Quem tem riquezas para vender?

Carlos Chagas

Vamos pinçar apenas alguns pedregulhos, do saco de maldades imposto à Grécia pelos banqueiros alemães e ingleses, respaldados por organismos internacionais: a redução de 22% no salário mínimo, a diminuição no valor das aposentadorias, a demissão de 150 mil funcionários públicos, o aumento do desemprego nas atividades privadas, o corte nos investimentos sociais e a privatização de empresas públicas. Sem esquecer que a receita enfiada goela abaixo dos gregos é a mesma despachada para a Espanha, Portugal, França, além daquele monte de países que vão do Báltico aos Balcãs e ao Mediterrâneo.

Apesar da conivência da grande imprensa, até a nossa, em minimizar a reação das populações atingidas, apresentando como baderna os protestos que ganham as ruas, fica claro ter alguma coisa mudado no relacionamento entre o capital financeiro e as massas exploradas. Estas não agüentam mais. Aquele gasta suas derradeiras forças na tentativa de preservar privilégios que vão saindo pelo ralo.

 A arapuca não funciona mais. Para equilibrar as finanças dos sucessivos governos sediados em Atenas, imprevidentes, irresponsáveis e corruptos, a banca internacional promete emprestar 130 bilhões de euros. Fica escancarada a operação que manterá esses recursos onde sempre estiveram, ou seja, em seus cofres, de onde não sairá um centavo.

O empréstimo servirá para saldar as dívidas da Grécia, por certo acrescidas de juros extorsivos, cabendo aos trabalhadores e assalariados arcar com o prejuízo. Sempre foi assim, através das décadas e dos séculos, só que não é mais.

Não haverá polícia que dê jeito, como mostram todos os dias as telinhas, mesmo distorcidas e escamoteadas suas imagens. É bom tomar cuidado. A engrenagem financeira internacional, mesmo podre, desenvolverá todos os esforços para diminuir seu prejuízo. Impossibilitada de agir na Europa insurrecta, estando a América do Norte blindada, não vai dar para lançar suas redes da Ásia.

A China chegou primeiro. Com a África em frangalhos, para onde se voltará a banca em desespero, senão para a América do Sul? Dessa vez a crise não chegou primeiro para nós. Mas chegará, de forma inapelável. Quem tem riquezas para vender, como já vendemos no passado?

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SAMBA E SÃO PAULO: POUCO A VER

Com todo o respeito, mas tem raízes profundas a confusão verificada na apuração da vencedora do desfile das escolas de samba paulistas. Trata-se de uma espécie de complexo de inferioridade, demonstrando que dinheiro no bolso não significa necessariamente samba no pé. Comparando-se mais uma vez a apresentação das escolas em São Paulo e no Rio, explica-se porque votos de jurados foram rasgados, instalações depredadas e carros alegóricos queimados…

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A GRANDE SURPRESA

Para contrabalançar a má-vontade expressa na nota anterior diante do Carnaval paulista, vale referir números capazes de eriçar cabelos até nos carecas cariocas. A audiência da Rede Globo, no desfile das escolas de samba do Rio, domingo, perdeu por um ponto para a TV-Record, que naquela hora apresentava em capítulos prolongados a novela do “Rei David”. Sinal dos tempos? Seria oportuno começar a pensar desde já na cobertura do Carnaval de 2013. Ou então preparar com antecedência o “Rei Salomão”…

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TUCANOS TAXIANDO

A provável candidatura de José Serra à prefeitura de São Paulo afastará de vez a hipótese dele concorrer à presidência da República em 2014? Parte dos tucanos entende que sim, porque no caso de vitória, ele não teria condições de largar o cargo na metade, voltando as costas ao eleitorado. E no de derrota, ficaria completamente sem base. Há, no entanto, quem pense diferente no PSDB. Serra eleito prefeito, realizando uma administração exemplar, ficaria na dependência de Aécio Neves dispor-se a disputar o palácio do Planalto.

O neto do dr. Tancredo não rasga dinheiro. Tudo indica que será candidato, mas nunca reconhecendo antecipadamente a derrota. Nesse caso, fugiria para Minas, onde seu retorno ao palácio da Liberdade parece evidente, dependendo apenas de seu desejo.

Para enfrentar Dilma Rousseff, o senador precisaria de um mínimo de chances. Nem se fala do Lula. Sendo assim, os tucanos iriam buscar José Serra na prefeitura de São Paulo ou fora dela? E ele, aceitaria?

Mangueira, absoluta na emoção, arrebatou o povo no desfile

Pedro do Coutto

Mangueira, absoluta na emoção, arrebatou o povo no desfile. Escrevo este artigo na noite de terça-feira, antes portanto do julgamento oficial das escolas de samba. Não importa para o que vou dizer. Em matéria de emoção, nenhuma outra superou a estação primeira de Cartola, de tantas tradições e vitórias.

 Todo mundo te conhece ao longe, diz o samba de 56, pelo som de teus tamborins, pelo rufar de seu tambor. Estou à vontade para falar porque desde a década de 60 torço pelo Salgueiro. Mas a Mangueira conseguiu em 2012, o que o Salgueiro tentou, sem êxito, em 72. O povo cantou junto com a escola, na parada de dois minutos da bateria, sem atravessar o samba. Bela e marcante atuação da rainha da bateria, Renata Santos, naquele momento comandando o espetáculo com sua dança segurando o ritmo e o devolvendo à arte, num dos grandes instantes da noite encantada.

Espetáculo encantado, sim. Porque cada escola acrescentou muito à sua história narrando a história dos outros, do país e do mundo. Ficará para sempre na memória do carnaval carioca. Do nosso carnaval só não. Do carnaval brasileiro. Dos carnavais do mundo.

A televisão lança as imagens e os sons para todo o país e para diversos outros países. Vale acentuar a cobertura de qualidade excepcional da Rede Globo.Este aspecto é responsável é responsável tanto pela nacionalização quanto pela internacionalização das noites mágicas. Pela tela, o espetáculo ganha uma conotação universal. Daí, claro, de forma lógica, ele, de ano para ano, vem se transformando num show de 50 mil figurantes no palco, além da presença de 70 mil nas arquibancadas e camarotes de Niemeyer.

Qual espetáculo, em todo o mundo, reúne em cena 50 mil protagonistas? Nenhum. Cinquenta mil rostos na multidão e faces consagradas passaram pelo sambódromo do Rio. A emoção veio junto com todos eles. Mas a proporcionada pela Mangueira tornou-se insuperável.

Toquei no tema no início, acentuando que ela conseguiu, exatos 40 anos depois, o que o Salgueiro do grande Fernando Pamplona tentou, sem êxito, em 72. O samba, romântico, era muito bonito, de autoria de Zuzuca: em noite linda, em noite bela. Homenageava inclusive a Mangueira, responsável pelo batismo da escola da Tijuca. Pamplona que, junto com Arlindo Rodrigues, Maria Augusta e Joãozinho Trinta, que na época integrava a equipe, mudou o carnaval com a deslumbrante Chica da Silva, em 63, confiou na plateia. Mandou desligar o som na Presidente Vargas, certo de que o povo cantaria o samba. Enganou-se.

O povo, geralmente, não volta para o refrão no andamento. Foi um desastre. O Salgueiro atravessou a música.Quatro décadas depois, com a Mangueira 2012, foi completamente diferente. Desligado o som durante dois longos minutos, as arquibancadas ergueram a voz, não saíram do ritmo, e substituíram os instrumentos pela voz, romantizando ainda mais a poesia da letra. Foi um momento altíssimo, inesquecível da arte e de sua tradução coletiva. Coletiva. Porque, claro, nem todos os que cantaram eram torcedores do mundo de zinco de Wiliam Batista, composição de 53, mais uma entre tantas que cantaram eternizando a primeira Estação da zona norte do Rio.

Entre os que falaram de amor a Mangueira estão Noel Rosa, Cartola, Paulinho da Viola. Não é preciso dizer mais nada. Sua história – bela história – é eterna. Primeira campeã do sambódromo, em 84, a saga de Arlindo, Viola, Cartola e Nelson Sargento (este permanece entre nós), a Mangueira iluminou o carnaval de 2012. Pode não ter conquistado o título – não sei – mas conquistou a emoção e o povo.

Inflação do presidente

Sebastião Nery

Pabla Alessandra, húngara paranaense, jornalista da TVE, linda como seu lindo nome, entrou na véspera do Natal de 1979 em uma casa de discos do Rio, ao lado do cine Roxy, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, entre Xavier da Silveira e Simão Bolívar:

– Me dá o long-play do Julio Iglesias. Quanto é?

– 260 cruzeiros.

Nesse instante, chega o presidente João Batista Figueiredo com um grupo de amigos:

– Me dá o último disco do Roberto Carlos. Quanto é?

– Ora, Presidente. Não vamos cobrar um disco do senhor.

Figueiredo insistiu, pegou o disco, agradeceu, saiu. Entrou numa importadora ao lado, escolheu um perfume francês. O dono também não quis receber. O presidente insistiu, não houve jeito, levou de graça.

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DISCOS

Pabla vendo. O presidente entrou no carro, Pabla voltou à casa de disco:

– Cobra aí os 260 cruzeiros do disco do Julio Iglesias.

– São 265.

– Como 265? Estive aqui há cinco minutos, eram 260 cruzeiros.

– Ah, minha filha, você não viu? O presidente esteve aqui, tive que dar de presente um disco do Roberto Carlos, porque eu não ia cobrar dele.

– E eu com isso?

– E você acha que sou eu que vou pagar? Vou cobrar mais 5 cruzeiros de cada disco que vender hoje, até completar o preço do presente. Volte amanhã que você talvez já compre de novo por 260 cruzeiros.

Pabla pagou os 5 cruzeiros da inflação do presidente.

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ALIMENTOS

Inflação de governo é assim. Nos últimos anos, o Banco Central, o sindicatão dos banqueiros, vivia ameaçando com novos aumentos dos juros. O pretexto é a subida dos preços dos alimentos. Como eles vivem dos juros pagos pelos títulos do governo, quanto mais os juros sobem, mais todos eles ganham.

Uma pergunta inocente:

– Segundo o “Conselho de Ética” do governo, o presidente e os diretores do Banco Central, o ministro da Fazenda e seus técnicos, que decidem a política econômica e financeira e o valor dos juros, estão ou não impedidos de especular com os juros dos títulos do governo?

E deviam também responder a esta pergunta ainda mais inocente:

– Já que a principal razão dos preços altos são os juros altos, se a agricultura pagasse juros menores, os preços não seriam menores?

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CARTÕES

O País não conseguia entender porque o governo tinha tanto medo de revelar os gastos da Presidência da República com os tais cartões corporativos. Muito simples. Em junho de 2008, em sua coluna em O Globo, Ricardo Noblat revelava o mistério:

– “Só no ano passado (2007, na Era Lula), os gastos da Presidência com os cartões corporativos somaram R$ 78 milhões. Do total, R$ 58 milhões foram sacados em dinheiro vivo”. (Por quem? Para quem? Por que? Para que? Fica a suspeita de que parte desse dinheiro teria ido parar em bolsos indevidos).

De lá para cá, mudou alguma coisa?

Todo cuidado é pouco: ministros militares são criticados pela submissão excessiva ao atual governo quando o assunto é a ditadura de 64.

O site de O Globo revela que os representantes dos clubes militares das Forças Armadas deixaram claro na última quinta-feira que estão incomodados com o posicionamento de ministros do governo Dilma Rousseff quando o assunto é a ditadura militar. Em nota assinada por representantes de reservistas do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, os militares “expressam a preocupação com as manifestações de auxiliares da Presidente sem que ela, como a mandatária maior da nação, venha a público expressar desacordo.

Os clubes citam três epísódios que justificariam a opinião de que o governo Dilma estaria se afastando do compromisso assumido durante a posse – o de que governaria para todos os brasileiros, “respeitando as diferenças de opinião, de crença e de orientação política”, como relembra a nota.

Além de uma entrevista da ministra da Secretaria dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, ao jornal Correio Brasiliense, o documento critica o discurso de posse da nova ministra da Secretaria de Política para Mulheres, Eleonora Menicucci – considerado muito crítico ao regime militar.

Diz a nota: “… teceu críticas exarcebadas aos governos militares e, se auto-elogiando, ressaltou o fato de ter lutado pela democracia (sic), ao mesmo tempo em que homenageava os companheiros que tombaram na refrega. A platéia aplaudiu a fala, incluindo a Sra Presidente. Ora, todos sabemos que o grupo ao qual pertenceu a Sra Eleonora conduziu suas ações no sentido de implantar, pela força, uma ditadura, nunca tendo pretendido a democracia”.

O documento também faz críticas ao conjunto de resoluções políticas aprovado por ocasião dos 32 anos do PT. Segundo os militares, o item que diz que o PT estará empenhado junto com a sociedade no resgate da memória da luta pela democracia durante o período da ditadura militar “é uma falácia, posto que quando de sua criação o governo já promovera a abertura política, incluindo a possibilidade de fundação de outros partidos políticos, encerrando o bipartidarismo”.

Planos de saúde não podem mais estabelecer limite de gastos com internações

A Agência Brasil informa que os planos de saúde não podem estabelecer limite máximo de gastos com internações em hospitais nem prazo máximo de permanência do segurado, segundo definiu o Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Os ministros da Quarta Turma do STJ entenderam, por unanimidade, que esse tipo de cláusula é abusiva. A decisão não vincula as demais instâncias da Justiça, mas abre precedente para situações semelhantes.

A decisão é da semana passada, mas foi divulgada apenas nesta quarta-feira pelo STJ. Os ministros analisavam o recurso da família de uma mulher que ficou dois meses internada na UTI devido a um câncer de útero. No décimo quinto dia de internação, a seguradora queria suspender o pagamento alegando que havia sido atingido o limite do contrato de R$ 6.500. Uma liminar garantiu que a empresa continuasse arcando com os gastos até que a mulher morreu.

A cláusula que colocava limite de gasto foi mantida pelo juiz de primeiro grau e pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), que entenderam que o contrato era claro ao estabelecer a restrição e que a adesão foi uma opção da segurada. No entanto, os ministros do STJ reverteram a decisão alegando, principalmente, que o valor da cobertura é muito reduzido.

Para o relator, ministro Raul Araújo, a saúde humana não pode ficar sujeita a limites como acontece em um seguro de carro. Ele também lembrou que a legislação da época vedava a limitação desses tipos de prazos. Os ministros também decidiram fixar o valor de R$ 20 mil de dano moral devido à aflição que o episódio causou na paciente e em sua família.

Desastre ferroviário em Buenos Aires é um alerta para a falta de manutenção do sistema no Rio de Janeiro e outras cidades brasileiras.

Pedro Ricardo Maximino

Nesta quarta-feira de cinzas, 22 de fevereiro de 2012, às 8h36 em Buenos Aires (9h36 pelo horário de Brasília), no momento em que chegava à estação Once, um trem de passageiros, com cerca de 800 pessoas a bordo, saiu dos trilhos e chocou-se contra a plataforma, deixando pelo menos 49 mortos e 600 feridos, segundo balanço mais recente divulgado pelo porta-voz da polícia, Néstor Rodríguez.

O número de vítimas pode ser ainda maior, pois os trabalhos de resgate continuavam e ainda havia pessoas presas nos vagões, segundo afirmações de Daniel Russo, da Defesa Civil, e Alberto Crescenti, chefe dos serviços de emergência da cidade. Mais de 20 ambulâncias foram enviadas para o resgate.

Segundo as afirmações das autoridades, há fortes indícios de que a composição tenha perdido os freios e saltado dos trilhos quando entrava na plataforma da estação Once, que é uma das mais movimentadas de Buenos Aires. O trem adentrou a estação a 26 quilômetros por hora e ficou prensado ao chocar-se contra a última barreira de contenção. Pelo menos 200 pessoas foram hospitalizadas

A TV local mostrou o resgate do maquinista, que havia ficado preso entre os ferros retorcidos da locomotiva. Feridos eram retirados de maca da estação. Pelo menos 200 deles foram hospitalizados.

Centenas de milhares de pessoas viajam de trem dos subúrbios para o centro da capital da Argentina diariamente. A linha ferroviária urbana Sarmiento transporta diariamente cerca de meio milhão de pessoas. Mónica Slotauer, responsável pela limpeza da linha Sarmiento, afirmou que “os freios falharam por causa da falta de investimento” nesta linha férrea.

Os trens utilizados pela empresa são da década de 1960. Os serviços ferroviários sucateados e lotados, operados por empresas privadas e fortemente subsidiados pelo Estado, são marcados por acidentes e atrasos.

O último acidente ferroviário ocorrido na Argentina aconteceu em 18 de dezembro passado, quando uma locomotiva se chocou contra um trem repleto de passageiros parado numa estação da periferia sul da capital, com 17 feridos.

Em 13 de setembro de 2011, nove pessoas morreram e 212 ficaram feridas no choque entre dois trens e um ônibus numa passagem de nível do bairro metropolitano de Flores, a oeste, em um dos episódios mais graves dos últimos anos.

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RIO É UM MAU EXEMPLO

O Rio de Janeiro não é o único a vivenciar a precariedade nos transportes urbanos e o sucateamento e o desvio de recursos que deveriam ser voltados aos investimentos essenciais em qualidade e segurança nos serviços é muito semelhante ao que acontece no país vizinho.

Também no Rio os atrasos são rotineiros, o sucateamento é majoritário, a malha envelhecida convive com o lixo, com os furtos e com a falta de manutenção, principalmente nos ramais dos mais pobres, como o de Saracuruna e o de Japeri. Os acidentes somente são lembrados quando tomam proporções maiores, embora a superlotação acarrete graves problemas e traga riscos permanentes aos usuários, entulhados em composições sem ventilação e que até trafegam com as portas abertas.

Que tomemos a tragédia de hoje como um alerta para que cobremos o mínimo para preservar vidas, trabalho preventivo e atuação concreta da concessionária Supervia, do governo estadual e também da ainda apagada Agetransp do Rio de Janeiro.

É que o Bahrein não é a Síria…

Pepe Escobar (Asia Times Online)

Emocionante coincidência, que o primeiro aniversário de um verdadeiro movimento árabe pró-democracia no Golfo Persa – imediatamente esmagado com violência – tenha caído no dia 14 de fevereiro, quando se celebra no ocidente o “Dia dos Namorados” [Valentines’s Day]. Um caso de amor fracassado.

E o que faz Washington, em homenagem a essa trágica história de amor? Recomeça a vender armas para a repressiva dinastia sunita al-Khalifa que está no poder no Bahrein.

Recapitulemos: o presidente Barack Obama dos EUA diz ao presidente da Síria Bashar al-Assad que “se afaste e permita que se inicie imediatamente uma transição democrática”, ao mesmo tempo em que o rei Hamad al-Khalifa ganha novos brinquedinhos para detonar seus subversivos cidadãos pró-democracia.

Será caso de dissonância cognitiva? Claro que não. Afinal, a Síria é apoiada por Rússia e China no Conselho de Segurança da ONU; e o Bahrein hospeda a 5ª Frota dos EUA – defensores do “mundo livre” contra os iranianos-do-mal que querem fechar o Estreito de Ormuz.

Há um ano, a maioria da população do Bahrein – que são xiitas pobres, tratados como cidadãos de terceira classe, mas há também sunitas estudados e cultos – saíram às ruas para exigir, dos al-Khalifas reinantes, um mínimo de democracia.

Como na Tunísia e no Egito – mas diferente da Líbia e da Síria – o movimento pró-democracia no Bahrein foi autóctone, legítimo, não violento e não infiltrado pelo Conselho de Cooperação do Golfo (CCG).

A reação foi repressão violentíssima, seguida de invasão pela Arábia Saudita, que cruzou a ponte até Manama. Foi resultado tácito de negócio acertado entre a Casa de Saud e Washington: damos a vocês uma resolução que lhes permita ir à ONU e proceder ao bombardeio humanitário, pela OTAN, contra a Líbia; e vocês nos deixam à vontade para detonar os doidos dessa Primavera Árabe.

O governo Obama não perdeu tempo e logo comemorou preventivamente a democracia esmagada no Bahrein, despachando para lá um dos chefetes do Departamento de Estado.

Como noticiou o Gulf Daily News, chamado “a Voz do Bahrein” (parece mais a voz dos al-Khalifas), o secretário de Estado assistente dos EUA para o Oriente Próximo, Jeffrey Feltman, elogiou entusiasticamente as providências tomadas pelo rei Hamad para “diluir as tensões” – como a “libertação de prisioneiros políticos, uma reforma parcial do Gabinete e a retirada das forças de segurança”.

Os informantes de Feltman devem ser cegos e surdos, porque os prisioneiros políticos continuam na cadeia, a reforma do Gabinete é cosmética, e as forças de segurança continuam operando em modo de repressão total.

Feltman disse que Washington prestigia o “diálogo nacional”, soluções “made-in-Bahrein”, e que não haja “interferência de estados estrangeiros no processo”. Os bahrainis devem então obedecer ao modelo CCGOTAN aplicado à Síria?

Feltman disse também que “os bahreinis podem contar com o apoio dos EUA para um consenso bahraini com vistas a avançar” e elogiou “a sinceridade” do Príncipe Coroado Salman, também vice-comandante-supremo e regente do diálogo nacional. Com amigos assim, o movimento pró-democracia no Bahrein não carece de inimigos.

Eis pois, em síntese, a mensagem de Washington: façam essa gente parar de fazer barulho, e nós deixamos aí a nossa base para defender vocês e seus primos, contra as massas imundas. Se suas mulheres se assustarem, convoque uma invasão!

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SOB LEI MARCIAL

A vida real no Bahrein é completamente diferente disso. O que a imprensa-empresa nos EUA chama de “emirado tenso” vive ainda, de fato, sob lei marcial. Os manifestantes pró-democracia que foram “libertados” – são centenas – continuam presos. A ONG Human Rights Watch, diga-se a favor dela, mas ainda confiando em números subestimados, diz que “não há como investigar denúncias de tortura e assassinatos – crimes nos quais está implicada a Força de Defesa do Bahrein”. De fato, a transparência é zero.

Já prevendo novos ataques contra a população no primeiro aniversário do levante, o Ministério da Saúde ordenou que os hospitais privados entreguem ao aparato de segurança listas dos nomes de todos os feridos que procurem os hospitais; centenas de médicos e enfermeiros, acusados de ter socorrido manifestantes feridos, têm sido presos nos últimos meses.

O exército cercou com arame farpado todas as áreas próximas da rotatória da Pérola – onde o monumento à Pérola foi demolido, metáfora gráfica extrema de democracia reduzida a cacos. Dois cidadãos norte-americanos, Huwaida Arraf e Radhika Sainath, foram recentemente presos em Manama durante protesto pacífico, não violento. Ayat al-Qormozi foi presa porque declamava um poema de críticas contra o rei Hamad, na rotatória da Pérola.

Em novembro passado, a Comissão Independente de Inquérito sobre o Bahrein acusou os al-Khalifas de ter usado “força excessiva, com extração de confissões forçadas dos detidos”. No final de janeiro, a Anistia Internacional conclamou os Al-Khalifas “a investigar e prestar informações sobre mais de dez mortes atribuídas ao gás lacrimogêneo usado pelas forças de repressão” e exigiu que Washington “suspenda a entrega às autoridade do Bahrein de gás lacrimogêneo e outros equipamentos para controle de tumultos”.

A segurança local apoiada pelos sauditas depende quase completamente das forças paquistanesas antitumulto – para nem falar do gás lacrimogêneo e das granadas de fumaça fabricadas nos EUA, úteis para dispersar completamente qualquer manifestação pacífica contra o governo.

Grande número de idosos e crianças morreram por asfixia quando as tropas do governo dispararam bombas de gás lacrimogêneo em áreas residenciais e até dentro das casas. A repressão apoiada pelos sauditas atingiu até famílias que participavam dos funerais de manifestantes mortos pelo aparelho de repressão dos al-Khalifas.

Qual é o problema?! Tudo isso é parte do “diálogo nacional” conduzido pelo príncipe coroado.

Apesar da repressão violenta que nunca diminui, continuam praticamente todos os dias as demonstrações que exigem o fim do reinado dos al-Khalifas. Essa exigência não aparecia na pauta original do movimento pró-democracia; foi incluída depois da invasão dos sauditas.

E para provar que vivemos em mundo de “O significado da Vida” de Monty Python, confiram o que diz o rei Hamad em entrevista publicada pela semanal alemã Der Spiegel.

O rei diz que pediu ao Conselho de Cooperação do Golfo que invadisse seu país em março de 2011 para proteger as “instalações estratégicas” do Bahrain – “no caso de o Irã tornar-se mais agressivo”. Teerã nada teve a ver – absolutamente nada a ver – com os protestos, que foram causados por uma monarquia sunita que ameaça a absoluta maioria dos cidadãos, como os Emirados Árabes Unidos ameaçam os trabalhadores sul-asiáticos.

O rei disse também que “nossas mulheres estavam muito assustadas, e um cavalheiro tem o dever de proteger as mulheres”. Ora! Em vez de invasão, tortura, matanças e repressão ininterrupta, o rei bem poderia ter acalmado suas “mulheres assustadas” com um sortimento patrocinado pelo Estado, de bolsas Louis Vuitton.

Os novos cães de guarda

Emir Sader

“Por que os jornalistas não deveriam responder por suas palavras, dado que eles exercem um poder sobre o mundo social e sobre o próprio mundo do poder?” – assim o atual diretor do Le Monde Diplomatique francês, Sege Halimi, abre o seu livro “Os novos cães de guarda”.

O livro retoma, no seu titulo, o livro de Paul Nizan, “Os cães de guarda”, publicado originalmente em 1932, e tornado famoso pela sua reedição em 1960, quando Sartre prefacia um outro livro de Nizan, Aden Arabie, relançando sua obra.

Nizan dizia que os intelectuais não devem ser os taquígrafos da ordem, mas aqueles que saibam a necessidade de superá-la, isto é, de subvertê-la. “O homem jamais produziu nada que testemunhasse a seu favor, senão com atos de cólera: seu sonho mais singular é sua principal grandeza, reverter o irreversível. Recusar esconder os mistérios da época, o vazio espiritual dos homens, a divisão fundamental de sua consciencia, e esta separação cada dia mais angustiante entre seus poderes e o limite real de sua realização”.

Halimi escreveu “Os novos cães de guarda” (Jorge Zahar, no Brasil), na coleção de combate dirigida por Pierre Bourdieu, para atualizar o fenômeno, que tornou-se um fenômeno essencialmente midiático nos nossos dias. A mercantilização neoliberal arrasou o campo midiático: “A informação tornou-se um produto como outro qualquer, comprável e destinado a ser vendido…”

Halmim faz um livro devastador, porque simplesmente retrata como são produzidas as informações e as interpretações a favor do poder e da riqueza. “Reverência diante do poder, prudência diante do dinheiro…”- resume ele, que revela as tramas de cumplicidade e de promiscuidade entre a velha mídia e os poderes economicos e políticos. E, também, como esses empregados das empresas de comunicação se promovem a si mesmos, alegremente, numa farsa de fabricação de opinião publica – expressão de Chomsky – de forma oligárquica e elitista.

Quem ousa romper com o consenso dominante é desqualificado como “populista”, “demagogo” pelos “cardeais do pensamento único”, que nos venderam suas mercadorias como a única via possível de “governos responsáveis”, afirmações pelas quais nao respondem hoje, quando essas certezas revelam suas misérias e os sofrimentos que causam para os povos cujos governos ainda se guiam por esses dogmas.

“Mídias cada vez mais concentradas, jornalistas cada vez mais dóceis, uma informação cada vez mais medíocre”, conclui Halimi. Perguntado pela razão de que a velha mídia não se reforma, não se renova, o ex-ministro da educação da França, Claude Alegre, político de direita, respondeu com franqueza: “Eu vou lhes dar uma resposta estritamente marxista, eu que nunca fui marxista: porque eles não têm interesse… Por que os beneficiários dessas situação não têm o menor interesse em mudá-la.”

O livro de Halimi foi transformado em documentário e é o filme mais interessante para se ver em Paris atualmente, com o mesmo titulo do livro: “Os novos cães de guarda”. Dirigido por Gilles Balbastre e Yannick Kergoat, com a participação do próprio Halimi no roteiro, o filme poderia ser transporto mecanicamente para o Brasil, a Argentina, a Venezuela, o México, qualquer país latino-americano, apenas mudando os nomes dos jornalistas, dos donos das empresas midiáticas e dos supostos especialistas entrevistados, representantes da riqueza e do poder nas nossas sociedades.

Entre outras informações sonegadas pela velha mídia, cada vez que alguém é entrevistado ou chamado para alguma reunião na velha mídia, deveriam aparecer os créditos da pessoa: seu cargo nas empresas privadas, sua participação em outras, as ações que dispõem, etc. Para que se saiba quem está falando, sem disfarçá-lo na qualidade de “especialista”, grande economista, etc., etc.

(Transcrito do blog de Emir Sader)

Agora, falta o Supremo aceitar que o Conselho Nacional de Justiça investigue as ‘movimentações atípicas’ dos magistrados

Carlos Newton

Nem tudo está perdido. A Advocacia-Geral da União se mostra favorável à retomada da investigação sobre movimentações financeiras suspeitas de magistrados e servidores do Judiciário pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Esta posição da AGU já foi encaminhada ao Supremo Tribunal Federal pela AGU, conforme noticiou o jornal “O Globo”.

Como se sabe, em decisão do ministro Ricardo Lewandowski, o Supremo havia congelado no ano passado a investigação do Conselho Nacional de Justiça, a pedido de associações de magistrados que alegaram ter havido quebra de sigilo.

A investigação do CNJ era baseada em informações oficiais do governo, fornecidas pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), órgão de inteligência do Ministério da Fazenda, que levantou 3.426 magistrados e servidores do Judiciário que fizeram movimentações consideradas “atípicas”, no valor de R$ 855 milhões entre 2000 e 2010.

O ápice ocorreu em 2002, quando um servidor do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região, no Rio, movimentou R$ 282,9 milhões. Ele é alvo também de investigação da Polícia Federal.

Segundo a Folha de S. Paulo, em sua manifestação a AGU lembra que o Supremo já garantiu os poderes de investigação da corregedoria do conselho. Além disso, a AGU disse que não houve a quebra de sigilo. “O acesso a esses dados, de maneira reservada e sem qualquer exposição, não representa quebra de sigilo.”

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APOIO A ELIANA CALMON

A argumentação da Advocacia-Geral é coincidente com a da corregedora do CNJ, ministra Eliana Calmon, que está à frente da investigação e se tornou pivô de uma crise com parte da cúpula do Judiciário. Ela foi o principal alvo de críticas das entidades representativas.

Segundo a corregedora, os magistrados já são obrigados a apresentar a declaração do imposto de renda. “Não é para ficarem guardados num arquivo, mas para que os órgãos de controle examinem quando houver suspeita de transações ilícitas”, justificou, no auge da crise.

Havia tribunais em que juízes e desembargadores simplesmente desconheciam a lei e não apresentavam suas declarações de rendimentos.

Em apoio à AGU, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional do Rio de Janeiro, Wadih Damous, também defendeu que o STF derrube a liminar que paralisou a apuração.

“A sociedade quer ver um Judiciário transparente, com publicidade plena dos seus atos.” Segundo a Folha, Damous afirmou ainda que “se há movimentação atípica nas contas de alguns juízes e servidores, eles deveriam ser os primeiros a explicar o motivo”.

Mas e a reforma agrária, pessoal?

Percival Puggina

Volta e meia, repassando arquivos de antigos textos, deparo-me com cartas que recebi e guardei. Há entre elas mensagens de religiosos atacando-me como a um renegado. Afirmavam que a fé cristã me obrigaria a apoiar as tropelias do MST.

Sustentavam que a própria racionalidade me imporia estar ao lado do progresso e do desenvolvimento social e econômico que adviriam dos assentamentos e da limitação da propriedade da terra. Esta última, a limitação das propriedades em um número máximo de módulos rurais, foi tentada na Constituinte, pretendida, depois, como objeto de plebiscito, e incluída, por fim, como pauta da Campanha da Fraternidade de 2010. Virou mero abaixo assinado e não conseguiu 500 mil assinaturas malgrado mobilização feita em todo o país.

Ou seja, a luminosa ideia empolgou apenas um em cada 200 eleitores brasileiros. Mesmo assim, claro, o elenco dos promotores festejou o resultado como uma unanimidade nacional, porque cem por cento dos signatários foram totalmente favoráveis ao projeto.

Há que reconhecer como memoráveis as energias que atuaram durante décadas contra o desenvolvimento rural e contra o agronegócio! E porque foram memoráveis não podem mergulhar nas sombras do esquecimento as hordas que investiam contra os projetos florestais, a metódica destruição de lavouras experimentais e o vandalismo contra máquinas agrícolas.

Como olvidar a fúria dos ataques à biotecnologia e aos produtos transgênicos, avanços tecnológicos que nos levaram aos sucessivos recordes de produtividade e produção festejados, agora, pelos governos petistas?

Em que prateleira perdida foi parar a história de que “ninguém come soja” (tolice que desconhece o processo de transformação de proteína vegetal em proteína animal)? Cadê a paparicação internacional ao MST, que tanto lhe rendia em dadivosos auxílios de nebulosas ONGs estrangeiras? Que fim levou o delírio de uma agricultura próspera através da política de assentamentos defendida e imposta pelo PT e seus aliados?

Bilhões de reais foram para o ralo de aventuras agrárias mal concebidas e pessimamente executadas, das quais pouco se fala porque qualquer murmúrio a respeito seria o relatório de seu fracasso. Não importa, dirão os recalcitrantes. Como sempre, os fracassos da esquerda não ganham notoriedade porque, “no fundo a ideia era boa”. Não deu certo por causa dos mal intencionados que a ela se opunham.

O sociólogo Dr. Zander Navarro, especialista internacionalmente reconhecido em desenvolvimento rural, numa entrevista concedida à Folha em 2007, apontou o óbvio: se fosse apenas algo determinado pela agenda presidencial, a reforma agrária já estaria fora das ações do governo. E o que então restava provinha da inércia inerente a tal bandeira junto “a setores sociais incapazes de perceber que o mundo rural brasileiro mudou radicalmente nos últimos 30 anos”.

E prosseguiu: “O Brasil não tem mais razões, de nenhuma ordem, para mobilizar consideráveis recursos para promover uma ampla redistribuição de terras. Passamos a ser um país predominantemente urbano e insistir na existência de uma ‘questão agrária brasileira’ é uma miopia de quem tem os pés no passado remoto. As demandas sociais apropriadas à população rural mais pobre são outras (…)”.

O esvaziamento do MST por perda de militância mostra que o país se urbaniza cada vez mais, como qualquer nação desenvolvida ou emergente. O sonho dos assentamentos é um anacronismo de quem quer reproduzir, em pleno século 21, o modelo que fez prosperar os imigrantes alemães e italianos no século 19, articulando, esse modelo, a uma simplória ideologia coletivista que, durante longos anos, salpicaram de água benta.

(Transcrito do blog de Percival Puggina)

Greve de fome de preso palestino reabre debate sobre Justiça militar israelense

Reportagem de Ana Cárdenes, da agência EFE, mostra que os mais de 60 dias de greve de fome do palestino Khader Adnan, preso por Israel sem acusações, voltaram a pôr sobre a mesa o debate sobre a aplicação da justiça militar com a qual Israel julga os palestinos nos territórios ocupados e sua denunciada falta de imparcialidade.

Adnan foi detido a 17 de dezembro pelo Exército israelense sob o amplo conceito de “detenção administrativa”, uma ferramenta que permite prender indefinidamente os palestinos sem acusação de delito algum.

Ex-porta-voz do grupo islamita palestino Jihad Islâmica, Adnan é um dos 307 palestinos nesse limbo legal, uma situação que o levou a se negar a ingerir alimentos desde o dia seguinte a sua detenção.

“Nos casos de detenção administrativa como este não temos direito sequer de ver o dossiê de acusação, porque se considera ‘material secreto’ que nem o detido nem seu advogado podem conhecer”, detalhou à Efe Sahar Francis, diretora de uma organização não governamental palestina de apoio a prisioneiros.

Esta advogada explicou que “na audiência judicial há duas partes, uma na qual o advogado pode fazer perguntas ao promotor, mas que este não contesta argumentando segredo, e outra entre o promotor e o juiz, na qual se decide tudo sem a presença da defesa”.

A detenção administrativa pode estender-se a cada seis meses, o que permite que algumas pessoas estejam anos sem saber por que estão detidas nem o que podem fazer para ser libertados.

“Na Primeira Intifada houve presos que passaram oito anos em detenção administrativa e agora há vários que estão há três anos e meio nessa situação”, garantiu Francis.

Para ela, há três problemas fundamentais no sistema: a indefinição dos delitos, os procedimentos que violam direitos básicos do detido e a excessiva dureza das penas, com prisão de até um ano por jogar uma pedra sem atingir ninguém.

A lei militar permite que os detidos estejam até oito dias sem apresentar-se perante um juiz (em vez das 24 horas em Israel) e dá às forças de segurança 180 dias para interrogá-los, que podem ser estendidos ilimitadamente.

Outra das carências do sistema, ressaltou Francis, é que “a maioria de acusações se baseiam em confissões que outros presos fazem durante interrogatórios nos quais a tortura e o maus-tratos estão muito difundidos. Há poucos casos que apresentam provas materiais”.

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CONFISSÕES EM HEBRAICO

Os interrogatórios são em árabe, mas os presos assinam a declaração em hebraico, idioma que muitos não entendem. Os advogados têm um acesso limitado a seus clientes e os julgamentos transcorrem em hebraico, com um jovem sem formação de tradutor legal entre 18 e 21 anos que realiza o serviço militar obrigatório narrando em árabe aos acusados o que ocorre.

Outro problema é que Israel julga em seus tribunais militares não só questões de segurança, mas também crimes civis como infrações de trânsito e multas, que podem levar os palestinos à prisão.

Para Francis, o fato de “mais de 90% dos casos serem fechados com acordos entre promotor e advogado e menos de 1% ser declarados inocentes” demonstra a inexistência de um julgamento justo.

Renúncia do presidente alemão, acusado de corrupção, mostra a diferença entre a política no Brasil e na Alemanha.

Carlos Newton

Em meio à sagrada e bem-vinda volúpia do Carnaval, os jornais brasileiros deram pouco destaque à renúncia do presidente da Alemanha, Christian Wulff, que está sendo investigado por atos de corrupção. Aqui no Blog da Tribuna, o assunto só não passou batido porque o comentarista Martim Berto Fuchs se encarregou de abordá-lo duas vezes, reproduzindo a seguinte informação:

“A confiança dos cidadãos foi afetada. Portanto, não posso seguir exercendo minha função. Por isso renuncio”, declarou Wulff.

Na noite de quinta-feira (16/2), a Procuradoria de Hannover (no norte do país) havia reclamado que sua imunidade fosse suspensa por suspeitas de corrupção por ele ter obtido várias vantagens de amigos empresários.

A chanceler Angela Merkel, a promotora da eleição de Wulff, cancelou de última hora sua visita à Itália, onde deveria se reunir com o primeiro-ministro Mario Monti, para fazer uma declaração na qual pediu consenso para designar o próximo presidente alemão.

Desde meados de dezembro, Wulff, de 52 anos, é alvo de críticas dos meios de comunicação alemães que o acusam de ter tentado abafar um caso de crédito privado obtido da esposa de um amigo industrial, quando era chefe do governo regional da Baixa Saxônia.”

Vejam que diferença para o Brasil, onde sete ministros são afastados por corrupção, no prazo de apenas 13 meses, e não acontece nada. Analisem, por exemplo, o caso do governador Sergio Cabral. Quando suas ligações com os empreiteiros que vivem ás custas do erário ficaram evidentes, naquele fim de semana na Bahia, ao invés de renunciar, ele simplesmente mandou redigir um Código de Conduta, como se não soubesse o que é certo ou errado para um homem público fazer. Sinceramente…

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NOVO PRESIDENTE É ESCOLHIDO

O ex-ativista de direitos humanos da Alemanha Oriental, Joachim Gauck, será o próximo presidente da Alemanha, disse a chanceler Angela Merkel neste domingo.

Os partidos cristãos de Merkel (CDU/CSU) e seu aliado liberal (FDP), o Partido Social Democrata (SPD) e os Verdes contavam com uma cômoda maioria para que Gauck, de 72 anos, fosse eleito.

Gauck foi o candidato do SPD e dos Verdes em junho de 2010 contra Wulff, a quem Merkel acabou escolhendo sem muitas dificuldades.

O futuro presidente alemão, a quem Merkel chamou de “professor da democracia” durante sua coletiva de imprensa, goza de uma grande popularidade em seu país.

Apenas o partido de extrema esquerda Die Linke, formado por alguns ex-membros do partido comunista que governava a RDA, critica ferozmente Gauck, que é pastor luterano.

Recarregadas as baterias

Carlos Chagas

Livres do Carnaval não estamos hoje, tendo em vista a moda que avança ano após ano e faz da Quarta-Feira de Cinzas o dia do rescaldo da folia iniciada bem antes do último sábado. Melhor assim, fica todo mundo feliz, ou quase. Resta aguardar para saber quando, daqui a séculos, o país do Carnaval incluirá o adjetivo “permanente” em nossas características maiores. Mesmo assim, é preciso seguir adiante.

Senão hoje, amanhã estarão funcionando em Brasília atividades e instituições estáveis, depois de interregno tão singular quanto feliz para a maioria dos carnavalescos em festa, entre 200 milhões. A presidente Dilma despacha novamente em Brasília e logo viaja para o Nordeste. Seus ministros, com as exceções de sempre, também.

 Nos tribunais superiores, voltam as togas, ainda que no Congresso inexistam esperanças de plenários cheios, coisa que fica para a próxima semana. A retomada da normalidade estende-se pelo território nacional, recarregadas que se encontram as baterias da paciência popular, não obstante a perda de tanta energia.

A pergunta que se faz é sobre quando começará o ano eleitoral, acima e além de datas e prazos que o Tribunal Superior Eleitoral divulgará proximamente. Voltam-se as atenções para a escolha dos candidatos a prefeito nas capitais. Em quase todas emergem possibilidades, ainda que certeza não exista quanto à tendência definitiva dos grupos e partidos em disputa prévia.

Tome-se São Paulo, ainda sujeita a surpresas, apesar de quase definidos os dois polos conflitantes: Fernando Haddad, do PT, já lançado pelo ex-presidente Lula, e José Serra, do PSDB, prestes a romper a barreira da indecisão. Fora algum inusitado, daqueles que costumam acontecer, estará em jogo mais do que a prefeitura paulistana. Primeiro, o governo do estado, que o PT almeja há anos, mantido pelo PSDB, mas também, para 2014, a presidência da República, não necessariamente entre companheiros de um lado e tucanos de outro, muito menos que se restrinja a São Paulo a luta pelo palácio do Planalto.

Mas a corrida pela sucessão de Gilberto Kassab é simbólica. Vale aguardar seus desdobramentos, até outubro.

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E AS MEDIDAS PROVISÓRIAS?

Na recente reabertura dos trabalhos do Congresso, no começo do mês, destacou-se o pronunciamento do senador José Sarney, numa espécie de última prestação de contas como presidente do Senado. Lembrou sua longa vida pública, sua inequívoca colaboração prestada para a consolidação da democracia e não poupou críticas às medidas provisórias criadas na Constituição de 1986 e utilizadas exageradamente desde o governo Fernando Collor, com ênfase para os períodos de Fernando Henrique e Lula. Sem esquecer Dilma Rousseff, agora.

Espera-se que à teoria retórica venha a seguir-se a prática objetiva. Sarney fica devendo o patrocínio imediato de emenda constitucional limitando ou até extinguindo a prerrogativa de o Executivo legislar sem quaisquer impedimentos, como se Legislativo fosse. Apesar de o mais importante aliado do governo, a lealdade maior do senador é para com o poder que preside. Quem sabe desta vez vamos?

Portinari, por ti a Mocidade Independente canta

Pedro do Coutto

Foi uma bela homenagem à arte, através de um lindo desfile da Mocidade Independente, a que foi prestada a Cândido Portinari, 50 anos após sua morte. Na voz da escola de samba de Padre Miguel, em um dos versos, um achado poético:”Por ti a Mocidade canta.”

Me tocou a homenagem ao grande artista, personagem na entrada da ONU em Nona Iorque com o mural Guerra e Paz. Consagradíssimo no mundo, autor do Baile na Roça, monumento à pintura e ao artista.Frequentava muito a redação do Correio da Manhã, onde o conheci.

Simples, quase pedindo licença para entrar e estar. Aos amigos Antônio Callado, Luiz Alberto Bahia, Antonio Houaiss, presenteava com obras suas. Estão por aí. Ingressaram como ele na eternidade. A arte, como sempre acontece, sobrevive aos seus autores.

Por ti (Portinari) a Mocidade Canta. O verso me ficou na cabeça, noite de domingo. Na segunda-feira, leio no Globo primorosa reportagem de Isabela Bastos, foto de Mônica Imbuzeiro, sobre uma iniciativa que, finalmente, se realiza: a reforma do Palácio da Cultura, no centro do Rio, que leva o nome de Gustavo Capanema, ministro da Educação e Cultura de Vargas. Início da década de 40, quando as duas pastas eram uma só.

Traço original da obra, do arquiteto suíço Edouard Le Corbisier, que tanto inspirou Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, executores do prédio na Avenida Graça Aranha. Chefe de gabinete de Capanema, Carlos Drumond de Andrade. Azulejos externos de Portinari, por dentro painel seu, Café. Poesia de Drumond sobre os azulejos: azul, azul, concha e cavalo marinho, 22 vezes no espaço-tempo, que, 15 anos depois, em 56, inspiraria os poetas concretos Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Ronaldo Azeredo e José Lino Grunewald. E também o neo concretista Ferreira Gullar. Mas esta é outra questão.

O fato essencial e calamitoso, um atentado à arte e à cultura, é que o Palácio Gustavo Capanema ficou abandonado após a mudança da capital do país. Anos depois, já trabalhando no Globo, fui ao Gustavo Capanema fazer matéria da qual não me lembro agora. No segundo andar, reparei no atentado terrível. Como, apesar de Niemeyer e Lúcio Costa, a ventilação do edifício não é boa, alguém mandou instalar aparelhos de ar refrigerado. A construção se divide em blocos e sublocos separados por corredores. O que fizeram então? Colocaram aparelhos em corredores. Mas havia (e há) salas de fundo.Num dos salões de fundo, o famoso mural Café, focalizando os trabalhadores na lavoura.

Não consegui até hoje saber o nome do gênio que simplesmente mandou furar a parede para, no salão, instalar saídas de ar. Ele (ou ela) não teve dúvida: mandou furar o mural, no alto, violentando a obra de arte. Quando no governo Itamar Franco, Antonio Houaiss assumiu a Cultura fui procurá-lo no Gustavo Capanema. Falei com ele. Achou impossível, Mas contra fatos não há argumentos. Ficou espantado.

Mas, acredito eu, o estrago tornou-se irreversível. Pode ser que não. Vamos ver o que a ministra Ana de Holanda pode fazer. Aliás, Portinari enfrentou vários problemas e dificuldades por ser adepto – hoje não seria mais – da doutrina marxista.  A Igreja da Pampulha estava nesse rol. Construida por JK, quando prefeito de Belo Horizonte, o mural de Portinari foi considerado sacrílego. Apenas porque num deles um cão assistia à missa. A capela viveu anos fechada. Reaberta por José Aparecido, também no governo Itamar Franco.

A vida é assim. Os incompetentes poluem o pensamento livre. A resposta, 2012, entretanto foi dada pelo samba: Portinari, por ti a Mocidade Independente canta. Respondeu. O Brasil também, através da Rede Globo e dos comentários do grande Haroldo Costa.

A vitória de Bolívar

Sebastião Nery

Órfão numa família rica, criado pela negra Hipólita, que considerava mãe, nasceu em Caracas, em 1783. Aos 16 anos, em 1800, foi estudar na Espanha. Em 1804, assistiu, em Paris à coroação de Napoleão. Em 1805, estava em Roma e, no monte Sacro, jurou “dedicar a vida a romper as cadeias com que nos oprime o poder espanhol”.

Passou pelos Estados Unidos e, em 1807, há exatos 205 anos, voltou à Venezuela para lutar pela independência. Pregava o “sonho bolivariano” de “uma América Latina unificada”, uma “Comunidade das Nações Americanas”, uma ONU americana, um século e meio antes da ONU. Libertou a Venezuela, a Colômbia, o Peru, a Bolívia.

– “Não usurparei a liberdade. Tenho mais medo da tirania do que da morte. Fugi de um país onde um só indivíduo exercia todos os poderes. Seria apenas um país de escravos. Chamai-me libertador da República. Jamais serei seu opressor”.

Se você quiser saber mais sobre o que pensava Bolívar, leia Vision y Actuacion Internacional de Simon Bolívar (assim em espanhol, porque é uma tese de doutorado na Espanha), do culto Padre José Carlos Aleixo (filho de Pedro Aleixo). (Ou Bolívar, de Salvador de Madariaga, México, 1951, 2 vols).

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HELONEIDA

E já que falamos de liberdade e libertários, choremos uma lutadora incomparável, que perdemos em 2007: a inesquecível Heloneida Studart, cearense, bisneta da barão, jornalista, escritora, autora de best-sellers como “Mulher, Brinquedo do Homem”, “Mulher, Objeto de Cama e Mesa”, primeira líder feminista do Rio, várias vezes deputada do MDB e PT.

Na página 1.140, do excelente DHBB (Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro), da FGV-CPDOC, uma foto histórica mostra as Polícias do Exército e do Rio, em plena ditadura, em 1978, dissolvendo uma passeata na Avenida Rio Branco e todos resistindo: senador Nelson Carneiro, deputados ou candidatos Hélio de Almeida, Marcelo Cerqueira, Raimundo Oliveira, Délio dos Santos e outros.

E, no meio do tumulto, da confusão, daqueles homens todos, apenas uma mulher, brava e valente, com seus óculos grossos, Heloneida Studart.

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MARCELO

Algum tempo depois, a Polícia Militar do Rio estava espancando os estudantes, em frente à UNE, na praia do Flamengo, e resolveu surrar também deputados e vereadores: Marcelo Cerqueira,Valter Silva, Raimundo de Oliveira, José Eudes, Heloneida Studart, Hélio Fernandes Filho e Antonio Carlos de Carvalho. Marcelo Cerqueira correu para um botequim ao lado e ligou para o gabinete do ministro da Justiça Abi Ackel:

– Preciso falar com o ministro ou com o secretario Sileno Ribeiro.

– Não estão. Aqui é o Oyama Teles, assessor de imprensa.

– Ótimo, Oyama. É o deputado Marcelo Cerqueira, do MDB do Rio. A polícia transformou a praia do Flamengo numa praça de guerra e está arrebentando deputados, vereadores, estudantes, o povo. Não respeitam ninguém. Como é que eu faço para falar agora com o ministro?

– Deputado, nós não temos nada com isso. Isso é coisa do Chagas (Chagas Freitas, governador do Rio, também do MDB).

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OYAMA

– Oyama – respondeu Marcelo – essa conversa é velha. No governo do Castelo Branco era a mesma coisa. A polícia batia, o governo federal dizia que a culpa era do Negrão e o Negrão culpava Brasília. E foi assim que o AI-5 nasceu: o povo apanhando de um pau sem dono.

– Mas, deputado, primeiro é preciso saber quem está batendo.

– Oyama, não estou preocupado com quem bate, mas com quem apanha.

E desligou. O português do botequim estava de olhos arregalados e puxava Heloneida para dentro:

– Fique aqui, minha senhora, os homens lá fora estão batendo muito.

– Meu senhor, obrigado, mas eu sou do lado dos que estão apanhando.

E voltou para a rua e para a briga.

 

Perigo à vista

Paulo Peres

O corrupto governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, cuja administração está eivada de práticas ilegais, afimou que pretende profissionalizar as escolas de samba. Logo, o perigo está à vista, pois pode ser mais um ato de corrupção que está sendo armado com a desculpa de que é preciso, cada vez mais, tirar patronos e dar às escolas um sentido mais profissional.

Antigamente o jogo do bicho era visto de maneira romântica, segundo Cabral, mas provou envolvimento com outras atividades ilícitas. “É a ilegalidade em cima da ilegalidade. O romantismo acabou há muito tempo. “A gestão econômica e administrativa tem que ser profissional, para não ficar dependendo de alguém ligado a uma atividade ilegal”.

O governador disse ainda que o Poder Público pode ajudar as escolas na reforma das quadras para gerar eventos e receber artistas. “A gestão econômica e administrativa tem que ser profissional, para não ficar dependendo de alguém ligado a uma atividade ilegal. Que a escola seja autossuficiente o ano inteiro e possa sair do controle de quem quer que seja – bicheiros ou milicianos, qualquer agente ilegal que esteja dominando a escola”.