Dirceu, para variar, coloca a culpa na revista Veja.

Em artigo publicado em seu blog e numa série de jornais e sites,o ex-ministro José Dirceu faz novas acusações à revista Veja. Seu artigo, que transcrevemos abaivo, tem o título “Para não investigar as ligações criminosas Demóstenes-Cachoeira, a Veja vem de mensalão”.

José Dirceu

É mais do que sintomático o comportamento da Veja, cuja matéria capa desta semana tenta tirar os holofotes das gravíssimas denúncias em torno do esquema criminoso comandado pelo contraventor e empresário Carlos Cachoeira, com tentáculos em esquemas de governo e no qual estão envolvidos políticos de diversos partidos, muito especialmente os da oposição.

Para desviar o foco das investigações e da mobilização pela instalação de uma CPI no Congresso Nacional, a Veja vem com a tese de que o PT quer usar a CPI para investigar as ligações entre Cachoeira, o senador Demóstenes Torres (ex-DEM, hoje sem partido) e outros políticos para encobrir o chamado “escândalo do mensalão”. E para que os envolvidos não sejam julgados.

Nada mais falso. Eu sou réu neste processo e sempre disse que quero ser julgado para provar a minha inocência. O que a Veja quer fazer, secundada por outros veículos da grande mídia, é transferir ao PT o seu modus operandi de jogar poeira nos olhos dos leitores para turvar a realidade, desviar o foco e anestesiar os fatos para construir a pauta política que lhe convém. No caso, tenta, desde 2005, quando eclodiu o escândalo do uso de recursos de caixa dois para pagar dívidas de campanha de partidos da base do governo Lula, transformar o crime eleitoral em crime político de compra de votos de congressistas em matérias de interesse do governo. E segue ignorando os autos do processo.

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PRESSÃO AOS JUÍZES

O que ocorre agora é mais um movimento dessa campanha, centrada na pressão aos juízes do STF para um julgamento político do “mensalão”, no lugar de um julgamento baseado em fatos e provas. Nada de novo, com o agravante de que, ao trazer o escândalo do “mensalão” para o centro dos debates tentando atropelar o julgamento do processo, tem claramente o interesse de confundir o público e tirar os holofotes do escândalo da ligação de Cachoeira com o senador Demóstenes, e da cadeia de interesses dela decorrente.

Só para lembrar: o caso do mensalão emergiu dentro do escândalo Cachoeira-Demóstenes pelo fato de o ex-prefeito de Anápolis, Ernani José de Paula, ter denunciado que a gravação de entrega de propina nos Correios em 2005 – que deu origem à CPI dos Correios e ao mensalão – foi patrocinada pelo esquema de Cachoeira.

Na esteira dessa gravíssima denúncia de relações e contaminação da máquina pública por interesses privados e criminosos, uma triste constatação. A de que alguns órgãos de imprensa, onde se destaca a Veja, pretensa guardiã da ética e bons costumes das elites, serviram-se de informações engendradas no esquema criminoso de Cachoeira para produzir matérias denuncistas. Que fatídica aliança! Com esta matéria de capa, a Veja tenta livrar sua própria pele e escamotear seus métodos de fazer jornalismo que atentam contra a ética da profissão; em suma, contra a democracia.

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A DESASTRADA DEFICIÊNCIA INTELECTUAL

A conhecida falta de boa cultura política, econômica e do devido preparo intelectual da grande maioria de nossos políticos, por certo que tem sido um dos grandes responsáveis por muitos equívocos, perdas de tempo e de gigantes prejuízos para a Nação. Sempre travou o Brasil rumo a um grandioso futuro, apesar de todos os gigantescos pré-requisitos que temos. Não fosse ao baixo preparo intelectual de nossos políticos, por certo que já estaríamos na condição de primeiro mundo, apesar dos traidores de todas as épocas e lugares.
Por outro lado, dado as finalidades e objetivos da clássica formação militar, o despreparo intelectual voltado para a gestão pública é bem pior, salvo as raras exceções. Isso ficou bem evidenciado durante a ditadura militar de primeiro de abril. Tiveram toda força e poder do mundo, coisa que nem mesmo a Coroa Portuguesa sonhou no Brasil Império. Mas, por falta de total despreparo intelectual de nossos militares no comando da Nação, o golpe militar deu no que deu.

Sergio Cabral tentou abortar a CPI do Cachoeira, para proteger o amigo empreiteiro da Delta

Carlos Newton

Como dizia o cantor e radialista Henrique Fróes, conhecido como Almirante, é “incrível, fantástico, extraordinário”. No caso do governador Sergio Cabral, a notícia realmente é inacreditável e mostra até que ponto chegou a decadência política deste país.

A informação foi publicada com exclusividade por O Globo, sábado, na coluna do jornalista Ilimar Franco. Sob o sugestivo título de “Variável Delta”, revela que o governador Sergio Cabral teve a ousadia e a desfaçatez de tentar impedir a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito que vai investigar as ligações de Carlinhos com a classe política e também com empresários ligados à administração pública.

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VARIÁVEL DELTA

Ilimar Franco

O governador Sergio Cabral, na visita que fez a Brasília para o jantar de aniversário do PMDB, conversou com dirigentes nacionais do partido sobre a CPI do Carlinhos Cachoeira. Cabral queria saber da possibilidade de abortar a comissão e ouviu como resposta que a esta altura isso era inviável. Como a construtora Delta tem muitos contratos com o governo estadual, tendo recebido desde 2007 pagamentos de cerca de R$ 1,47 bilhão, seu temos é que a investigação transborde para o Rio.

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ENVOLVIMENTO DA DELTA

Já está mais do que comprovado o envolvimento de Cavendih com Cachoeira. O bicheiro  usou duas empresas de fachada — a Brava Construções e a Alberto & Pantoja — para movimentar R$ 39 milhões, entre 2010 e 2011. Os saques eram feitos pelo tesoureiro da quadrilha de Cachoeira, Giovane Pereira da Silva, e sempre um pouco abaixo de R$ 100 mil, que é o valor que obrigaria a comunicação ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Segundo os relatórios da Operação Monte Carlo, deflagrada pela Polícia Federal em 29 de fevereiro, o repasse do dinheiro foi feito pela Delta Construções.

O inquérito mostra que parte dos saques foi em período eleitoral: “113 saques em espécie entre 13/08/2010 e 18/04/2011”. Segundo os documentos, os supostos sócios da Brava e da Alberto & Pantoja são apenas “bonecos, montados para os fins da organização criminosa” e alguns desses sócios tiveram nomes modificados para criação de CPFs falsos.

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CÓDIGO DE CONDUTA ÉTICA

E Cabral ainda tenta defender o amigo Cavendish… A espantosa notícia de Ilimar Franco demonstra que o governador realmente não leu o Código de Conduta Ética, que mandou redigir para passar a saber o que é certo ou errado para um  homem público fazer, depois que surgiu o escândalo de suas ligações mais do que próximas com o empresário Fernando Cavendish, dono da empreiteira Delta, que é a favorita do governo estadual e também do governo federal.

Na verdade, Cabral não está defendendo apenas Cavendish, está defendendo também seu governo, um dos mais corruptos da história do Rio de Janeiro, e seu fiel escudeiro Pezão, o vice-governador que acumulou a Secretária de Obras em seu primeiro mandato, para tudo ficar odara, como diz Caetano Veloso. Eis a questão.

Labirinto ou máquina de moer carne?

Carlos Chagas

Graças ao “furo” do colunista político do Globo, Ilmar Franco, começam a ser especulados os primeiros dos sete nomes para integrar a Comissão da Verdade: d. Evaristo Arns, Nilmário Miranda, José Gregori, Paulo Sérgio Pinheiro. Nada oficial, mas tudo próximo das possibilidades, já que os quatro referidos dispõem de todas as qualidades para o desempenho da função. Para começar, honestidade e capacidade. Mas isenção, também, ainda que diante de seus nomes tenham começado as caretas nos círculos militares infensos à investigação referente aos desmandos dos tempos da ditadura.

O cardeal foi responsável pela primeira denúncia personalizada de torturados e torturadores, no livro “Brasil: Nunca Mais”.  Os outros três ocuparam a Secretaria dos Direitos Humanos, nos governos Fernando Henrique e Lula. São cidadãos acima de qualquer suspeita, menos, é claro, por parte daqueles que praticaram crimes de tortura e coisas piores.

O problema para a Comissão da Verdade, quando começar a trabalhar, envolverá inevitáveis desdobramentos capazes de ultrapassar a pessoa dos torturadores. Porque se não tomarem a iniciativa, os depoentes serão indagados sobre os motivos dos abomináveis atos dos quais estarão sendo acusados.

Ousarão denunciar chefes que sabiam ou até estimulavam e autorizavam a tortura? Pior ainda: culparão a doutrina da segurança nacional, urdida naqueles idos, que eram obrigados a seguir? Alegarão a necessidade da luta contra o “inimigo interno” e a existência da “guerra revolucionária”, da “guerra psicológica adversa” e de outras criações geradas pela Guerra Fria?

Mesmo sem poder justificar suas execráveis ações, hesitarão em alegar a existência de muitas verdades dentro da verdade, ou seja, a ação armada, assaltos, sequestros e assassinatos também praticados por partidos, grupos e associações como o PC do B, PCBR, AP, Polop, ALN, MR-8, VPR, Colina, VAR-Palmares, Libelu, Molipo e dezenas de outros? Seria o caso de ouvir seus responsáveis ainda vivos, e são muitos, alguns hoje até importantes, para saber em que delitos se envolveram, ou tipo de modelo pretendiam imprimir ao país, caso chegassem ao poder?

Mais do que num labirinto, a Comissão da Verdade corre o risco de enveredar por um funil que terminará numa máquina de moer carne.

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QUEM SEGURA O CONTA-GOTAS?

Tortura também está sendo a divulgação, em conta-gotas, do pérfido conluio entre o Carlinhos Cachoeira, sua quadrilha, os políticos, os governantes e os empresários a seu serviço. Porque a cada dia novas denúncias fluem aparentemente do relatório da Operação Monte Carlo, da Polícia Federal. Ora num jornal, ora num telejornal, somos surpreendidos com sórdidos detalhes da corrupção que assola o país.

Começam esta semana os trabalhos da CPI mista designada para apurar a lambança, prevendo-se a divulgação de mais episódios e o envolvimento de mais pessoas. Tomando-se como certo que Carlinhos Cachoeira é apenas um, de muitos bandidos que agem como ele em todo o território nacional, a conclusão só pode ser uma: ou se aproveita agora a oportunidade para a faxina das faxinas ou chame-se de novo Pedro Álvares Cabral para começarmos outra vez…

Controlar a mídia? Além de inconstitucional é algo impossível

Pedro do Coutto

Uma parte do PT, a que segue a orientação, falsa orientação, do ex-ministro José Dirceu, representado pelo presidente da legenda, Rui Falcão, está tentando aproveitar o embalo do escândalo envolvendo o senador Demóstenes Torres, o empresário Carlos Cachoeira e várias outras pessoas, entre elas o governador de Brasília, Agnaldo Queiros, e até um ex-diretor da Delta Construtora, para investir mais uma vez contra a liberdade de imprensa. A tese é a de sempre: controle da mídia.

Algo inconstitucional e, além disso, impossível na prática. O que essa corrente do Partido dos Trabalhadores chama de controle? Ela sequer consegue explicar. Não coloca nada de concreto para debate, simplesmente porque não possui legitimidade tal projeto. E, como dizia o jurista Santiago Dantas, nenhuma posição é legítima, quando aquele que a ocupa não puder dizer seu verdadeiro nome. A frase é textual. E, a meu ver, a melhor e mais clara síntese de uma situação humana. Não só política, mas também social.

Reportagem primorosa de Cátia Seabra e Márcio Falcão, Folha de São Paulo de sexta-feira, focalizou amplamente a sombra que a facção mais em risco do partido tenta lançar sobre o regime democrático.O objetivo é tentar apagar ou diluir o mensalão da consciência coletiva, portanto do julgamento, não só pelo Supremo, mas também por parte da opinião pública.

Não valendo a pena entrar na análise do tema, tão absurdo ele é, devemos apenas colocar os pontos constitucionais que asseguram a liberdade de expressão. Portanto se os pontos pertencem à Constituição de 88, somente poderão ser mudados através de emenda. Não da lei ordinária. Porém exigir esta clareza do deputado Rui Falcão é esperar demais. Ele, aliás, não pensa por si. Age por José Dirceu. Não considera tampouco que a posição da presidente Dilma Rousseff é exatamente contrária à assumida pelo ex-chefe da Casa Civil – vale acentuar, o maior derrotado pelo episódio do mensalão.

Direceu não só foi demitido por Lula e teve o mandato parlamentar casado. Na verdade, jogou fora a Presidência da República. Não ocorresse o desfecho que aconteceu, seria ele, e não Dilma Rousseff, o candidato de Lula à sucessão de 2010. Ao bater o pênalti para fora, Dirceu chutou o próprio destino. E dificilmente a sorte passa duas vezes pelo caminho do iluminado.

José Dirceu derrotou a si mesmo. Episódio singular na política? Não. Rejeitando ser vice de JK em 65, Leonel Brizola perdeu outro grande pênalti da história. Investindo contra a posse de Negrão de Lima, em 65, Carlos Lacerda explodiu sua própria candidatura presidencial. Provocou a crise institucional e terminou entregando o poder ao general Costa e Silva, com a implantação das eleições indiretas de 66. Coisas da política, título da brilhante coluna que Carlos Castelo Branco assinava no Jornal do Brasil.

Os homens passam, os exemplos ficam. O espelho derrotou José Dirceu, derrotou Brizola, derrotou Carlos Lacerda. Mas falei em dispositivos constitucionais que impedem qualquer controle sobre os meios de comunicação. Vamos a eles. Ítem 4 do art.5º: “É livre a manifestação d pensamento, sendo vedado o anonimato”. Item 5 do mesmo artigo:”É assegurado o direito de resposta”. Parágrafo 3º, artigo 222: “Os meios de comunicação eletrônica, independentemente da tecnologia, deverão observar a mesma determinação.” Finalmente o artigo 220: “Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística. É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística”. É isso aí.

A Constituição está morrendo

Sebastião Nery

Noite de 13 de dezembro de 1968. Na televisão, o ministro da Justiça Gama e Silva, jornalista, advogado, promotor, professor de Direito na USP (Universidade de São Paulo), reitor da Universidade, biministro da Justiça e da Educação e Cultura, apesar de todos esses títulos e compromissos, lia o AI-5 (Ato Institucional nº 5), o mais fascista, indecoroso e repugnante documento da história política do País.

O prédio do Congresso, em Brasília, humilhado em conchas, iluminava as angústias nacionais. O senador e ex-ministro da Justiça Mem de Sá, da Arena do Rio Grande do Sul, chegou à sala das taquígrafas do Senado, que estavam falando alto:

– Minhas filhas, falem baixo que a Constituição está morrendo.

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GUA-GUE-JAN-DO

Ario Teodoro, secretário-geral do PTB, era presidente do partido no Estado do Rio. Augusto Carvalho, ex-prefeito de Rezende, secretário. Carlos Antonio, ex-secretário de Saúde do governador Badger da Silveira, do diretório. Com o golpe de 64, cassam o governador Badger. O PTB se reúne. Carlos Antonio vai para o micofone:

– Pe-ço a pa-lavra senhor pre-presidente. O pre-pre-sidente Castelo Branco deu ga-ga-rantias de que ia go-go-vernar com li-li-berdade e de-de-mocracia. E ca-cassou o go-governador Ba-ba-dger. Eu que-que-ria que o pre-pre-sidente Ario Teodoro in-in-terpelasse seu colega pré-pre-sidente Castelo pa-pa-ra saber que ga-ga-rantias são essas.

Lá da mesa, Ario Teodoro riu. Carlos Antonio gaguejou aos gritos:

– Senhor pre-pre-sidente, uma ques-ques-tão de ordem. O se-se-nhor está rin-do de mim ou do pre-pre-sidente Castelo Bran-Bran-co?

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ALÇA DO CAIXÃO

João Emerenciano era suplente do senador Francisco Pessoa de Queiroz, da UDN de Pernambuco (deputado federal de 1921 a 30 e senador de 1962 a 70). Mas o velho nunca lhe deu uma chance. Chegou a passar seis meses na Europa, sem pedir licença, só para Emerenciano não assumir.

Um dia, soube-se em Recife que o senador, já com 80 anos (nasceu em 1890 e morreu em 1980) estava doente no Rio. Emerenciano pegou o avião e veio visitar o senador. Para surpresa dele, o velhinho o recebeu sentado na sala, paletó, colete, gravata, barba feita. Embora muito pálido e o rosto esverdeado, todo espigado e olhos acesos:

– Como vai o senhor, senador?

– Muito bem. Melhor do que nunca. Veja a fisionomia. Estou ótimo.

Emerenciano voltou para Recife e morreu cedo, aos 52 anos, igual à Constituição. No cemitério, segurando a alça do caixão, o senador Pessoa de Queiroz. Já perto dos 90 anos.

Secretários do governo de Brasília também envolvidos com Cachoeira

O Correio Braziliense revela que investigações da Polícia Federal apontam um possível envolvimento de dois secretários do Governo do Distrito Federal com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, preso desde o fim de fevereiro em Mossoró (RN) por comandar um esquema de exploração de jogos ilegais e de corrupção.

Gravações telefônicas feitas durante a Operação Monte Carlo revelam que os secretários de Governo, Paulo Tadeu, e de Saúde, Rafael Barbosa, se reuniram em abril do ano passado com o braço direito de Cachoeira, Cláudio Abreu.

Denúncia publicada pelo site da revista Veja sugere que os secretários desejavam se aproximar do contraventor. A gravação, feita pela PF, mostra que Cláudio conversou com Cachoeira por telefone durante o jantar ocorrido em Brasília, ocasião em que relatou que Tadeu e Barbosa queriam se “enturmar” com o bicheiro.

Cláudio Abreu se apresentava como diretor da Delta Construções, empresa que mantém um contrato de coleta de lixo com o governo do Distrito Federal e é a empreiteira favorita do governo federal e do governo do Estado do Rio de Janeiro.

Parte da economia mundial depende das drogas, diz especialista

Aos 62 anos, o desembargador Walter Maierovitch se alinha entre as pessoas que mais conhecem os bastidores do tráfico de drogas no País. Foi natural, portanto, que ocupasse pioneiramente o cargo de secretário da Secretaria Nacional Antidrogas.

O profundo conhecimento do assunto levou Maierovitch para o patamar dos especialistas em crime organizado, já que os dois temas são intimamente ligados. Nessa condição ele é hoje consultor da União Europeia, dividindo seu tempo entre Roma, onde está assentada sua base na Europa, e São Paulo, onde mora.

Nesta matéria da revista Digesto Econômico, o desembargador propicia um impressionante roteiro pelos meandros das máfias internacionais, mostra que muitos países são dependentes da economia gerada pelo narcotráfico e critica a posição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso de descriminalização da maconha .

Digesto Econômico – A sociedade vem perdendo a batalha contra as drogas. Qual a sua opinião sobre isso?

Walter Maierovitch – Pouca gente consegue entender a geopolítica e a geoestratégia das drogas. Se pensarmos em termos de geoeconomia, se numa pessoa a droga gera dependência, na economia ocorre fato semelhante. Temos países dependentes da economia movimentada pelas drogas, que tem participação importante no PIB. Se pegarmos, por exemplo, o Vale do Bekaa (Líbano) há mais de 400 mil pessoas envolvidas no plantio da erva canábica e na produção de derivados, como o haxixe e o óleo. A economia do Marrocos é dependente dessas atividades. Pouca gente se preocupa com este tipo de problema.

DE – Há maiores dados sobre isso? No Marrocos, que o senhor comentou, sabe-se qual a participação das drogas no PIB desse país?

WM- Evidentemente, os dados não são oficiais.  Há uma estimativa com dados do Banco Mundial e do FMI de que o mercado das drogas movimentaria de US$ 200 bilhões a US$ 400 bilhões dentro do sistema financeiro internacional. Imagine a crise se tirarem este montante do sistema financeiro.

 O ex-presidente George W. Bush bateu na porta da Suprema Corte para conseguir uma decisão de que era inconstitucional um Estado federado legislar sobre drogas, uma vez que a competência legislativa para assuntos de drogas é federal. Ele fez isso porque vários Estados legislaram, admitindo o uso terapêutico da maconha, condicionado a uma receita médica. Começou pela Califórnia. Houve um caso de uma senhora com um tumor na cabeça, com dores horríveis, que só era inibida quando ela fumava maconha. Hoje, nos EUA, já são oito Estados federados com essa legislação. O objetivo de Bush era quebrar essa legislação. Como a Suprema Corte foi chamada para decidir sobre a constitucionalidade, ela decidiu que a competência era federal, mas não disse que as legislações dos Estados eram inconstitucionais. O Bush ganhou, mas não levou.

E o que fez o presidente Barack Obama há alguns meses? Ele determinou ao FBI para que não prendesse pessoas que fizessem uso terapêutico da maconha, pois o Bush havia determinado que essas pessoas fossem presas. Essa permissão de uso para fins terapêuticos do Obama está sendo vista como um primeiro passo para a liberação para uso lúdico. É o que se espera dele. Há 40 anos se discute a liberalização do uso da maconha, embora o (ex-presidente) Fernando Henrique tenha começado agora e ache que é iniciativa dele. Essa discussão foi retomada por Barack Obama e agora todo mundo fala disso.

O grande ponto que vejo aí, e com preocupação, é que não se está levantando aquela velha discussão de liberdade individual, do direito de autolesão – ninguém é condenado por tentar o suicídio ou por se automutilar, isso não é crime. O uso de droga é uma autolesão, não há dúvidas. E por que seria crime o uso de droga? Mas não é essa a discussão agora. O que se quer hoje é salvar as economias.

DE – Na sua opinião, o mundo pode prescindir do mercado de drogas?

WM- Se a movimentação chega a US$ 400 bilhões e há países dependentes, além de Estados que estão buscando fonte de renda na droga … Há 40 anos, o discurso era o da liberdade individual, hoje fala-se em salvação da economia. Isso é apresentado com a tese de legalização de drogas leves, no caso a maconha. Como se faz isso? O Estado teria o monopólio e estabeleceria o porcentual permitido de tetrahidrocanabinol (THC)

Veja o que aconteceu no pós-guerra, com economias quebradas. Em alguns países europeus, como a Itália, o que o Estado guardou para si? O monopólio do tabaco. Na Itália, nos lugares que vendem cigarros tem um “T”, de tabacachaio, na parede. Depois do tabaco entrou o sal e os selos. Notem como as coisas estão voltando.

(Texto enviado por Milton Corrêa da Costa)

Jornalismo investigativo ou cumplicidade?

Venício Lima

Algo de muito errado está acontecendo com a grande mídia no Brasil. Enquanto empresários da mídia impressa ou concessionários do serviço público de radiodifusão – e seus porta-vozes – reafirmam, com certa arrogância, seu insubstituível papel de fiscalizadores da coisa (res) pública, o país toma conhecimento, através do trabalho da Polícia Federal, de evidências do envolvimento direto da própria mídia com os crimes que ela está a divulgar.

E mais: a solidariedade corporativa se manifesta de forma explícita. Por parte de empresas de mídia, quando se recusam a colocar setores de seu negócio entre os suspeitos da prática de crimes, violando assim o direito à informação do cidadão e o seu dever (dela, mídia) de informar. Por parte de jornalistas, que alegam estarem sujeitos a eventuais relacionamentos “de boa fé” com “fontes” criminosas no exercício profissional do chamado jornalismo investigativo.

Será que – na nossa história política recente – o recurso retórico ao papel de fiscalizadora da coisa (res) pública não estaria servindo de blindagem (para usar um termo de agrado da grande mídia) à indisfarçável partidarização da grande mídia e também, mais do que isso, de disfarce para crimes praticados em nome do jornalismo investigativo?

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IMPRENSA PARTIDÁRIA

Historiadores da imprensa periódica nos países onde ela primeiro floresceu, sobretudo Inglaterra, França e Estados Unidos, concordam que ela – ou o de mais parecido com aquilo que hoje entendemos como tal – nasceu vinculada à política e aos partidos políticos. Numa segunda fase, transformou-se em empresa comercial, financiada por anunciantes e leitores. No Brasil, as circunstâncias históricas, certamente nos diferenciam dos países citados, mas não há distinção em relação às origens políticas e partidárias da imprensa nativa.

Foi Antonio Gramsci, referindo-se à imprensa italiana do início do século 20, quem primeiro chamou a atenção para o fato de que os jornais se transformaram nos verdadeiros partidos políticos. Muitos anos depois, entre nós, Octavio Ianni chamou a mídia de “o Príncipe eletrônico”.

Apesar disso, a imprensa que passa a se autodenominar de “independente” é aquela que é financiada, sobretudo, pelos anunciantes e, ao longo do tempo, reivindica sua legitimação no princípio liberal do “mercado livre de ideias”, externo e/ou interno à própria imprensa.

No Brasil dos nossos dias, até mesmo os empresários da grande mídia admitem seu caráter partidário como, aliás, já afirmou publicamente a presidente da ANJ.

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JORNALISMO INVESTIGATIVO

O chamado “jornalismo investigativo” acabou levando a grande mídia a disputar diretamente a legitimidade da representação do interesse público, tanto em relação ao papel da Justiça – investigar, denunciar, julgar, condenar e, eventualmente, perdoar – como em relação à política institucionalizada de expressão da “opinião pública” pelos políticos profissionais eleitos e com cargo nos executivos e nos parlamentos.

Ademais, o assumido papel de oposição partidária parece estar levando setores da grande mídia a não diferenciar “jornalismo investigativo” – e/ou relação com “fontes” – e o exercício de uma prática profissional que escorrega perigosamente para o crime, sem qualquer limite ético e/ou legal.

Jornalismo investigativo e cumplicidade com práticas criminosas podem estar sendo confundidos. Vale, portanto, lembrar a afirmação de Paul Virilio: “A mídia é o único poder que tem a prerrogativa de editar suas próprias leis, ao mesmo tempo em que sustenta a pretensão de não se submeter a nenhuma outra”.

Parece que, lamentavelmente, atingimos a esse perigoso e assustador limite no Brasil.

Artigo publicado originalmente na revista Teoria e Debate,
enviado pelo comentarista Werner Piana

Luis Nassif, em seu site, comenta o caso Cachoeira e faz ameaça à imprensa

O comentarista René Amaral Jr., sempre atento, nos envia interessante e instigante artigo publicado por Luis Nassif, em que o jornalista sugere que a empreiteira Delta, do amigo de Sergio Cabral, é a bola da vez no caso Cachoeira. Ao final do artigo, Nassif faz uma ameaça à imprensa, dizendo que “seria medida de prudência jornais e jornalistas se darem conta de que rompeu-se a muralha do silêncio e do medo. Veículos e jornalistas que entrarem no esquema correrão o risco de serem indiciados pela Justiça. Está chegando ao fim a era da plena impunidade para o mau jornalismo e para o uso de dossiês criminosos”.

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AS MANOBRAS DO ESQUEMA CACHOEIRA

Luis Nassif

Na condição de réu, o senador Demóstenes Torres teve acesso às peças do inquérito Monte Carlo.

Agora, está selecionando informações para, em conluio com jornalistas do esquema Cachoeira, jogar o foco das investigações na Construtora Delta.
Sabendo-se das ligações de Cachoeira com a Delta, é até risível matéria informando sobre as tratativas do bicheiro para conseguir acesso a altos executivos da empresa – como se fosse uma figura menor aproximando-se da toda poderosa Delta.

A lógica da estratégia Cachoeira-Demóstenes-aliados é simples. A Delta é parte do universo a ser investigado; Cachoeira é o todo. Focando na Delta, tenta-se tirar do foco o chefe da quadrilha, Cachoeira, seu principal lugar-tenente, Demóstenes, assim como as ligações midiáticas da estrutura criminosa.

De quebra, desestimulam-se peemedebistas – já que a Delta tem relações com o governador Sérgio Cabral Filho – e petistas – relações com o governador do Distrito Federal Agnelo Queiroz.

Nos próximos dias, haverá um aumento da chantagem de alguns veículos sobre políticos. É um jogo intimidatório pesado. Parlamentares escolhidos para a CPI serão alvo de represálias do esquema criminoso. Haverá também a estratégia de misturar factóides com fatos objetivos, visando embolar o entendimento da opinião pública.

A CPI de Cachoeira mostrará se o país poderá aspirar a um lugar no mundo moderno, se dispõe de instituições capazes de enfrentar toda sorte de poderes – do Executivo, Judiciário, Legislativo ao até agora intocado poder midiático.

Se se quiser, de fato, passar o país a limpo, o Congresso terá que pagar para ver, assim como parece estar sendo a posição do Executivo.

Seria medida de prudência jornais e jornalistas se darem conta de que rompeu-se a muralha do silêncio e do medo. Veículos e jornalistas que entrarem no esquema correrão o risco de serem indiciados pela Justiça.
Está chegando ao fim a era da plena impunidade para o mau jornalismo e para o uso de dossiês criminosos.

O que é isso, na fronteira Síria-Turquia?

Pepe Escobar (Asia Times Online)

Há um vídeo [1] cujo título poder-se-ia traduzir mais ou menos como “fronteira turca terrorista abre fogo contra o lado sírio”, e que resume bastante bem o que está acontecendo naquele ponto de geopolítica mais ultravolátil do momento.

A voz que se ouve diz: “Essa é a fronteira Síria-Turquia, e aí se vê uma operação do Exército Sírio Livre [orig. Free Syrian Army (FSA)]. O Portão [que vem a ser o lado sírio da fronteira, onde se localiza o posto de controle] está para ser tomado.”

O que se vê, é a Turquia está dando abrigo ao Exército Sírio Livre, bem junto à fronteira, a poucos metros (metros, não quilômetros) do território sírio. Bem mais do que abrigar um centro de comando e controle da Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN, em Iskenderun já há meses – fato que Asia Times Online já noticiou –, a Turquia agora já avançou sobre a fronteira, permitindo um ir e vir constante de mercenários fortemente armados, em ataque contra país soberano.

Imagine cenário como esse, mas transferido para a região da fronteira EUA-México; com, por exemplo, os estados do Arizona ou Texas atacados por mercenários pesadamente armados, várias vezes por dia.

Pode-se ver aí uma interpretação muito esquisita, que Ankara dá ao que sejam “paraísos seguros” e “corredores humanitários”, delineados como o que já se pode ver como rascunho da mudança de regime na Síria: relatório [2] feito pelo Saban Center da Brookings Institution, assinado pelo coquetel habitual de militantes de “Israel-acima-de-tudo” e ‘especialistas’ em Oriente Médio aliados do Qatar.

Por tudo isso, esperem até ver esse filme gerar incontáveis sequelas; o Exército Sírio Livre atacando um posto sírio de controle de fronteira, matando soldados e recuando sob uma saraivada de balas, que inevitavelmente atingirão um campo próximo, de refugiados sírios.

A escalada na fronteira ilustra claramente o cenário geral: guerra civil.

O ministro turco de Relações Exteriores Ahmet Davutoglu – da afamada política de “zero problemas com nossos vizinhos” – teve de interromper abruptamente sua viagem à China e voltar à Turquia, por causa da escalada na fronteira. Seria muito iluminador saber como a liderança de Pequim contou a Davutoglu que o movimento de agentes provocadores turcos é equivalente a brincarem com fogo.

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OTAN QUER A PAZ?

A escalada na fronteira também prova que a OTAN tem zero interesse no sucesso do cessar-fogo que tantos ostentam, conhecido como “plano Kofi Annan (que, de fato, não passa de versão diluída dos planos de russos e chineses). A confusão só fará aumentar – como sugeriu matéria de Russia Today [3].

Obviamente, um governo soberano – nesse caso, a Síria – teve de exigir garantias escritas de que seus oponentes superarmados cumpririam a parte que lhes cabe, no cessar-fogo de Annan.

A razão mais importante pela qual não cumprirão – o que, aliás, já declararam publicamente – é que não só o Exército Sírio Livre e outros grupos mercenários continuarão a ser armados pelo Qatar e pela Casa de Saud, recebendo pitadas de ‘rebeldes’ líbios que acorrem à Síria; há também dois países membros do Conselho de Segurança da ONU (Grã-Bretanha e França – que têm forças em campo, dedicadas a operações de treinamento, de inteligência e de combate.

A pergunta que vale um trilhão de liras turcas é se Ancara dará um passo adiante e realmente implantará os tais “paraísos seguros”; seria envolvimento direto da Turquia na guerra civil síria, quer dizer: seria declaração de guerra contra Damasco. É precisamente o que o Exército Sírio Livre está suplicando que os turcos façam. Mas nem isso bastará para derrubar o governo de Bashar al-Assad.

Quanto ao aparato do estado policial militar de Assad, terá de ser suficientemente esperto para não se deixar arrastar, por provocação, para uma orgia de tortura, execuções sumárias e bombardeios de artilharia pesada – porque essa capacidade de automoderação é condição necessária para que Assad mantenha o apoio diplomático chave dos dois BRICs, China e Rússia. Mais uma vez, os sírios médios, colhidos no meio disso tudo, serão os mais trágicos perdedores.

[1]youtube.com/watch?v=SteUoGZSH0w&feature=youtu.be
[2brookings.edu/~/media/Files/rc/papers/2012/0315_syria_saban/0315_syria_saban.pdf
[3] rt.com/news/rebels-refugee-camp-attack-665/

O gordo (crônica do comentarista da Tribuna que trabalhava como taxista, com 184 kg)

Francisco Bendl

Sou um homem gordo, dizem. Colegas do ponto de táxi– alguns magros e antipáticos metidos a elegantes – me elegem como alvo para brincadeiras constantes (nem sempre estou disposto a ouvi-las). Passageiros me perguntam se não me sinto mal com este peso excessivo. Respeitosamente eu lhes respondo que é o carro que está nos conduzindo… Não nego, no entanto, que entrar e sair do Siena não é tão simples, pois preciso me utilizar de uma certa “técnica”.

Um dos tantos constrangimentos que o obeso vive está no transporte coletivo (andar de ônibus, nem pensar!). A catraca do cobrador é a grande inimiga e o flagelo do gordinho, para gáudio e alegria dos demais passageiros. Dá pena a aflição do bem nutrido quando tem de descer com rapidez e se encontra pagando a passagem. Uma verdadeira catástrofe!

De modo a que eu não mais desempenhasse o papel do homem-entalado, ando agora somente de lotação, confortavelmente sentado, pois mesmo que alguém se atreva a dividir o assento comigo sua única opção é ir em pé, para minha satisfação e acomodação.

Nós, gordos, enfrentamos – além do peso – desprezos explícitos, olhares de rejeição, maledicências, sendo que seria extremamente benéfico se aceitássemos que não reside somente na estética o nosso maior problema, mas na perda da saúde gradativamente. Vai dizer isso para o gordo, tenta…

Um episódio divertido e que retrata fidedignamente o quanto somos discriminados e o verdadeiro asco que sentem de nós, foi quando busquei um passageiro numa academia, por sinal, muito conhecida da cidade. Botei o pé na porta e a primeira moça que me viu abandonou rapidamente sua atividade física, estampando na face um terror que eu jamais vira igual!

Outra jovem, esbelta, não acreditava no que via, no seu espanto era como se eu fosse um extraterreno; a terceira, que deveria ser a atendente, correu ao meu encontro berrando: “Não temos vagas, não temos vagas”!

Propositadamente, depois da calorosa recepção resolvi me demorar um pouco mais nas dependências daquele templo das formas (câmara de tortura física, para mim) ou fábrica de ilusão à perfeição corporal para muitos. Nesse tempo que permaneci lá dentro causei tamanho mal-estar que dois jovens vieram me pedir educadamente que eu me retirasse porque estava comprometendo a imagem do estabelecimento!

Alguns passageiros que transporto me falam em cirurgia bariátrica como solução; outros, em reeducação alimentar; os mais radicais dizem severamente que devo fechar a boca, passar fome, se quero de fato emagrecer; pessoas místicas, religiosas, espiritualistas, me ordenam fazer promessas, rezar, usar de simpatias e andar com amuletos. Dizem até que meu peso é castigo divino; vegetarianos acusam a carne como a maior responsável à obesidade.

Conhecidos meus, homens e mulheres, donos de corpos bem delineados, magros, me sugerem sexo em profusão (claro que observo um sorriso matreiro no canto de suas bocas); clientes do táxi que são verdadeiros atletas dizem que devo caminhar, percorrer dezenas de quilômetros(!), me exercitar sem parar…

Alguns intelectuais que eventualmente andam comigo me indicam livros que abordam essa temática, que divulgam regimes espetaculares, que determinam a eliminação dos carboidratos nas refeições e não ingerir líquidos ou medir alimento por alimento o índice glicêmico ou separá-lo por cor ou que tenha mais fibras.

Pobre de nós, os gordos, se ousássemos nos orientar por essa variedade de conselhos, opiniões e indicações. Indiscutivelmente nosso destino seria o hospício! Magros, porém, absolutamente loucos!

Demóstenes não terá perdão. Podem apostar.

Vicente Limongi Netto

Quem nunca fez uma fezinha no jogo do bicho que atire a primeira pedra. A começar por mim. Fiz e faço. “Banqueiros” do bicho ganham fortunas. Até mesmo os menos ousados, ou os mais acomodados. Não é novidade para ninguém que bicheiros ajudam o maior e o melhor carnaval do mundo, o do Rio de Janeiro.

Também é sabido que fazem caridade nas favelas e em instituições filantrópicas. Alguns bicheiros se vestem de papai-noel e distribuem brinquedos para crianças carentes. Centenas deles atuam com desembaraço nas eleições brasileiras.

Duvido que algum candidato a cargo politico faça distinção entre doação de banqueiro verdadeiro para banqueiro com aspas. Não existe dinheiro amaldiçoado, mas, sim, dinheiro mal empregado. Só mesmo na cabeça ôca dos hipócritas.

Não pretendo defender o agora mais famoso contraventor brasileiro, o Carlinhos Cachoeira. Deixo a árdua missão para o advogado dele, Márcio Thomaz Bastos, que seguramente vai engordar mais ainda o cofre. A diferença agora, diante de todo este escarcéu, é que ficou provado que Cachoeira extrapolou. Ficou guloso e arrogante demais.

Desgraçou a carreira política do senador Demóstens Torres. Não sei se ingênuos, idiotas ou precipitados, permitiram que a Polícia Federal gravasse e divulgasse perto de 300 ligações entre eles. Ou seja, politico inteligente e sagaz, conversa com bicheiro na arquibancada lotada de um Fla-Flu ou embaixo de alguma cachoeira. Nem mais o “orelhão” merece confiança.

A vestal Demóstenes caiu no ardil e lascou-se. Como é critico feroz do governo federal e foi estúpido com muitos colegas importantes, ao ponto de fazer piadinhas infames contra o próprio Legislativo, pagará caro. O jogo político é duro e implacável. Só os fortes resistem e vencem. Demóstenes não terá perdão. Está frito.

Gilmar Mendes volta a pedir pressa no julgamento do mensalão, mas não será atendido..

Carlos Newton

Com impressionante frequência, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, tem defendido que o julgamento do mensalão aconteça ainda neste semestre. Para quem entende mensagens cifradas, isso significa que no STF o processo está sendo mesmo conduzido para um atraso cada vez maior, de forma a propiciar a prescrição dos crimes.

Segundo o ministro, as aposentadorias de Cezar Peluso e Carlos Ayres Britto, no semestre que vem, podem atrapalhar o caso e admitiu que não analisar o tema ainda neste ano pode ser ruim para a imagem da Justiça.

Mendes ressalta, no entanto, que os ministros precisariam limpar a pauta ou suspender as votações de outros assuntos polêmicos. “Este é um assunto complexo, com muitos envolvidos, por isso temos que ter a disposição e organizar algo especial”, afirmou.

Em sua opinião, esse excesso de assuntos importantes pode levar a erros, como o que aconteceu com a decisão que determinou a instalação de comissões mistas para a análise de medidas provisórias. O episódio gerou uma polêmica e repercutiu negativamente no Congresso.

“O que vocês falaram de pane, que pode ter sido uma pane efetiva nossa na questão das medidas provisórias. Quem está submetido a julgamentos dessa relevância pode acabar incorrendo nesse tipo de coisa”, diz ele.

O ministro admite ainda uma pressão enorme dos dois lados no caso do mensalão: aqueles que querem o julgamento rápido e os que não querem. Segundo ele, uma novidade sobre o assunto deve acontecer nos próximos dias. O que será? Boa coisa não é…

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LEWANDOWSKI SE ESTRESSA

O mensalão causa estresse entre ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), informa a coluna “Mônica Bergamo”, publicada na Folha. Motivo: Luiz Fux sugeriu a Gilmar Mendes e Carlos Ayres Britto que realizassem sessão administrativa para discutir o andamento do caso. Mendes disse que primeiro Ricardo Lewandowski, que revisa o processo, precisaria liberar o relatório.

Lewandowski não gostou. Disse que, se Mendes se metesse em assuntos de seu gabinete, também se meteria em assuntos dele. Mendes respondeu afirmando que até agradeceria, se isso o ajudasse. Mendes disse ainda que continuará falando sobre o mensalão, sim, sempre que entender que isso é necessário.

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AYRES BRITO QUER PRESSA

O novo presidente do Supremo, Ayres Brito, promete julgar antes do primeiro semestre, vejam só, para não atrapalhar a campanha eleitoral. Ou seja, submete a Justiça a circunstâncias externas.

Pode prometer à vontade, mas a questão só entra em pauta quando o relator (Joaquim Barbosa) e o revisor (Lewandowski) quiserem. Na verdade, até as paredes do Supremo sabem que o caso do mensalão será empurrado com a barriga rumo à prescrição, que inclusive já começou. As penas mais leves estão prescritas, os réus cada vez mais tranquilos, conscientes da impunidade.

A desmoralização da Justiça vai aumentar, é claro. Mas quem se importa com isso

Lembranças oportunas (final)

Carlos Chagas

Juscelino Kubitschek era homem de coragem física. Sabendo por amigos comuns que Jânio Quadros faria violento discurso contra o seu governo, na hora da transmissão da faixa presidencial, mandou avisar que reagiria. Chamou o chefe da Cerimonial e indagou como seria a solenidade. Informado de que logo atrás dele estaria o seu ministério, assim como o ministério de Jânio atrás do novo presidente, pegou o mapa e, com um lápis vermelho, mudou a disposição. Queria ficar frente a frente com o sucessor, a menos de um metro um do outro. E os ministros bem atrás.

Disse-me anos depois estar pronto para, se ofendido em sua honra, dar um passo à frente e um soco na cara de Jânio. Ia ser um escândalo internacional, mas estava decidido. Os tais amigos comuns souberam, avisaram o novo presidente e, na hora da passagem do governo, Jânio foi todo sorrisos e elogios.

Ao deixar o palácio do Planalto, JK foi acompanhado por grande multidão até o aeroporto que hoje leva o seu nome. No Galeão, voaria direto para Portugal, com a família. A aeronave começava a sobrevoar o Atlântico quando o piloto chama-o à cabine. Colocou os fones de ouvido e percebeu que Jânio discursava, na “Hora do Brasil”. Dizia tudo aquilo que não tivera coragem de dizer com os olhos nos olhos. Voltou à sua poltrona e pensou como o Brasil ainda tinha muito a percorrer em matéria de democracia.

Muito mais tarde, com os dois já cassados, foi ao Guarujá para uma palestra. Descansava depois do almoço, no quarto do hotel, quando escutou um vozerio na porta. De repente, quem irrompe pelo aposento, sentando-se na beirada da cama? Jânio Quadros. Nunca mais se tinham encontrado e o ex-presidente, segurando seu braço com as duas mãos, exclamou aos berros: “Errei, meu amigo, errei. Também, eu nem tinha lido antes o discurso que escreveram para mim…”

Quando da renúncia de Jânio Quadros, a imprensa encontrou Juscelino na sede do extinto PSD, no Rio. Só teve um comentário: “É doido mesmo…” Integrou-se à campanha de Leonel Brizola pela posse de João Goulart, mas, já senador por Goiás, insurgiu-se contra a decisão do Congresso de implantar o parlamentarismo.

Era candidatíssimo a voltar ao poder em 1965. Só que, pouco antes de deixar o governo, fechou a cara para Tancredo Neves, seu dileto amigo, diante da proposta de ver votada emenda constitucional permitindo sua reeleição. Nem quis ouvir falar no assunto… Em 1963 e 1964, estava em plena campanha. Adotou o costume de visitar jornalistas, mais do que ser visitado por eles. Foi ao apartamento do saudoso Oyama Telles, do “Correio da Manhã”, conversar com cinco ou seis repórteres políticos, entre os quais eu estava incluído.

Semanas depois, a vez da casa do também hoje desaparecido Heráclio Salles. Estava marcada para o final de abril de 1964 sua ida ao meu apartamento, no Flamengo. Não deu, por conta do golpe militar.Na tarde de 31 de março, consegui localizá-lo pelo telefone. Eu trabalhava no “Globo” e tivera a informação de que Juscelino havia estado no palácio das Laranjeiras, com o presidente João Goulart.

Ele foi seco, do outro lado da linha: “Estive sim, estou chegando agora do Laranjeiras. Mas não me pergunte mais nada porque não vou contar.”

Os militares batiam cabeça, com a queda de Jango, até que dez dias depois de os tanques terem ido para a rua, os generais decidiram botar ordem na bagunça e substituir o Comando Supremo da Revolução (Costa e Silva, Augusto Rademaker e Francisco de Assis Correia de Melo) pelo general Castelo Branco.

Imaginando que as instituições funcionavam, ou fingindo muito bem, Castelo Branco quis ser eleito pelo Congresso. Mesmo com as esquerdas cassadas, votos eram necessários, e o futuro presidente foi recebido pela direção do PSD, maior partido nacional. Foi na casa do deputado Joaquim Ramos, em Copacabana. Lá estavam Amaral Peixoto, José Maria Alkimin, Negrão de Lima, Martins Rodrigues e outros. Juscelino também. A conversa seguia amável, mas tensa, e JK não parava de olhar o relógio de pulso. Seu diálogo com Castelo foi curto. Quis saber se teríamos eleições presidenciais no ano seguinte, e o futuro presidente garantiu que sim.

Malicioso, ao notar que Juscelino continuava olhando o relógio, comentou: “Senador, percebo que o senhor deve ter outro compromisso. Não se prenda por mim, ainda que eu tenha reservado esta noite para dialogar com o PSD”.

Por mais estranho que pudesse parecer, Juscelino retirou-se logo depois, para espanto dos companheiros. Na manhã seguinte, Negrão de Lima telefonou: “Juscelino, você ficou maluco? Abandonar o todo poderoso general que vai tomar posse amanhã! O que você tinha de tão urgente assim?”

Resposta: “Uma reunião na casa do Bené Nunes, que ia tocar piano para um grupo de amigos…”

Como senador por Goiás, JK votou em Castelo Branco, sem perceber que se transformaria na maior vítima do regime de arbítrio. Não demorou para que o mandato primeiro general-presidente fosse prorrogado por um ano, sob o argumento de que o país não poderia viver em 1965 uma convulsão eleitoral. A verdade é que a impopularidade da chamada Revolução aumentava dia a dia e todos previam que Juscelino seria eleito por larga margem. Quando da prorrogação, foi alertado de que dificilmente o deixariam ser candidato, mas só acreditou quando, em julho, teve seu mandato cassado e seus direitos políticos suspensos por dez anos.

Seu maior algoz foi o então governador Carlos Lacerda, que também se julgava candidato. Avisado por José Maria Alkimin de que seria atingido pelo Ato Institucional, veio a Brasília para pronunciar seu último discurso. Contou-me depois que após o protesto feito pela tribuna, uma das maiores peças de oratória que produziu, deixou o plenário do Senado pelo corredor central.

Rostos se viravam quando passava. Nenhum cumprimento. Desceu com Dona Sarah até o saguão principal do Congresso. A vida soube ser cruel com quem, meses antes, era bajulado aos extremos. Um apressado retorno do exílio levou-o à humilhação de responder a dois Inquéritos Policiais Militares, tratado com desdém por coronéis e majores, obrigado a passar horas sentado num banquinho, sem direito sequer à presença de seu advogado, Sobral Pinto.

Logo voltou para Portugal, sendo que no aeroporto do Galeão, pela primeira vez na vida, botou um pequeno revolver na cintura. O Rio estava cheio de boatos de que não o deixariam embarcar, que o prenderiam na hora. Disse-me que se fosse humilhado, ou se Dona Sarah submetida a violências, atiraria no primeiro oficial da Aeronáutica que surgisse à sua frente. Seria morto depois, mas com honra.

O tempo passou, a angústia de JK crescia em progressão geométrica, longe do Brasil. Pensou em dar fim à vida, num Natal passado em Paris só com o fiel coronel Afonso Heliodoro.

No final de 1966 o general Costa e Silva havia imposto sua candidatura ao presidente Castelo Branco, mas as relações entre eles eram tão tensas que o segundo presidente do ciclo revolucionário entendeu de viajar para o exterior. Fui mandado acompanhá-lo, pelo “O Globo”. Lisboa era a primeira parada. No intervalo de uma visita e outra do general a autoridades portuguesas, em companhia do jornalista Washington Novaes, aproveitei para visitar o ex-presidente Juscelino. Ele tinha escritório no Chiado, bem defronte à Lisboa Antiga. Recebeu-nos emocionado, pediu notícias do Brasil e em dado momento, levou-nos á sacada, para ver a vista. Estávamos os três de frente para a paisagem e aí percebi o porquê da iniciativa. Olhando-o de soslaio, vi que chorava.

De noite, no hotel, um daqueles coronéis truculentos da comitiva veio tirar satisfações. Como tínhamos ido conversar com o inimigo da Revolução? Para falta de sorte dele o general Costa e Silva vinha saindo do elevador e quis saber sobre o que discutíamos. Contei sobre a visita e ainda perguntei ao futuro presidente: “Se um dia desses, passeando na rua, o senhor desse de frente com o presidente Juscelino? Faria o quê?

“O sempre surpreendente general respondeu, encerrando o assunto: “Nos cumprimentaríamos, como todo brasileiro deve fazer com outro brasileiro, quando se encontram no exterior…”

Juscelino acabou voltando ao Brasil, mesmo suspenso em seus direitos políticos, proibido de entrar em Brasília e recebendo os ônus de se haver composto com Carlos Lacerda, na estranha Frente Ampla que os reuniu a João Goulart numa luta efêmera pela volta do país à democracia. O resultado foi a agitação dos radicais e a edição do Ato Institucional número 5, o mais hediondo de todos.

O presidente era paraninfo de uma turma de formandos, na noite de 13 de dezembro de 1968. Depois de discursar no Teatro Municipal, no Rio, ao sair foi preso, conduzido ao Forte Copacabana, onde permaneceu alguns dias. Horror dos horrores, naquela mesma hora Carlos Lacerda também tinha sido detido e conduzido a um quartel da Polícia Militar do Rio de Janeiro. O cárcere não deixou sequelas em JK, ao contrário do antigo desafeto.

Nunca houve um político como Rui Falcão, presidente do PT

Pedro do Coutto

O título deste artigo surgiu logo de cara quando li, na edição de O Globo de quinta-feira 12, reportagem de Maria Lima e Paulo Celso Pereira, publicada com destaque, focalizando declarações gravadas em vídeo pelo deputado Rui Falcão, presidente nacional do partido, divulgadas no site do PT na Internet.

Absolutamente ilógico. Quase inacreditável em face do despreparo demonstrado pelo autor. Francamente nunca vi coisa igual. A foto que acompanha a reportagem é de Marcos Alves.Rui Falcão conclama as centrais sindicais e que se mobilizem nas sedes e nas ruas e desencadeiem um movimento de repercussão pública no sentido de apoiar a Comissão Parlamentar de Inquérito do Congresso sobre Demóstenes Torres-Carlos Cachoeira.

Para que os culpados sejam apontados à opinião pública e punidos? Não. Nada disso. O presidente nacional do Partido dos Trabalhadores defende o movimento que propõe para “mostrar quem são os autores da farsa do mensalão”. O texto é transcrito integralmente pelos repórteres Maria Lima e Paulo Cesar Pereira. Sem saber a verdadeira dimensão, porém sentindo que sua importância política, esqueceram talvez que, no momento em que redigiam, estavam escrevendo um capítulo da história política brasileira.

Rui Falcão, além de Demóstenes Torres, centrou seu ataque também no governador de Goiás, Marconi Perillo, do PSDB. Incrível.O que tem uma coisa a ver com a outra? Os corruptos do esquema Cachoeira não excluem ou apagam do mapa da consciência e da lei os envolvidos no mensalão de 2005 que culminou com a demissão do ministro José Dirceu da Casa Civil do presidente Lula e das cassação de seu mandato pela Câmara dos Deputados.

Não existe a mínima vinculação lógica entre 2005 e 2012. Na lógica de Rui Falcão se um desonesto denunciar outro, o fato do primeiro ter praticado um crime absolve o segundo. Ou então, o erro do segundo isente o primeiro de culpa. Uma ação criminosa não invalida, por si, a denúncia de um criminoso contra outro.

O debate colocado pelo dirigente petista lembra certas discussões em torno de futebol, quando um torcedor cujo time fez um gol em impedimento pergunta, para um torcedor da equipe oposta, se ele esqueceu de um gol feito com ajuda da mão há três anos. Nível de porta de bar. Entusiasmo como se a política fosse um eterno Fla-Flu conduzindo a um plano de entendimento dos mais primários.

Aliás, a um plano de desentendimento total. Nessa escala de raciocínio, é simplesmente absurdo discutir política. Conheci alguns assim, inclusive jornalistas. Não quer dizer que tenham razão no confronto que propõem na base do foi feito ontem e o que acontece hoje. Há pessoas que discutem critérios divergentes de arbitragem em competições esportivas, esquecendo-se de que, em inúmeras situações, os árbitros das partidas foram diferentes.

Mas verificam-se também absurdos no campo do Direito, até na escala do Supremo Tribunal Federal. Em 1996, por exemplo, o deputado estadual do RJ, Henri Charles, encaminhou representação ao STF pedindo a suspensão do desconto de 11% estabelecido pelo governo FHC aos aposentados. A Corte Suprema decidiu, por unanimidade, que o desconto era inconstitucional. Tratava-se de confisco, já que configurava contribuição sem retribuição. Perfeito. Os aposentados estavam (estão) pagando novamente por uma aposentadoria já conquistada ao longo de 30 e 35 anos.

Muito bem. Em 2003, a emenda 41, governo Lula, estabeleceu o desconto. Novo requerimento ao Supremo, então presidido por Nelson Jobim. Ministros mudaram o voto. Resultado: 6 a 5 em favor do desconto. O desconto voltou a pesar no bolso dos servidores. E a decisão, na consciência dos que mudaram o voto.

Eram quatro amigos, três Paulos

Sebastião Nery

Era um grupo de amigos da Rua Rodrigo Otávio, na Gávea, no Rio dos anos 60. Numa sexta-feira, sem programa, quatro deles resolveram ir a Petrópolis, arriscar alguma aventura. Pegaram a litorina, um trem que fazia Rio-Belo Horizonte, desceram em Petrópolis, hospedaram-se no Hotel Comercial, perto da estação, quatro camas em um quarto só.

Saíram para curtir a cidade. Fazia um frio do cão, ninguém pelas ruas. Deixaram o programa para o dia seguinte, voltaram para o hotel. De madrugada, “uma voz arfante, nervosa e solitária, gemia”. Na janela, com um enorme lenço branco, um deles tentava respirar o ar frio de Petrópolis.

Os outros acordaram, foram socorrê-lo:

– O que é que você tem?

– Asma. Sou asmático e às vezes não consigo dormir por falta de ar.

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PAULO COELHO

Bombeava seu remédio na boca, tomava fôlego, gemia e se maldizia:

– Vejam vocês. Que futuro posso ter, se nem consigo respirar, feio, tímido e inseguro como sou e ainda por cima doente, quase tuberculoso?

“Tossia, levava o lenço à boca, cuspia do alto da janela, fazendo lembrar os poetas tísicos que morreram moços, muito moços. Naquela janela, pernas encolhidas, queixo nos joelhos magros, era a fotografia da desesperança. Custava-lhe muito falar. A impressão é que não chegaria vivo ao amanhecer”.

Os amigos tentavam animá-lo e ele ali sofrendo. Eram quatro, três Paulos: Paulinho, hoje coronel da reserva da Aeronáutica; Paulo César, hoje o artista plástico Mendes Faria, e o terceiro Paulo, o asmático, tossindo e cuspindo na janela, “frágil, inseguro e amedrontado como um filhote sem mãe, queixava-se de ser muito feio, raquítico, sem nenhum charme para as garotas e predizia para si mesmo um destino infeliz. Seu sonho era ser rico, famoso e membro da Academia Brasileira de Letras”.

O nome dele era Paulo Coelho, hoje rico, famoso, membro da Academia Brasileira de Letras e o maior fenômeno mundial do livro.

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MENDONÇA NETO

O quarto amigo, que contou esta história em um primoroso livro de crônicas (O Ministro Que Virou Garçon), é o veterano jornalista Mendonça Neto, mineiro que passou por algumas das mais importantes redações do Rio, como o Diário de Notícias, O Cruzeiro, a Manchete, Tribuna da Imprensa e foi duas vezes deputado estadual e duas vezes federal pelo PDT e pelo PMDB de Alagoas.

Além de Paulo Coelho, seu livro tem numerosos outros brilhantes perfis: dom Helder, Carlos Lacerda, Prestes, Brizola, Jânio Quadros, Adolfo Bloch, Castelo Branco, Teôtonio Vilela, Fernando Henrique, etc. Imperdível.