Os bandidos e a política

Mauro Santayana (JB Online)

A criminalidade se exerce em todos os setores da sociedade, e um de seus objetivos é o controle ilegítimo das instituições do estado. A elas podem chegar, mediante a compra de votos e outros recursos, ou controlando alguns políticos mediante o suborno, a corrupção.

Em um de seus melhores ensaios sobre Política e Criminalidade (Politik und Verbrechen), o pensador contemporâneo Hans Magnus Enzensberger, conta que Al Capone, em 1930, chegara a seu apogeu, sem que fosse incomodado pelas instituições do Estado. Ao contrário, eram notórias suas relações com os políticos, com a polícia e com os jornalistas, e todos cultivavam o seu poder e se nutriam de seu dinheiro.

Era um mito ou, como melhor explica Enzensberger, um paramito, criação dos tempos modernos, que não passam de uma miragem dos tempos realmente heróicos, nos quais os mitos nasceram. Os turistas pagavam para, de ônibus, percorrer os bairros em que a quadrilha de Scarface exercia, de fato, o poder de estado, sob o olhar indiferente dos moradores e de seus asseclas – da mesma forma que os visitantes, com a permissão dos narcotraficantes de hoje, passeiam pelas favelas cariocas.

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O EXEMPLO DE CAPONE

Nesse ano de 1930, segundo as fontes do escritor alemão, a Warner Bros, que crescera com os mitos que criava e vendia, ofereceu uma fortuna a Al Capone para que, em um filme sobre o gangster, interpretasse o próprio Al Capone, o que ele recusou. O criminoso novaiorquino, que se transferira para Chicago aos 20 anos, fizera fulgurante carreira e, aos 30 já reunira cem milhões de dólares daquele tempo – uma quantia equivalente a muito mais de três bilhões de dólares em nossos dias. Tal como em nosso tempo, com o neoliberalismo, a globalização liberal dos anos 30 criara a crise de confiabilidade na moeda e nas instituições políticas. Só Roosevelt, com o New Deal, restabeleceria a confiança no Estado.

Al Capone queria ser o homem mais rico e mais poderoso dos Estados Unidos. Como se sabe, um ano depois a Justiça pegou Capone, porque não pagava imposto de renda. Condenado a 11 anos, transferido para um hospital, acometido de demência provocada pela sífilis, Capone morreu aos 48 anos, em uma propriedade sua na Flórida. Já naquele tempo, havia laranjas, e com a doença do gangster, a maior parte de sua imensa fortuna se distribuiu, naturalmente, entre os prepostos. Os que lhe mantiveram fidelidade garantiram o seu bem-estar possível, mesmo na demência, até o fim.

A criminalidade se exerce em todos os setores da sociedade, e um de seus objetivos é o controle ilegítimo das instituições do estado. A elas podem chegar, mediante a compra de votos e outros recursos, ou controlando alguns políticos mediante o suborno, a corrupção. Os políticos, quando honrados, buscam conquistar o mando mediante a confiança dos cidadãos, e se dedicam a promover o bem comum.

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VIOLÊNCIA E GENEROSIDADE

Os criminosos se preocupam em construir o seu poder mediante os meios conhecidos, entre eles os da violência sem limites. Um traço comum aos chefes de gangsters é o da “generosidade”. Os defensores de Cachoeira, a começar pela mulher, dizem que ele está sempre disposto a ajudar os outros. Desde, é claro, que os outros o obedeçam. Capone se considerava o grande benfeitor de Chicago, oferecendo dinheiro para iniciativas sociais e obras de caridade.

É o que estamos constatando mais uma vez, nas relações de Carlos Cachoeira com parlamentares e personalidades do poder executivo. São tantas as evidências que não é arriscado identificar, no empresário goiano, o epicentro de uma vasta rede de jogos ilícitos e de assalto aos bens públicos, com a prática de corrupção política, e, talvez, de delitos mais graves. A ministra Carmem Lúcia teve um momento de desabafo ao se referir à Lei da Ficha Limpa: ninguém suporta mais tanta corrupção.

Os senadores respiraram, aliviados, a decapitação de Demóstenes Torres. Provavelmente, alguns dos que comemoraram o sacrifício do bode expiatório estejam sendo precipitados. Estamos no início de uma revolução de caráter ético, bem diferente de outras do passado. A Revolução Francesa foi o resultado da circulação de mais de duzentos jornais em Paris e nas províncias.

Hoje, com a internet, cada um de nós pode ser, ao mesmo tempo, jornalista, impressor e distribuidor de informações e opinião. Ainda que a rede esteja sendo usada pelos centros internacionais de poder, a fim de semear a discórdia e impor a sua vontade, a ação coordenada dos cidadãos pode vencer a batalha da informação.

Como nos ensina a dialética, a quantidade faz a qualidade.

Carta do vice-primeiro-ministro da Síria, Walid Al Moallem, estranhando a posição de Kofi Anan, enviado especial da ONU.

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Anan (ONU) e Al Moallem (Síria)

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Prezado Senhor Kofi Anan,

Li vossa carta, datada em 13/07/2012, dirigida ao Secretário-Geral das Nações Unidas, na qual Vossa Senhoria faz referência aos trágicos relatos vindos da vila de Al Tremseh, próxima a Hama, e sobre o uso de canhões, tanques e helicópteros por parte do Governo sírio.

Lamento que V. Sa. tenha baseado vossa posição numa única e imprecisa fonte de informações. Esperava que V. Sa. verificasse os relatos junto ao Governo sírio antes de adotá-los, para que pudesses ver a verdade dos fatos, salientando que nós atendemos imediatamente ao pedido da missão de observadores para visitar Al Tremseh e a visita foi, de fato, realizada na data estabelecida por eles, em 14/07/2012.

O que ocorreu no vilarejo de Al Tremseh, próximo a Hama, é que dezenas de membros de grupos terroristas armados invadiram o vilarejo e lá se instalaram, aterrorizando os moradores civis e criando sedes de comando, depósitos de armas e locais de tortura dos seqüestrados, atacando mais de um ponto das Forças de Segurança concentradas nos arredores do vilarejo, o que exigiu uma resposta e o choque desde as 5 horas da manhã da quinta-feira, 12/07/2012.

Estes choques permaneceram durante algumas horas, mas as forças do Governo não utilizaram aviões ou helicópteros ou tanques ou canhões, entraram na cidade sob a proteção de carros militares de transporte do tipo BMB e utilizaram armas leves, conforme a definição do Entendimento Inicial assinado entre a Síria e as Nações Unidas.

Durante os choques, foram danificadas apenas cinco casas dentro do vilarejo que eram utilizadas como sedes dos grupos terroristas armados, assim como foram encontradas grandes quantidades de armas, munição e artefatos explosivos.

Afirmo à V. Sa. que as forças do Governo não cometeram nenhum massacre, conforme anunciou a imprensa, mas os grupos armados levaram consigo alguns corpos dos seus mortos e alegaram que o exército sírio promoveu um massacre contra os civis, fato que nego veementemente.

Causa-me muita estranheza o vosso silêncio diante das violações diárias cometidas pelos grupos terroristas armados, que já ultrapassaram dez mil e quinhentas violações, desde 12/04/2012 até a presente data. Sinceramente, não houve nenhuma referência sobre isso em vossas declarações e nem em vossos relatos ao Conselho de Segurança.

A adoção de fontes de informação sem credibilidade prejudica vossa missão e serve unicamente aos interesses dos que buscam o fracasso desta missão, ao tempo em que a Síria zela pelo sucesso de vossa missão e reafirma o compromisso do Governo da Síria com o Plano de Seis Pontos e com o Entendimento Inicial assinado em 19/04/2012, assim como o entendimento ocorrido entre V. Sa e o Senhor Presidente Bashar Al Assad, durante a vossa última visita a Damasco, e espera avançar no cumprimento deste entendimento para cessar a violência e iniciar o processo político.

Queira aceitar meus cumprimentos e peço que uma cópia desta minha carta seja encaminhada ao Secretário-Geral das Nações Unidas e ao Presidente do Conselho de Segurança.

Walid Al Moallem, vice-primeiro-ministro

A verdade de Bertold Brecht unifica

Rubem Braga nos ensinou que a poesia é necessária. Então vamos postar um poema do escritor e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898 /1956).

Bertolt Brecht

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A VERDADE UNIFICA

Amigos, gostaria que soubésseis a Verdade e a dissésseis!
Não como cansados Césares fugitivos: Amanhã vem farinha!
Mas como Lenine: Amanhã à noitinha
Estamos perdidos, se não…
Ou como se diz na cantiguinha:

Irmãos, com esta questão
Quero logo começar:
Da nossa difícil situação
Não há que escapar.

Amigos, uma forte confissão
E um forte SE NÃO!

Bertold Brecht, in ‘Lendas, Parábolas, Crónicas,
Sátiras e outros Poemas’ – Tradução de Paulo Quintela

“Algumas coisas melhoraram no futebol brasileiro. Muitas outras precisam ser corrigidas.”

Tostão (Jornal O Tempo)

Foi uma grande injustiça a ausência de Thiago Silva entre os 32 jogadores que vão disputar o título de melhor da temporada na Europa. De qualquer maneira, não ter um único brasileiro na lista é mais uma evidência do desprestígio de nosso futebol. Enquanto isso, os otimistas, a turma do oba-oba e os marqueteiros acham que está tudo uma maravilha.

Seedorf sabia que era uma celebridade mundial, mas nem tanto. Foi recebido até pelo prefeito do Rio. Políticos e governos adoram fazer demagogia com atletas e com o futebol. Sempre foi assim. Seedorf deve estar preocupado com a enorme expectativa, a de que seja um Didi, um Gerson.

Por falar em celebridades, não deixe de ver a deliciosa ironia sobre o assunto, criada por Woody Allen, em seu mais recente filme, “Para Roma com Amor”.

No fim de semana, os erros dos árbitros na marcação de pênaltis e nas expulsões atingiram níveis absurdos. Os comentaristas de arbitragem são muito cooperativistas e bonzinhos.

Vi também coisas boas. Zé Roberto, 38 anos, menos avançado que nas partidas anteriores, deu uma aula sobre como jogar no meio-campo. Zé Roberto não é volante nem meia. É armador, defensivo e ofensivo. Muitos técnicos ainda não conhecem esse tipo de jogador. Só conhecem os volantes defensivos e os meias ofensivos.

Tite, Cuca, Abel e outros treinadores começam a aprender com os times europeus a formar um time compacto, com duas linhas de quatro, sem deixar muitos espaços entre elas. Ufa! Os meias ou atacantes pelos lados voltam para marcar ao lado dos volantes e avançam como pontas.

O que não justifica é colocar as duas linhas encostadas à grande área, a não ser em momentos especiais, como fez o Chelsea contra o Barcelona e o Bayern, dois times superiores. Contra o Flamengo e o Botafogo, o Fluminense fez um gol e foi jogar lá atrás. Fla e Bota pressionaram e criaram muitas chances de gol.

Outras coisas também melhoraram nos últimos anos no futebol brasileiro. Desapareceram a marcação individual e os volantes-zagueiros, que não eram bons volantes nem bons zagueiros. E os laterais, menos os do São Paulo, estão aprendendo a avançar no momento certo.

Há ainda muitas coisas para evoluírem, como diminuir o excesso de jogadas aéreas, de trombadas, de chutões, de passes longos para os companheiros marcados e de pressa para chegar ao gol. É preciso também acabar com gramados ruins e com jogadores cai-cai, que tentam enganar os árbitros e o futebol.

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MOMENTOS DIFERENTES

O Galo não para de vencer, agora de virada. O time tem condições de continuar entre os primeiros e lutar pelo título? Penso que sim. O Atlético, antes do campeonato, era um time promissor. Já é uma realidade. Ainda mais que outras equipes fortes, que disputavam a Libertadores e a Copa do Brasil, estão muito distantes dos primeiros lugares.

O Cruzeiro, como disse Celso Roth, dessa vez, jogou muito mal e perdeu. O time tem problemas individuais e coletivos, mais individuais. Os laterais e o zagueiro Mateus são fracos, o meio-campo é apenas lutador, e os dois centroavantes, Wellington Paulista e Borges, pareciam estar distantes 100 km um do outro. Com Ceará e Sandro Silva, o time deve melhorar.

José Maria Marin, que aumentou o próprio salário na CBF para 230 mil por mês, é tão corrupto quanto Ricardo Teixeira.

Carlos Newton

Farra do boi na Confederação Brasileira de Futebol. Não satisfeito em aumentar seu salário na CBF de R$ 90 mil para R$ 130 mil, o novo presidente José Maria Marin recebe mais R$ 110 mil mensais do Comitê Organizador Local da Copa-2014 (COL).

Joana Havelange Teixeira continua sendo diretora executiva do COL, com o modesto salário de R$ 70 mil mensais. Ela é filha de Ricardo Teixeira e neta de João Havelange. E para manter a grande família no melhor dos mundos, Marin continua fazendo a CBF pagar R$ 105 mil mensais a Ricardo Teixeira, a título de “assessoria especializada”, embora ele nem apareça na sede da Confederação.

Outro “assessor” privilegiado por Marin é seu pupilo Marco Polo Del Nero, que ganha R$ 130 mil mensais, ou seja, é mais importante do que Ricardo Teixeira na hierarquia e está sendo preparado para ser o futuro presidente da CBF, que Deus nos proteja.

Para culminar, José Maria Marin também contratou o serviço de assistência médica Omint, para cuidar de sua saúde pessoal, tudo pago pelo COL.

Como se vê, não falta na CBF espírito esportivo e amor ao futebol. Não é formação de um time. Na verdade, é formação de quadrilha.

Um espetáculo lamentável

Carlos Chagas

Juízos de valor à parte, com relação à greve dos servidores públicos federais, a verdade é que permanece valendo a máxima oriunda desde Ramsés II: greve se faz contra patrão.

Mais de 100 mil funcionários do Executivo estão paralisados e cumprem a determinação milenar. O patrão é o governo e contra ele cruzam os braços.

O problema está nos desdobramentos. Ainda agora 5 mil grevistas resolveram acampar no gramado da Esplanada dos Ministérios. Montaram barracas, além de um circo, onde fazem comida, lavam roupa, sujam o chão e só não se dedicam ostensivamente a outras atividades fisiológicas porque o governo, mais do que depressa, montou no local dezenas de banheiros químicos. Melhor assim do que quando certas tribos de índios reivindicam a ocupação e não aceitam a oferta.

Não dá para aceitar, porém, que um dos cartões postais mais eloqüentes da capital federal se veja transformado num pátio dos milagres, uma favela erigida pelo descaso diante de nossa imagem de sociedade civilizada. Não se trata de novidade, pois há décadas que o principal gramado de Brasília se vê invadido por toda sorte de abusos e absurdos. Já se erigiram por lá mafuás, parques-de-diversão, mini-estádios para a disputa de campeonatos de tênis e natação, montanhas de lama para corrida de motocicletas, palcos para espetáculos de música popular e até de orquestras sinfônicas.

A população tem direito a diversões, mas há lugar para tudo. Jamais diante da Praça dos Três Poderes e das fileiras de ministérios que acabam se prestando ao papel de linha auxiliar do caos. Assiste-se a um jogo-de-empurra digno da burrice humana: o governo federal sustenta não deter o domínio do gramado, cuja preservação pertence ao governo local. Este, por sua vez, resolveu a questão terceirizando a Esplanada, entregue a uma empresa de turismo que aluga cada metro quadrado para quem quiser, desde que pague bem. Os grevistas, é claro, não pagam, mas o prejuízo corre por conta do faturamento.

Já imaginaram se no jardim fronteiriço à Casa Branca fosse permitido um horror igual? Se no Campo de Marte, em Paris, pudessem estabelecer-se os franceses irritados com a presença de árabes e africanos? Ou vice-versa?

O espetáculo agora montado no centro de Brasília desonra os poderes constituídos tanto quanto a categoria dos funcionários federais. Tira do movimento grevista boa parte de sua legitimidade, para não falar da segurança do cidadão obrigado a transitar por ali. Retrata uma das faces da falência do poder público.

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NUNCA ANTES, NA HISTÓRIA…

Demonstra nem tudo estar perdido, no Brasil, a expectativa do julgamento do mensalão, no Supremo Tribunal Federal. Pela primeira vez na História do país 38 réus de crimes de colarinho branco responderão pelas acusações de corrupção. Todo mundo é inocente até que se lhe prove a culpa, mas diante de monumentais denúncias como as que integram o processo, haverá pelo menos que submeter os acusados ao crivo da lei. Tem gente apavorada com a perspectiva de condenação, ainda que o ceticismo natural do brasileiro desperte a previsão de muitas absolvições. De qualquer forma, a palavra foi transferida para a mais alta corte nacional de justiça.

Abre-se a hipótese de alguns mensaleiros saírem diretamente do plenário do Supremo para uma cela na Polícia Federal. Fica evidente que o mensalão não se resumiu a simples operação de ressarcimento do caixa dois em eleições passadas. Pelo jeito foi roubalheira mesmo, coordenada e orquestrada por altos funcionários públicos, por parlamentares e pelo partido oficial, como forma de garantia de maioria para o governo, no Congresso. Há que ser otimista.

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REFLEXOS

As eleições para as prefeituras das capitais centralizam as atenções para outubro. Trata-se de uma espécie de ensaio-geral para 2014. O partido que eleger maior número de prefeitos estará melhor posicionado para eleger governadores, sendo que estes subordinarão os espaços para quem vier a ocupar a presidência da República.

Passando da teoria à prática: caso Dilma Rousseff venha a ser reeleita, como indicam as pesquisas, poderá ela governar a vontade caso os principais estados venham a ser governados pelo PSDB? Hoje, o eixo Rio-São Paulo pertence aos tucanos, mas se eles ampliarem sua presença nas demais regiões? Jamais declarariam guerra a Brasília, mas poderiam condicionar o poder central aos interesses estaduais.

Na hipótese de o PMDB ocupar essa pole-position, mesmo permanecendo aliado ao PT no plano federal, voltaria aquele período de domínio quase exclusivo da legenda? José Sarney que o diga, nos tempos em que foi presidente da República e tinha sobre ele a sombra do dr. Ulysses.

Por isso o PT jogará todas as suas forças na conquista de governos estaduais de importância. Como tudo isso começa nas próximas eleições de prefeito de capital, explica-se o esforço geral já iniciado.

CUT é mais agressiva com a Dilma do que foi em relação a Lula

Pedro do Coutto

Sem dúvida, como a frase que está no título. Basta ler o que a Central Única dos Trabalhadores divulgou em seu site na Internet, edição de quinta-feira 12, para se concluir a diferença de tratamento. É verdade que, não existindo duas pessoas iguais, não há como esperar comportamentos semelhantes, seja por parte dos presidentes, seja por parte das entidades de classe em relação a eles. Perfeito. Mas estou me referindo à atmosfera que durou até o final de 2010 e a atmosfera em 2012. A CUT, semana passada, assumiu um outro tom, bem mais agressivo do que o usado anteriormente.

Ao divulgar a greve das empresas estatais de energia, que começa nesta segunda-feira, e cuja duração indeterminada dependerá, é claro, de nova rodada de negociações, o presidente da Federação Nacional dos Urbanitários, Franklin Moreira Gonçalves, rejeitou no alinhamento salarial, apenas a reposição inflacionária que, de acordo com o IBGE, é de 5,1% para o período maio de 2011 a maio de 2012. A proposta trabalhista situa-se em torno de 10%, além de pontos adicionais. Portanto, temos de um lado 10%, de outro cinco. A FNU é vinculada à CUT, daí o apoio que recebeu.

O dirigente sindical, entretanto, cobra perdas anteriores não repostas e acentua que um governo popular e democrático não pode se recusar ao diálogo com os trabalhadores, por sinal – frisa – uma das fontes principais da vitória de Dilma Rousseff nas urnas de dois anos atrás. No final do documento, Moreira Gonçalves anuncia também o apoio da CUT à greve anunciada do funcionalismo federal. E acrescentou: apoiamos igualmente as que já estão acontecendo e apoiaremos as demais que vão se iniciar.

Neste ponto, uma surpresa: apoio antecipado antes de saber a motivação dos movimentos? Parece algo estranho. Transmite a impressão que existe algo político nesse posicionamento.
Por exemplo, uma arregimentação sindical em torno do julgamento do ex-ministro José Dirceu pelo Supremo Tribunal Federal?

Como esta hipótese já foi colocada pelo próprio Dirceu, pelo deputado Rui Falcão, presidente do PT, e pelo novo presidente da CUT, Vagner Freitas, tornar-se-ia oportuno, para dizer o mínimo, o presidente da Federação Nacional dos Urbanitários esclarecer de forma nítida os limites da mobilização, no sentido de que uma coisa não se confunda com outra. Afinal de contas, luta por melhoria salarial nada tem a ver com a tentativa surpreendente de pressionar o STF através de uma concentração na Praça dos Três Poderes, em Brasília.

Como a separação de objetivos não foi iluminada e colocada no palco das hipóteses, será importante Franklin Moreira Gonçalves esclarecer a diferença, sobretudo para evitar que os interessados em libertar José Dirceu aproveitem-se de uma greve legítima para exercer pressão ilegítima. O panorama conduz a que se pense sobre as hipóteses, aliás conflitantes, na medida em que se unem reivindicações coletivas e interesses pessoais.

Não é sem razão que se localiza o tema sob este prisma. Pois chama atenção a diferença de linguagem da CUT, que engloba a Federação Nacional dos Urbanitários, usada em relação ao ex-presidente Lula e a aplicada quanto a presidente Dilma Rousseff. O julgamento do mensalão teria dividido correntes do Partido dos Trabalhadores? Se criou, é hora de a atual presidente assumir o comando da negociação salarial entre empregados das empresas elétricas e o governo. Parece haver um fio desencapado. Tocá-lo sem a cautela necessária pode produzir um choque.
Mais um fato: a greve por tempo indeterminado aproxima o movimento que se desenrola com o julgamento do STF. Os que se empenham pelo ex-chefe da Csa Civil têm aí uma oportunidade para confundir a opinião pública.

Lembranças de Jango em Montevidéu

Sebastião Nery

João Goulart saiu de seu apartamento bem aqui neste edifício da praia de Pocitos, a uns 20 quilômetros do centro, onde o encontrei exilado depois do golpe de 64, abriu com a chave a porta do carro Hillmann, inglês e azulado, estacionado em frente, entrou, sentou-se à direção, tentou ligar, a chave não entrou.

Insistiu, não conseguiu. E ouviu um grupo chegar ao gritos:

– Está preso! Saia! Roubando o carro!

Era a polícia. Jango tinha entrado em um carro errado, igualzinho ao dele. E a chave dele abriu a porta do carro do outro. Ao lado, estava lá seu Hillmann, também inglês e azulado. Mostrou o passaporte, o policial folheou:

– Desculpe, presidente Goulart, íamos passando, fomos avisados de que alguém estava roubando um carro aqui.

– Pois é, sem perceber entrei neste carro, que é igual ao meu, aquele ali.

– Mas, me permita uma pergunta. Se o senhor é ex-presidente do Brasil, por que seu passaporte é do Paraguai?

Jango explicou que a ditadura militar havia confiscado todos os seus documentos, inclusive o passaporte e o deixou no Uruguai sem identidade alguma. Jango sofria com isso, amargurava-se.

Foi preciso que o Paraguai, presidido pelo general-ditador Alfredo Stroessener, desse um passaporte paraguaio ao ex-presidente do Brasil, para que ele não vivesse no Uruguai como um clandestino, um apátrida.

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O VETO DOS GENERAIS

Jango não pensava em outra coisa senão em voltar para o Brasil. Quando o general Geisel assumiu a Presidência da República, ele, que havia promovido a general os dois irmãos Geisel, Ernesto e Orlando, decidiu voltar:

– Vou tomar um avião e descer no Rio, como um cidadão qualquer.

O governo soube, plantou nos jornais uma nota ameaçadora:

– “Setores militares souberam que o ex-presidente João Goulart, exilado no Uruguai, pretende voltar ao País. Será preso ao desembarcar. E, se vier em avião particular, pode acontecer um acidente na aterrissagem”.

Era 76 e mandava na Aeronáutica o tresloucado brigadeiro Bournier, o tarado do Parasar. Angustiado, triste, infeliz, o coração de Jango começou a baquear. Foi para a fazenda em Mercedes, na Argentina, mas misteriosamente esqueceu os remédios no Hotel Liberty, em Buenos Aires, o mesmo em que foram assassinados o general Prates, ex-ministro do Exército de Allende, no Chile, e o senador uruguaio Michelini.

Já na fazenda, Jango mandou buscar os remédios em Buenos Aires. Quando apareceu morto, o “Peruano”, um empregado gaúcho criado na fazenda de São Borja, foi procurar os remédios e não encontrou nada.

Como JK e Lacerda, a morte do sereno Jango continuará um mistério.

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JOANA D’ARC

Em 50, um grupo de amigos conversava na casa da escritora Maria de Lourdes Lebert, em São Paulo. Entra uma jovem linda, olhos de gata, não cumprimentava ninguém. Um rapaz pegou-a pelo braço:

– Você chega e não fala com ninguém. É só porque é bonita?

– Não o conheço. Quem é você?

– Sou o futuro presidente da República.

– E eu sou a Joana D’Arc. Já ouviu falar nela?

A jovem era a modelo Nair, depois mulher do inesquecível tapeceiro baiano Genaro de Carvalho. O rapaz era o deputado estadual do PTB do Rio Grande do Sul, candidato a deputado estadual, João Goulart.

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OS MAESTROS ARGENTINOS

Eleito vice-presidente em 55, com Juscelino, João Goulart foi descansar em São Borja. Do Rio, saiu uma comitiva de trabalhistas para visitá-lo, comandada por Doutel de Andrade e José Gomes Talarico. Jango mandou fazer um churrasco, atravessou a fronteira, foi à Argentina, ali do outro lado, contratou um conjunto musical, achou caro:

– Tudo isso?

– Pero sono 12 músicos.

Pagou adiantado. No dia seguinte, chega o conjunto. Só 8.

– Cadê os outros??

– Sono solo 8. Pero todos maestros.

– Já sei. Como eleitor da UDN.

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BRINCANDO NA ESQUERDA

Presidente, Jango chamou Santiago Dantas, ministro do Exterior, e lhe disse que havia decidido reatar as relações do Brasil com a União Soviética. E lhe pediu para dar a notícia naquela mesma noite, para evitar resistências.

Santiago aprovou, mas reclamou que não tivesse sido consultado:

– Presidente, isso parece uma brincadeira.

– É assim mesmo, professor. O senhor já brincou muito na direita, não faz mal brincar um pouco na esquerda.

Nelson Mandela, o ícone da liberdade racial e dos direitos sociais, completa 94 anos

Carlos Newton

Um dos maiores mitos da História contemporânea, Nelson Mandela completa 94 anos nesta quarta-feira, 18 de julho, uma data importante na África do Sul. A tão sonhada democracia ainda não trouxe para os negros a igualdade sonhada por Mandela, porque a transformação do país necessariamente tem de ser lenta e gradual, da forma que ele mesmo preconizou. Mas os avanços já obtidos são extraordinários.

A exemplo do indiano Mahatma Ghandi, do Dalai Lama e de outros grandes líderes das lutas sociais, a primeira grande preocupação de Mandela foi justamente evitar a revanche, a vingança, o derramamento de sangue. Não houve “paredón” na África do Sul, a transição se deu de forma pacífica, os negros assumiram o poder e a vida seguiu seu curso.

Herói da luta contra o regime da segregação racial, “Tata” Mandela ou “papai” Mandela, como é chamado com respeito e afeto, tem seu aniversário comemorado não só com múltiplas homenagens, mas também com debates críticos sobre a melhor maneira de prosseguir com sua luta social e seu trabalho de reconciliação do povo sul-africano.

 (JUDA NGWENYA)

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“BEM DE SAÚDE”

As últimas notícias, fornecidas pelo presidente Jacob Zuma, que se encontrou recentemente com ele, afirmam que Mandela encontra-se “bem de saúde”. Mas agora esta data, que significava festas na presença de estrelas ou de dignitários estrangeiros, precisa ser celebrada em família, para preservar Mandela, que em janeiro de 2011 foi hospitalizado por uma infecção respiratória, e em fevereiro precisou se submeter a mais exames.

“Foi um prazer vê-lo, como sempre. Eu estava particularmente feliz por poder felicitá-lo antes de seu próximo aniversário. Também o informei de que, como sempre, todos os sul-africanos esperam o dia 18 para poder desejá-lo um feliz aniversário de todas as maneiras possíveis”, declarou o presidente sul-africano em um comunicado.

Zelda la Grange, que foi secretária particular de Mandela, também já foi visitá-lo e declarou à rádio que o encontrou “em forma” e “mimado por sua família e pela equipe média que o rodeia”. Há um ano, Nelson Mandela vive entre Johannesburgo e Qunu, sua cidade natal, onde se instalou em maio em sua casa reformada.

O primeiro presidente negro da África do Sul, de 1994 a 1999, fez sua última aparição pública em 2010, na Copa do Mundo organizada por seu país. Desde então, as chances de vê-lo estão reservadas aos seus parentes e a jovens talentos que vão se apresentar a ele e receber seus aconselhamentos.

Embora não seja feriado, o dia de seu aniversário é uma data muito especial. Esta quarta-feira, às 8h locais (3h de Brasília), milhares de estudantes cantarão “Happy Birthday Madiba”, o nome de clã tradicional de Nelson Mandela. Uma iniciativa a qual os organizadores esperam somar 20 milhões de vozes.

O Mandela Day é reconhecido desde 2009 pela ONU como um chamado mundial a consagrar 67 minutos de nosso tempo a ajudar os semelhantes, como homenagem aos valores defendidos pelo primeiro presidente negro de seu país. Estes 67 minutos correspondem aos 67 anos que Mandela consagrou ao combate político.

Paz e saúde a Mandela. Que Deus lhe dê vida longa e a nós não desampare, como diz o amigo Ancelmo Gois.

Garotinho apresenta à CPI 68 kg de documentos envolvendo Cabral e a Delta

Ailton Ferreira  (agência  Globo)

O deputado Anthony Garotinho (PR-RJ) entregou nesta terça (17) à CPI do Cachoeira documentos que, segundo ele, comprovam relação entre o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB) com a construtora Delta. A pilha de papéis, de quase um metro e meio, pesa 68 quilos e foi repassada ao deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), que é membro da CPI.

Garotinho afirmou que o envolvimento de Cabral com a construtora Delta é ainda maior do que o do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB).

Como se sabe, segundo investigações da Polícia Federal, a Delta repassou dinheiro para empresas fantasmas que abasteciam o grupo de Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.


Deputado Anthony Garotinho (PR-RJ) entrega ao deputado Miro Teixeira 68 quilos de documentos que, segundo ele, comprovam o envolvimento do governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), com a construtora Delta
Foto: Ailton de Freitas / Agência O Globo

Juquinha e a ditadura da corrupção

Jorge Brennand

Juquinha, cujo nome de batismo é José Francisco das Neves, é mais um exemplo vivo de que o país vive um período de ditadura da corrupção e que o Brasil está refém dos corruptos. Uma herança bandida. De passagem, reparem no expressivo número de ministros que tiveram que deixar os cargos por serem apaixonados pelo dinheiro público.

Juquinha, em 2003, passou a fazer parte do governo Lula, perfeitamente entrosado na “base de apoio político”. Assumiu – por indicação do PL (atual PR) – o comando da Valec, a estatal encarregada de construir as ferrovias brasileiras,

Foi convocado por Lula para concluir a Ferrovia Norte-Sul, obra iniciada em 1987 no governo José Sarney, cuja implantação se arrastava e estava marcada por contumazes denúncias de corrupção, tendo consumido muitos bilhões de reais oriundos dos impostos pagos pelo povo brasileiro.

Juquinha sabia que tinha de ficar calado, pois Sarney era aliado de Lula; além disso, Juquinha, bom discípulo, pretendia se locupletar do dinheiro público em silêncio…

Junto com a patota de beatos do PR (ex-PL), senhores feudais do Ministério dos Transportes, Juquinha participava de ostensivo esquema de cobrança de propina das empreiteiras que lhe prestavam serviços.

Mas foi descoberto pela mídia. Juquinha ficou tão popular que em julho de 2011 a revista Veja revelou que, para conseguirem contratos e aditivos, as fornecedoras eram obrigadas a recolher um expressivo percentual de propina em cima do valor das faturas.

Juquinha sempre foi fiel “companheiro” no esquema: o pagamento era acertado previamente com o atleta do Mensalão, deputado federal e secretário-geral do PR, Valdemar Costa Neto, e, conforme ficou notório, entregue a um funcionário do ministério designado por ele (o “trem recolhedor”).

Juquinha sabia que os recursos desviados eram utilizados para financiar campanhas políticas e também para encher os bolsos dos “beatos” operadores do esquema. Como de bobo não tinha nada, pegou sua parte no butim e, segundo o Ministério Público Federal, acumulou 60 milhões de reais entre 2003 e 2011, durante o governo Lula…

O amigo de Lula e Sarney sabe que já foi publicado que foram identificados indícios de fraudes nas contratações da Valec, que, estima-se, chuparam para o ralo da corrupção mais de 100 milhões de reais. Isso, apenas para um dos trechos da Ferrovia Norte-Sul.

Ele é adulto e rouba à vera. Não admite que façam piadas com seu nome nem gosta de ser comparado ao Juquinha das piadas que é uma criança.

Agora, Juquinha confia que vai ficar impune, assim como seu padrinho e parceiro Valdemar Costa Neto, porque são membros participantes de um eficiente e moderno sistema ditatorial implantado pelo PT: a Ditadura da Corrupção, da qual o Brasil hoje é refém.

 

Quem é importante? Os banqueiros ou os demais trabalhadores dos EUA?

Paul Krugman (Folha de S. Paulo)

“Onde fica a entrada VIP? Porque nós somos VIPs.” A declaração, feita por um doador que estava na fila de entrada de um dos recentes eventos de arrecadação de fundos que a campanha de Mitt Romney promoveu nos Hamptons, serve como resumo à atitude da elite endinheirada dos Estados Unidos.

A base política de Mitt Romney é formada por pessoas que se acham muito importantes. Especificamente, estamos falando de pessoas que acreditam ser, como declarou outro doador de verbas para Romney, “o motor da economia”: elas deveriam ser celebradas, e os impostos que pagam, já os mais baixos em 80 anos, deveriam ser reduzidos ainda mais.

“Infelizmente”, disse ainda outro doador, “as pessoas comuns – por exemplo, as manicures – não são capazes de entender o fato”.

Está bem, é fácil zombar dessa gente, mas quem ri por último são eles. Porque a turma do “eu sou VIP” capturou completamente o moderno Partido Republicano, a ponto de líderes importantes do partido considerarem que o aparente uso de contas multimilionárias no exterior por seu candidato à Presidência é aceitável e digno de elogios.

“Evitar pagar impostos, usando métodos legais, é uma atitude muito americana”, declarou o senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul.

E existe uma boa chance de que os republicanos capturem tanto a Casa Branca quanto o Congresso. Se isso acontecer, teremos uma virada radical na direção de políticas econômicas cuja proposta básica é a de que devemos ser muito solícitos para com os muito ricos. Por isso é importante que compreendamos por que essas políticas não funcionam.

A primeira coisa que é preciso saber é que os Estados Unidos nem sempre foram assim. Quando John Kennedy foi eleito presidente, em 1960, a riqueza do 0,01% dos norte-americanos mais endinheirados era equivalente a um quarto do valor atual, na comparação com uma família média – e os muito ricos pagavam impostos muito mais elevados do que pagam hoje.

E ainda assim conseguíamos ter uma economia dinâmica e inovadora que causava inveja ao mundo. Os muito ricos podem imaginar que é sua riqueza a Terra girar, mas a história afirma o oposto.

A essa observação histórica devemos acrescentar outra nota: diversos dos muito ricos atuais, entre os quais Romney, ganharam ou ganham seu dinheiro no setor financeiro, comprando e vendendo ativos em lugar de criar empresas no sentido tradicional.

De fato, a disparada na riqueza dos mais endinheirados com relação à média nacional aconteceu no mesmo período em que Wall Street passava por crescimento explosivo.

Será que lembrei de mencionar que os banqueiros resgatados agora apoiam Romney por maioria esmagadora, já que ele promete reverter as modestas reformas financeiras introduzidas depois da crise?

É claro que muitos, provavelmente a maioria, dos ricos fazem contribuição positiva para a economia. E recebem generosas recompensas monetárias por isso. No entanto, rendas anuais de US$ 20 milhões ou mais não bastam.

Eles também querem ser reverenciados e receber tratamento especial na forma de impostos baixos. E isso é algo que não merecem. Afinal, a “pessoa comum” também contribui com a economia. Por que conferir benefícios aos ricos?

Não devemos considerá-los mais importantes que os demais trabalhadores norte-americanos.

Educação, o melhor negócio: a dívida das faculdades particulares deve ser trocada por bolsas do ProUni?

Paulo Ghiraldelli Jr (Folha de SP)

As universidades federais vão mal. O seu aparato físico está deteriorado. Salas de aulas, laboratórios, bibliotecas e até mesmo internet estão na lista de coisas que as universidades federais não possuem em condições nem mesmo razoáveis.

Em um artigo anterior aqui na Folha, perguntei se não estamos caminhando para um lugar que ninguém deseja individualmente, mas no qual vamos acabar aportando se a presidente Dilma, pessoalmente, não criar um novo rumo: as universidades federais irão cumprir a função de “alfabetização hipertardia”, transformando-se em “colegiões” substitutos do ensino médio público atual, abandonado pelo governo.

Volto a dizer isso, pois o que eu temia ganhou mais força: em meio à greve dos professores de todas as universidades federais, e tendo o ministro Mantega afirmado que os funcionários públicos irão “quebrar o Estado” (!), o Senado aprovou no dia 27 de junho um enorme repasse de verbas para cerca de 500 instituições particulares de ensino, uma parte delas de duvidosa qualidade.

Ora, por que elas foram premiadas? Simples: elas não pagaram seus impostos e, então, o Senado achou por bem incentivar a sonegação. Eis a lógica ilógica: “Não pagou? Ah, sem problema, ofereça aí umas bolsas (sem fiscalização) para o famoso ProUni, e liberamos aqui os R$ 15 bilhões para vocês”.

O ProUni nunca foi boa coisa. Pode-se gostar dele por ingenuidade. Mas, em termos de política educacional, trata-se de um tiro pela culatra. O MEC não o fiscaliza corretamente. Mesmo que fizesse isso, não teria o que comemorar.

Colocando na ponta do lápis os gastos e os ganhos, veríamos que ele não é vantajoso para a população ou para o governo. Ele só é bom para o empresário incompetente ou desonesto. Aliás, a própria política do governo Lula para o ensino superior prova isso.

Por um lado, ela teve o ProUni. Por outro, o Reuni, um programa de expansão das vagas no ensino superior público. Bastaria o governo não ficar perdoando quem não paga imposto e, arrecadando corretamente, usar o dinheiro para levar adiante o Reuni de uma maneira mais responsável. Não estaríamos vivendo tão medrosos a respeito do futuro da universidade pública brasileira, como ocorre agora.

Por qualquer matemática sadia, o ProUni anula os benefícios do Reuni. Se a presidente Dilma seguir o caminho apontado pelo Senado -pela brecha do ProUni-, teremos em política educacional um Brasil de ponta cabeça.

Qual dono de faculdade irá, daqui para frente, pagar impostos, se ele sabe que, deixando a dívida crescer, pode dobrar facilmente o Legislativo e, então, pressionar o Executivo para continuar irresponsável?

O ProUni se tornou, como não poderia deixar de ser, uma forma de avisar a todos que o melhor negócio, no Brasil, talvez não seja montar uma igreja, como comumente se diz, mas abrir uma faculdade.

A diferença é que a igreja, para dar certo, tem de dar certo, e a faculdade, para dar certo, tem de dar errado. Dando errado, o ProUni a salva e dá condições ao empresário de araque para ampliar o negócio.

Paulo Ghiraldelli Jr., 54, é filósofo,
professor da Universidade Federal Rural do
Rio de Janeiro e autor de “As Lições de Paulo Freire”

Escândalo na Fazenda. Mantega nomeia para presidir a CVM um executivo que estava sendo investigado e acusado pela própria autarquia.

Carlos Newton

Era só o que faltava. O executivo Leonardo Pereira foi indicado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, para ser o novo presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em substituição à Maria Helena Santana, cujo mandato encerrou-se em 14 de julho. Com isso, Pereira, que será sabatinado pelo Senado Federal, deixa a vice-presidente de Finanças e a diretoria de Relações com Investidores da Gol.

A nomeação é inacreditável, porque Leonardo Pereira vinha sendo investigado e acusado de irregularidades pela própria CVM. No início deste mês, ele ofereceu pagar 200 mil reais para encerrar o processo em que era investigado, como diretor de Relações com Iinvestidores da empresa aérea, por não ter publicado fato relevante em julho do ano passado avisando sobre mudança de projeções de resultados da companhia aérea.

Pereira foi acusado também por ter incluído projeção inicial, divulgada em 04/01/2011, e sua revisão, divulgada em 28/07/2011, no Formulário de Referência após o prazo exigido (infração ao disposto no art. 24, § 3º, inciso IX, da Instrução CVM nº 480/09). Por fim, foi acusado de não ter apresentado nos formulários de informações trimestrais a comparação dos resultados projetados com os efetivamente obtidos nos trimestres do exercício de 2011 (infração ao disposto no art.20, § 4º, da Instrução CVM nº 480/09).

Pois é este executivo ilibado e acima de qualquer suspeita que acaba de ser indicado pelo ministro Mantega para presidir a própria CVM. A decisão surpreendeu profissionais do mercado, que esperavam que o novo presidente viesse do Colegiado da CVM ou da BM&FBovespa.

“Ele não tem formação técnica nem jurídica, o que pode ser um problema”, disse à agência Reuters uma fonte próxima à autarquia que preferiu não ser identificada. Pereira é engenheiro e economista.

Seu nome terá de ser submetido ao Senado. Alguém tem dúvida sobre a aprovação dele? Os senadores certamente vão considerá-lo o homem certo no lugar certo.

Mas que país é esse, Francelino Pereira?

O crime organizado pelos banqueiros

Mauro Santayana (JB Online)

A invenção da moeda, contemporânea à do Estado, foi um dos maiores lampejos da inteligência humana. A primeira raiz indoeuropéia de moeda é “men”, associada aos movimentos da alma na mente, que chegou às línguas modernas pelo verbo sânscrito mányate (ele pensa). Sem essa invenção, que permite a troca de bens de natureza e valores diferentes, não teria havido a civilização que conhecemos.

A construção das sociedades e sua organização em estados se fizeram sobre essa convenção, que se funda estritamente na boa fé de todos que dela se servem. Os estados, sempre foram os principais emissores de moeda. A moeda, em si mesma, é neutra, mas, desde que surgiu, passou a ser também servidora dos maiores vícios humanos. Com a moeda, vale repetir o lugar comum, cresceram a cobiça, a luxúria, a avareza – e os banqueiros.

A moeda, ou os valores monetários, mal ou bem, estavam sob o controle dos Estados emitentes, que se responsabilizavam pelo seu valor de face, mediante metais nobres ou estoques de grãos. Nos tempos modernos, no entanto, a sua garantia é apenas virtual. Os convênios internacionais se amarram a um pacto já desfeito, o Acordo de Bretton Woods, de 1944. A ruptura do contrato foi ato unilateral dos Estados Unidos, sob a presidência Nixon, ao negar a conversibilidade em ouro do dólar, moeda de referência internacional pelo Acordo.

Essa decisão marca o surgimento de uma nova era, em que o valor da moeda não se relaciona com nada de sólido. Os bancos, ao administrá-la, deveriam conduzir-se de forma a merecer a confiança absoluta dos depositantes e dos acionistas, e assegurar essa mesma confiabilidade às suas operações de crédito. O papel social dos bancos é o de afastar os usurários e agiotas do mercado do dinheiro. Mas não é desta forma que têm agido, sobretudo nestes nossos tempos de desmantelamento dos estados.Hoje, não há diferença entre um Shylock shakespereano e qualquer dirigente dos grandes bancos.

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MANIPULAÇÃO DA LIBOR

Na Inglaterra, o escândalo do Barclays, que se confessou o primeiro banco responsável pela manipulação da taxa Libor, provocou o espanto da opinião pública, mas não dos meios financeiros que não só conheciam o deslize, como dele se beneficiavam.

Segundo noticiou o jornal El Pais, os dois grandes executivos da Novagalícia, surgida da incorporação de duas instituições oficiais da província galega – a Nova Caixa e a Caixa Galícia – e colocada sob o controle de Madri em setembro do ano passado, pediram desculpas aos seus clientes, por ter a instituição agido mal. Entre outros de seus malfeitos, esteve o de enganar pequenos investidores mal informados, entre eles alguns analfabetos, com aplicações de alto risco, ou seja, ancoradas em débitos podres, as famosas subprimes, adquiridas dos bancos maiores que operam no mercado imobiliário do mundo inteiro.

Além disso, os antigos responsáveis por esses desvios, deixaram seus cargos percebendo indenizações altíssimas. E os novos administradores tiveram sua remuneração reduzida, por serem as antigas absolutamente irracionais. Com todas essas desculpas, a Novagalícia quer uma injeção de seis bilhões de euros, a fim de regularizar a sua situação.

Este jornal reproduziu, ontem, artigo de The Economist, a propósito da manipulação da taxa Libor, por parte do Barclays, e disse, com a autoridade de uma revista que sempre esteve associada à City, que não há mais confiança nos maiores bancos, do mundo, como o Citigroup, o J.P.Morgan, a União de Bancos Suíços, o Deutschebank e o HSBC. Executivos desses bancos, de Wall Street a Tóquio, estão envolvidos na grande manipulação sobre uma movimentação financeira total de 800 trilhões de dólares.

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REFERÊNCIA MUNDIAL

Para entender a extensão da falcatrua, o PIB mundial do ano passado foi calculado em cerca de 70 trilhões de dólares, menos de dez por cento do dinheiro que circulou escorado na taxa manipulada pelos grandes bancos. A Libor, sendo a taxa usada nas operações interbancárias, serve de referência para todas as operações do mercado financeiro.

O mundo se tornou propriedade dos banqueiros. Os trabalhadores produzem para os banqueiros, que controlam os governos. E quando, no desvario de sua carência de ética, e falta de inteligência, os bancos investem na ganância dos derivativos e outras operações de saqueio, são os que trabalham, como empregados ou empreendedores honrados, que pagam. É assim que estão pagando os povos da Grécia, da Espanha, de Portugal, da Grã Bretanha, e do mundo inteiro, mediante o arrocho e o corte das despesas sociais, pelos governos vassalos, alem do desemprego, dos despejos inesperados, das doenças e do desespero, a fim de que os bancos e os banqueiros se safem.

Se os governantes do mundo inteiro fossem realmente honrados, seria a hora de decidirem, sumariamente, pela estatização dos bancos e o indiciamento dos principais executivos da banca mundial. Eles são os grandes terroristas de nosso tempo. É de se esperar que venham a conhecer a cadeia, como a está conhecendo Bernard Madoff. Entre o criador do índice Nasdaq e os dirigentes do Goldman Sachs e seus pares, não há qualquer diferença moral.

Os terroristas comuns matam dezenas ou centenas de cada vez. Os banqueiros são responsáveis pela morte de milhões de seres humanos, todos os anos, sem correr qualquer risco pessoal. E ainda recebem bônus milionários.