Política externa tem de respeitar os interesses nacionais

Mauro Santayana
Jornal do Brasil

A outra razão que contribui para que o governo do PT seja tachado de comunista, e muita gente saía às ruas, é a política externa, com a lenda do “bolivarianismo” que teria adotado em suas relações com o continente sul-americano.

Não é possível, em pleno século XXI, que os brasileiros não percebam que, em matéria de política externa e economia, ou o Brasil se alia estrategicamente com os BRICS (Rússia, Índia, China e África do Sul), potências ascendentes como ele; e estende sua influência sobre suas áreas naturais de projeção, a África e a América Latina – incluídos países como Cuba e Venezuela, porque não temos como ficar escolhendo por simpatia ou tipo de regime – ou só nos restará nos inserir, de forma subalterna, no projeto de dominação europeu e anglo-americano?

Ou nos transformarmos, como o México, em uma nação de escravos, que monta peças alheias, para mercados alheios, pelo módico preço de 12 reais por dia o salário mínimo? Jogando, assim, no lixo, nossa condição de quinto maior país do mundo em território e população e sétima maior economia, e nos transformando, definitivamente, em mais uma colônia-capacho dos norte-americanos?

COMPETIÇÃO DESLEAL

Ou alguém acha que os Estados Unidos e a União Europeia vão abrir, graciosamente, seus territórios e áreas sob seu controle, à nossa influência, política e econômica, quando eles já competem, descaradamente, conosco, nos países que estão em nossas fronteiras?

Do ponto de vista dessa direita maluca, que acusa o governo Dilma de financiar, para uma empresa brasileira, a compra de máquinas, insumos e serviços no Brasil, para fazer um porto em Cuba – a mesma empresa brasileira está fazendo o novo aeroporto de Miami, mas ninguém toca no assunto – muito mais grave, então, deve ter sido a decisão tomada pelo Regime Militar no Governo do General Ernesto Geisel.

Naquele momento, em 1975, no bojo da política de aproximação com a África inaugurada, no no Governo Médici, pelo embaixador Mario Gibson Barbosa, o Brasil dos generais foi a primeira nação do mundo a reconhecer a independência de Angola.

Isso, quando estava no poder a guerrilha esquerdista do MPLA – Movimento Popular para a Libertação de Angola, comandado por Agostinho Neto, e já havia no país observadores militares cubanos, que, com uma tropa de 25.000 homens, lutariam e expulsariam, mais tarde, no final da década de 1980, o exército racista sul-africano, militarmente apoiado por mercenários norte-americanos, do território angolano.

INTERESSE NACIONAL

Ao negar-se a meter-se em assuntos de outros países, como Cuba e Venezuela, em áreas como a dos “direitos humanos”, Dilma não faz mais do fez o Regime Militar brasileiro, com uma política externa pautada primeiro, pelo “interesse nacional”, ou do “Brasil Potência”, que estava voltada, como a do governo do PT, prioritariamente para a América do Sul, a África e a aproximação com os países árabes, que foi fundamental para que vencêssemos a crise do petróleo.

Também naquela época, o Brasil recusou-se a assinar qualquer tipo de Tratado de Não Proliferação Nuclear, preservando nosso direito a desenvolver armamento atômico, possibilidade essa que nos foi retirada definitivamente, com a assinatura de um acordo desse tipo no governo de Fernando Henrique Cardoso.

GOLPE MILITAR

Se houvesse, hoje, um Golpe Militar no Brasil, a primeira consequência seria um boicote econômico por parte do BRICS e de toda a América Latina, reunida na UNASUL e na CELAC, com a perda da China, nosso maior parceiro comercial, da Rússia, que é um importantíssimo mercado para o agronegócio brasileiro, da Índia, que nos compra até mesmo aviões radares da Embraer, e da África do Sul, com quem estamos também intimamente ligados na área de defesa.

O mesmo ocorreria com relação à Europa e aos EUA, de quem receberíamos apenas apoio extra-oficial, e isso se houvesse um radical do partido republicano na Casa Branca.

Os neo-anticomunistas brasileiros reclamam todos os dias de Cuba, um país com quem os EUA acabam de reatar relações diplomáticas, visitado por três milhões de turistas ocidentais todos os anos, em que qualquer visitante entra livremente e no qual opositores como Yoani Sanchez atacam, também, livremente, o governo, ganhando dinheiro com isso, sem ser incomodados.

Mas não deixam de comprar, hipocritamente, celulares e gadgets fabricados em Shenzen ou em Xangai, por empresas que contam, entre seus acionistas, com o próprio Partido Comunista Chinês.

Black blocs prometem “guerra nas ruas” para defender governo Dilma

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Em Salvador, Black blocs foram presos durante a manifestação

Gabriel Sabóia
O Dia

Eles prometem voltar com tudo e já causam medo em ativistas pacíficos. Conhecidos por atuar na linha de frente em confrontos com a polícia, manifestantes adeptos do grupo Black bloc se pronunciaram na manhã de segunda-feira, após longo período.

Após protestos realizados domingo, em várias capitais do Brasil, páginas do grupo na Internet se posicionaram contra uma possível intervenção militar e impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT) e prometeram transformar as ruas em palco de guerra contra aqueles que pedem a destituição do poder.

“Está na hora de darmos uma resposta ao golpismo de ontem nas ruas. Principalmente nos bairros burgueses. Se eles querem guerra, terão”, postou a página Black Bloc RJ Zona Sul.

Já a Black Bloc RJ comentou o manifesto do último domingo, realizado de forma pacífica, em Copacabana. “Intervenção militar? Pau de selfie? Negros? Alguém de comunidade? O que aconteceu hoje foi uma espécie de “revolta dos burgueses derrotados”, escreveram.

SEIS DETIDOS EM SALVADOR

No domingo, seis integrantes dos Black blocs são detidos durante manifestação em Salvador. Segundo a Polícia Militar o ativistas estavam com correntes, máscaras e uma garrafa de vidro com combustível, tipo coquetel molotov.

O movimento dos mascarados perdeu força após a morte do cinegrafista Santiago Andrade, atingido por um rojão, em 2014. Acusados pelo acendimento do explosivo, Caio Silva e Souza e Fábio Raposo encontram-se presos. Elisa Quadro Pinto, conhecida como Sininho, e Karlayne Moraes da Silva Pinheiro, a Moa, são consideradas foragidas da justiça.

As muitas e incontornáveis razões políticas do impeachment

Percival Puggina

Queriam a prova? Pois ela veio assim que terminaram as manifestações do domingo, país afora. A entrevista dos ministros Miguel Rossetto e José Eduardo Cardozo fez prova provada do inverso da tese que pretenderam apresentar. O governo é incorrigível! O que tinham a dizer? Nada que suscitasse consideração ou respeito. Ao contrário, mostraram a mesma falsa autossuficiência e a conhecida arrogância. Pacote de combate à corrupção? Me poupem!

Só o impeachment (palavra que em inglês significa acusação, impugnação) da presidente Dilma pode resolver a crise política instaurada no país. De que se acusa o governo? Por que impugná-lo como parte de um ato político devidamente constitucional e objeto de legislação específica? Eis por quê:

  1. A presidente perdeu quase totalmente apoio popular. Sua permanência no cargo, em tais condições, nada tem a ver com democracia, mas com Estado de Direito. A democracia, a vontade popular, não mais a sustenta. Não mais a referenda. O povo perdeu-lhe o apreço e o respeito. É graças à Constituição que a presidente permanece até que o rito político nela previsto impugne sua presença na chefia do governo e do Estado brasileiro.
  2. Dilma se esconde do povo. Aonde vai, leva vaia Quando aparece na televisão não tem o que dizer, exceto repetir o discurso de sua inescrupulosa campanha eleitoral e anunciar pacotes que só convêm ao seu partido e ao seu projeto de poder. E leva panelaço.
  3. Não é admissível, não é probo, não é honesto mentir aos eleitores! É fraudulento vencer uma eleição contando à Nação, até o dia 26, mentiras que caem por terra no dia 27.
  4. Nem com a maior dose de boa vontade e tolerância se consegue aceitar a tese de que a suprema mandatária, comercializada ao público como “gerentona”, não fosse informada nem percebesse o sumiço de bilhões das contas públicas e o mágico e inebriante retorno dessa dinheirama a seu partido e seus parceiros.
  5. Não é probo, não é decente, usar recursos públicos para criar no Brasil uma nova classe de bilionários – os bilionários do BNDES – privilegiados com muito dinheiro, a juros subsidiados por nós. Eles enriquecem e a diferença entre o juro subsidiado e o que o Tesouro paga vai para nosso débito.
  6. Não é moralmente admissível perdoarem-se dívidas de governos ditatoriais para viabilizar a concessão de novos financiamentos que beneficiam empreiteiras amigas da corte e intermediário de muita conversa. É inaceitável que tais operações sejam registradas como sigilosas.
  7. É ímprobo um governo que escolhe para diretorias de empresas estatais pessoas não apenas desonestas, mas que agiam sob voraz pressão partidária. Não pode ser acaso, então, o fato de dois sucessivos tesoureiros do PT terem ido hospedar-se na cadeia.
  8. O partido da presidente não se penitencia ante os acontecimentos e promove gritarias para calar a oposição na CPI da Petrobras. Ou seja, a nação está sob comando de um governo e de partidos que defendem criminosos, como faziam seus militantes pagos na última sexta-feira. Como haverão de corrigir-se?
  9. A compra da refinaria de Pasadena, longe de ser o maior escândalo do governo, foi autorizada por um conselho do qual Dilma era presidente. Foi considerada, na Bélgica, como o “negócio do ano” entre as empresas daquele país. E virou processo criminal nos Estados Unidos.
  10. A refinaria Abreu Lima teve seus custos de construção elevados de R$ 2 bilhões para R$ 18 bilhões e algo assim só acontece quando a gestão pública atinge indescritível tolerância com a apropriação ilícita dos recursos públicos. Ou dos acionistas.
  11. Nenhuma empresa privada conviveria 11 dias sequer com uma roubalheira do porte praticado na Petrobras durante 11 anos sem que ela mesma providenciasse o processo criminal dos responsáveis.
  12. No início do primeiro mandato da presidente Dilma estouraram escândalos em oito (!) ministérios, sinalizando ilicitudes que já corriam, com fluidez e liberdade, desde os mandatos de Lula.
  13. Só não percebe o que estão fazendo com o país quem não se respeita nem se faz respeitar. O governo e a presidente não podem ser acusados de improbidade? Diga, então o contrário: diga que são probos…

Sei bem que contra estas e muitas outras razões podem ser interpostos vários argumentos. Isso é da natureza do debate político e jurídico. No entanto, esse governo é incorrigível. Ele nada tem a oferecer daquilo que o Brasil precisa. Em defesa do interesse nacional, me posiciono entre os que consideram o impeachment viável, necessário e imposição da consciência nacional.

Lideranças do PT, em pânico, não sabem o que fazer

Rui Falcão: “O Brasil muda, o PT muda com o Brasil”

Naíra Trindade
Correio Braziliense

Líder do PT na Câmara, o deputado Sibá Machado (AC) convocou a bancada petista para avaliar juntos a repercussão das manifestações e tentar encontrar medidas que diminuam o desgaste do governo. “Foi uma manifestação ordeira e o diálogo agora tem de ser travado. O Congresso tem de votar medidas para destravar a economia e garantir o crescimento do país”, analisou Machado.

Já o presidente nacional do PT, Rui Falcão foi além ao afirmar que pretende que o partido também mude pós-manifestações: “Vamos tomar medidas de ajuste, renová-lo. O Brasil muda, o PT muda com o Brasil.”

Sem ter alternativa, os governistas vão investir na votação da reforma política para tentar dar uma resposta rápida às cobranças da sociedade. Válvula de escape da base petista, a proposta que revê a legislação eleitoral se torna um dos principais alvos no Congresso.

No caldeirão de medidas que devem vir à tona agora, o governo terá de lidar também com as investigações da CPI da Petrobras, que podem sangrar ainda mais o governo da presidente Dilma Rousseff, já prejudicado pela Operação Lava-Jato e pela lista dos denunciados pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

GRANDE DERROTADO

Para o cientista político e ex-professor da Universidade de Brasília (UnB) Murilo Aragão, as manifestações enfraqueceram muito mais o governo e expuseram a necessidade de melhorar a articulação política. “Apesar de a base dizer que o ato somou múltiplas agendas, tudo se catalisa em torno do governo, que sai como o grande derrotado das manifestações”, explicou.

“Não existe solução mágica, mas uma coletânea de assuntos que precisam ser melhorados, como recuperar o diálogo; reconhecer que é um governo de coalizão; abrir a possibilidade de conversar com a oposição e admitir os erros para buscar o diálogo”, concluiu o cientista político.

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NOTA DA REDAÇÃO: Traduzindo: no PT, no Planalto e no Instituto Lula, ninguém sabe o que fazer. E não adianta mais recorrer ao marqueteiro João Santana. É preciso encontrar um milagreiro, o mais rápido possível. E o nome do milagreiro é Lula, que resolveu assumir mesmo as rédeas do governo. (C.N.)

Uma sertaneja imortalizada na voz de Orlando Silva

René, parceiro de Noel Rosa e muitos outros

O empresário artístico, jornalista e compositor carioca René Bittencourt Costa (1917-1979) utiliza hipérboles somente para fazer a “Sertaneja” feliz, nesta belíssima, romântica e bucólica letra. Essa canção foi gravada por Orlando Silva, em 1939, pela RCA Victor.

SERTANEJA

René Bittencourt

Sertaneja se eu pudesse
se papai do céu me desse
O espaço pra voar
eu corria a natureza
acabava com a tristeza
Só pra não te ver chorar
Na ilusão desse poema
eu roubava um diadema
lá no céu pra te ofertar
e onde a fonte rumoreja
eu erguia a tua igreja
e dentro dela o teu altar

Sertaneja, por que choras quando eu canto
Sertaneja, se este canto é todo teu
Sertaneja, pra secar os teus olhinhos
vai ouvir os passarinhos
que cantam mais do que eu

A tristeza do teu pranto
é mais triste quando eu canto
a canção que te escrevi
e os teus olhos neste instante
brilham mais que a mais brilhante
das estrelas que eu já vi
sertaneja eu vou embora
a saudade vem agora
alegria vem depois
vou subir por estas serras
construir lá n’outras terras
um ranchinho pra nós dois

            (Colaboração enviada por Paulo Peres – site Poemas & Canções)

Ministros omitem na TV que a Lei Anticorrupção já existe

O anúncio do curso mostra que a lei já existe desde agosto de 2013

Pedro do Coutto

Foi realmente um desastre, em matéria de repercussão junto à opinião pública, o comparecimento dos ministros José Eduardo Cardozo e Miguel Rossetto a uma rede nacional de televisão tentando, sem sucesso, desfocar o impacto político das manifestações contrárias ao governo que se espalharam pelo país e se concentraram principalmente na cidade de São Paulo. Foi um desastre especialmente quando anunciaram que, nos próximos dias, a presidente Dilma Rousseff vai anunciar a edição de leis contra a corrupção.

Incrível: omitiram que a lei existe e se encontra em vigor. Trata-se da lei 12.846, de primeiro de agosto de 2013, a qual, inclusive, acrescentou dispositivos à lei 12.462, de 4 de agosto de 2011. O ministro Eduardo Cardozo, sobretudo, não poderia ignorar já que ele, como titular da Justiça, assinou a lei 12.846 logo abaixo da assinatura da presidente Dilma Rousseff.

Quanto aos financiamentos de empresas às campanhas eleitorais encontram-se regulados pelas leis 8.096, de setembro de 1995, e 9.504, de setembro de 1997. Estas duas leis, como inclusive focalizamos em artigo publicado na edição de 14 deste site, obrigam que as doações sejam feitas por intermédio de cheques cruzados ou depósitos nas contas dos partidos. E tornam obrigatória a revelação dos valores e procedências dos recursos.

Não pode, portanto, o governo, através de Cardozo e Rossetto, dizer que desconhecia ou continua desconhecendo a legislação. Relativamente à versão do secretário geral da Presidência da República de que os milhões de manifestantes eram os que votaram contra Dilma nas urnas de outubro de 2014, verifica-se que é de um absurdo total. Em primeiro lugar, porque decorre de uma visão apenas impressionista sem base em qualquer pesquisa; em segundo lugar, porque, se comparada ao comparecimento popular às manifestações de sexta-feira parcialmente favoráveis a Dilma Rousseff, os números estão longe de bater e, para seguir a lógica de Rossetto, então quase ninguém votou na presidente reeleita em 2014.

Não tem cabimento a afirmativa de Rossetto, portanto. Basta acrescentar à linha de pensamento: se milhões contrários ao governo do PT estavam nas ruas e praças de domingo, onde se encontravam os milhões de votantes em Dilma na tarde de sexta-feira? Não é por aí.

PERGUNTAS SEM RESPOSTAS

Além do mais, várias perguntas feitas por jornalistas presentes à entrevista ficaram sem reposta. Por exemplo: a destinação de recursos financeiros subtraídos da Petrobrás a campanha da candidata nas eleições do ano passado. Esta, uma delas. Outra, igualmente não respondida, a que se referia a atuação de João Vaccari, tesoureiro do Partido dos Trabalhadores, no mar das transações que abalaram o patrimônio e principalmente a credibilidade da principal empresa brasileira. Poderiam (e deveriam) ter sido colocadas à mesa da entrevista televisada muitas outras indagações que evidenciariam ainda maior número de contradições dos dois ministros encarregados de procurar, através de gestos mágicos, o impacto da voz das ruas. Não conseguiram fazer nada. Tampouco poderiam.

Pois a força da verdade é sempre mais intensa do que a fantasia. Sobre esse aspecto, convém não se deixar considerar que a mágica é o oposto da lógica. E não se pode iludir à massa popular que enveredou pelas passeatas buscando respostas lógicas que iluminam os fatos concretos, insubstituíveis por natureza, indispensáveis tanto ao palco da política, em particular, e à própria vida humana em geral.

Lula exige e Dilma vai trocar Mercadante por Jaques Wagner

“Parece que teremos de fazer um troca-troca de ministros…”

Carlos Newton

A situação está cada vez mais complicada. Como diz nosso amigo Carlos Chagas, ficou de um jeito de vaca não reconhecer bezerro. O certo é que está todo mundo batendo cabeça no Planalto e nenhum dos ministros do chamado “núcleo duro” (se é que alguém consegue definir esta expressão…)  tem a menor noção de como a presidente Dilma Riousseff poderá sair desta enrascada. O fato é que o governo está parado, é como se não existisse mais.

No desespero, a presidente Dilma Rousseff resolveu apelar para o velho Lula, que politicamente parece ter o corpo fechado, pois nada o atinge. Criador e criatura então voltaram a se falar, depois de vários meses de rompimento. E como a vingança é um prato que se come frio, desde a quinta-feira antes do carnaval Lula vem saboreando os restos do governo.

Toda vez que se encontra com Dilma, o ex-presidente lhe diz poucas e boas. Quem acompanha a Tribuna da Internet sabe que desde o início do ano passado estamos noticiando, com absoluta exclusividade, os sucessivos desentendimentos entre criador e criatura, e somente agora, no último sábado, a chamada grande mídia (através de O Globo, reportagem de Fernanda Krakovics) confirma o tom extremamente ríspido do mais recente diálogo entre Lula e Dilma, no Palácio Alvorada, com base na inconfidência de um dos ministros que aguardavam na antessala.

PRIMEIRO ENCONTRO

Aqui na TI, quando informamos a respeito, adiantamos que no primeiro encontro, ocorrido na quinta-feira antes do Carnaval, em São Paulo, Lula mandou que Dilma Rousseff se recompusesse imediatamente com o PMDB, exigiu que ela afastasse Aloizio Mercadante da Casa Civil e do comando das reuniões do grupo de articulação política do Planalto (que cada vez ganha mais integrantes e daqui a pouco estará do tamanho do Ministério) e pediu também que Pepe Vargas saísse do Ministério das Relações Institucionais, devido à sua inabilidade no trato com a base aliada, se é que ainda pode ser considerada assim.

Dilma tentou resistir, porque Mercadante é seu mais fiel escudeiro e porque o PT não tem nenhum deputado com carisma para substituir Vargas. Criou-se um impasse. Nesse ínterim, Lula já havia tomado a rédea da situação e fora a Brasília para se entender com a cúpula do PMDB e dar orientações aos parlamentares do PT. Dias depois, Dilma também se reuniu com o comando do PMDB, mas o senador Renan Calheiros se recusou a participar, deu tudo errado.

SEGUNDO ENCONTRO

Na terça-feira passada, Dilma foi vaiada em São Paulo e cancelou o encontro que teria com Lula, que ficou furioso, pegou o avião e foi a Brasília se reunir à noite com ela, no Alvorada. A reportagem de O Globo revelou que houve um ríspido diálogo entre os dois, mas não informou que Lula voltara a exigir a demissão de Mercadante, dizendo que abandonaria o governo caso fosse desobedecido.

Completamente aturdida e desamparada, agora Dilma não encontra alternativa. Terá de obedecer ao chefe, e é justamente por isso que estão circulando em Brasília boatos  de que Mercadante irá para o Ministério da Defesa, como prêmio de consolação, e Jaques Wagner assumirá a Casa Civil e comandará o grupo de articulação política do Planalto.

TERCEIRO ENCONTRO

Nesta segunda-feira, Lula voltou a Brasília para se reunir com Dilma no Alvorada, a portas fechadas e sem testemunhas. Levou o presidente do PT, Rui Falcão, só para fazer companhia. Vai exigir de novo a recomposição do grupo de articulação política, à sua feição.

Como se sabe, Jaques Wagner é um dos líderes petistas preferidos de Lula. Ao nomeá-lo para a Casa Civil, Dilma aplacará a fúria do ex-presidente e ganhará fôlego dentro do PT, que é o primeiro passo para ela tentar uma penosa sobrevida no cargo de presidente da República.

Quanto a Mercadante, o pai é general e o irmão é coronel, vai se sentir em casa no Ministério da Defesa. Mas seu sonho de ser candidato a presidente em 2018 vai para o espaço sideral.

Faltou cheiro de povo

Manifestação contra o governo da presidente Dilma Rousseff na Avenida Paulista, em São Paulo Foto: Michel Filho / Agência O GloboCarlos Chagas

Um espetáculo de civismo, sem dúvida. Mas incompleto, apesar dos quase dois milhões de manifestantes que ganharam as ruas do país inteiro. Porque faltou cheiro de povo, nos protestos. A imensa maioria ensabonetada cheirava bem. Foi a classe média que ocupou Copacabana, por exemplo. Só que a Rocinha ficou em casa. Assim nas demais capitais. Trata-se de algo a ser examinado em profundidade, sem que dessa constatação surja o menor reparo a quantos protestaram contra Dilma e contra a corrupção. A exceção desprezível limitou-se às poucas faixas que pediam a volta à ditadura militar. Patetas que também dispõem do direito democrático de dizer o que pensam.

Foi impecável o comportamento das Polícias Militares. Nas raríssimas vezes em que precisou atuar, recebeu o apoio geral.

Lamentável, porém, registre-se a perplexidade do governo. Resta saber o que significaram as palavras do ministro da Justiça, empenhado em reduzir à reforma política a reação do poder público. Chegou a pregar a extinção total das contribuições empresariais nas campanhas eleitorais e a anunciar a tão ansiada legislação anticorrupção, mas deixou no vazio o principal significado das manifestações de domingo: por que a classe média rejeita o governo Dilma? Não será apenas porque sobre seus ombros pesa a maior fatura da incompetência da administração pública e do funcionamento das instituições.

Existe um fator pessoal nessa equação. Aliás, é o mesmo que fulminou Fernando Collor e agora Madame desperta com sua arrogância, presunção e ar de superioridade. A pouca atenção dada ao cidadão comum isola a presidente da República da classe média. O povão, que poderia agradecer a ela pelo assistencialismo, também é mantido à distância. Como não confia nas elites, sendo a recíproca verdadeira, a conclusão é de uma governante sozinha, apesar de reeleita.

NÚMEROS CONFLITANTES

Não dá para aceitar o conflito de números em São Paulo. A Polícia Militar estimou em um milhão de manifestantes na avenida Paulista. O Datafolha ficou em 220 mil. Alguém exagerou ou alguém omitiu.