Agrava-se a crise na mobilidade urbana

Paulo Peres

Sem políticas públicas que assegurem opções eficientes de transporte coletivo urbano e com o aumento nas vendas de carros devido à elevação de poder aquisitivo dos brasileiros, o país enfrenta uma grave crise de mobilidade, afirmaram os especialistas ouvidos, recentemente, em audiência pública na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado.

A esperança é a Lei da Mobilidade Urbana (Lei 12.587/2012) que entrou em vigor este mês, pode acarretar soluções satisfatórias, pois dispõe sobre a “prioridade dos modos de transportes não motorizados sobre os motorizados e dos serviços de transporte público coletivo sobre o transporte individual motorizado”.

O presidente da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos, Otávio Vieira informou que, “em 1977, sete em cada dez brasileiros se deslocavam por meio de transporte público. Enquanto que, em 2009, já metade da população se deslocava por transporte individual. Atualmente, talvez seja mais de 60% e não sabemos a quanto isso chegará em 2020. Creio que até lá as cidades estarão efetivamente paradas, se alguma coisa não for feita para melhorar essa questão”.

Também Nazareno Stanislau Affonso, coordenador do Movimento Nacional pelo Direito ao Transporte Público de Qualidade, apontou a falta de prioridade para o transporte público e os incentivos à aquisição de veículos como as principais causas dos congestionamentos nos municípios brasileiros.

“O investimento para viabilizar uso do automóvel foi gigantesco, mas o uso do automóvel é um modelo falido. Os que têm carro vão ver que, se levavam 20 minutos para chegar ao trabalho, vão levar 40 ou 50 minutos”.

No mesmo sentido, Ernesto Galindo, do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), apontou limitações do transporte individual para equacionar problemas de mobilidade urbana. “Não se trata de restringir a compra ou produção de veículos, mas o transporte individual não consegue atingir eficiência de uso de espaço público, uso energético e redução de acidentes, como o transporte público consegue”.

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INTEGRAÇÃO

No debate, os especialistas defenderam a combinação de opções de transporte, como sistemas rápidos de ônibus com linhas de metrô, vias para bicicleta e adequação de calçadas para pedestres.

Para Maria Rosa Abreu, da Universidade de Brasília (UnB), é preciso implementar, nas grandes cidades, a integração física dos modais de transporte coletivo, interligando ciclovias, aquavias e ônibus locais, com estações de metro e de trens regionais. Ela destacou ainda a importância da integração tarifária, com cartões de uso semanal, mensal ou mesmo anual, adquiridos com descontos. “Nosso país está na contramão, face aos incentivos à indústria de veículos, sem a estruturação do transporte público urbano”.

Na discussão, o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) acrescentou a educação às soluções de engenharia e tecnologia para os problemas de transporte. “Precisamos mudar a mentalidade sobre a forma de pensar o progresso. Progresso não se mede pelo maior número de carros, mas pelo menor número de horas que se perde no trânsito. Também é precioso educar os governantes, para que eles façam escolhas de modais de transporte buscando o bem-estar da população”.

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LEI DE MOBILIDADE URBANA

Em sua apresentação, Nazareno Stanislau Affonso, coordenador do Movimento Nacional pelo Direito ao Transporte Público de Qualidade, destacou a Lei da Mobilidade Urbana (Lei 12.587/2012), em vigor a partir deste mês, a qual dispõe sobre a “prioridade dos modos de transportes não motorizados sobre os motorizados e dos serviços de transporte público coletivo sobre o transporte individual motorizado”.

Nazareno explica que esta legislação determina ainda “a integração entre os modos e serviços de transporte urbano e a mitigação dos custos ambientais, sociais e econômicos dos deslocamentos de pessoas e cargas na cidade”.

Com a nova política, as prefeituras deverão definir regras do transporte urbano local e o governo federal poderá aportar recursos para iniciativas que atendam as diretrizes da Lei de Mobilidade. Cidades com mais de 20 mil habitantes deverão ter plano diretor e plano de mobilidade urbana, construído pela sociedade civil organizada, através de órgãos colegiados.

Confissões de um comentarista da Tribuna sobre sua experiência como taxista.

Francisco Bendl

Aos 55 anos de idade e sem emprego, em razão da idade e peso avantajado (1,85m de altura e 184 kg), após ser propagandista/vendedor, supervisor e gerente de vendas por mais de trinta anos, não me restou alternativa que não fosse ir trabalhar de taxista.

Afinal, eu viajara o país inteiro durante muito tempo, portanto, dirigir eu sabia e muito bem, além de tratar as pessoas com educação e respeito, haja vista que o aprendizado com compradores de vários hospitais e clínicas me deu um conhecimento extraordinário para lidar com pessoas diferentes no seu ânimo.

Dirigir um táxi em uma capital como Porto Alegre trouxe-me experiências fantásticas de vida e no relacionamento com as pessoas em suas várias classes sociais, além de ter compartilhado com elas momentos de intimidade, quando me contavam no trajeto episódios de suas vidas particulares.

Ora, sempre gostei de escrever. Os laboratórios multinacionais que trabalhei me haviam ensinado a aceitar e gostar – sob pena de virar um inferno a minha profissão – de preencher relatórios, algo em torno de dez por dia! Assim, o táxi me trouxe um manancial de casos extraordinários que eu poderia selecioná-los e, quem sabe, um dia escrever um livro a respeito.

E eu concluí o Ensino Médio há apenas dois anos! Não sou formado em nada. Não tenho faculdade alguma. Sempre fui destemido e arrojado, porque eu tinha uma família para sustentar, mas eu gostava de ler, e a leitura me trouxe uma condição de falar bem, de me comunicar e, desta forma, exercer a profissão de vendedor com bons resultados.

Meus três filhos estão à disposição da sociedade, todos formados, inclusive a minha mulher, até com Pós-Graduação! Eu sou aquele que pertence à plebe ignara, à ratatulha, à patuléia.

Pois estas experiências de vida e de viagens eu as levei para dentro do táxi, que me proporcionaram estabelecer diálogos interessantes com a maioria dos passageiros que transportei por mais de 4 anos, a ponto de eu ter escrito um livro! Chamava-se “O Divã Móvel”.

O título do livro, em decorrência, deveu-se à cena de um paciente no divã de um psicanalista relatando seus problemas para ele, exatamente como a maioria dos passageiros faz com o motorista do táxi. É algo surpreendente, diante da intimidade instantânea que se estabelece. Algo como se essas duas pessoas que jamais se viram antes fossem íntimas e conhecidas de longa data.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGA trajetória de Bendl é um exemplo a todos nós, mostrando como se pode ir em frente e avançar sempre na vida, através da leitura, da educação e da cultura. Em anexo, ele enviou uma das crônicas autobiográficas do livro, intitulada “O Gordo”, que vamos postar amanhã.

Governo não dá reajuste para aposentados que ganham mais de um mínimo

A Agência Brasil informa que, conforme ocorreu em 2012, a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, confirmou que o governo federal, manteve a posição de não conceder reajuste real em 2013, ou seja, acima da inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) deste ano, para os aposentados que ganham mais de um salário mínimo.

“Em nossa avaliação, eles (aposentados) têm assegurado por lei a inflação do ano anterior. Essa política já está definida por lei e acreditamos que seja mantida”, disse.

Desde o ano passado, há expectativa por parte dos aposentados que o governo eleve a proposta para que haja aumento real. “Consideramos que (a inflação) seja o suficiente. O Brasil tem muitas prioridades, o recurso público é restrito. Há enorme número de categorias que não tem sequer a inflação. Nos parece que frente aos enormes desafios que temos no país, isso seja suficiente para os aposentados que têm beneficios acima do salário minimo”, justificou Miriam.

Cerca de 9 milhões de aposentados ganham mais do que um salário mínimo. Em 2012, o governo fixou reajuste de 6,3%, relativo à estimativa da variação do INPC de 2011. A proposta ficou bem abaixo das reivindicações da categoria, que pediram INPC mais 80% do PIB do ano anterior, o que corresponderia a um reajuste de cerca de 12%.

Segundo o governo, o impacto do aumento nesse percentual para os aposentados que ganham acima de um salário mínimo representaria uma despesa adicional de cerca de R$ 8 bilhões. E o achatamento das pensões e aposentadores continua.

Assessor de Cachoeira avisa que ele vai abrir as comportas, denunciando meio mundo

O jornalista Mino Pedrosa, que foi assessor de Carlos Cachoeira e distribuiu a fita de Waldomiro Diniz, manda recado por meio de um blog: diz que, no calor da cela em Mossoró, Cachoeira pensa em contar tudo. O primeiro nome citado foi o do deputado Miro Teixeira. Ele ameaça o empreiteiro Fernando Cavendish, íntimo de Sergio Cabral, e até arrecadadores da campanha de Dilma.

Segundo o site 247, Mino Pedrosa é um dos jornalistas mais polêmicos de Brasília. Há quem ainda o considere repórter investigativo, outros o tratam como lobista e há ainda aquelas que usam qualificações impublicáveis. Em seu currículo, consta um dos maiores furos de reportagem da história da imprensa brasileira. Foi ele quem, em 1992, revelou a história do motorista Eriberto França, que selou o impeachment do ex-presidente Fernando Collor. É da sua lavra também a revelação de um escândalo de grampos clandestinos, que abateu Antônio Carlos Magalhães.

Em 2004, Mino estava afastado das redações. Era assessor do bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Foi ele quem fez circular entre algumas redações a fita em que Waldomiro Diniz, ex-assessor da Casa Civil, pede propina ao bicheiro, no primeiro escândalo do governo Lula. Mino e Cachoeira são amigos. Mais: são íntimos.

E foi nesta condição que o jornalista escreveu um texto no seu blog Quidnovi, que manda recados diversos. Aponta para uma suposta relação entre o bicheiro e o deputado Miro Teixeira (PDT/RJ), ex-ministro das Comunicações do governo Lula, e avisa que o contraventor está uma pilha de nervos. Pronto para abrir as comportas do seu mar de lama. Até arrecadadores da campanha presidencial de Dilma Rousseff teriam se banhado em sua cachoeira.

No cenário pintado por Cachoeira, Demóstenes não passa de uma piaba, ou melhor, um peixe pequeno, que o Ministério Público tenta sevar com denúncias inconsistentes para não ser obrigado a pescar os peixes grandes do PT e da base aliada do Governo.

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GRANDES NOMES ENVOLVIDOS?

Enquanto isso, em Mossoró, num calor de 43 graus, Carlinhos arde dentro da cela e prepara seu próximo torpedo em direção ao Planalto. São interlocutores das campanhas presidenciais do PT de Lula e Dilma, que receberam doações de Caixa 2 de Carlinhos, que garante ter registrado tudo.

Nos corredores do Ministério Público Federal se ouve falar de grandes nomes da política nacional envolvidos na contravenção. Um desses, seria o deputado carioca Miro Teixeira, ministro das Comunicações no Governo Lula e ex- PP, ex-PMDB, ex- PDT, ex- PPS, ex-PT e desde 2005 novamente PDT, hoje na base aliada do Governo Dilma. Essa história acontece exatamente no momento em que a presidente olha para Miro com olhos de promessa de um novo ministério. A depender do PDT.

Com a derrota do habeas corpus impetrado pelos advogados de Carlos Cachoeira, mas já com texto de Marcio Thomaz Bastos, o jurista achou necessário assumir a defesa do contraventor. Afinal, o PT não quer que o texto do MP seja repetido no segundo HC impetrado hoje pelo ex-ministro da Justiça.

Nas palavras do MP, “Ao contrário do que afirma a defesa, Carlinhos Cachoeira não ostenta condições favoráveis, seja porque não demonstrou possuir trabalho lícito ou porque não possui bons antecedentes criminais. Uma rápida consulta na internet permite constatar a existência de pelo menos três ações penais em três diferentes estados da Federação contra o acusado”.

Os fragmentos da Operação Monte Carlo atingem ainda várias pessoas influentes de Brasília e outros Estados. Estão sob segredo no MPF os nomes dos políticos que não interessa ao Planalto vazar para a imprensa.Cachoeira tem recebido visita da esposa, orientada por Márcio Thomaz Bastos, a convencê-lo a não detonar o arsenal contra tudo e contra todos.

Andressa, temendo que o marido não consiga o habeas corpus, conforme o jurista lhe disse, batalha para Carlinhos segurar seu arsenal de denúncias. O difícil é convencer o contraventor a mudar o alvo tendo o calor e a raiva como aliados na cela 17 do presídio em Mossoró.”

(Matéria enviada pelo comentarista Hildeberto Aleluia)

Site Consultor Jurídico confirma denúncia da Tribuna sobre os 700 milhões pagos ilegamente em São Paulo.

Reportagem de Marília Scriboni no site Consultor Jurídico, especializado em matérias da Justiça, mostra que, como último recurso para dar continuidade ao caso do excesso de juros no precatório pago pela área onde hoje fica o Parque Villa-Lobos, na zona oeste da cidade de São Paulo, o jornalista e ex-deputado Afanasio Jazadji entrou com uma representação no Órgão Especial do Tribunal de Justiça, no dia 2 de abril. Pediu a instauração de um procedimento criminal para investigar possível lesão ao erário estadual.

Como noticiou a revista Consultor Jurídico, a Ação Popular que tratava do assunto, também de autoria do jornalista, foi extinta pela juíza Alexandra Fuchs de Araújo, da 6ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo, em novembro de 2011. Ela baseou a decisão no artigo 267, inciso VI, do Código de Processo Civil, que determina o fim do processo, sem resolução do mérito, “quando não concorrer qualquer das condições da ação, como a possibilidade jurídica, a legitimidade das partes e o interesse processual”.

O principal argumento da representação entregue ao Órgão Especial é de que, no último 2 de fevereiro, a juíza Paula Micheletto Cometti determinou a remessa dos autos ao Setor de Contadoria do TJ-SP, com a finalidade de apurar se há valor depositado a mais pela Fazenda do Estado. O laudo, de 23 de março, apontou o pagamento indevido de R$ 720 milhões.

A ação tinha no polo passivo Elival da Silva Ramos, atual procurador-geral, e Marcos Fábio de Oliveira Nusdeo, antigo procurador-geral. O papel da Procuradoria-Geral de São Paulo entra na história, afirma o jornalista, com a chegada da Emenda Constitucional 30, de 2000, que permitiu que Geraldo Alckmin desse preferência à quitação de precatórios envolvendo processos de desapropriação em detrimento dos alimentares. “Como a Procuradoria pagou as seis parcelas já discriminadas ainda dentro de cada exercício, não poderia fazer incidir sobre as mesmas juros moratórios”, alegou Afanasio Jazadji.

No entanto, de acordo com a julgadora, ao extinguir a ação pela falta de legitimidade das partes, não consta que os dois procuradores “tenham assinado qualquer parecer ou determinado qualquer pagamento deste precatório em específico, de forma diferente daquela realizada para os demais precatórios […] O pagamento deste precatório obedeceu ao mesmo critério de todo e qualquer precatório pago pelo Estado”.

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MOTIVAÇÃO POLÍTICA

Em conversa com a ConJur, o atual procurador-geral do estado, Elival da Silva Ramos, declarou que a acusação de Afanasio Jazadji tem interesse “nitidamente política”. “Qualquer pessoa de boa-fé vê que isso é absurdo”, diz. “Não dá pra condenar alguém retroativamente. A PGE só segiu a jurisprudência.”

Segundo o procurador-geral, a nona parcela está bloqueada em juízo, porque havia crédito para o Estado. São R$ 300 milhões bloqueados. Como ele explica, os autores da ação entraram com recurso contra sua extinção, mas não houve recurso contra o reconhecimento, pela juíza, de que os procuradores-gerais não são parte legítima.

Há ainda, conta, uma representação contra a PGE-SP no MP, que tramita na Promotoria do Patrimônio Público, com a acusação de improbidade administrativa. Outra representação está no Tribunal de Contas do Estado, mas não faz menção à PGE, apenas descreve os fatos.

Por fim, há um inquérito criminal no Órgão Especial. Como o procurador-geral tem foro de prerrogativa, cabe ao procurador-geral de Justiça analisar inquéritos que investiguem seus atos. O Órgão Especial, explica Silva Ramos, tem duas opções: ou arquivar o caso de plano ou pedir o reexame pelo Colégio de Procuradores de Justiça.

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NOVE PARCELAS

Apesar da demora habitual no pagamento de precatórios, os empresários e primos Antonio João Abdalla Filho e José João Abdalla Filho, que eram proprietários do terreno do parque, receberam R$ 228 milhões a título de juros pela venda da área do Parque Villa Lobos, que antes comportava um lixão. Residiria aí a irregularidade do precatório, afirma o jornalista.

A área do parque tem 600 mil m2 e custou aos cofres públicos R$ 2,5 bilhões. O local, vizinho à marginal Pinheiros, foi desapropriado em 1988 pelo então governador do estado Orestes Quércia. Para o autor da ação, o problema estaria nos pagamentos efetuados entre o quarto e nono anos, que coincidem com as gestões de José Serra e de Geraldo Alckmin.

Afanasio Jazadji argumenta que o dano ocorreu porque, nas parcelas pagas entre 2004 e 2010, teriam sido computados juros moratórios indevidos. Tais débitos já teriam sido quitados dentro do exercício financeiro do vencimento, antes de 31 de dezembro de cada ano.

Em parecer dado pelo Ministério Público sobre o caso, foi dito que o critério adotado para o cálculo do valor das prestações não observou a exclusão dos juros moratórios e compensatórios. E mais: “Nem de longe é caso de se extinguir o processo sem resolução do mérito”, anotou o promotor Marcelo Duarte Daneluzzi, da 3ª Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social estadual. Como lembra o MP, o critério que deve prevalecer no caso é aquele que afasta a incidência desses juros.

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CONTAGEM DOS JUROS

Para a juíza que extinguiu o processo, “em nenhum local da Emenda 30, de 2000, foi fixado que os juros moratórios não incidirão desde a expedição do precatório, mas apenas do atraso no pagamento de cada parcela”.

E mais: ela entendeu que o não pagamento de juros compensatórios se mostrou como uma medida de cautela, “pois naquele momento o Poder Judiciário entendeu, de forma unânime, que os juros estabelecidos nas decisões transitadas em julgado deveriam ser pagos, em todas as parcelas”. E, apontou, mesmo que os juros tenham sido pagos a maior, ainda há parcela a ser paga.

Não é o que afirma Afanasio Jazadji no documento encaminhado ao Órgão Especial do TJ paulista. Segundo ele, que é representado pelo advogado Luiz Nogueira, “pacificou-se no Pleno do STF o entendimento de que, não havendo atraso na satisfação do débito, não incidem juros moratórios entre a data da expedição e a data do efetivo pagamento do precatório nos termos da ementa a seguir transcrita”.

“Por erro, distração ou inexplicável cochilo, a Procuradoria-Geral do Estado, ao calcular a quarta, quinta, sexta, sétima, oitava e nona parcelas do Precatório 0690/1992-B (da S.A. Central de Imóveis), incluiu a favor dos titulares desse crédito bilionário juros moratórios indevidos, vez que calculou e depositou espontânea e administrativamente as citadas parcelas anuais sem nenhum dia de atraso, sem mora alguma”, diz a representação.

Em uma das parcelas, aponta, teriam sido pagos 391 dias de multa, quando o certo seriam 30. No caso, o prejuízo foi de R$ 48 milhões. Segundo o advogado, o escritório que assessorou os irmãos na venda do terreno levou “a bagatela de cerca de R$ 290 milhões, a título de honorários advocatícios, com o silêncio e concordância da Fazenda do Estado”.

“A PGE contrariou a Emenda Constitucional 30, de setembro de 2000, pareceres do Ministério Público Estadual e diretrizes observadas pelo Departamento de Precatórios do próprio Tribunal de Justiça, que, por certo, não foi consultado pela Fazenda do Estado acerca dessa estranha e ilegal liberalidade”, acusa.

A representação insinua, ainda, que a juíza foi parcial em sua decisão de extinguir o processo. Diz o seguinte: “a juíza Alexandra Fuchs de Araújo, que, coincidentemente, atuou em diversas oportunidades no Setor de Execuções Contra a Fazenda Pública, entre 2006 e 2010, ocasião em que também liberou algumas das 10 parcelas dos precatórios discutidos neste procedimento, por certo, não atentando para as limitações que a Emenda 30/2000 impôs à incidência de juros moratórios quando do pagamento de parcelas de precatórios”.

Processo: 006827-82.2001.26.0053
Inquérito Civil: 542, de 2011

Mais um escândalo: Prefeitura do Rio ajuda o Judiciário a acelerar os processos que ela move contra quem atrasa IPTU.

Jorge Brennand

No Rio de Janeiro, o principal congestionamento da Justiça está na 12ª Vara de Fazenda Pública, a que julga os processos referentes ao IPTU.

Em 1º de novembro de 2008, antes da posse da presente administração municipal, o atual procurador-geral do município do Rio de Janeiro declarou no jornal O Globo que “hoje, existe mais de um milhão de ações em andamento”.

É evidente que a nova administração que assumiu a Prefeitura (Eduardo Paes) sabia que essas ações executivas fiscais – centenas de milhares – contra os contribuintes eram oriundas da cobrança do IPTU por meio de alíquotas inconstitucionais, instituídas por redação dissimulada e com o efeito oblíquo de burlar a Constituição Federal. E tudo isso com único objetivo: aumentar a arrecadação municipal!

O problema do “congestionamento” da 12ª Vara de Fazenda Pública do Rio de Janeiro poderia ser facilmente resolvido, tendo em vista que todo o lançamento do IPTU, desde o exercício de 2000, estava (e está) lastreado em lei inconstitucional, o que o tornava (e torna ainda hoje) inexistente, sem a menor validade jurídica.

Bastava proceder a anulação das ações e dos lançamentos inconstitucionais que as originaram. Mas o que fez a nova administração do município?
Procurou resolver o problema social das centenas de milhares de ações executivas distribuídas? Procurou corrigir a ilegalidade da cobrança do IPTU com base em legislação inconstitucional ?

Nada disso. Preferiu trilhar o obscuro caminho de envolver a justiça em sua aventura inconstitucional. Procurou tornar a Justiça cúmplice de suas ações inconstitucionais através do Poder Judiciário do Rio de Janeiro. E teve êxito, pois conseguiu celebrar com o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro um “convênio”, como foi divulgado, para acelerar o trâmite dessas ações executivas que cobram um tributo lastreado em lei declarada inconstitucional pelo Supremo.

Para acelerar as cobranças, o município do Rio de Janeiro/RJ presenteou a Justiça com dezenas de computadores, além de ceder funcionários municipais para atuar na vara de execuções fiscais. Esses fatos não parecem se revestir da moralidade e da ética necessárias ao exercício da atividade pública, pois é o município que processa os contribuintes nas ações executivas fiscais.

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BONIFICAÇÕES POR “PRODUTIVIDADE”

Muitos foram os beneficiados com essa arrecadação inconstitucional, não só o Poder Judiciário com a cobrança de taxas nas ações, mas também a Pprefeitura com o aumento da receita municipal, pois admitiu esse fato publicamente, através dos jornais e concedeu “bonificações por produtividade” aos funcionários da arrecadação, que alcançaram até 120% do valor correspondente ao décimo-terceiro salário dos agentes.

Como distribuir “bonificações” com dinheiro oriundo de arrecadação lastreada em lei inconstitucional? E com utilização do tributo com efeito de confisco? Não está ocorrendo – em razão do “convênio” celebrado entre a Prefeitura e o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro – promiscuidade entre os Poderes, violando o artigo 2º da Constituição Federal? Será que esses fatos são toleráveis em um Estado de Direito?

Obama se acerta com a Fraternidade Muçulmana para ficar do ‘lado certo da história’ do Egito e beneficiar Israel.

O comentarista Sergio Caldieri, sempre atento, nos manda um importante artigo sobre a estratégia dos Estados Unidos para se comporem com o partido da Fraternidade Muçulmana no Egito, que ganhou as eleições parlamentares e está chegando ao poder. O artigo explica tudo.

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OS EUA, DO “LADO CERTO DA HISTÓRIA”

MK Bhadrakumar (Indian Punchline)

Um alto dirigente da Fraternidade Muçulmana no Egito, em recente visita aos EUA, assegurou, publicamente, que os Irmãos islamitas podem aprender a conviver com o acordo de paz entre Egito e Israel. Segundo o Washington Times, a frase dele foi a seguinte: “Nós respeitamos obrigações internacionais. Ponto final.”

Perguntado especificamente se a Fraternidade Muçulmana havia proposto fazer um referendum sobre o Acordo de Camp David de 1979, respondeu com negativa firme e explicou que não haverá qualquer referendum, absolutamente, sobre obrigações internacionais. E garantiu que “todas as obrigações internacionais do governo serão respeitadas pelo partido Liberdade e Justiça, inclusive Camp David”.

O governo Barack Obama prometeu dar 1,5 bilhão de dólares para ajudar o governo chefiado pela Fraternidade Muçulmana no Cairo. A prodigalidade tem ares de negócio acertado. A Fraternidade Muçulmana quer o dinheiro para firmar-se no governo, sob a vigilância do povo egípcio, que fiscalizará seu desempenho no governo. Na essência, Washington está emprestando o dinheiro para que os Irmãos possam ‘cumprir’ as promessas que fizeram ao povo durante a campanha, e, ‘em troca’, os Irmãos aprendem a viver com Israel – ou, pelo menos, a não precipitar, bem agora, mais um front no Sinai, quando os EUA têm panelas fervendo no Irã, Síria, Iraque e Iêmen.

De bônus, Israel suspira aliviada, e os dividendos correm para a campanha de Obama, em ano eleitoral. Além disso, o ramo sírio da Fraternidade Muçulmana é também aliado de Turquia, Arábia Saudita e Qatar, todos parceiros dos EUA na empreitada de derrubar o governo de Damasco. Há notícias de que os Irmãos sírios já se encontraram secretamente com agentes israelenses. Como se vê, o mundo é mesmo pequeno…

Tudo isso torna infinitamente interessantes as próximas eleições presidenciais no Egito, dias 23 e 24 de maio. A Fraternidade Muçulmana mudou de ideia e decidiu apresentar, como candidato, seu número 2, Khairat El-Shater. Seus adversários incluem três nomes facilmente identificáveis como do establishment da era Hosni Mubarak – o ex-ministro de Relações Exteriores e chefe da Liga Árabe Abu Moussa; o ex-comandante da inteligência de Mubarak, Omar Suleiman (chamado amorosamente de “o açougueiro do Cairo”); e o ex-primeiro-ministro Ahmed Shafiq.

A aliança tática entre os Irmãos e os militares egícios provavelmente rachou. E a Fraternidade Muçulmana também tem de concorrer contra os salafistas ultraconservadores baseados na Arábia Saudita e contra a plataforma islamista centrista de Al-Azhar. A plataforma islamista está gravemente fragmentada, e, aos olhos dos EUA, a Fraternidade Muçulmana parece mais homogênea.

Em resumo, Obama joga para ganhar nas duas pontas: se der cara, ganha; se der coroa, não perde. Os EUA têm fortes laços com os militares egípcios, próximos dos sauditas e qataris (mentores dos salafistas). Agora, estão abertamente enlaçando os Irmãos. Perdem, é claro, os liberais e os secularistas egípcios, que deveriam ser aliados ‘naturais’ dos EUA na revolução democrática.

Mas é que os EUA querem estar “do lado certo da história”.

Demóstenes sofre a primeira derrota na Justiça: as gravações valem como provas contra ele.

Carlos Newton

É o assunto do momento. Com a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski, considerando provas legais as escutas telefônicas feitas pela Polícia Federal, que gravou centenas de conversas entre o empresário-bicheiro Carlinhos Cachoeira e o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO), a defesa do parlamentar na Justiça começa a desmoronar.

Os advogados de Demóstenes pretendiam desconsiderar as gravações como provas válidas contra o senador, que tem foro privilegiado no Supremo, mas a tese não foi aceita, porque as gravações das conversas de Cachoeira foram autorizadas judicialmente.

Demóstenes Torres é acusado de tráfico de influência para favorecer o empresário-bicheiro. A relação entre o parlamentar e Carlinhos Cachoeira começou a ser divulgada pela imprensa depois que a Operação Monte Carlo, da Polícia Federal (PF), levou Cachoeira e mais 34 pessoas para a cadeia, no final de fevereiro.

O vazamento para a imprensa das conversas telefônicas colhidas pela PF mostrou que, além de conhecer a atuação de Cachoeira com o jogo ilegal, Demóstenes também participava do esquema do contraventor. O senador foi flagrado em conversas nas quais combina interferir em assuntos ligados ao lobby pela legalização do jogo no Brasil em troca de favores de Cachoeira.

O ministro Ricardo Lewandowski, que é relator do processo, também pediu informações sobre o caso aos juizes da 11ª Vara da Justiça Federal – Seção Judiciária do Estado de Goiás – e da Vara Única da Subseção Judiciária de Anápolis, que autorizaram as escutas telefônicas. O ministro determinou ainda que os autos do processo sejam encaminhados à Procuradoria-Geral da República.

Na semana passada, o STF autorizou a abertura de inquérito para investigar a participação de Demóstenes Torres no esquema de Carlinhos Cachoeira. Lewandowski então determinou a quebra do sigilo bancário do senador e pediu levantamento das emendas parlamentares apresentadas pelo político goiano, para constatar se há relação com os interesses do bicheiro. 

Traduzindo tudo isso: as chances de Demóstenes escapar da cassação são cada vez menores.

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PS – Em boa hora, o comentarista  Lafaiete Nogueira De Marco lembra-nos que o plenário do STF ainda não decidiu a respeito, e a bola ainda vai rolar.

Lembranças oportunas (1)

Carlos Chagas

Nos idos de janeiro de 1972, recém-chegado a Brasília para assumir a direção de “O Estado de S. Paulo” na capital federal, ouvi de um amigo que havia passado por aqui o ex-presidente Juscelino Kubitschek, embora proibido pelo governo militar. Ele comprara uma fazendinha lá para os lados de Luziânia e nela costumava refugiar-se com frequência.

Mas não podia desembarcar no aeroporto comercial, nos limites da cidade. Obrigava-se a chegar e utilizar um aeroclube na cidadezinha de Formosa, do outro lado do Distrito Federal. Claro que num precário teco-teco.

Telefonei para o presidente, então com gabinete no Banco Denasa, no Rio, que um ex-genro depois fez questão de expulsá-lo, num gesto de ingratidão digno de ficar para a História. JK narrou-me todo o episódio. Naquela oportunidade, retornando à antiga Capital, como sempre tendo que contornar Brasília, ia na cabine de um caminhão, conduzido por um amigo. Era de tarde, chovia a cântaros.

Ele estava sem paletó, de chapéu de palha. Teve uma tentação, que transmitiu ao amigo: em vez de dar a volta, porque não cortariam caminho passando pelo centro de Brasília? Desde sua cassação em 1964, não podia ver a cidade por ele criada. Entraram pela avenida do Catetinho, primeira residência para ele desenhada por Oscar Niemayer, nos tempos em que a Capital repousava nas pranchetas. Uma construção de madeira, transformada em museu.

Estacionaram defronte e, apesar da água que caia, desceu da viatura. A memória começara a funcionar, trazendo-lhe imagens daquele período desafiante e feliz da construção da cidade. O zelador de plantão, abrigado da chuva, contou haver feito uma promessa, quando se deparou com JK parado, com as mãos na cintura: deixaria de beber naquele momento mesmo! Era um fantasma que estava vendo, apesar de sem gravata e de chapéu de palha.

O caminhão tomou o rumo da cidade e entrou pela Avenida W-3 – Sul, naquela época centro do comércio local. Nem dava para ver direito as lojas e restaurantes, tamanho o aguaceiro, mas ficou impressionado com o número de bancos lá instalados.

Dobraram à direita e entraram na Esplanada dos Ministérios. Diante da catedral, outra parada. Não conhecia o monumento, erigido depois de sua cassação. O motorista foi primeiro, para verificar se havia muita gente na igreja. Se houvesse, não desceria. Sorte: só duas ou três beatas rezando o terço. Extasiou-se com mais aquela “obra do Oscar”. Entendeu de pronto a mensagem das colunas de cimento reunindo-se e tomando o rumo do infinito, como numa oração eterna. Ajoelhou-se, rezou e sentiu o primeiro nó na garganta.

Dali, ainda debaixo do temporal, foram à Praça dos Três Poderes. À direita o Supremo Tribunal Federal, à esquerda o Palácio do Planalto, atrás o Congresso. Diante dele, o pequeno museu da criação da Brasília, com seu rosto gravado em bronze na parede externa. Não se conteve. Suas lágrimas misturavam-se às que caíam do céu. Tinha valido à pena, pensou, sem mágoas para o general de plantão que devia estar no terceiro andar do Planalto.

A saída pela W-3-Norte, ainda incompleta, e um sentimento que, relatou-me pelo telefone, deveria ter sido o mesmo de um súdito das Gálias que pela primeira vez entrasse em Roma. Não falou, mas aquela era a sua Roma, que havia erigido tijolo por tijolo, e que agora lhe negavam a presença.

Anos depois um ex-agente do SNI revelou que o presidente não passara sozinho por Brasília. Fora acompanhado de longe por arapongas, numa viatura encarregada de vigiá-lo permanentemente. O agente contou não ter tido coragem de abordá-lo, exigindo que se retirasse de imediato ou conduzindo-o a um quartel.

Na posse das informações sobre a inusitada visita, escrevi um artigo para “O Estado de S. Paulo”, sob o título “Brasília não vê JK chorar”, reproduzido em seguida por diversos outros jornais. Começou ali meu relacionamento com o presidente, a quem tinha visto e entrevistado no passado apenas de forma profissional.

Seguidas vezes, aos domingos, ia visitá-lo na fazendinha. Ele não era daqueles políticos cheios de informações, que fazem a felicidade dos jornalistas. Dele fluíam sentimentos, assim como memórias permanentes. Fui tomando conhecimento, ao vivo, de centenas de episódios da vida dele, de seu governo e de seu calvário político.

Contou-me, por exemplo, que ainda governador de Minas, mas já pré-candidato à presidência da República, compareceu ao palácio do Catete para uma audiência com o então presidente Café Filho, adversário implacável de sua candidatura. O tema que ia tratar dizia respeito aos preços mínimos do café, que seu estado produzia aos montes. Lá em cima, primeiro a surpresa: Café Filho tratou-o com desmesurada gentileza, chegando a levantar-se da cadeira presidencial e pedindo que ele nela sentasse.

Meio sem jeito, sentou, quando o presidente mudou de tom, tornou-se agressivo e disse: “Esta foi a primeira e a única vez que você ocupou essa cadeira. Você não será presidente, até porque os ministros militares não querem!”

Irritado, JK deu a audiência por terminada e desceu até a sala de imprensa. Os jornalistas não tinham a menor idéia do que se passara. Foram logo perguntando sobre o café, claro que não o presidente. Vingou-se: “De que café você está falando, meu filho, do vegetal ou do animal?”

Naquela noite a Hora do Brasil divulgou o manifesto dos ministros militares, contra sua candidatura. Reunido com amigos em seu apartamento, em Copacabana, aceitou a sugestão de Augusto Frederico Schmidt, telefonou para o “Correio da Manhã” e ditou sua reação, começando com a frase lapidar de que “Deus poupou-me o sentimento do medo”.

Não é essa a oportunidade para referir o que foi o governo de Juscelino Kubitschek, muito menos para concordar com um certo sucessor dele, responsável pela falsa imagem de que a paciência era sua maior qualidade. Bobagem. Ele era a impaciência em pessoa, queria tudo pronto e resolvido o mais breve possível, como ainda há dias retificou sua filha Maristela.Tão impaciente que mudou o Brasil. (Continua amanhã)

Contra a obesidade, o fumo, a bebida e a inércia só a publicidade

Pedro do Coutto

Reportagem de excepcional importância para a vida humana de Johana Nublat, Folha de São Paulo de quarta-feira 11, revelou, com base em números do próprio Ministério da Saúde, que 48,5% da população brasileira encontram-se acima do seu peso normal, sendo a taxa de 15,8% abrange aquelas excessivamente obesos. Os índices duvidem-se praticamente em partes iguais entre homens e mulheres.

Os excessivamente obesos, faixa de risco para doenças graves, estão exigindo tratamento médico. A obesidade, acentuou o ministro Alexandre Padilha, tornou-se um problema de saúde pública. Exatamente como é considerado nos Estados Unidos. Contra a inércia, sempre perigosa, os exercícios físicos leves.

O que acentua a questão é que a faixa dos que se situam acima da pesagem ideal cresceu de 42%, em 2006, para 48,5% em 2011. E os obesos problemáticos subiram, no mesmo período, de 11,4 para 15,8%. O quadro é grave. Acarreta consumo maior de remédios e mesmo internações hospitalares com frequência fora do normal.

Outro problema enorme é o fumo. Caiu de 2006 a 2011. Porém, recuou pouco: desceu de 16,2 para 14,8%. Preocupa extremamente o consumo de bebidas alcoólicas, de maneira acentuadamente continua para 26% dos homens e 17% das mulheres. Algo necessita ser feito, com urgência, para que declinem todos esses índices negativos do comportamento humano.

A propaganda de cigarros está proibida. Mesmo assim, o recuo foi pequeno. Era para ser muito maior em face do alto risco que representa, sobretudo de câncer. O índice de alcoolismo é responsável por uma desagregação social, a começar pela família, das mais graves. Comer de mais faz mal. Fumar nem se fala, beber tampouco. É difícil enfrentar tais questões. Mas não impossível.

Em 1971, em artigo que escrevi no Correio da Manhã, assinalei que a publicidade possui um potencial muito maior do que se imagina normalmente. Só ela, uma vez bem elaborada, conduzida, veiculada, pode propiciar resultados positivos na saúde humana, já que uma parte das pessoas não cuida bem de si mesma. Parece uma contradição. E é.

Aliás, a existência humana está plena de contradições. Homens e mulheres inteligentes, de boa formação cultural, volta e meia envolvem-se nas atitudes mais absurdas, numa série de atitudes descabidas, de decisões impróprias. Minha mulher, Elena, sempre sustenta o exemplo da Dengue. Exige campanha permanente o ano todo, não somente no verão. Mas não é realizada.

O poder público, entre os investimentos voltados para a saúde, deveria incluir a publicidade em larga escala. Pois se ela é capaz de vender produtos que se renovam, apelando para a renovação de modelos, por que não será capaz de vender a ideia de comer menos, ingerir menos açúcar, consumir menos bebidas alcoólicas e, principalmente, não fumar.

Fumar de modo algum. Sobretudo porque o fumante não apenas se autoenvenena, como contribui para envenenar os outros não fumantes. O fumo é um vício horrível. Inclusive cada vez mais rejeitado pela sociedade. Pode-se explicar bem o fenômeno pela reação negativa que os fumantes causam ao longo de reuniões sociais, sejam em locais fechados ou não.

O apelo de tais campanhas, penso eu, é conduzir à experiência de moderar a alimentação e sentir-se mais leves, melhor disposto. De deixar o cigarro e comparar as sensações entre antes e depois. De pelo menos diminuir o álcool e verificar seu efeito negativo para a saúde e desagregador junto à mulher e aos filhos. A publicidade deve se direcionar para a verificação de efeitos comparativos. Maciça, ela surtirá efeito. É por aí.

Escravos do Ar

Em 78, no governo Geisel, o ministro da Agricultura Alysson Paulinelli, os jornalistas Silvestre Gorgulho e Paulo Cotta, assessores e técnicos, decolaram em Maceió, no avião do ministro, para uma exposição pecuária em Batalha. Atrás, em pequeno monomotor, os senadores Arnon de Mello e Luis Cavalcanti, o “Major”, general da reserva, e Luis Fernando Pinto.

Daí a pouco, o monomotor se perde inteiramente. Fica um tempão rodando entre nuvens carregadas, sem rumo nenhum, a gasolina acabando, o pânico chegando. O senador Arnon, tenso, calado. Luis Fernando, apavorado. O senador Luis Cavalcanti, o “Major”, reclamando, suando. O piloto, desesperado, aponta uma velha pasta 007, estragada, suja, embaixo das cadeiras:

Senador Cavalcanti, pegue aí dentro, por favor, minha carta de vôo.

– Aqui não há carta de vôo. Aqui só há o “Guia 4 Rodas”.

– Pois é ele mesmo. Ele é minha Carta de Vôo.

– Você é um irresponsável. Vou cassar sua carteira de piloto. Onde já se viu usar um guia rodoviário como carta de vôo?

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COMO UM BODE

Mais um pouco, pelo “Guia 4 Rodas”, o piloto descobriu a estrada para Batalha. Foi por cima dela algum tempo, animou-se:

– Senador, fique tranqüilo. Agora já achei o raio da rota. Vou virar aqui pela direita e daqui a pouco estamos lá. É mais fácil.

– Nada disso, seu irresponsável. Você agora vai ter que ir pela estrada, fazendo as curvas, passando por cima dos viadutos, devagarinho e certo. Tem que ir como um bode. Ouviu? Como um bode!

Chegaram a Batalha. Como os bodes.

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AVIAÇÃO

Deus seja louvado, a aviação brasileira não voa pelo “Guia 4 Rodas” nem como os bodes. É uma das mais modernas e seguras do mundo. Aviões de último tipo. Quando o País sofre um Apagão Aéreo, a culpa não está nos aviões, mas nos governos, nos dirigentes, nos homens.

O Brasil segue o velho crime de as coisas serem feitas não para serem feitas, mas para alguém ou alguns ganharem dinheiro ao serem elas feitas. Temos tecnologia aeronáutica maravilhosa, aviões e aeroportos maravilhosos, até um Aerolula, mas aeronautas e aeroviários, pilotos, comissários e controladores de vôos às vezes submetidos a um sistema de trabalho escravista. Não é de agora e não é por falta de denúncias e duras lutas.

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AERONAUTAS

No dia 28 de dezembro de 1979, escrevi na Tribuna uma coluna – “Os Escravos do Ar” – denunciando “uma profissão de cão: a consciência do risco, a intimidade com o perigo, a tensão da responsabilidade, que fazem os cabelos dos aviadores embranquecerem mais rápido e a elegância das esgalgas aeromoças ruir mais cedo, subindo e descendo todo dia, toda hora”.
“Trancados em cabines pressurizadas, respirando um ar artificial, vivendo e convivendo com a paciência, para enfrentar a natural neurose antiaérea dos passageiros, aqueles magotes de homens vestidos de azul marinho e lindas meninas de lenço no pescoço, entrando nos hotéis tarde da noite, saindo às cinco da manhã, dando plantão nos aeroportos, numa permanente e terrível disponibilidade, parecem príncipes e princesas, e tantas vezes são escravos”.

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CONTROLADORES

Naquela época, eles começavam uma luta comandada pelo Sindicato Nacional dos Aeronautas e pelas Associações de Pilotos. Eram os únicos brasileiros que trabalhavam legalmente mais de 8 horas por dia: 11 horas, 8 voando e 3 à disposição das empresas, nos aeroportos, nos hotéis, em casa.

Mais escravos ainda eram os controladores de vôo: amarrados aos monitores, os olhos esbugalhados, a vida dos outros nas mãos e ganhando salários ridículos, inacreditáveis. No dia seguinte, denunciei também a escravidão deles. Está aqui: – “Os Anjos do Céu”, 33 anos atrás. No centro da escravidão, um erro básico: o DAC (Departamento da Aeronáutica Civil) era subordinado ao Ministério da Aeronáutica.

No mundo inteiro, a aviação é subordiana a ministérios civis. Militarizados, não podiam fazer greve. Escrevi o terceiro artigo: – “O Pássaro Civil – O Avião é um Pássaro Civil”. Há 33 anos. O jornal dos aeronautas passou a chamar-se “Pássaro Civil”.

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PÁSSARO CIVIL

A luta é longa. Em 1983, chegou ao Congresso. Na Câmara dos Deputados, o bravo Flávio Bierrenbach (PMDB-SP), neto de Flores da Cunha, também entrou na briga. Tivemos a primeira vitória: o tempo de trabalho caiu para 8 horas diárias: 6 voando, 2 à disposição das empresas. E ganharam um aumento salarial.

Mas a situação dos controladores de vôo continuou inalterada, sufocante, desesperadora, 33 anos depois. Apenas com pequenos reajustes. Não me venham agora os responsáveis do governo dizerem que não sabem de nada.

Assessor suspeito de ligação com Cachoeira vai a evento de Dilma

Em mais uma demonstração de que conta com apoio do governo, o assessor do Palácio do Planalto Olavo Noleto, que teve contato com um dos principais aliados do empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, participou quinta-feira de cerimônia do programa Minha Casa, Minha Vida, em solenidade comandada pela presidente Dilma Rousseff.

O assessor é subchefe de Assuntos Federativos da Secretaria de Relações Institucionais e uma das atribuições é o relacionamento com governadores, prefeitos e políticos, além de empresários suspeitos, como Cachoeira, é claro.

No evento no Planalto, Noleto manteve, como de costume, postura discreta. Sentou em uma das primeiras filas em frente ao palco, mas não foi citado pela presidente nem pelo ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro, certamente por esquecimento.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Não deve causar estranheza a participação de Noleto em cerimônias oficiais do Planalto. Ora, se a ex-chefe da Casa Civil Erenice Guerra, totalmente emporcalhada pelo tráfico de influência que realizou no Planalto, foi convidada e compareceu à posse de Dilma Rousseff na Presidência da República, dando adeusinhos aos fotógrafos e tudo o mais, por que Noleto tem de ser discriminado? Ele é apenas um dos membros da quadrilha. Apenas isso. Merece respeito.

Roseana Sarney também não leu o Código de Conduta de Sergio Cabral

Carlos Newton

Infelizmente, está comprovado que o Código de Conduta Ética editado pelo governador Sergio Cabral foi um fracasso total. Até agora, não se descobriu um só político ou autoridade da administração pública que tenha lido a obra de Cabral, que mandou redigir quando descobriram que ele tinha ligações íntimas com empresários, especialmente o empreiteiro Fernando Cavendish, hoje também envolvido com Carlinhos Cachoeira.

A governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PMDB-MA), por exemplo, embora seja do mesmo partido de Cabral, não passou os olhos no livrinho. Se tivesse lido, não teria viajado aos Estados Unidos em um jatinho de um empresário do Estado, como informa reportagem de Rubens Valente e Andréia Sadi, publicada na Folha.

O avião foi cedido por Mauro Fecury, que já foi prefeito de São Luís e vice-governador, e é dono de uma gráfica e de uma universidade privada em São Luís, que por coincidência tem convênio com o governo.

A família toda não leu o livro de Cabral, pois recentemente o patriarca José Sarney usou um helicóptero do Maranhão em viagem particular e se justificou dizendo que não prejudicou ninguém.

Tal pai, tal filha. A governadora embarcou no dia 4. O uso do jatinho foi confirmado pela assessoria do governo: “O avião que levou a governadora aos EUA faria a mesma viagem, na mesma data e no mesmo horário, vez que naquele período passaria por procedimento de manutenção”.

O governo negou irregularidades -“Não há problema em aceitar a carona oferecida por um amigo” – e disse que a viagem de Roseana foi oficial. “Não houve fretamento nem qualquer outro procedimento que gerasse despesa ao Estado”.

Pelo jeito, Cabral precisa distribuir melhor seu livro, pois não faz sucesso mesmo.

Vem aí a CPMI do Cachoeira. E a CPI da Privataria Tucana, quando virá?

Irmanados no mesmo ideal, digamos assim, o governo e a oposição começaram ontem a coletar assinaturas de deputados para criação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que vai apurar a participação de parlamentares, agentes públicos e privados no esquema montado pelo empresário de jogos ilícitos Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, investigado pela Operação Monte Carlo, da Polícia Federal.

Os deputados estimaram que até o final da próxima semana será possível instalar a CPMI. “Não haverá dificuldade para a coleta [das assinaturas] porque há um acordo entre os partidos. Se tudo correr bem, até o final da próxima semana, podemos instalar a CPMI. Vai depender das negociações, das indicações dos nomes e da agilidade dos partidos”, disse à Agência Brasil o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS).

“Não temos a menor dúvida que terça-feira [17/4] até o meio da tarde, quando retornam os congressistas, teremos número suficiente para protocolar a comissão”, acrescentou o líder do PSDB, Bruno Araújo (PE). Para a instalação são necessárias, pelo menos, 171 adesões de deputados e 27 de senadores.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGEnquanto esteve na oposição, o PT defendia com unhas e dentes a formação de CPIs. No exercício do governo, é claro, as coisas mudaram. Agora, o presidente da Câmara, o petista gaúcho Marco Maia, promete instalar a CPMI até o final da próxima semana, numa velocidade impressionante. E aí surge uma pergunta: e a CPI da Privataria Tucana, quando vai sair? Se é que vai sair…

Afinal, por que Tiririca desistiu da Prefeitura de São Paulo?

Carlos Newton

Como diz seu slogan eleitoral, Tiririca sabe que, com ele,  “pior não fica”. Se fosse candidato a prefeito de São Paulo, tinha poucas chances de ser eleito, mas quem sabe o que aconteceria? O eleitorado está tão descrente dos políticos profissionais que poderia até votar nele, como forma de protesto. É uma possibilidade meio remota, mas que não deve ser descartada.

Seu nome tinha sido apontado pelo PR como pré-candidato, em uma tentativa de valorizar o partido e pressionar a presidente Dilma Rousseff a devolver à legenda o comando da pasta dos Transportes, uma das maiores máquinas caça-níqueis do governo.

Mas a estratégia não funcionou e Tiririca, que nunca mais foi procurado pelos correligionários para tratar do tema, disse ao repórter Eduardo Bresciani, do Estadão, que desistiu de disputar a prefeitura de São Paulo.

“Mal comecei a campanha e já acabou. Eu não estou preparado para isso e no partido não me falaram mais nada sobre essa candidatura. Disseram que iam fazer pesquisa e não me procuraram mais. Então eu não vou ficar alimentando isso. Estou fora”, afirmou o deputado federal.

Abandonado por sua legenda, Tiririca decidiu deixar de fazer parte do jogo do PR. Disse que vai focar sua atenção em projetos que apresentou na defesa de artistas de circo. “Quero mostrar que um palhaço pode fazer coisa séria”.

Como a política hoje é um a piada, Tiririca deveria ser levado mais a sério.