O gato comeu

Carlos Chagas

Depois de um ano de debates, primeiro o Senado, depois a Câmara, aprovaram projeto do senador Paulo Paim estendendo a todos os aposentados o reajuste anual de 16%, igual ao que recebem os aposentados de salário mínimo. Nada mais justo para com velhinhos que durante a vida inteira trabalharam e descontaram índices maiores para a Previdência Social. O diabo é que quando o projeto chegou ao palácio do Planalto, foi vetado pelo presidente Lula, sob a alegação de que levaria a Previdência Social á falência.

A grita foi geral e todos os esforços se fizeram, este ano, para que o Congresso votasse a aceitação ou a rejeição dos vetos presidenciais, mais de mil, que vem desde os tempos de Itamar Franco. Tudo marcado para o passado 13 de maio quando, por pressão do governo, os líderes dos partidos da base adiaram a votação. Sem mais aquela, sem dar satisfações à opinião pública, simplesmente adiaram. Para quando? Só Deus sabe, porque apesar dos protestos do senador Paulo Paim, o presidente do Congresso, José Sarney, não marcou data. Pode ser na próxima semana, por ser pelo Natal ou ficar para as calendas.

Que o governo neoliberal de Fernando Henrique agisse assim, tudo bem. Afinal, foi o sociólogo que criou o tal fator previdenciário, estabelecendo as diferenças de reajuste. Dizem que para promover, em poucos anos, o nivelamento por baixo de todas as aposentadorias, que ficarão iguais às de salário mínimo. Agora, imaginar que o governo dos trabalhadores fosse pelo mesmo caminho desperta, além de indignação, perplexidade. Porque para reduzir impostos da indústria ou liberar dezenas de bilhões de reais para o sistema bancário em situação falimentar, o dinheiro apareceu. Para os aposentados, o gato comeu…

Será que o Supremo barra?

No Congresso, cresce o número de parlamentares dispostos a votar de mentirinha a emenda do terceiro mandato ou um sucedâneo qualquer, sob o pretexto de que agradariam ao governo na certeza de que o Supremo Tribunal Federal, em seguida, consideraria a proposta inconstitucional. Pode não ser bem assim, apesar da opinião contrária de certos ministros. Afinal, o presidente Lula já nomeou sete dos onze integrantes da mais alta corte nacional de Justiça e poderá nomear mais dois, antes que a questão se coloque. Mesmo se um dos novos vier a substituir Ellen Gracie, também nomeada pelo atual presidente, o escore ficará em oito a três. Porque indicados por anteriores presidentes, só Gilmar Mendes, indicado por Fernando Henrique, Celso Mello, dos tempos de José Sarney, e Marco Aurélio Mello, apresentado por Fernando Collor. Deles se espera posição contrária ao terceiro mandato.

Mas na hora em que a decisão se colocar, como se comportariam os demais ministros? Claro que todos, sem exceção, em busca do Bom Direito, sem se deixar influenciar pelo responsável por suas indicações. Isso na teoria, porque na prática as coisas são diferentes. Afinal, se o Congresso tiver aprovado a emenda constitucional respectiva, não será fácil argumentar contra.

Assim, deveriam meditar deputados e senadores interessados em apenas fazer média com o presidente Lula. Deles depende o futuro das instituições.

A honra alheia

Carlos Lacerda, então deputado, debulhava mais uma de suas diatribes, pela tribuna da Câmara, quando um colega paulista o aparteou: “Vossa Excelência é um ladrão da honra alheia!” Resposta imediata de um dos maiores tribunos de nossa história parlamentar: “Então Vossa Excelência não tem nada a perder…”

O episódio se relembra por conta das acusações feitas a montes de representantes do povo, relativamente a seu lamentável comportamento congressual. Não tem nada a perder quantos justificam benesses, mordomias, falcatruas e sucedâneos. O grave é que quando o diálogo aconteceu entre Lacerda e o deputado paulista, este preferiu ficar calado. Hoje, os acusados de haver perdido a honra estrilam, protestam e investem contra a imprensa, por ser ela a abrigar as acusações. Passaram da defesa ao ataque…

Enxugando gelo

Adianta muito pouco os presidentes da Câmara e do Senado ficarem jogando para a platéia e reunindo líderes, constituindo grupos de trabalho e comissões especiais para impulsionar a reforma política. No fundo, José Sarney e Michel Temer sabem que nada será aprovado, do elenco apresentado pelo governo. Muito menos em termos de outras propostas nascidas no próprio Congresso. As mudanças prejudicam interesses variados, apesar de servirem para aprimorar as instituições. A conversa que corre nos corredores parlamentares é de que reformas desse tipo só podem ser promovidas no primeiro ano de cada nova Legislatura. Salvo engano, Suas Excelências estão enxugando gelo.

O homem que enganou Roberto Marinho

O maior sucesso da internet, no momento, é um documentário com esse título, publicado por mais de 60 sites, alguns importantíssimos. Baseado numa AÇÃO que o doutor Luiz Nogueira tem na Justiça, representando os herdeiros da antiga TV Paulista (hoje, TV Globo de São Paulo), tudo noticiado aqui.

Absurdo

Cristovam Buarque é (ou era) candidato a executivo máximo da Unesco. Tem todos os títulos, até a simpatia do presidente Lula, falta o apoio do Itamaraty. Esse é o Brasil. (Exclusiva)

Editora Mondadori

Triste, melancólico e lamentável. Essa editora, das maiores da Itália, tem como sede um belissimo projeto de Oscar Niemeyer. Pois agora essa Mondadori é propriedade de Berlusconi, o maior corrupto da Itália, garantem que do mundo. (Exclusiva)

E no Brasil?

Um grande personagem que conhece a política da Itália a fundo me dizia: “Na política da Itália são 186 mil políticos”. Pergunto o número exato de habitantes, responde: “50 milhões”. Nada mais parecido, politicamente, do que Itália-Brasil. (Exclusiva)

Abertura da "cassinização"

A Bovespa abriu em baixa de 0,73%, com volume pequeno. Às 11 horas já revertera, a baixa se transformou em alta de mais de 1,15%. Mas o volume não chegava a R$ 500 milhões.

Aí, abriram os índices de Nova Iorque, os 4 importantes em alta boa. Mas ao meio-dia a Bovespa alterava pouco, ia para mais 1,26%, quase o mesmo. O volume em R$ 1,4 bilhão, o menor da abertura dos cinco dias da semana.

Corretores que conversavam com o repórter não escondiam a preocupação: “Pode se manter ou até subir, dependendo dos bancos, os maiores jogadores”.

Juros repugnantes

Os bancos estão anunciando que baixaram os juros do cheque especial, de mais de 9%, AO MÊS, AO MÊS, para 8,9%. Quer dizer: de um pouco mais de 200% AO AO, AO ANO, para 200% cravados. É a operação Satiagraha? (Exclusiva)

Country Club renovador

O mais aristocrático, sofisticado e desejado clube do Rio não se rendia às mulheres. Agora, primeira vez na sua história, tem uma mulher como conselheira. Também, como recusar, se ela se chama Maria Beatriz Vieira da Cunha e ainda por cima é diretora social altamente competente?

Basquete rotineiro – NBA

A diferença entre os que fazem cestas nos jogos normais e as grandes estrelas da NBA é espantosa. Os chutes de três pontos no basquete normal e da liga americana merecem um estudo. Lá acertam tanto que a federação que comanda a NBA vai anunciar: as cestas de três pontos que valem da distância de 6 metros e 25, passarão a valer de 6 metros e 75. (Exclusiva)

Carros econômicos

Acho que ninguém ficou tão entusiasmado quanto este reporter com a decisão de Obama, determinando a fabricação de carros que percorram 15 quilômetros com um litro de gasolina.

Já fiz vários cálculos de distâncias no Brasil. Continuo examinando a economia formidável. Outro cálculo: da Zona Sul do Rio a Itaipava (Petrópolis), 100 quilômetro exatos. Portanto, gasto de 6 litros e meio, para ir a Itaipava e se hospedar no “Tambo”, uma das mais bonitas e competentes pousadas do País.

Só não entendi por que Obama fixou para 2016. Não podia ser antes, presidente? (Exclusiva)

Crescimento da China

Impressionante a macroeconomia. Dados não revelados ou comentados por institutos economicos do mundo. A China tem crescido 10% ao ano. Existem possibildades desse crescimento em 2009 ficar “apenas” em 8%.

Observadores ocidentais dizem que se isso ocorrer 15 milhões de pessoas ficarão sem emprego. Como tem mais de 1 bilhão e 300 milhões de habitantes, representaria 1%. Mas nem liga para os “observadores ocidentais”.

Ronaldinho e Ronaldo fora da Africa do Sul

É obvio e evidente que só alguns apaixonados esperavam: os dois Ronaldos não estarão na Copa de 2010. Os fatos se acumulam (contra) e Dunga não pode fazer nada.

Falta exatamente 1 ano para a proxima Copa. A ultima chance dos 2 seria agora, a Copa das Conferderações. O Fenomeno estará no limiar dos 34 anos, e continuará fora de forma. Ronaldinho Gaucho, ainda não terá 30 anos, mas seu futebol estará da mesma forma perdido. Poderá voltar ao Brasil, jogando o quê?

Junior deu lição de compreensão sobre o “repatriamento”, tão elogiado: “Só vem quem não está em boa situação ou na reserva. Aqueles valorizados e titulares ficam lá mesmo”. Lucido e irrefutavel.

A falta de convicção de FHC e de Lula, contradição do PSDB, PMDB, PT-PT

É evidente que em muitos casos ou problemas, a coerencia consiste em mudar e não em ficar. Algumas posições terão que ser mesmo inflexiveis. Mas quando as questões são diferentes, ninguem fere a etica revendo o que pensava ou acreditava. É até demonstração de grandeza, generrosidade e desprendimento fazer a revisão da reflexão.

Mas votar de forma diferente, só porque antes estava no Poder ou na oposição, e depois estava na oposição ou no Poder, é a maior prova de carreirismo, oportunismo, leviandade, irresponsabilidade, indignidade. Vejamos o que vem acontecendo no Brasil há 15 anos, de 1994 a 2009.

1) O mandato presidencial era de 5 anos, sem reeleição, proibida pela Constituição, desde a primeira, em 1891. Candidatos a presidente, Lula e FHC. Tido e havido como invencivel ou favorito Lula sofreu todas as manobras. Como resistiu a todas, o adversario, FHC, comandou um movimento para reduzir o mandato presidencial, a ‘justificativa”, perfida, mas poderosa: “Com mandato de 4 anos, Lula governará apenas 2 anos, não poderá mudar muita coisa. O primeiro ano é de adaptação, o ultimo de retirada”. FHC venceu, surpreendendo ele mesmo, teve que ficar com os 4 anos, não se conformou.

2) Desde o inicio pensou (?) na reeleição, só esperou Sergio Motta dar o sinal verde (do caixa 2) para começar as compras e as “indenizações” pelos votos. Só que em vez de pagamentos mensais, (“mensalão”) FHC-Sergio Motta pagavam à vista. Alguns votos valiam até 500 mil reais, pela repercussão que tinham nos bastidores.

3) A Constituição foi fraudada, violentada, rasgada em praça publica. (O Congresso, mesmo na chamada Praça dos Três Poderes, tem alguma coisa a ver com o povo?)

4) FHC está sempre envolvido com mandatos. Em 1994, REDUZIU o de Lula, que considerava certo. No Poder, AUMENTOU o seu, de 4 para 8 anos. Sempre com apoio do inclito e inatacavel (não confundir com inacatavel) PSDB. Agora, diz ter REPUGNANCIA, (palavra da preferencia do proprio FHC, não pode nem esconder) dos que fazem tudo pelo Poder.

5) Independente da aprovação ou desaprovação do Congresso, do cidadão-contribuinte-eleitor, ou de qualquer reforma constitucional, a comparação não pode ser legal, tem de ser geometrica, geografica, aritmetica, matematica, “leonardodavincianamente” proporcional e isenta. Assim: FHC, eleito para 4 anos, ficou no Planalto-Alvorada por 8 anos.

6) Querendo ou não querendo, Lula, que foi eleito por 8 anos, se ficar 12, estará ocupando o Planalto-Alvorada pelo mesmo tempo proporcional. (Tudo na vida é proporcionale não relativo como acreditava Einstein aos 26 anos).

7) Aceitar a proporcionalidade é um ato de vontade unilateral, quando favorece o cidadão.

8) Da mesma forma que não existe mais a vontade individual, superada pela coletividade, quando se trata de renuncia.

9) Portanto, os partidos que defendem a famigerada LISTA FECHADA DE VOTO, e que já defenderam mandatos mais curtos para adversarios e mais longos para eles, não têm idoneidade ou credibilidade para nada.

PS – O mesmo acontece com as MEDIDAS PROVISORIAS. FHC dizia desde o primeiro mandato: “Sem medida provisoria não há GOVERNABILIDADE”. E a oposição relinchava, o que fazer?

PS2 – Hoje, a antiga oposição, agora no Poder, enche a pauta com as mesmas medidas provisorias. Os que estiveram no Poder por 8 anos, tambem relincham, mas abrem o jogo: “Se não formos atendidos, vamos OBSTRUIR e não votaremos as medidas provisorias”.

PS3 – (Voltamos ao inicio e continuaremos, os itens de incoerencia aumentam com o aumento da falta de responsabilidade autoestima).

O fato novo e o fato consumado

Carlos Chagas

A premissa é de que o presidente Lula não quer o terceiro mandato, como repetiu uma vez mais, ao iniciar viagem da China para a Turquia. Como a política permanece dinâmica, é bom tentar perceber nas entrelinhas significados alternativos à negativa.

Declarou o presidente que o terceiro mandato não existe, na Constituição, e que não discute a hipótese. Disse também que Dilma Rousseff está bem, não sofre mais da doença que a acometeu e teria alta quarta-feira.

O diabo é que a Constituição pode ser mudada, aquilo que pretendem montes de companheiros e agregados, na determinação de não entregar o poder aos tucanos e na presunção de que José Serra se elegerá, a não ser que dispute a presidência com o próprio Lula. Ou seja, o terceiro mandato não existe mas poderá existir.

Acresce que a saúde da chefe da Casa Civil ainda significa uma incógnita. Na hora em que o presidente anunciava a projeção otimista a respeito do estado da candidata, ela se encontrava internada no hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, sem ordem de alta para o dia seguinte, como ele supunha, dada a recomendação médica para cancelar todos os compromissos até o final da semana e permanecer no hospital sob observação.

Sendo assim, e sem duvidar um só instante da disposição do Lula de não permanecer no governo por mais um período, vale lembrar aquela máxima que o saudoso deputado José Bonifácio espalhava pelos corredores da Câmara: “em política, todos os compromissos e determinações devem ser cumpridos, menos quando surgem o fato novo e o fato consumado”.

Vamos continuar fazendo votos para que se cumpra a vontade do presidente e seja afastada a sombra do terceiro mandato ou de sucedâneos, como a prorrogação. Afinal, essas e outras mudanças configurariam um golpe de estado, um retrocesso no processo democrático. Mas que andam na pauta, isso andam…

Veneno na coincidência de mandatos

Como a demonstrar que a ebulição permanece nos partidos da base do governo, importa referir nova fórmula em circulação no Congresso, referente ao próximo período presidencial. No PMDB, tem gente falando em coincidência de mandatos, ou seja, volta a tese de que em vez de eleições de dois em dois anos, deveríamos realizar todo o processo eleitoral apenas de quatro em quatro, num único dia, quando o eleitor votaria para presidente da República, governador, prefeito, senador, deputado federal, deputado estadual e vereador.

Para permitir essa simplificação sem prejuízo para ninguém, a coincidência deveria realizar-se apenas ao término dos mandatos dos prefeitos e vereadores eleitos em 2008, ou seja, a 31 de dezembro de 2012. A solução, assim, seria a prorrogação até o primeiro dia de 2013, dos mandatos do presidente da República, dos governadores, dos senadores, dos deputados federais e dos deputados estaduais, que terminam em 2011.

Um casuísmo dos olímpicos, uma fórmula capaz de despertar a fúria de todos os instintos democráticos nacionais, mas oportuníssimo para todo mundo. Até para os tucanos. Porque se as eleições fossem adiadas, todos os governadores permaneceriam onde estão, de José Serra, em São Paulo, a Aécio Neves, em Minas. No Congresso, seria uma festa: mais dois anos de mordomias para deputados e senadores, valendo o mesmo para as Assembléias Legislativas.

Quem garante que não surgirá, em tempo útil, proposta de emenda constitucional a respeito? E quem pensa que a opinião publicada seguirá no rumo da opinião pública, revoltada, deve lembrar-se do que aconteceu no meio do primeiro mandato de Fernando Henrique, quando ele deu o golpe e obteve do Congresso a prerrogativa de disputar o segundo mandato no exercício do primeiro. A mídia inteira aplaudiu, ficando para outro dia discutir os motivos…

Traição nacional

Desabafou o senador Cristóvan Buarque com toda ênfase: o governo cometeu crime de traição nacional ao mandar retirar dez assinaturas do pedido de constituição de uma CPI destinada a investigar as causas da falência do ensino no Brasil. O noticiário referente à CPI da Petrobrás ofuscou a manobra palaciana para evitar devassa maior e mais profunda.

Para o representante do Distrito Federal, trata-se de uma tragédia. O futuro do país encontra-se em perigo, com o naufrágio da educação de qualidade. Perdemos nosso futuro se não reagirmos, seguindo o exemplo de outras nações e priorizando a maior riqueza brasileira, o cérebro de suas crianças e seus jovens.

Foram contundentes as palavras de Cristóvan, inclusive sobre o nosso atraso tecnológico, resultado da falta de um ensino de qualidade. Lembrou que para conseguirmos importar um chip, exportamos 40 toneladas de minério de ferro. Culminou acusando o governo de haver praticado o maior dos crimes, a incineração do cérebro de nossas crianças, quando permite retirá-las da escola para deixá-las no trabalho infame.

“Candidato, nós temos”

Contesta o presidente de honra do PMDB, Paes de Andrade, comentário desta coluna onde acentuamos não dispor o partido de um candidato à presidência da República. Esse candidato existe, tem nome e residência fixa: é o governador Roberto Requião, do Paraná, em condições de empolgar o país e atropelar quantos já se dispõem a concorrer. O problema seria convencer Requião da importância da disputa, mas um esforço começou a ser desenvolvido.

Por cima da carne seca

Carlos Chagas

De caso pensado, o PMDB continua na contramão do governo. Mesmo preocupado em por enquanto não bater de frente com o palácio do Planalto, o maior partido nacional coleciona episódios de desentendimento, da eleição de José Sarney para presidente do Senado, contra o candidato do PT, até o apoio velado à CPI da Petrobrás. Entre esses dois episódios, registra-se uma série de pequenas desavenças, mesmo sem a intenção do rompimento imediato. São avisos, prenúncios do inevitável.

No caso, o inevitável será o desembarque do PMDB da candidatura Dilma Rousseff, caso, é claro, ela se mantenha. Por enquanto, para os peemedebistas, é bom conservar os seis ministérios, as dezenas de diretorias de empresas estatais e as centenas de cargos de escalões inferiores. O divórcio, porém, parece óbvio, apesar dos esforços que o presidente Lula fez e mais fará para manter a aliança. Porque poucos duvidam, tanto da derrota da chefe da Casa Civil, vale repetir, se ela puder seguir em frente como candidata, quanto da saída do PMDB da base oficial.

A razão é simples: o partido quer ficar onde sempre esteve, ou seja, no poder. De preferência sem os ônus, quer dizer, não apresentando candidato próprio à sucessão do ano que vem. Até porque, esse candidato não existe.

A corrente flui para José Serra, ainda que exista uma hipótese maior para tudo continuar como está, ou até ficar melhor, sem os entreveros atuais: o terceiro mandato. Caso o presidente Lula venha a ceder e aceitar concorrer a mais um período administrativo, tudo indica que será eleito. Assim, contará com o PMDB, podendo até emplacar o candidato a vice. Sabem os cardeais da legenda que serão peça-chave na armação desse golpe, porque sem os votos de suas bancadas na Câmara e no Senado nenhuma emenda constitucional será aprovada. É o que se chama, em linguagem nordestina, ficar por cima da carne seca.

Maldade

Só pode ser maldade o que o governo e os áulicos do presidente Lula, sem esquecer o próprio, andam fazendo com a ministra Dilma Rousseff. Porque uma vez caracterizada sua doença, mesmo dentro de um excepcional tratamento, a chefe da Casa Civil deveria ter sido poupada. Pelo menos nos quatro meses em que se vem submetendo à quimioterapia. É maldade ficar repetindo que ela está muito bem e que pode levar vida normal. Pior ainda, deixá-la entregue a seus afazeres de primeira-ministra e de candidata presidencial. A madrugada de terça-feira demonstrou que mesmo sem se entregar, ela precisaria estar cercada dos cuidados que a situação exige. O choque de saber que precisou embarcar num jatinho em Brasília e internar-se num hospital em São Paulo terá sido tão grande quanto o do anúncio de que tinha câncer.

Crueldade tem sido a programação que Dilma, muitas vezes, acaba não podendo cumprir, obrigada a cancelar, só nos últimos dias, sua presença no Fórum Nacional de João Paulo dos Reis Veloso, no Fórum da revista “Exame”, numa reunião plenária do PT, no Congresso de Radiodifusão e numa ida ao Ceará para explicar o PAC.

Muito melhor teria sido, para ela, licenciar-se de atividades administrativas e políticas, recolhendo-se até, esperam todos, reaparecer completamente curada e pronta para retomar a trajetória de candidata. A atual estratégia do governo só faz prejudicá-la e, ao contrário do que pretendem, enfraquece suas possibilidades.

Todos de braços cruzados

Duas semanas já se passaram desde que o Supremo Tribunal Federal considerou caduca a Lei de Imprensa, deixando perigoso vazio em termos de garantias variadas no comportamento da mídia. Nem adianta repetir que a decisão das mais alta corte nacional de justiça exprimiu mero jogo de cena, porque os artigos ditatoriais da referida lei já haviam sido revogados pelo Bom Direito, desde a promulgação na nova Constituição em 1988.

O problema é que foi tudo pelo ralo, inclusive os artigos que asseguravam o direito de resposta, a segurança da retratação como fator de paralisação de ações penais, a garantia de reparação para quem fosse ofendido em sua honra através dos meios de comunicação, a punição para quem criasse alarma no sistema bancário, a preservação de segredos de estado e tantas outras posturas essenciais ao bem-estar social.

Esperava-se, inclusive alguns ministros do Supremo, que a revogação pura e simples da Lei de Imprensa levaria imediatamente o Congresso a debater e aprovar em tempo recorde um novo conjunto legal moderno e adaptado ao século XXI. Pois até agora, nada. Nem na Câmara, nem no Senado, nem nos partidos políticos ou sequer na sociedade civil surgiram sinais de preocupação diante do vazio. É como se tudo fosse permitido, numa sociedade sem condicionamentos. A imprensa marrom deve estar em festa.

Falta a negativa principal

Apressou-se o PSDB em esclarecer que a CPI da Petrobrás jamais ousará prejudicar a empresa, que os trabalhos se desenvolverão investigando possíveis irregularidades praticadas ao longo dos anos, mas, de forma alguma, capazes de denegrir sua imagem ou atrapalhar suas atividades no país ou no mundo.

Ótimo, dos tucanos não se esperava outra coisa, ainda que, por cautela, o governo pretenda selecionar oito senadores de sua estrita confiança, entre os onze titulares da CPI.

Só que tem um problema: o PSDB foi acusado pelas lideranças oficiais de estar tramando a privatização da Petrobrás, se José Serra chegar ao poder. Sobre essa hipótese, nenhuma palavra, nenhuma negativa. Será que as oposições pretendem mesmo entregar ao mercado um dos maiores patrimônios nacionais? Seria bom que se pronunciassem o mais rápido possível.

O pensador

A Sadia-Perdigão, com dívidas de mais de 8 bilhões de reais, está querendo emprestimo (maior) do BNDES. O presidente desse banco, Luciano Coutinho, disse na televisão: “Vou pensar”. Então vai demorar muito.

Protesto animal

O Zoo de Londres expõe “o animal mais destrutivo do mundo”, assim com aspas. Tirando as aspas, fica apenas o homem. A informação é da AP (Associated Press). O que ela não deu: PSDB-PMDB estão se sentindo atingidos e podem entrar na justiça. Não se sabe se em Londres ou Brasília.

Atualização da jogatina

Depois de descer a 49 mil e 800 pontos (meio-dia), chegando a cair mais de 2,70%, os espertos começaram a comprar. Às 13 horas subiu um pouco, voltou a passar os 50 mil (50.065). Mas as compras eram cautelosas, em 1 hora e 10 minutos o volume de 2 bilhões passou a 2 bilhões e 400 milhões, “perfumaria” (Mario Simonsen).

De 14 a 15 horas, houve instabilidade, mas sempre com queda forte. Às 15h22m caíam 3 por cento, mais rumores do que negócios. Falavam em Nova Iorque, com todos os indices em queda, e parecia irreversivel (pelo menos hoje, quinta-feira) que Obama destinaria mais (muito) dinheiro a instituições financeiras.

Às 16h20m, a queda da Bovespa diminuia um pouco, vinha para 49 mil e 900 pontos. Mas o volume era mínimo, 3 bilhões e 800 milhões. Lamento a situação dos amestrados, que na segunda-feira, com alta de 5% e volume de 7 bilhões de reais, eram obrigados a falar ou escrever: “ESTÁ CHEGANDO A RECUPERAÇÃO”. (Nem quero dar a “risada grafica”, como definiu o Jaguar).