As chuvas de verão e a sinfonia da dor e da desgraça

Vicente Limongi Netto

Parte o coração, mas a sinfonia da dor, da desolação, do desespero e da desgraça só cessará um pouco quando as chuvas pararem, dando lugar ao sol, alto, forte e firme e, Deus queira, permanente. Basta de brincar com vidas. É preciso que os governantes deixem de lado, de uma vez por todas, nestas tragédias mais do que anunciadas, as improvisações, a arrogância, a demagogia, a roubalheira e as disputas políticas que revoltam a população. É hora de competência e de agilidade.

Parte do Brasil afunda, diante da inércia dos poderosos, insensíveis ao choro e a aflição dos flagelados. A tragédia nos lembra um Drummond melancólico e às avessas: Chuva que trouxe a lama, que arrastou a terra e a pedra, que desabou nas casas, que destruiu rodovias, que transbordou os rios. A dor dos desabrigados machuca todos nós. A desesperança junta-se a tristeza e ao pavor.

Não existe força capaz de reconfortar quem perdeu o que o ser humano tem de mais precioso, filhos, pai, mãe, irmãos, mulher. De uma só vez. A tormenta dos Deuses enfurecidos atinge e fere o fundo da Alma. É doloroso e desalentador o choro de crianças famintas e com frio. Também cruel o desânimo e a angústria dos adultos revirando nos escombros o que sobrou da destruição.

Dengue: a possibilidade de contrair a doença neste verão é bem maior

Milton Corrêa da Costa

Enquanto a Medicina, hoje extremamente evoluída em alguns de seus ramos, dispondo de novas e eficazes ferramentas de combate a graves doenças, porém ainda atrasada e involuída em outros de seus vetores, não consegue produzir, em caráter de urgência urgentíssima, a vacina como único instrumento de defesa concreto contra o mosquito Aedes Aegypti, popularmente conhecido como mosquito da dengue, hoje distribuído por quase todo mundo, basicamente nas regiões tropicais e subtropicais.

Todos nós, brasileiros, somos, cada vez mais, sobretudo na estação mais quente e das enchentes, vítimas em potencial do pequeno e perigoso inseto.  O que é pior e mais agravante é que não dispomos de infraestrutura suficiente do poder público -observe inclusive a ineficiência na prevenção das recentes enchentes – para minimizar os efeitos da grave questão de saúde pública produzida por um simples mosquito.

Na cidade do Rio de Janeiro, até o prefeito Eduardo Paes reconheceu publicamente a flagrante ineficiência do poder público, onde leva-se 10 (dez) dias, no mínimo, para se checar um denúncia (tel 1746) do foco do mosquito. Parece piada, mas não é. Associe-se à flagrante incapacidade do poder público, no combate eficaz ao Aedes Aegypti, a arraigada cultura brasileira da aversão ao trabalho comunitário, de servir ao próximo e a todos, calcada no pressuposto da predominância do individualismo e da ilusão de invulnerabilidade.

Ou seja, “enquanto não ameaçar a minha vida e a de meus familiares, o problema não é meu”. Alguns sequer têm o espirito preventivo de observar e extinguir os possíveis focos do mosquito dentro do seu próprio quintal, quiçá ter o trabalho de pegar um telefone para denunciar a existência de focos no terreno do vizinho. Desconhecem inclusive que o mosquito, bem adaptado a zonas urbanas, mais precisamente ao domicilio humano onde consegue reproduzir-se e pôr os seus ovos em pequenas quantidades de água limpa, pode atacar até num raio superior a 500 metros do seu foco.

Convém inclusive ressaltar que o Aedes Aegypti é um inseto democrático. Ataca a gregos e troianos, pobres e ricos, famosos ou anônimos. O exemplo mais típico foi o do ex-jogador Ronaldo, que por pura sorte não foi acometido da dengue do tipo hemorrágica, sua versão perigosamente mortal.

“Maldito mosquito”, disse o Fenômeno, ao contrair recentemente a dengue em Trancoso, numa de suas residências, no extremo sul do litoral da Bahia, um dos locais turíticos mais belos e aprazíveis do mundo, onde o Aedes Aegypti também já se instalou.

Para o Rio de Janeiro, segundo constantes declarações das autoridades municipais, está prevista a ocorrência, no Verão 2012, da maior epidemia de dengue que já se teve notícia na história da capital do Estado, com números superiores ao 150 mil casos do ano de 2008, o de maior incidência até aqui.

Em 2011 foram 76 mil casos envolvendo 51 óbitos na cidade. O que é pior, é provável que chegue ao Rio de Janeiro o Aedes Tipo 4, o mais mortal e devastador de todos, fato que coloca a cidade maravilhosa em situação de alerta máximo. Não há anúncios de alarmismos. Há sim uma iminente e perigosa ambiência de epidemia a ser enfrentada.

Resumo da ópera: ou todos nos unimos de mãos dadas, numa só corrente para minimizar a inevitável epidemia ou alguns de nós, ou nossos entes mais próximos ou amigos, podem ser a próxima vitima fatal. Faça portanto a sua parte de cidadão para salvar vidas e a sua própria. Preserve a vida. Comece já combatendo a dengue. O preconceito, o individualismo e a ilusão de invulnerabilidade só tornam a proliferação do Aedes Aegypti ainda maior. Pense nisso. Esse comportamento é perigosamente mortal.

Servidor conhecido por bloquear reajustes tem o maior salário do governo: RS 51 mil

Reportagem de Ana D’Angelo e Cristiane Bonfanti no Correio Braziliense mostra que Marcus Pereira Aucélio, engenheiro florestal e analista de controle do Tesouro Nacional, é realmente o homem do dinheiro.

Segundo na hierarquia do Tesouro Nacional, como subsecretário de Política Fiscal, Aucélio é mais conhecido como a autoridade que de fato diz não aos pedidos de recursos de parlamentares e até de ministros para todo tipo de despesa, incluindo reajustes salariais para servidores públicos.

Tão potente quanto o poder da sua canetada é o tamanho do seu contracheque. embolsa por mês R$ 51 mil por causa do cargo, quase o dobro do teto do funcionalismo previsto na Constituição, atualmente de R$ 26.723,13.

É bem mais que os salários recebidos por ministros, que abocanham remunerações de até R$ 45,7 mil, conforme mostrou o Correio Braziliense no domingo. Os contracheques são inflados por jetons, recebidos pela participação em conselhos de estatais e de empresas privadas com capital da União.

O salário do subsecretário do Tesouro é de R$ 23,7 mil, mas ele ganha mais R$ 27,3 mil de dois conselhos — da Petrobras e da AES Eletropaulo — e do Comitê de Auditoria do Banco Regional de Brasília (BRB). Mas seus vencimentos podem chegar a R$ 70 mil num mês. Basta que ele participe de uma reunião mensal do Conselho Fiscal da Vale, do qual é suplente, caso o titular não possa comparecer.

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FORA DA LEI

Decreto presidencial determina que os representantes da União nessas companhias só podem receber por, no máximo, dois conselhos. Mas quem se preocupa com isso? 

Procurado pelas repórteres, o Ministério da Fazenda se negou a informar quais entidades o subsecretário do Tesouro integra e a base legal para que ele embolse jetons de três delas. Da AES Eletropaulo, em que a União tem uma participação minoritária, o segundo homem do Tesouro ganha R$ 3,8 mil brutos por mês. Pela participação no Conselho Fiscal da petrolífera, embolsa outros R$ 7.090. O que lhe rende mais, no entanto, é o trabalho na auditoria do Banco Regional de Brasília, R$ 16.405,78 brutos.

Embora também receba um megassalário, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ganha um pouco menos que Aucélio, seu subordinado. A participação nos conselhos da BR Distribuidora e da Petrobras elevou os rendimentos de Mantega de R$ 26,7 mil para R$ 40,9 mil. O mesmo ocorreu com sua colega do Planejamento, Miriam Belchior.

Já o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, embolsa, no total, R$ 38,7 mil. Ele engorda o salário de R$ 26,7 mil de ministro em mais R$ 12 mil ao participar da administração das empresas privadas Brasilprev e Brasilcap.

Conforme já publicamos, Celso Amorim, da Defesa, é agraciado com R$ 45,7 mil, por participar do conselho da Itaipu, além da aposentadoria como embaixador, é claro. E o secretário executivo da Fazenda, Nelson Barbosa, abocanha R$ 41,1 mil brutos mensais.

Com salários nesse nível, pagos pelo povo, mais o cartão corporativo, como diz Helio Fernandes, que maravilha viver!.

O dia em que a lancha da Receita Federal recuperou parte do território nacional

Luiz Fernando Brito Pereira

A Receita Federal realizou recentemente um concurso sobre “Histórias da Receita Federal”. O vencedor foi o Reginaldo César Cardoso, Ex-Inspetor em Tabatinga/AM, na época em que o José Barroso Tostes Neto era o Superintendente Regional. A história é um resgate não apenas da nossa fronteira, mas de um sentimento muito forte de brasilidade. Vale a pena conferir.

A fronteira mais inóspita do Brasil, sem dúvida, é Tabatinga, no Amazonas. Em 1753 um punhado de heróis, brasileiros e portugueses, chegou ao alto Rio Solimões e lá assentou acampamento. Reivindicaram a terra para “El Rei” de Portugal. Diz-se que foi uma luta terrível, contra os índios, contra os espanhóis, contra a malária, mas venceram e ergueram o forte de São Francisco Xavier de Tabatinga.

Neste local foi estabelecido um posto militar e fiscal, consolidando o domínio colonial português para muito (e muito mesmo) adiante da linha imaginária de Tordesilhas. Desde essa época, a Alfândega Brasileira está lá, “onde começa o Brasil…”

Já corria o ano de 2006, Tabatinga continuava inóspita, mas os servidores do Fisco tentavam dar um choque de legalidade, fazendo campanha para que todos comerciantes se cadastrassem, emitissem nota, declarassem o “Simples Nacional” e ficassem em dia com o Leão.

Um bom colaborador era o presidente da pequena Associação Comercial da cidade: Seu Izidoro era cearense de nascimento, mas tabatinguense de coração. O pai fora soldado da borracha e ele chegara naquelas paragens ainda criança, adotando aquela terra como sua.

Numa tarde o inspetor-chefe da Receita Federal em Tabatinga recebeu uma comitiva de comerciantes brasileiros, que, indignados, exigiam uma ação contra um “flutuante” estrangeiro, que se instalara irregularmente na margem brasileira, em detrimento das autoridades e dos comerciantes legalmente estabelecidos. A comitiva era chefiada pelo Seu Izidoro. Homem sábio e experiente, sabia que se aquele flutuante se instalasse ali, outros viriam, e todo comércio formal da cidade iria ser prejudicado.

Para quem não conhece, na Amazônia chama-se “flutuante” qualquer coisa que flutue, esteja ancorado à margem do rio e preste algum tipo de serviço ou venda de mercadoria às embarcações e à população ribeirinha. Existe flutuante que é posto de gasolina, flutuante que é posto de saúde, flutuante supermercado, flutuante igreja e assim por diante.

Este era um flutuante “tem-de-tudo”: vendia combustíveis, víveres, gás, motores, motocicletas e ainda consertava qualquer coisa. O proprietário do estabelecimento era um colombiano truculento e mal educado.

Relatados os fatos, concluiu-se que a denúncia era gravíssima, cabia à Receita Federal e à Polícia Federal tomar providências urgentes. Formou-se a comissão de diligência: o inspetor-chefe, o delegado federal, um auditor e três policiais rumaram ao local. A comissão optou pela via diplomática: apresentação de identidades funcionais e solicitação de documentos. “Vamos pegar leve e dar um dia para eles se retirarem”.

A diplomacia durou apenas 3 minutos. O colombiano puxando de um pedaço de ferro ergueu a voz e xingou-os de vários nomes, alguns difícil de entender, outros impróprios para serem reproduzidos neste texto. Daí a surpresa: estavam preparados para a truculência, mas não para os argumentos: o flutuante estava em território colombiano!

– Mire, mire el arroyo! Estamos en la margen derecha! És Colombia, cabron!

Confusão formada, chegou a polícia colombiana, cônsul, coronel do exército, enfim, quase um incidente internacional. Logo os brasileiros deram-se por vencidos e decidiram “abandonar o barco” (sem trocadilhos). Na saída, em meio à confusão, não teve jeito: um chute no traseiro do chefe da comissão brasileira. Não viu quem foi, mas provavelmente era o colombiano dono do barco, que emanava um sorriso sarcástico, cheio de dentes amarelados. Acabou com o que restava da dignidade da comissão brasileira. Doía mais pela humilhação do que pelo impacto. Mas… o que fazer?

Realmente extrapolou-se, talvez ainda haveria a necessidade de pedir desculpas ao dono do estabelecimento. Passados alguns dias, Seu Izidoro voltou à Inspetoria. Chamou o inspetor para um “particular”:

– Chefe, eu não engoli aqueles colombianos. Cheguei aqui com dois anos, aprendi a nadar naquele riacho e morei naquelas palafitas que eles dizem ser deles. Aquilo é território brasileiro. Quando servi o Exército, cheguei a ver um marco de concreto, tenho certeza que ainda está lá. Pesquisou-se entre os antigos da terra e todos diziam a mesma coisa: a foz do córrego Santo Antônio foi o marco inicial da fronteira, mas lá pelos idos dos anos 30, houve a instalação de marcos de concreto. Hoje, a floresta deve ter engolido tal marco. Além disso, houve o assoreamento das margens do córrego, empurrando a foz para dentro do território brasileiro. Mas o fato é que aquele pedaço de terra ainda é nossa “pátria mãe gentil”, não se pode simplesmente abrir mão dele. Estamos sendo esbulhados!

A teoria era boa e tinha certa razoabilidade, o inspetor-chefe decidiu comprar a briga: bastava achar o tal “marco de fronteira”. Foi ao homem mais poderoso da fronteira: o coronel responsável pelo batalhão do Exército Brasileiro. Militar sábio e experiente, já tinha sido informado do ocorrido e também estava convencido da brasilidade daquele pedaço de terra, mas após a malfadada diligência fiscal, o tema tinha tomado certa sensibilidade.

Colombianos e brasileiros, em geral, eram povos amigos, de cerveja e festa, mas neste caso, havia sido criado um certo revanchismo. O militar ponderou:

– Inspetor, eu entendo e até concordo. Todas as anotações daqui do Batalhão apontam que os comerciantes têm razão. Mas mandar uma expedição militar para encontrar o tal marco, nesse momento, não é aconselhável. A terra está cheia de colombianos, que acreditam mesmo que é território deles porque a população sempre tomou a foz do Santo Antônio como marco de fronteira.

Realmente ele tinha razão. Não tinham a menor idéia de onde estava o tal marco, se é que ele ainda existia. A floresta era densa, seria preciso uns 30 soldados para entrar, limpar e catalogar a área. Uma expedição assim poderia ser tida pelos colombianos como uma invasão. Era muito arriscado… Paciência.

Mas o destino e a tecnologia estavam do lado brasileiro. Naquela semana chegava a tão esperada “lancha da Receita Federal”. Logo o barco virou atração pública: 15 metros, dois motores, 600 cavalos, blindagem, capacidade para até 12 pessoas, construído com tudo que a indústria náutica brasileira tinha de melhor. Engenheiros navais vieram do Rio de Janeiro para ensinar os bravos aduaneiros a operar a máquina e seus modernos equipamentos. E foi durante a apresentação dos equipamentos de navegação que algo chamou a atenção do Inspetor: a lancha tinha um GPS. O Global Positioning System ainda não era tão popular, naquela época, nem o Exército tinha isso, mas o fiscal percebeu que aquele aparelhinho ser-lhe-ia muito útil:

– Me explica melhor como funciona isso?

– Simples. Olhando essa telinha você sabe exatamente onde está navegando e quais as coordenadas cartesianas.

– E se eu der a latitude e longitude, o barco me leva lá.

– Perfeitamente, com uma margem de erro de 70 centímetros.

– É tudo que precisamos! Vamos retomar nossa terra.

Na hora ninguém entendeu. Mas logo depois do almoço, o inspetor convidou uma extensa comitiva ao barco: o coronel do Exército Brasileiro, o cônsul colombiano, o cônsul brasileiro, policiais federais e, é claro, Seu Izidoro, o representante da Associação Comercial. Era a primeira missão oficial do veículo: achar a fronteira entre os dois países.

Todos a bordo, o inspetor ordenou ao marinheiro-chefe:

– Francisco, nós vamos navegar com piloto automático.

– Certo, patrão! Dá as coordenadas e eu coloco aqui no computador.

– Coronel, o Senhor trouxe “aquela” informação?

O Coronel trouxera consigo um papel com a anotação da localização exata do marco de fronteira, através da longitude e latitude.

– Taí! Leva a gente para essa coordenada. Velocidade de três “knós”… Bem devagar.

Em poucos segundos, os pesados motores começaram a roncar, e, sem ninguém colocar a mão em nada, o barco manobrou vagarosamente tomando o rumo da Colômbia, rio acima. Todos ficaram atentos: passaram o porto brasileiro, passaram o comércio ribeirinho, passaram o posto de observação do Exército e já chegavam à foz do ribeirão Santo Antônio. A lancha ia firme, sem desacelerar, sinal de que o ponto marcado ainda estava distante:

– Chefe, chegamos à fronteira… desligo o barco?

O marinheiro Francisco estava nervoso, afinal tínhamos autoridades colombianas a bordo e estávamos invadindo o território deles, sem nem ao menos pedir permissão.

– Não! Deixa ele ir.

Passou-se o “flutuante da discórdia” e todos ribeirinhos pararam o que estavam fazendo: era estranho ver um barco oficial brasileiro entrando daquele jeito em suposto território colombiano. E os motores continuavam firmes. Após 300 metros, o barco inclinou para a margem direita e desacelerou, estavam o mais próximo possível do ponto determinado como destino. Os colombianos não estavam entendo muito bem, mas perceberam as intenções do inspetor, quando dois soldados saíram da Lancha e chegaram à margem. O militar brasileiro desfez o mistério:

– Senhores, precisamos saber realmente onde é a fronteira. O barco da Receita tem a tecnologia necessária para isso e essa tecnologia está dizendo que o marco de fronteira está exatamente neste ponto da margem. Os soldados vão entrar na floresta para achá-lo.

– Sí lo entiendo. En este lugar sólo hay colombianos. Pero si hay punto de referencia de la frontera. Vamos a despegar!

O cônsul colombiano deu o veredito: concordava que se o marco de concreto estivesse ali, os colombianos sairiam. Em poucos minutos ouviram-se gritos na mata:

– Achamos! Vamos fotografar! A missão foi cumprida! Os colombianos reconheceram que aquele pedaço de terra era brasileiro e no mesmo dia todos se retiraram daquelas margens. O flutuante do colombiano chutador de traseiros mereceu atenção especial da Receita Federal, ficando retido para futura pena de perdimento. No final do cansativo dia, os brasileiros voltaram ao ponto próximo ao marco de fronteira e lá ancoraram novamente a bela nau fiscal. O sol escaldante da Amazônia já dava trégua e o inspetor deu o dia por encerrado. Na geladeira da lancha havia água e refrigerante e todos brindaram ao sucesso:

– Se a lancha foi cara, tá paga! – dizia um.

– Você viu a cara do dono do flutuante?- ria outro.

Todos contemplaram aquela linda paisagem e pairava o silêncio dos justos. De repente, o Seu Izidoro perguntou ao marinheiro:

– Francisco, essa “belezinha” tem som?

– Tem sim Seu Izidoro. O que o senhor quer ouvir? Um forrozinho?

– Coloque lá este CD que eu trouxe especialmente para essa ocasião. Volume máximo, hein!
Todos esperavam uma música regional animada, quando, de repente, soaram os primeiros acordes do nosso Hino Nacional. Os militares, de maneira quase automática, postaram-se de frente para a pequena bandeira brasileira que estava hasteada na antena da Lancha e, em posição de sentido, entoaram nosso hino. Os civis os acompanharam com a mão no peito. Alguns pescadores em canoas próximas fizeram o mesmo.

Naquele momento todos se sentiram mais brasileiros, um pouco do sangue daqueles bravos do século XVIII ainda corria nas veias daqueles homens. O inspetor olhou de relance para o personagem chave daquela história: Seu Izidoro cantava, com força e avidez: “dos filhos desse solo és mãe gentil…” Dos olhos daquele velho lobo da Amazônia brotavam duas pequenas lágrimas, que logo escorreram e se juntaram à água barrenta do Solimões. O sol se pôs.

Ministro Fernando Bezerra tem um belo currículo em matéria de irregularidades.

Carlos Newton

As denúncias não param mais, é um nunca-acabar. O ministro Fernando Bezerra, da Integração Nacional, mostra ter um currículo respeitável, em matéria de irregularidades, não há a menor dúvida.

Uma das denúncias diz que ele obteve em dezembro o adiamento da cobrança de uma dívida da Prefeitura de Petrolina com estatal ligada à pasta da Integração Nacional. A dívida era antiga. Quando prefeito de Petrolina (PE), Bezerra firmou convênio de R$ 23 milhões com a Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba) para a construção de estações de tratamento de esgoto.

Por coincidência, é claro, Clementino era diretor de Infraestrutura da Codevasf e prorrogou a cobrança. A assessoria da afirma que prorrogações são “naturais” nesse tipo de procedimento, por envolver diferentes esferas administrativas e possibilidades de recurso. Segundo a estatal, “não cabe falar em nenhum favorecimento”.

Quando chegou a ministério, Fernando Bezerra então colocou o irmão na presidência da Codevasf, mas agora o nepotismo estava pegando tão mal que Clementino Coelho pediu demissão d o comando da estatal, segundo decreto publicado nesta terça-feira no “Diário Oficial da União”.

Bezerra responde a outras suspeitas de irregularidades cometidas durante seu mandato à frente da Prefeitura de Petrolina. Reportagem da Folha na segunda-feira mostrou que o ministro utilizou recursos públicos para comprar um mesmo terreno duas vezes, quando era prefeito.

O ministro também está envolvido em suspeitas de favorecimento ao seu Estado, Pernambuco, e ao seu filho, o deputado federal Fernando Coelho (PSB-PE), que teve todas as emendas destinadas à pasta liberadas.

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COMPRA EM REPRISE

O ministro Fernando Bezerra Coelho utilizou recursos públicos para comprar um mesmo terreno duas vezes, quando era prefeito de Petrolina (PE). A primeira compra ocorreu no final de seu primeiro mandato, em 1996, por R$ 90 mil. Na segunda, já em 2001, durante seu segundo mandato, pagou R$ 110 mil. Nas duas vezes, o dinheiro beneficiou o mesmo empresário, José Brandão Ramos, sob a mesma justificativa: transformar a área em um aterro sanitário.

O ministro admitiu, por intermédio de sua assessoria, que o terreno foi comprado duas vezes pela Prefeitura de Petrolina (PE), mas afirmou que foi induzido a erro pela gestão do prefeito Guilherme Coelho, seu primo, que o sucedeu em 1997, vejam só que grande família.

Detalhe: todos os Coelhos são filiados e representam o Partido Socialista Brasileiro. Quer dizer, com socialistas desse nível, quem precisa de capitalistas? São farinha do mesmo saco, como se diz no Norte/Nordeste.

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NO CONGRESSO, QUINTA-FEIRA

Em pleno recesso, o presidente do Senado, José Sarney, vai reunir a Comissão representativa do Congresso nesta quinta-feira para que Bezerra esclareça denúncias envolvendo sua atuação na pasta, como favorecimento ao seu Estado, Pernambuco, e também ao seu filho, o deputado federal Fernando Coelho (PSB-PE).

Na semana passada, deputados do PPS protocolaram requerimentos com o pedido de informações ao ministro. Outros dois requerimentos semelhantes foram anunciados pelos líderes do PSDB, Alvaro Dias (PR), e do DEM, Demóstenes Torres (GO). Os senadores também questionam Fernando Bezerra sobre supostas irregularidades que teriam ocorrido em sua gestão na Prefeitura de Petrolina (PE).

Na segunda-feira, o próprio ministro disse que entrou em contato com o presidente do Senado para ser convocado a dar explicações ao Legislativo sobre as denúncias recentes.

A comissão representativa do Congresso é composta por 18 deputados e oito senadores e representa o Legislativo durante o recesso parlamentar, que termina no dia 2 de fevereiro. A base aliada tem a maioria das cadeiras da comissão.

Parabéns a Gerson, que completa hoje 71 anos e jamais será esquecido por quem ama o futebol

Vicente Limongi Netto

Em toda minha longa vida de boleiro (ainda me garanto três vezes por semana, sei o perfume que a bola gosta), vi grandes jogadores atuando. Destaco cinco deles, a meu ver craques extraordinários, eternos e inesqueciveis: Gerson, Pelé, Garrincha, Nilton Santos e Maradona.

Gerson, o cerebral meia armador que encantou o mundo jogando com personalidade, objetividade e inteligência, faz 71 anos hoje. O canhotinha de ouro antevia as jogadas, antes de receber a bola já sabia o que fazer com ela. Seus passes longos e precisos foram fundamentais para a conquista do tri, no México.

Há 50 anos Didi, outro fantástico jogador e com quem Gerson aprendeu muito, passou o bastão de meia-armador para Gerson. Há 50 anos. Hoje, incrível, Gerson ainda não encontrou substituto a altura, não encontrou mesmo, nos clubes, muito menos na seleção pentacampeão do mundo.

Gerson, o “Papagaio” enxergava o jogo como ninguém. Dentro de campo, com maestria, alterava o posicionamento de determinado companheiro, para fugir da forte marcação homem a homem, facilitando a penetração e a alternância de jogadas de outros colegas. Gerson tinha visão de jogo e conhecimento tático.

Hoje, como comentarista da rádio Globo, analisa o jogo com igual precisão. Critica e elogia com autoridade e respeito. Elogio ou crítica dele servem de forte estímulo para todo jogador que se preza. Gerson é personalidade sempre ouvida e consultada por todos que atuam no futebol e gostam do bom jogo.

Gerson é cidadão exemplar. Dedicado pai, avô, marido e sogro. Os que o conhecem  e convivem com ele sentem orgulho de ser seu amigo e admirador. Entre os quais me incluo, com honra e prazer. Forte abraço, mermão e muita saúde. A galera do “Bão Demais” também te saúda.

Buracos criminosos

Carlos Chagas

Não dá para a Humanidade declarar guerra à Natureza, pois esta ganhará sempre. Certas de suas manifestações tornam-se impossíveis de evitar, como terremotos, tsunamis, erupções vulcânicas, tempestades e tufões. No Brasil, vivemos um período de derrota diante das chuvas de verão, tornando-se impossível pretender que os aguaceiros não caiam, que barreiras não desabem, barragens não se rompam e rios não inundem terra firme. Remediar seus efeitos será sempre possível, assim como prevenir danos, impedindo por exemplo a instalação de casas e casebres no alto e nas encostas de morros prontos para desfazer-se, ou dragando e evitando a poluição de rios, entre outras iniciativas.

Frente às maldades da Natureza não devem prevalecer o conformismo e a rendição. Importa resistir e recomeçar. Mas quando os males devem-se a nós mesmos, quer dizer, à Humanidade, só haverá uma reação: pau nela, ou melhor, naqueles que pela ação ou omissão contribuem para maximizar as consequências das tragédias.

Exemplo melhor não haverá do que contemplar os buracos e crateras abertas em progressão geométrica nas nossas rodovias, avenidas e ruas, em todas as regiões onde caem as chuvas. Não há uma cidade onde não se note, aos milhares, a precariedade das entranhas do asfalto. Nesse particular, não há que nos acomodarmos à fúria do céu. Os buracos se multiplicam porque a pavimentação foi criminosamente mal executada. Quando a torrente leva um trecho qualquer de estrada surge a prova material da desídia das empresas encarregadas do asfaltamento. Apenas centímetros de camadas que, pelos contratos, deveriam ter sido solidamente implantadas em decímetros e até metros. Claro que tudo aconteceu com a conivência das autoridades encarregadas de autorizar e fiscalizar as obras.

Deveria o poder público cobrar esse crime, responsabilizando empreiteiras grandes e pequenas que faturaram milhões na execução de lambanças como as que as chuvas vem revelando aos montes. Não parece difícil identificar os culpados. Basta abrir os arquivos, sejam, do ministério dos Transportes, do Dnit, de secretarias estaduais e municipais. Lá estarão os responsáveis, os que falsamente executaram e os que matreiramente contrataram. Pelo menos isso os governos estão devendo, quando nada para que nos trabalhos de reconstrução se busquem empresas sérias, comprometidas em evitar a vergonha dos buracos abertos às primeiras chuvas.

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SISTEMA FINANCEIRO ESMAGA O SOCIAL

Vamos olhar para fora. Hoje na Grécia, mas durante o ano passado em boa parte da Europa, a ameaça é de suspensão de créditos para o enfrentamento da crise econômica. Não apenas os governos da Alemanha, da França e da Inglaterra, mas o Banco Central Europeu e a União Européia anunciam o estrangulamento do fluxo de euros caso o governo de Atenas não avance ainda mais no aumento de impostos, redução de salários, cortes de investimentos sociais e, acima de tudo, na promoção do desemprego. Começa que os recursos advindos desse massacre nem sairão dos porões dos bancos estatais e privados em Berlim, Paris e Londres. Ficarão onde estão, como garantia do pagamento das dívidas gregas, claro que acrescidos dos juros respectivos.

Em suma, a “ajuda” servirá para ajudar o sistema financeiro do Velho Continente, incapaz de arcar com um mínimo que seja dos efeitos da crise. Com o agravante de terem sido, eles mesmo, em grande parte responsáveis pela própria crise. O que pretendem, com mais essa rodada de ameaças, é garantir-se e capitalizar-se, ainda que às custas das populações sem a menor responsabilidade nas dificuldades econômicas, mas obrigadas a pagar por elas.

Onde se lê Grécia, leia-se Irlanda, Portugal, Espanha, Romênia, Bulgária, Sérvia e quantas outras nações dependentes desse pérfido sistema financeiro.

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OS DOIS FERNANDOS

A presidente Dilma estancou as ilações e as especulações referentes à degola de dois Fernandos de seu ministério, o Pimentel, do Desenvolvimento Industrial e o Bezerra, da Integração Nacional. Deixou claro não pautar-se pelas denúncias da imprensa, ainda que nos casos anteriores, mesmo prestigiando os acusados, não quis ou não conseguiu salvar o pescoço de Antônio Palocci, Wagner Rossi, Pedro Novais, Alfredo Nascimento, Orlando Silva e Carlos Lupi.
Entre outros fatores, Pimentel, por ser amigo fraterno, e Bezerra, em nome da aliança com o Partido Socialista, não caíram e provavelmente não cairão.

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DEMOCRACIA À BRASILEIRA

Sobral Pinto, saudoso e eterno professor de democracia, havia sido preso em Goiânia, acusado de subversivo e conduzido à força para um quartel em Brasília. Lá estavam presos Carlos Castello Branco, Octacílio Lopes e Martins Rodrigues. O coronel Epitácio, comandante da guarnição, num ato de gentileza, convidava seus hóspedes para todas as noites jantarem em sua companhia, no restaurante dos oficiais.

Lá, pontificava, sob o silencio dos demais. Falava muito sobre o Brasil, o regime militar e as novas concepções institucionais dos detentores do poder. Certa vez falava da “democracia à brasileira”, modelo que previa a suspensão dos direitos humanos, a limitação do Congresso e o estrangulamento do Judiciário.

O velho Sobral não se conteve e explodiu: “Olha aqui, coronel, o que existe é o peru à brasileira, que estamos comendo agora, com farofa. A democracia prescinde de adjetivos, é uma só e universal. Não tem nada a ver com essa que o senhor sustenta.”

Essa historia se conta a propósito da nova democracia do PT, que nas preliminares das eleições para as prefeituras de todo o país, quer aliança com o PMDB, mas oferecendo para os aliados as vice-prefeituras. Os companheiros parecem seguir as lições do coronel Epitácio…

Matéria de memória: telegrama de Prestes (da prisão) a Vargas em 1942

Pedro do Coutto

A jornalista Cláudia Antunes publicou um belo artigo na Folha de São Paulo de quinta-feira 5 sobre memórias políticas do século 20, aproveitando a entrega, pela viúva de Luiz Carlos Prestes, Maria Prestes, do acervo do líder comunista ao Arquivo Nacional. Agiu bem. Foi a melhor forma de preservar e incorporar à história brasileira episódios intensos e dramáticos vividos pelo comandante da coluna revolucionária que atravessou o país na década de 20 e se elegeu senador pelo Rio em 1945.

Por uma coincidência do destino, Cláudia Antunes escreveu exatamente no espaço de Carlos Heitor Cony, autor do romance “Matéria da Memória”, título que uso neste artigo. Quanto à coluna rebelde, deve-se assinalar que ela não possui apenas uma figura central e sim duas: era a coluna Prestes-Miguel Costa.

Os documentos produzidos ou que envolveram a vida de Prestes são múltiplos. O Partido Comunista foi fundado no Brasil em 1922 por Astrogildo Pereira, um velho, alto, grisalho e magro professor, que conheci em 64 na redação do Correio da Manhã, pouco antes de sua morte Foi ele quem levou Prestes para o PCB, na sequência de seu exílio na Bolívia, 1924, fracassado o projeto de insurreição. Ingressou no final da década, e convidado por Oswaldo Aranha para integrar a revolução de 30, recusou. Achou o movimento conservador.Tão conservador que articulou, em Moscou, com apoio apenas de parentes de Stalin, o que terminou se chamando a intentona de 35. Novo fracasso.

Preso e condenado pelo Tribunal de Segurança, que funcionava na Av. Oswaldo Cruz, onde hoje está a Escola Municipal Barthes. Na capital russa, recebeu recursos e a indicação de três comunistas alemães para desencadearem a insurreição a seu lado: Artur Evert, Elise Evert, Olga Benário. Todos três alemães. Não é possível que em Moscou não houvesse um ativista soviético.

O apoio de Stalin está bem documentado no livro, “Olga”, de Fernando de Moraes, e também em relato de William Waak, publicado no antigo Jornal do Brasil. O governo de Hitler, através de Goebels, só pediu a extradição de Olga Benário, acusada da morte de dois guardas em Berlim, quando livrou de forma cinematográfica de um tribunal seu marido Oto Braun. Esqueceu Artur Evert e Elise Evert. Por qual motivo? Não se sabe.

Olga Benário estava grávida de Anita Leocádia, filha de Prestes. Vargas a entregou aos alemães da Gestapo. Olga morreu num campo de concentração. Ela viajou à força em 1936. Mas em 42, da prisão, Prestes envia telegrama a Getúlio Vargas apoiando sua decisão de declarar guerra à Alemanha Nazista, à Itália Fascista, além de ao Japão.

Anistiado em 45, libertado da Lemos de Brito, meses depois inicia-se a campanha eleitoral, tempo da redemocratização. Pouco antes de ser deposto em 29 de outubro, Vargas encontra-se com Prestes no estádio do Vasco da Gama, São Januário, onde se realizava um comício. Apertam-se as mãos. Em matéria de memória, espero que Maria Prestes tenha entregue ao Arquivo Nacional o telegrama de 42 e a foto do aperto de mãos em 45.

Prestes teve o mandato de senador cassado, num processo que começou em 47 e terminou em 48. Porque, de forma juvenil, aceitou uma provocação do senador Juraci Magalhães: se houvesse uma guerra entre o Brasil e a URSS de que lado ficaria? Prestes perdeu o prumo e o rumo: se fosse uma guerra justa, ao lado do Brasil. Ingenuamente desencadeou a tempestade sobre si e seu partido. O século 20 deixou muitos episódios na política brasileira. Na última entrevista que deu na vida, duas horas na Rádio Carioca, a Marcello Alencar e a mim, ele os relembrou.

Delicadamente, recusou-se a falar de Olga Benário e de Osvaldo Gioldi, apontado como delator da intentona de 35. Mas ficou assinalado que o atentado integralista (braço do nazismo no Brasil) a Vargas, 1938, Palácio Guanabara, foi muito mais grave que a investida comunista de 35.

O presidente Vargas esteve na iminência de morrer, não fosse a substituição, no comando da guarda, do tenente Julio Nascimento pelo capitão Kits. Este episódio fica, quando for oportuno, para um outro artigo.

O telegrama e a foto são fundamentais para a memória nacional.

Histórias baianas

Sebastião Nery

Octavio Mangabeira, um turbilhão de frases, avô do Mangabeira Unger, o ministro Banda Larga de Lula, dizia embolando a língua: “Pense em um absurdo. A Bahia tem precedentes”.

Diante do Comando da Marinha e ao lado do Mercado Modelo, na praça Visconde de Cairu, na Cidade Baixa, em Salvador, instalaram uma imensa e bela escultura abstrata do grande artista baiano Mario Cravo, que na época custou 100 milhões de cruzeiros: quatro blocos redondos superpostos, como se fossem enormes capacetes ou grandes bolas.

Como era nos tempos da ditadura e ficava ao lado de um quartel de comando, o povo não entendia o que era aquilo e o baiano começou a fazer piada. Uma manhã apareceu a genial pichação, no pé do monumento: “Mario Cravo, 100 milhões/cobrou caro pra chuchu/ só para levantar os bagos/do Visconde de Cairu”.

A arte de Mario Cravo continua lá, plasticamente linda, diante do cais e do mar azul da Bahia. Se fosse para Lula, seria o quê? A mão de Gil?

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MENTIRAS

No avião, vim lendo o lúcido George Vidor, no “Globo”. Desmoraliza a mentira que os banqueiros mandavam Mailson da Nóbrega dizer a Meirelles, que repetia ao Margarina (Mantega), que repetia a Lula, que repetia ao País:

“A política econômica continua trocando inflação por dívida. Essa troca envolvia antes endividamento externo, e agora não mais. O Brasil já não se endivida em moeda estrangeira e acumula, a cada dia que passa, mais reservas em dólares.Considerando-se apenas a dívida pública interna, o resultado piorou”.

É a “herança maldita” de FHC e a “herança etílica” de Lula para Dilma.

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SARNEY

Surpreendentes bolos de palmatória levou o senador Sarney, que apareceu de cabeleira nova, pintada de preto como as asas da graúna. No mesmo dia em que ele comentava na “Folha” a intimidade dos macacos com a aritmética (“Nós e os macacos”), saía o relatório da OCDE sobre o baixo aprendizado dos estudantes brasileiros:

O Maranhão, governado por ele e sua trupe por mais de 40 anos (desde 65), obteve o pior resultado entre todos os estados brasileiros.

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JOÃOZINHO

Baiano gosta de piada. A internet baiana mais ainda:

A professora perguntou a Joãozinho quem foi Sócrates.

– Foi aquele grego que dizia que nada sabia.

– Muito bem, Joãozinho.

– O pior, professora, é que agora o Lula vai dizer que é grego.

Outra píada que faz sucesso na Bahia:

A professora contava na aula que Lula confessou a amigos que seu sonho é ser lembrado como Getulio Vargas. Joãozinho perguntou logo:

– E quando vai ser o suicídio, professora?

Juízes e serventuários ignoram a sociedade

Roberto Monteiro Pinho

O fato é que os dirigentes que administram os tribunais trabalhistas agem como se a sociedade não existisse, tomam decisões conflitantes, que atingem diretamente o segmento externo deste judiciário. O ano de 2011 foi desastroso para o trade trabalhista, já que no seu limiar, a implantação da Certidão Negativa de Débitos Trabalhista (lei n° 12.440/2011), nos meses de novembro e dezembro, deixou apenas nove dias úteis para os advogados trabalharem. A lei que entrou em vigor no dia 04 de janeiro de 2012, foi regulamentado pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST), através da Resolução Administrativa nº. 1470, de 24/08/2011, que instituiu o Banco Nacional de Devedores Trabalhistas (BNDT. Em razão disso, prazos foram suspensos sem que ao menos fossem consultados os órgãos da advocacia, numa clara e insofismável demonstração da total falta de apreço a Ordem dos Advogados do Brasil.

Tamanha insensatez não é nenhuma novidade, já que em Brasília o lobby da entidade classista dos magistrados, vem se opondo a uma série de reivindicações da OAB, notadamente na votação e recente aprovação do PL que estabelece o honorário de sucumbência na Justiça do Trabalho).

Na verdade não só os dirigentes, mas também os juízes do trabalho há muito estão na contra mão política participativa sociedade/tribunal, estabelecendo o isolamento, sem a menor interação com a sociedade civil, seja no campo material e do direito. O resultado desta anomalia fez com que a especializada mergulhasse nas trevas do direito escrito, num sinuoso desvio dos seus mais elementares princípios que regem a estabilidade das relações do capital/trabalho, cerne do trabalhismo sociológico e sócio-econômico.

Dessa forma a JT deixou de atender a expectativa do trabalhador que compulsoriamente utiliza esta especializada, na esperança de ver seus direitos resgatados das mãos do empregador relapso. É por essa razão que o mau empregador, se beneficia das nulidades criadas nas decisões conflitantes dos textos alienígenas das sentenças trabalhistas. O problema não é impedir recursos, e sim transformar o que foi decidido em sentença em resultado.

Só que não é assim que os juízes pensam, tanto que tramita na Câmara o PL 2214/11, de autoria do deputado Valtenir Pereira (PSB-MT), que incorporou sugestões do TST. O texto prevê também sanções para coibir a interposição de recursos manifestamente protelatórios, nos artigos 896-B e 896-C à CLT. O primeiro autoriza o relator a negar seguimento a recurso monocraticamente e a Turma a aplicar multa em caso de agravo manifestamente protelatório contra essa decisão. O segundo prevê a aplicação ao recurso de revista das normas do Código de Processo Civil que regem o julgamento de recursos especiais e extraordinários repetitivos.

A economista e pesquisadora Luciana Gross Cunha, em entrevista a revista eletrônica “Consultor Jurídico”, sustentou que: “É mentira que falta orçamento. Comparativamente, nosso Judiciário é caríssimo e é o único do mundo que tem previsão orçamentária em lei. Ainda que o Legislativo e o Executivo tenham de aprovar esse orçamento, o espaço de negociação é muito pequeno, porque se tem um teto de 6% do PIB estadual. Para os Judiciários estaduais isso é muito dinheiro. O Judiciário de São Paulo tinha, em 2004, 58 mil servidores”. (…) “Nos Estados Unidos, a gente tem uma técnica de gerenciamento do processo pelo juiz. Ele tem uma equipe de assessores que são profissionais, remunerados e reconhecidos. Normalmente são jovens, bacharéis em Direito, que passam pelos tribunais, até para poder ter experiência jurídica, mas são cobrados.” (…) “Quando se fala em problema, em crise no Judiciário, não são reformas constitucionais que resolvem, nem reformas processuais,… é choque de gestão pública”. O Judiciário ainda não percebeu que não dá para voltar atrás e ficar com o discurso de que não é prestador de serviço porque é um poder do Estado, – assinala.

Uma justiça que se revela ao longo de anos incapaz de entregar o direito alimentar do trabalhador, não pode sequer, balbuciar a palavra êxito, eis que esta é a “chave” de todas as portas para levar ao trabalhador o seu almejado pecuniário contencioso, retido nas mãos do empregador que burla as regras da CLT. Seguramente o majoritário grupo de juristas do segmento laboral, vem pautando suas observações no tocante à flexibilização não da letra do direito trabalhista, mas a pratica da sua aplicabilidade, orientando através de suas dissertações, o universo dos aplicadores do direito.

Não se pode dizer que o TST não atue no sentido de amenizar este aberratio juris, tanto que estabeleceu um Plano de Metas para o judiciário trabalhista, gerado no programa de Metas Nacionais do CNJ, o “Meta 5”. Criar um núcleo de apoio de execução. Ocorre que a execução, no processo trabalhista, sempre constituiu uma etapa de difícil realização. Luigi De Litala já afirmava, no início da década dos “anos cinqüenta”, que o processo de execução em vigor (na Itália, como no Brasil) parecia feito “mais para a tutela do devedor do que do credor” (in “Derecho procesal del trabajo”, pág. 9). Num processo do trabalho cuja própria existência autônoma se justifica um procedimento mais rápido e eficiente do que o adotado nas lides civis, não se compreende que o trabalhador tenha de esperar tanto tempo para receber a sua mais valia.

Reflexões sobre o marxismo na realidade da época em que foi concebido.

Almério Nunes

Em primeiro lugar, é para mim uma honra comentar um escrito do grande Ferreira Gullar, o Homem do “Poema Sujo”. Em segundo lugar, a lucidez do Sr. Fuchs impressiona. Suas palavras são sábias e explicam tanta coisa …

Mas peço que levem em consideração o ambiente no qual vivia Marx! No tempo dele, os trabalhadores perdiam mãos e braços em “lançadeiras” e outras máquinas primitivas e nada podiam reivindicar. Nem um mísero “adicional por risco”, como existe em certas profissões atuais.

Marx imaginou então uma sociedade mais justa e partiu para uma utopia verdadeiramente fantástica, na qual a participação de quem efetivamente produzia tinha que ser reconhecida e (bem) remunerada.

Grande Ferreira Gullar, é claro que antes de tudo vem o trabalho intelectual, mas ele necessita de suor para ser executado ou … de nada valerá. A mais valia marxista nunca poderá ser negligenciada sob pena de relegar a décimo plano este suor. O “ganho” conseguido com o trabalho não pode ficar todo com o “intelectual” ou … estaremos falando não de marxismo, mas de escravidão – que é do vivem os empresários do capitalismo, hoje e sempre escorados pelos bancos e outros subsídios/muletas que os sustentam, formando um oceano de corrupção e crueldade que violentam pelo saqueamento que originam.

Creio que é válido, aqui, recordar as palavras de Renée Descartes, o Pai da Filosofia Moderna: “Sei que estou apenas iniciando a construção de um edifício, falta ainda muita coisa, outros prosseguirão com as minhas ideias”.

Marx não teve seguidores, ninguém se habilitou para dar real sequência às suas teorias. Misturaram tudo! São muitos que se apregoam como marxistas, sem sequer haver lido uma linha do Capital ou do Manifesto. Faz todo um sentido que ele tenha sido expulso de alguns países. A Humanidade (o que é isso?) é suja, não acolhe Marx.

Reflexões de Ferreira Gullar sobre Marx e o estranho comunismo na Coreia do Norte

A pedido do comentarista Mauro Julio Vieira, estamos transcrevendo mais um crônica do poeta Ferreira Gullar, publicada originalmente na Folha de S. Paulo.

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 A UTOPIA MATOU O RATO

Ferreira Gullar

Os capitalistas aprenderam a lição e viram que seria melhor perder alguns anéis do que todos os dedos. Karl Marx certamente morreria de vergonha se ainda estivesse vivo para ver em que se transformou, na Coreia do Norte, o sonho da sociedade igualitária e fraterna que ele concebeu.

Revoltado com a selvageria do capitalismo de sua época, quando o trabalhador não gozava de qualquer direito, concebeu uma sociedade que, em vez do domínio da burguesia, fosse governada pelos trabalhadores.

Na sua visão equivocada, o empresário nada produzia mas apenas se apropriava do que produziam os trabalhadores, que, como os criadores da riqueza, deveriam gozar dela e dirigir a sociedade.

Ignorava, logo ele, que tão ou mais importante que o trabalho manual é o trabalho intelectual, sem o qual a economia não avançaria e a sociedade tampouco. Numa coisa, porém, ele estava certo: o capitalismo é um regime voraz que, movido pela sede de lucro e poder, a tudo devora. Até a si mesmo, como acabamos de ver no caso da bolha imobiliária nos Estados Unidos, que arrastou a economia norte-americana e a europeia a uma crise de consequências imprevisíveis.

A tomada de consciência, naquela época, do que era o capitalismo, alimentou a luta ideológica que conduziu à revolução comunista, inicialmente na Rússia e depois na Ásia e na Europa oriental, chegando até Cuba, na América Latina.
Só que, em nenhum desses casos, a classe operária assumiu o governo do país, mas, sim, o partido comunista ou, mais precisamente, os seus dirigentes, que passaram a usufruir dos privilégios próprios à classe dominante.

É verdade que, em quase todos eles, medidas foram tomadas em benefício dos trabalhadores, cuja condição de vida melhorou bastante, mas não tanto quanto nos países capitalistas desenvolvidos. É que os capitalistas aprenderam a lição e viram que seria melhor perder alguns anéis do que todos os dedos.

Isso durou grande parte do século 20, até que, para surpresa de muita gente, o sistema socialista começou a ruir e praticamente acabou.

E não foi em função de nenhuma guerra, de nenhuma invasão militar: acabou porque não tinha condições de competir com o capitalismo que, ao contrário do comunismo, não nasceu de uma teoria, mas do processo econômico mesmo.
Por isso o capitalismo é vital, criativo, voraz e destituído de ética, como a natureza. É evidente que um sistema, dirigido por meia dúzia de burocratas, não pode competir com um modo de produção que vive da iniciativa individual, ou seja, de milhões de pessoas, que querem melhorar de vida e enriquecer.

A República Popular da Coreia do Norte é filha da Guerra Fria que, após a Segunda Guerra Mundial, opôs os Estados Unidos e a União Soviética. Essa disputa teve um de seus momentos mais críticos na guerra entre o exército ianque, tropas chinesas e soviética na península coreana, dividindo-a em duas: a Coreia do Norte, comunista, e a Coreia do Sul, capitalista.

Mas não é só filha da guerra: é a perpetuação simbólica desse antagonismo, que já não existe mais em parte alguma,
exceto lá. Como naquela época, até hoje a Coreia do Norte investe mais em armamento do que em qualquer outra coisa, mantém um dos maiores Exércitos do mundo e insiste em afirmar-se como potência nuclear.

Isto quando o sistema socialista já desmoronou no mundo inteiro e a própria China – que era a expressão máxima do radicalismo revolucionário – aderiu ao modo de produção capitalista. O governo da Coreia do Norte ignora tudo isto e assegura que o socialismo invencível dominará brevemente o planeta.

Mas as mentiras servem também para mitificar os próprios governantes, transformados em predestinados salvadores do povo.

Kim Jong-il, o ditador que acaba de morrer e que nascera na Sibéria, ganhou por berço a montanha sagrada de Paektu. A locutora que noticiou sua morte na televisão o fez em soluços, como durante a espetacular cerimônia fúnebre, milhares de crianças, mulheres e soldados desfilaram fingindo soluçar convulsamente. Todos soluçavam, menos o filho que o substituirá. É que os grandes líderes, como os deuses, não soluçam.

Marx morreria de vergonha: ali a história voltou a uma espécie de monarquia farsesca, onde o poder passa de pai para filho sob os aplausos da plateia assustada.

Orçamento de 2012 mostra que o serviço da dívida é mais importante do que Educação, Saúde, Saneamento, Transportes etc. etc.

Christian Cardoso

Em setembro de 2011, o Executivo enviou ao Congresso o projeto do Orçamento Anual para este ano. Foi votado no último dia 22, faltando em torno de meia hora para o fim da sessão legislativa de 2011, no “apagar das luzes”, evento contumaz na putrefação oligárquica atual. Lembre-se, a título de exemplo, o aumento de 61% autoconcedido aos parlamentares no mesmo “apagar das luzes” da sessão legislativa de 2010…

O Congresso aprovou o Relatório Final do Orçamento 2012 fixando em R$ 2,15 trilhões a chamada “lei de meios” (de corrupção, inclusive). Quanto à política salarial, o texto contemplou aumento real para aposentados e pensionistas cujo salário é o mínimo (14%), e recomposição inflacionária para os que recebem acima deste patamar (6,3%, INPC). Servidores do Judiciário, do Ministério Público e juízes não foram contemplados (reajuste zero).

Como diz o jornalista Pedro do Coutto, “nada como o Diário Oficial para derrubar mitos e iluminar contradições”. Sendo INSTRUMENTO DE AÇÃO do governo, o orçamento traz diversos números relevantes ao interesse coletivo. Os valores constantes no orçamento revelam, basicamente, a decisão acerca de como o governo pretende gastar os recursos do povo. Nesse sentido, um dos prismas que mais exprimem concentração da riqueza refere-se à “natureza econômica da despesa”. Na “divisão do bolo” (Delfim Netto), quase metade do orçamento federal (47%) é canalizado para a “Dívida Pública”.

O “mecanismo da dívida” é uma das modalidades de corrupção “legal e legalizada” utilizada pelos rentistas de sempre (banqueiros, especuladores etc.), numa jogatina alucinada em que “o céu é o limite” (HF). Não sem a leniência, locupletação, e mesmo o benefício financeiro de agentes públicos que foram postos no governo para, em princípio, servirem ao país.

Cumpre registrar que a sangria da economia nacional com “juros” e “amortização” sempre foi combatida com veemência pela TI, nas figuras de seu diretor, o gigante Helio Fernandes, como também por diversos de seus colaboradores e articulistas. Infelizmente, o “capital-motel” (Brizola), tão privilegiado no nefasto governo FHC, também hoje é sacramente “defendido” por muitos daqueles os quais se encontram “investidos” (alguns se acham donos) em cargos do governo.

Dentre outros pontos de contato, os mandatos do “Sociólogo de Safardana” (HF) e do “ex-príncipe-operário” (Carlos Chagas) também foram marcados pelo crescimento patrimonial vertiginoso de familiares, assim como de pessoas e grupos “associados” à camarilha. Mas esta é outra história…

Uma das estratégias de “marketing” do atual governo é a erradicação da miséria. No entanto, sem incorrer na generalização, a qual anularia alguns acertos, o que se constata é recrudescimento, nesses nove anos, de práticas “politiqueiras” e deletérias ao regime o qual se almeja democrático.

Tem-se, então, a predominância do pseudo-esquerdismo, do aparelhamento estatal, do neoclientelismo, do neopeleguismo, do neonepotismo, do neoentreguismo das riquezas nacionais, do tráfico de influência etc. E os reflexos desses “fenômenos” no orçamento, dado o relevo dos mesmos no plano dos fatos, demonstram que ainda não foi adotado um projeto de emancipação para o país.

Senão, confiram-se alguns números do orçados para 2012. A soma dos recursos destinados às áreas de Saúde, Educação, Transporte, Ciência e Tecnologia, Saneamento, Cultura, Energia e Habitação representam o percentual de 9,13% do orçamento.

Enquanto isso… os atuais “administra-DORES” (J. G. Schossland) perpetuam a política econômica instaurada por FHC e asseclas, cumprindo com fidelidade o papel de representantes de seus verdadeiros corifeus. “Reservam” nada menos que 11,73% do orçamento APENAS para o “serviço da dívida interna”, uma das demandas/exigências do capital-motel. Há pouco, Paulo Solon trouxe a lição de Jesse James para os dias atuais: “[…]os maiores inimigos do povo são os banqueiros. Será que dona Dilma já esqueceu disso?” (TI, 23/12/2011).

A comparação entre os valores atribuídos às áreas citadas e aquilo que é destinado aos banqueiros e demais especuladores ilustra a amplitude dos interesses em jogo. Como se vê, as decisões contidas no orçamento afetam diretamente a vida da população.

Esta, além de suportar os lucros do setor privado, ainda é aviltada, usurpada e vilipendiada pela escorchante carga tributária, a qual flerta com 40% do PIB. A esse respeito, resta ainda o funesto agravante da concentração tributária sobre o consumo, em favor da riqueza, como alertado por Carlos Frederico Alverga (TI, 31/12/2011). Outrossim, não há a respectiva contraprestação através de serviços públicos de qualidade.

Pede-se licença para abrir um parêntese e destacar a relevância da brilhante proposta de renegociação da dívida, elaborada por Martim Bertho Fuchs em seu Capitalismo Social. Se adotadas as medidas ali elencadas, ter-se-ia em torno de R$ 234 bilhões para relocação de recursos, transferindo-os do setor financeiro-parasitário às áreas deficitárias acima expostas.

Tal valor é suficiente para mais do que dobrar (!) os “investimentos sociais” em Saúde, Educação, Transporte, C&T, Saneamento, Cultura, Energia e Habitação previstos na Lei Orçamentária de 2012. Faria também diferença qualitativa em termos de desenvolvimento sócio-econômico, tão necessário ao país. É elementar que essas aplicações pressupõem probidade: de modo diverso, desloca-se o “custo-corrupção” do setor especulativo para o de infra-estrutura e/ou serviços.

Não há intenção de se simplificar o debate ou de esgotar as análises. Inúmeras outras constatações podem ser extraídas das estatísticas, inclusive as oficiais. Brecht advertia que “o pior analfabeto é o analfabeto político”. O cotejo dos números do Orçamento 2012 bem indica quais as “opções” que os “representantes” do povo estão privilegiando.

A democracia, invenção genuinamente grega que vivera seu auge nas magistraturas de figuras como Péricles, Solon e Clístenes, também fora avassalada pela podridão instalada em sua sociedade, especialmente entre as “elites”. No entanto, o ideal da cidadania democrática permaneceu como legado às civilizações e fraturou a História, notadamente no mundo ocidental.

Se vivemos numa democracia, ou politeia (na expressão de Platão), a população deveria ser melhor esclarecida sobre os números orçamentários. Desse modo, poderá chegar a suas próprias conclusões e, assim, influenciar as ações governamentais que interferem em sua vida.

De outra feita, se o regime é democrático do tipo “faz-de-conta”, fragiliza-se a legitimidade e consagra-se ao Povo a condição de “Admirável Gado Novo”, consoante a luminosa interpretação do poeta…

As possibilidades da força-tarefa versus a força incontrolável da natureza

Milton Corrêa da Costa

Em mais um episódio em que a repulsa da natureza mostra a sua força devastadora, 11 pessoas morreram segunda-feira na Região Sudeste do país, na divisa MG-RJ, sendo duas crianças, em consequência de deslizamentos de terra que soterraram residências, havendo ainda 15 pessoas desaparecidas e cerca de 60 famílias desalojadas. Só no Estado do Rio de Janeiro há dez mil desalojados e dois mil desabrigados. O mais triste e desolador, na tragédia deste domingo, é que a maioria morreu dormindo durante a madrugada, sem possibilidade de fuga, soterradas pela avalanche de pedra, terra e partes de concreto.

Um das vítimas fatais – vejam que agonia na forma como morreu – gritou por socorro durante 4h após o deslizamento em Sapucaia (RJ). Das 3h da madrugada à 7h da manhã. O pai dele disse que ele falava ‘pai, me ajuda’. Mas ele não conseguia identificar onde o filho estava. Um pai também destroçado para o resto de sua existência. “Os vizinhos tentaram mexer para procurar, mas é muita pedra e muita terra”, contou desolada a esposa Renata. Bombeiros continuam fazendo buscas por corpos na região.

A força da natureza é tamanha e imprevisível que um jornal televisivo mostrou, numa cena inusitada, o flagrante da impotência humana com a saída, em pânico, de dezenas de pessoas por uma rua enlameada na localidade de Sapucaia – entre elas bombeiros, policiais e funcionários da defesa civil- descolando-se em desabalada carreira, apavorados ante o reinício de um deslizamento de terra numa encosta. Ou seja, contra a fúria da natureza o ser humano torna-se extremamente impotente.

Mexeram, durante anos e anos, com um gigante pacífico e adormecido, que resolveu, de tempos pra cá, dar o seu troco ante a injusta agressão sofrida. O Planeta Terra estará doravante, talvez irremediavelmente, em permanente desequilíbrio.

As palavras realistas do Coronel BM Sérgio Simões resumem tudo: “É uma história que se repete, porque foi de madrugada, quando as pessoas estão mais indefesas. É esse o cenário de tristeza, cada corpo que sai, é uma comoção”, disse o Secretário de Defesa civil do Estado do Rio de Janeiro, que acredita que os trabalhos dos bombeiros devem durar de 2 a 4 dias.

Obviamente, senhor secretário, se a natureza resolver colaborar e der uma trégua na chuva. Contra a força da natureza não mais há verdades e pensamentos absolutos.

Em meio a tanta tragédia (sempre anunciada), impotência e desolação, o governo federal, onde alguns ministros de estado, conforme denunciado pela imprensa escrita, recentemente, em razão de “participação” em conselhos de estatais, conseguem perceber, instalados confortavelmente no ar condicionado, até R$ 45,7 mil de salários, resolvem, num remédio bem tardio, anunciar a criação de uma força-tarefa para combater as chuvas na Região Sudeste, forca de emergência esta que será composta por 50 geólogos e hidrólogos, além da ordem de liberação de R$ 444 milhões para obras nas localidades mais afetadas pelas enchentes.

Sinceramente, com o devido respeito a governantes, geólogos e hidrólogos além do anúncio da liberação das verbas emergenciais, confesso-me cético com relação a tais medidas. Depois que presenciei na televisão um desolado chefe família, vítima sequencial das enchentes, declarar que é a terceira vez que trabalha para ter que comprar novamente todos os utensílios domésticos e reaparelhar o seu lar, melhor seria (perdoem-me pela proposta e ousadia) começar a dar início ao planejamento de um amplo programa de retirada estratégica de boa parte da população perigosamente residente às margens de rios e próximo de encostas e diques.

Tenho dúvidas se o programa “Minha Casa. Minha Vida” é a solução definitiva para a grave questão. Nada adiantará construir residências populares nas mesmas regiões onde há possibilidade permanente de todos ficarem ilhados e viver sob a intranquilidade do sinal de alarme de novos deslizamentos e enchentes. É uma forma cruel de viver sobressaltado para o resto da vida.

Fica claro que algumas regiões do interior do Brasil, importantes áreas agrícolas– vejam a dura seca do Rio Grande do Sul – vão se tornando áreas inóspitas. Talvez no futuro o êxodo de populações interioranas para os grandes centros seja mesmo inevitável. Por mais que se tente remediar os estragos da força da natureza nas regiões do interior, todo esforço talvez seja pouco.

É preciso pensar – corrijam-me os mais otimistas, se estiver errado – na possibilidade de receber e realocar milhares de brasileiros, com a devida infraestrutura necessária, pelo menos nas periferias das grandes cidades. Talvez seja mesmo o caminho inevitável e relativamente mais seguro no futuro. Uma difícil empreitada onde muitos, acostumados com a vida interiorana, relutarão em aceitar. Mas é preciso entender também que nada na vida é definitivo.

É preciso preservar ao máximo a vida, essa maravilhosa dádiva divina. Correr o risco de morrer prematuramente não vale a pena. A única verdade absoluta, nesse contexto de dor, sofrimento e impotência humana, é que contra a força da natureza, por maior que sejam as forças-tarefas, estas serão sempre impotentes. Estamos sendo vencidos, inexoravelmente, pela força da natureza.

Fernando Pimentel acende uma vela e agradece pelo escândalo ter trocado de ministério.

Carlos Newton

Fernando Pimentel, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, não é baiano, mas tem santo forte. Estava submetido a um tiroteio infernal, denunciado por ter feito tráfico de influência em consultorias-fantasmas, mas de repente saiu da linha de fogo e entrou numa calmaria impressionante.

A imprensa parece ter esquecido inteiramente as irregularidades cometidas por Pimentel, no intervalo entre sua gestão na Prefeitura de Belo Horizonte e sua posse no Ministério do Desenvolvimento. Como se sabe, o ministro jamais conseguiu explicar ou justificar as tais “consultorias” que supostamente teria feito, pois delas só conseguiu exibir as notas fiscais, sem dispor de nenhum relatório para apresentar.

A presidente Dilma Rousseff, sua companheira desde os tempos da luta armada, saiu em defesa do amigo e lhe concedeu uma espécie de “habeas corpus preventivo”, ao alegar que as irregularidades cometidas por Pimentel tinham sido praticada antes dele assumir o cargo de ministro e o governo, portanto, não tem nada a ver com isso.

Poucos repararam que a presidente Dilma usou no caso de Pimentel a mesma desculpa esfarrapada que evitou a cassação da deputada Jaqueline Roriz. Recorde-se que, no final de agosto, em votação secreta, o plenário da Câmara dos Deputados absolveu por 265 votos a 166 e 20 abstenções, a deputada federal Jaqueline Roriz (PMN-DF) do processo que pedia cassação de seu mandato.

Os parlamentares rejeitaram o primoroso e detalhado relatório do deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), que pedia a perda de mandato de Jaqueline, após a revelação de um vídeo em que ela aparece recebendo dinheiro do delator do mensalão do DEM, Durval Barbosa. A gravação foi feita em 2006, mas foi divulgada no início de 2011.

Para que Jaqueline perdesse o mandato, seria necessário haver concordância da maioria absoluta dos deputados, ou seja, 257 votos (mais da metade dos 513 parlamentares da Casa). Mas a deputada encaminhou um “memorial” de 28 páginas aos 513 parlamentares pedindo a rejeição do parecer do Conselho de Ética. O memorial argumentava que Jaqueline “não se encontrava no exercício de qualquer mandato, especialmente de deputada federal” quando ocorreram os fatos, em 2006.

Como a maioria dos deputados tem ficha suja ou cometeram deslizes no passado que podem sujá-los a qualquer momento, absolveram Jaqueline Roriz e deixaram registrado que no futuro também podem ser absolvidos se flagrados em idêntica situação, com a mão na massa, digo, com a mão no dinheiro da corrupção.

Um dos que votaram a favor de Jaqueline foi o deputado José Nobre Guimarães (PT-CE), que em 2005 teve seu assessor parlamentar José Adalberto Vieira da Silva flagrado transportando dinheiro sujo na cueca e em uma mala. O Ministério Público concluiu que se tratava de propina proveniente de um contrato de financiamento em investigação, de R$ 300 milhões, fechado entre o BNB (Banco do Nordeste) e o consórcio Alusa/STN (Sistema de Transmissão do Nordeste).

Com base nessa conclusão, os procuradores Márcio Andrade Torres e Alexandre Meireles Marques denunciaram, por suposta improbidade administrativa, o presidente do banco, Robert Smith, e outros quatro dirigentes da instituição. A ação tramita na 10ª Vara Federal de Fortaleza e até agora não aconteceu nada, como era de se esperar.

Também foram denunciados o ex-assessor especial da presidência do BNB Kennedy Moura Ramos e o deputado José Nobre Guimarães, que é irmão de José Genoino, e todos sabem que “quem sai aos seus não degenera”.

Com o escândalo, José Nobre Guimarães, que era deputado estadual, progrediu e hoje é deputado federal pelo PT do Ceará, mostrando que os eleitores não ligam mesmo para a epidemia de corrupção que se alastra pelo país. Mas que país é esse, Francelino Pereira?

Inédito no mundo: McDonald’s sai da Bolívia devido ao desinteresse do público

O comentarista Sergio Caldieri nos envia esta matéria muito curiosa, publicada originalmente no adital.org.br. Mostra que, felizmente, nem todo o mundo suporta essas frituras do McDonald’s.

Todos os esforços desenvolvidos pela cadeia McDonald’s para inserir-se no mercado boliviano foram infrutíferas. De nada valeu preparar o molho Ilajwa, favorito do altiplano, nem apresentar os melhores conjuntos locais ao vivo.

Após 14 anos de presença no país e apesar de todas as campanhas feitas e por fazer, a cadeia se viu obrigada a fechar os oito restaurantes que mantinha abertos nas três principais cidades do país: La Paz, Cochabamba e Santa Cruz de la Sierra.

Trata-se do primeiro país latino-americano que ficará sem McDonald’s e o primeiro país no mundo onde a empresa fecha por ter seus números no vermelho por mais de uma década.

O impacto para os chefes de marketing tem sido de tal força que foi gravado um documentário sob o título “Por que McDonald’s quebrou na Bolívia” , em que  tentam explicar de algum modo as razões que levaram os bolivianos a continuar preferindo as empanadas, ao invés dos hambúrgueres.

O documentário inclui reportagens com cozinheiros, sociólogos, nutricionistas, educadores, historiadores… Todos coincidem em que o desprezo não é aos hambúrgueres, nem ao sabor; o reação está na mentalidade dos bolivianos. Tudo indica que, literalmente, o “fast-food” é a antítese da concepção que um boliviano tem de como se deve preparar uma refeição.

A comida rápida não é para essa gente, concluíram os norte-americanos.