Wilton Franco passaria a dirigir novamente Renato Aragão em Os Trapalhões, na Globo. Na sequência, o destino o levou ao Parque Beto Carreiro, Santa Catarina. Integrava sua direção até poucos dias.

Hoje, seu nome passa ao universo da memória e da lembrança. Deixa uma forte memória e uma forte lembrança, vale frisar. Foi um desbravador, um simplificador de mensagens, mas sobretudo deu voz, vez e inclusive voto à população pobre do Rio de Janeiro. Foi o homem que chamou atenção para um mercado de opinião e informação que não recebia atenção à altura de sua importância social e econômica. Muitos programas surgiram percorrendo a trilha que descobriu, descortinou e iluminou com seu talento.

É sempre assim. Alguém surge abrindo uma perspectiva nova. Foi exatamente este o caso de Wilton Franco, de quem fui amigo e também de seu filho André. Diretor de Comunicação da antiga Legião Brasileira de Assistência, participei de vários de seus programas, através dos quais pudemos mobilizar as comunidades carentes para o acesso ao registro civil, alimentação, à rede de creches e assistência a crianças com necessidades especiais.

Neste adeus a Wilton Franco, desejo apenas lhe fazer justiça como um dos comunicadores importantes da televisão brasileira.

A eleição deixou bem clara a diferença entre Joaquim Barbosa e Lewandowski

Carlos Newton

Não pode passsar em branco a notícia de que o cumprimento do dever cívico de votar demonstrou de forma irrespondível a diferença abissal entre dois ministros do Supremo Tribunal Federal – Joaquim Barbosa, relator do processo do mensalão, e Ricardo Lewandowski, revisor.

Cumprimentado na rua

Joaquim Barbosa votou na Zona Sul do Rio de Janeiro, no Clube Monte Líbano, na Lagoa. Aguardou apenas um minuto na fila, antes de votar. Foi o tempo para que surgisse um grupo de tietes entre 50 e 80 anos. Até o supervisor da 17ª Zona, Luiz Henrique Leão Vieira, de 49 anos, tirou uma foto com o ministro, e postou no Facebook. Escreveu: “Esse me dá orgulho de ser brasileiro!”.
Nos quinze minutos em que teve de ficar no local, Barbosa não negou um único pedido de foto. Só faltou ser aclamado.

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ESQUEMA DE SEGURANÇA…

Eleitor em São Paulo, o revisor Ricardo Lewandowski pediu esquema de segurança e entrou pelos fundos do colégio onde vota, no Brooklin, Zona Sul da capital. Nenhum dos eleitores que o encontraram dirigiu-lhe a palavra, não fez fotos com ninguém. Apenas os jornalistas, por dever de ofício, o procuraram para entrevistas. E suas declarações foram bastante sintomáticas.

– Estou com a consciência absolutamente tranquila, cumpri meu dever. Críticas fazem parte do processo democrático – disse.

Só esqueceu de explicar por que, então, teve de pedir proteção policial. Mas sua consciência sabe muito bem os motivos.

Depois do mensalão

Carlos Chagas

Pode demorar, mas um dia terminará o julgamento do mensalão. Esta semana completa-se a quinta fatia do processo, com os votos que faltam dos ministros Gilmar Mendes, Celso de Mello e Ayres Britto a respeito dos petistas agraciados com dinheiro do esquema. Depois virá a manifestação do Supremo sobre os pagamentos feitos ao publicitário Duda Mendonça. Em seguida as acusações de formação de quadrilha e, até o fim do mês, as sentenças finais. Mais a fixação das penas para cada condenado, a redação do acórdão de mil páginas, sua publicação do Diário da Justiça, a apresentação dos embargos pelos advogados dos réus, finalmente o “transitado em julgado” e a marcha para atrás das grades de quantos a tenham merecido. Coisa para terminar em meados do ano que vem.

A pergunta que se faz é: e depois? Depois do mensalão, não se duvide, aumentará o ânimo punitivo, ou melhor, a tentativa de derrocada da impunidade. No Ministério Público, nos partidos de oposição, em associações da sociedade civil e até pela voz rouca das ruas, continuarão as denúncias de irregularidades passadas.

Haverá quem pretenda envolver o ex-presidente Lula, com base no seu conhecimento do escândalo já então julgado, da distribuição de dinheiro público e privado para a compra de apoio parlamentar. Aparecerão também os interessados em ressuscitar malfeitos na votação da emenda da reeleição, dos tempos de Fernando Henrique. E muita coisa a mais, desde uma devassa no reino do caixa dois, mesmo já tendo havido a prescrição na maioria dos casos passados.

Em suma, o país deve estar preparado para conviver com um vasto acerto de contas que, salvo engano, vai virar fumaça. Mas manterá acesas as brasas da opinião pública e municiada a mídia para cada denúncia levantada, uma espécie de caça às bruxas que podem mesmo ter sido bruxas, hoje sepultadas pelo esquecimento.

Logo virão a Copa da Mundo de futebol, a sucessão presidencial e as eleições gerais de 2014, para virar o jogo e certamente fornecerem material para novas lufadas de moralidade. Ainda bem.

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AMPLIAÇÃO DO FIRMAMENTO

Na hipótese da permanência de Fernando Haddad na pole-position e de sua vitória dia 28, são amplas as hipóteses e até as promessas de que o ex-ministro da Educação permanecerá na prefeitura até o final de seu mandato. Exclui-se, assim, as possibilidades dele candidatar-se ao governo de São Paulo, em 2014.

Como o novo prefeito estará brilhando feito cometa que gira ao redor do sol (imaginem quem é) logo surgirão no sistema os candidatos a grandes planetas, ou seja, os companheiros ávidos de disputar o governo do estado. Aloísio Mercadante, ministro da Educação, Marta Suplicy, ministra da Cultura e Alexandre Padilha, ministro da Saúde, tentarão tornar-se Júpiter, Vênus e Saturno, mas ninguém garante que o astro-rei não venha a escolher um novo e surpreendente cometa nos céus sob sua influência gravitacional.

Do outro lado, nessa ampliação do firmamento paulistano para firmamento paulista, José Serra parecerá então um planeta do tipo Plutão, que acaba de ser rebaixado pelos astrônomos. Geraldo Alckmin só não se candidatará a um novo mandato se conseguir superar Aécio Neves na corrida presidencial. Restará esperar a surpresa desses novos corpos celestes que sempre aparecem, do tipo Celso Russomano, Soninha e o Paulinho da Força.

O partido do Benedito

Sebastião Nery

Era nos fins de 1944, a guerra acabando, a União Soviética avançando sobre Berlim, a ditadura de Vargas se desmanchando, a oposição criando a UDN em torno de Eduardo Gomes e os comunistas saindo da toca e exigindo anistia e legalidade para Prestes e os presos.

Os interventores Benedito Valadares, de Minas, Fernando Costa, de São Paulo, Agamenon Magalhães, de Pernambuco, Amaral Peixoto, do Estado do Rio, o prefeito de Belo Horizonte Juscelino Kubitschek e o prefeito do Rio Henrique Dodsworth começaram a reunir-se no apartamento de Benedito, no Rio, para criarem o partido do governo.

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BARBOSA LIMA

Qual o nome? PD (Partido Democrático). Benedito, que só era burro quando queria enganar a soberba UDN mineira, propôs:

– Olhem para a Europa. Os tempos são outros. Vamos botar uma pitada de social nisso ai. Vamos chamar o partido de “Social Democrático”.

E um pernambucano ilustre, Barbosa Lima Sobrinho, amigo de Agamenon Magalhães, redigiu o primeiro programa do PSD, que nasceu em 17 de julho de 45 com “uma pitada de social”. Jogaram a UDN para a direita, da qual nunca conseguiu sair, e onde morreu e se enterrou.

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Nem de direita nem de esquerda
KASSAB

O prefeito Gilberto Kassab, de São Paulo, havia anunciado que o partido que está fabricando iria chamar-se PDB (Partido Democrático Brasileiro). Depois, mudou o nome para PSD (Partido Social Democrata), alegando que era “uma homenagem a Juscelino Kubitschek”.

Respeito é bom e Juscelino e a Historia merecem. Juscelino dispensaria a homenagem. Tinha que pagar royalties era a Benedito. Kassab diz que seu partido não será de direita, de centro, nem de esquerda. O ex-prefeito Cesar Maia, do DEM Rio, que entende de partidecos, zomba:

– “Um partido que nasce dizendo não ser de direita, de centro ou de esquerda é um partido politicamente de nada”.

Mais do que de nada. De baixo. De fundos.

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FUNDOS

Na década de 50, o baiano Helio Machado candidatou-se a prefeito de Salvador pelo PDC (Partido Democrata Cristão. Slogan da campanha:

– “Nem para a direita nem para a esquerda.Para a frente e para o alto”.

O partido do quibe Kassab-Afif deveria chamar-se PFP (Partido do Fundo Partidário). Estão todos é atrás de uma fatia do Fundo Partidário, que distribui milhões aos partidos. Basta comprar alguns deputados.

O Fundo Partidário é a nova saúva nacional : ou se acaba com o Fundo Partidário ou o Fundo Partidária vai acabar com os partidos. Cada novo partido que surge não nasce para ser um partido, mas para comer uma lasca do Fundo Partidário. Já estão chegando a 30. Logo serão 50.

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POLIVALENTE

Já há projetos no Congresso para dobrar a verba do Fundo. Na “Folha”, a brilhante Renata Lo Prete dizia que “Kassab é um ambivalente”.

Nada disso, Renata. Ele é um “polivalente”. O Aurélio ensina :

– “Polivalente : que é eficaz em varios casos diferentes, versatil, que oferece varias possibilidades de aplicação ou emprego”. Sobretudo emprego

Como outros, não é um partido. É mais um armarinho, uma quitanda.

 

Deu no Estadão: CNJ apura indícios de favorecimento em obra da Delta no Tribunal do Rio

A Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) realizou, em março deste ano, inspeção que encontrou indícios de direcionamento, para a Delta Construções S.A., na licitação para a construção do prédio da lâmina central da sede do Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ). Segundo reportagem publicada no jornal Estado de São Paulo, o relatório da inspeção questiona cinco aditivos que elevaram o preço final da obra em 23,63%. O contrato, assinado em julho de 2010, tinha valor previsto de R$ 141,4 milhões, cifra que pulou para 174,8 milhões. O prazo da obra também foi estendido, de 390 para 515 dias.

“Nada de errado…”

 

Falando ao Estadão, o desembargador Luiz Zveiter, presidente do TJ na época do edital e da assinatura do primeiro aditivo, alegou desconhecer os “parâmetros que os técnicos do Conselho Nacional de Justiça usaram”. Disse ainda que todas as “licitações eram submetidas ao TCE antes e depois  de serem publicadas. Não tem nada de irregular nas minhas contas”.

“Os requisitos de qualificação foram tão limitadores a ponto de conduzir o certame para a única licitante presente: a empresa Delta Construções S.A.”, diz trecho do relatório publicado em 6 de setembro.

De acordo com o documento, se houvesse divergência de “quantitativos de materiais e serviços” entre o projeto básico e o executivo, que foi realizado pela Delta, “teriam de ser vistos de uma vez na confrontação dos dois projetos”.

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LICITAÇÃO E SONEGAÇÃO

Segundo a reportagem, o relatório também questiona a suspensão de licitação feita anteriormente para a a mesma obra, na qual a empresa Paulitec Construções Ltda. foi a vencedora. De acordo com os técnicos do CNJ, o TJ-RJ deu andamento de imediato à licitação 097/2010, “sem a devida chancela da assessoria jurídica sob a alegação de tratar-se de edital igual ao anterior”.

O trabalho técnico do CNJ diz haver indícios de sonegação fiscal por parte da Delta. O edital 052/2010 incluiu a obra no Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura (Reidi), instituído pela Lei 11.488/2007. Esse regime isenta de pagamento de PIS e Cofins, que somam quase 9,25%, para obras nos setores de transportes, portos, energia, saneamento básico e irrigação. Como a construção do novo prédio do TJ não se inclui entre estes casos, a construtora não poderia deixar de recolher os impostos.

(Matéria transcrita do Estadão, enviada por Paulo Peres)

A mão estendida de Chávez

Mauro Santayana

“Pode não ser para amanhã – dizia o professor Afonso Arinos, quando presidia à Comissão de Estudos Constitucionais, em 1986 -, mas o mundo caminha para a esquerda”. A vitória de Chávez na Venezuela, e os resultados eleitorais no Brasil, parecem dar razão ao intelectual e político mineiro que, a partir de certo trecho da vida, abandonou a visão conservadora do mundo. Uma frase definidora de sua revisão ideológica foi a de que as favelas de nosso tempo são as senzalas do passado.

Em busca de entendimento

A política não se faz aos pulos, da mesma maneira que natura non facit saltus: para chegar à esquerda, é preciso passar pelo centro. Chávez jamais escondeu seus projetos e suas idéias. É provável que, se estivesse vivo, Bolívar – grande herói da independência hispano-americana e paladino da ascensão dos mestiços ao poder – não comungasse dos mesmos ideais socialistas do líder de hoje.

Uma coisa era o mundo de 1810, outra o mundo de nossos dias. Como sabemos, Marx nasceu em 1818. Alem disso, Chávez não é rigorosamente um marxista e tampouco pode ser identificado como intelectual. Ele, como Lula e, bem antes, Josip Tito, são homens do povo, conduzidos pela consciência de classe, diante do sofrimento e da injustiça.

O processo eleitoral da Venezuela é o mais fiscalizado do mundo. Os próprios norte-americanos, que gostariam de ver Chávez longe do poder, e que enviam regularmente seus observadores quando há eleições no país, são forçados a reconhecer a lisura do sistema. Chávez, apesar de seus arroubos oratórios, que se inspiram na particular visão do mundo dos mestiços andinos, é um homem lúcido. A enfermidade deve tê-lo feito refletir sobre a sua responsabilidade diante do futuro, e na necessidade de não legar aos pósteros uma nação dividida em duas facções.

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ENTENDIMENTO

Em razão disso, tomou uma atitude inusitada: em lugar de esperar que o vencido, Capriles, o cumprimentasse pela vitória, telefonou para o adversário, com quem manteve uma conversação amistosa, e, em seguida, estendeu sua mão à oposição, propondo o entendimento para vencer as dificuldades do país.

Chávez, como reiterou, não renunciou ao projeto de “socialismo bolivariano”, mas tampouco demonstrou pressa em implantá-lo. Ele está profundamente preocupado com a espiral da violência em seu país, e sabe que é preciso mobilizar toda a sociedade, a fim de evitar a mexicanização da Venezuela. É a mesma preocupação que parece mover o Presidente Juan Manuel Santos, da Colômbia, na busca do entendimento com as Farc. Essa é a plataforma para a civilidade do debate político.

Em nosso país, pelo menos até agora, a direita recuou em várias regiões. Não é exagero concluir que o eleitorado deu um passo em direção à esquerda. É essa consciência do possível, diante da ameaça de que a criminalidade organizada ocupe o Estado, que parece despertar em nosso continente.