As galinhas do PMDB

Sebastião Nery

Em 2002, da tribuna da convenção do PMDB, em São Paulo, o senador Pedro Simon fazia um patético apelo ao presidente do partido, Michel Temer, e a seus líderes no Senado e na Câmara, Renan Calheiros e Gedel Vieira Lima, para que “não vendam nossa casa de tantos anos, tantas lutas, tantas alegrias e tantas dores, desde a resistência à ditadura, à gloriosa legenda de Ulysses, Teotônio e Tancredo, e apoiem um candidato do partido à Presidência da República”.

No canto do auditório, um senhor gordo, corado e suado, vereador no interior de São Paulo, sorriu incrédulo:

– O senador está perdendo tempo com esse discurso bonito. Conheço o Michel há muito tempo, de várias campanhas. Ele não quer saber de Ulysses, Teotônio, Tancredo, história, nada disso. Atrás daquela fachada, daquela cara morta, indefinida, de professor sem aluno, está a alma miúda de um homenzinho que só pensa em vantagens e posições, só pensa nele e para ele. Com ele não adianta discurso alto. Galinha come milho com bico no chão.

E foi beber um copo d’água.

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O MILHO DE MICHEL

Quando Itamar Franco então chegou à tribuna e começou a dar nome aos bois, cobrando do bando governista sua traição ao partido, o vereador gordo, corado e suado tinha bebido sua água, voltado e ouvia Itamar atento:

– Essa gente não tem nenhum amor à Pátria nem ao partido. Um dia eles vão ter que se explicar pelo que fizeram contra o País nesses oito anos de FHC. Esta convenção majoritária, com a maioria dos convencionais do PMDB exigindo um candidato próprio, é uma resposta aos percevejos de gabinete e aos que vendem a alma. Michel Temer devia ter vergonha e renunciar à presidência de um partido em que ele é minoria e quer negociar, vender. O nosso partido ser liderado por Gedel Vieira Lima e a Fundação Ulysses Guimarães presidida por Moreira Franco, serviçal da ditadura, é uma vergonha para todos nós. Não vamos permitir que três pessoas leiloem nosso partido, que é nossa vida política! O sonho e a luta de Paes de Andrade, de sete anos, para que o PMDB tenha candidato próprio, tornou-se afinal majoritário no partido.

O vereador gordo, corado e suado ficou animado:

– É isso aí. Galinha só vai embora se tirar o milho. Michel também

E até hoje as michélicas, calhéricas e gedélicas galinhas do PMDB podem comer o milho que quiserem. Estarão sempre de bico no chão.

Jurisprudência e súmulas são meros adornos para os juízes de Vara do Trabalho

Roberto Monteiro Pinho

O que se vê no dia-a-dia da Justiça do Trabalho é que as súmulas e jurisprudências só aplicam em primeiro grau quando beneficia o empregado. Ao juiz cabe decidir se deve ou não aplicar o que se tem disponibilizado, e o processo seletivo, sempre atenta neste sentido, supondo-se que num elenco de inúmeras decisões que beneficiam o empregador, basta apenas uma para que o juiz atenda o outro pólo da demanda.

Na pratica, esses enunciados e orientações jurisprudenciais e até mesmo a mais rica das doutrinas, só servem como adorno no processo do trabalho, o que acaba transformando-os num pobre pedaço de papel com o timbre estatal. Um dos mais festejados pensamentos sobre a questão, é o de Araken: “Não há execução sem título, e se este inexistir, ou não for válido, “a penhora no patrimônio do devedor aparente constitui um mal injusto e grave sem nenhuma justificativa ou lenitivo”, (Araken de Assis, in “Manual do Processo de Execução”, 3ª ed., pág. 427). O jurista enfatiza exatamente a questão que é cerne do judiciário laboral.

Esse modelo arcaico e provincial, não espelha mais a realidade do mundo globalizado, diria que perdemos o ele entre a origem e a atualidade, dando a entender que o direito, em face dos ardilosos meios processuais tidos hoje como um instrumento dos mais espertos, se sobrepuja a boa justiça, dando lugar a pratica delituosa, sob a proteção da toga estatizada.

Não existe pré-garantia para a contratação do empregado, e a meu ver deveria isso porque, em virtude das ilicitudes na relação laboral, a sociedade arca com o ônus de bancar uma prole de milhares de serventuários e magistrados, que acrescido do mobiliário e imobiliário patrimonial se consiste num astronômico acúmulo de despesas e custos.

A mais valia, o incontroverso, deveria ser quitado pelo empregador no momento da primeira audiência, ou pelo menos em 48 horas, sob pena de prisão flagrante, por apropriação do bem do trabalhador, no máximo eu daria 48 horas. No entanto o controverso vai para a discussão, para o devido processo legal, e não poderia jamais ficar a mercê dos devaneios de julgadores que transformam o processo num laboratório, repleto de injunções jurídicas.

Além do que o serviço deste jurisdicionado movimenta, outra máquina, a da indústria de ações, eis porque qualquer que seja a pendenga do autor, ela é despejada sem custo e custas, neste judiciário. Em resumo não se pode abrir mão do direito mesmo por analogia, à “Duração Razoável do Processo” no núcleo fundamental do texto constitucional, já que estamos sob a análise teórica do artigo 5, inciso LXXVIII, da Constituição Federal de 1988.

E ainda temos outros termos de prestação jurídica, acrescido na Reforma do Poder Judiciário implementada pela Emenda Constitucional nº 45/04, e do seu art. 114 no trato da questão laboral. Todavia, é inaceitável que para isso não exista a reforma da Loman, onde teria entre outros novos pontos, que estar inserto o crime de responsabilidade civil do juízo, quando este violar a norma legal, também quanto ao devido processo legal. Isso porque é inútil e inquietante, se não irônico, ver o magistrado delinqüente, punido com uma aposentaria, com o salário de magistrado, no que se consiste uma premiação e não uma punição.

Lupi é exonerado por Eduardo Paes antes mesmo de assumir o cargo de ‘meio de campo em Brasília’

Carlos Newton

Uma surpresa e tanto. A reação negativa foi tão forte que o prefeito do Rio, Eduardo Paes, já exonerou o ex-ministro do Trabalho Carlos Lupi do cargo de assessor especial da Prefeitura do Rio em Brasília, cuja nomeação fora publicada na edição de sexta-feira do Diário Oficial do município.

Segundo informação da assessoria do prefeito, a decisão aconteceu um dia depois de Lupi ser anunciado como escolhido pelo cargo, depois de Paes e Lupi “conversarem e entenderem por bem não ser adequado que ele assuma as funções de assessor no gabinete do prefeito”.

Na sexta-feira, Lupi chegou a demonstrar entusiasmo com a nomeação para o cargo. “Ele [o prefeito] quer que eu faça um trabalho pelos interesses do Rio, possíveis emendas, projetos. Fazer a ponte com Brasília. Como fui ministro e tenho boa relação com todo mundo, vou fazer esse meio de campo”, disse.

O salário do ex-ministro seria de R$ 8.500, mais passagens aéreas e diárias. Como se sabe, Lupi, que é presidente nacional do PDT, saiu do ministério após suspeitas de irregularidades em contratos com ONGs (organizações não governamentais). Estava sendo contratado porque o PDT vai apoiar a reeleição de Eduardo Paes na eleição de outubro.

O Irã será atacado?

Paul Craig Roberts

Washington fez tremendos preparativos para um ataque militar contra o Irã. Há especulações de que Washington põe de lado suas duas guerras mais longas, do Iraque e do Afeganistão, a fim de mobilizar forças contra o Irã.

Duas das frotas de Washington foram enviadas ao Golfo Pérsico, junto com navios de guerra da OTAN. Mísseis foram espalhados por Washington pelos emirados do petróleo e estados fantoches do Oriente Médio. Tropas norte-americanas foram implantadas em Israel e Kuwait.

Washington deu de presente a Israel um dispendioso sistema de defesa antimísseis, pago pelos já pressionados contribuintes americanos, um dinheiro gasto para Israel quando milhões de americanos sem assistência perderam suas casas.

Como ninguém espera que o Irã vá atacar Israel, exceto em retaliação por um ataque israelense ao Irã, o objetivo do sistema de defesa antimísseis é proteger Israel de uma resposta iraniana à agressão israelense contra o Irã.

Juan Cole postou em seu blog um mapa mostrando 44 bases militares americanas ao redor do Irã. Além dos preparativos militares maciços, há a guerra de propaganda contra o Irã, que está em andamento desde 1979, quando o xá do Irã, fantoche de Washington, foi derrubado pela revolução iraniana.

O Irã está cercado, mas Washington e a propaganda israelense retratam o Irã como um país agressor e ameaçador. Na verdade, os agressores são os governos de Washington e Tel Aviv, que constantemente ameaçam o Irã com um ataque militar.

Belicistas neoconservadores, como David Goldman, comparam o presidente iraniano a Hitler e declaram que só a guerra pode detê-lo. Chefes militares de Washington criaram a impressão de que um ato de agressão israelense contra o Irã é um negócio fechado.

Em 2 de fevereiro, o Washington Post noticiou que o diretor do Pentágono Leon Panetta acredita que Israel é capaz de atacar o Irã em dois ou quatro meses. Também em 2 de fevereiro, Gareth Porter afirmou que o general Martin Dempsey, presidente do Joint Chiefs of Staff dos EUA, informou o governo de Israel que os EUA não se juntariam a uma agressão de Israel contra o Irã, a menos que Washington tenha dado autorização prévia para o ataque.

Porter interpreta a advertência de Dempsey como um forte movimento empreendido pelo presidente Obama a fim de deter um ataque que envolveria Washington em uma conflagração regional com o Irã. Uma maneira diferente de ler o aviso Dempsey é que Obama quer adiar um ataque ao Irã até que as pesquisas mostrem que ele perderia a eleição presidencial.
A experiência diz que o eleitorado patriótico não abandona um presidente que está em guerra.

Em 5 de fevereiro, o presidente Barack Obama anulou a advertência de Dempsey a Israel, quando declarou que estava em “sincronia” com o governo israelense. Obama está em sintonia com Israel, apesar do fato de Obama ter dito à NBC que “não vemos qualquer evidência de que eles [o Irã] têm essas intenções [ataques contra os EUA] ou capacidades.”

Por estar em sintonia com Israel e, simultaneamente, chamando para uma “solução diplomática”, Obama apazigua tanto o lobby de Israel quanto os grupos de paz democrática, aumentando assim os seus votos.

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O DINHEIRO DE WASHINGTON

Como escrevi anteriormente, esta primavera é um tempo privilegiado para atacar o Irã, porque há uma boa chance de que a Rússia entre em tumulto por causa de sua eleição de março. A oposição russa a Putin é financiada por Washington e encorajada por declarações de Washington, especialmente as de Hillary Clinton, secretária de Estado.

Se Putin ganhar ou se houver um resultado indeciso e um segundo turno, o dinheiro de Washington vai colocar dezenas de milhares de russos nas ruas, tal como o dinheiro de Washington criou a “Revolução Verde” no Irã para protestar contra as eleições presidenciais lá.

Em 4 de fevereiro, jornal britânico olutrora de esquerda The Guardian informou sobre um protesto pré-eleitoral com 120.000 manifestantes anti-Putin, que marcharam em Moscou e exigiam “eleições livres e justas.” Em outras palavras, Washington já tem seus asseclas, declarando que uma vitória de Putin em março só pode significar uma eleição roubada.

O problema para Obama é que durante a primavera deste ano será cedo demais para dizer se sua reeleição está ameaçada por um candidato republicano. Ir à guerra prematuramente, especialmente se o resultado for um aumento forte nos preços do petróleo, não seria uma ajuda à reeleição.

A disposição dos povos ao redor de mundo a serem meros fantoches de Washington, em vez de cidadãos leais de seus próprios países, é a razão pela qual o Ocidente tem sido capaz de dominar o mundo durante a era moderna. Parece haver um suprimento infinito de líderes estrangeiros que preferem o dinheiro e o favorecimento de Washington à lealdade para com os interesses de seus próprios países.

Como disse Karl Marx, o dinheiro transforma tudo em mercadoria que pode ser comprada e vendida. Todos os demais valores são apagados – honra, integridade, verdade, justiça, lealdade, até os laços de sangue. Nada permanece, senão a torpe ganância. Dinheiro certamente foi o que transformou o primeiro-ministro britânico Tony Blair em uma mercadoria política.

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NÃO HÁ PRIMAVERA EGÍPCIA

Esse é o modo como Washington domina. A maneira de Washington de dominar outros países é a razão pela qual não há “Primavera Egípcia”, e sim uma ditadura militar como um substituto para o fantoche Hosni Mubarak descartado por Washington, e por que estados fantoches europeus estão lutando guerras de Washington pela hegemonia no Oriente Médio, África do Norte e Central Ásia.

O Fundo Nacional para a Democracia de Washington financia organizações não-governamentais (ONGs) que interferem nos assuntos internos de outros países. É através das operações de ONGs que Washington acrescentou a ex-república soviética da Geórgia ao império de Washington, junto com os Estados bálticos e países da Europa Oriental.

Por causa da hostilidade de muitos russos a seu passado soviético, a Rússia está vulnerável a maquinações de Washington. Enquanto o dólar dominar, o poder de Washington vai dominar.

Paul Craig Roberts – economista, secretário-assistente do Tesouro no governo Reagan, é hoje um dos mais destacados cronistas dos EUA.

O Rio Grande do Sul chegou ao limite do consumo de energia. Apagão será o próximo passo.

Políbio Braga

Nossa revelação de que bateu no teto a capacidade máxima de transmissão e de distribuição de energia elétrica no RS só não é mais alarmante porque a notícia não veio acompanhada do anúncio de apagões (cortes de carga) no Estado.

O Rio Grande do Sul produz apenas 30% da energia que consome e por isto depende visceralmente da energia produzida noutros locais, sobretudo Itaipu, Paraná.

O problema é que as linhas de transmissão estão saturadas, o que vale para o miolo do Estado e também para os Estados ligados ao Sistema Interligado. A capacidade delas é de megawatts e nestes últimos dias de calor forte, a margem que separa o consumo (6 megawatts, atualmente) da capacidade de transmissão (6,1 megawatts) é de apenas 2%.Não é nada.

Ao cruzar esse limite, o que poderá acontecer a qualquer momento, cortes de cargas (apagões) serão aplicados seletivamente no Estado. Em casos como este, os planos de contigenciamento selecionam localidades, áreas e atividades menos problemáticas.

O problema maior será a indústria.

As autoridades federais e estaduais não tratam publicamente do assunto e não se sabe o que planejam para o ano que vem, quando o problema chegará ao limite do insuportável. O que se sabe é que o Rio Grande do Sul não constrói novas usinas (o editor não fala de usininhas eólicas) e também não investe pesadamente em modernização e construção de linhas de transmissão e distribuição.

(Transcrito do blog de Polibio Braga)

Falemos de injustiça, então!

Percival Puggina

A adoção de cotas raciais para ingresso na universidade pública suscita polêmicas. A UFRGS, alinhada com a lei federal, favorece os alunos oriundos de escolas públicas e, adicionalmente, os de escolas públicas que se declarem negros. Foi o que decidiu seu Conselho Universitário, cujos membros agiram convictos de haver servido à nobre causa da Justiça.

Será mesmo? Não será essa uma forma de fazer “justiça” a uns às custas da injustiça praticada contra outros? O altruísmo é virtuoso porque implica renúncia voluntária ao próprio bem em favor do alheio. Mas não o é quando praticado com o bem ou com o direito de terceiros. Incontestável: os alunos com bom desempenho, que perdem vagas para alunos com desempenho inferior, por força das cotas, são vítimas de injustiça que lhes é imposta. Não são eles os responsáveis pelas mazelas sociais do país.

O que está dito acima é simples fato. Não é argumento. Aliás, para argumentar contra o sistema, tampouco preciso desse disparate que é acolher entre os beneficiados das cotas alunos oriundos de alguns dos mais seletos e prestigiados estabelecimentos de ensino público do Estado: Colégio Militar, Colégio Tiradentes e Colégio de Aplicação.

Dispenso, igualmente, o fato de a condição “racial” ser autodeclaratória e nem sempre veraz. Descarto, também, a substituição por cotas sociais, mesmo que estas sejam mais abrangentes e menos preconceituosas. Dispenso-me, por fim, de lembrar aos idosos esquecidos e aos jovens que, há meio século, as mulheres estavam em casa, dedicadas às prendas domésticas. Sem cotas, sem privilégios, com muita perseverança, ao longo dos anos, abriram as portas das universidades e hoje são majoritárias nos cursos mais seletos e nas principais carreiras de Estado.

A injustiça tem que ser combatida onde inicia, em vez de ser disfarçada onde se torna visível. Se o ensino público compromete o desenvolvimento intelectual de centenas de milhares de estudantes do ensino fundamental e médio, ano após ano, de que vale a UFRGS admitir nos seus cursos apenas algumas dezenas de alunos cotistas?

Aliás, recente matéria de Zero Hora mostrou que o grau de reprovação destes é quatro vezes maior do que o dos demais. Há uma usina da injustiça operando na Educação. Sem a desmontar, mediante investimentos pesados nos seus recursos humanos, materiais e tecnológicos, tudo mais será pouco relevante. Não é o vestibular que está errado. Errado está o ensino público de nível fundamental e médio.

Injusta, quase criminosamente injusta, é a gratuidade do ensino superior para quem possa pagar por ele. Bilhões de reais que poderiam favorecer o ensino fundamental e médio são perdidos nessa desnecessária gratuidade! Injusto de doer é que o custeio dessa regalia provenha de impostos pagos por todos nós. Inclusive pelos mais pobres dentre os pobres. Inclusive pelo trabalhador cujo filho não passa na universidade pública nem pode custear a particular.

Mas esse modelo perverso conta com as unhas e os dentes da esquerda em sua defesa. Até os analfabetos sabem (não é preciso ir às universidades perguntar) que a reprodução da injustiça, no que concerne à Educação, se dá na base do sistema. As raízes grossas da iniquidade não estão na porta de entrada da faculdade e independem da cor da pele do vestibulando.

Elas estão nos parcos recursos destinados à escola pública, no professor mal pago e desestimulado, bem como nas demagogias, corporativismos e ideologizações em que tudo, absolutamente tudo, se enreda neste país.

(Transcrito do blog de Percival Puggina)

Nesta era de partidos que são apenas moedas de troca, apoio do PSD a Serra tumultua a eleição para a Prefeitura de São Paulo.

Carlos Newton

A confusão é geral. O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD), que anunciou apoio ao candidato petista Fernando Haddad, repentinamente mudou de lado e já avisou ao PT que o novo partido agora prefere o tucano José Serra, que ninguém sabe se será mesmo candidato à eleição da Prefeitura de São Paulo. O governador Geraldo Alckmin, inclusive, ficou de procurar Serra no feriado para ter uma definição.

Ao mesmo tempo, circula a notícia de que a indefinição das negociações na capital não deverá interferir nas articulações para alianças entre PT e PSD em cidades-chave do Estado de São Paulo. Os dois partidos estavam negociando uma estratégia “casada”, que incluía o apoio do PSD do prefeito Gilberto Kassab a Fernando Haddad (PT) e que se replicaria em locais estratégicos, principalmente na Grande São Paulo.

Em função dessa instabilidade de Kassab, que faz o jogo do “quem dá mais”, o PT entrou em desespero e tenta tirar definitivamente o PSD da órbita do PSDB e ter o novo partido também como aliado na estratégia de derrotar o governador Geraldo Alckmin na eleição de 2014, porque o objetivo da aproximação entre as duas legendas não se esgota nas disputas municipais deste ano.

Traduzindo: tudo isso mostra a que ponto caiu a política brasileira, com os partidos se transformando em moedas de troca e barrigas de aluguel, já que faz tempo as ideologias foram para o espaço e hoje o capitalismo, o socialismo, o marxismo, o neoliberalismo e o trabalhismo nada significam. Esta é a realidade.

No Carnaval, aumenta a importância do respeito à Lei Seca

Milton Correa da Costa

A Lei Seca significa um avanço para um trânsito assassino onde os acidentes de trajeto são a maior causa de mortes de jovens no país. Em 2010 ultrapassou a 40 mil o número total de óbitos no trânsito brasileiro. Uma morte (em média) a cada 15 minutos. Em Brasília, a cada 4 dias um jovem morre no trânsito.

Em Ceilândia, nas cercanias da capital federal, em meados do mês passado, num só acidente envolvendo apenas um carro em descontrole, na saída de uma festa na madrugada, seis jovens morreram. Cinco moças e o rapaz que conduzia o veículo. Nenhum deles fazia uso do cinto de segurança. Tinham no máximo 19 anos de idade. Mais seis famílias destroçadas para o resto de suas existências, numa interminável e triste rotina.

Portanto, os projetos no Congresso para fechar as brechas da Lei Seca são de extrema importância na busca de um trânsito mais humano e menos violento. Falta agora caracterizar o homicídio no trânsito, por direção alcoolizada ou excesso de velocidade, em crime doloso.

Porém, tão ou mais importante que endurecer a lei seria também investir maciçamente na prevenção. Educar para o trânsito é educar para a vida. Se beber não dirija. Respeite as normas de trânsito. Preserve a vida. Não faça de seu carro uma arma. A própria vítima pode ser você.

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TWITTER CONTRA A LEI SECA

Finalmente, vale destacar que está aberto em território nacional, o debate sobre a legalidade do microblog Twitter Lei Seca. A Advocacia Geral da União (AGU), a meu ver acertadamente, pois tal procedimento enfraquece as blitzes de trânsito e protege os alcoolizados do volante, acaba de entrar com uma ação de bloqueio das contas do referido microblog.
As alegações da AGU se prendem à violação de dispositivos do Código Penal e do Código de Trânsito Brasileiro, cuja finalidade precípua é a defesa da vida. O Ministério Público Federal de Goiás, em parecer contrário, alega que tal medida, numa sociedade aberta, fere princípios de liberdade ao proibir o livre fluxo de informações na Internet.

Está, portanto, aberta a instigante discussão. Que a vitória do debate esteja contra os que tentam, de todas as formas, obstar a ação legal e preventiva dos órgãos de fiscalização de trânsito. O objetivo primordial da Lei Seca é evitar tragédias. Aprenda-se.

A crise trará mudanças na economia mundial

Paulo Peres

Há três anos alguns bancos americanos foram à falência, com o início da crise do Subprime e, consequentemente, o mundo passou a viver cheio de incertezas.

No Brasil, o pré-sal e o agronegócio se colocam como boas oportunidades para o desenvolvimento do país, surgem como possiblidades positivas na economia. Na Europa, países como a Grécia ainda sofrem para controlar as contas nacionais e aliviar o déficit na economia.

A única certeza é a de que o mundo não será mais o mesmo, afirma o economista Fernando Sarti, diretor da Escola de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp), “tendo em vistas que as relações comerciais e econômicas que aconteceram nos últimos 30 anos foram determinantes para uma mudança estrutural no planeta”.

Para Sarti, “independentemente da crise, os países emergentes passaram a ser também protagonistas nas relações mundiais, e isso não mudará mais. A crise é parte desta mudança, assim como uma evidência clara de que ela aconteceu. Países como a Coreia e outros asiáticos já vinham desempenhando um papel importante nas relações econômicas, como produtores que ofereciam condições competitivas para as grandes multinacionais”.

As empresas norte-americanas, então, migraram para estes locais mais ‘periféricos’. Porém, o produto final voltava para os centros urbanos dos desenvolvidos, que eram os grandes consumidores, explica o economista.

“A transferência dessas multinacionais para os emergentes determinou a entrada, principalmente da China, na cadeia econômica mundial. Com isso, a periferia também passou a consumir”.

Segundo Fernando Sarti, não foi apenas um consumo das famílias, mas uma demanda por investimento e capital também, um consumo geral. “Essa mudança condicionou uma nova dinâmica no mercado e as consequências dessa crise ainda são difíceis de prever. O que é certo é que tanto a Europa quanto os Estados Unidos sairão mais injustos e desiguais do que entraram”.

O sonho de um “padrão europeu” para todos deve ser esquecido, salienta Sarti, “porque a União Europeia já enfrenta as diferenças estruturais de cada país membro e se a infra-estrutura dos países já era desigual, agora essas diferenças ficarão mais claras. Além disso, fica evidente que a rede de proteção social destes países será fragilizada”.

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ALEMANHA É EXCEÇÃO

Com o corte de gastos acontecendo na Grécia, Portugal e Espanha para conter o déficit nas contas públicas, a estrutura social será muito afetada e os países sairão da crise menos iguais, analisa o economista. “Com uma economia dinâmica, um forte mercado interno, uma indústria de alta competitividade e demanda para a exportação, a Alemanha é a única exceção do bloco e deverá continuar firme e forte”.

No Brasil, as possibilidades são quase tão grandes quanto as incertezas, na medida que o pré-sal e o agronegócio se colocam como boas oportunidades para o crescimento e desenvolvimento do país. “Entretanto, a oportunidade só será ótima se soubermos aproveitar a demanda que a exploração deste petróleo vai trazer”, sustenta Sarti.

Na opinião de Fernando Sarti, “não adianta ter demanda para consumir máquinas, se não consumirmos dentro do país, gerando competitividade e desenvolvimento no Brasil. Tanto o agronegócio quanto o pré-sal demandam uma cadeia de fornecimento e consumo que podem ser grandes oportunidades”.

Para o professor, é preciso que as políticas industriais, tecnológicas e de produção foquem na construção de uma economia abrangente e dinâmica e não se prendam completamente a questões financeiras e de pressão inflacionária, por exemplo. “Temos excelentes chances a nossa frente, mas depende de como vamos agir em relação a elas. Vamos capturar as oportunidades que surgirem? É uma pergunta para reflexão”.

No que concerne aos Estados Unidos, começam a engatinhar rumo a uma recuperação econômica. Porém, a nova estrutura do mundo não permitirá que o país recupere a força que um dia já tevem adverte Sarti.

“Com certeza, eles saíram muito mais desiguais e injustos do que quando entraram na crise. Apesar do dinamismo e da força que a economia americana ainda sustenta, com grande capacidade de inovação, falta ao país um setor para liderar a geração de empregos”.

O problema da desigualdade social e de renda se agrava com a falta de uma rede de proteção social para as camadas mais vulneráveis da população. “E tem uma questão cultural também, imposta, em que eles ignoram as diferenças de oportunidades da camada mais excluída da população, que não terá a mesma força de competição dos demais”, analisa Fernando Sarti.

Nunca na História desse país houve uma jogada tão suja como a manobra com as ações da Petrobras

O comentarista Mario Assis, ex-secretário de Administração do governo do RJ, sempre atento ao lance, nos manda esse importante artigo de denúncia sobre o caso do sobe-e-desce das ações da Petrobras na Bovespa.

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Roberto Saboya

O presidente de uma grande empresa, carro chefe do mercado de ações brasileiro, reclama com a chefe do presidente do conselho que a empresa não tem condições de continuar vendendo sua mercadoria por um preço abaixo do custo.

A chefe do presidente do conselho diz que tem de ser assim porque é do “interesse nacional”. O presidente insiste e é defenestrado. Em seu lugar assume uma amigona da chefe do presidente do conselho que diz que vai continuar vendendo por preço abaixo do custo.

Humilhado, o presidente demitido apresenta um incrível balanço, aparentemente errado, com um lucro 50% menor do que o esperado e vai, todo sorridente, brincar o carnaval na Bahia. Investidores estrangeiros, que tinham colocado R$ 7 bilhões em diversas empresas no mês passado, saem em correria vendendo R$ 900 milhões em um único dia.

Investidores nacionais, desde o Estado controlador até a velhinha de Taubaté, que investiu sua aposentadoria na empresa, perdem, em um único dia, R$ 28 bilhões.

No dia seguinte, data da posse da amigona, a chefe do presidente do conselho manda os bancos estatais e investidores institucionais de empresas estatais, sobre os quais exerce forte domínio, comprarem as ações que os estrangeiros venderam (R$ 1,1 bilhão), enquanto os estrangeiros descarregam mais R$ 349 milhões. As ações voltam a subir. O prejuízo de R$ 28 bilhões cai para R$ 12 bilhões.

Posse tomada, crachá nº1 no peito, a nova presidente parte para cuidar dos “interesses nacionais”, e as ações caem 5% em um único dia, e os investidores, brasileiros ou não, perdem mais R$ 20 bilhões.

Bola Preta reviveu para o Rio de hoje os grandes carnavais de ontem

Pedro do Coutto

Com o monumental desfile que realizou no sábado, centro da cidade, abrindo o carnaval 2012, o Bola Preta, que reune em si quase cem anos de tradição, reviveu para o Rio de hoje, para as gerações de agora, como era o carnaval de ontem, o do passado, que estava coberto pela poeira do tempo. Reviveu recordações sem fim.

As emissoras Globo, Record e Band, estimaram a multidão em mais de um milhão de pessoas fantasiadas ou quase, sambando alegres ao som de tantos sucessos inesquecíveis na vida carioca. Foi uma bela demonstração de como revive o espírito de um carnaval que parecia ter desaparecido para sempre. Reviveu. Ressuscitou. Uma surpresa.

O Bola Preta sempre abriu o carnaval no Rio de Janeiro, saindo tradicionalmente nas manhãs de sábado. Porém nunca em sua longa história congraçou multidão igual ao longo de seus cordões. A que se deve o fenômeno? A que se deve a ressurreição? Não sei. Mas o episódio me conduziu a tantos outros de fevereiro, às vezes março, de tempos idos.

Para mim, foi uma viagem da memória, como se eu encontrasse a mim mesmo em ocasiões já antigas.Lembrei dos blocos e cordões que passaram. Não só pelo centro da cidade, mas pelos bairros, lotando as ruas e praças. Na Avenida Rio Branco, a famosa Galeria Cruzeiro, hoje Edifício Avenida Central, fervilhava. Milhares dançavam em frente à varanda do Hotel Palace, onde se hospedou Caruso quando cantou no Municipal. A esquina com o Clube Naval, que está na Almirante Barroso até hoje, com a sede do Jóquei Clube que mudou de endereço.

Artistas como Noel Rosa, Lamartine Babo, Rubens Soares, Monsueto, Nássara, Zé Keti, Davi Násser (também jornalista) Klecius e Cavalcanti, Bide e Marçal, legaram composições inesquecíveis, hoje peças de museu. Havia dois clubes históricos em matéria de carnaval: o Bola Preta, que renasceu, e o High-Life, na Rua Santo Amaro, hoje sede do INCRA, que desapareceu.

O Bola Preta foi, inclusive, tema de várias composições. Não só a que abre eternamente seus desfiles (Quem não chora não mama), como também a de Joel e Gaucho (Adeus a Guiomar, no Bola Preta é que eu vou me acabar). Frase de épocas antigas, sinônimo de carnaval e descompromisso. Uma outra dizia: “Você vai pro High-Life, que eu vou pro Bola, ora se vou”). São Tantas. Recordei estas.

Na fase pré-carnavalesca, o Bola promovia os chamados gritos de carnaval na sede da qual saiu por dificuldades financeiras. A velha guarda, como todas as velhas guardas, foi desaparecendo, o clube ficou entregue aos que resistiram ao tempo. Porém de repente, não mais que de repente, o Bola ressurgiu e, como no filme famoso, suas luzes brilharam outra vez.

Vou sugerir à vereadora Tereza Bergher que o Bola Preta seja tombado e, nesta condição apenas retórica, se incorpore à história do Rio e à memória cultural da cidade.E que seu desfile de sábado, que foi evidentemente gravado pela Globo e pela Record, seja adquirido e destinado ao Museu da Imagem e do Som.

Por falar em Museu da Imagem e do Som, de acervo tão importante, como se encontram as obras de construção de seu novo prédio? Estão paradas há mais de três anos. A casa noturna que ocupava aquele local na Avenida Atlântica, entre Miguel Lemos e Djalma Ulrich, foi desapropriada e demolida. Mas a construção do Museu que entraria em seu lugar está absolutamente paralisada. É uma obra do governo Sérgio Cabral.

Mas o novo MIS é outra questão. O fato é que o Bola Preta voltou a tornar o Rio mais carioca, como era antigamente, e mostrou que o carnaval não é só patrimônio das Escolas de Samba, um belo patrimônio por sinal. Mas é patrimônio da cidade, do povo e do país.

Tres mosqueteiros em Paris

Sebastião Nery

Isaura, doce e tímida morena, trabalhava na casa de seu Henrique e dona Maria, pais de Betinho, Henfil e Chico Mário (e Vanda, Glória, Tanda e Filó) na casa de Santa Ifigênia, em Belo Horizonte. Chegou analfabeta. Dona Maria comprou caderno, lápis e borracha, para ensinar Isaura a ler e escrever. Mostrava e falava as letras e mandava Isaura repetir:

– A.

– Diz que é A.

– B.

– Diz que é B.

Isaura não acreditava em nada. Nem que A era A e que B era B.

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HENFIL

Henfil, espichando a perna torta e dolorida sobre a areia de Copacabana, me contava a história de Isaura e sorria seu sorriso solto de sempre menino:

– Isaura estava certa. Nossa casa, nossa história era tão fantástica, tão dramática, que parecia mesmo coisa de fantasia. Três hemofílicos numa família só, numa casa só. Não dava para acreditar em nada mesmo.

E eles acreditaram em tudo. E foram à luta para ajudar a construir a esperança, a justiça, a liberdade, um País melhor. Viveram um ato de fé nacional. Betinho, Henfil e Chico Mário, três irmãos que já nasceram marcados pela hemofilia, foram tragicamente infectados pelo HIV em irresponsáveis e criminosas transfusões de sangue de hospitais públicos.

Mesmo assim lutaram até o fim, com a força e a angustiada energia dos que sabem que vão morrer e é preciso caminhar antes de a morte chegar.

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ANGELA REINIGER

A história dos três mosqueteiros de Minas, das mais belas, apesar de trágica, das ultimas décadas no País, revi na França em 2007, no Festival do Cinema Brasileiro de Paris, na primeira exibição do filme “Três Irmãos de Sangue”, obra-prima escrita e dirigida pela sensibilidade, talento e modernidade de Angela Patricia Reiniger.

Não é uma história contada para ser contada. O impacto e mergulho humano do filme vêm da história contada para ser pensada e absorvida. É todo um levantamento histórico, minucioso, sério, biográfico, mas principalmente político, social, de Minas e do Brasil a partir dos anos 50 até a ditadura de 64 e as batalhas da resistência, do exílio, da abertura, da anistia, das Diretas-Já.

No Brasil, onde os fatos envelhecem e desaparecem como balões de São João, esse filme é uma primorosa aula para a juventude aprender como as coisas acontecem, por que acontecem e como se pode lutar para acontecerem, mesmo que seja tão grande o preço e a verdade só costume surgir tanto depois.

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BETINHO

Todos conhecem o Betinho, da anistia do irmão do Henfil, na marselhesa brasileira de João Bosco e Aldir Blanc, “O Bêbado e o Equilibrista”, imortalizada por Elis Regina. E conhecem o Betinho da Ação e Cidadania, marco zero do Comunidade Solidária, do Fome Zero, do Bolsa Família.

Mas, poucos sabem do Betinho que, nos anos 50/60, a partir de Belo Horizonte, criou nacionalmente a Ação Popular, o mais importante movimento estudantil e de jovens do País, desde a União da Juventude Comunista, e que influiu decisivamente em toda uma geração da UNE (União Nacional dos Estudantes) e depois na resistência à ditadura.

Daquela semente poderosa plantada na nossa Belo Horizonte entre 50 e 64, sob as sábias e bravas lições dos saudosos padres Laje e Henrique Vaz e frei Mateus, muita coisa germinou e muitos frutos ainda hoje se colhem. A explosão da genialidade de Henfil e a música telúrica de Chico Mário, vindas depois, também nasceram da generosa energia daquela geração.

Angela Reiniger não fez um filme de pessoas. Fez um filme do tempo. Se você ainda não assistiu, procure numa locadora.

Coerência para resolver a lentidão da Justiça

Roberto Monteiro Pinho

Os números oficiais mais próximos da realidade e confiáveis do judiciário brasileiro, divulgados pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), são os relativos ao ano de 2008, os quais indicam que 70 milhões de processos estavam nas mãos dos 15 mil magistrados federais, estaduais e do trabalho, que julgaram 25 milhões de ações no ano.

O relatório concluiu que o acúmulo de demandas atrasa as decisões, mas não justifica a lentidão do Judiciário no país, e sim uma vigente legislação processual excessivamente burocrática, que segundo analistas do governo, permite a multiplicação de recursos e todo tipo de artimanha protelatória, dificultando o acesso da população à Justiça. Com base nesta conclusão, uma Comissão de juristas dá o retoque final no anteprojeto do novo Código de Processo Civil (CPC), que no futuro (após sua aprovação) disponibilizando novos mecanismos para combater a morosidade.

Na avaliação do presidente da Comissão, Luiz Fux, ministro do Supremo Tribunal Federal, a proposta levará a uma redução de até 50% no tempo de tramitação dos processos individuais na área cível e de até 70% nas demandas de massa.

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O PROBLEMA DA EXECUÇÃO

O que temos visto na realidade é o açodamento para questões omissas no texto relativo à execução, ramo dos mais polêmicos do judiciário, o Código de Processo Civil na esfera cível, e a CLT na trabalhista, ambos desprovidos de textos definidos para o instituto, notadamente na realização de Hasta Pública e Leilão de bens imóveis, onde a maioria ocorre com avaliação defasada, (de dois em dois anos requer avaliação), e geralmente com valor inferior a 30% da avaliação (valor vil), se consistindo em flagrante arrepio a lei, a qualidade e cultura do judiciário.

É de tal complexidade o atual texto executório, que muito embora as duas justiças utilizem préstimos do Código Civil (CC), Código de Defesa do Consumidor (CDC) e da Lei Fiscal, o resultado final, quase sempre é desastroso. Isso ocorre permissa vênia, não só pelo manejo das ferramentas disponibilizadas neste conjunto, mais pela interpretação adjetiva e a tentativa de inovar, com base numa simples linha do direito, – o de que o juiz deve atender ao mais relevante para a solução da lide, ou seja, para fazer dinheiro “vale tudo”, no judiciário, principalmente na JT, onde o juízo de primeiro grau quer zerar estatística e o segundo grau vetustamente acompanha.

Resta avaliar em definitivo, se adianta haver celeridade nos processos, sem que haja efetiva justiça. O nosso sistema legal sempre prevaleceu e por certo prevalecerá por muitos anos a Lei Adjetiva, ou seja, o processo, o rito, o procedimento, o meio pelo qual o direito material tramitará perante o Poder Judiciário, o que não se admite é a reconstrução defeituosa do instituto do direito na via infra-institucional, até porque “”consensus tollit errorem”.

O fato da prestação jurisdicional se tornar, menos lenta, não sobreporá à questão de fundo consubstanciada na “justiça” propriamente dita, posto que assim como a fome seja uma espécie de flagelo do corpo, a “injustiça” com mais razão pode ser tida como o flagelo da alma. Este é o âmago da questão, essa é a tônica que deve prevalecer no seio do judiciário brasileiro.

Os meios processuais colocados à disposição dos operadores do direito, atualmente pode ser o dispositivo malidicentemente manipulado para servir as elites, se não o fosse, porque será que uma arrematação de valor vil, que só beneficia o arrematante, contumaz investidor, e não os dois pólos da demanda?

Índia desafia sanções dos EUA ao Irã

Erica Soares

Nova Deli – A despeito das pressões dos Estados Unidos e da União Europeia, a Índia continuará importando petróleo iraniano e enviará também uma numerosa delegação comercial a Teerã para aumentar as exportações a esse país.

Organizada pela Federação de Associações de Exportadores da Índia, e com o consentimento e participação do governo, a viagem – a princípio programada de 10 a 14 de março – envolve diretores de 30 das mais importantes empresas do setor na terceira maior economia da Ásia.

Pragmática, a decisão foi de alguma forma induzida pelas próprias penalizações acordadas por Washington e Bruxelas para asfixiar economicamente o Irã mediante um embargo petroleiro ao qual a Índia, por elementares razões de segurança energética, não pode aderir.

Nesse contexto, na semana passada Nova Déli e Teerã acordaram que a primeira saldará em rupias 45 por cento de suas importações de petróleo iraniano, um sistema de pagamento que pretende evadir as sanções ocidentais sobre o tópico.

Sob essas condições, ainda ficava pendente como a Índia pagaria os 55 por cento restantes. A ideia de criar um mecanismo de compensação era esperada e foi então que começaram as negociações para aumentar as exportações ao Irã.

Adicionalmente, maneja-se a possibilidade de realizar investimentos indianos em projetos iranianos relacionados à indústria petroleira, à mineração e à construção de estradas e ferrovias.

O gigante asiático considera que, diferentemente das medidas aprovadas contra o Irã no seio da ONU, as impostas pelos Estados Unidos e a União Europeia são unilaterais, por isso não violaria nenhuma norma internacional se fomentasse seu comércio com o Estado persa.

“Honramos as disposições das Nações Unidas, mas estas não cobrem uma ampla gama de artigos suscetíveis de serem exportados ao Irã”, comentou um alto funcionário da pasta do Comércio.

Visto graficamente o assunto, ao menos no caso particular da Índia o embargo petroleiro ao Irã converteu-se em um tipo de bumerangue que regressou golpeando os narizes de seus promotores, e num setor de rendimentos que de repente se abriu para a nação sul-asiática.

Esta calcula em oito bilhões de dólares as eventuais novas vendas a Teerã, pouco mais que o necessário para pagar os mencionados 55 por cento faltantes, e quase o mesmo que deixarão de vender ao Irã outros países que acatarão a política de vendas restritivas decidida pelo Ocidente.

Concretizando-se, a decisão ajudará também a equilibrar a balança comercial bilateral, marcadamente favorável ao Irã: só por conceito de petróleo, a Índia paga cerca de 12 bilhões de dólares anualmente ao Irã, enquanto suas vendas de produtos diversos a esse país mal chegam aos três bilhões e meio.

Por enquanto, os setores identificados para impulsionar as exportações indianas incluem autopeças, maquinaria para as indústrias têxteis, açucareira e siderúrgica, lingotes de aço, produtos farmacêuticos, pneus, arroz, açúcar, soja, cevada, manteiga, trigo e carnes vermelhas.

Um dos mais prometedores é o de autopeças, pois as importações iranianas desses produtos rondam os dois bilhões de dólares anuais – o grosso, procedente dos Estados Unidos e Europa.

A Índia, quase é redundante dizê-lo, está resistindo fortes pressões para fazer valer seu direito e aproveitar uma conjuntura que se percebe ideal para revigorar sua economia, cujo crescimento no presente ano fiscal foi inferior ao dos exercícios precedentes.

No final do mês passado, ao final de uma visita de dois dias aos Estados Unidos, o ministro de Finanças, Pranab Mukherjee, disse que para a Índia é impossível reduzir e muito menos renunciar às importações de petróleo iraniano e reiterou que os vínculos energéticos entre ambos países não serão cortados.

Também em Washington, o Congresso Judeu Americano expressou à embaixadora indiana, Nirupama Rao, sua “profunda preocupação” pelos esforços de seu país para estreitar relações comerciais com o Irã “em momentos em que os Estados Unidos e outras democracias estão solicitando novas pressões econômicas” contra Teerã.

Há alguns dias, ao realizar-se aqui a cúpula Índia-UE, o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, falhou na tentativa de somar Nova Déli ao embargo petroleiro e às sanções ao Irã, conformando-se em pedir-lhe que usasse sua influência para levar a nação persa à mesa de negociações.

O premier Manmohan Singh concordou em que o assunto deve ser resolvido pela via diplomática, mas reiterou que seu país continuará comprando petróleo iraniano. “O Irã é um vizinho próximo. É uma fonte importante de nossa energia”, reafirmou.

(Transcrito da agência cubana Prensa Latina)

Graves ofensas à honra de uma magistrada e à honra de um policial

Milton Corrêa da Costa

Dois recentes episódios, de grave ofensa pública à honra de uma magistrada e a de um policial, ambos encontrando-se no pleno exercício de suas missões, fatos trazidos a conhecimento público pelos diferentes meios de comunicação social, precisam ser objeto de reflexão.

No primeiro caso, ocorrido na Zona Oeste do Rio, durante uma operação de fiscalização da Lei Seca, um delegado da Polícia Civil – o segundo caso em menos de um mês que envolve uma autoridade policial numa fiscalização de trânsito no Rio – que se encontrava como passageiro de um veículo, sem placas de identificação, sem que a nota fiscal de compra tivesse sido apresentada, insurgiu-se, de forma totalmente desrespeitosa, à um oficial da PM que ordenara o recolhimento do veículo à depósito.

Frise-se que pela lei de trânsito o proprietário do veículo Zero km tem até 15 dias da data de compra, expressa na nota fiscal, para a colocação das placas.

Salta aos olhos a reprovável e inaceitável conduta da referida autoridade policial – o episódio foi flagrado em vídeo – ao desacatar o oficial da PM e de forma genérica a todos os integrantes da instituição Polícia Militar, dizendo: “Se tu é PM, é um otário”.

Um mau exemplo para quem deveria ser o primeiro a zelar pelo cumprimento da lei e sobretudo respeitar agentes da autoridade no exercício legal da função. Ninguém está cima da lei pelo cargo ou função que ocupa. A reação agressiva e desproporcional, tentando desacreditar e constranger o policial em via pública, fere o bom comportamento social e ético que se espera de autoridades policiais. Inaceitável e reprovável conduta, sem nenhuma dúvida.

Os termos chulos e impróprios, empregados pela autoridade para desacatar o policial militar, num visível descontrole emocional, foram lamentáveis. É preciso que alguns ainda aprendam que a prepotência do (“Sabe com quem está falando?”) não se aplica ao Estado Democrático de Direito, onde o pressuposto constitucional é de que todos são iguais perante a lei.

Fica, portanto, a bicentenária Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, de relevantes e inestimáveis serviços prestados à sociedade fluminense, no dever de apurar também disciplinarmente a conduta inadequada do referido profissional de polícia.

O outro episódio, extremamente agressivo e desrespeitoso ao Estado de Direito e ao Poder Judiciário, foi protagonizado pela advogada de defesa durante o julgamento de Lindemberg Alves, um frio assassino condenado a  98 anos de prisão. A advogada Ana Lúcia Assad, em dado momento do julgamento, disse à juíza do caso Eloá: ‘’Você precisa voltar a estudar’’.

A juíza Milena Dias afirmou durante a leitura da exemplar sentença de condenação de Lindemberg, que requisitou ao Ministério Público, em sua legítima defesa e a do próprio Poder Judiciário, que apure a declaração dada pela advogada de defesa. A juíza considerou que houve crime contra a honra. A frase, segundo ela, foi proferida de “forma jocosa, irônica e desrespeitosa.” Também não há dúvida.

A Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) fica também no dever, em nome da classe dos magistrados,  de representar contra a advogada Ana Lúcia Assad pelo comportamento altamente desrespeitoso. Se não concordava com algum possível descumprimento quanto a formalidade processual que protestasse e se dirigisse à magistrada de forma respeitosa e educada.

Fica também a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) com a incumbência de apreciar o comportamento da referida profissional do Direito ante o seu Conselho de Ética. Sem respeito à Justiça e à Polícia não há respeito à lei, à ordem e ao Estado Democrático de Direito. Aprenda-se.

Segurança em Medicina – do Titanic ao Costa Concórdia: “Vada a bordo, cazzo…”

Alfredo Guarischi

Frases curtas e densas passam para a história. Seus autores nem sempre. Neste caso do naufrágio na Itália, o autor tem um nada a declarar sereno, como um técnico cumpridor de sua missão – preservar vidas. “Fiz o que me cabia fazer…”

Na medicina tivemos alguns Titanics. Algumas vezes naufragamos após colidir em icebergs. Há a ilusão de termos atingido a perfeição e que coisas ruins jamais se repetirão. No Titanic, entre outros fatos, os botes e os coletes foram em número insuficiente. Por isso morreram mais passageiros embarcados nas classes inferiores e tripulantes. Foram trancafiados criminosamente. No sistema de saúde ainda existem cadeados.
Quando um moderno navio, Costa Concórdia, com mais de 4 mil pessoas naufraga e salvam-se mais de 95% das pessoas a bordo, poderíamos supor que foi feito o melhor. Ledo engano.

Este desastre poderia ser evitado e a evacuação foi inadequada. Não estamos em 1912. O navio tinha tudo de mais moderno. As pedras não saíram do fundo do mar para furar seu casco. Sonares e comunicação não faltavam. Havia botes e coletes para todos. Treinamentos são realizados para lidar com imprevistos. Não faltam normas.

As embarcações se modernizaram, pois houve demanda e tecnologia. Vikings e Fenícios viraram história. Navegar, além de ser preciso, virou um lucrativo negócio. O mesmo ocorreu na medicina.

Profissionais de saúde, como marinheiros, perderam o espírito de desbravadores. Na saúde o sacerdócio transformou-se na necessidade por múltiplos empregos. A maioria ainda acredita na forma antiga – vocação. Os vestibulares confirmam. Mas não temos como sustentar nossas famílias sem receber pelo nosso trabalho.

Ainda somos privilegiados se olharmos os professores de nossos filhos e outras categorias profissionais que fazem o espetáculo continuar. Como eles, também não temos acesso à bilheteria. Parecemos marionetes. Estamos numa estrada como Alices e seus imortais parceiros.

A medicina de hoje possui modernos “transatlânticos”. Dispomos de equipamentos de dar inveja ao nosso ancestral grego. Não somos mais os vikings do passado, polivalentes – em todos os sentidos. Somos uma equipe composta de médicos, com diversas especializações, dividindo o cuidar do paciente com enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, técnicos diversos e um número enorme de profissionais. Mas, mesmo assim, ocorrem naufrágios.

Hoje salvamos muito mais vidas do que no passado, mas poderíamos evitar alguns acidentes e salvar nossos náufragos em maior quantidade.

O Costa Concórdia já tem um culpado confesso. Tem pelo menos um herói que recusou o título. Alguns países inventam heróis para comercializá-los. Alguns “bons moços ou moças”, após tragédias, pegam carona no populismo e vão à busca de ganhos pessoais ou políticos.

Mas este naufrágio tem outras causas para ter ocorrido, pois não existe acidente sem precedente. As evidências começam a surgir. Em medicina ocorre o mesmo. Morte na porta de hospitais, troca de medicamentos, cirurgias no local errado decorrem de ações de pessoas, porém o sistema de saúde não tem uma cultura de segurança adequada.

Erraram e continuaram errando, sem dolo. Na maioria destes casos, existem outros fatores (sistêmicos) que uma caixa-preta ajudaria a desvendar. Enxergar os outros sistemas ajuda entender o que acontece em nosso convés – da medicina.

Como na navegação, a maioria dos profissionais de saúde não abandona o barco. Fiquemos juntos e mudaremos o sistema. Cidadãos de branco, no mar e na saúde, não devem abandonar suas raízes vikings e gregas.