Da Grécia para o Brasil: ‘Eu sou você amanhã’

Carlos Chagas

A receita tem sido a mesma há milênios: quando as nações ricas defrontam-se com dificuldades por elas mesmo criadas, recorrem às nações pobres, seja para aumentar-lhes os encargos, seja para surripiar ainda mais seu patrimônio. Vai ecoar até o final dos tempos o conselho da bruxa inglesa aos endividados do terceiro mundo: “Vendam suas riquezas”.

A crise na Grécia deve-se mais aos empréstimos que o mercado financeiro internacional oferecia e impunha aos governos de Atenas do que à óbvia imprevidência de seus dirigentes. Agora, quando os gregos chegaram à insolvência anunciada, assiste-se à rotineira vigarice dos credores: os aportes de bilhões de euros jamais sairão dos bancos alemães, ingleses e franceses, muito menos dos organismos internacionais que fingem destiná-los sob o rótulo de ajuda emergencial. Ficarão nos respectivos cofres e até engrossarão, por conta dos juros cobrados.

Em compensação, exigem da população sacrificada a redução de 22% no salário mínimo, o corte de 10% nos salários de quem tem menos de 25 anos, o congelamento dos demais salários, a demissão de 150 mil funcionários públicos, a diminuição das isenções fiscais, a privatização das empresas estatais e cortes no orçamento, com ênfase para os investimentos sociais.

Como em séculos passados já roubaram a maior parte do patrimônio artístico da Antiga Grécia, só falta agora exigirem a exportação do Partenon, inteiro ou aos pedaços. A sociedade grega paga a conta, mas o mundo mudou e povo está na rua. Nas telinhas e páginas de jornal assistimos a sagrada ira dos que não tem mais nada a perder, pois perderam tudo, ou quase tudo.

Queimam a sua capital, botam a polícia para correr e depõem sucessivos governos. O mesmo aconteceu e acontecerá na Irlanda, Portugal e adjacências, pela simples razão de estar-se esgotando o modelo canibalesco dos ricos. Vai demorar um pouco, ainda, até o advento de uma nova ordem econômica européia e mundial, mas outra saída não existe.

Toda essa tragédia se expõe por conta daquela propaganda de vodca. Nós somos eles, amanhã? Apesar de toda a cortina de fumaça publicitária e da ilusão dos atuais detentores do poder em termos superado o subdesenvolvimento, que ninguém se iluda: aumentando as agruras do sistema financeiro internacional, em especial americano, mas sem esquecer o nacional, onde seus mentores buscarão alívio senão na população e nas riquezas aqui no quintal?

Quantas vezes em nossa História repetiram a fórmula mágica de desviar recursos brasileiros para sustentá-los em suas aventuras? Já foi pau-brasil, depois cana-de açúcar, ouro, diamantes, café, borracha, areias monazíticas, biodiversidade, petróleo, terras e muito mais. Se bobearmos, até água, de que dispomos em profusão.

Salários, já os temos estrangulados. Vá qualquer banqueiro tentar viver com 622 reais por mês. Privatizações? Chegamos ao limite, ou melhor, o PT chegou. Cortes orçamentários? Dona Dilma que responda. É bom tomar cuidado.

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A RAPOSA SAIU DA TOCA?

Em artigo na Folha deste começo de semana Aécio Neves parece haver despertado. Para seu futuro presidencial de candidato, pode ser o começo, ainda que não seja preciso concordar com suas colocações gerais, muito pelo contrário. Pelo menos, saiu da casca, ou deixou a toca onde se mantinha.

Escreveu o senador mineiro estar o governo do PT dez anos atrasado, por haver deixado os aeroportos se deteriorem para só agora privatizá-los, mesmo assim por conta de evitar vexames da Copa do Mundo. Denunciou, pelo visto, com precisão: o governo não exigiu garantias mínimas dos vencedores das concorrências, muitos deles inadimplentes que haviam tido rejeitadas operações anteriores no BNDES.

Acusou os companheiros de fingirem não estar privatizando e concluiu indagando qual o PT de verdade. Sem a emissão de preferências a respeito da sucessão de 2014, vale assinalar que se o candidato seguir nessa linha em discursos no Senado e peregrinações pelo país, poderá aspirar alguma chance em tornar-se candidato tucano. Não há outra estratégia para ele senão seguir em frente, apontando malfeitos da atual administração federal.

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PRÁTICAS CONHECIDAS

Não pode permanecer inconclusa essa novela da Casa da Moeda. Luiz Felipe Denucci foi ou não indicado pelo PTB ao ministro Guido Mantega? Serão verdadeiras as denúncias dele haver desviado 6 milhões de dólares para o exterior, fruto de comissões em contratos celebrados por aquela entidade?

O PTB tem tradição de valer-se de seus representantes no governo para amealhar contribuições para o caixa dois do partido, através do superfaturamento de obras e serviços. Seu próprio presidente ainda não explicou o destino dos milhões recebidos à margem do mensalão, mas naquele mesmo período. Teria pago dívidas de campanha de seus companheiros?

Mas se o partido estiver agora inocente da nomeação do demitido presidente da Casa da Moeda, e se o desvio tiver mesmo acontecido, quem se beneficiou? A Polícia Federal bem que poderia esclarecer as dúvidas.

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COMO SEPARAR CRIMES E GREVES

Greves são instrumento legítimo do trabalhador e até de empresários, caso se decidam deflagrá-las. Discute-se o direito de policiais cruzarem os braços, tema que ainda renderá incontáveis tertúlias. Agora, crimes praticados durante as greves devem ser investigados e punidos, mesmo admitindo-se a anistia em etapas posteriores, na dependência da elucidação de cada caso.

O que não dá para aceitar é o que acaba de acontecer em Brasília. Os funcionários do metrô local, por sinal terceirizado, acabam de sair de uma greve de 37 dias e já ameaçam outra, certamente porque os concessionários não cumpriram os acordos. Tudo bem, ou tudo mal, porque o prejuízo vai para os usuários do transporte coletivo. Aconteceu o quê? Conforme informes da polícia, os trens da capital federal vem sendo sistematicamente interrompidos. As composições ora param no meio de trajeto, ora nem deixam as estações. Pelo jeito, através de sabotagem de funcionários especializados em perturbar os programas de tráfego.

Nesse caso, são crimes praticados em nome da greve adiada ou futura. Pau neles.

Comissão de Ética abala posição de Fernando Pimentel

Pedro do Coutto

A decisão da Comissão de Ética da própria Presidência da República de abrir investigação contra o ministro Fernando Pimentel, que teria recebido pagamento da Federação das Indústrias de Minas Gerais por consultorias não praticadas e palestras que não realizou, abala fortemente a sua permanência no Ministério do Desenvolvimento.

Sob o ângulo administrativo, torna-se um fato constrangedor. Sob o prisma político, mais ainda, pela forma com que a decisão foi divulgada na edição de ontem de O Globo, manchete de primeira página. Reportagem de Luiza Damé e Marta Beck focalizou nítida e intensamente a iniciativa da Comissão de Ética presidida pelo ministro Sepúlveda Pertence, aposentado do STF. As fotos são de Gustavo Miranda.

A imagem, já por si sempre importante, no caso torna-se mais ainda. Porque focaliza exatamente o momento em que Sepúlveda Pertence presidia a sessão. Logo ela foi aberta à imprensa. Ponto positivo para O Globo que percebeu a importância e o peso do assunto. Claro.

A Comissão de Ética é da Presidência da República. Assim, se não fosse autorizada por Dilma Roussef, ela não poderia ter programado, como programou, o desfecho na sua esfera de atuação. Pois abrir uma investigação é sempre algo pelo menos incômodo, desgaste, ainda que o acusado saia-se bem do processo. O mesmo que alguém vir a ser absolvido em segunda instância. Sinal de que a denúncia foi aceita e ele condenado no primeiro julgamento.

No caso de Fernando Pimentel, mais grave porque se trata do titular de uma pasta de estado. Quem integra o ministério não pode, evidentemente, encontrar-se sob suspeição de ter sido contratado apenas por sua influência no sistema de decisão. Tenho a impressão que Fernando Pimentel apresentará sua renúncia. Ocupa cargo de confiança. Esta confiança foi colocada, pelo menos, em dúvida.

Sombras, a partir de sábado, quando circulou a revista Veja que se encontra nas bancas desceram também em volta do ministro Antonio Dias Tóffoli, do Supremo Tribunal Federal, e do ministro Gilberto Carvalho, Secretário Geral da Presidência da República. Reportagem de Rodrigo Rangel e Hugo Marques os deixou em situação difícil, sobretudo porque a matéria inclui entrevista da advogada (e lobista) Cristiane Araujo de Oliveira.

Ela os expõe ao palco da opinião pública como personagens de uma teia de interesses que age à margem da lei e, no caso de Gilberto Carvalho, dentro do governo. No caso de Toffoli, no executivo até quando ocupou a Advocacia Geral da União, depois disso, no universo do STF.

Ambos têm que responder às páginas publicadas usando a figura constitucional do direito de resposta. Se não o fizeram, ficam com suas imagens manchadas. E não só o direito de resposta. Este direito em relação à Veja. No caso de Cristiane Araujo Oliveira, que não é responsável pela edição, mas sim por suas declarações: pelo menos uma interpelação judicial. É o mínimo que a sociedade espera dos dois acusados.

Mas, mudando de enfoque, é impressionante como homens que exercem funções públicas, portanto cargos políticos, deixam-se enredar por tramas e caminhos sinuosos da vida social. Erro grave, experiência não lhes falta.

Algumas pessoas utilizam rede de relacionamentos para penetrar nas esferas de decisão o obter ou aparentar intimidade com pessoas de poder. É muito comum o empenho de lobistas ou simplesmente farsantes de atuar assim. Dois exemplos emblemáticos que conheço: Jorge Serpa, efetivamente influente, que articulou a ida de jornalista Jânio de Freitas para dirigir o Correio da Manhã em 62. O coronel Newton Leitão, ex-chefe da Polícia Federal, governo Castelo Branco, que aparentava força mas perdera sua influência. Jânio de Freitas ficou no jornal até 63, quando foi demitido por Niomar Moniz Sodré. Newton Leitão foi demitido por Roberto Marinho quando este constatou que ele apenas simulava prestígio – que não tinha – junto ao ministro Golbery do Couto e Silva. Lições da vida.

O monstro da La Moneda

Sebastião Nery

Além, pouco além de Viña Del Mar, a caminho da Isla Negra, sobre cujas rochas batidas pelo Pacífico está ancorada, como um poema, a mítica casa-caravela, hoje museu, do gordo e eterno Pablo Neruda, o jovem motorista que me levava de Santiago, em abril de 2006, falava constrangido:

– O senhor entenda. Quando os militares deram o golpe e mataram o presidente Allende, em 11 de setembro de 73, eu tinha 3 anos. O que sei é o que me contaram. Mas Pinochet não fez e não faria tudo aquilo sozinho. Foi ajudado pelos outros generais. Os militares, as polícias, aqui no Chile, sempre foram muito arrogantes, duros, violentos. Basta pôr uma farda e pensam que são donos do pais e de tudo. E nesses anos foram. A surpresa é que, depois, ficamos sabendo, que, Pinochet não era apenas assassino. Era também ladrão. Aí, não. Além de ser, como o povo chamava, “o monstro do La Moneda”, ele roubou milhões de dólares e mandou para os Estados Unidos. Violências outros também fizeram. Mas, além de assassinar, ele roubou. Ladrão, não!

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CHILE

O espanto do motorista era uma aula de história. O Chile é um cavalo com um herói em cima e imensas espadas na mão. Estão em todas as praças e avenidas: os que o invadiram em nome da Espanha, os que comandaram as guerras da independência, até os índios que resistiram aos massacres brancos.

E sempre havia um padre. O governador Martin Garcia de Loyola, sobrinho de Santo Inácio, fundador da Companhia de Jesus, morreu no Natal de 1598, atacado por 300 índios montados. Seus soldados pularam em um rio, onde morrerem afogados ou assassinados. O provincial dos Franciscanos, frei Melchor de Arteaga, ainda conseguiu dar um tiro de arcabuz, mas foi morto.

Aventureiros, padres, prisioneiros do Peru mandados cumprir pena nos quartéis do Chile (“a última e mais pobre colônia que teve a Espanha”), acabavam servindo aos Exércitos e “foi sobre essas bases que começou a história do Chile”, diz o historiador Armando de Ramon: História de Chile.

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ALLENDE

Derrotados os espanhóis, apareceram os ingleses. O porto de Valparaíso mais parece uma praça de guerra da Marinha, construída pelos ingleses: o Forte Naval, o Arsenal da Marinha, a Escola Naval, o monumento à Marinha. O País é todo assim, cheio de fortes e monumentos aos heróis acavalados.

Essa beligerante história, diferente por exemplo da do Brasil, com todas as nossas violências históricas, é que explica Pinochet e a hoje indisfarçada vergonha do Chile. Havia um tumular silêncio sobre ele. Estava vivo, preso em casa em Santiago, e todo mundo fazia de conta que já estava morto.

Os militares chilenos não mataram apenas 3 mil civis, a maioria jovens. Mataram-se também entre eles. O general Schneider, o general Prats, tantos outros oficiais, foram assassinados sem fazerem nada. Só porque eram adversários. O pai da presidente Bachelet, general da Força Aérea, foi torturado e morreu na cadeia só porque participava do governo Allende.

Allende foi massacrado dentro do palácio La Moneda para servir de exemplo, para os generais mostrarem quem eles eram e o que queriam. Mas hoje quem está em estátua de bronze, em frente ao palácio, não é Pinochet, o “monstro do La Moneda” . É Allende, o “mártir do Chile livre”.

BACHELET

Daí a lição histórica da eleição de Michelle Bachelet, que ficou no poder até março de 2010. O pai general morto pela ditadura, a mãe e ela, aos 22 anos, presas, torturadas e expulsas do pais. Foi para a Alemanha, voltou, continuou resistindo no seu Partido Socialista, tocou guitarra, formou-se em medicina, estudou no Colégio Interamericano de Defesa, nos Estados Unidos, tornou-se ministra da Saúde e da Defesa e foi eleita presidente derrotando os discípulos de Pinochet.

O presidente no Chile tem mais poderes do que no Brasil. A Câmara tem 120 deputados, o Senado 47 senadores. O País é dividido em 14 regiões, comandadas por “intendentes” nomeados pela presidente da República.

Há mais 50 províncias, cada uma governada por um governador, também nomeado pelo presidente da República. E 341 municípios, com prefeitos e Câmaras de Vereadores eleitos diretamente pelo povo. O machismo no País é muito forte. No Chile, 46,7% das mulheres não trabalham. (Na Argentina e Uruguai 75% trabalham). O militarismo também. A “Lei do Cobre” destina para as Forças Armadas 10% dos recursos gerados pelo cobre. Há um projeto para acabar com isso.

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CONCERTAÇÃO

O Chile deu um belo exemplo de talento político. A oposição aprendeu que é melhor fazer concessões no Congresso do que morrer na cadeia. Os partidos Socialista, Democrata Cristão, Comunista e Social Democrata, que se guerreavam antes de 73, abrindo caminho para as empresas multinacionais e os EUA financiarem o golpe de Pinochet, viram que a salvação era a união.

Ciro Gomes diz que no cafezinho da Câmara todo mundo sabe quem está roubando…

O ex-ministro Ciro Gomes (PSB) afirmou em entrevista ao jornalista Kennedy Alencar que “no cafezinho do Congresso Nacional, todo mundo sabe quem está roubando aonde e em favor de quem”.

A afirmação foi feita na gravação de um programa da RedeTV!, quando Ciro Gomes respondia a uma pergunta que abordava se a suposta faxina nos ministérios feita por Dilma não seria uma farsa e que na verdade é a imprensa que tem derrubado seus ministros.

No programa “É Notícia” (Rede TV), exibido na madrugada de segunda-feira, Ciro também comentou sobre o cenário para as eleições municipais em São Paulo e falou sobre sua intenção de ser candidato à Presidência da República.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG Bem, para que isso ocorra, ele terá de mudar de partido, porque o PSB pertence ao governador pernambucano Eduardo Campos, que não deu legenda a Ciro Gomes em 2010 nem dará em 2014. Se alguém do PSB for candidato à Presidência, será ele, Campos, e não Ciro.

Reflexões sobre Budismo, Cristianismo, Judaísmo e os direitos religiosos na China e no mundo

Paulo Solon

A ação de certos países do Ocidente em relação à Síria, conforme relatou o embaixador russo, é realmente histérica, obscena e esquizofrênica.

O Partido Comunista Chinês entende, por sua vez, que Cristianismo e o Budismo Tibetano seriam portas abertas para a doutrinação e o entreguismo judaico/cristão. É por isto que existe uma severa e estreita fiscalização sobre grupos religiosos, intelectuais e até mesmo sobre os exercícios tradicionais e a prática “espiritual” conhecida por Falun Dafa. Desde 1999 os lideres do PCC promovem verdadeira limpeza para erradicar tais práticas.

Eu já havia dito aqui em 2010 que há um organismo estatal do PCC, espécie de agência reguladora, que restringe brutalmente a prática religiosa de Cristianismo, Judaísmo e Budismo Tibetano. Quanto a este último nem se fala, pois o chamado Dalai Lama nada mais é que um líder separatista disfarçado em líder religioso.

Cristãos e budistas tibetanos divulgam aqui nos EUA que, desde então, milhares de praticantes Falun Gong estão impedidos de “pacificamente” praticarem sua fezinha.

De acordo com “investigações” de advogados chineses de direitos humanos, pela Anistia Internacional e pelas Nações Unidas, uma vez em custódia, praticantes dos supracitados movimentos se deparam com formas severas de tortura, inclusive choques elétricos, abusos psiquiátricos e violência sexual. Reportam que milhares já morreram como resultado.

Mas nada parecido, digo eu, com o massacre de Jericó praticado por Josué e justificado por um “pastor” evangélico como “limpeza étnica” ordenada por Deus. É de vomitar mesmo!

Dizem os supracitados “investigadores” que alegações sobre a existência de um organismo dedicado a extrair e vender órgãos de praticantes Falun Gong vieram a público agora. Uma reportagem independente de “investigadores” canadenses descobriu serem verdadeiras tais denúncias, enfatizando que em seis anos a origem de 41.500 órgãos usados em transplantes não poderia ser identificada até seus doadores.

Se quiserem, verifiquem o http://www.organharvestingation.net

Dizem que os horrores a que os praticantes Falun Gong estão expostos na China continuam até hoje. Depois dos jogos Olímpicos de 2008 em Beijing, agências chinesas de segurança prenderam cerca de 8 mil aderentes dos ditos movimentos “espirituais”, desde estudantes universitários a trabalhadores aposentados.

O que essas reportagens não revelam é que os direitos humanos são outra arena onde o Oriente é assado de acordo com a moldura judaico/cristiana. Nada posso falar sobre budistas chineses. Mas sei que islamistas extremistas rejeitam tenazmente a noção de direitos humanos como conceito Ocidental. E tudo indica que a Rússia e a China seguem tal substrato filosófico.

Dizem os islamistas que a sharia (lei islâmica) contém todos os direitos a que um muçulmano pode pretender. Islamistas moderados não rejeitam os direitos humanos, mas protestam que são definidos dentro da tradição ocidental de liberalismo secular, que enfatiza as liberdades individuais em oposiçã aos deveres do homem, ou da mulher.

Os ocidentais pensam primeiramente em seus indivíduos (como a lei de Murici, no Brasil), mas nós pensamos primeiro sobre a UMMA, que transporta uma ideia holística… e o indivíduo não existe por si só; o indivíduo é um membro da comunidade.

Com a palavra os leitores da Tribuna.

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PS – Usando um pouco de humorismo, eu diria que Madonna e dança do ventre nada têm a ver com Oriente e com Islam. Nem o “rei” Roberto Carlos, patrocinado pela Rede Globo de Imoralidade, pretendendo ser judeu e representando, de modo ridículo, no Muro das Lamentações.

É fácil entender o processo contra Roberto Marinho pela usurpação do controle da TV Paulista. O caso agora está no Supremo.

Carlos Newton

A pedido do comentarista Welinton Naveira e Silva, estamos voltando ao assunto da suposta compra da TV Paulista por Roberto Marinho, motivo de uma importante questão judicial que estrategicamente passa despercebida pela chamada grande imprensa.

Com toda razão, Welinton fez reparos aos termos jurídicos que dificultam a compreensão do tema, já que simplesmente reproduzimos a decisão do ministro Celso de Mello e o agravo apresentado pelo advogado Luiz Nogueira, em nome dos antigos donos da TV Paulista (hoje, TV Globo de São Paulo e responsável por mais de 50% do faturamento da rede).

O que aconteceu foi o seguinte: os herdeiros dos antigos controladores da TV Paulista (era uma S/A), ao abrirem os inventários dos pais, descobriram que não havia nenhum documento da venda da emissora para Roberto Marinho. Decidiram então procurar a TV Globo, que se recusou a lhes atender.

Os herdeiros abriram um processo de exibição de documentos, e a emissora foi obrigada judicialmente a mostrar as procurações e recibos. Não havia originais, eram cópias com papel carbono, e todas grosseiramente falsificadas, porque teriam sido redigidas em 1953 e 1964, mas a máquina de escrever utilizada só começou a ser fabricada em 1971. Além disso, havia CPF em procurações que teriam sido feitas antes de existir esse controle da Receita Federal. Uma verdadeira lambança.

Como os documentos eram flagrantemente falsos, os herdeiros então entraram com outro processo contra Roberto Marinho e a TV Globo, ingressando em juízo com uma ação declaratória de inexistência de ato jurídico. Ou seja, Marinho e a TV Globo tinham de provar que realmente haviam comprado a TV Paulista.

Nessa altura, os representantes da TV Globo tentaram fazer acordo e até existe uma gravação dessas conversas. Mas os advogados dos herdeiros dos antigos donos da emissora não aceitaram e a ação judicial prosseguiu.

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QUATRO VERSÕES DO MESMO NEGÓCIO

No decorrer do processo, Roberto Marinho primeiro disse ter adquirido a emissora diretamente da família Ortiz Monteiro, que detinha a maioria das ações, e ele teria pago apenas o equivalente a 35 dólares. Porém, como ficou provado que os documentos eram falsos, os advogados de Marinho mudaram de versão e até pediram que os papéis fossem retirados dos autos, mas a juíza não atendeu à solicitação.

Marinho passou então a alegar que havia comprado a TV de seu então administrador, Victor Costa Júnior, pelo equivalente a 2 milhões de dólares. Mas como também ficou provado que Victor Costa Jr. não podia ter vendido a empresa, porque não era possuidor de uma só ação, Marinho mudou a versão outra vez. E disse que havia assumido o controle da sociedade anônima através de duas assembleias extraordinárias.

Como essas supostas assembleias foram convocadas e realizadas de forma totalmente ilegal, os próprios advogados de Marinho admitiram nos autos que ele havia cometido várias irregularidades, mas não podia ser punido, porque os crimes e as penas já estavam prescritos. E apresentaram uma quarta versão, dizendo que Roberto Marinho se tornara proprietário da TV Paulista “por usucapião”, como se uma concessão federal pudesse ser transferida mediante simples posse…

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UM INCRÍVEL ERRO JUDICIAL

Pois bem, esse processo foi a julgamento no Rio de Janeiro, e a juíza Maria Helena Pinto Machado Martins, da 41ª Vara Cível, cometeu um erro judicial inacreditável. Julgou a ação declaratória de inexistência de ato jurídico como se fosse uma ação anulatória de ato jurídico.  Agiu como uma feirante inexperiente que confundisse abacate e abacaxi, por terem nomes parecidos.

Assim, a juíza declarou prescrita a inexistente “ação anulatória” e reconheceu que o recibo, datado de 5 de dezembro de 1964 mas datilografado em máquina fabricada só em 1971, não obstante seu conteúdo anacrônico, provaria, sim, que Marinho adquirira 52% do capital social da TV Paulista pelo equivalente a apenas 35 dólares. Ou seja, a juíza foi mais realista do que o rei, porque declarou existente um negócio que o próprio  Marinho negara haver ocorrido.

Na segunda instância, o erro judicial, embora primário, continuou prevalecendo, pois os desembargadores aceitam o parecer do relator Ferdinaldo Nascimento, que concordou inteiramente com a equivocadíssima decisão da juíza da 41ª Vara Cível. E também julgou a “ação declaratória” (que não prescreve), como se fosse “ação anulatória”, que prescreve.

O processo subiu então para o Superior Tribunal Federal, onde o relator, ministro João Otavio de Noronha confirmou a sentença da juíza singular e o acórdão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, também julgando a ação declaratória de inexistência de ato jurídico como se fosse uma ação anulatória.

E confirmou que Roberto Marinho comprara, sim, a TV Paulista em negociação direta com a família Ortiz Monteiro com base nos documentos falsos e por apenas o equivalente a 35 dólares, muito embora os advogados de Marinho e da TV Globo tivessem declarado nos autos que ele na verdade adquirira a TV Paulista de seu então administrador, Victor Costa Junior (o que também era impossível, pois ele nunca teve uma só ação da S/A).

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NEGÓCIO INEXISTENTE AGORA É VÁLIDO

Assim, por decorrência, a Justiça brasileira acabou inovando completamente nesse processo.  Repita-se: declarou válida uma negociação que os próprios interessados (Roberto Marinho e TV Globo) negaram enfaticamente ter existido.

Com a inusitada e inexplicável reincidência do erro judicial em três instâncias, agora a palpitante e estranha questão chega ao Supremo, tendo com relator o insuspeito ministro Celso de Mello, o decano do tribunal.

Espera-se, agora, que o relator reconheça que o processo tem de ser julgado pela instância competente, ou seja, a Justiça Federal, já que a decisão do STJ, ao transitar em julgado declarando que Roberto Marinho comprou a TV Paulista diretamente da família Ortiz Monteiro, sem dúvida significa a nulidade da concessão da emissora.

Traduzindo: os autos mostram que o governo transferiu a concessão para Marinho como se ele tivesse adquirido a emissora mediante aumento de capital da S/A, em duas assembleias extraordinárias. Ambas totalmente ilegais, mas o governo militar as considerou válidas em 1975 para dar a concessão a Roberto Marinho.

Portanto, Como agora a Justiça decidiu que Marinho não adquiriu o controle da TV mediante as assembleias extraordinárias, e sim pela compra direta aos Ortiz Monteiro, a concessão fica automaticamente sem validade. É disso que se trata.

 

Agência Reuters diz que o Brasil, ‘muito provavelmente’, comprará os caças Rafale franceses.

SÃO PAULO (Reuters) – O Brasil “muito provavelmente” escolherá o caça militar francês Rafale para modernizar a Força Aérea, disseram fontes do governo, uma decisão que garantiria um dos contratos de defesa mais cobiçados dos mercados emergentes para um avião cujo futuro estava em dúvida apenas duas semanas atrás.

A presidente Dilma Rousseff e os conselheiros dela acreditam que a proposta da Dassault Aviation para vender pelo menos 36 Rafales tem os melhores termos entre as três ofertas finalistas, disseram à Reuters fontes sob condição de anonimato.

As outras duas fabricantes são a Boeing com o F-18 e a Saab com o Gripen.

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NOTA DE REDAÇÂOO melhor caça do mundo, o Sukhoi russo, foi excluído da negociação, por pressão exercida pelos Estados Unidos sobre o governo brasileiro. 

 

 

Conselho Superior das Forças Armadas do Egito teve se refugiar atrás de muros de concreto

O comentarista Sergio Caldieri nos envia impressionante reportagem de Bel Trew, Mohamed Abdalla e Ahmed Feteha (da Al-Ahram Online, Cairo). A matéria mostra que as intermináveis batalhas de rua entre a polícia e manifestantes levaram o governo e as Forças Armadas a se esconderem atrás de enorme muros de concreto.

Tudo começou em novembro, quando houve confrontos sangrentos, com 40 mortos, na Praça Tahrir, que foi violentamente evacuada por três vezes. O Conselho Superior das Forças Armadas então tomou a decisão drástica de construir um muro entre a polícia e os manifestantes, na Rua Mohamed Mahmoud permanentemente conflagrada.

Esse muro, que viria a servir de modelo para outros sete muros construídos depois, é uma barricada de blocos de concreto de quase 4m de altura. Clérigos da Universidade Al-Ahzar formaram cordões humanos frente ao muro, para impedir que a multidão o derrubasse.

A área em frente ao muro tornou-se local de risco para mulheres dia 25 de novembro, depois que a jornalista Caroline Sinz da televisão francesa, foi atacada por uma gangue, arrastada para a Praça Tahrir, despida e agredida sexualmente. O muro foi afinal derrubado por manifestantes nos protestos liderados pelos Ultras [torcida organizada do time Ahly, de futebol], dia 2 de fevereiro, contra o Ministério do Interior, a polícia e o Conselho Superior das Forças Armadas.

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17 DE DEZEMBRO: MAIS UM MURO

Ao final dos confrontos na Rua Mohamed Mahmoud, manifestantes iniciaram protesto pacífico, sentados no chão, em frente ao prédio do Gabinete, contra a indicação de Kamal El-Ganzouri, para o posto de primeiro-ministro. Na noite de 15 de dezembro, forças de segurança sequestraram Aboudi Ibrahim, de 19 anos, que participava dos protestos, porque, segundo testemunhas, tentou recuperar uma bola de futebol que caíra à frente da Assembleia Popular.

Quando Aboudi foi solto, nas primeiras horas do dia 16 de dezembro, era evidente que havia sido violentamente espancado. Manifestantes furiosos enfrentaram o exército, que evacuou a Rua Mohamed Mahmoud, ainda na mesma manhã.

Os manifestantes transferiram-se para a rua Qasr El-Aini e durante quatro dias houve sangrentos confrontos, que resultaram na morte de 14 manifestantes.

Foi então construído o muro na rua Qasr El-Aini, para impedir o acesso de manifestantes aos prédios do Parlamento e do Gabinete. A construção começou depois de o exército evacuar com extrema violência a praça, na tarde de 17 de dezembro. Queimaram-se as tendas armadas na praça Tahrir – e os manifestantes recuaram. A batalha continuou, com manifestantes e o exército trocando pedradas por cima do muro.

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19 DE DEZEMBRO – MAIS DOIS MUROS

Na madrugada de 19 de dezembro, soldados do exército e policiais das CSF apareceram à entrada da mesquita Omar Makram, do lado da praça Tahrir. Depois de atirar na direção da praça e pôr abaixo as tendas ainda remanescentes, as forças de segurança usaram fogo pesado e gás lacrimogêneo para manter os manifestantes à distância, enquanto eram erguidos os terceiro e quarto muros.

Um deles foi construído na Rua Sheikh Rehan; o outro, na Rua Youssef El-Guindy. Os blocos de concreto foram dispostos como uma barricada entre a praça Tahrir e a rua lateral que dá acesso aos prédios do Ministério do Interior, quartel-general das Forças Armadas.

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5 DE FEVEREIRO – OUTROS TRÊS MUROS

Foram convocadas manifestações de rua para 2 de fevereiro, depois do massacre no estádio de futebol em Port Said, quando morreram mais de 70 torcedores do Ahly (“Ultras”). A população culpou as forças de segurança pelas mortes, por não terem impedido que se alastrassem as brigas entre torcidas rivais.

A manifestação reuniu-se em frente ao Ministério do Interior. A polícia usou, de início, munição revestida de borracha e gás lacrimogêneo contra a multidão, E houve cinco dias de batalhas esporádicas que se espalharam por todas as ruas da vizinhança.

No domingo, dia 5 de fevereiro, às 3h da madrugada os militares e a polícia começaram a construir mais três outros muros nas ruas levam até o prédio do Ministério do Interior, que resultou completamente cercado de muros.

Manifestantes tentaram impedir a construção do muro e foram atacados com veículos militares blindados.

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6 DE FEVEREIRO – O SÉTIMO MURO

Nesta noite de 5 de fevereiro aconteceram alguns dos ataques mais violentos pelas forças de segurança. Com os três muros já construídos nas ruas Fahmy, Mansour e Felaky, os combates foram empurrados para o oeste, na direção da praça Bab El-Louq e para a área do centro do Cairo. Manifestantes documentaram a presença de atiradores distribuídos nos prédios e uso excessivo de gás lacrimogêneo, enquanto os caminhões percorriam as ruas em várias direções, perseguindo os manifestantes que tentavam proteger-se.

Nas primeiras horas do dia 6 de fevereiro, as Forças Armadas começaram a construir mais um muro na rua Noubar, paralelo aos outros três muros, o que fechou o conjunto de muros em volta do ministério. À noite, um grupo não identificado de civis, que se apresentaram como residentes na área de Abdeen, apareceram com armas de mira telescópica e, segundo testemunhas, uma metralhadora. Todo esse armamento foi usado contra os manifestantes e dois deles foram mortos.

Esta é a realidade da situação no Cairo, com o poder tendo de se esconder atrás de muros de concreto.

Governo tem ataque de bom-senso e desiste da privatização dos outros aeroportos

Carlos Newton

As trapalhadas com a privatização dos três aeroportos (leia a matéria abaixo) foram tão graves que o governo imediatamente desistiu de privatizar os outros. Logo após os leilões, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, se apressou em anunciar que a concessão à iniciativa privada de outros aeroportos está descartada.

Mantega negou que o governo pretenda privatizar os aeroportos internacionais do Rio de Janeiro (Galeão-Tom Jobim) e de Confins, em Minas Gerais. O ministro também assegurou que não está em estudo a transferência de aeroportos regionais para estados e municípios. “Vamos consolidar aquilo que está sendo feito”, justificou.

O ministro descartou ainda a possibilidade de os R$ 24,5 bilhões obtidos pelo governo no leilão de outorgas dos aeroportos de Brasília, Guarulhos e Campinas serem usados para reforçar o superávit primário, que é a economia de recursos que o governo faz para pagar os juros da dívida pública. Apesar de, em tese, o dinheiro poder ser empregado na ampliação do esforço fiscal, o ministro garantiu que os recursos financiarão investimentos nos terminais aéreos do país nos próximos anos.

Alguma coisa no ar… A fria em que o governo entrou na privatização dos aeroportos.

Os comentaristas Eduardo Konig e Mario Assis nos enviam um texto que circula com sucesso total na internet, sobre a recente privatização de três aeroportos. O artigo é impressionante e bem-humorado, primorosamente escrito, mas ninguém sabe quem é o autor. Pesquisamos na internet e não encontramos. Assim, quem souber o autor, por favor nos informe.

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A PRIVATARIA DOS AEROPORTOS

Fabricaram a tal da “privataria tucana” e olha aí… A Dilma sentiu de cara o buraco em que se meteu. Acompanhou o leilão em tempo real mas, em vez de comemorar os R$ 24,5 bilhões “angariados” – muito, mas muito mesmo a mais do que qualquer pessoa séria esperava que oferecessem pelo que estava à venda – saiu murmurando:

“Vocês sabem como é governo: faz uma etapa e tem de fazer todas as outras. Agora tem que fazer com que as outras etapas aconteçam“.

São 30% dos passageiros e 57% da carga do transporte aéreo nacional entregues a uma empresa africana de credenciais duvidosas que ficou com nada mais nada menos que Guarulhos; um trambiqueiro argentino de extensa folha corrida que, muito adequadamente, ficou com Brasília; e uma operadorazinha francesa especializada em negociar com genocidas africanos que levou Viracopos.

Se os dois outros vencedores são duvidosos, o argentino que levou Brasília é explícito. Daqueles que não se aperta nem regula mixaria. “Pagou” nada menos que 673,39% de ágio! R$ 4,5 bi pela outorga mais compromissos contratuais de R$ 2,8 bi de investimentos.

Andou fazendo coisa parecida na Argentina, onde opera aeroportozinhos regionais. Prometeu mundos e fundos. E aí, nada. Quando as contas começaram a indicar que seria mais caro para o governo retomar os aeroportos que renegociar o contrato com o espertalhão, ele foi ficando espaçoso…

Tentou primeiro com Duhalde em 2003. Não conseguiu. Empurra daqui, empurra dali, acabou arrancando uma renegociação de Nestor Kirshner em 2007.

Em vez dos royalties anuais devidos (equivalentes às nossas prestações pela outorga), enfiou goela abaixo do governo 15% das receitas, quaisquer que fossem elas. E evidentemente elas são muito menores que os royalties devidos. Repactuou também os planos de investimentos e emitiu títulos para pagar com papéis o resto do que devia.

Ainda assim, continua devendo US$ 104 milhões à Casa Rosada, segundo o jornal Valor.

Como um tipo desses leva o aeroporto da capital do Brasil com a simples promessa de pagar quase sete vezes o que foi pedido pela concessão é coisa que o PT terá de explicar logo logo à Nação…

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A ONIPRESENTE PREVI

Já Guarulhos, o maior aeroporto do país, fica para uma obscura companhia da África do Sul que se apresenta à frente dos – adivinhem? – fundos de pensão das estatais (leia-se, o próprio PT).

Esse consórcio Invepar é da onipresente Previ, que tem 38% do capital, mais o Funcef e o Petros, seus fiéis escudeiros representando os funcionários da “nossa” Caixa e do “nosso” petróleo (o Brasil bem que merece!), e ainda da OAS (19,4%), aquela empreiteira da família do finado Antônio Carlos Magalhães que andou encolhendo desde que ele se foi deste mundo.

Pois é. O dinheiro tem o condão de enterrar ideologias…

O governo não esperava obter por Guarulhos mais que R$ 6 bi. Quando o leilão chegou aos R$ 12 bi, um adviser das companhias mais experientes do mundo na administração de aeroportos já garantia aos presentes que “essa conta não fecha“. Pois depois disso ela aumentou mais um terço. Foi a R$ 16,2 bi, mais R$ 4,6 bi em reformas contratuais para a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016!

A receita total do aeroporto de Guarulhos calculada pelo governo para os 20 anos da concessão é de R$ 17 bi, apenas 5% a mais do que os fundos do PT pagaram só pela outorga.

As prestações por essa outorga, posto esse número, sobem a R$ 800 milhões por ano. E hoje o faturamento total de Guarulhos é de R$ 500 milhões…
Como fechar essa conta se o contrato diz que as tarifas aeroportuárias não podem subir?

“Com receitas não tarifárias como estacionamentos e restaurantes“, diz candidamente Gustavo Rocha, presidente da Invepar . (E com financiamentos do BNDES, é claro).

Nada, enfim, como fazer contas com dinheiro “nosso”…

Ao fim e ao cabo, a proposta mais “pé no chão” foi a do endividado Grupo Triunfo com seus franceses misteriosos, que pagou “apenas” 159% de ágio por Viracopos. É o mesmo grupo que, em 2008, “levou” as rodovias Ayrton Senna e Carvalho Pinto, em São Paulo, mas acabou sendo desabilitado porque não conseguiu cumprir o que prometeu.

Pelo menos ele devolveu o que não conseguiu pagar.

Enfim, não perca os próximos capítulos. Este caso tem tudo para transformar o Mensalão numa brincadeira de crianças.

Reflexões sobre a podridão que caracteriza os três poderes da República.

Carlos Newton

Essas greves de policiais nos motivam a refletir sobre o sistema brasileiro. A imprensa, a cada dia, publica mais e mais denúncias de irregularidades e corrupção nos três Poderes da República. Ao mesmo tempo, não se vê punição, a regra é a impunidade, nos planos federal, estadual e municipal.

Pode-se alegar que a corrupção é tão antiga como o homem, não há dúvida. Mas a situação a que chegamos não tem desculpa, qualquer justificativa é improcedente, porque o exemplo que vem de cima é tenebroso. Em apenas 13 meses, sete ministros demitidos por corrupção, e mais três emporcalhados (Fernando Pimentel – PT/ Desenvolvimento; Fernando Bezerra – PSB/Integração; e Aguinaldo Ribeiro – PP/Cidades).

A imprensa divulga também a farra do boi com recursos públicos, pagamentos absurdos a ministros (via jetons de “Conselhos”), magistrados e funcionários públicos privilegiados. As denúncias se sucedem e nada acontece, o máximo que ocorre é a “autoridade deixar” o cargo e ir aproveitar a fortuna irregularmente amealhada.

A presidente da República, que é a suprema magistrada da nação, chega a ponto de dizer que, se a irregularidade tiver sido cometida antes da autoridade ter assumido o cargo (referindo-se ao “consultor” Fernando Pimentel), o governo não tem nada com isso e a autoridade não deve ser punida.

Caramba, a que ponto chegamos! Não há mérito, os concursos públicos estão totalmente desmoralizados pela terceirização. As atividades que deveriam estar a cargo dos governantes são transferidas a ONGs (organizações não-governamentais) e OSs (organizações sociais), que se locupletam com os recursos públicos e escravizam os trabalhadores, ao negar-lhes os direitos trabalhistas, transformando-os em “associados” de falsas cooperativas.

Vejam o caso do Estado do Rio de Janeiro, governado por um jovem político enriquecido ilicitamente, vindo de uma família de classe média baixa, criado no subúrbio de Cavalcanti. Nunca foi nada, a não ser político. Ficou logo milionário, casou com uma jovem modesta e enriqueceu-a também, como advogada de grandes concessionárias e empresas ligadas ao governo.

Não satisfeito, Sergio Cabral enriqueceu também o secretário de Saúde, o amigo Sergio Cortes, também modesto servidor público, que de repente compra um luxuoso apartamento de cobertura na Lagoa, e paga à vista, em dinheiro vivo. Depois, compra uma propriedade em Mangaratiba, próximo à mansão do amigo governador, porque a fortuna não para de aumentar.

E ninguém fala nada, ninguém diz nada. É como se não existesse Justiça, Polícia, Ministério Público, nada, nada. E ainda reclamam quando servidores públicos subalternos, como os policiais, que ganham salários aviltantes para arriscar a vida, decidem fazer greve exigindo melhor remuneração.

No Brasil, tentamos viver num mundo do faz-de-conta, em que a dignidade e a honradez são coisas do passado. É esta a lição que estamos passando às novas gerações. Os exemplos dados pela classe dominante são todos podres. E ainda reclamam dos PMs.

O Supremo Tribunal Federal poderá tornar-se tríplice coroado

Carlos Chagas

Está marcado para amanhã o início de uma votação da maior importância política, pelo Supremo: decidir se a Lei da Ficha Limpa vale integralmente para as eleições municipais de outubro. Se a maioria dos onze ministros manifestar-se favoravelmente, ganhará o eleitorado nacional, pois ficarão impedidos de candidatar-se todos os tiveram condenações por tribunais colegiados e, mais ainda, todos os que no passado renunciaram a mandatos eletivos para escapar de cassações.

Depois de na semana passada haver confirmado os poderes do Conselho Nacional de Justiça para investigar e punir juízes e desembargadores corruptos, o Supremo dará significativo passo no rumo da moralização dos costumes políticos.

Ficará faltando uma outra decisão para a mais alta corte nacional de justiça firmar-se como tríplice coroada: ainda neste primeiro semestre, julgar os 38 réus do mensalão e condenar aqueles evidentemente culpados num dos maiores escândalos políticos dos últimos tempos.

Decisões do Poder Judiciário não devem nem podem ser previstas, mas tomara que o Supremo mande para a cadeia pelo menos parte dessa quadrilha que emporcalhou a atividade parlamentar de 2003 até 2005, distribuindo mesadas para deputados comprometidos a votar com o governo.

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QUEM TE VIU, QUEM TE VÊ

Não se duvida de que o PT, junto com o MST, constituíram-se nos dois movimentos políticos mais importantes das últimas décadas, estabelecendo bases para mudanças profundas nas concepções e nos relacionamentos sociais. Diferentes de outros similares anteriores, o Partido dos Trabalhadores e o Movimento dos Sem Terra imprimiram valores novos ao sustentar reformas de base na realidade nacional então dominada por práticas elitistas e acomodação quase generalizada ao regime militar então vigente.

Mesmo exagerando nas invasões de terra, e não podia ser diferente, o MST estabeleceu uma linha divisória entre as inexeqüíveis boas intenções dos que não conseguiam realizar a reforma agrária e a capacidade dos camponeses em conquistar pela pressão e pela força o direito óbvio de terra para quem trabalha nela.

Já o PT surgiu rejeitando todo tipo de aliança com forças que se pretendiam afins mas atuavam de mentirinha. De início os companheiros isolaram-se na busca e na defesa de um novo modelo social e político. Mesmo com dificuldades e incompreensões, cresceram e se afirmaram como alternativa para uma nação a ser corrigida e aprimorada. Tanto que chegaram ao poder.

O diabo é a ironia de que mesmo crescendo, ambos os movimentos minguaram. Esqueceram suas origens, embriagados pela ilusão de que bastava conquistar o governo para realizar seus propósitos. Cederam à tentação das benesses e dos privilégios dos que vencem uma batalha e abandonam os compromissos com a guerra.

O resultado aí está: um novo PT envolvido e submetido às forças e aos postulados que combatia, e um MST que parece haver sepultado a luta pela reforma agrária. Quem te viu, quem te vê…

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PERDERAM JESUS POR FALTA DE RELAÇÕES PÚBLICAS

O irreverente e saudoso Adolpho Bloch não poupava a comunidade judaica, da qual foi um dos pilares maiores. Vergastava seus patrícios por conta do apoio a juros cada vez maiores que o país praticava, mas de vez em quando incursionava pela História. Dizia, com muita graça, que os judeus perderam Jesus Cristo por falta de relações públicas, já que se o tivessem absorvido em vez de crucificá-lo, quem sabe o mundo fosse bem diferente, ontem e hoje…

O comentário vem à lembrança por conta da crise que envolve as polícias militares. Todas as previsões apontam para a continuidade dos movimentos grevistas dentro do processo de sístole e diástole tão comum entre nós. Suspenderam a greve em Salvador? Ela eclodiu no Rio. Imaginam tudo pacificado? Logo novos surtos de protesto estarão nas ruas de outros estados.

Falta ao governo sensibilidade e jogo de cintura para absorver e até atender parte das reivindicações dos policiais, em vez de tratá-las a tacape e borduna. À medida em que os dias passam maiores razões serão dadas ao general Gonçalves Dias, hoje exposto no pelourinho por haver tentado dialogar e encontrar áreas de composição com os grevistas. Por muito pouco, se houver bom-senso e vontade política, mesmo sem deixar de punir excessos, chega-se a um bolo de aniversário. Falta realmente relações públicas ao governo.

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HESITAÇÃO: TEU NOME É SERRA

Apesar da natural confusão entre vaidades que sempre marcou o PSDB, desde sua fundação, é preciso registrar a hesitação desmesurada de José Serra. Que não é de hoje, aliás. Começou em seu exílio no Chile, onde chegou como estudante de engenharia e de onde saiu como economista. Secretário do Planejamento no governo Franco Montoro, ganhou o apelido de “D. José I”, porque antes de decidir qualquer coisa o saudoso governador dizia ao interlocutor: “fala com o José, primeiro”.

Custou a aceitar sua candidatura ao Senado, depois de atuar na Câmara. Chegou às lágrimas quando Fernando Henrique o designou para o ministério da Educação, não do Planejamento, que almejava, mas candidatando-se a prefeito de São Paulo, derrotado, aceitou o ministério da Saúde, rejeitado para voltar ao posto inicial.

Perdeu pela primeira vez a presidência da República por falta de um discurso claro e objetivo que poderia ser contra ou a favor do plano de vôo dos tucanos, mas precisava ser algum. Não enfrentou o inexperiente Geraldo Alckmin, que acabou candidato fora de hora.

Depois perdeu para Dilma, apesar de disparado nas primeiras pesquisas, também por hesitação e falta de mensagem clara. Agora, quando se lhe abre a avenida até a prefeitura paulistana, capaz de reconduzi-lo à última oportunidade de chegar a Brasília, da mesma forma permanece indeciso.

População do Rio, por 93 a 7 por cento, apoiou greve da PM

Pedro do Coutto

Foi um desfecho surpreendente, eu esperava margem muito menor. Apesar de minha longa experiência em pesquisas, errei. Reconheci isso no ar. No seu programa de debates, domingo último, na Tupi, o radialista Haroldo de Andrade Junior colocou o tema para manifestação dos ouvintes pelo telefone e pela Internet. O programa lidera a audiência das 9:45 ao meio dia.

A pergunta era se as pessoas apoiavam ou não a greve da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro. Na minha estimativa, a reação seria favorável, mas numa base de 53 a 47.Centenas de pessoas responderam, talvez até mais de mil, já que as linhas telefônicas, no espaço de duas horas, não têm capacidade ilimitada de atendimento.

Quando Haroldo anunciou o resultado o impacto foi sensível. E visível, já que uma parcela acompanha o programa pela tela do computador. Uma nova forma de comunicação, portanto. Fiquei pensando qual fato pode explicar diferença tão grande num tema evidentemente difícil, sobretudo porque a greve na Polícia Civil é permitida pela Constituição. Mas a da PM e do CB é inconstitucional, sobretudo a da Polícia Militar, força de reserva do Exército, regida por regulamento militar.

Não coloco este prisma para discutir a sua legitimidade, mas sim porque uma parcela expressiva poderia colocar-se contra a paralisação por causa do enfoque jurídico. Foi aliás, o que sucedeu em alguns casos. No entanto, esta é outra questão.Continuo à busca, dentro da imagem sempre usada por Simone De Beauvoir, da exatidão de uma ideia.

A tradução talvez se encontre num impulso de resposta que está (logicamente, aliás) no coração da maioria dos assalariados, revoltados contra a compressão de seus vencimentos. Sim. Porque através do tempo, de 1995 para cá, exceto quanto ao mínimo, as demais categorias perderam seguidamente para a inflação do IBGE.

Almoçando ontem, dia seguinte, com o ex-senador Bernardo Cabral e o ex-deputado Alexandre Farah, eles admitiram a hipótese de, ao ser anunciada a pesquisa às 9 horas e 30 minutos, integrantes da PM e do CB terem acessado em massa o sistema da Rádio Tupi. É possível. Mas isso não é capaz de explicar, por si só, uma diferença de 93 a 7. Porque a comunicação maciça não poderia reduzir a 7% a opinião oposta. A diferença final teria que ser menor do que foi.

O próprio Haroldo de Andrade Junior surpreendeu-se. Nenhum dos integrantes do programa, ao fazer seu prognóstico, chegou perto do resultado final.

Claro que os governos Sergio Cabral e Jaques Wagner terminaram por negociar o fim das paralisações. Em Salvador, os doze dias de greve foram gravíssimos pelas consequências que apresentaram e são do conhecimento geral. O fato é que, não só no RJ e na Bahia, mas no país, o último aumento geral, além da inflação, foi de 30% estabelecido nacionalmente por Itamar Franco no final de seu mandato, em 94.

De lá para cá, só prejuízos para os assalariados. No estado do Rio de Janeiro, os governos Anthony Garotinho, Benedita da Silva (esta não pagou nem o décimo-terceiro salário), Rosinha Mateus, ignoraram a concessão de aumentos nominais lineares. Nos seus primeiros quatro anos, Sérgio Cabral aplicou revisões que ficaram na escala de 15%. Abaixo do índice inflacionário do período.

Os que vivem de seu trabalho honesto, assim encontraram na pesquisa da Rádio Tupi uma forma de expressar sua revolta. Pacífica. A verificada na Grécia, reportagem de Rodrigo Russo e Maria Margamoki, correspondentes da Folha de São Paulo na Europa foi violenta, como exibiu segunda-feira a foto dramática de Louise Goulimaki que acompanha a matéria.

Pudera. O governo de Atenas quer cortar em 22% o salário mínimo de 751 euros, demitir 150 mil funcionários públicos e congelar todos os salários por três anos. Dose para dinossauro. Incrível como se desvaloriza o trabalho humano. No Brasil e no mundo.

Os Biés do TSE

Sebastião Nery

Bié, consagrado poeta popular de Fortaleza, era muito amigo de Lutero Vargas, filho de Getúlio. Toda vez que Lutero vinha ao Ceará ou passava por aqui, a caminho ou voltando da Europa, Estados Unidos, Bié e ele detonavam muito uísque, recitando poemas em escocês.

Em 1944, Lutero voltava dos Estados Unidos, desceu em Fortaleza. Ofereceram um grande banquete ao filho predileto do ditador. Nobreza, clero e puxa-sacos, estava lá a fina flora da cidade. O principal orador foi o senhor arcebispo. Lutero, até por força do nome herético, agradeceu emocionado.

Mas nem tempo teve de levantar-se para sair, porque Bié pediu a palavra, lá do canto da mesa:

– Meu amigo Lutero, tenho um pedido a te fazer, em nome de todo o povo do Ceará. Leva para teu ilustre e poderoso pai esta mensagem, que não é minha mas de todo o Estado. Pede a ele que me nomeie arcebispo de Fortaleza.

Quando procuraram, o senhor arcebispo já estava lá fora. Saindo de fininho.

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TERAPIA OCUPACIONAL

O País e sobretudo o Congresso e os políticos precisam ter muita compreensão e misericórdia com os Biés do TSE, do Tribunal Superior Eleitoral. Eles vivem um permanente drama existencial. Muito gostariam de ser nomeados arcebispos, quiçá cardeais. Quer dizer, ir para o Supremo.

Três, por lei, já são do Supremo Tribunal. A maioria, coitada, fica ali anônima, incógnita, inconsolável, sem saberem para o que servem, já que os problemas, quando sérios, vão para o Supremo. E ninguém se lembra deles.

Daí, esses ataques periódicos de histeria jurídica. Passam anos inteiros sem nada fazerem, sem poderem dizer que estão vivos. E caem naquela modorra verde mas seca de Brasília, fatal para quem não tem o que fazer. De dois em dois anos, agarraram-se às eleições como a um terapia ocupacional. Toda vez que se aproxima uma eleição, as Darlenes jurídicas se vingam do destino de almas chochas, arranjam um forró jurídico e pulam para o palco. Se fossem forrozeiros inofensivos, tudo bem. Mas logo se metem a legislar, a parir portarias fingindo de leis, e atropelar o Congresso e a ordem jurídica.

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QUEBRA-QUEBRA

Essa coisa de Justiça Eleitoral é uma joboticaba nacional. Também só existe aqui. Nos outros países, a cada eleição a Justiça cria comissões eleitorais especiais para acompanhar os pleitos. Acabaram, estão dissolvidas.

No Brasil, eles ficam pendurados em inexplicáveis mordomias. E para tentar justificá-las, metem-se a proprietários da lei, legislam sem qualquer mandato, passam por cima do Congresso como Brucutus jurídicos em favelas. Em junho de 2006, até Sarney, o mais complacente dos cúmplices governamentais, achou demais a decisão do TSE, detonando as eleições na véspera das convenções partidárias, a pretexto da tal “verticalização das alianças”.

Três dias depois, misteriosamente, o TSE sai com nova “interpretação” da verticalização, só para coagir PMDB, PSB, todos, a se unirem a Lula, que precisava se reeleger. Coincidência? O mensalão também era coincidência. Mensalaram a eleição. O histórico da verticalização não é eleitoral, é penal. É um prontuário.

Em 2002, tentando ajudar o governo (Fernando Henrique), o “jurista” Nelson Jobim, na presidência do TSE, “baixou” (são os pais-de-santo da esperteza) portaria “criando” a verticalização: as alianças nos Estados teriam de ser as mesmas para presidente. Nem assim Serra ganhou.

Ministro russo diz que reação do Ocidente à questão da Síria é quase histérica e obscena.

A reação do ocidente ao veto de Moscou e Pequim a um projeto de resolução sobre a Síria, em exame no Conselho de Segurança da ONU, é “quase histérica”, “obscena” – disse o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, acrescentando: “Os excessivamente furiosos raramente têm razão”.

Segundo o diplomata, aquelas “declarações histéricas” visam exclusivamente a ocultar o que realmente se passa na Síria. Para Lavrov, há mais de uma fonte de violência na República Árabe. Por isso, Moscou apoiou a iniciativa de acordo negociado, que a Liga Árabe apresentou em novembro passado. Naquela ocasião, a proposta da Liga Árabe falava em pôr fim a violência “venha de onde vier”.

O ministro observou que essa demanda aparecia refletida na resolução do Conselho de Segurança. Mas o documento teria de oferecer mais do que só slogans e propor passos precisos pelos quais atender efetivamente às demandas.

“O que se viu foi que, na versão analisada agora, havia muitos detalhes exigidos de um só lado e só do lado do governo sírio” – disse Lavrov. “Apresentamos várias emendas a serem feitas no projeto, para corrigir esse desequilíbrio e indicar passos concretos a serem dados, pela oposição e pela comunidade internacional, para pôr fim à violência dos grupos extremistas armados em ação na Síria.”

Dentre as emendas sugeridas pelos diplomatas russos havia a exigência de que o governo sírio retirasse soldados e agentes de segurança das cidades; e, simultaneamente, os grupos extremistas armados desocupariam as áreas onde estão e entregariam as armas. Além disso, a Rússia sugeriu que a comunidade internacional se organizasse para negociar com a oposição política e obter dela que se separasse dos extremistas armados, como primeiro passo para pôr fim à violência na Síria.

O ministro russo disse que Moscou foi surpreendida pela decisão do Conselho de Segurança de ignorar completamente aquele conjunto de emendas “absolutamente lógicas” que os russos ofereceram como sugestão. Para Lavrov é “muito lamentável” que os autores do projeto inicial tenham desconsiderado as sugestões dos russos e tenham optado por votar “precipitadamente” o projeto de resolução.

A Rússia pediu aos membros do Conselho de Segurança que a votação fosse adiada por alguns dias, até que o próprio Lavrov e o chefe da Inteligência russa, Mikhail Fradkov, pudessem ir a Damasco, onde já tinham reunião agendada com o presidente Al-Asaad, para o dia 7/2. Para Lavrov, a votação precipitada, que desconsiderou o trabalho diplomático dos russos, foi “flagrante desrespeito”.

Falando em Moscou, o ministro russo denunciou que agentes externos tentam hoje derrubar o governo sírio. Por isso, sobretudo, o número de mortos continua a aumentar.

“Várias vezes conclamamos Damasco a promover e apressar várias reformas indispensáveis, e continuamos a trabalhar nessa linha. Mas vemos bem claramente também que há outros atores, com outros objetivos específicos. Esses outros atores estão tentando instrumentalizar o movimento de oposição na Síria para conseguir derrubar o governo.”

Segundo o ministro Lavrov, a oposição síria está sendo “insistentemente manipulada do exterior, com instruções para não aceitar qualquer acordo negociado com o governo”. Mais que isso, os mesmos atores externos estimulam as milícias armadas – inclusive os grupos extremistas – e lhes fornecem armas e todos os tipos de suprimentos e apoios.

(Transcrito do Rússia Today)