Indios vendem a estrangeiros os direitos sobre uma reserva 16 vezes maior do que a cidade de S. Paulo.

Estava demorando. Reportagem do Estadão revela que, por US$ 120 milhões, índios da etnia mundurucu venderam a uma empresa estrangeira direitos sobre uma área com 16 vezes o tamanho da cidade de São Paulo em plena floresta amazônica, no município de Jacareacanga (PA).

O negócio garante à empresa “benefícios” sobre a biodiversidade, além de acesso irrestrito ao território indígena. No contrato, ao qual o Grupo Estado teve acesso, os índios se comprometem a não plantar ou extrair madeira das terras nos 30 anos de duração do acordo.

Qualquer intervenção no território depende de aval prévio da Celestial Green Ventures, empresa irlandesa que se apresenta como líder no mercado mundial de créditos de carbono.

Sem regras claras, esse mercado compensa emissões de gases de efeito estufa por grandes empresas poluidoras, sobretudo na Europa, além de negociar as cotações desses créditos. Na Amazônia, vem provocando assédio a comunidades indígenas e a proliferação de contratos nebulosos semelhantes ao fechado com os mundurucus.

A Fundação Nacional do Índio (Funai) registra mais de 30 contratos nas mesmas bases, vejam que a entrega da Amazônia já começou e ninguém faz nada.

Dilma tira mais um indicado de Lula. Será que vai mesmo começar a governar?

O comentarista José Carlos Werneck anunciou aqui no Blog que Dilma Rousseff estava começando a governar. Outros comentaristas o contestaram, mas tudo indica que Werneck está com toda a razão. Hoje, a presidente Dilma tirou mais um indicado pelo ex-presidente Lula. Desta vez, foi abatido o líder do governo, deputado Cândido Vaccarezza. Confiram a reportagem abaixo, de Maria Clara Cabral, da Folha:

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A QUEDA DE VACCAREZZA

Maria Clara Cabral

Apesar de claramente emocionado, o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) afirmou nesta terça-feira que deixa a liderança do governo na Câmara sem ressentimentos e que continuará sendo um soldado da presidente Dilma Rousseff. “Encaro isso sem ressentimento, sem mágoas e com naturalidade”, disse.

Para o deputado, sua saída acontece por motivação política, não por derrotas pessoais, já que, segundo ele, o governo só “teve vitórias” na Câmara. O petista admite, porém, não saber aonde a presidente “quer chegar” ao dizer que vai fazer um rodízio nas lideranças.

Vaccarezza admitiu ainda que sua substituição pode causar um estremecimento na Câmara, sem votações importantes nesta semana. “Eu era amigo pessoal dos líderes, até mesmo da oposição, por isso [um estremecimento] é natural. Mas a partir da semana que vem já vai ser tranquilo”, justificou.

O petista demonstrou mágoa ainda ao admitir que soube da sua substituição pela imprensa. Ele foi chamado ontem para uma conversa de uma hora e meia com Dilma na manhã de hoje.

“Não acho que foi uma boa conduta dessas pessoas [que vazaram sobre a sua demissão], mas tenho certeza que isso não contou com o apoio de Dilma”, afirmou.

Em entrevista coletiva nesta terça, Vaccarezza disse não saber qual será a periodicidade desse rodízio e nem quem o substituirá no cargo. O petista disse que a presidente pediu uma indicação de um nome, mas ele preferiu não opinar, dizendo apenas que achava que o escolhido tinha que ser anunciado hoje.

“A presidente está com uma correlação clara das forças do Congresso, mas eu não sei quem será o novo escolhido”, disse.

Ele negou, porém, que sua saída possa repercutir negativamente na Câmara, como na eleição do próximo presidente da Casa e minimizou qualquer crise na base aliada. Disse que a partir de agora trabalhará em projetos pessoais.

Cândido Vaccarezza foi líder do governo durante mais de dois anos e já foi líder do PT. Ele foi indicado ao cargo pelo ex-presidente Lula.

Além dele, Romero Jucá (PMDB-RR) também foi substituído por Eduardo Braga (PMDB-AM) na liderança do governo no Senado.

Poluição do ar mata, por ano, cerca de 2 milhões de pessoas no mundo

Paulo Peres

Inspirado no derramamento de petróleo no litoral fluminense, a partir de um poço da americana Chevron, o senador brasiliense Rodrigo Rollemberg (PSB) apresentou projeto de lei que aumenta as multas aplicadas aos poluidores. Resta-nos saber o valor dessas multas.

Aproximadamente, 2 milhões de pessoas morrem, anualmente, no mundo vítimas da poluição do ar, revela um estudo feito pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que analisou dados de 1.100 cidades, de 91 países, com mais de 100 mil habitantes.

Segundo especialistas, a contaminação do ar pode levar a problemas cardíacos e respiratórios, com mortes prematuras, que poderiam ser evitadas através de políticas de prevenção.

“A poluição atmosférica é um grave problema de saúde ambiental. É vital que aumentemos os esforços para reduzir o impacto na saúde que a poluição atmosférica produz, cotidianamente”, afirma a diretora de Saúde Pública e Meio Ambiente da OMS, Maria Neira. “Somente em 2008, cerca de 1,34 milhão de pessoas morreram prematuramente por causa dos efeitos da poluição sobre a saúde”.

Segundo a especialista, ” é necessário que as autoridades de cada país façam monitoramentos constantes para medir a poluição do ar, pois só assim podemos reduzir significativamente o número de pessoas que sofrem de doenças respiratórias e cardíacas e até de câncer de pulmão”.

Para Neira, “é fundamental lembrar que a poluição do ar é provocada por vários fatores, como os gases de escapamentos dos veículos, a fumaça de fábricas e fuligem das usinas de carvão. Em muitos países não há qualquer regulamentação sobre a qualidade do ar. Quando há normas nacionais, elas variam muito na sua aplicação”.

Na China, o governo reconhece que morrem por ano cerca de 400 mil pessoas vítimas da poluição. Como a China é o país mais poluído do mundo, a imprensa não é livre e governo divulga o que bem entende, pode-se multiplicar esse número por cinco ou até por dez, chegando a um total de mortos muito maior ao admitido pela ONU,

Imprensa internacional destaca a renúncia de Ricardo Teixeira

A imprensa mundial deu amplo destaque à renúncia de Ricardo Teixeira à presidência da CBF e do COL em seus sites. No site da ‘BBC’, um dos primeiros a veicular as denúncias de corrupção e compra de votos na Fifa envolvendo Ricardo Teixeira e João Havelange, destacou a notícia com o título “Brazil football chiefs steps down” (Chefe do futebol brasileiro deixa o cargo).

O site lembra que Teixeira havia se licenciado do cargo na semana passada por motivo de doença, sem especificar qual. E, que apesar da pressão por causa das acusações recentes, foi mantido no cargo em votação dos presidentes das federações.

A reportagem cita outras acusações, como lavagem de dinheiro e evasão de divisas, mas ressalta que Teixeira nunca foi condenado e sempre negou todas as denúncias.

O também inglês ‘The Guardian’ foi sucinto, apenas noticiou a saída de Teixeira por razões médicas e informou que o ex-governador de São Paulo José Maria Marin será o novo presidente de ambos os cargos: “Ricardo Teixeira resigns from Brazil FA and 2014 World Cup committee” (Ricardo Teixeira renuncia à CBF e ao COL-2014).

O jornal americano ‘Washington Post’ também noticiou a saída de Teixeira em seu site. A reportagem recordou que o dirigente havia se afastado ano passado por causa de problemas intestinais e o motivo alegado para a renúncia foi a saúde.

Ainda nos EUA, a reportagem do site da revista ‘Sports Illustrated’ destaca que ainda não está claro se Teixeira deixará também o comitê executivo da Fifa, do qual é membro desde 1994.

Na Espanha, o periódico ‘Marca’ publicou no site a notícia da renúncia do presidente da CBF e do COL (“Teixeira renuncia a la CBF después de 23 años”) destacando que Ricardo Teixeira sofria pressão da sociedade que, por meio das redes sociais, pedia sua saída. Acrescentou que a imprensa brasileira já vinha especulando sua retirada do cargo desde que denúncias recentes de corrupção vieram à tona e por causa do desgaste com o governo brasileiro referente à Copa de 2014.

Na seção do site chamada ‘Marca Américas’, destinada ao futebol sul-americano, o jornal espanhol destacou a declaração de Romário: ‘Teixeira era um câncer do futebol’.

Ministro Fernando Pimentel pode ser a próxima vítima, nesse nunca-acabar de corrupção

Reportagem de Luiza Damé, em O Globo, revela o que ninguém esperava. O conselheiro Fábio Coutinho votou, segunda-feira, pela abertura de procedimento ético contra o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, mas o conselheiro Ricardo Caldas pediu vista. A Comissão de Ética Pública da Presidência deverá decidir sobre o caso de Pimentel em sua próxima reunião, no dia 26 de março.

Em seu voto, Coutinho pediu que o ministro dê explicações sobre seu trabalho de consultor entre 2009 e 2010. A comissão vai decidir sobre a continuidade ou o arquivamento do procedimento ético contra Pimentel.

Em dezembro do ano passado, foi revelado que Pimentel faturou R$ 2 milhões, entre 2009 e 2010, com consultorias, inclusive durante o período em que ele atuou como um dos coordenadores da campanha eleitoral da presidente. Metade desse valor foi pago pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), por serviços de consultoria na elaboração de projetos na área tributária e palestras nas dez regionais da entidade, mas as palestras nunca ocorreram.

Com base nas reportagens, o PSDB apresentou representação contra Pimentel na comissão, pedindo avaliação da conduta do ministro “em razão da possível prática de ato atentatório contra os princípios éticos que norteiam as atividades dos órgãos superiores da Presidência da República e a quebra de decoro por parte do representado”.

A Comissão de Ética decidiu também pedir informações ao ex-vice presidente do Banco do Brasil Alan Toledo sobre sua movimentação bancária de R$ 953 mil, no ano passado. Toledo disse que o dinheiro seria da aposentada Liu Mara Fosca Zerey e referente à venda de um imóvel em São Paulo.

Por fim, a comissão determinou ainda aplicar censura ética ao ex-ministro da Agricultura Wagner Rossi pela utilização de aeronave da Ourofino Agronegócios para viagens particulares.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Antes tarde do que nunca, diz o ditado. Agora, vamos aguardar se a Comissão aprova o parecer e se o ministro conseguirá explicar o inexplicável. Mas que ninguém esqueça que o mesmo relator, Fabio Coutinho,  absolveu Antonio Palocci das mesmas acusações. Mudou ele, ou mudou a conjuntura, como diz o comentarista José Carlos Werneck, ao dizer que finalmente Dilma Rousseff começou a governar?

A desfaçatez continua: Senado vai aumentar o número de cargos em comissão.

Reportagem de Chico de Góis e Roberto Maltchik, de O Globo, revela que o projeto de reforma administrativa do Senado, com votação prevista para esta quarta-feira na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), poderia estancar o descontrole de cargos comissionados nos gabinetes parlamentares, especialmente nos estados, mas vai acontecer justamente o contrário.

A proposta original, apresentada em 2009 e subsidiada por estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), previa que nenhum senador poderia contratar mais de 25 funcionários de confiança. Porém, depois de se arrastar por mais de dois anos sem votação, a reforma já não é mais a mesma, e, agora, cada senador poderá empregar até 55 servidores – isso se a proposta realmente for aprovada.

Na segunda-feira, os dois repórteres mostraram que o artifício da multiplicação de cargos comissionados – que não exigem concurso público – leva a casos extremos, como o de Ivo Cassol (PP-RO), que emprega 67 pessoas em Brasília e em dois escritórios regionais.

“O Guia do Parlamentar” – cartilha elaborada pela diretoria do Senado e entregue a cada um dos senadores quando assume o mandato – diz que, em regra, o gabinete é composto por 12 comissionados. Mas, com o fracionamento, o limite se eleva a 76 comissionados para cada um dos 81 senadores, vejam a que ponto chegamos.

Estadão revela que Lula também recorre a tratamento espiritual para curar o câncer.

Reportagem de Alana Rizzo, de O Estado de S. Paulo, informa que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está sob os cuidados dos melhores médicos do País, no Hospital Sírio-Libanês, mas também foi buscar a “saúde da alma” em uma pequena comunidade do interior de Goiás.

João de Deus, um médium especializado em cirurgias espirituais que mal sabe ler e escrever, é quem o acompanha. Ele atende milhares de pessoas em sua clínica espiritual.

Atribuem-se a João Teixeira de Faria, nome real de João de Deus, feitos como fazer cegos enxergarem, reduzir tumores e conseguir que paraplégicos voltem a andar. Uma de suas façanhas é inegável. Ele transformou a pequena Abadiânia, com 15 mil habitantes, em pólo turístico internacional.

Semanalmente, milhares de pessoas dos mais diversos países gastam pelo menos U$ 2 mil para chegar ao município, distante 117 km de Brasília, em busca da cura espiritual, seja por meio da água fluidificada, do remédio feito à base de passiflora ou pelas cirurgias visíveis (com pinças gigantes, tesouras e facas de cozinha) e invisíveis.

Desde que o ex-presidente começou o tratamento no Hospital Sírio e Libanês. Lula e João de Deus se encontraram ao menos três vezes em São Paulo. Porém, ninguém fala abertamente sobre os vínculos entre os dois.

“Lula é um bom filho. Um menino que começou lá de baixo, fez uma história e hoje você vê os brasileiros sorrindo”, elogia João de Deus, como se traçasse um paralelo com a própria trajetória.

Nascido no vilarejo de Cachoeira da Fumaça, em Goiás, João era o mais novo de seis filhos de uma família simples. Com a mediunidade, rodou o mundo e atendeu um incalculável número de pessoas. Essa lembrança é interrompida com mais uma pergunta sobre o paciente.

“Quem trata do Lula é o coração de todos os brasileiros, que estão orando por ele. Aquele homem se dedicou até na hora que a mãe dele estava no caixão ao povo brasileiro. Se desse o contrário, o Brasil e o mundo inteiro estavam em luto”, diz, prevendo o sucesso do tratamento do ex-presidente – sem especificar se o espiritual ou o tradicional.

Em um dos únicos cômodos refrigerados na Casa Dom Inácio de Loyola – onde João descansa entre os trabalhos da manhã e da tarde às quartas, quintas e sextas – há uma foto autografada de Lula com a faixa presidencial, ao lado de dona Marisa.

Todo cuidado com a Amazônia é pouco: ONU vai criar organismo mundial para o meio ambiente, com poderes punitivos

Carlos Newton

Quando a Organização das Nações Unidas aborda a questão do meio ambiente e fala em criar normas e regulamentos para preservação, quase sempre o que está por trás é a questão da Amazônia.

Não pensem que a ONU vai usar essas normas e regulamentos para coibir o monóxido de carbono pelo excesso do uso de veículos nos Estados Unidos ou proibir a instalação de fábricas obsoletas e poluidoras na China e em outros países sem legislação ambiental. Nada disso. Mas em relação à Amazônia, essas normas serão realmente usadas.

Basta analisar as declarações do secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), Sha Zukang, ao anunciar que se pretende a criação de um órgão voltado para o meio ambiente dentro da Organização das Nações Unidas, com poderes punitivos. O assunto é o grande destaque das discussões da conferência, que ocorre no Rio entre os dias 20 e 22 de junho.

Segundo Zukang, há dois entendimentos sobre o assunto. Um deles é o fortalecimento do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), que já existe e reúne as principais demandas, discussões e ações do setor.

A segunda possibilidade é transformar o Pnuma em uma organização mundial do meio ambiente. Esse órgão estaria no mesmo nível, por exemplo, de organizações existentes como a Organização Mundial do Comércio (OMC), que trata das regras comércio internacional, ou a Organização Mundial da Saúde (OMS), autoridade que dirige e coordena a ação na área de saúde das Nações Unidas.

“Ambas as propostas estão sobre a mesa. Se houver concordância sobre a segunda, deve estar claro como esta nova agência vai se relacionar com outras organizações já existentes de meio ambiente”, revelou.

É aí que mora o perigo. Imaginem o Brasil submetido a todo tipo de denúncias nessa “Organização Mundial do Meio Ambiente”, se ela funcionar como a OMC, por exemplo, com poderes punitivos. Vai ser um nunca-acabar de denúncias. Não faremos outra coisa a não ser nos defender, embora o Brasil tenha a legislação ambiental mais avançada no mundo, uma realidade que ninguém divulga nem alardeia.

O secretário-geral evitou pronunciar-se sobre a votação do Código Florestal, que está em discussão no Congresso Nacional, mas mostrou que não respeita a soberania brasileira no que diz respeito ao meio ambiente. Ao contrário, Zukang destacou que o assunto, embora esteja na esfera da soberania brasileira, também diz respeito ao resto do mundo. “Todos sabem que a Floresta Amazônica é o pulmão do mundo. E está muito claro que ela pertence ao Brasil. Mas também é claro que o Brasil faz parte do mundo”, disse Zukang, revelando a ponta do iceberg ecológico.

Para ele, embora questões de soberania não se discutam, é preciso saber usar os recursos naturais. “Como usá-los é decisão soberana do governo do Brasil. Mas temos que levar em conta o fato de que moramos em um mesmo planeta. Quando se usa e explora recursos como a floresta, deve se levar em conta os impactos sobre o meio ambiente.”

Para não despertar reações, Zukang enfatizou que não conhece em profundidade o assunto e até fez uma avaliação positiva das ações do governo federal no gerenciamento do setor. “Não sou um especialista em florestas, mas sei que o governo brasileiro está fazendo um bom trabalho”, declarou, explicando que veio ao Brasil para acertar detalhes de logística da Rio+20, incluindo transporte, acomodação e segurança.

Apesar dessa ressalva, todo cuidado é pouco. Com soberania não se pode brincar. 

 

 

A considerável oposição a Dilma

Carlos Chagas

A observação é de Disraeli, primeiro-ministro da Inglaterra no século XIX: “nenhum governo pode estar seguro por muito tempo sem uma considerável oposição”.

O diabo é que tanto tempo depois, aqui no Brasil, a segurança do governo Dilma Rousseff parece garantida não propriamente pelos tucanos e companhia, mas pela considerável oposição que se organizou contra ela em sua base parlamentar. Coisas da política, onde não há espaços vazios. Se PSDB, DEM e penduricalhos não desempenham o papel que lhes cabe, emergiram como adversários do governo seus próprios aliados do PMDB, PT, PTB, PDT, PR e outros.

Hoje, no palácio do Planalto, teme-se muito mais Henrique Eduardo Alves, José Sarney e Renan Calheiros do que Fernando Henrique, Geraldo Alckmin, Aécio Neves e até José Serra.

Fica para outro dia verificar que a oposição de mentirinha carece de um programa alternativo de governo, não tem mensagem e nem se preocupa em acompanhar os desvios da administração federal. Vale mais atentar para os oposicionistas de verdade, aqueles que pressionam a presidente Dilma atrás de cargos, nomeações e verbas, exigindo ministérios, a direção de empresas estatais e favores variados. São eles que dão segurança ao Executivo, porque se não forem atendidos votam contra e sabotam a estratégia oficial. Formam a considerável oposição.

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CLARO COMO ÁGUA

Setores conservadores voltam a bater na mesma tecla: o vexatório crescimento do PIB e a queda da produção industrial devem-se à ausência das reformas trabalhista e tributária. Querem reduzir os já reduzidos direitos de quem vive de salário, como querem pagar menos impostos, ou seja, vantagem para eles, sacrifícios para o trabalhador. É mais uma investida sobre o governo Dilma, depois da adesão da presidente à aventura das privatizações.

Na realidade, nosso péssimo desempenho econômico, com ênfase para a indústria de transformação, deve-se essencialmente à China. De lá chegam produtos de toda ordem, numa concorrência que se não é desleal, é sinistra. E por razão muito simples: aquele país cresceu, tornou-se a segunda economia do planeta porque os salários, lá, são ridículos quando comparados com resto do mundo.

Basta dizer que um engenheiro qualificado recebe menos de 100 dólares por mês, e um operário, 40 dólares. Com uma diferença fundamental: ambos comem, moram, vestem-se e assistem televisão com o fruto de seu trabalho. Não passam fome, muito pelo contrário. Esse é o verdadeiro milagre chinês, que fez com que o capital internacional corresse para lá, pois mão de obra tão barata multiplicou os lucros até quase o infinito. Por isso a China cresceu e produz tudo a preços inferiores aos do mercado. Inunda os demais países com sua produção, gerando, é claro, efeitos como os que agora sofremos.

Fazer o quê? Reduzir salários ao nível dos chineses? Suprimir a carga fiscal das industrias? Declarar guerra à China? São três absurdos, faltando às nossas elites apenas aderir ao último. A única saída seria taxar bem mais as importações que vem de lá, mas faríamos o que se eles interrompessem nossas exportações de minério e de soja?

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CONDOMÍNIO EM AÇÃO

A designação de Leonel Brizola Neto para ministro do Trabalho terá a vantagem de a presidente Dilma, mesmo indiretamente, homenagear o avô do deputado, fundador do partido ao qual ela pertenceu por muitos anos. Fora isso, o problema continua: o ministério do Trabalho será feudo do PDT? Para zelar pelos direitos do trabalhador, só um parlamentar pedetista?

Pelo jeito, nada mudou nem vai mudar. O governo é um condomínio onde o síndico fica proibido de visitar muitos andares, mesmo aqueles onde se faz bagunça, como acontecia do ministério dos Transportes e como pode voltar a acontecer, por necessidade de atender o PR.

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ALDO REBELO CEDEU

Caso a Câmara dos Deputados decida votar amanhã a Lei da Copa, já estará definida a posição do governo, favorável às principais exigências da Fifa, como a da venda de bebidas alcoólicas nos estádios onde se realizarão os jogos, desde que seja a cerveja Budweiser, patrocinadora da entidade. A chamada bancada evangélica é contra, mas dificilmente votará unida.

Em entrevista concedida ontem, o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, reconheceu a necessidade de aprovação da lei conforme os interesses da Fifa. Resta saber se os deputados, e depois os senadores, concordarão com o artigo que proíbe a realização de greves nas capitais escolhidas para as partidas. Pela Constituição, não pode.

Derrota de Dilma lembra a de Jânio quando indicou Ermírio de Moraes

Pedro do Coutto

A presidente Dilma Roussef sofreu, sem dúvida, uma derrota política no Senado quando, semana passada, teve rejeitada sua indicação para manter Bernardo Figueiredo na direção geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres. Na realidade era um caso de recondução, já que seu mandato anterior havia terminado.

Reportagem de Catarina Alencastro, O Globo de 9 de março, focalizou bem os vários ângulos do episódio. Um deles, triste reflexo fisiológico. Rebelião no PMDB contra o que considera perda de espaço no esquema de poder. Portanto fica implícito que, concedidos mais cargos, aí o partido que foi de Tancredo Neves, Ulisses Guimarães e Barbosa Lima Sobrinho, volta a apoiar as mensagens da presidente. Como justificar uma coisa dessas? Impossível. A foto da matéria é de Rodrigues Pozebom.

Impossível também, como destacou o senador Lindberg Farias no texto de Catarina Alencastro, entender, sob a luz da ética, o comportamento do líder do governo na Câmara Alta, Romero Jucá. A impressão é a de que poderia ter evitado a derrota, mas não o fez. Deixou correr o barco. Atitude muito diferente da que adotou quando da aprovação final do projeto de lei que iguala, em todas as empresas, os salários das mulheres aos dos homens tratando-se, claro, de funções idênticas. Neste caso ele agiu. Diante da reação de fortes setores empresariais – é sempre assim – requereu (e obteve) nova audiência dos líderes partidários.

Por que não procedeu da mesma forma no caso de Bernardo Figueiredo? Romero Jucá – Lindberg deixou a dúvida no ar – teria trabalhado contra o próprio governo. Inadmissível. No entanto, não surpreende. Jucá foi líder de FHC no Senado, tornou-se líder de Lula e agora é líder de Dilma. Uma vocação irresistível para o poder. Agora, provavelmente, procura equilibrar as correntes que formam a maioria parlamentar do executivo.

Um presidente da República, no momento uma presidente, não pode perder a maioria. Mas no título do artigo eu disse que a atual derrota de Dilma Roussef lembra a que atingiu Jânio Quadros, no Senado, em 1961, quando indicou o empresário Ermírio de Moraes, pai de Antonio Ermírio de Moraes, para embaixador do Brasil na Alemanha Ocidental.Na época havia duas Alemanhas: a Ocidental, cuja capital era a cidade de Bonn. A Oriental cuja capital era Berlim. Hoje, existe uma Alemanha só, capital Berlim.

Ermírio de Moraes havia atuado intensamente na campanha vitoriosa de Jânio, especialmente no espaço econômico financeiro. Sempre foi um grande industrial, nacionalista, que enfrentou tempestades ao longo de sua vida. Recebeu ataques do capital estrangeiro e dividiu o palco político administrativo com o jornalista Assis Chateaubriand, num confronto que se deslocou para a Justiça, chegando até ao Supremo Tribunal Federal.

Ermírio, que era um homem que tinha prazer no combate aberto, processou Chateaubriand acusando o dono dos Diários Associados e da TV Tupi de tentar extorqui-lo. Mas este é outro assunto.

Furioso e legitimamente indignado com a rejeição, Ermírio de Moraes assumiu consigo mesmo o compromisso de eleger-se senador, nas eleições de 62, pelo PTB de Pernambuco. Conseguiu. Foi o mais votado. E, na mesma disputa, garantiu a vitória de Miguel Arraes, fornecendo-lhe suporte financeiro para enfrentar João Cleofas, candidato símbolo do conservadorismo da época. Inclusive inflado por recursos vindo de fora, através do IBAD, sigla através da qual os doadores mantinham ocultos seus nomes.

O combate nas terras pernambucanas que tanto orgulham o acadêmico Marcos Vilaça, foi duríssimo. Arraes venceu por 6 mil votos, menos de 1% do eleitorado.Não tivesse Ermírio de Moraes sido rejeitado, Arraes não receberia os recursos que recebeu e a história do Brasil talvez fosse outra. Coisas da política.

Prestes recomenda

Sebastião Nery

Em 1954, Etelvino Lins, governador de Pernambuco, lançou a candidatura do general Cordeiro de Farias para seu sucessor, pelo PSD, contra João Cleofas, da UDN. Dizia-se que a eleição seria decidida pelo apoio do Partido Comunista, então muito forte em Recife e Olinda.

Surpreendentemente, o PC apoiou Cleofas, udenista, usineiro e conservador, restos de velhas divergências de Luís Carlos Prestes com Cordeiro, seu companheiro na Coluna Prestes. Mas deixaram o documento público para ser lançado nos últimos dias e causar mais impacto.

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ETELVINO

Etelvino, experiente policial, que tinha sido delegado e era apelidado de “reitor da universidade da Rua da Aurora”, onde funcionava a polícia, planejou um golpe em cima do apoio do PC a Cleofas.

Preparou uma edição fraudada da Folha do Povo com a manchete “Prestes recomenda voto em branco”. Editado o jornal, igualzinho às outras edições da Folha do Povo, com material internacional da linha do PC, trechos de artigos publicados em edições anteriores, organizou um enorme esquema de distribuição para a própria polícia e grupos de menores jornaleiros fazerem a entrega numa só noite.

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PRESTES

Quando a edição verdadeira da Folha do Povo, com a palavra de ordem da direção do partido para o voto em Cleofas estava pronta e só faltava entrar na máquina para rodar, Etelvino mandou desligar toda a luz de Recife, uma noite inteira.

Os comunistas, desesperados, precisavam lançar o jornal na rua no dia seguinte, e, naquela mesma noite, as direções intermediárias do partido, os principais militantes, os outros jornais, a população de Recife e Olinda receberam a edição falsa com Prestes mandando votar em branco.

Sem DDD, sem acesso a Prestes, a campanha de Cleofas e a grande imprensa de Pernambuco não conseguiram desmentir a tempo a mentira.

Ganhou Cordeiro.

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PRÉ-SAL

Quando era presidente, algumas vezes Lula apareceu nas TVs e jornais com as mãos e a cara meladas de petróleo do pré-sal e a Petrobras anunciando que, por motivos técnicos e de segurança, “a exploração comercial só começaria no fim do ano ou começo do próximo”.

Em 2010, na véspera do 2º turno da eleição presidencial, o mesmo Lula e a mesma Petrobras, em um comício em São José dos Campos, informaram que “a exploração comercial na área de Tupi, na Bacia de Santos, foi antecipada para entre os dias 27 e 29 de outubro” (Globo).

Ainda não era pré-sal, mas funcionou igual ao jornal de Etelvino. Parecia que era.

Arbitragem pode solucionar 30% dos litígios trabalhistas

Roberto Monteiro Pinho

A vulnerabilidade inerente dos trabalhadores e a necessidade de proteger seus direitos básicos também estão refletidas na Declaração Universal dos Direitos Humanos e no Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, (informações do documento elaborado pelo IPB – Instituto Pro Bono). Não podemos dizer que ao passo que o empregador enfrenta todo arcabouço de leis, normas e regras trabalhistas, o trabalhador, por consequencia está protegido, é o hipossuficiente, sem ter que provar ao contrário. É por isso que o juiz do trabalho é deveras impiedoso com o empregador, mas seria essa a linha correta para solucionar conflitos trabalhistas?

Até que ponto a postura judicialista estaria atingindo o efeito, já que a causa, está pré-estabelecida a partir do momento em que se busca no judiciário a solução de uma avença? Que modelo de justiça afinal se está patrocinando para a massa trabalhadora do país? Um judiciário que não atende a demanda de ações, não promove a entrega do direito, e quando o faz, é através de meios que chegam a delinquência jurídica, com penhoras de contas poupança, aposentadoria, de terceiros estranhos a lide, de bens de família (em flagrante afronta a lei 8009/90), leilões viciados, incipientes sob inúmeros aspectos, muitos os valores sequer atende o titulo do exequente. È este o modelo de justiça que se possa orgulhar?

O quadro data máxima venia, em que pese raríssima exceção, é a legislação ativa, jogada no lixo da discórdia, não pouco, com ranço discriminatório, em total desprezo ao diploma, que é relegado a adorno de parede do escritório ou gabinetes dos operadores do direito. Incorporando, de certo modo, parcialmente, tais críticas, a Carta Magna de 1988, em sua origem, passou a viabilizar a propositura do dissídio coletivo somente após a recusa “…de qualquer das partes à negociação ou à arbitragem…” (art. 114, § 2º, ab initio, CF/88). Entre os órgãos de representação coletiva reconhece-se a isonomia necessária para que possam discutir e resolver inclusive as questões de direito material.

Na concepção dos principais juristas brasileiros, a arbitragem no campo laboral, precisa ser revista, não só em razão do quadro debilitado da JT na solução e entrega do direito ao trabalhador, mas como advento de uma nova era, onde os atores envolvidos, possam desenvolver nova técnicas de negociação amparado em lei, cuja experiência internacional, um primado que é de grande valia para o jurisdicionado brasileiro. As negociações e a arbitragem, por serem meios extrajudiciais de resolução de conflitos, devem ser, portanto, adotada amplamente e reconhecidas por serem propícias às discussões que envolvem direitos trabalhistas coletivos.

Como se pode observar de fato, no que diz respeito aos conflitos individuais trabalhistas não há qualquer disposição expressa na Constituição Federal ou na Consolidação das Leis do Trabalho, apresentando-se como em aparente e irremediável contradição o artigo 1º da Lei de Arbitragem, Lei n. 9.307/96, e o princípio da indisponibilidade dos direitos trabalhistas. A arbitragem já está sendo admitida no âmbito trabalhista, o juiz Hélcio Luiz Adorno da 76ª Vara do Trabalho de São Paulo reconheceu a validade de uma cláusula arbitral presente em um contrato trabalhista entre um alto executivo do mercado de capitais e o BTG Pactual, destacando que o documento foi firmado por um alto executivo de notável formação acadêmica e expressivos vencimentos.

Na pretensão de romper o pactuado o reclamante recorreu a JT, em sua defesa a reclamada alegou que o contrato tinha uma cláusula compromissória, segundo a qual qualquer conflito deveria ser levado à Câmara de Arbitragem do Rio de Janeiro e não ao Judiciário. De acordo com o magistrado, a indisponibilidade dos direitos trabalhistas e a hipossuficiência do trabalhador são os motivos que têm impedido o reconhecimento de cláusulas arbitrais no contrato de trabalho. Contudo, essa não seria a situação discutida no processo. O juiz Hélcio Luiz Adorno Júnior entendeu que o executivo não teria sido coagido a aceitar os termos do contrato de gratificação por ter condições para negociar livremente sua contratação. Além disso, o magistrado considerou que o bônus de retenção foge do padrão dos títulos de natureza trabalhista, declarando extinto o pedido formulado.

Durante um encontro realizado no dia 5 de março (segunda-feira), com advogados de Santa Catarina, que teve como objetivo a avaliar os rumos do judiciário, o ministro do STJ Jorge Mussi, advertiu que: “é preciso repensar o Judiciário antes que seja tarde, porque os limites da paciência e tolerância da sociedade estão se esgotando”. De acordo com o magistrado, o Judiciário brasileiro passa por um momento muito difícil e que “a sociedade reclama, com toda razão, da demora na entrega da prestação jurisdicional” e por isso defende a união de advogados e magistrados para estimular a mudança da cultura do litígio e buscar a conciliação. Embora possa parecer utópico dentro do quadro que se formou no judiciário brasileiro, o tema proposto pelo ministro  precisa ser implementado.

As razões estão acima dos interesses corporativos, políticos e financeiros, até porque ubi societas ib ius, não sendo assim, a justiça que já se dissipa aos olhos dos que a procura, tende a sumir na nebulosa da sua inaptidão de servir a sociedade. Dedicado há 20 anos no estudo do comportamento do judiciário trabalhista, registro uma evolução incessante de inovações corporativas, avalio que para cada grupo de dez medidas no segmento, oito são de interesse exclusivo dos magistrados, daí a razão da xenofobia ao extrajudicial.

Claudio Humberto anuncia que Romero Jucá saiu da liderança do governo

O comentarista José Carlos Werneck nos envia essa nota do jornalista Claudio Humberto, sobre a demissão do senador Romero Jucá (PMDB-RO), que já estava enraizado na liderança do governo.

Acabou a posição de “independência” do senador Eduardo Braga (PMDB-AM): a presidenta Dilma o convidou para o cargo de líder do governo no Senado, em lugar de Romero Jucá (PMDB-RR), e ele aceitou o convite imediatamente.

A escolha pode ter surpreendido o líder do PMDB, senador Renan Calheiros (AL), que esteve esta tarde com a presidenta Dilma, mas é mais provável que a ideia tenha sido dele e Dilma a acolheu. Mas até mesmo o presidente do Senado, José Sarney, aliado de primeira hora, ficou sabendo da mudança por terceiros e até pelo próprio Braga.

O senador Romero Jucá também tomou conhecimento do seu afastamento nos corredores do Senado. A cabeça do ex-lider do governo numa bandeja era exigência da bancada do PT no Senado, mas a intenção dos senadores, como Lindenberg Farias (RJ), era assumir o lugar de Jucá.

A presidenta Dilma resolveu dois problemas de uma só vez: anulou a “ïndependência” de Eduardo Braga, esvaziando a bancada que se opõe à liderança de Calheiros e Sarney, e atendeu ao PT retirando Romero Jucá do posto.

Roberto Freire anuncia fim de contrato com empresa ligada a neto de Sarney

Reportagem de Leandro Colon, da Folha, revela que o presidente do PPS, deputado Roberto Freire (SP), anunciou nesta segunda-feira a decisão de cancelar o contrato com a Metagov Comunicação, empresa ligada a um neto do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).

“Decidi pedir o cancelamento dos serviços para que se esclareça o envolvimento de um parente de parlamentar com o negócio”, afirmou Freire, em nota.

Mais cedo, outro deputado, Júlio Delgado (PSB-MG), informou que também vai romper o contrato com a empresa. “Para não pairar qualquer tipo de suspeita, e, em função deste constrangimento, prefiro cancelar”, disse.

Júlio Delgado repassou R$ 33 mil e Freire, R$ 66 mil, para serviços de comunicação, incluindo site pessoal. Ambos afirmam que não sabiam que a Metagov era ligada a Gabriel Cordeiro Sarney, 24, filho do deputado Sarney Filho (PV-MA). A informação foi revelada na edição de hoje da Folha.

A empresa recebeu verbas da Câmara dos Deputados nos últimos meses, driblando normas criadas para evitar que parentes de congressistas sejam beneficiados dessa maneira.

Gabriel Sarney cuida da “inteligência política” do negócio. É um dos três sócios da Ideaspread Participações, criada em agosto do ano passado e registrada no mesmo endereço da Metagov, numa sala comercial, em Moema (zona sul de São Paulo). Desde o ano passado, a Metagov recebeu pelo menos R$ 260 mil de gabinetes de deputados, segundo prestações de contas disponíveis no site da Câmara. Sarney Filho repassou R$ 72,5 mil.

Além de Júlio Delgado e Roberto Freire, outros deputados usaram verbas da Câmara para pagar a empresa, entre eles Romário (PSB-RJ), Renan Filho (PMDB-AL), e Wilson Filho (PMDB-PB).

A Metagov, empresa controlada pelos dois sócios de Gabriel na Ideaspread, foi contratada por gabinetes de vários deputados, entre eles Sarney Filho, para dar consultoria política e criar sites e aplicativos. Gabriel e Sarney Filho negaram que a contratação da Metagov tenha ocorrido por influência política. Gabriel dá expediente no escritório e usa um e-mail da Metagov para contatos. Até a quinta-feira (8), o perfil da Ideaspread no Facebook apresentava a Metagov como uma empresa “controlada pela Ideaspread”.

Todos os parlamentares têm direito a uma verba mensal para custear despesas ligadas ao exercício de seu mandato, mas o regimento interno da Câmara proíbe empresas de parentes do deputado até o terceiro grau de receber esse dinheiro.

O cisco e a trave (ou a desindustrialização brasileira)

Percival Puggina

Por que vês tu o cisco no olho do teu irmão e não percebes a trave que há no teu próprio olho?” (Lc 6, 39-42) – Numa de suas parábolas, Jesus propõe a indagação acima para induzir os circunstantes a refletir sobre a própria conduta. A imagem contundente que usou pode ser aplicada, o tempo todo, às mais variadas situações porque, de fato, nossa atenção aos erros alheios é inversamente proporcional à que dedicamos aos erros que cometemos.

Mas não é sobre moral ou religião que escrevo. É sobre o que está acontecendo com a economia brasileira neste momento em que começam a pipocar, aqui e ali, pequenos registros sobre o processo de desindustrialização em curso no Brasil. Quando comecei a falar nisso, ainda em 2010, em programas de rádio e tevê, as pessoas me olhavam como se uma ave de mau agouro tivesse pousado no microfone. Só faltava me dizerem – Xô!

Era um tempo de euforias eleitorais, quando fazia parte do jogo afirmar que estava tudo muito bem, ainda que não fosse assim. Era um tempo em que o devidamente aparelhado IPEA cuidava de servir à mídia um indicador positivo por dia. Hoje, é a própria indústria brasileira de bens de consumo que proclama: está difícil exportar porque nossos preços não são competitivos e resulta impossível vender no mercado interno pois grande número de produtos importados chega às prateleiras com preços inferiores aos custos locais de produção.

Cansei de advertir: a) que estávamos retornando ao perfil de país produtor de bens primários que tivemos na primeira metade do século passado; b) que voltávamos a ser meros exportadores de matérias-primas; c) que o Brasil não era valorizado lá fora como fornecedor, mas como mercado; d) que uma economia baseada na venda de commodities não paga bons salários para a massa trabalhadora e não gera desenvolvimento social sustentável; e) que, diferentemente dos Estados Unidos, nós não podíamos nos dar ao luxo da desindustrialização porque ainda obtínhamos notas de reprovação em desenvolvimento tecnológico.

Pois mesmo diante desse quadro continuamos apontando cisco no olho dos outros. O culpado é o câmbio! Com esse dólar não tem jeito! O dólar e o euro estão sub-apreciados porque convém às exportações dos respectivos países! A culpa é dos ricos! A culpa é dos ianques! A culpa é dos outros! Eles não cuidam de seus desequilíbrios fiscais! Eles – oh, eles! – seguem a Lei de Gerson e querem vantagem em tudo…

E a trave no nosso olho? Como pode a sexta economia mundial responder por pouco mais de um por cento do comércio internacional? Pois é. Como pode? Anote aí, leitor: mesmo com esse dólar, tivéssemos feito o que nos corresponde, conseguiríamos ser competitivos além das commodities (que compõem um mercado faminto, eminentemente comprador).

No entanto, as traves no nosso olho são irritantes e causam cegueira. Com educação de baixíssimo nível; recursos humanos operosos mas pouco produtivos; transportes usando o modal mais caro e em más condições, sem ferrovias nem hidrovias; energia caríssima apesar de dispormos de fontes hidroelétricas em abundância; carga tributária chegando a 37% do PIB e um sistema oneroso de pagamento e controle; a maior taxa de juros do mundo; e por aí vai – como ser competitivo? Tudo que descrevi neste parágrafo é responsabilidade nossa e muito pouco foi diligenciado. É a trave no nosso olho.

Tivéssemos feito o dever de casa, conseguiríamos ser competitivos e faríamos rodar nossa indústria mesmo com o dólar no patamar atual. Mas preferimos apontar o cisco no olho da Europa e dos Estados Unidos.

(Transcrito do blog de Percival Puggina)

Ministério Público Federal decide revogar, por conta própria, a Lei da Anistia e quer punir militares.

Roldão Arruda (Estadão)

O Ministério Público Federal está intensificando esforços para a instalação de processos que levem à responsabilização de pessoas envolvidas com os chamados crimes permanentes – sequestro e ocultação de cadáver – praticados por agentes do Estado nos anos da ditadura militar.

Em São Paulo, procuradores federais estão prestes a ajuizar as primeiras ações nesses casos, mais conhecidos como “desaparecimentos”. Eles defendem a ideia de que os possíveis autores de crimes permanentes não foram abrangidos pela Lei da Anistia, que cobre um período limitado de tempo, entre 1961 e 1979.

Na sexta-feira à tarde, no edifício da Procuradoria da República, na Rua Frei Caneca, região central da capital paulista, foram ouvidos novos testemunhos no caso Edgard de Aquino Duarte, um dos nomes que integram a lista de 156 casos de desaparecimento forçado ocorridos na ditadura. Foi a segunda audiência realizada no ano para tratar desse caso.

De acordo com testemunhas que estiveram presas na mesma época, Duarte foi visto pela última vez numa cela da antiga carceragem do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), no bairro da Luz, em junho de 1973.

De maneira discreta, sem declarações públicas, os procuradores federais em São Paulo concentram as atenções em quatro casos. O segundo nome da lista, abaixo de Duarte, é o de Aluízio Palhano Ferreira, que desapareceu em 1971, em São Paulo, após ter sido detido por agentes do Destacamento de Operações de Informações/Centro de Operações de Defesa Interna, organização militar que se tornou mais conhecida pela sigla DOI-Codi.

O objetivo é reunir o máximo de provas para ajuizar ações contra os eventuais responsáveis pelos crimes. O trabalho focaliza essencialmente sequestro e ocultamento de cadáver, que são crimes permanentes. Quando se fala, por exemplo, em homicídio, existe a possibilidade de se alegar prescrição da pena.

Embora estejam à frente, os procuradores em São Paulo não são os únicos empenhados na abertura de processos contra agentes envolvidos com desaparecimento forçado de opositores da ditadura. Sob a coordenação do Grupo de Trabalho Justiça de Transição, da 2.ª Câmara Criminal, em Brasília, representantes do Ministério

A iniciativa desses procuradores surge em momento de embate entre Dilma e militares. Ouvidos pelo Estado, militares da ativa e da reserva contestam a iniciativa e enxergam uma tentativa de desestabilizar a democracia .

O dinheiro real nasce do trabalho, já o crédito…

Luiz Cordioli

Concordo que dinheiro, dinheiro real, nasce de trabalho de qualquer tipo. Já as riquezas, sobretudo as rápidas e as enormes, nascem quase sempre de picaretagens, como constatamos a cada passo, a cada notícia, a cada obra, a cada privatização, a cada empréstimo.

Por tratarem Dinheiro e Crédito como coisas iguais, muitos textos mais confundem que explicam. Estas duas coisas não são iguais, Dinheiro é uma, Crédito é outra, sobretudo o crédito virtual. E é um enorme erro confundi-las, falando de uma como se fosse da outra.

Exemplo de frase que confunde, é dizer que “bancos foram beneficiados com trilhões de dólares”, pois esta riqueza que caiu nas mãos ou telas de alguns privilegiados, é uma gigantesca pilantragem, não é dinheiro de trabalho. Sugere que houve algum repasse de dinheiro real, o que não ocorreu.

Esta riqueza, fraudulenta, foi injetada nos computadores bancários do planeta apenas para equilibrar a contabilidade geral, por meio de um banal “via teclado”: um pequeno digitar, um simples Enter e os computadores reais acusam a sua entrada na contabilidade geral. E tudo se equilibra, como se equilibrou, de fato. Mas não circulou um único centavo.

Também dificulta o entendimento geral dizer que estes trilhões vieram de “cofres públicos”. Passa a ideia de que esta grana já existia como dinheiro real, o que não é verdade, no caso, pois sabemos todos que, por baixo dos panos, sem uma palavra a respeito, estes trilhões de “nada” que equilibraram o sistema bancário real, carregam a sua contrapartida: os governos ficaram devedores, via títulos da dívida pública, de igual quantia, que será arrecadada ao longo dos anos, mediante cobrança e repasse de impostos das populações.

Mais correto seria dizer, ante o real endividamento público a ser quitado, que estes trilhões virão dos bolsos dos povos. O fato de equilibrar mais uma vez os bancos falidos perpetua o atual sistema financeiro de computadores injetores especiais, onde seus desconhecidos donos mandam, desmandam, controlam e orientam o que se pode fazer, quem, como, quando, onde e por quanto.

Triste verdade: nenhum governo “deu” este dinheiro aos bancos falidos, para equilibrá-los. Foi o protegidissimo, sigilosissimo e privado sistema financeiro central do planeta, controlado não sei por quem (só sei que não é governo eleito algum) que, mediante troca de títulos com os governos, deu-lhes “do nada”, e sem tê-los, trilhões que não existiam, mas precisavam existir e estes governos, endividando seus povos, repassaram estes trilhões a seus bancos falidos.

Em 2008, precisavam de 17 trilhões e foram recebidos, contra títulos, 17 trilhões. Fossem 117 trilhões os necessários, teriam recebido, contra títulos, 117 trilhões…

Pelo lado “de cá”, tudo ficou reequilibrado, uns creditados outros debitados, tudo checado, conferido, contabilizado, todo mundo respirando aliviado e aceitando a manobra-farsa. Mas… e pelo lado “de lá”, pelo lado dos empresta-dores? (créditos a quem de direito…) Alguém tinha este dinheiro de verdade, pronto para ser emprestado? Não, ninguém tinha. Este dinheiro existia, pelo menos? Não, apenas foi criado, sob medida, ou sob demanda.

Quem de nós controla alguma coisa do que faz este “sistema financeiro global”? Ninguém. Onde buscar estas informações “centrais”? Em lugar algum, sigilo sepulcral garantido.

Concluo, para questionamento dos colegas leitores, que o problema atual não me parece ser o dinheiro real. Não mesmo! O problema é o dinheiro virtual, que um determinado conjunto de computadores “centrais” injeta nos computadores reais dos governos, recebendo títulos em troca, no total que quiser, onde, quando e para quem quiser.

Chamando esta operação de “injetar dinheiro”, de “emprestar dinheiro”, de “dar crédito”, de “comprar títulos”, de “resolver a crise”, de “financiar” todos concordam e acatam. Mas é uma enorme, gigantesca, tiranossáurica MENTIRA, porque o lado “empresta-dor” não tem a grana que diz emprestar, só tem teclados (antes tinha impressoras).

Esta é a verdade: os empresta-dores NÃO TÊM DINHEIRO REAL PARA PODEREM EMPRESTAR. Ninguém questiona isto, tudo corre solto, não há controles, auditorias, aprovações etc., tudo que o seu governo faz é acatado pelos povos e fica por isto mesmo.

Quando houver auditorias decentes sobre a geração de dinheiros reais em qualquer governo de qualquer país, vamos todos nos surpreender com as malandragens que serão expostas. Qualquer paspalho, de qualquer País vai poder dizer, então, a seu povo, com toda veemência:

“Nunca, na história deste País, se controlou porcaria nenhuma do que é Dinheiro, do que deveria ser Dinheiro, muito menos do que chamamos Dinheiro, sobretudo Dinheiro Público. Este, então, porque é público, é de todos. Se é de todos, então, é de ninguém. E se é de ninguém, então, é meu!”.

Esta história de Dinheiro Virtual é bem por aí, bem no estilo “O Rei financeiro está nu!”. Ele está nu, sim, mas não apenas nu. Está nu, nuzinho, orgiasticamente peladão da silva… oooops, silva ?