Carta aos brasileiros – o retorno

Carlos Chagas

Em pleno Oriente Médio, pouco antes de embarcar de volta, o presidente Lula concedeu entrevista coletiva. O ponto era vago e,  estimulados por  empresários que integravam a comitiva,   jornalistas brasileiros indagaram se caso eleita,  Dilma Rousseff mudaria a política econômica. Se desenvolveria um programa estatizante.

O presidente deu duas no cravo e uma na ferradura. Declarou  textualmente  existirem três coisas “de que não abriremos  mão”,  uma espécie de confissão de que o governo Dilma irá desenvolver-se em condomínio no qual ele será o síndico: 1. Manutenção da estabilidade econômica; 2. Controle  da inflação; 3. Investimentos públicos.

Os empresários sentiram-se no paraíso, aliás, no passado bíblico, localizado por ali. Ouviram  a garantia de que nada vai mudar, reforçada pela afirmação  de que “Dilma não será  estatizante nem vai estatizar nada”.

O próximo passo parece à vista de todos: a ministra, antes ou depois de deixar o governo, divulgará sua versão pessoal da Carta aos Brasileiros assinada pelo Lula em 2002, tranqüilizando as elites. Fica a política econômica  como está, ou seja, o país deve estar preparado para esquecer tudo o que for dito  na campanha, se é que vão dizer alguma novidade.

E agira, Cabral?

Semanas atrás o governador Sérgio Cabral declarou que se Dilma Rousseff contrariasse os interesses do Rio, nem sua mulher votaria nela. A candidata não se pronunciou a respeito do projeto que muda o regime de  royalties do petróleo, apesar de  o senador Heráclito Fortes haver denunciado que o texto foi preparado na Casa Civil. Mas precisará posicionar-se, agora estimulada pela presença do presidente Lula em Brasília. A omissão não cabe, numa situação dessas.

O diabo é que se  Dilma  defender o projeto já aprovado na Câmara, nem poderá desembarcar no Rio e no Espírito Santo. Caso contrário, colherá  a má-vontade dos estados esperançosos de receber recursos do petróleo que não produzem.

Por outro lado, fará o quê, o governador fluminense, caso se caracterize a garfada que o Congresso e o governo  parecem  estar em vias de  aplicar no Rio e no Espírito Santo? Reforçará a proposta da candidatura própria no PMDB? Apoiará José Serra? Ou cruzará  os braços, desinteressando-se da sucessão presidencial, iniciativa capaz de prejudicar-lhe a  reeleição?

Não aguentou

Não se passaram duas semanas de silêncio do ex-presidente Fernando Henrique, depois de haver recebido recado de José Serra para não atrapalhar a estratégia sucessória dos tucanos. Em palestra na Academia Brasileira de Letras, convidado para  homenagear a memória de Joaquim Nabuco, o sociólogo não aguentou. Disse que uma coisa é o candidato, outra a campanha. O PSDB deveria estar inundando o país com suas propostas de governo, mesmo permanecendo o governador paulista em cone de sombra.  Como se fosse possível a existência de uma peça teatral sem autor.

Outra polêmica afirmação de Fernando Henrique disse respeito à política externa. Defendeu a volta ao alinhamento automático do Brasil com os Estados Unidos…

A dissolução da ordem pública

A Constituição admite a intervenção federal nos estados quando a ordem pública estiver em perigo. O Procurador Geral da República formalizou o pedido de intervenção federal em Brasília. O Supremo Tribunal Federal  não tem prazo para decidir, mas já se debruça na questão.

Enquanto isso, o Distrito Federal vai se dissolvendo, com um governador-tampão posto em sossego e inação. Os apagões sucedem-se todas as semanas, não mais restritos a pequenas regiões, mas atingindo metade da cidade, ora num lado, ora em outro, por horas seguidas. Até a Praça dos Três Poderes e a Esplanada dos Ministérios ficaram sem energia.

Ao mesmo tempo, o trânsito virou um caos. Filas duplas no centro de Brasília são coisa do passado. Agora elas são triplas e até quádruplas. Os transportes coletivos nem transportam nem servem à coletividade, ficando os passageiros à mercê dos interesses dos concessionários de empresas de ônibus. Nas cidades satélites, virou aventura estar na rua depois do sol. Multiplicam-se os assaltos e as invasões de residências.

Com as instituições políticas locais  sob suspeição, o ex-governador preso, os partidos em frangalhos e a possibilidade de as eleições de outubro  reconduzirem ao poder o patrono de toda a lambança aqui verificada, não seria o caso da intervenção federal imediata?

O tempo passa e Lula continua sem compor um conjunto de candidatos capazes de vencer as eleições de governador

Carlos Chagas

O presidente Lula concentra seus maiores  esforços na eleição de Dilma Rousseff para presidente, mas sabe que até para o sucesso da candidata, o PT precisará armar quadros sucessórios eficazes nos estados.

Até agora, as dificuldades são muitas. Tome-se São Paulo, por exemplo. Depois da aventura que seria a candidatura de Ciro Gomes, que é do partido socialista, o escolhido foi Aloísio Mercadante, que pelo jeito vai para o sacrifício. Ao menos conforme as pesquisas, Geraldo Alckmin é o franco favorito.

Em Minas, Lula atropela seus próprios companheiros, insistindo que devem apoiar Helio Costa, do PMDB, deixando Patrus Ananias e Fernando Pimentel no vinagre.

No Rio, não há candidato do PT, o presidente precisou afastar Lindberg Farias para apoiar a reeleição de Sérgio Cabral, do PMDB, que agora anda de cara feia para o Planalto.

No Rio Grande do Sul, José Fogaça é o favorito, mas integra a facção do PMDB que apóia José Serra e não Dilma Rousseff. Tarso Genro disputará pelo PT, mas por enquanto com chances reduzidas.

Faltam petistas para o Paraná, Amazonas, Goiás, Pará, Pernambuco, Ceará e outros estados. No mínimo, faltará para Dilma, se for eleita, uma base de apoio estadual de seu próprio partido.

Lula fora do palco, depois de 31 de dezembro?

Não é fácil ser ex-presidente da República, tendo ou não conseguido fazer o  sucessor. Fernando Henrique que o diga, porque depois de deixar o Palácio do Planalto vive até hoje tentando ocupar espaços na beiradinha das atenções, geralmente sem conseguir.

Itamar Franco, que elegeu o sociólogo, soube desencarnar porque candidatou-se ao governo de Minas e venceu, mas Fernando Collor ralou anos a fio, escanteado, até que  conseguiu eleger-se senador.

José Sarney ficou pendurado no pincel, sem escada, quando teve negada sua candidatura a senador pelo seu próprio estado, o Maranhão, precisando mudar-se para o Amapá.

Quanto ao presidente Lula, há dúvidas: não parece inclinado a se  tornar condômino do poder,  se Dilma Rousseff for eleita, mas será um espinho na garganta dela, se ficar por aqui sem ter o que fazer.  Concorrer a secretário geral das Nações Unidas é  ilusão. Ironicamente, a posição mais cômoda para Lula estará na vitória de José Serra,  porque aí se tornaria o chefe da oposição.

Serra reduz ao mínimo a presença de Ciro

Pedro do Coutto

Na sexta-feira, numa entrevista ao repórter José Luiz Datena, da TV Bandeirantes, manchete da Folha de São Paulo e de O Globo de sábado, o governador José Serra finalmente assumiu a posição de candidato do PSDB às eleições presidenciais de 2010. Estava custando a sair a definição mas ele fez de forma inteligente compatível com seu nível intelectual.

Assumiu a candidatura elogiando o governo Lula, manobra que reduziu o impacto da candidatura da ministra Dilma e expôs completamente ao ridículo a de Ciro Gomes. Tanto fazendo que dispute a presidência da República ou o governo de São Paulo. Jogou Ciro para escanteio, mostrando ao presidente Lula, ao PT e à opinião pública que o ex-governador do Ceará não possui papel algum a desempenhar na campanha. Ciro Gomes só serviria a Lula como acessório se agredisse Serra e exaltasse o governo.

Mas se o governo é exaltado pela principal figura de oposição, para que serve Ciro Gomes? Para nada. Transferiu à toa seu título para São Paulo onde enfrentará Geraldo Alckmin. Nem mesmo o papel de reduzir a diferença de votos em São Paulo ele poderá fazer. Pois dificilmente as bases petistas poderão aceitá-lo como um estranho no ninho. Não é até impossível que perca a convenção paulista para, por exemplo, Marta Suplicy ou para seu ex-marido Eduardo. A respeito de tal hipótese me lembro de uma frase dita a mim e a Villas Boas Correa, na campanha de 60, pelo governador de Minas.

Tancredo Neves perdeu para Magalhães Pinto exatamente por 25 mil votos, diferença muito pequena para um eleitorado tão grande como o de Minas Gerais. Eu e Villas Boas perguntamos a Magalhães, amigo pessoal de Villas, como estava inda a campanha em Minas. Havia surgido suspeitas que Valadares, senador e principal líder mineiro depois de JK, enigmático, aliás como sempre, respondeu: Vai mais ou menos. Estabeleceu-se um silêncio daqueles que Valadares adorava.

Depois de uma pausa proposital, respondeu: é melhor um adversário cordial do que um correligionário hostil, Não eram boas as relações entre Tancredo e Valadares, embora ambos do PSD. A cidade natal de Valadares era Pará de Minas, eleitorado pequeno. Mas, coincidência ou não, foram de lá que vieram os 25 mil votos que contribuíram para mudar o Brasil em 64. Os outros 23 mil vieram do Rio, quando por esta diferença Carlos Lacerda derrotou Sergio Magalhães.

Estou recorrendo à história, como, aliás, gosto de fazer, para mostrar que a candidatura Ciro Gomes a governador de São Paulo pode terminar ampliando a vantagem de Alckmin sobre Ciro e, consequentemente, a de Serra sobre Dilma em São Paulo. Isso porque, como é do conhecimento geral, a hostilidade de Ciro Gomes é a quase todo mundo. A questão de uma passagem para sua mãe ir a Londres, pela resposta que deu, comprova seu estilo. Mas a questão não é apenas esta. O que ganham Marta e Eduardo Suplicy com a vitória de Ciro? Nada. Absolutamente nada. Para eles Alckmin é muito melhor. É do ninho paulista.

Oito em cada dez trabalhadores não têm acesso à Justiça do Trabalho

Roberto Monteiro Pinho

A maior lacuna na proteção laborativa reside justamente na própria estrutura da justiça trabalhista, onde 84% dos trabalhadores, não consegue acesso a prestação jurisdicional, isso porque dos 5.560 municípios, somente 1.150 cidades possuem Vara do Trabalho, e o programa “Justiça Itinerante”, ainda é tímido. Até 2003 existiam 1.327 Varas do Trabalho no País, este número foi ampliado por força da lei nº 10.770/2003, que criou mais 269 Varas do Trabalho nas diversas regiões da Justiça do Trabalho, que foram gradativamente implementadas de 2004 a 2008.

O entrave para a criação de mais varas é o orçamento, e os números revelam: a Justiça Trabalhista gastou R$ 48,80 por habitante, contra R$ 43,55 em 2007, neste ano só o TRT do Rio recebeu verba suplementar de R$ 15 milhões. Em que valha a justiça comum poder julgar litígios trabalhistas onde não houver vara do trabalho, pouco se colhe desta improvisação jurisdicional, até porque, o juiz de direito está concentrado na matéria civil e o direito do trabalho na CLT, que é especialíssima não lhe é afeto, para o trabalhador principalmente nos municípios menos assistidos, à distância entre seu domicilio e a justiça é uma eternidade.

O resultado deste quadro é desalentador, é o trabalho escravo predominante nessas regiões acefalas, a exploração de mão-de-obra sem carteira assinada é enorme, segundo se estima, em cada grupo de 10 trabalhadores, apenas três possuem CTPS anotada. O encargo administrativo é faculdade das Delegacias do Trabalho (DRTS), a quem cabe processar as punições contra os abusos e quebra de regras trabalhistas, mas infelizmente tanto a JT, quanto a DTR, não atendem o clamor da classe trabalhadora nessas regiões desassistidas.

Ao contrário nos grandes centros urbanos, a JT e as DRTs estão presentes e a própria especializada, em contraste a pífia presença nas regiões desassistidas, vem se manifestando através de seus integrantes de forma arrogante, instalando um formato elitizado, prepotente e irracional, a ponto de se dar ao luxo de aplicar e decidir em processos das formas mais inusitadas, em suas sentenças. Em que pese existir constante violação aos direitos do trabalho, é preciso se ater aos dois pólos envolvidos, até porque, “justitia omniumest domina et Regina virtutum” (a justiça é senhora e rainha de todas as virtudes).

Tida como justiça socializante e conciliadora, a JT perdeu sua essência, ganhou novos contornos, e se transformou numa justiça processualista, onde predominam acórdãos e os despachos violentos no processo executório, como se tudo fosse resolvido através de uma simples e fulminante apreensão do pecuniário das contas correntes, poupanças e aplicações dos executados.

Na verdade, a partir deste ponto, muito embora o dinheiro esteja retido na estatal das leis laborativas, a discussão empurra o processo para a eternidade, isso porque a forma leviana de constrição, a ponto de arrestar bens de terceiros, estranhos na lide, partindo do plano em que a juízo pode fazer o que bem entender, porque estaria imune de correição, através dos recursos processuais, ou seja: para ele nada acontece, mas para o trabalhador o processo não tem liquidação e o executado se torna refém da injunção praticada, se constituindo numa utópica forma de solução.

Quando referimos as decisões conflitantes, é bom mostrar que existe um abismo entre a essência do judiciário trabalhista e o atual sistema de conduzir o processo laborativo, lembrando que recente (outubro de 2009) o Tribunal Superior do Trabalho (TST) negou por 17 votos a 7, uma ação de um trabalhador que pedia para advogar em causa própria em processos da Justiça do Trabalho, porque os ministros definiram que a defesa de empregados contra empregadores só pode ser feita por advogados. Ocorre que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), prevê em seu artigo 791 a possibilidade de empregados e empregadores reclamarem pessoalmente perante a Justiça do Trabalho. O artigo, no entanto, a linha de condução deste entendimento é que esbarra no art. 133 da Constituição Federal, que prevê ser indispensável à presença de advogados em qualquer processo.

Este é um caso em primor ao princípio do jus postulandi, que é a capacidade que se faculta a alguém de postular perante as instâncias judiciárias as suas pretensões na Justiça. Eis que temos as exceções admitindo-se o direito de postular às próprias partes do litígio, independente de advogados, em certas ocasiões, por exemplo nas causas trabalhistas (CLT, arts. 786 e 791), como também nos Juizados Especiais (Lei n.º 9.099/1995, art. 9.º) até o limite de 20 salários mínimos, e no pedido de Habeas corpus (CPP, art. 654), embora os sabichões da JT não admitam.

A maioria das decisões não leva em conta o emprego

De acordo com os números oferecidos pelos institutos que verticalizam as questões sociais, notadamente o emprego no mundo, os países que encontram as maiores dificuldades são aqueles que fazem incidir sobre a folha de pagamento de pessoal um maior número de encargos. Quem se detiver, por exemplo, no exame da nossa Constituição Federal verificará, com enorme perplexidade, o quanto é grande o rol de direitos sociais assegurados aos trabalhadores urbanos e rurais. São, ao todo, (37) trinta e sete incisos, com a ressalva feita pelo caput do art. 7º que podem existir outros que visem a melhoria de sua condição social.

Recente uma decisão do DSDI-1 – Seção Especializada em Dissídios Individuais do Tribunal Superior do Trabalho, decidiu num recurso da Volkswagen do Brasil, que “O tempo gasto pelo empregado para fazer o percurso entre a portaria da empresa e o local de serviço é considerado como horas in itinere”. O relator, ministro Aloysio Corrêa da Veiga, (oriundo do TR do Rio), concluiu pela aplicação analógica da OJ nº 36 da SDI-1 – Transitória, segundo a qual configura-se como hora ‘in itinere’ o tempo gasto pelo empregado para alcançar seu local de trabalho a partir da portaria da Açominas. (E-RR-36500-76.2005.5.0465).

Outra ironia é  a questão dos acordos fechados nos escritórios de advocacia, com o empregado assistido por advogado, onde as partes se submetem a justiça do trabalho para ver chancelado o documento rescisório. Tamanho protecionismo não é fruto só da lei, até porque esta faculta as partes à vontade de transigir, através da arbitragem (lei 9397/1996), ou então nas Comissões de Conciliação Prévia, (Lei n. º 9.958/2000), neste ano foi criado ainda no âmbito da Justiça do Trabalho o Rito Sumaríssimo (Lei 9.957/2000), a tramitação dos processos judiciais trabalhistas até 40 salários mínimos.

E mais uma vez o xenofobismo, o instinto da posse, se fez presente com os juízes do trabalho, ignorando a conciliação nos sindicatos, e foi por isso que se articulou com o Tribunal Superior do Trabalho, com o Ministério Público do Trabalho, com as Centrais Sindicais CGT, SDS e Força Sindical, com a Associação Nacional dos Sindicatos da Micro e Pequena Indústria, e com as Confederações Patronais CNC, CNT, CNF e CNA, resultando daí um Termo de Cooperação Técnica, assinado também em 5 de junho de 2002, para promover o aprimoramento do instituto das Comissões de Conciliação Prévia.

Não dá para fechar os olhos à realidade, existe de fato e não de direito (porque não é isso que lei diz), uma enorme resistência no seio da especializada, reunindo juízes e serventuários, preocupados com o “status” do emprego estatal, a qualquer modelo paralelo de solução de conflitos, mesmo aqueles já existentes e já mencionados. Temos é uma enxurrada de decisões de primeiro grau, que inovam a cada instante, numa volúpia de novos formatos decisórios, introduzidos de forma abrupta no processo trabalhista, porque não existe absolutamente nada que possa frear esta febre alucinante de punir o empregador.

Notem que na reunião de 2002, que foi pilotada pelo TST, o sindicato da micro e pequena empresa participou do evento para aprimorar as CCPS, justamente este último é um dos mais atingidos pelas injunções aqui narradas.Por outro sem querer presumir a má-fé de outrem, ao primeiro plano transparece-nos que aí existe um grande indício de simulação, convenientemente e politicamente administrada, que tem sido endossada pelo Judiciário e a legislação, restando dessa uma enorme lacuna a ser reexaminada pelas autoridades da reforma trabalhista, com vistas a futura saúde das alternativas extrajudiciais na JT.

Na defesa dos interesses mais corporativistas, que do próprio trabalho, esses magistrados, se abrigam nos termos das acusações de fraude na rescisão voluntária transacionada extrajudicialmente, isso porque o art. 129 do CPC dispõe que: “Convencendo-se, pelas circunstâncias da causa de que autor e réu se serviram do processo para praticar ato simulado ou conseguir fim proibido por lei, o juiz proferirá sentença que obste aos objetivos das partes”, ainda porque, “est omnino nullus actus contra dispositionem legis, atiam si ipsa lex non annullet”, mesmo naqueles casos em que se trata da jurisdição voluntária.

Não dá para fechar os olhos à realidade, ‘contra a força não há resistência’, eis que dentre todas as ações propostas na especializada não há aquelas em que as partes, mesmo antes do ajuizamento já acertaram os termos de um futuro acordo, comparecendo à audiência apenas para reafirmarem aquilo que já pactuaram extrajudicialmente; o que, via de regra, será chancelado pelo magistrado. O que se e questiona não é a legitimidade, mas sim a necessidade da presença das partes, para fazer platéia ao exibicionismo e verborragia quase sempre irritantes para as partes, quando na verdade neste caso, a atuação do Estado é de mero carimbador de papéis.

Deputados no Supremo contra Ibsen: “Quanta besteira, Manuel Bandeira”

O extraordinário poeta gostava de falar (geralmente com ele mesmo) enquanto trabalhava. E quando não gostava do que estava fazendo, pois era rigorosíssimo com sua produção, pronunciava a frase que está no título. Já usei muito essa frase desde os tempos do Diário Carioca, quando descobri o fato.

Agora, o poeta iria se deliciar com as besteiras que dizem sobre royalties, não sabem nada de coisa alguma. O advogado e constitucionalista Jorge Rubem Folena de Oliveira tem dado lições (desde outubro) sobre royalties do petróleo e royalties do pré-sal.

Tenho escrito muito sobre o assunto, e fico espantado com o fato de jornalistas dos mais diversos órgãos, dizerem besteiras, sem que nenhum seja Manuel Bandeira. Na verdade “dão bandeira”, pois o cidadão-contribuinte-eleitor não pode ser ludibriado dessa maneira. E ninguém lê o que escrevem, não para censurar, pelo menos para não envergonhar?

Agora, o deputado Eduardo Cunha, (um dos maiores lobistas do país), do PMDB e proprietário de um partido de aluguel, o PSC, (dele e do ex-Garotinho) entra no Supremo com uma Adin, “questionando” o projeto Ibsen Pinheiro, que na verdade, só existe no debate absurdo, controverso e teleguiado, pois o deputado do Rio Grande do Sul não está sozinho nessa aventura.

Por trás dele, multidão de “coadjuvantes”, o pré-sal vai render tanto, que todos querem roubar, não o Rio mas o Brasil.

O relator, ministro Eros Grau, (que completa 70 anos em agosto, cai na “expulsória”), não vai decidir nada, por dois motivos. 1 – Não terá tempo de maneira alguma. 2 – Não há o que encaminhar e resolver, pois a maquinação, mobilização e manipulação, (à qual Ibsen “emprestou” o nome), foi aprovada na Câmara, vai para o Senado, volta à Câmara, acabou o ano.

E lembrem do que tenho dito: os estados e municípios que recebem royalties do petróleo, continuarão recebendo, i-n-a-l-t-e-r-a-d-a-m-e-n-t-e. Mesmo porque ninguém pode alterar.

***

PS – Em relação ao pré-sal, minha posição é diferente e continuo defendendo a criação de uma empresa 100 por cento nacional, não admito a participação de grupos GLOBALIZANTES, que formam multidões.

PS2 – Já disse: “Quem quiser investir no pré-sal, trazendo dinheiro bom e limpo, para OBTER LUCROS, A BASE DO CAPITALISMO, NATURAL. Mas ficar ROUBANDO nossas riquezas, como ROUBARAM 4 OU 5 TRILHÕES no RETROCESSO de 80 anos em 8, de FHC, isso DE MANEIRA ALGUMA.

Vargas e a censura no Estado Novo

Antônio Santos Aquino:
“Helio, minha admiração e o apreço que tenho por você, não é de hoje. Mas em 1943, mesmo antes da entrevista de Jose Américo, dada a Carlos Lacerda, Getulio se preparava para acabar com a censura”.

Comentário de Helio Fernandes:
Apreço e admiração, mútuos. Acontece que os fatos, vividos, lembrados, contados sem o menor interesse, são diferentes. Depois da entrevista, Vargas implantou a mais terrível das censuras, aquela que não pode ser quebrada ou ultrapassada de jeito algum. Vargas mandou Lourival Fontes chamar os donos de jornais, para uma conversa com ele.

Foram todos, lógico. Vargas estava sentado, disse que podiam ficar em pé mesmo. “O que vou dizer aos senhores, é muito breve. Não existirão mais censores nas redações, os senhores serão responsáveis pelo que sair nos seus jornais e revistas. Boa tarde”.

Bestial, pá. Digamos, os censores cortavam 50 por cento, os donos cortavam 100 por cento, e ainda procuravam mais. É isso que se chama, “acabar com a censura?”

Antes disso, Vargas já andava irritadíssimo, que era o seu normal ou habitual, quando não conseguia “comprar o silêncio de alguém”, ou como diz a Constituição em caso de desapropriação, “pagando o justo valor”.

Vejam só esse episódio, rigorosamente verdadeiro. No tempo dos censores, todas as matérias precisavam da rubrica de um deles. O trabalho era muito, os jornais tinham horário para “fechar”, havia uma espécie de “acordo mútuo”.

Um dia, Rubem Braga (chamado sempre de “cronista maior”), escreveu um artigo, com o título, “O Fícus da Praça Paris”. O censor viu, rubricou, saiu.

Para quem não conheceu a belíssima Praça Paris, e seu “Fícus” arredondado, o censor fez muito bem em liberar o artigo. Acontece que Rubem Braga comparava o FICUS COM A BUNDA DE GETÚLIO, assim mesmo, sem nenhuma ressalva. E embora o “sabiá da crônica”, conhecesse o Fícus, logicamente não conhecia a bunda de Vargas, mas podia imaginá-la, pelo fato de ser baixinho e gordinho.

Aquino, um abraço, tudo fato, fato, fato, nenhuma invenção.

Amanhã, segunda-feira, termino o exame do que
Lacerda fez como governador. Não pretendia voltar,
mas como acharam que esqueci ou omiti muita coisa,
(o que é verdade), termino dando razão a todos.

O ogre do Planejamento

Carlos Chagas

Ogre, ou ogro, segundo o Aurélio, era um ser fantástico especializado em assustar crianças. Bicho-papão, como diziam nossas avós. Pois não é que o tempo passou, vieram os vampiros, lobisomens, múmias, ETs,  Freddy Krueger e Volverine, mas quem acaba de reentrar no palco brasileiro? É ele, o ogre. E com correção monetária, pois disposto, agora, a assustar também os adultos.

Tem um nome, essa fantasmagórica figura. Chama-se Paulo Bernardo, atualmente ministro do Planejamento, que acaba de anunciar um corte de 21,8 bilhões de reais no orçamento deste ano. Irrompendo pelas trevas da demagogia, informou que os cortes não atingirão as obras do PAC, nem investimentos em saúde e educação.

Vai tirar de onde essa quantia já destinada a atender as despesas da nação?

Também não será da sonegação de impostos praticada pelas elites, muito menos dos altos salários das chamadas carreiras de estado. Nem será dos gastos com  cartões corporativos, das lambanças  dos diversos mensalões, dos subsídios a milhares de ONGs fajutas ou do combustível de jatinhos particulares a serviço dos banqueiros. Sequer do abusivo lucro dos bancos.

Conforme informações do próprio ministro,  o dinheiro virá de cortes com pessoal. Jamais do pessoal do andar de cima, é  claro, mas daqueles que sustentam a estrutura do país. Dos professores, por exemplo: na Universidade de Brasília e breve das demais universidades públicas, o ministério do Planejamento já mandou cortar 26.5% dos vencimentos, incluídos os aposentados. O pretexto é de que recebiam as tais  URPs, uma compensação diante da inflação. Houve ajuda do Tribunal de Contas da União para esse esbulho, ainda que os salários dos ínclitos ministros nomeados politicamente não venham a sofrer qualquer redução. A decisão, porém, foi do ogre.

Garfado, não vencido

Faz tempo que o presidente do PMDB,  Michel Temer, sabe que não será escolhido pelo presidente Lula para companheiro de chapa de Dilma Rousseff. O partido está pronto para indicá-lo, quase por unanimidade, mas o primeiro-companheiro não quer. Principalmente depois que a candidata oficial começou a crescer nas pesquisas, demonstrando que em pouco tempo nenhuma concessão precisará ser feita aos partidos aliados. De necessários eles estão passando a supérfluos, quer dizer, será ótimo se apoiarem Dilma, mas se não apoiarem, tanto faz. A popularidade do chefe parece transferir-se para ela.

Claro que a equação não está completada. O vento pode mudar. Caso continue soprando sobre os companheiros, Michel nada poderá fazer. Se mudar, no entanto, o PMDB será capaz de dar o ultimato: ou a  indicação de seu presidente ou a liberação para os diretórios regionais seguirem o rumo que bem entenderem. Até apoiar José Serra, como os caciques de São Paulo   pretendem.

Na hipótese de Dilma continuar  crescendo nas pesquisas e posicionar-se como favorita, o presidente Lula poderá dar-se ao luxo de recrutar o candidato à vice-presidências em outros arraiais.

Henrique Meirelles, por exemplo,  mesmo pertencendo ao PMDB, nada tem a ver com a direção nacional do partido. Por via das dúvidas, deverá desincompatibilizar-se até 2 de abril.  Ciro Gomes, de seu turno, não afasta a possibilidade de aceitar, caso convidado e dentro de suas condições.  Em suma,  Michel Temer está   garfado, mas não vencido.

Tem que abrir o leque

O senador e ex-ministro da Educação,  Cristóvam Buarque, decidiu candidatar-se ao governo do Distrito Federal. Mostra-se disposto a enfrentar Joaquim Roriz, o   pai de toda essa lambança praticada pelo ex-governador José Roberto Arruda e sua quadrilha. Não vai ser fácil, mas, enquanto governou Brasília, Cristóvam jamais foi acusado de qualquer irregularidade ou trapalhada. Pode ter-se cercado de alguns incompetentes, até na Comunicação Social, mas estará vacinado contra traições.

A importância para o  pré-candidato será abrir o leque. Apesar de dedicado em tempo integral à questão do   ensino público,  precisará  preparar-se para enfrentar outras questões. A maior delas, a violência que domina a capital federal. A bandidagem e o tráfico de drogas. Também o trânsito,  a partir da evidência de que Brasília foi feita para seus habitantes, não para seus veículos. O desemprego precisa merecer cuidados especiais, tamanho o  número de infelizes agrupados em torno dos semáforos do Plano Piloto, vendendo bobagens ou simplesmente mendigando. Numa palavra: se decidir enfrentar a parada, precisará reciclar-se.

Conversa reservada

O que conversavam o ministro Edison Lobão e o senador Renan Calheiros,  esta semana, na hora do almoço, no canto de um restaurante de classe média, nada badalado, aqui em Brasília? Chegaram antes das 13 horas e só se levantaram pouco antes das 16.

Quebrou a cara quem por acaso  tentou sentar-se em mesas ao lado. O garçon participava estarem aqueles lugares reservados, ora para um grupo de advogados, ora para funcionários de um banco, que não  apareceram.  Os dois comensais deram prejuízo ao  estabelecimento, pois nem vinho tomaram, apesar de Lobão ser bom conhecedor. Mas se a moda pega, logo o “Francisco” multiplicará sua receita.

O quadro eleitoral do Rio

Pedro do Coutto

Com as candidaturas de Sergio Cabral, Fernando Gabeira e Anthony Garotinho, está basicamente definido o quadro eleitoral do Rio de Janeiro para as eleições do 2010. Cabral, favorito, lidera com ampla margem de intenções de votos. Pela última pesquisa, 38 pontos contra 25 de Garotinho e 17 de Fernando Gabeira. Mas estes números não são definitivos como os que envolvem José Serra e Dilma Roussef em São Paulo. Há a questão do Senado que se apresenta como um enigma. Ainda por cima, agora, com a entrada de Cesar Maia no páreo.

Os candidatos ao Senado são fracos e não sustentam os que disputam o governo. Jorge Picciani no PMDB de Sergio Cabral. Lindenberg Farias e Benedita da Silva dividem o PT e nenhum dos dois acrescenta força à chapa a governador. Muito menos a vereadora Aspásia Camargo, cuja presença não acrescenta entusiasmo ao PV. Alfredo Sirkis melhor do que ela. Além do mais, sua escolha desgostou Gabeira. Fernando Gabeira prefere Cesar Maia, mas será tão fácil assim esquecer o que representou a Cidade da Música entre outras omissões e contradições?

Pelo que se percebe verifica-se uma indefinição quanto à escolha dos dois senadores. Uma vaga parece certa: a do senador Marcelo Crivella. Ele vem obtendo 20% dos votos, o que será suficiente para reconduzi-lo para mais oito anos no Senado. Mas 20% são 20% e os candidatos são muitos. Picciani depende de Cabral e da capacidade que este tiver de transferir votos. Cesar Maia aparece com surpreendentes 10% para a desadiministração que fez. Porém parece mais forte, mais incisivo do que Picciani. Assim, acrescenta votos a Gabeira que podem se tornar decisivos. Não apenas para o Senado, mas para o governo.

Somando dez por cento a Fernando Gabeira, Cesar pode conduzir o desfecho para o segundo turno, ou entre Cabral e Gabeira, ou entre o atual governador e seu antecessor no Palácio Guanabara. A chapa de deputados federais pouco importa em matéria de votos ao governador. Já os candidatos a estadual surgem com mais peso, em função de sua proximidade com as comunidades.

Se Cesar acrescentar dez pontos a Gabeira, este, com o apoio da cidade do Rio decidirá o segundo turno contra Cabral. Caso contrário, Sergio Cabral e Garotinho deixam uma dúvida no ar, partindo do rumo que for adotado por Gabeira e Cesar. O mais viável, entretanto, é que o segundo turno coloque frente a frente Gabeira e Cabral em função do nível mais alto em que se encontra o deputado verde. Mas terá que dividir dois palanques: o de Marina da Silva e José Serra. Neste ponto, a candidatura Marina Silva poderá semear algo para Gabeira, e Ciro prejudicar o PT em São Paulo, encontrando dificuldade em enfrentar Geraldo Alckmin. Afinal Ciro é um adventista na terra paulista. Não terá muito que dizer ao eleitorado. Os candidatos ao Senado precisam esquentar a campanha, ainda fria. No Rio, por exemplo, a vereadora Teresa Bergher esquentaria muito mais a chapa de Gabeira do que Aspásia Camargo, de baixa combatividade. Campanha tem de possuir vibração. Se a razão não resolve, é preciso disposição esportiva para enfrentar o eleitorado e as urnas. Só com raciocínio serenos não se chega  lá. No meio de tudo isso, a dúvida, é saber quem vai a final com Sergio: se Gabeira ou Garotinho. Um turno só não dá para resolver o enigma que aguarda o caminho das urnas e dos votos.

Além de não roubar nem deixar roubar, Lacerda foi um governador extraordinário, que estruturou o Rio do futuro

Luiz Geraldo Santos:
“Helio, quando Lacerda assumiu o governo da Guanabara, não tinha água. Ele abasteceu o Rio de água, e até hoje não falta. Não havia vagas nas escolas, imediatamente ele inventou o terceiro turno, enquanto construia mais salas e admitia professores. Não tinha telefone, ele fundou uma empresa, que solucionou o problema com novas linhas e mais barato. Abriu túneis e construiu viadutos em profusão. Além do Aterro do Flamengo, deixou muitos parques. O Banco do Estado da Guanabara (BEG) só tinha duas agências, ele abriu dezenas. Sem exagero e muito menos paixão, Carlos Lacerda foi o maior governador que o Brasil teve. O resto, não fez nem 10 por cento do que ele fez. E, melhor, como você disse, não roubou nem deixou roubar”.

Comentário de Helio Fernandes:
Perfeito, Luiz Geraldo, e na verdade Lacerda fez mais, muito mais, como a erradicação de 12 favelas e o plano urbanístico do especialista grego Constantinos Doxiadis, contratado por ele, que previu a construção da Linha Vermelha e da Linha Amarela.

Realmente, quando assumiu o governo, encontrou o Rio devastado pela falta d’água, um pavor, horror, se fixou imediatamente na construção do Guandu. Não tinha dinheiro suficiente, fez empréstimos a 1 e 5/8 por cento (os americanos adoram isso), meu amigo Helio Beltrão fez pelo menos 10 viagens para fechar o contrato. Ficou nesse percentual, nenhuma comissão, por fora ou por dentro. (Há muito tempo o empréstimo está pago).

Só para comparar; o estranho ministro Delfim Netto, que está querendo ressuscitar, (numa polêmica com o ex-presidente Collor) “arranjou” na Inglaterra, 800 milhões de dólares como financiamento para a ponte Rio-Niterói, a juros de 14 por cento, uma calamidade. (Foi incorporado à dívida externa. Delfim não aceitaria pagar juros de apenas 2 por cento, o que sobraria para o por fora?)

Quando Marcos Tamoio sugeriu ao governador a abertura do Túnel Rebouças (uma das mais importantes obras, inaugurada em agosto de 1965), ressalvou: “Governador, abrindo esse túnel, tem que abrir outro na Gávea, na Covanca, ou então o Jardim Botânico vai engarrafar completamente”. Resposta do governador: “Vou fazer um deles, não sei como arranjar dinheiro. Para o outro túnel, nem pensar”.

Aconteceu o que Marcos Tamoio previa e Lacerda sabia, mas o que fazer?

Lacerda, que eu apelidei (e ele gostou muito) de “Dromedário do trabalho”, porque, como os camelos, acumulava e mastigava trabalho. Tinha um estilo próprio, não perdia tempo despachando diariamente com secretários. Chamava, digamos, o de Obras, ficavam horas estudando, vendo o que teria que ser feito, como fazer e como pagar. Marcava na agenda dele e do secretário, novo despacho para dentro de 90 dias.

No dia seguinte, no outro e no outro, fazia com diversos secretários. Adorava viajar, mas não podia, em parte do mandato o vice era Eloy Dutra, grande inimigo. Ainda vigorava a “invenção” da Constituinte de 1946, o governador e o presidente se elegiam, e podiam ser eleitos vices de outro partido.

Continuava inquieto, impulsivo, às vezes inamistoso, imprudente e inconsequente. Quando caiu o Estádio de Remos da Lagoa, o secretário de Obras era o Laviola, campeão brasileiro e sulamericano de natação.

Foi demitido sem saber, para o lugar nomeou o brigadeiro Terra, (excelente figura) que era diretor de Rotas Aéreas. Algum comentário?

Um dia me telefona às 2 da madrugada, “preciso falar com você agora”. Respondi, “mas não sei nem como se entra a esta hora no teu apartamento”. E ele: “Estou no Guanabara”. Na verdade raramente saía de lá. Esse era o autêntico Carlos Lacerda, jornalista, político, administrador.

Não se preocupava com dinheiro, ficou rico quando vendeu a SUA TRIBUNA DA IMPRENSA para Nascimento Brito, herdeiro do Jornal do Brasil.

Fez história, mas não foi seguido ou imitado pelo menos em matéria de NÃO DESPERDIÇAR O DINHEIRO PÚBLICO. Nisso, os que vieram depois, (quase todos) o AMALDIÇOAVAM, tinham que tomar cuidado. (Excluídos Roriz e Arruda, na capital, que abusaram da desonestidade, da corrupção e da tranquilidade que exibiam nesses atos).

Estamos vendo diversos governadores afastados pelo Tribunal Eleitoral, e o espetáculo de Brasília, que substituiu o Rio, mas inovou espantosamente em matéria de enriquecimento ilícito, de desperdício do dinheiro público. Que República.

***

PS – Política, jornalística ou pessoalmente foi o nosso melhor tempo. Lacerda construiu um cineminha de 12 lugares, onde era um subterrâneo de “guardados”. Eram noites e noites de filmes excelentes e conversas altamente polêmicas quanto as que tivemos no Regimento Caetano de Farias, de 14 de dezembro de 1968, (o dia seguinte ao AI-5, eu preso no mesmo dia 13) até 22, véspera de Natal, quando foi solto. Eu passei Natal, Ano Novo, fui solto no dia 6 de janeiro, Dia de Reis, os ditadores eram muito religiosos.

PS2 – Essas conversas demolidoras mas construtivas, duraram 8 dias, praticamente sem interrupção. Não gostávamos de dormir, ele fingia greve de fome. Gravadas, dariam um livro maravilhoso, autêntico e elucidativo. Um lamento e uma tristeza, que CONVERSÁSSEMOS 8 DIAS, sem gravação.

PS3 – Morreu em 1977, com 63 anos. Dois anos depois vinha o que se chamou, “ANISTIA AMPLA, GERAL E IRRESTRITA”, Lacerda já não estava à disposição.

PS4 – Sempre esperei que Lacerda e Brizola (talvez um depois do outro) fossem presidentes. Não se sabe o que aconteceria, agora não há análise possível ou imaginável. Acreditei em Juscelino, pensei que Janio pudesse ser (participei das duas campanhas), em quem acreditar?

PS5 – Como acreditar em Serra, que fez campanha e carreira no exterior. Ou Dona Dilma, autoritária e imprevisível? Ou assustadoramente previsível?

Petróleo: nunca vi nada tão mal explicado

Pedro do Coutto

Francamente, ao longo de mais de 50 anos, nunca deparei com assunto tão mal explicado, e consequentemente tão mal interpretado como esta emenda apresentada pelo deputado Ibsen Pinheiro à questão da distribuição dos royalties da produção do petróleo.

Em primeiro lugar, a matéria é regida hoje pelo artigo 20 da Constituição Federal complementada pelas leis 7990 de dezembro de 89, aperfeiçoada pela lei 8001 de março de 90. O que propõe Ibsen Pinheiro? Igualar a distribuição do produto da produção marítima do petróleo. Isso só pode ser feito a partir do pré-sal, portanto daqui a dez anos, com base no princípio de que a legislação não retroage para restringir.

O governador Sérgio Cabral demonstrou-se mal informado. Sua discussão não pode ser em torno da emenda Ibsen, simplesmente porque abstratamente só trata do futuro. Seu debate, firme, tem que envolver as leis 7990 e 8001, principalmente esta que alterou aquela. E não restringiu nada. Ao contrário. Ampliou a participação dos Estados e Municípios localizados em áreas produtoras logicamente na produção.

Se o governador Sérgio Cabral houvesse lido o artigo 3º da lei 8001 encontraria o seguinte texto em pleno vigor: “O pagamento das compensações financeiras previstas nesta lei, inclusive o da indenização pela exploração do petróleo, do xisto betuminoso e do gás natural será efetuado mensalmente diretamente aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios até o último dia útil do segundo mês subsequente ao do fator devidamente corrigido pela variação do bônus do Tesouro Nacional, ou outro parâmetro de correção monetária que venha a substituí-lo, vedada a aplicação dos recursos em pagamento de dívida e no quadro permanente de pessoal”.
Mantém, portanto, com exatidão o artigo 27 da lei 7990, cujo texto é o seguinte – a sociedade e suas subsidiárias ficam obrigadas a pagar compensação financeira aos Estados, DF e Municípios correspondentes a 5 por cento sobre o valor do óleo bruto, do xisto betuminoso e do gás extraído de seus respectivos territórios, onde se fixar a lavra do petróleo ou se localizarem instalações marítimas ou terrestres de embarque ou desembarque do óleo bruto ou de gás natural, operados pela Petrobras obedecidos os seguintes critérios.

São eles: 70 por cento aos estados produtores; 20 por cento aos municípios produtores; 10 por cento aos municípios onde se localizarem instalações marítimas ou terrestres de embarque ou desembarque de óleo bruto e/ou gás natural.

Qual a dúvida existente? Nenhuma, absolutamente nenhuma. Para emendar a divisão do petróleo, do xisto ou do gás depois do pré-sal, aí sim, haveria necessidade de emendar o artigo 20 da atual Constituição. Para mudar o atual sistema de distribuição não pode haver emenda alguma ao artigo 20, sobretudo porque geraria um efeito retroativo, o que é impossível. A legislação não retroage para restringir.

Como se está verificando está se travando um debate sobre o amanhã, não envolve Copa do Mundo, tampouco Olimpíadas, nem mesmo redução de recursos ao Estado do Rio de Janeiro. O governador Sérgio Cabral chorou sobre o nada. Emocionou-se à toa. Não havia necessidade alguma disso. Bastaria ter consultado o secretário de Fazenda, Joaquim Ferreira Levy, ex-secretário do Tesouro Nacional.

O governador poderia ignorar o tema. Complexo demais para ele. Mas não para Joaquim Ferreira Levi. Não havia necessidade de lágrimas, muito menos de passeata contra o governo Lula que, afinal, de contas é o autor do projeto do pré-sal. Mas nada tem com a emenda Ibsen Pinheiro. Esta ele pode apenas vetar depois do Senado. Nada mais, nada menos do que isso.

Cuidado com o dr. Silvana

Carlos Chagas

Informamos, tempos atrás,  haver sido visto em Brasília o maior inimigo da Humanidade, o dr. Silvana, de quem os mais velhos  se lembrarão.  Cientista  louco, seu  objetivo era   destruir a civilização no planeta, até que foi derrotado pelo  Capitão Marvel, infelizmente hoje recolhido ao asilo de super-heróis tuberculosos.

Foi no governo Fernando Henrique que se soube da presença do solerte criminoso, flagrado  no meio do túnel subterrâneo e secreto que ligava o palácio do Planalto ao ministério da Fazenda. Quando fugiu, levava uma lista que deixou cair no chão,  com o nome de mais  instituições e empresas a ser privatizadas, encabeçadas pelo Banco do Brasil, a Caixa Econômica, o Exército, a Marinha e a Aeronáutica.  O episódio foi abafado,  mas as forças armadas ficaram sabendo e, por sugestão delas, não se falou mais em privatizações.

Rumores surgiram sobre  nova aparição do satânico individuo   em São Paulo,  quando da quarta campanha do Lula à presidência da República, em 2002. Corre que tinha  a letra do  dr. Silvana o primeiro rascunho da Carta aos Brasileiros, aquela que marcou a adesão do  novo governo ao neoliberalismo.

Pois bem, o maléfico personagem parece estar de volta, de novo na capital federal. Foi visto semana passada embarcando no aerolula, integrante da comitiva presidencial que viajou para o Oriente Médio. Só que estava disfarçado, de terno e gravata, sem o avental branco dos cientistas, até com óculos de aro de tartaruga,  pequena barbicha e barriga imensa, certamente produto de alguns travesseiros escondidos debaixo do paletó.

Por que se  desconfiou  de que era o dr. Silvana e não o assessor especial de política externa, Marco Aurélio Garcia?  Primeiro porque partira dele a sugestão para o presidente Lula visitar aquela região explosiva,  ainda mais com a pretensão  de estabelecer a paz e a concórdia entre Israel, a Palestina, o Irã e adjacências.  Coisa que nem Jeová, Alá e o Padre Eterno haviam conseguido, só o dr. Silvana para criar confusão ainda maior.

Em Jerusalém, quando o ministro de Relações Exteriores de Israel  pediu um encontro reservado com o Lula, antes da visita ao parlamento israelense, foi o assessor especial que omitiu o pedido. Deixou de informar o presidente e,  mais,  respondeu em termos deselegantes   ao chanceler anfitrião, cuja reação foi não comparecer à sessão do legislativo local em homenagem ao  Lula, faltando, também, ao encontro com o primeiro-ministro e ao jantar de gala.

Não ficou nisso o desagregador personagem. Através de asseclas incrustados no governo de Israel, sugeriu ao primeiro-ministro que comparasse Maradona a Pelé, suprema ofensa ao patriotismo do nosso presidente. Mais ainda:  teria convencido o presidente israelense de que o Lula era conhecedor e  admirador incondicional da vida de  Julio César, informação que levou Shimon Peres  a,  de viva-voz,  comparar o primeiro-companheiro ao grande romano, sem ou com ironia.

Também do assessor internacional  partiu o conselho para o presidente Lula cancelar a ida ao túmulo do fundador do sionismo, quando estimulou o chefe a comparecer, um dia depois, ao mausoléu do criador da luta armada dos palestinos contra os israelenses.

A relação de  trapalhadas não  teria fim, registrando-se apenas a última: quem fez a cabeça do Lula  para declarar, ainda no Oriente Médio, que o acirramento do conflito entre Estrados Unidos e Israel era uma “chance mágica” para a promoção da paz? Quer dizer, a luz é produto da escuridão?

Em suma, a imagem que o Brasil ia construindo em política externa seguiu atrás da vaca. Foi para o brejo.  Há quem rememore, agora, outras trapalhadas por certo  geridas pelo dr. Silvana: ficamos do lado errado em Honduras? Precisávamos aderir tanto assim a Hugo Chaves? Era necessário  comparar os dissidentes cubanos a bandidos? Por que cedemos às grosserias dos presidentes da Bolívia, do Equador  e do Paraguai?

Em maio está prevista viagem do presidente Lula ao Irã. Quem programou não só a visita, mas   deve estar meditando nas  lambanças que dela  deverão decorrer?  Cuidado com o dr. Silvana.

O olímpico João Havelange e os três patetas pretensiosos: Cabral, Paes e Artur Nuzman

O Globo distribui todo ano, o que chama de “Prêmio Faz Diferença”. Premiar é sempre uma obrigação e um prazer, principalmente tendo como personagem do ano, um homem como João Havelange.

Quando o Rio foi escolhido como sede da Olimpíada de 2016, Cabral, Nuzman e Eduardo Paes, tentaram “vender” à opinião pública, a ideia de que foram os grandes vencedores da conquista.

Desmascarei os três, mostrei que o presidente de Honra da Fifa (e 24 anos presidente) foi o artífice de tudo. Agora O Globo faz justiça, SILENCIA para sempre os três enganadores.

Ibsen Pinheiro: a quem estaria ou está servindo?

Inesperadamente sai da obscuridade rotineira, apresenta a emenda mais absurda e desavisada, obriga até o senador Romero Jucá a falar em “secessão”. (Que naturalmente acredita que é sucessão).

Lula alarmado, Cabral
desesperado com a eleição

Conforme temos dito, não há UMA POSSIBILIDADE EM 1 MILHÃO DO ESTADO DO RIO PERDER 7 BILHÕES DE ROYALTIES. Ibsen, (servindo a quem?) e seu projeto, tratam do pré-sal, que não tem nada a ver com royalties atuais do petróleo.

E Gabeira, não é mais
candidato a governador?

Desistiu? Pelo menos é o que parece, não apareceu, por um segundo que fosse.

Agora, cabralzinho já se fixa ao lado de Lula. Não está chorando pelos royalties, mas pela possível perda da eleição. Dizem que Deus é brasileiro, em outubro ELE não poderia se “naturalizar” carioca?

Lacerda, Jango, Roberto Campos e 1964

Miguel Freitas:

“Uma das cenas mais patéticas que já vi em fotos, foi a de Carlos Lacerda, andando pelas ruas e aplaudindo a revolução de 1964. Isso dá uma idéia da sua trajetória jornalística”.

Comentário de Helio Fernandes:
Respeito integralmente teu direito de não concordar ou até de discordar. Mas é preciso contar a história corretamente. Em 1963, depois do plebiscito de 6 de janeiro, (financiado por banqueiros, seguradoras e outros grupos), Jango mandou mensagem ao Congresso, pedindo o “estado de sítio”, sem qualquer base ou explicação.

Objetivo: intervenção no Estado da Guanabara, RETIRADA DE LACERDA DO GOVERNO, fechamento da Tribuna da Imprensa, que já pertencia a este repórter, muitos acreditavam que ainda fosse de Lacerda.

Para terminar, duas perguntinhas que ficaram sem resposta. 1 – Por que João Goulart, que se dizia nacionalista e independente, nomeou Roberto Campos embaixador do Brasil nos EUA? Derrubado Jango, Roberto Campos veio imediatamente ser o grande representante dos trustes (como se chamavam na época) no Brasil.

2 – Por que este repórter foi preso nesse mesmo 1963 (24 de julho), por ter publicado uma circular “SIGILOSA E CONFIDENCIAL” do ministro da Guerra, Jair Dantas Ribeiro? Eu era, como antes, como depois e até hoje, o mais assíduo combatente desses LADRÕES internacionais. Jamais transigi ou me entreguei.

É bom  debater e combater, não cerceio nem censuro ninguém, mas fatos são fatos, deve ser respeitados. Lacerda não tinha a mesma posição, depois passou a ter, ainda estava na hora.

Lembranças de Lacerda, o jornalista, o político e o governador. Diferença para hoje: não roubava nem deixava roubar

Luiz Geraldo dos Santos:
“Gostaria que você escrevesse sobre o Carlos Lacerda governador. O político e o jornalista são conhecidos. Falta esclarecer o seu governo. Opinião valiosa a sua, para esclarecimento geral, principalmente dos que estão chegando agora.”

Comentário de Helio Fernandes:
Muita gente vem me pedindo o mesmo, há muito tempo. Não quero que este blog seja puramente histórico, embora sempre tenha o cuidado de ligar ou entrelaçar fatos do passado com o que acontece no presente.

É preciso ficar atento ao que acontece no dia a dia, importantíssimo, principalmente num ano de eleição. Faltando menos de 15 dias para a DESINCOMPATIBILIZAÇÃO, ponto de partida para quase tudo.

Carlos Lacerda jamais pensou em ser governador. Sua determinação e disposição, a partir de algum momento, era a Presidência da República. Tendo nascido em 1914, no Distrito Federal, que não elegia governador (os cargos principais, Prefeito e Chefe de Polícia, nomeados pelo presidente), obrigado a “pensar mais alto”, assumia essa responsabilidade. Até com satisfação.

Pedro Ernesto foi o primeiro prefeito eleito pelo Distrito Federal em abril de 1935, mas já era prefeito-interventor desde 1931, quando fez a revolucionária nomeação de Anísio Teixeira para secretário de Educação, realmente fascinante. Lacerda tinha 22 anos, ainda não era o que ele mesmo se considerou: “Um intelectual cooptado pela política”.

Mas já esteve preso, freqüentava a Faculdade de Direito, no primeiro ano. Muito perseguido, só se sentia em liberdade plena na casa do avô, Sebastião Lacerda, ministro do Supremo. A polícia não chegava perto, tinha Poder mas também tinha medo. Morava na cidade de Comercio, hoje Sebastião Lacerda, em Vassouras.

Jornalista implacável e irrefutável, em 1945, (depois da entrevista com José Américo, já citada aqui no blog), participou diariamente da campanha para a eleição de 2 de dezembro de 1945, uma das grandes farsas da História brasileira. 33 dias depois da derrubada do nazista e fascista Estado Novo, todos, mas todos mesmo, voltavam ao Poder.

Retrocesso histórico, político, eleitoral e partidário, teve a mesma “importância negativa” do golpe de 1930. Até hoje o país não se livrou de 1930 e 1945, prolongamento evidente, ditatorial e continuação de tudo o que viria.

Nesse 1945, Lacerda escrevia diariamente sobre o candidato a presidente da República pelo Partido Comunista, Yedo Fiuza. O partido estava na legalidade, elegeu 15 deputados, (um deles Jorge Amado) e um senador pelo Distrito Federal, o próprio Prestes, que também foi eleito deputado.

Na campanha, o título geral das matérias era “O comunista Rato Fiuza”. Era comunista mas não desonesto. Lacerda já tinha tanta repercussão, que o candidato comunista teve 9 por cento dos votos, inacreditável, mas atribuído à campanha “contra” de Lacerda, que se transformou em a “favor”. Sempre achei que Lacerda sabia disso.

Lacerda se transformou em nome nacional, na Constitutinte de 1946, passou a fazer uma página inteira (a segunda) no Correio da Manhã, com o título “Da tribuna da imprensa”. Dessa tribuna do Palácio Tiradentes, escrevia sobre os mais variados assuntos, “até mesmo o que acontecia no plenário”.

Oprimido e restrito pelo fato de viver no Distrito Federal, em 19 de janeiro de 1947 foi eleito vereador. Eram 50 vereadores, a melhor Câmara Municipal que já existiu. Nomes extraordinários de todos os partidos, personalidades nacionais e internacionais, como Pascoal Carlos Magno, embaixador na Grécia, que se elegeu sem estar no Brasil. O que já acontecera em 1919 com Epitacio Pessoa, presidente da República sem sair de Paris. Em 11 de novembro de 1918, assinara pelo Brasil a “rendição incondicional da Alemanha”, representação que Rui Barbosa, derrotado em 1918 e que sabia que teria que haver nova eleição a seguir, recusou. Quem foi eleito? Epitacio Pessoa, no cargo que ele não quis.

Essa importantíssima Câmara Municipal, tinha 18 representantes do Partido Comunista, 12 da UDN, 11 do PTB. Os outros 9 eram de partidos diversos, sendo que o PSD, o maior partido nacional, elegeu apenas 2. O Rio, qualquer que fosse a denominação, era o máximo da oposição.

Em 1948 o Partido Comunista foi colocado na ilegalidade, cassados os 18 vereadores, Lacerda renunciou imediatamente. Não chorava o fim dos comunistas, mas sim a perda dos grandes debates diários. Assisti a muitos, memoráveis.

Não posso deixar de fazer a revelação, poucos sabem ou se lembram. Na Câmara Municipal de São Paulo, renunciou o vereador Franco Montoro, do PDC. Assumiu o primeiro suplente do partido, Janio da Silva Quadros. Que em apenas 12 anos, sem perder eleição, chegaria a presidente da República. (Só perderia depois da farsa da renúncia).

Lacerda se elegeu deputado federal, fez uma trajetória tumultuada, agressiva e agredido (até fisicamente), mas sem perspectiva de poder. No Parlamento foi um sucesso, era a atração diária, naturalmente atacando e sendo atacado. Em 1954 era o grande parlamentar, mas sem futuro, apesar da enorme vontade de chegar a presidente.

Quase no final de 1954, ainda governador de Minas, mas já praticamente candidato a presidente, Juscelino me convidou para assessor de imprensa de sua campanha, foi logo me dizendo: “Helio, falei com o Horacinho (Horacio de Carvalho, proprietário do Diário Carioca, cuja redação dirigi) que ia te convidar, mas quero dizer logo, não existe dinheiro nem para café”.

Era um profissional altamente requisitado, mas a oportunidade de passar um ano percorrendo o Brasil todo, conhecendo o que Tancredo Neves mais tarde, chamaria de “grotões e igarapés”, era irrespondível, aceitei na hora.

(Maravilhosa experiência, inesperadamente “recompensada” em 8 de dezembro de 1955, quando Juscelino fez uma viagem pelo mundo como “presidente eleito e ainda não empossado”, com mais 4 pessoas. E um único convidado, este repórter. Essa então, viagem que nenhum dinheiro pode pagar, fomos recebidos por presidentes (começando pelos EUA), reis, rainhas, primeiros-ministros, e até ditadores, como Franco e Salazar).

Apesar de nenhuma obrigação, comuniquei o fato a Carlos Lacerda. Ouviu, se levantou, respondeu até com veemência, “você não pode aceitar”. Imediatamente: “Já aceitei, considero que essa é uma rara ou talvez última oportunidade de evitarmos uma guerra civil”. Lamentou, éramos amigos, mas de lado a lado, nunca fomos incondicionais. (Eu faria 33 anos, ele havia feito 42).

Juscelino foi eleito, anunciou a mudança da capital, rompi logo com ele, fazia um programa de televisão, (1956, TV Rio, a Globo surgiria apenas em 1965), depois de algumas semanas fui proibido. Inclua-se o Millor, que fazia um programa obviamente excelente, e o próprio Carlos Lacerda. Mas este, surpreendentemente beneficiado pela eleição de Juscelino.

Em 21 de abril de 1960 a capital foi transferida, criou-se então o Estado da Guanabara. Marcada a eleição para 5 de novembro do mesmo 1960 e a posse do governador em 5 de dezembro. O novo Estado ficou com um governador provisório, Sette Câmara, no mesmo dia promovido por Juscelino a embaixador.

Houve uma tremenda guerra eleitoral. Ainda não existia segundo turno nem o absurdo domicilio eleitoral. Este domicilio eleitoral é típico e obrigatório dos regimes com VOTO DISTRITAL, avanço que o Brasil terá que adotar um dia. Como eu já disse, aqui era o centro da oposição, então a luta foi entre Lacerda, os comunistas e Tenório Cavalcanti, o famoso deputado do Estado do Rio, que disputou pela Guanabara.

Resultado impressionante, arredondando. Carlos Lacerda, vencedor, 29 por cento dos votos. Sergio Magalhães, Partido Comunista, (belíssima figura), 28 por cento. Tenório, 16 por cento. Mendes de Moraes, o prefeito mais acusado de irregularidades, principalmente na construção do Maracanã, 9 por cento.

(Se houvesse segundo turno, Lacerda não ganharia, todos se juntariam contra ele, era a ordem natural das suas batalhas). Foi a grande sorte da Guanabara e do próprio Lacerda, que teve a oportunidade de se afirmar e reafirmar, agora num setor diferente.

Não tinha a menor experiência administrativa, mas o que o ajudaria para o notável governo que fez: NÃO ROUBAVA, NINGUÉM PODIA ROUBAR, NEM SE ATREVERIAM.

***

PS – A honestidade de quem recebe dinheiros públicos, não deve ser examinada apenas por ÉTICA OU MORAL, e sim pela PRESERVAÇÃO OU AUMENTO dos investimentos. Ser honesto é uma obrigação. Mas um governador desonesto, desvia os recursos do próprio cidadão-contribuinte-eleitor.

PS 2 – Vou fazer apenas uma referência explicativa do que estou dizendo. Se o administrador, (no caso de governadores, o que nos interessa) tem digamos um número qualquer, 10 milhões, para fazer uma obra, e gasta 30 milhões indevidamente, além de desonesto, ele podia pelo menos construir três obras iguais.

Amanhã: O que fez Lacerda
como governador, sem a menor
experiência administrativa

O aprendiz de feiticeiro

Carlos Chagas

Ao deixar o Oriente Médio, em entrevista coletiva, o presidente Lula conseguiu confundir ainda mais a visão internacional sobre a política externa brasileira. Declarou vislumbrar uma  “chance mágica” para a paz,  no atual desencontro entre os Estados Unidos e Israel, aliás, o pior desde  a criação do estado judaico.

Os Estados Unidos tem sido o alicerce de  Israel, mas não aceitaram a construção de mais centenas de casas israelenses em território tomado dos palestinos, em Jerusalém. Trata-se, para os americanos, da negação dos propósitos de convivência pacífica naquela região conturbada. Por isso apelaram para a retirada imediata dos colonos judeus daquela  área.  Tanto o primeiro-ministro quanto o presidente de Israel deram de ombros. Jamais recuarão, disseram.

Não parece a transformação do  limão em limonada, mas o contrário: o Lula pretende fazer da limonada um limão.  Porque a paz parece mais longe ainda, agora que os palestinos começaram a reagir com as armas de que dispõem, ou seja, paus e pedras. Disporá  o presidente  de alguma varinha de condão para promover  a mágica? Deveria pedir a algum auxiliar para exibir no cineminha do Alvorada aquela obra-prima de Walt Disney, “O Aprendiz de Feiticeiro”. Melhor teria feito caso não viajasse. E não falasse.

Tucanos taxiando

A recente pesquisa do Ibope-CNI teve o dom de satisfazer o PT e o PSDB a um só tempo. Os companheiros, pelo crescimento dos percentuais de Dilma Rousseff, agora a cinco pontos de José Serra. E os tucanos por conta da conclusão de que, se as eleições fossem hoje, o governador paulista estaria eleito, dadas as projeções para o segundo turno: 44 a 39. Mesmo reconhecendo a rápida ascensão da candidata nas preferências populares, o PSDB sustenta que Serra ainda lidera a disputa sem fazer campanha, ao contrário da adversária. Dizem seus líderes que quando lançar-se formalmente, dia 10 de abril, os números  tenderão a crescer. Estabilizados, porém, já bastam para a vitória.

O singular nessa pesquisa refere-se à candidatura de Ciro Gomes.  Sem ele, Serra e Dilma sobem três pontos cada um. São seis. Como o ex-ministro e ex-governador do Ceará recebeu onze pontos, com seu nome na lista, indaga-se onde foram parar os outros cinco…

Adeus ficha limpa

Nem agora, nem nunca. O diagnóstico é para a possibilidade de aprovação do projeto de lei que estabelece a necessidade de os candidatos a postos eletivos, para poder disputar as eleições,  não terem sido condenados pela Justiça. Nem na primeira, nem na segunda, nem em qualquer instância a Câmara e o Senado aprovarão essa exigência.

Pelo menos um terço dos deputados e outro tanto dos senadores já foram condenados. Muitos em processos de natureza política, engendrados por seus adversários para prejudicá-los. Muitos, também, por haverem cometido crimes. Quanto aos outros dois terços, é aquela história: “até agora não fui, mas poderei ser…”

Meirelles candidato?

Corre em Brasília ter sido  por razões político-eleitorais que o presidente do Banco Central,  Henrique Meirelles, não deixou o Copom aumentar os juros. A tendência era pelo aumento, mas como ficaria  se, dia 2 de abril, deixasse o cargo para disputar eleições? Em Goiás ou no plano federal, seus adversários não perderiam a oportunidade de registrar o aumento dos juros como sua última iniciativa à frente do Banco Central. Talvez até calculassem  a elevação do percentual  em milhões ou bilhões de reais, para mostrar o prejuízo. Sendo assim, Meirelles preferiu deixar o desgaste para o substituto, que não será candidato a nada.

Quanto a saber para onde se voltariam os interesses do banqueiro, permanece a dúvida. Senador pelo seu estado? Deputado federal? Ou companheiro de chapa de Dilma Rousseff?

Belíssimo PROTESTO de 150 mil contra Cabral

É sempre bom, agradável, admirável e empolgante, assistir as manifestações de rua de revolta e protesto. Valeu e valerá sempre, “a voz do povo é a voz das ruas”.

Apesar de nada ter se perdido, aquelas 150 mil pessoas mostravam seu interesse, sua participação, indignadas com a omissão do governo.

Durante meses esse projeto transitou ou tramitou na Câmara, o governador não soube de nada, se escondeu, não mobilizou, não convocou, não coordenou. Foi ótima a passeata, o governador tentou “capitalizá-la”, não conseguiu.

Mas fiquem certos. Não existe UMA POSSIBILIDADE EM UM MILHÃO de modificarem a Constituição e ROUBAREM os royalties que estados e municípios recebem, MUITO JUSTAMENTE. O que se discute é o royaltie do pré-sal, o povão tem que ficar atento, mas é outra história.

Foi tão forte a repercussão, que José Serra, sobre o assunto, dizia apenas, “ouvi falar”. Mudou de tom, protestou e acrescentou: “O Estado do Rio e o Espírito Santo não podem ficar sem os royalties do petróleo”. Ha!Ha!Ha!

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PS – Serginho cabralzinho filhinho “chorou” em vão. Sem nenhuma lágrima, preocupado, bastava perguntar ao secretário da Fazenda dele mesmo, Joaquim Levy, que tendo sido secretário do Tesouro Nacional, conhece o assunto com mais profundidade do que de onde irão retirar o pré-sal, “discutido e faturado”, muito antes de existir.

PS2 – Esses 150 mil da passeata de ontem, são representantes legítimos dos 15 milhões de habitantes do Estado do Rio e do Rio propriamente dito. Então, devem ficar atentos para a eleição de 3  de outubro. Que a REPRESENTATIVIDADE dos que participaram, seja projetada e autenticada pela REPRESENTATIVIDADE que sairá das urnas.

Tribuna, Vargas, ataques em 1954, fechada por “populares”

José Joaquim:
”Gostaria que você explicasse por que, na morte do grande presidente Vargas, a Tribuna foi fechada por populares”

Comentário de Helio Fernandes:
Tudo errado, José Joaquim, lógico que você não quer se informar e sim intrigar, tentar jogar um passado que não é meu, (esse de 1949 a 1962, portanto atravessando 1954) com o passado-presente, esse sim, a partir de 1962, todo meu, do qual sou autor e personagem, escrevi o roteiro, dirigi e escrevi diariamente, artigo e coluna.

Sem pretensão, modéstia ou imodéstia, mas com total satisfação, posso dizer: muitos por aí até fariam melhor do que eu, no “continente e no conteúdo”, como gosta de dizer Helio Jaguaribe. Mas não escreveram por mais de 50 anos, certo ou errado, não importa, mas sem faltar um dia que fosse.

Com as possíveis faltas, “justificadas” pelos ditadores de plantão, que me retiravam de circulação, assinavam “meu relógio de ponto”, sempre em locais incertos e não sabidos, muitas vezes desconhecidos até para minha própria família.

Agora, José Joaquim, fatos, fatos, nada mais do que fatos. E numerados, para que fiquem bem claros, elucidativos e fáceis de serem entendidos.

1 – Carlos Lacerda lançou a Tribuna em 27 de dezembro de 1949, sozinho, sem qualquer participação deste repórter. Mocíssimo, era da revista “O Cruzeiro”, a maior publicação (semanal) impressa da História brasileira. (Que atingia recordes de vendas por vários motivos, mas o maior deles quando o Millor lançou aquelas duas páginas centrais da revista, com o título de “Pif-Paf”. Revolução jornalística e histórica).

2 – Quando a Tribuna começou a circular, Getúlio Vargas jamais havia sido presidente, foi apenas e durante 15 anos, ditador, disfarçado mas violento até 1934, e “ditadorzíssimo” de 10 de novembro de 1937, quando se desmascarou, vestiu a roupagem declarada de fascista impondo o que chamou de “Estado Novo”. (E o que o famoso Barão de Itararé, definiu como “o estado a que chegamos”. Mais ou tão arbitrário, autoritário e atrabiliário quanto os generais de 1964).

3 – Carlos Lacerda, em 1943, (portanto, antes da Tribuna existir) acabou coma censura à imprensa, com a famosíssima entrevista de José Américo publicada no Correio da Manhã. José Américo, insuspeito, em 1937, quando se cogitava da eleição de 1938, foi lançado como candidato a presidente, “apoiado por Vargas”.

4 – O candidato dito de oposição, Armando Sales de Oliveira, (cunhado do doutor Julio Mesquita, proprietário do jornal “Estado de S. Paulo”) compunha o que se chamava de “sucessão de Vargas”. Tudo farsa e mistificação, que seria levado pelas águas sujas da ditadura declarada do “Estado Novo”.

5 – Ainda em 1942/43, Vargas mostrou toda a sua formação fascista, era tido e havido como “germanófilo”, expressão popular da época. (Popular e verdadeira). Custou a se definir pelos “aliados”, se “envergava ou oscilava” abertamente pelo outro lado, que era conhecido como “nazi-nipo-fascista”. (Alemanha, Japão e Itália). Não optou por esse lado, não conseguiu vencer a resistência do grande Osvaldo Aranha, esse sim, extraordinário personagem.

6 – Mais tarde, os alemães atacaram e destruíram navios brasileiros (o primeiro foi o “Baependy”. Aí o ditador teve que aceitar a situação, declarou guerra. Repetindo: se não fosse Osvaldo Aranha, (nada a ver com Carlos Lacerda, eram de gerações diferentes), o Brasil teria perdido a guerra, como perderam a Alemanha, Itália e Japão. Catástrofe e tragédia irrecuperáveis.

7 – Conheci Carlos Lacerda na “bancada da imprensa” do Palácio Tiradentes, durante a Constituinte de 1946. Apaixonado por política, (principalmente o estudo e análise dela), e com admiração por oradores, me credenciei muito antes.

Como a revista era semanal e a Constituinte, diária, escrevi várias reportagens, apenas uma assinada com meu nome. Foi o primeiro trabalho importante, fora da redação. Durou 7 meses e 18 dias, (de 1º de fevereiro de 1946 até 18 de setembro, com a promulgação) experiência notável.

8 – Terminada a Constituinte, surgia a Constituição de 1946, (que seria assassinada antes da maioridade), viajei para a Europa, minha primeira viagem fora do continente. Não tive tempo de aprofundar o relacionamento com Lacerda e Juscelino, (este, deputado sem a menor vocação parlamentar), o que aconteceria mais tarde, com os dois.

9 – Essa Constituinte surgia com a deposição do ditador, que durante alguns dias fez “papéis vergonhosos”, não queria deixar o Poder. Cooptou até Luiz Carlos Prestes, que lançou a “Constituinte com Vargas”, tentativa de se manter. No dia 28 de outubro de 1945, à noite, afirmou: “Só morto sairei do Catete”.

10 – Era era apenas uma última encenação. No dia 29, espantoso: às 9 horas da manhã, seu irmão Beijo Vargas tomava posse como chefe de Polícia, um dos cargos mais importantes. (Beijo Vargas era praticamente um mafioso, vivia em boates, bêbado, dava tiros para o alto, assustava a todos, devia estar preso em vez de chefiar a Polícia).

11 – Durou pouco: às 5 e 10 da tarde, Vargas era afastado com a derrubada da ditadura, saiu bem vivo, ao lado do cardeal. (Era a moda na época, Washington Luiz, presidente eleito, faltando 1 mês para completar o mandato, deposto pelo próprio Vargas, deixava o Catete “escoltado” pelo grande cardeal Arcoverde).

12 – O fim da ditadura foi uma farsa. Vargas e todos os seus áulicos se candidataram à vontade, não houve cassação ou inelegibilidade. Foram eleitos sem problemas, e de acordo com a legislação da época, qualquer cidadão podia se candidatar a deputado por 7 estados e a senador por 1. Depois de 15 anos e 5 dias como ditador, esperavam o quê? Não se elegesse?

13 – O marechal Dutra, durante 8 anos ministro da Guerra da ditadura (era sempre “o Condestável do Estado Novo”), foi feito “presidente” (Ha!Ha!Ha!). Logo depois, voltava o próprio Vargas, eleito pela primeira vez na vida. (Em 1930 disputou com Julio Prestes, nenhum parentesco com o próprio, perdeu, claro).

14 – Eleito em 1950, quase não tomava posse, por causa da oposição militar e civil.(Esta, a partir daí, liderada por Carlos Lacerda). Para tomar posse, Vargas teve que chamar para ministro da Guerra, o general Estilac Leal, que era presidente do importantíssimo Clube Militar. Vargas não sabia governar com oposição e Congresso aberto, foi uma catástrofe para ele mesmo.

15 – Vargas “tramou” a própria desgraça, a oposição não era apenas de Carlos Lacerda. Em 1952, foi publicado um documento, chamado de “Manifesto dos coronéis”. Assinado por 69 deles, o primeiro era Amaury Kruel. (Como sempre, Castelo Branco não assinou). O que pretendiam? A demissão do ministro, João Goulart. O presidente mandou prender a todos? Não, preferiu demitir o ministro, que também concordou, disse: “Não faz mal, presidente, temos o Poder”.

16 – Em 1953 e 54, tormento completo, desmandos do governo, oposição cada vez mais violenta, logicamente de Carlos Lacerda, que era um panfletário (isso não é depreciativo) nato, insubstituível para a oposição, insuportável para quem estava no Poder.

17 – Ninguém precisava ser um gênio para perceber que o Brasil fazia história, caminhava para o que se chamou de “desenlace”. A violência dos “varguistas” e a represália dos “lacerdistas” (ou vice-versa), impressionante.

18 – Não sei como é que o país chegou a agosto de 1954. Até lá, não existiam “populares”, José Joaquim, era uma luta entre os que queriam o Poder e os que pretendiam manter o Poder, como sempre d-i-t-a-t-o-r-i-a-l-m-e-n-t-e.

19 – A Cinelândia sempre foi o ponto mais entusiasticamente politizado do Rio. Era totalmente lacerdista. Depois do 5 de agosto, do atentado irresponsável e incompetente dos “varguistas”, o povão queimava os carros do PTB, e dava “vivas” a Lacerda.

20 – Depois do suicídio de Vargas, o mesmo povão passou a queimar os carros da UDN, e dava vivas a Vargas, que teve enterro inesperado e majestoso.

21 – Duas coisas que escrevi na época, e vou relembrar. Se tivessem assassinado Carlos Lacerda, haveria tumulto imediato, logo esqueceriam, ele tinha inimigos demais. Mas assassinaram um oficial da Aeronáutica, jovem, com família, mulher e filhos, isso tem que provocar tumulto, foi o que aconteceu.

22 – Não retiro uma linha do que escrevi sobre Vargas, no dia 25, era sentimento puro e inviolável. “Foi um ato, a ação e o gesto mais genial de toda a História do Brasil. Apenas com um tiro, Vargas derrubou toda a oposição. Nenhum heroísmo, estratégia surpreendente, porque só existia um componente, um valor, um resultado ou constatação: A PERDA DA PRÓPRIA VIDA. Essa é a renúncia que não precisa de interpretação”.

23 – Se Jânio Quadros tivesse se SUICIDADO no mesmo agosto, só que 7 anos depois, teria entrado na História. Mas sua renúncia era uma farsa, uma fraude, uma provocação que não deu certo.

24 – Finalizando para você pensar e estudar, José Joaquim. A Cinelândia fica perto da Tribuna, “varguistas” tentaram chegar lá, apenas isso. Vargas não foi um GRANDE PRESIDENTE, praticamente foi a vida toda mais ditador do que outra coisa.

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PS – Em relação a Lacerda, podem defini-lo como bem entenderem. Em 1952/53, quando era diretor da revista Manchete, fiz reportagem, intitulada “Os generais da Imprensa”. Analisava os donos de jornais, perfiz rápidos mas isentos. No de Lacerda, escrevi: “Em 1933, com 20 anos, pertencia à Juventude Comunista”.

PS2 – Mandou carta enorme negando o fato, afirmou que tinha amigos no que era chamado de “Socorro Vermelho”, mas jamais se filiou a qualquer coisa do “Partido”. Publiquei, claro, está nos anais.

PS3 – Qualquer que seja a interpretação, foi o maior parlamentar que conheci. Embora o discurso mais brilhante e até empolgante, foi o do então deputado Afonso Arinos de Mello Franco. Noite memorável no Palácio Tiradentes, pouco antes do suicídio de Vargas.

PS4 – Em matéria de prisão, os melhores companheiros foram Lacerda e Mario Lago. Este, irresistível.

Três derrotas de Lula, todas no exterior, contundentes

O forte do presidente, sem dúvida alguma, tem sido a participação nas mais diversas viagens. Recebido por presidentes, reis, rainhas, primeiros-ministros, foi chamado por Obama, de “o cara”.

Ficou arrogante, mais pretensioso do que o normal, considerou que o presidente dos EUA falava sério. Aí não parou mais de discursar, se meteu em tudo sem prudência, recato ou constrangimento.

Por isso, nas três últimas oportunidades, críticas dos mais diversos países. 1 – Apoio incondicional ao ditador do Irã. Como a repercussão foi enorme, explicou, abusando da audácia: “Eu só dei conselhos a ele”.

2 – Foi a Cuba, nenhum absurdo. Mas incoerente, inconsistente e incongruente, que palavra, chamou os oposicionistas que faziam greve de fome de “BANDIDOS”. Normalmente, afirmação inteiramente condenável, principalmente para um homem que foi líder sindical, que liderou várias greves. Não chegou à de fome por desnecessidade ou falta de coragem?

3 – Agora, o mais tenebroso e pernicioso fracasso ao tentar “a paz entre Israel e Palestina”. Desde 1948, com um brasileiro na Secretaria Geral da ONU, o conflito se aprofundou. E 62 anos passados, a crise aumenta seguidamente. Lula foi criticado por todos, até mesmo pelos que o elogiavam. A crise do Oriente Médio, só será resolvida, decidida, terminada, quando se criar o Estado da Palestina, de acordo com a Resolução de 1948.

(O povo de Israel e da Palestina, quer a paz, viver sem medo, desassombradamente. Os políticos não querem, iriam desaparecer).

Lula está em queda vertical no exterior. E além de não pacificar judeus e palestinos, tumultua a pretendida ou admitida eleição para secretário geral da ONU. O que parecia certo, não parece mais.

Credibilidade e transferência

Está muito bem, segundo pesquisas que não ganham eleições, mas servem como ponto de referência. Lula apresenta 83 por cento de popularidade. Não vamos discutir. Mas tudo que têm colocado na conta eleitoral de Dona Dilma, já vem do espólio ou da herança de Lula.

Pequisa de grandes institutos, nos EUA

1960: Nixon, ex-senador e 8 anos vice-presidente de Eisenhower, aparecia como franco favorito. Perdeu para o senador John Kennedy.

1968: Novamente candidato depois de 8 anos dos Democratas no Poder, Nixon não foi nem considerado ou cogitado, ganhou a eleição. (O editorial do New York Times, comentando essa vitória, histórico em matéria de lamento e amargura).

O ovo, a galinha e o pré-sal

Carlos Chagas

Só perdeu para o comício das “Diretas Já” a manifestação de ontem na Candelária, no Rio, contra o projeto  aprovado na Câmara sobre a nova política de royalties do petróleo. Conseguiu o governador Sérgio Cabral mobilizar a opinião pública fluminense para a luta contra um texto que, se aprovado no Senado, vai retirar mais de quatro bilhões de reais da receita do estado. Políticos, atores e  artistas viram-se envolvidos por massa considerável de cidadãos comuns, anônimos, sensibilizados pelo estrilo e pelas lamentações do governador.

Feito o registro, importa seguir adiante. Discute-se no Rio mais ou menos como se discutia em Cosntantinopla, no ano de 1453, sobre quem Deus havia criado primeiro, se o ovo ou a galinha. As discussões eram tão intensas que todo dia morria gente. Resultado: os turcos abriram brechas nas muralhas, entraram,  passaram a metade de seus habitantes pela espada e até hoje a cidade chama-se Istambul.

Fora o abuso que seria retirar dos chamados estados petrolíferos a parcela a que tem direito sobre o petróleo atualmente extraído, parece pantomima debater o lucro das reservas do pré-sal, que apenas em vinte anos poderá estar sendo explorado comercialmente. Quer dizer, aquela montanha de dinheiro idealizada pelos governos federal e estaduais permanece tão  intocada quanto a riqueza está submersa.  Até que o pré-sal dê lucro terão que ser gastos muitos bilhões para viabilizá-lo.

Por que, então, ficar gastando por conta? Pior ainda, criando um impasse federativo de sérias consequências? A responsabilidade vai toda para o presidente Lula. Ao governo federal interessa mudar o regime de concessões estabelecido pelo sociólogo, que favoreceu especificamente empresas estrangeiras. Com o pré-sal seria diferente, ou seja, volta a estatização.   A questão dos royalties bem que poderia ficar para depois.

Quando o marido não entra

José Maria Alckmin, conhecido pela sua verve, repetia sempre que em briga de marido e mulher, ninguém devia entrar. Muito menos o marido…

É mais ou menos o que acontece nessa guerra do pré-sal. O presidente Lula e dona Dilma não tinham nada que estimular o conflito constitucional entre os estados produtores e os não produtores  de petróleo. Até porque, o projeto aprovado na Câmara poderá demorar meses para ser votado no Senado. E como certamente sobrevirão modificações fundamentais, o texto retornará ao exame dos deputados. Dificilmente alguma solução neste primeiro semestre. Talvez nem no segundo.Um pouco de calma não faria mal a ninguém.

Boi de piranha

A ninguém será dado imaginar que José Roberto Arruda é um injustiçado e inocente governador devorado pela perseguição de seus adversários. Foi e continua sendo punido por haver chefiado perniciosa quadrilha de corruptos no Distrito Federal. Agora, parece que só ele deve carregar nos ombros os males do mundo. Até agora nem se fala de investigar e punir os corruptores, sem os quais não haveria corruptos. Traduzindo: e os empresários que super-faturavam obras e serviços, repassando dinheiro sujo para os políticos? Não tem um só sendo processado, muito menos posto na cadeia. Esperam todos o próximo governo para retomarem as mesmas práticas de sempre.