Amigo quis defender Fernando Pimentel e complicou ainda mais a situação do ministro.

Carlos Newton

A situação do ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, se complica cada vez mais. Agora, surge mais uma grave denúncia em O Globo, feita pelo repórter Thiago Herdy, que está sempre um passo à frente dos outros jornalistas que cobrem o assunto. A reportagem mostra que jamais aconteceu a série de palestras de Pimentel nas unidades regionais da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), citadas pelo ex-presidente da entidade Robson Andrade como prova dos serviços prestados à entidade pelo atual ministro.

Andrade quis defender o amigo e o deixou em péssima situação. Levantamento feito junto a representantes das unidades da Fiemg em todo o estado mostra que Pimentel não fez palestras em 2009, ano em que sua empresa P-21 Consultoria e Projetos foi contratada por R$ 1 milhão para prestar serviços à federação.

Atualmente, Andrade é presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e, na última semana, deu entrevista em Brasília para explicar o trabalho realizado por Pimentel quando ele deixou a prefeitura de Belo Horizonte. Na época do contrato com a P-21, Andrade estava à frente da Fiemg.

“O Pimentel, na época, também fez, a pedido da federação das indústrias, uma série de palestras nas regionais. A federação tem dez regionais, e ele participou de palestras nessas regionais e também em outras cidades-polo da indústria mineira” – disse Andrade na ocasião. E era tudo mentira.

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PERGUNTAS QUE PIMENTEL NÃO RESPONDEU

O cerco do jornal O Globo ao ministro Pimentel é implacável. Em seu site, o jornal carioca publicou que, embora aliados afirmem que o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, já prestou todos os esclarecimentos a respeito de suas atividades como consultor, ainda há muitos outros pontos que o ministro não explicou:

PROGRAMAS – A Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) informou que Fernando Pimentel, então ex-prefeito de Belo Horizonte, foi contratado, por meio da P-21 Consultoria e Projetos Ltda., para propor programas de desoneração tributária e desenvolvimento ao governo federal. Quais foram esses programas?

NOMES – A Fiemg informou que Pimentel deu “orientação aos técnicos e colaboradores para elaboração e desenvolvimento de conteúdos”. Quem são os técnicos e colaboradores que trabalharam sob sua orientação?

CONTRATO VERBAL
– Por que negócios de R$ 514 mil, R$ 400 mil e R$ 130 mil foram feitos sem contratos formais e apenas verbais?

RESULTADOS – Que garantias de prestação do serviço o então ex-prefeito Fernando Pimentel dava?

SERVIÇO PRESTADO – E por que o ministro não apresenta a comprovação dos serviços prestados, já que confirma ter recebido todos os valores publicados pelo Globo?

ETA – Por que o ministro omitiu ao jornal O Globo ter prestado serviços à ETA Bebidas Ltda., na hora de somar os valores recebidos com sua atividade de consultoria, quando o caso veio à tona?

DOADOR – O ministro conhece Eduardo Luis Bueno, sócio da ETA Bebidas e acusado por doação ilegal de recursos na campanha eleitoral de 2006? Se sim, desde quando e como se conheceram?

PERNAMBUCO – Para prestar serviços à ETA, o então ex-prefeito de BH viajou a Pernambuco para conhecer detalhes do mercado de refresco de guaraná no Nordeste? Ou prestou o serviço a partir de Belo Horizonte?

CONTATOS – Na quarta-feira passada, O Globo contactou todos os donos da ETA desde a fundação, que negaram conhecer o ministro Pimentel. No dia seguinte, a empresa divulgou nota confirmando a contratação e informou que ninguém daria mais entrevistas. Quem são os diretores da ETA com quem o então ex-prefeito de Belo Horizonte afirmou ter mantido contato telefônico durante a prestação de seus serviços de consultoria?

NOS EUA – Quem é o ex-dono da ETA que o ministro Fernando Pimentel afirma estar vivendo nos Estados Unidos?

FATURAMENTO – O ministro sabe dizer qual era o faturamento médio da ETA quando prestou consultoria?

INDICAÇÃO – Quem é o dirigente da Federação das Indústrias de Pernambuco que o ministro Pimentel afirmou, em entrevista à “Folha de S. Paulo”, ter indicado seu trabalho aos donos da ETA?

QUITAÇÃO – O então ex-prefeito de Belo Horizonte orientou a construtora Convap — para quem afirma ter prestado consultoria tributária – a pagar a dívida de quase meio milhão de reais em taxas e tributos da empresa com a prefeitura de Belo Horizonte?

Senado e Supremo: toma lá, dá cá

Carlos Chagas

O Supremo Tribunal Federal aplicou a lei, ou melhor, considerou que a lei da Ficha Limpa não poderia ter sido aplicada nas eleições do ano passado. Com isso, como já tinha feito na Paraíba, no Espírito Santo e no Amapá, desconsiderou as impugnações feitas pelos tribunais eleitorais estaduais contra a diplomação de três senadores eleitos. Agora foi a vez de Jader Barbalho, mas com uma complicação: cinco ministros da mais alta corte nacional de justiça entenderam que o ex-presidente do Senado não tinha direito ao benefício. Como outros cinco posicionaram-se do lado oposto, coube ao presidente do Supremo, Cezar Peluso, desempatar, votando duas vezes, conforme o regimento.

Esse é o resumo jurídico do caso, mas, nos bastidores, verificou-se delicado embate político. Porque estavam explosivas as relações entre o Supremo e o Senado. A disposição dos senadores era de não aprovar a indicação da décima-primeira ministra, Rosa Weber, enquanto o Supremo não abrisse caminho para a posse de Jader Barbalho. Só que a recíproca era verdadeira: o Supremo só liberaria as condições para o senador voltar à casa se o Senado aprovasse, antes, o nome da nova ministra.

Parecia coisa do Joãozinho e do Juquinha brigando pelas goiabas do quintal. No fim, prevaleceu o bom senso, com os senadores recuando e aprovando Rosa Weber, mesmo depois do susto passado nela, de seis horas e meia de inquirições que nem Rui Barbosa responderia. Em contrapartida, menos de uma semana depois o Supremo abriu caminho para o retorno de Jader Barbalho, até instruindo os senadores para a elaboração de um novo recurso.

Até novas seqüelas e querelas, parece tudo resolvido, registrando-se até um esforço, lá e cá, para que ainda este ano realizem-se as duas posses. Se não for possível, logo depois dos recessos estarão ocupando suas cadeiras o senador e a ministra. O próximo embate parece que não haverá, dada a tendência do Supremo de considerar a lei da Ficha Limpa válida para as eleições do ano que vem. Ficará, porém, a dúvida: válida desde sua sanção ou podendo retroagir e alcançando ex-senadores que renunciaram a seus mandatos para não ser cassados, como Joaquim Roriz?

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LIMITES PARA LICENÇAS MÉDICAS?

Com todo o respeito, mas o assunto ainda envolve o Supremo Tribunal Federal. O relator do processo contra os réus do mensalão, ministro Joaquim Barbosa, sofre muito por conta de problemas na coluna vertebral. Diversas vezes tem sido flagrado participando de pé, nas sessões plenárias, encostado no espaldar da cadeira, impossibilitado de sentar. Por conta disso, tem passado por vários períodos de licença médica. Agora mesmo, mais um que o levou para tratamento nos Estados Unidos.

O diabo é que com mais de 130 volumes e pelo menos 600 páginas só de depoimentos dos 38 acusados, o relatório do ministro vem sendo protelado. Talvez seja apresentado no primeiro semestre do ano que vem, quando, então começará tudo de novo, pois o ministro-revisor, Ricardo Lewandowski, promete ler toda a parafernália antes de pronunciar-se.
Ele mesmo já alertou para o perigo da prescrição da maior parte dos crimes praticados. Seria um desastre, se o julgamento dos mensaleiros ficasse para 2013 ou para as calendas. A absolvição forçada da quadrilha frustraria a opinião pública e a torcida do Flamengo, recaindo o ônus sobre o Supremo Tribunal Federal.

Talvez diante de tão amargo desenlace o presidente Cezar Peluso tenha dado instruções ao ministro Joaquim Barbosa para compartilhar os autos do processo com os demais ministros. Pelo menos, eles já iriam formando juízo de cada caso, de modo a estar preparados para votar assim que a matéria entre em pauta. Mas quando?

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IRONIAS DA HISTÓRIA

A História costuma ser irônica. Aquilo que a Alemanha não conseguiu pela guerra, com Adolf Hitler, conquista agora na paz, com Ângela Merkell. Falamos da conquista da Europa. Na atual crise do euro, são os alemães a darem as cartas, liderando as negociações para o encontro de soluções econômicas viáveis. Os demais países do Velho Continente curvam-se às determinações e aos recursos do governo de Berlim, de forma até maior do que quando as panzer invadiam suas capitais. Melhor assim, pelo menos.

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COMPLICAÇÕES

Complica-se a cada dia a situação do governador de Brasília, Agnelo Queirós, menos por acusações de enriquecimento ilícito a membros de sua família, mais pelo caos instaurado na capital da República. Os hospitais públicos não funcionam por falta de médicos e enfermeiros, sem falar no equipamento. O trânsito virou um inferno não apenas durante as greves dos funcionários do metrô e dos ônibus urbanos, mas todo dia. As chuvas transformam ruas e avenidas em piscinas e a falta de energia tornou-se constante em bairros, cidades-satélites e no próprio centro comercial.

Nas rodovias que demandam o Distrito Federal são constantes as explosões da população local, erigindo barreiras, queimando pneus e protestando contra freqüentes acidentes e falta de transporte coletivo. A maioria das obras viárias encontra-se paralisada. Acusações de corrupção envolvendo agentes do poder público apimenta o descalabro administrativo.

Vietnã, 50 anos depois, uma tragédia americana

Pedro do Coutto

O título reproduz o de Teodoro Dreiser, livro de grande repercussão, no qual se baseia o filme Um Lugar ao Sol, de George Stevens, com Montgomery Clift e Elizabeth Taylor. E o texto a seguir parte da magnífica reportagem de Tatiana Gianini, Duda Teixeira e Júlia Carvalho, revista Veja que circulou sábado. Foto impressionante de militares americanos feridos e cercados num pântano da selva vietnamita acompanha a matéria.

A fotografia exibe para a história um momento dramático do confronto. A escalada no sudeste asiático começou a 14 de dezembro de 1961, governo John Kennedy. Eu pensava que o início da guerra absurda houvesse ocorrido em 1962. Mas foi no final de 61. Me enganei.Uma tragédia, sob todos os pontos de vista, Kennedy resolveu intervir porque temia que o Vietnâ do Norte, comunista, apoiado pela China e pela União Soviética, unisse, pela força, o Norte e o Sul. E então envolveu os EUA no conflito com o qual nada tinha a ver.

O resultado foi o fracasso total. Tanto assim que, 14 anos depois, a Casa Branca, então ocupada por Gerald Ford, assinou a paz, entregou o governo do Vietnã unificado ao regime do capitalismo de estado (comunismo), deixando no rastro fatídico 57 mil mortos e 6 mil americanos desaparecidos. Seus nomes estão escritos em placas colocadas na praça central de Washington, em frente ao Lincoln Memorial.

Entre os vietnamitas as mortes passaram de um milhão de seres humanos, a maioria vítimas de bombardeios. Tudo isso para quê? Para chegar à mesma solução que teria sido alcançada em 61 sem morrer ninguém. E não só morrer. Houve 300 mil feridos americanos, parte dos quais mutilados, com doenças e seqüelas físicas e mentais. Entre os vietnamitas, pode-se dizer o mesmo em relação a 5 milhões. Pois as estatísticas de guerra consideram sempre o número de feridos cinco vezes maior do que o de mortos.

Perderam todos. Mas a indústria de armas, portanto a indústria da morte, ganhou. Como sempre. Esta constitui a forte razão pela qual os conflitos, sejam nacionais ou internacionais, acabem sempre existindo.

Não só do lado americano. Mas também do lado chinês e russo, responsável pela reposição dos armamentos ao governo de Hanoi e sua distribuição aos guerrilheiros vietcongues. Que eram os do sul adeptos do norte. A ação dos Estados Unidos chegou ao paroxismo na administração Lyndon Johnson, por terra, mar e ar. Não adiantou. Os soldados não tinham motivação para lutar. Afinal de contas, porque motivo estavam ali? Seu país não fora agredido, como aconteceu em 1941 com o bombardeio de Pearl Harbour. Não estava ameaçado, nem invadido, era, isso sim invasor.

Nesse momento, como focalizaram os filmes de Oliver Stone e Francis Ford Copolla, Platoon e Apocalipse Now, começou a outra parte da tragédia. A distribuição de drogas às tropas. O consumo espalhou-se pelos EUA e, em seguida, pelo mundo. O que vemos hoje acontecer no Rio de Janeiro, por exemplo, é uma herança daquela estúpida iniciativa. A sociedade americana se revoltou e exigiu o fim da guerra. As emissoras de televisão e os jornais passaram a mostrar as atrocidades praticadas de lado a lado.

O governo de Washington, primeiro com Nixon, que foi à China em 72, e depois com Gerald Ford, ordenou a retirada e assinou a paz. Esta a tragédia em dois tempos, uma das maiores da história, que agora completa 50 anos.

O mapa do tesouro

Sebastião Nery

Logo depois da revolução de 30, os Estados Unidos ameaçaram penhorar o ouro brasileiro depositado lá, para pagamento da nossa dívida externa. Getúlio, ditador mas estadista, ficou irritadíssimo. Chega um amigo de Nova York e vai conversar com ele:

– Getúlio, tu precisas ir lá. Os Estados Unidos excedem em tudo quanto se possa imaginar. Nova York é uma cidade ciclópica e tentacular, alguma coisa de inacreditável pela grandeza, pelo progresso.

Getúlio ouviu em silêncio, charuto na boca:

– Nada disso.O cérebro deles é de cimento,chiclete e matéria plástica.

E nunca foi lá. Quando, na Grande Guerra, Franklin Roosevelt quis conversar com ele, teve que vir ao Brasil. Mesmo de cadeira de rodas.

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RAMALHETE

Meio século depois, não explicitamente mas de fato, o Brasil enfrenta a guerra do mar. A descoberta do Pré-Sal pela Petrobrás ouriçou a ganância internacional. E só estamos tranqüilos porque um grande e esquecido brasileiro, Clovis Ramalhete, trinta anos atrás, estudou, lutou, convenceu e venceu a guerra surda das 200 milhas.

Até então, o mar territorial brasileiro, o direito nacional ao território em torno do pais, reconhecido internacionalmente, só ia até 12 milhas no oceano. E foi ele, o sábio e saudoso jurista Clovis Ramalhete, Consultor Geral da Republica do governo João Batista Figueiredo, que, por solicitação do então ministro da Marinha, almirante Adalberto de Barros Nunes, estudou o mar das 200 Milhas, dando um parecer inquestionável sobre a legitimidade de ato unilateral para a ampliação do mar territorial.

E das 12 milhas o Brasil, por lei, passou a ter soberania sobre uma fronteira marítima de 200 milhas, que agora garantem o Pré-Sal e muito mais. Clovis Ramalhete, que em 1979 havia sido um dos autores da Lei da Anistia, foi depois ministro do Supremo Tribunal Federal, membro da Corte Permanente de Arbitragem em Haia e deixou, entre outros, um livro clássico: “A Grande Controvérsia do Mar”.

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200 MILHAS

Mas as 200 milhas não garantem apenas o Pré-Sal. Uma riqueza bilionária em biodiversidade e recursos econômicos de formidável potencial está se integrando à realidade brasileira. Concentra gigantescas reservas minerais, muito além do petróleo e do gás natural. É a “Amazônia Azul”, como a define a Marinha e se estende do Amapá ao Rio Grande do Sul. É o mapa do tesouro do fundo do mar brasileiro, já com padrão definido. A exploração mineral em alto mar está fadada a ser um tesouro submerso incalculável para a economia nacional.

Sua extensão corresponde a 3,6 milhões de quilômetros quadrados. A área continental brasileira de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, com a incorporação da área marítima, totaliza 12,1 milhões de quilômetros quadrados. E o Brasil, por ser Estado soberano, pode estabelecer unilateralmente o limite da sua plataforma continental além das 200 milhas.

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GUERRA DO MAR

França, Noruega, Austrália, Rússia, Espanha, Nova Zelândia, Irlanda e Reino Unido vêm desenvolvendo projetos para aumentar a área marítima sob o seu controle. A disputa internacional pelas áreas oceânicas e o seu potencial mineral já é realidade. No Brasil o despertar para a mina de ouro do fundo do mar aconteceu a partir da visão estratégica da Petrobrás na descoberta de grandes bacias petrolíferas, responsaveis por 87% da produção nacional, na área das 200 milhas.

O oceano Atlântico passou a ter presença importante para a economia e o desenvolvimento nacional. A “Amazônia Azul”, nos próximos anos, intensificará as pesquisas geológicas em alto mar. A Marinha e as Forças Armadas terão importância fundamental na consolidação desse patrimônio incalculável, autêntica reserva econômica, estratégia e política para as futuras gerações.

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FORÇAS ARMADAS

Lamentavelmente os governos brasileiros não têm investido como deviam na modernização da defesa nacional. O sucateamento da Marinha, do Exército e da Aeronáutica é preocupação permanente. Hoje, das 100 embarcações, corvetas, fragatas, patrulhas, apenas 53 estão navegando.

Dos cinco submarinos, só dois operam. Dos 23 jatos, no início do ano apenas dois estavam em operação. O orçamento da defesa nacional representa 1,39% do PIB. Na Aeronáutica, dos 129 caças, apenas 72 estão em operação. Dos 81 helicópteros, somente 22 estão voando. No Exército, dos 78 helicópteros, 40% estão parados.

O Ministério da Defesa encaminhou à Presidência da República estudo de caráter sigiloso dos comandos militares retratando essa realidade, comprovando o sucateamento das Forças Armadas.

Só uma visão de estadista defenderá o Mapa do Tesouro nacional.

Até que ponto policiais do Rio estão envolvidos e contaminados pelo crime?

Milton Corrêa da Costa

Em tempos, jamais vistos, onde um tenente-coronel e um tenente da PM do Rio, dois dos 11 acusados da covarde e brutal morte da juíza Patrícia Acioly, estão sendo encaminhados, por determinação judicial, à penitenciárias de segurança máxima, fora das divisas do Estado, mais um lamentável e degradante fato envolve policiais no Rio de Janeiro.

Na terça-feira, 13 agentes do estado, sendo 11 policiais militares e dois civis, foram presos, após longo trabalho de investigação da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança, sob a acusação de venda de armas e drogas – algumas apreendidas em operações clandestinas – para o próprio tráfico. Ou seja, forneciam, em troca da propina, armas ao inimigo traficante para matassem e ferissem os próprios companheiros de profissão durante as incursões policiais legais.

Estarrece também o fato de que os ‘bandidos policiais’ faziam uso de informantes para que indicassem o local de esconderijo dos materiais do crime e, no caso dos policiais militares, pagariam propina (R$ 50,00) a oficiais de serviço para que fossem liberados de seus postos, além de certa quantia, entregue junto à reserva de armamento, para que pudessem permanecer com as armas da corporação enquanto fossem, ‘presumivelmente imunes à suspeitas’, delinquir da forma como melhor lhes conviessse. É o que se pode chamar de conluio quase que perfeito entre agentes do estado para a prática ‘oficializada’ de crime. Inacreditável e preocupante, uma vez que envolve policiais de diferentes regiões e unidades policiais, fato que pode demonstrar o grau de extensão (alastramento) da contaminação do crime envolvendo o aparelho policial do Estado.

Se somarmos o presente e lamentável fato a outros recentemente ocorridos, que envolvem policiais do Rio, a exemplo do policial militar (alega em sua defesa encontrar-se em estado etílico) acusado de assalto à mão armada no centro do Rio, acrescido ao caso do capitão agressor, no interior de uma boate da Ilha do Governador, e do desaparecimento de um cidadão na Cidade de Deus, onde dois PMs de uma guarnição policial são os principais suspeitos, além da execução sumária (três tiros de fuzil) de um eletricista na Baixada Fluminense (o corpo carbonizado e o carro incendiado apareceram posteriormente), onde são acusados dois policiais de serviço ( um deles foi o autor dos disparos), chegamos à conclusão que há algo de muito podre no ‘Reino da Dinamarca’.

Ainda que tais fatos, estatisticamente, envolvam uma minoria de agentes do estado, num efetivo ativo de aproximadamente 60 mil homens entre policiais civis e militares e somente a PM, neste ano, já excluiu 143 policiais ( a previsão até o final do ano pode chegar a 170), o dobro do número de excluídos em 2010 (85), tais fatos são extremamente preocupantes para os que detêm as funções de comando e direção no organismo policial do Rio.

Até que ponto agentes do estado, que têm a missão de defesa da sociedade, estão envolvidos com o crime? Qual é o grau de contaminação real da polícia do Rio com o banditismo? O que leva um oficial, com a patente de capitão, como no caso da boate da Ilha do Governador, com curso de formação de três anos, doutrinado para as funções de comando e liderança, para dar o exemplo, comportar-se prepotentemente, como autêntico vândalo, num ato de extrema covardia contra um jovem caído e indefeso, como mostram as câmeras de circuito interno, onde os agressores parecem ter a convicção da lei do mais forte, da supremacia da carteira policial e da impunidade? E o processo de formação do policial militar? Tem falhado em que aspectos?

Não há dúvida, pois, da necessidade premente de especialistas do tema repensarem a abordagem sobre os fatores comportamentais que conduzem o homem-policial a ser dominado pela fraqueza moral, pelo desvio de conduta, pelo desequilíbrio e pela agressividade extrema. Há perguntas que precisam se respondidas antes que seja tarde e a rotina do mau comportamento e do mau exemplo se alastre ainda mais.

Que perfil profissiográfico desejamos para o profissional de polícia? Que tipo de abordagem psicopedagógica (que idéia-força; que valores) deve ser empregada nos cursos de formação e aperfeiçoamento de policiais que possam introjetar no profissional de polícia a necessidade do comportamento moral e ético ilibados, tornando o homem cada vez mais imune à fraqueza moral da corrupção e de outros desvios de conduta? É possível, através de estratégia pedagógica específica, alcançar tal objetivo?

É o que o comando das polícias e os estudiosos e profissionais do ramo do estudo da psicologia e da pedagogia precisam descobrir. A sociedade quer e precisa acreditar na sua polícia, mormente num momento tão promissor para o Rio com o inovador e criativo modelo das Unidades de Polícia Pacificadora. O processo de contaminação da polícia do Rio preocupa sobremodo e deve ser estudado. Com a palavra os ‘policiólogos’ de plantão.

Senadora do “relaxa e goza” está tendo problemas para aprovar o projeto contra a homofobia. Está difícil chegar ao orgasmo múltiplo.

Carlos Newton

A senadora Marta Suplicy (PT-SP), que se notabilizou como ministra do Turismo defendendo a tese de que os passageiros retidos nos aeroportos no apagão aéreo deveriam “relaxar e gozar”, infelizmente não tem podido seguir o próprio conselho ao tentar aprovar seu parecer como relatora do famoso projeto que transforma em crime a chamada homofobia, o PLC 122.

Na esperança de enfim poder relaxar e gozar, a nobre senadora paulista está procurando facilitar a penetração do projeto, introduzindo no texto mais um artigo, destinado a acalmar o furor uterino de lideranças mais conservadoras: “Art. 3º – O disposto nesta Lei não se aplica à manifestação pacífica de pensamento decorrente da fé e da moral fundada na liberdade de consciência, de crença e de religião de que trata o inciso VI do art. 5º da Constituição Federal”.

Assim, continuariam a ser considerados crimes todos os atos tidos como homofóbicos, a serem exemplarmente punidos com reclusão de um a três anos, exceto quando se tratar dessa manifestação pacífica de pensamento religioso, seja lá o que isso verdadeiramente signifique.

As discussões são acaloradas. Ao contrário do senador Magno Malta (PR-ES), que vê o homossexualismo como uma escolha, a senadora Lídice da Mata (PSB-BA) pondera que algumas correntes científicas admitem a hipótese de as pessoas já nascerem com essa condição. Desta forma, faz um apelo aos críticos ao projeto para que respeitem essa tese e, assim, concordem em criminalizar a homofobia.

Em meio a esse excitante debate, que ameaça levar ao orgasmo parlamentares das mais diferentes tendências sexuais, ideológicas e religiosas, quem parece ter razão é o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), que assinalou o esforço da relatora para elaborar um texto de consenso, mas acredita ser preciso penetrar ainda mais no diálogo para “que a luta contra a intolerância não passe a idéia de que se está criando outra forma de intolerância”.

Folha diz que livro de Amaury Jr. tem poucas novidades e não oferece provas dessas novas acusações.

O comentarista Carlo Germani, sempre atento, nos envia a seguinte reportagem da Folha de S. Paulo sobre o livro “Privataria Tucana”, publicada hoje:

Um livro que chegou à praça no fim de semana acusa o ex-governador José Serra de receber propinas de empresários que participaram das privatizações conduzidas pelo governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).

Publicado pela Geração Editorial, “A Privataria Tucana” foi escrito pelo jornalista Amaury Ribeiro Jr., que no ano passado foi acusado de participar da montagem de uma central de espionagem no comitê da campanha da presidente Dilma Rousseff.

O livro sustenta que amigos e parentes de Serra mantiveram empresas em paraísos fiscais e as usaram para movimentar milhões de dólares entre 1993 e 2003, mas não oferece nenhuma prova de que esse dinheiro tenha relação com as privatizações.

Algumas informações do livro circularam na campanha eleitoral do ano passado e boa parte do material foi publicada antes por jornais e revistas, entre eles a Folha.

O livro mostra que uma empresa controlada pelo empresário Carlos Jereissati nas Ilhas Cayman repassou US$ 410 mil para Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-diretor da área internacional do Banco do Brasil e amigo de Serra.

Segundo os documentos apresentados pelo livro, a transferência foi feita dois anos depois do leilão em que um grupo controlado por Jereissati arrematou o controle da antiga Telemar. Mas o livro não exibe prova de que a transação tenha algo a ver com Serra e a privatização.

Outro alvo do livro é a filha de Serra, Verônica Serra, que foi sócia da empresária Verônica Dantas numa firma de prestação de serviços financeiros na internet, a Decidir.

Verônica Dantas é irmã do banqueiro Daniel Dantas, que controlou a antiga Brasil Telecom até o início de 2005. A Telemar e a Brasil Telecom atualmente são parte da Oi.

O jornalista também diz que Gregório Preciado, casado com uma prima de Serra, teve ajuda de Ricardo Sérgio na privatização do setor elétrico e depois movimentou dinheiro em paraísos fiscais.

No governo FHC, Ricardo Sérgio, como diretor do Banco do Brasil, exercia influência sobre a Previ, o fundo de pensão dos empregados do BB, que se associou aos vários grupos que participaram das privatizações da época.

Ribeiro Jr. foi acusado pela Polícia Federal de ter violado o sigilo fiscal de dirigentes tucanos e dos familiares de Serra durante suas investigações, pagando despachantes para obter ilegalmente informações sobre eles.

O jornalista diz que não fez nada ilegal. Ele iniciou suas investigações quando trabalhava para o jornal “Estado de Minas” e o então governador do Estado, Aécio Neves, disputava com Serra a indicação do PSDB para disputar a eleição presidencial.

Sua atuação só foi exposta mais tarde, quando Aécio já estava fora da disputa e Ribeiro Jr. foi chamado pelo jornalista Luiz Lanzetta para colaborar com a campanha de Dilma, um projeto que foi abortado pela cúpula do PT antes de ganhar corpo.

Gustavo Franco diz que a crise européia afetará pouco o Brasil. Para o ex-presidente do BC, o Brasil precisa é acelerar o crescimento, mas não consegue.

Em entrevista ao site IG, o professor de Economia Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central, faz interessantes reflexões sobre o momento econômico internacional e seus reflexos no Brasil. Veja abaixo parte da entrevista de Franco aos repórteres Mariana Sant’Anna e Valmir Moratelli.

Diante da possibilidade da Europa ter uma década perdida, em contraste com a do Brasil, como o senhor vê o impacto para a economia brasileira?

Gustavo Franco: Bom, primeiro, não vamos exagerar a prosperidade brasileira. O Brasil tem crescido, o que é muito bom, mas a uma taxa um tanto anêmica. Na média, nos últimos dez anos, nós estamos crescendo menos do que 4% ao ano. Não é uma taxa de crescimento de se orgulhar.Está muito inferior ao padrão dos BRICs. Pode-se até dizer que estamos perdendo tempo e oportunidades, porque não estamos conseguindo empreender as reformas e as melhoras na política econômica que nos colocariam num patamar de crescimento parecido com a China. Estamos fracassando nisso.

Então não seremos afetados?

Gustavo Franco: O fato de a Europa ficar estagnada nos próximos dez anos vai mudar muito pouco a nossa perspectiva, já que o que faz o Brasil ficar meio trancafiado num crescimento baixo não tem nada que ver com a Europa, tem que ver com coisas nossas mesmo. Desde que não haja um episódio agudo de crise, como foi o último trimestre de 2008, a crise europeia não vai ter maior impacto aqui no Brasil.

O senhor acredita que há solução para a crise?

Gustavo Franco: Claro que há. Não tem mundo sem crise, nem crise sem solução.

Os governos estão na direção correta?

Gustavo Franco: Está convergindo para a solução, sim. A dificuldade é a velocidade. É uma dificuldade que tem que ver com a própria construção europeia, supranacional, mas também é um modo de ver a dificuldade decisória naturalmente produzida pela democracia. Os chineses têm uma crítica constante ao ocidente, aos Estados Unidos em particular, no sentido de que a democracia atrapalha as decisões pertinentes para o crescimento. Mas sabemos que na China não há direitos trabalhistas, não há proteção ao meio ambiente, não há várias coisas que são próprias do regime democrático. A Europa, dentro dos quadrantes de uma democracia, está andando na velocidade e na urgência possíveis. Claro que às vezes caminha num gelo muito fino e os mercados financeiros acham que é lento.

O senhor vê a inflação com preocupação?

Gustavo Franco: Vejo com preocupação, sim, porque temos uma composição de políticas econômicas que vejo como equivocada. Boa parte dos nossos problemas está exatamente aí. Temos uma política fiscal excessivamente expansionista, com taxa de crescimento do gasto público muito alta. Para compensar essa distorção, temos que praticar as maiores taxas de juros do mundo. Isso cria a armadilha do crescimento baixo. Mas se nós tentarmos sair dessa armadilha mexendo para baixo nos juros sem alterar a política fiscal, vamos provocar mais inflação e não vamos gerar um crescimento que não seja uma espécie de voo de galinha.

Pimentel responde processo por perdoar dívida da Unimed em Belo Horizonte, no valor de R$ 178 milhões.

Carlos Newton

Reportagem de Fabio Fabrini e Thiago Herdy, em O Globo, mostra que o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, responde a uma ação na Justiça em que é acusado de favorecer, quando prefeito de Belo Horizonte, a operadora de plano de saúde Unimed-BH com o perdão de uma dívida de R$ 178 milhões. O acordo foi firmado no fim de 2004, após a reeleição do petista.

A prefeitura de BH cobrava da Unimed R$ 222 milhões, referentes a lançamentos do Imposto Sobre Serviços (ISS) não pagos. Em 2004, o Conselho de Recursos Tributários do município, que analisava o processo, já havia decidido em última instância pela cobrança do débito. Mesmo assim, o então prefeito encaminhou projeto de lei à Câmara propondo o perdão da maior parte da dívida, aprovado no apagar das luzes do seu primeiro governo.

Os repórteres destacam que, graças à lei enviada por Pimentel, o plano de saúde ficou isento do pagamento da dívida, de juros e multas. E o município desistiu de ação de execução fiscal para cobrá-la, sem contrapartidas. Com isso, o débito caiu em 80%, para R$ 44 milhões. Mesmo assim, segundo o Ministério Público, o valor não foi pago no prazo acordado, e a prefeitura não tomou providências.

Proposta pelo Ministério Público de Minas, a ação de improbidade administrativa estava parada por conta de recursos, mas decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), no mês passado, liberou o caso para julgamento em Minas.

Há, ainda, tráfico de influência, porque, à época, o advogado da Unimed era Juvenil Alves, militante do PT que se candidataria nas eleições seguintes a uma vaga na Câmara. Ele foi eleito, mas cassado em 2009 por fraude eleitoral.

O advogado petista também responde na Justiça por envolvimento em esquema de blindagem patrimonial e lavagem de dinheiro, descoberto na Operação Castelhana, da Polícia Federal, que o prendeu em 2006.

Na ação, a Promotoria do Patrimônio Público pede que a transação autorizada pela lei seja anulada, além da condenação do ex-prefeito por improbidade. Desde 2006, o caso se arrasta na Justiça devido a sucessivos recursos dos advogados do ex-prefeito e da Unimed.

Falência do Judiciário

Carlos Chagas

Dividiu-se o Congresso, ontem, como raras vezes se tem visto. Muito acima de situação e oposição, deputados e senadores colocaram-se em campos opostos a partir da entrevista do ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, prevendo a prescrição da maioria dos crimes praticados pelos 38 mensaleiros em julgamento na mais alta corte nacional de justiça.

Acima e além dos partidos, de um lado ficaram aqueles que, indignados, lamentavam a possibilidade de escaparem da punição os réus de um dos maiores escândalos políticos dos últimos tempos. De outro, os amigos e correligionários dos integrantes da quadrilha que, mesmo discretamente, começou a comemorar o vaticínio do ministro.

Caiu como uma bomba a entrevista de Lewandowski, concedida à Folha de S. Paulo. Só não prescreverá com tanta facilidade o crime de lavagem de dinheiro, do qual apenas poucos mensaleiros estão acusados. Mas formação de quadrilha, corrupção ativa, corrupção passiva, peculato e evasão de divisas são práticas que, pela previsão de penas mínimas, até já prescreveram.

Trata-se da falência do Poder Judiciário. Desde 2007 tramitando no Supremo, os processos ainda não foram concluídos pelo relator, ministro Joaquim Barbosa. Quando completada sua tarefa, talvez ano que vem, voltará tudo à estaca zero, cabendo ao ministro-revisor, por coincidência o próprio Lewandowski, tomar conhecimento dos 130 volumes do processo, em mais de 600 páginas só de depoimentos variados.

O pior é que nada pode ser feito. Nossas estruturas jurídicas confessam sua impotência. Se o mensalão não será punido, tudo parece válido. A Justiça está morta, ao menos no que se refere a crimes cometidos pelos habitantes do andar de cima. Sairão ilesos, sequer condenados a devolver ou prestar contas do dinheiro fraudulento que distribuíram ou receberam. Muito menos responderão pela montagem de um dos mais sórdidos esquemas elaborados para garantir maioria parlamentar ao governo, no caso, do Lula. Exultantes estão muitos companheiros de José Dirceu, Waldemar da Costa Neto, Delúbio Soares, Marcos Valério, Duda Mendonça, Roberto Jefferson e outros. O mínimo a esperar é que outro mensalão venha a ser armado ano que vem.

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SANDÁLIAS EM VEZ DE SENTENÇAS

Enquanto isso, no Superior Tribunal de Justiça, severa vigilância é estabelecida para impedir a entrada de quem esteja calçando sandálias que não as do tipo autorizado pelo seu presidente. Da mesma forma, nem funcionários, nem advogados, nem visitantes poderão utilizar calças jeans no plenário e nas diversas câmaras, com especial atenção às mulheres.

Anos atrás, no Senado, quem derrubou essa ridícula exigência foi a senadora Heloísa Helena, que enfrentou presidentes como José Sarney e Antônio Carlos Magalhães, comparecendo às sessões com seu uniforme clássico, de calça jeans e bata branca. O diabo é que nos tribunais superiores as senhoras ministras tem que usar vastas togas pretas, até os pés. Tanto faz se por dentro estão de calças jeans ou sandálias havaianas, não podendo, assim, protestar como protestou a senadora por Alagoas.

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PREVALÊNCIA ABSURDA

Ficou para hoje a decisão, na Câmara dos Deputados, sobre se aceitamos ou não as imposições da Fifa para a realização da Copa do Mundo de Futebol de 2014. Tudo indica que serão aprovadas a extinção da meia-entrada para jovens, assim como liberada a venda de bebidas alcoólicas nos estádios. O significado dessa decisão é tétrico. Demonstra que a soberania nacional curva-se a uma entidade interessada apenas em faturar. Afinal, leis estaduais e federais estabeleceram as meias-entradas e a proibição de venda de bebidas alcoólicas nos estádios.

Mas tem mais e pior. Nas ruas e avenidas que demandam os estádios, os estabelecimentos comerciais estarão proibidos de expor e comercializar produtos que não os indicados pela Fifa. De bebidas a tênis, chinelos e camisetas. Cervejas, só de uma determinada marca, patrocinadora da entidade às custas de muitos milhões. Haverá censura à imprensa, devendo ser processados autores de charges porventura consideradas ofensivas à Fifa e seus interesses. Artigos,
comentários e reportagens, também.
Convenhamos, o Congresso e o governo poderiam reagir. Conseguirão?

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MENSAGENS DE NATAL

Encerrada a Segunda Guerra Mundial e já muito doente, o rei Jorge VI, da Inglaterra, foi aconselhado pelos médicos a não dirigir a seus súditos a tradicional mensagem de Natal. Seria um esforço desnecessário e alguém sugeriu que a princesa Elizabeth, sua primogênita, se encarregasse de ler o texto levado pelo rádio às diversas regiões do Império Britânico. Demonstrando que mesmo às portas da morte não perdera o bom humor, o rei insistiu em cumprir a rotina de muitos anos, completando: “Com toda certeza no próximo Natal ela apresentará a mensagem…”

O episódio se conta, guardadas as proporções e sem nenhuma referência à sua excelente saúde, a propósito da decisão do prefeito Gilberto Kassab de divulgar a tradicional saudação de fim de ano aos paulistanos. Pode ser que depois das eleições para a prefeitura de São Paulo, em 2012, ele não se sinta em condições de dirigir-se ao povo da cidade…

Fundo complementar embute redução salarial dos servidores

Pedro do Coutto

A síntese do projeto do governo que cria o fundo complementar da aposentadoria dos servidores públicos está no título e no projeto do governo. Que propõe ele? Um teto de aposentadoria de 3,7 mil reais por mês, igual ao limite do INSS. Acima disso, aqueles cujos salários forem maiores, e quiserem conservá-los quando se aposentar, terão que contribuir com mais 8,5%. Assim, no lugar dos atuais 11%, sem limite, vão pagar mais 8,5%. Mas como?

Os funcionários contribuíram a vida toda com 11% para terem aposentadoria integral. Agora, para assegurar o mesmo direito vão pagar 19,5%.Não se entende o projeto do Planalto, aliás da equipe econômica. Ele, o próprio governo, que não contribui com nada, vai passar a desembolsar 8,5%.

Excelente a matéria de Cristiane Jungblut sobre o assunto, O Globo de 14. O ex-ministro da Previdência, deputado Ricardo Berzoini, encarregado de consolidar o texto final, disse que, dentro do novo fundo, haverá, pelo que se compreende, um outro, este para bancar eventuais perdas. Que perdas?Os cálculos deveriam já ter eliminado esta hipótese. A menos que o fundo seja inspirado no modelo chileno, governo Pinochet, que estabelecia aplicação progressiva das contribuições no mercado financeiro. Deu certo no início, foi um fracasso na etapa final. As aplicações baixaram e, com elas, caíram as capitalizações dos trabalhadores e funcionários.

Ninguém faz milagre em matéria de dinheiro. Ou a produção cresce em termos competitivos, ou então nada feito. Veja-se no Brasil os exemplos dos planos Cruzado Um, Cruzado Dois, Plano de Verão, Collor 1, Collor 2. Ora se alguém pudesse, com a caneta, mudar uma realidade financeira, não haveria problema no mundo. E problemas são os que mais existem. A começar pelo Brasil, entre as dez maiores economias do planeta, ocupa o lugar de número 84 na relação do desenvolvimento humano e qualidade de vida.

O dinheiro tem seu lastro nos bens econômicos. Uma questão de lógica. Exatamente o contrário da mágica.O governo Dilma Rousseff vai ter sua despesa aumentada sensivelmente com a contribuição que atribui a si mesmo. Os servidores públicos vão ser diminuídos. Quem ganha, então? Parece que os bancos, que vão ter a seu cargo a administração do fundo de aposentadoria complementar.

Sim. Porque o dinheiro terá de ser aplicado, pelo menos em títulos do Tesouro que estão rendendo cerca de 0,8% ao mês. Caso contrário, as aplicações recolhidas serão – é claro – corroídas pelas taxas inflacionárias anuais. Repete-se nesse episódio o mesmo que sucedeu com a emenda 62 que permitiu a compra de precatórios. Com deságio, evidentemente. Nem poderia ser de outra maneira. Só que, neste caso, os compradores têm de antemão a certeza de que vão receber. A mesma certeza não têm os vendedores dos créditos. Pois se tivessem não os venderiam. Sem dúvida.

O processo continua. A desapropriação progressiva dos valores do trabalho humano é um fato. De um lado, os vencimentos perdem para a inflação, processo que o ex-presidente Lula corrigiu. E a presidente Dilma Rousseff também. Mas, de outro, aparecem idéias como essa do fundo complementar de aposentadoria, que, na verdade, é uma violação dos direitos deferidos. Uma vez que o contrato com os funcionários públicos é o de que pagassem 11% do que recebem para terem direito à aposentadoria integral. No meio da partida, surgem novas regras.

E quem ressarcirá as contribuições que realizaram através do tempo? Há um precedente: os funcionários do Banco Central foram ressarcidos quando passaram a ter direito à aposentadoria integral.

O patriarca da Bahia


Sebastião Nery

Vejam que magnífica, rocambolesca história. Uma perfeita minissérie de TV, como a JK da Maria Adelaide ou a Amazônia da Gloria Peres. Razão tinha o inglês Carlyle quando dizia que “a História do mundo é a biografia dos grandes homens”. Ou o sábio Fernando Pessoa: “O homem e a hora são um só, quando Deus faz e a História é feita”.

Um jovem português, Diogo Álvares, aventureiro ou prisioneiro, de uns 16, 17 anos, nascido em Viana do Castelo, Norte de Portugal, segundo outros na Galicia, que na época era meio Portugal meio Espanha, vinha em um barco pirata, português ou francês, mais provavelmente francês, que naufragou ali no Rio Vermelho, na praia da Mariquita, entre 1509 e 1510. Dez anos depois de Cabral. Caramuru foi o primeiro baiano. Não por acaso a Enciclopédia Britânica o chama de “Patriarca da Bahia”. E certamente, tirando os índios, o primeiro brasileiro.

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RAMALHO

O “temível” vendedor de índios escravizados, João Ramalho, casado com a índia Bartira, também português e também náufrago como Caramuru, apareceu na mesma época, um pouco depois, entre 1510 e 1512, lá por São Vicente, afinal fundada em 1532 por Martim Afonso de Sousa.

Depois João Ramalho criou a vila de Santo André em 1545 e ajudou o jesuíta Manoel da Nóbrega a fundar São Paulo em 25 de janeiro de 1554.

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CARAMURU

Já como bom baiano, Caramuru passou a conversa nos índios Tupinambás, que mataram e certamente comeram os 8 tripulantes, seus companheiros. Só ele sobrou. Por quê? Teria matado uma ave voando e logo foi chamado de Caramuru: “Homem do fogo, filho do trovão, branco molhado, dragão do mar”.

Mas Caramuru era também o nome indígena da lampréia, da moréia, um peixe esguio, comprido, da região. E Caramuru era muito alto e muito branco, e sobretudo muito magro, esquelético.

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PARAGUAÇU

A lenda poética fala da disputa olímpica das irmãs Moema e Paraguaçu, lançando-se ao mar para ver quem chegava primeiro perto dele.

O chefe Taparica, cacique do nosso João Ubaldo, lhe deu a filha Paraguaçu, que significava “o grande mar”, com quem se casou e, também como nas boas histórias, foram felizes para sempre.

Viveram muito. Tiveram tantos filhos que Gregório de Matos chamou Caramuru de “Adão de Massapê”. E como ninguém é de ferro, em 1528 Caramuru foi à França e lá batizou Paraguaçu como Catarina.

Caramuru morreu em Salvador em 1557, com mais de 70 anos, sepultado no colégio dos Jesuítas. Catarina viveu muito mais. Morreu também em Salvador, em 1583, com mais de 90. Mas Caramuru não fez apenas amor e filhos. Ajudou a fundar Salvador, a Bahia e o Brasil.

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BA, SP, RIO

De 1549, fundação de Salvador por Tomé de Sousa, que governou a colônia 4 anos, passando por Duarte da Costa, que também governou 4 anos (de 53 a 56), a Manuel da Nóbrega fundando São Paulo em 1554 e Estácio de Sá, com o tio Mem de Sá, fundando o Rio em 65, foram 15 anos.

Foi um dos mais tumultuados e ricos tempos da história do Brasil. E com uma surpreendente documentação, graças às cartas. Escrevia-se muito e faziam-se filhos. Por cartas, prestava-se conta de tudo, sobretudo das intrigas, ao rei e aos superiores em Portugal. A burocracia era escrevente. Isso permitiu que Portugal tenha uma obra monumental como a “História da Colonização Portuguesa no Brasil”, e milhares de cartas conservadas, arquivadas, publicadas, na Torre do Tombo, em Lisboa.

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LIVROS

Sobre a construção de Salvador, o governo de Tomé de Sousa, os jesuítas e a Igreja no Brasil, temos alguns livros brasileiros clássicos: – História da Fundação da Cidade do Salvador, de Teodoro Sampaio. – A Cidade do Salvador – 1549, de Edison Carneiro. – História da Fundação da Bahia, de Pedro Calmon. – História da Companhia de Jesus no Brasil, do Padre Serafim Leite. – A Primeira Capital do Brasil, de Alberto Silva.

E os dois livros de Eduardo Bueno, hoje indispensáveis: “Náufragos, Traficantes e Degredados” e “A Coroa, a Cruz e a Espada”.

Bueno leu tudo e todos, numa pesquisa fantástica, ampla, completa, e revolucionou o jeito jornalístico e acadêmico de contar a história do País.

 

Casas são assaltadas na Rocinha, apesar da ocupação policial

Paulo Peres

Não foi apenas a loja da Ricardo Eletro a ser assaltada na Rocinha na madrugada dessa terça-fera. Casas também foram. Aliás, casas e moradores vêm sendo assaltados sistematicamente desde que o traficante Nem e seus comparsas foram expulsos da favela no mês passado. O clima é de muito medo, segundo o relato de uma moradora, empregada doméstica na zona sul do Rio de Janeiro. Moradores fechados a sete chaves e apavorados dentro de suas casas.

Ocupações de favelas têm limitações e consequencias nocivas. A ideia de que, as ocupações policiais nas favelas do Rio de Janeiro dominadas pelo tráfico acabariam com a violência, é totalmente fantasiosa, capaz de produzir consequencias nocivas de mascarar a realidade da cidade, segundo Marcelo Burgos, professor e coordenador da área de Sociologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro.

“Um diagnóstico mais realista não significa desaprovação à UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), mas, sim, colocar essa política no plano em que ela realmente precisa estar. Tem que se deixar claro que a UPP é um avanço no domínio territorial, mas tem suas limitações”, explica.

De acordo com o professor, “as ocupações de favelas por forças de segurança pública, como a que ocorreu na Rocinha e nas 13 favelas que formam o Complexo do Alemão, na zona norte da cidade, no início do ano, fazem parte da estratégia do governo de dominar os territórios do tráfico. No entanto, esbarram na impossibilidade de se ter uma política universalizada de segurança e que produza efeitos a longo prazo”.

Na opinião de Marcelo Burgos, esse diagnóstico sobre a função das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) é importante para que não se ignore os demais fatores geradores de violência. “Por ter um caráter focado no território, elas desconsideram o aumento do conflito e da brutalidade em outros pontos da cidade, como a Zona Oeste, e da região metropolitana, como Baixada Fluminense. Além disso, a migração de traficantes é desconsiderada. O que vemos são ocupações em determinadas áreas e pessoas sendo atingidas por balas perdidas e morrendo, no mesmo dia, em outras comunidades”.

Burgos compara a UPP a uma imobilização para curar uma fratura, um “gesso” que terá que produzir transformações nas comunidades ocupadas em determinado tempo . “A UPP é como gesso. Durante um determinado tempo, esse policiamento ostensivo assegura um ambiente mais pacífico. Mas se esse processo de ocupação não ocorrer, significará a desmoralização das UPPs. É preciso ter consciência de seu caráter emergencial.”

Para Michel Misse, professor de Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretor do Núcleo de Estudos em Cidadania, Conflito e Violência Urbana (Necvu) da UFRJ, ” essas modificações precisam significar ganhos sociais para a população. Caso contrário, enfatiza, não haverá mudança no quadro de violência do Rio de Janeiro. Essas áreas precisam ser integradas à cidade como bairros. Para isso, é necessário abrir avenidas. Isso leva à necessidade de se fazer desapropriações e de se pagar indenizações corretas para os moradores que serão obrigados a sair de suas casas.”

Misse se mostrou cético em relação à disposição do governo em ampliar esses ganhos. “Pelo que o governo tem feito em relação às famílias desapropriadas nas aberturas de avenidas para obras de mobilidade urbana, com vistas à Copa do Mundo e às Olimpíadas, não tenho visto disposição em fazer isso. São desapropriações malfeitas que têm gerado conflitos. O governo não paga um valor justo para realocar essas famílias. Em algumas áreas isso tem gerado conflito.”

O professor da UFRJ também destaca a necessidade de políticas de formação para jovens moradores das favelas. “Além de entrar com policiais, é preciso ter políticas profissionalizantes para jovens, como as que já existem em determinadas comunidades, tocadas pelo governo ou mesmo por organizações não governamentais (ONGs)”.

Todavia, alguns especialistas advertem que algumas ONGs não merecem credibilidade, porque há denúncias que elas pactuam, inclusive, dos famosos acordos divulgados pelo Hélio Fernandes, entre o corrupto governador Sérgio cabral e os traficantes, razão pela qual, as ONGs deveriam ser melhor fiscalizadas por autoridades que não fossem subordinadas ao governador.

Vamos que vamos torcer pelo Santos. Mas o Barcelona é melhor time.

Vicente Limongi Netto

Muricy não vai dormir. Se encontrou dificuldades para vencer um voluntarioso time japonês, imagina com um forte Barcelona domingo. Dorval vai sofrer, nós mais ainda, com jogadas de Daniel Alves e Messi em cima dele e nas costas dele. Ganso precisa deixar de firulas exageradas no meio-de-campo.

Vencerá quem errar menos passes. O Santos rifa muito a bola, não tem zaga com categoria para sair jogando. Nem pelas laterais. Muito menos pelo meio. Errar passes na intermediária será fatal.

O Barcelona é rápido, aparece sempre com três ou quatro jogadores para ajudar, facilitar, prosseguir, uma jogada. Sabe puxar um contra-ataque com incrível competência. Repito o que escrevi-considerei-antevi há 4 dias. Mantenho tudo que disse.

Vou torcer, evidente. Mas o Santos não tem time firme, competente, lúcido, para vencer o Barcelona. Claro que uma jogada individual de Neymar, como costuma fazer com brilhatismo e como fez agora, marcando o primeiro gol do Santos. Vamos que vamos. Domingo cedo é que vale!

Oferecimento para ir depor no Congresso era conversa fiada. Pimentel continua blindado pela base aliada.

Carlos Newton

Em repetidas entrevistas, o ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) disse que não teria problema algum em depor no Congresso, assinalando considerar que isso até seria uma obrigação sua. Mas era só conversa fiada, e a tropa de choque do governo continua blindando o ministro, para evitar que ele seja convocado a explicar aos parlamentares as atividades de sua consultoria, a P-21.

A mais recente blindagem foi na Comissão de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle do Senado, que derrubou um convite para que Pimentel falasse sobre as suspeitas de tráfico de influência relacionado às atividades de sua empresa de consultoria. Por 8 votos a 5, a proposta foi rejeitada, sob a alegação surrealista de que as denúncias não envolvem questões de governo, como se uma coisa tivesse a ver com a outra. Na semana passada, os governistas já tinham derrubaram convite semelhante na Câmara para ouvir Pimentel.

Autor do novo requerimento, o líder do PSDB, Alvaro Dias (PR), disse que a base desrespeitava acordo de líderes para pedir esclarecimentos de ministros envolvidos em denúncias. Ele reclamou que o PT adota posturas diferentes, abandonando ministro aliados também suspeitos de irregularidades. “Os ministros do PT são blindados e os demais podem ser jogados ao mar. Eles que se expliquem, se justifiquem. Não há nenhuma razão para rompimento de acordo que existia sobre convite de ministros denunciados”, afirmou.

O líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), negou quebra de acordo. “Qualquer denúncia a respeito de questões públicas, os ministros serão convidados. No caso do Pimentel, já foi dito é uma questão privada. Ele não fazia parte de nenhum governo e qualquer esclarecimento deve ser dado à Receita Federal e à Comissão de Ética Pública da Presidência.”

Para o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), os esclarecimentos apresentados por Pimentel não são suficientes. “Não queremos colocar no ministro Pimentel pecha de corrupto. Queremos esclarecimento. Ele precisa esclarecer se as suas atividades de consultoria têm ou não a ver com suas atividades públicas.”

Integrante da base aliada, o senador Ivo Cassol (PP-RO) disse que apoiaria o convite porque outros ministros já foram chamados a explicar denúncias ao Senado. “Ministro que tem medo de vir ao Congresso não pode ser ministro. É preciso dar a mesma igualdade aos ministros.”

O senador Pedro Taques (PDT-MT) reforçou o discurso. “Estamos aqui para analisar fatos. Agora, precisamos entender que a Federação da Indústria (de Minas Gerais, cliente da consultoria P-21) não é privada, não é padaria, recebe contribuições, recebe dinheiro público. Temos atribuição de investigar e não interessa qual o partido político. Qual prejuízo de um ministro vir conversar com senadores? Os fatos são graves e precisam ser conhecidos.”