Considerações sobre soberania, entreguismo, religião e política no Brasil e no mundo

Paulo Solon

É o Brasil um pais soberano? Absolutamente! São os conservadores da direita radical e entreguista que gostariam que o contrário fosse verdade. Conservadores da direita sionista que se instalaram não só no Brasil, como também aqui nos EUA. No Brasil, fazem isto através das ONGs que proliferam, e por intermédio de templos burrificadores, fazedores de cabeça, os chamados templos evangélicos.

Ha mais de 10 anos me interesso por esses templos da traição nacional e do entreguismo. Frequento, pesquiso e analiso o substrato filosófico dos chamados pastores, a teocracia que eles praticam, absolutamente contrários a qualquer tipo de democracia. A exaltação, a satisfação e o orgasmo quando pronunciam o nome Israel.

Todos, invariavelmente, praticam a seguinte e estúpida mensagem: “O Deus de Israel fala através dos profetas. Seja repreendido todo espírito contrário, ou ideia contrária, presente aqui neste templo. Seja ele excluído da eterna gloria dos escolhidos, sendo atirado, ao contrário, no eterno fogo do inferno“.

Isto é puro e simples assédio. Assalto. Autêntico tormento por parte das igrejas supostamente propagadoras do evangelho, do cristianismo.
Mas não propagam nem praticam o cristianismo. Foram treinados a seguirem a ideia básica contida nos Protocolos dos Sábios do Sião, que preconiza o sionismo como movimento internacional, deixando claro que cristianismo é anátema. Algo que é desgostoso e altamente detestável. Algo que deve ser evitado.

Como os pastores, diferentemente dos padres católicos, não possuem cultura alguma (muitos só leram a Bíblia protestante), não possuem qualquer percepção sensorial mental, ou mesmo extrassensorial, vou citar um exemplo da mistificação sionista que ocorre agora, em decorrência da retirada das tropas estadounidenses do Iraque. Antes, no entanto, é bom lembrar que religião e política sempre estiveram coligadas, com interesses justapostos, ou antagônicos e conflitantes.

A administração Obama está enfrentando significante dilema sobre o que fazer com os detidos remanescentes aprisionados pelos militares dos U.S. no Iraque.

Como exemplo, temos o caso do prisioneiro Ali Musa Daqduc, um libanês suspeito de ser atuante do Hezbollah, que é acusado de ajudar a orquestrar um reide praticado pelos militantes xiitas em 2007, que resultou na morte de cinco soldados americanos.

Pesquisas mostram que o povo americano apoia, de 3 para 1, a retirada das tropas do Iraque. É claro que o Sr. Obama, como candidato em 2012, precisa faturar de olho nessas pesquisas, se é que deseja ser reeleito. Mas os sionistas instalados no Partido Republicano pressionam a atual administração democrata a trazer prisioneiros como o Sr. Daqduc para Guantánamo. Querem usar tal decisão como quebra de promessa do Sr. Obama, que disse que fecharia o citado calabouço em Cuba, prejudicando assim sua reeleição.

O dilema é este: seguir os ditames dos sionistas é entregar a vitória nas mãos dos Republicanos da direita radical; libertar, ou entregar prisioneiros iraquianos ao governo do Iraque poderá ser propaganda de vitória para o Irã e para os xiitas do Iraque, quando estão em jogo significantes interesses.

De qualquer modo, não resta dúvida de que a atual administração está ciente que o governo iraquiano, depois da retirada das tropas invasoras, irá libertar todos os prisioneiros. Esta certeza é que está gerando a calma aparente da resistência iraquiana, calma semelhante à que ocorre antes do furacão.

Temos no horizonte a vitória da religião islâmica xiita sobre a religião judaica sionista. Que tem isto a ver com soberania? Oficiais da administração americana disseram ao The New York Times (segunda-feira, 12/12/2011) que a solução de expatriar do Iraque os supracitados prisioneiros seria uma proeminente quebra da soberania do Iraque, destruindo a relação estratégica em um momento em que o objetivo principal é relegar a guerra e a ocupação ao passado, e estabelecer uma espécie de relação diplomática normal existente entre dois estados soberanos.

Diplomacia normal entre dois ESTADOS SOBERANOS? A conclusao é do leitor.

O agravamento da crise na Europa traz a indagação: o que será o amanhã?

Roberto Nascimento

Os países da zona do Euro passam pela maior crise desde a 2ª guerra mundial. A crise financeira americana eclodida em 2008 levou quase toda a Europa de roldão. O cenário atual não está favorável para os europeus.

O multilateralismo econômico e político restringiu a liderança dos americanos e o protagonismo das potências do velho continente. Emergiram no teatro global países em ascensão, a exemplo da China, da Rússia, da Índia e do Brasil.

França e Alemanha tentam a todo custo colocar ordem na casa do Euro, constituído de 17 países, os quais abriram mão de suas moedas nacionais e não sabem e não podem agora voltar atrás, sob pena de agravamento da situação financeira e perda do suporte financeiro do FMI.

Por outro lado, ao se submeterem às regras impostas pela Alemanha e pela França, os países endividados ficarão reféns de um ajuste fiscal sem precedentes, cujo remédio já provoca protestos da população na Grécia e em Portugal. O povo não entende que a saída para a crise seja o corte nas aposentadorias, nos salários, no desemprego e na perda de direitos sociais duramente conquistados.

Na Grécia, parte da dívida foi contraída na compra de caças Rafale e helicópteros franceses e seis submarinos alemães ao custo de 10 bilhões de euros. Tudo porque a Grécia necessita de armamentos para a segurança da nação, em virtude do permanente conflito territorial com a vizinha Turquia.

A Alemanha, país mais sólido da comunidade européia, exporta 60% de seus produtos para a Europa, portanto interessa aos alemães a recuperação econômica de seus vizinhos. Nação derrotada na 2ª guerra mundial pelas tropas aliadas e dividida em duas, Bonn sob controle americano e Berlim sob controle soviético, hoje a poderosa Alemanha desponta como o maior líder europeu e economia mais forte da zona do Euro.

A França se tornou coadjuvante do ator principal (Alemanha) na busca de soluções para a crise financeira do bloco. Provavelmente em 2012 a França será rebaixada pelas agências de classificação de risco de seu triplo AAA em conseqüência do efeito dominó da crise que arrasta o mundo globalizado tal e qual um trem desgovernado.

A lição da crise emerge no exemplo da Alemanha, pais que investiu pesado na Educação e na Tecnologia de alta qualidade, cujo resultado foi a produção e exportação de produtos de alto valor agregado nas áreas de máquinas e equipamentos, farmacêutica, nuclear e robótica, além de uma disciplina fiscal e controle dos gastos públicos permanente.

O mundo está em permanente mudança e agora numa velocidade impressionante. E os efeitos da crise começam a aparecer na Rússia e no Brasil, que teve crescimento zero no último trimestre. O que será o amanhã?

Papai Noel chega primeiro na Câmara, que vota hoje o megaaumento dos seus funcionários

Carlos Newton

Os podres poderes brasileiros vivem num mundo à parte, completamente dissociado do Brasil real. Na Câmara, por exempo, a Comissão do Trabalho, Administração e Serviço Público deve votar hoje o projeto de lei que altera o plano de carreira dos servidores da Casa. A proposta permite um generoso incremento nos vencimentos dos funcionários lotados nos gabinetes e nas estruturas administrativas.

Provocará um impacto no orçamento da Câmara de R$ 277 milhões por ano, e não fica só nisso. O aumento salarial é só uma parte de um chamado “pacote de bondade” que a direção da Câmara prepara em benefício dos funcionários, porque os deputados estão com a consciência pesada e isso seria uma forma de compensar os servidores, que, no final do ano passado, não desfrutaram de correção semelhante que os parlamentares concederam aos próprios subsídios. À época, como se sabe, os congressistas acresceram 60% seus vencimentos, equiparando-os aos dos ministros do Supremo Tribunal Federal.

A proposta de aumento prevê a correção dos vencimentos dos funcionários em até 40%, a depender do cargo ou função desempenhada. A intenção da Mesa Diretora é chancelar o projeto na última semana dos trabalhos legislativos, nos dias 20 ou 21 de dezembro. Se mantido pela comissão, ele seguirá ao plenário, onde precisa de 171 votos.

Relator da matéria, o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho da Força, afirma que o aumento é necessário para tornar “mais atrativo o ingresso e a permanência no cargo”. Por esse motivo, de acordo com ele, as recomposições atingem com maior peso os estágios iniciais da carreira.

“Às vezes, candidatos aprovados em concursos públicos desistem de tomar posse no cargo efetivo”, justifica, com a maior cara de pau, como se isso fosse verdade.

O ponto mais polêmico do substitutivo de Paulinho eleva o teto que a legislação prevê para a tabela de vencimentos do cargo de secretário parlamentar, que é um servidor de livre-nomeação que atua nos gabinetes.

“Com isso, nós permitiremos que os parlamentares, na medida de suas necessidades, nomeiem para a sua assessoria servidores mais qualificados, que precisam de uma remuneração mais atrativa”, alega o pedetista.

Para o relator, o incremento nos benefícios se deve ao fato de eles estarem há cinco anos sem qualquer revisão. “Nesse período, o salário mínimo passou por sucessivos aumentos. Os funcionários da Casa precisam dessa equiparação”.

É uma festa natalina. Além disso, os deputados federais ainda estudam a possibilidade de aumentar, em breve, a verba mensal de seus gabinetes de R$ 60 mil para R$ 90 mil mensais. Mas esse valor ainda não está fechado.

E la nave va, fellinianamente.

Emendas individuais fazem parte do jogo

Carlos Chagas

O Congresso tem dado inúmeros motivos para ser criticado, mas, de quando em quando, vê-se injustamente atingido. Tome-se a questão das emendas individuais ao orçamento. Virou moda apontar como sinecura a iniciativa de deputados e senadores de levar recursos para suas bases, geralmente para obras em municípios de sua influência política. Parte da imprensa exagera ao misturar com a corrupção o aumento dos empenhos de verbas, quer dizer, a concordância do governo em assegurar dinheiro para determinadas emendas individuais não significa enriquecimento ilícito dos autores.

Ainda agora apresenta-se o pulo de 40 milhões liberados em setembro para 653 milhões em novembro. Dá-se a impressão de que essas quantias vão para o bolso dos que apresentaram as emendas quando, na realidade, na maior parte das vezes, servirão para as prefeituras asfaltarem estradas, construírem pontes, implantarem escolas e postos de saúde e dedicarem-se a uma infinidade de melhorias em seus municípios. Sempre haverá o risco de malfeitos, ou seja, da destinação de recursos para ONGs fajutas ou para empreiteiros safados, sem esquecer a sociedade de maus parlamentares com prefeitos corruptos. Mas trata-se de exceção, quando comparada com o grosso da destinação das emendas individuais.

Argumenta-se que os autores se beneficiarão politicamente das obras, em especial em anos eleitorais, mas esse jogo faz parte da política. O povo vota em quem apresenta realizações. Da mesma forma, lembra-se que a maioria dos senadores e deputados que apóiam o governo federal barganham seus votos favoráveis a projetos oficiais pela liberação de verbas. Essa prática cheira a chantagem, mas eles costumam ceder sempre que o palácio do Planalto engrossa e exige a votação de propostas importantes, mesmo sem confirmar o dinheiro liberado.

Em suma, é preciso separar a ação política, de um lado, e a corrupção, de outro. Elas não andam necessariamente de braços dados. As emendas individuais ao orçamento jamais exprimiram assalto aos cofres públicos ou desvio dos recursos aprovados para as contas bancárias de seus autores. Apesar de lamentáveis exceções…

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XEQUE-MATE

As declarações do prefeito Gilberto Kassab não deixam dúvidas: seu novo partido apoiará integralmente a candidatura de José Serra à prefeitura de São Paulo, se ela for lançada. O PSD deixaria de apresentar candidato próprio.
Mais claro não poderia ser o alcaide paulistano ao oferecer estruturas políticas razoáveis, valendo não esquecer que o PSD dispõe de 45 deputados federais.

De lance em lance, Serra vai sendo levado ao xeque-mate, ou seja, a acabar aceitando sua candidatura, apesar da indiferença do Alto Tucanato, contrabalançada pelo entusiasmo do senador Aécio Neves, ávido de dispor de ampla avenida de mão única para a sucessão presidencial de 2014.

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SEM CORTES NEM REDUÇÕES

Deixa poucas dúvidas a definição da presidente Dilma Rousseff de manter o ministério das Mulheres, desmentindo sua extinção ou fusão, na reforma prevista para janeiro ou fevereiro. Tudo indica que nenhuma outra secretaria será extinta. Nem ministérios. Quem vai sair serão ministros, ainda que se ignore o número. Pelo jeito, mais da metade da equipe será confirmada.

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MARINHA SUFOCADA

Ontem foi Dia do Marinheiro, com almirantes perfilados, engolindo sapos em posição de sentido, assim como generais e brigadeiros. A totalidade deles sequer era aspirante ou segundo tenente, em 1964. Não tiveram responsabilidade nos desmandos e exageros de maus chefes, quando da instalação regime militar. É claro que mantém o sentimento corporativo, mas desde a Nova República que praticam conduta exemplar. Não se envolvem em política e cumprem à risca os preceitos constitucionais. O diabo é que comandam forças cada vez mais carentes de equipamento, sem que os últimos governos tenham dedicado a devida atenção às suas necessidades.

No caso da Marinha, só três submarinos são operacionais, movidos a diesel, já que o projeto do submarino nuclear desenvolve-se a passo de tartaruga. O porta-aviões “São Paulo” faz jus ao apelido do anterior, o “Minas Gerais”: é o Belo Antônio, que há anos não deixa o porto. Indaga-se como serão protegidas as plataformas cada vez mais numerosas de extração de petróleo em alto mar.

O Brasil desprivatizado

Sebastião Nery

Como Dom João VI, também Dom João III tinha cara de bobo mas não era nada bobo. A iniciativa privada das capitanias hereditárias fora um fracasso total. O Estado tinha que assumir. Resolveu criar um governo geral no Brasil, com sede na Bahia. Mandou uma carta a Caramuru para ele ajudar o primeiro governador, Tomé de Sousa:

“Eu, el Rei, envio muito a saudar… Eu ora mando Tomé de Sousa a essa Bahia de Todos os Santos, por capitão e governador… Vos mando que quando o dito Tomé de Sousa lá chegar, vos vades para ele e o ajudeis”.

Caramuru vivia no Outeiro Grande, uma colina acima da antiga Vila do Pereira, hoje bairro da Graça, com sua Paraguaçu. E fez o mandado.

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TOMÉ DE SOUSA

Tomé de Sousa, militar de carreira, que servira no Marrocos e na Índia, era filho de um abade e se revelou o único realmente sério, correto, dos três primeiros governadores-gerais. Duarte da Costa, o segundo, com seu filho Álvaro da Costa foram um desastre. Desastrados e corruptos.

Mem de Sá, o terceiro, roubou tanto que se tornou “o homem mais rico do Brasil no século 16, e o mais acusado de corrupção”. Tomé de Sousa chegou a Salvador em 29 de março de 1549. Encontraram “um quase segundo paraíso, em perpétua primavera”, “águas de um azul translúcido, repletas de ilhas verdejantes, pontilhadas por um colar de praias”.

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A COMITIVA

A frota era de seis embarcações e mais dois navios mercantes. Mais de 500 homens (fala-se até em mil): a maioria mercenários, voluntários ou desocupados. Além do material para a construção da cidade e bugigangas para enganar os índios, comida, água, e vinho em 600 tonéis de madeira.

Não havia só burocratas e soldados. Também artesãos, marujos, “desorelhados” e “ferrados” (gente punida de crimes anteriores), um médico, um relojoeiro, um boticário, um barbeiro e 51 “trabalhadores”. Uma falta total de mulheres, que ficaram em Portugal, inclusive a de Tomé de Sousa, Catarina da Costa, por quem ele “se consumia de saudade”.

E três padres jesuítas: Manoel da Nóbrega, o líder, depois provincial, Leonardo Nunes, cristão-novo (judeu convertido), e Azpicuelta Navarro.
Nóbrega rezou uma missa “numa maneira de igreja”. Era a “pequena capela de pau-a-pique, com cobertura de palmeira, que Paraguaçu, mulher de Caramuru, mandara erguer, na colina, onde hoje fica a Igreja da Graça”.

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A CIDADE

A primeira grande e correta decisão de Tomé de Sousa foi construir a cidade no alto da colina, com o centro onde hoje é a Praça Municipal, cercada por uma muralha com duas portas: uma no atual Pelourinho e outra na hoje Praça Castro Alves. Dentro, ficaram o palácio do governador, a Câmara Municipal (o primeiro Poder Legislativo do País), a cadeia, a Santa Casa de Misericórdia, a igreja dos jesuítas e o Pelourinho.

Lá embaixo da colina, na Cidade Baixa, a Igreja da Conceição da Praia, a alfândega e um armazém, o mercado popular, ligado à Cidade Alta por um elevador de carga, o Guindaste dos Padres.

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OS JESUÍTAS

Não se pode falar em Salvador, Bahia e Brasil sem a Companhia de Jesus, os guerrilheiros de Cristo. Uma coincidência histórica: um fidalgo espanhol, basco, nascido em 1491, um ano depois de Colombo na América, em um cerco francês a Pamplona, levou uma bala de obus nas partes baixas.
A parte inferior da perna direita foi estraçalhada. A barriga da perna esquerda, dilacerada. E ficou impotente. Inigo Lopes de Oñaz decidiu tornar-se um “mendigo de Deus”.

“Manco e de magreza espantosa, cabelos e unhas longos, partiu para Jerusalém em peregrinação”. Na volta, em 1529, foi estudar Teologia em Paris. Trocou o nome para Inácio de Loyola, reuniu seis colegas do curso e fundaram a Companhia de Jesus, a serviço do papa, que Alexandre Herculano chamou de uma “milícia papal”.

Mudaram a Igreja e ajudaram a fundar a Bahia e o Brasil. Ortodoxos, radicais, vetavam o grego por ser “aristotélico” e o hebraico por ser “judaico”. Denunciavam os intelectuais humanistas à Inquisição, ao Santo Ofício. Na hora da partida de Tomé de Sousa, a saída da frota atrasou esperando um andarilho experiente, que tinha sido convocado e vinha a pé de Beira, a 150 quilômetros de Lisboa. Era o jesuíta Manoel da Nóbrega.

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NÓBREGA

Estudante em Salamanca, Nóbrega foi para Coimbra, formou-se em Direito Canônico e Filosofia, aos 23 anos. Queria ser professor, não conseguiu. Era gago, “tardo na fala”. Foi ser padre. Entrou aos 27 anos na Companhia de Jesus, dirigida em Portugal por um dos seis fundadores.

Era tão radical que, no carnaval de Coimbra, em 1547, para amaldiçoar a turma, “desfilou com um crucifixo, uma caveira e vários ossos”. Imaginem hoje desfilando de caveira e ossos na mão, no Farol, diante dos camarotes de Gilberto Gil, Ivete Sangalo e Daniela Mercury.

Na Bahia, ele e os companheiros “percorriam as ruas em ruidosas ladainhas noturnas, submetendo-se a açoites e conclamando o povo a imitá-los”. Foi bem o símbolo de “uma colônia sem livros e universidades, sem imprensa e sem debates”, durante 300 anos, até dom João VI chegar e abrir.

Como vimos antes, Bahia e Brasil nasceram de três naufragios: o de Caramuru, primeiro baiano, o de Pereira Coutinho, primeiro donatário, e o de Pero Sardinha, primeiro bispo. Desde o começo, tocados pelos ventos da História. Às vezes tragados pelas ondas, mas sempre subindo as colinas.

Gravação mostra que o PM João Dias Ferreira foi pressionado por um major a não denunciar o governador Agnelo Queiroz por corrupção.

Carlos Newton

Impressionante a denúncia dos repórteres Filipe Coutinho e Lúcio Vaz, da Folha de S. Paulo, mostrando que o policial militar João Dias Ferreira, preso na semana passada pela corregedoria da corporação, foi pressionado por um major e desistiu de acusar o governador Agnelo Queiroz (PT), investigado por irregularidades quando era ministro do Esporte.

João Dias Ferreira é dono de duas ONGs acusadas de desviar dinheiro do Esporte. O policial foi preso e solto na semana passada na sede do governo do Distrito Federal, após jogar R$ 159 mil na mesa de funcionários e agredir duas pessoas – entre elas, um policial.

A reportagem assinala que, após ser preso pela corregedoria da PM, Ferreira foi pressionado por um colega de corporação a não falar sobre a origem do dinheiro, que seria um “cala-boca” de integrantes do governo para que ele não delatasse o hoje governador Agnelo Queiroz. A Polícia Militar já investiga o caso, que ocorreu por volta das 7h de quinta-feira – João Dias Ferreira foi preso por volta das 16h de quarta.

A Folha teve acesso a um diálogo de 25 minutos entre João Dias e integrantes da corregedoria da PM. A conversa se deu após o advogado do PM, André Cardoso, deixá-lo sozinho – ele acompanhou o policial por 14 horas naquele dia.
Há dúvidas sobre o autor das ameaças. Segundo o corregedor da PM, coronel Jahir Lobo, a conversa teria sido com o major Márcio Barbosa, enquanto os advogados de João Dias dizem que foi com o major Elisnei Dias. Mas o corregedor garante que o major Elisnei não estava presente durante a conversa.

No diálogo, o major tentou frear Ferreira quando ele começou a falar de irregularidades cometidas por pessoas ligados ao governador. O major disse que o delator seria “réu confesso” caso falasse de Agnelo Queiroz.

“Você está ingressando no campo da política onde os administradores não são eternos. […] Dá um tempo, pensa o que você vai fazer, para decidir se é réu confesso e cometeu corrupção passiva. […] Isso aqui não vai para a imprensa, o sistema aqui é diferente. Você está trazendo um esquema de corrupção, que é principalmente sua”, disse.

Na conversa, o major deixou a entender que Ferreira poderia ter tratamento diferenciado. “Nossa corporação, lamentavelmente, tem dois tratamentos. Não sei se você está entendendo, uma turma é tratada de uma forma e outra tratada de outra forma.”

O major disse ainda que Ferreira deveria se concentrar apenas no caso de lesão corporal. “O ideal, do ponto de vista jurídico, é lesão corporal leve. No Código Militar, de repente, você não fica nem hoje lá dentro”, disse o major. “Estou te dando subsídios para seu advogado te tirar”, completou.

A conversa foi interrompida uma vez, quando o major atendeu o telefone. “Estou tentando, estou tentando”, disse.
O advogado André Cardoso afirmou que a gravação “confirma que houve uma tentativa de abafar, por parte da autoridade constituída”. “Isso não é correto. Não posso dizer se foi algo político ou corporativo. Meu cliente está sendo pressionado”, disse o advogado.

Na mesma manhã, segundo o corregedor, o major Márcio Barbosa afirmou que Ferreira desistiu de delatar Agnelo Queiroz e de apresentar mais detalhes do caso que havia contado horas antes, quando foi prestado depoimento sobre lesão corporal.

“Ele não deveria ter instigado João a não falar. Já foi aberto inquérito policial militar para ouvir o major e chamaremos João Dias para prestar o depoimento que havia prometido, agora na presença do Ministério Público Militar”, disse o corregedor.

Procurada pela Folha, a assessoria do governador do Distrito Federal disse que ele não iria se pronunciar, alegando que o caso está a cargo da corregedoria da PM, que está tomando providências.

A intolerável fraqueza das nossas Forças Armadas diante da cobiça das riquezas brasileiras

Welinton Naveira e Silva

Num planeta de gente perigosa e armada com poder nuclear, possuir e ostentar siderais e diversificadas fortunas como a cobiçada Amazônia e suas fabulosas riquezas naturais, as mais diversas, dentre elas, minérios, estratégicos, biodiversidades, gigantescas reservas de água doce, petróleo, gás e outras infinitas potencialidades já catalogadas e ainda por catalogar, mas sem possuir os meios eficientes de defesa, é coisa intolerável e de gente suicida.

Como se toda essa fortuna já não fosse suficiente para despertar a cobiça e a ganância de poderosos bandidos, temos agora as gigantescas jazida de petróleo do Pré-Sal. É preocupante a nossa capacidade para dissuadir o inimigo, principalmente, o maior bandoleiro do planeta. Que o digam os desgraçados e humilhados povos do Iraque da Líbia.

Com tamanhas fortunas que temos, e ainda aos estratégicos interesses tecnológicos e comerciais da economia mundial de hoje, em plena decadência do capitalismo, faz-se necessário não ser imprevidente e burro. O preço a pagar será alto demais.

Dentre importantes providências no fortalecimento de nossa capacidade de dissuasão, encontra-se a conclusão do nosso submarino nuclear, iniciado ainda no governo militar. Nunca nos faltou competência tecnológica. Já demos incontáveis provas disso. Continua faltando é coragem, patriotismo e visão estratégica maior. Com a debilidade militar que temos, não se pode seguir acreditando que nada de ruim poderá nos acontecer.

Nem é possível continuar cumprindo o acordo de não proliferação nuclear assinado por FHC/PSDB, ato de traição aos maiores interesses e soberania do Brasil. Precisamos agir logo, enquanto há tempo, para que tenhamos condições de evitar semelhantes desgraças e humilhações que abateram sobre duas nações ricas em petróleo, mas desarmadas.

Só precisamos fazer a coisa certa, de modo inteligente e rápido, numa visão maior, de aspectos estratégicos militares e comerciais, do Brasil e da América Latina, com a maior honestidade exigida para com o dinheiro público. Mas quem se dispõe a fazer a coisa certa?

Conversa com o comentarista Aloísio Pinheiro sobre as criminosas privatizações

Pergunta de Aloísio Pinheiro

Carlos Newton, uma vez que visito vários blogs e procuro analisar os assuntos sob o ponto de vista de todas as tendências ideológicas, pergunto: Qual a sua opinião, assim como as dos demais articulistas e comentaristas desta Tribuna, sobre o tão falado livro do Amaury sobre as privatizações do governo FHC?

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Resposta de Carlos Newton

Aloisio, as privatizações do governo FHC foram prato do dia da Tribuna durante anos, com o mestre Helio Fernandes à frente..

Mas reconheçamos que na época o maior problema brasileiro eram as telecomunicações. As estatais fracassaram nessa área. Era uma vergonha. A concorrência hoje existente no setor é salutar, embora o governo tenha permitido exageros, como manter a assinatura mensal do telefone fixo e as tarifas extorsivas do celular, que punem sobretudo os mais pobres, que têm pré-pago.

Os membros da Comissão de Desestatização, FHC e seus ministros deviam ir todos para a cadeia. A criação das Agências Reguladoras também foi uma balela. São cabides de empregos que nada resolvem, apenas defendem as empresas do respectivo setor, ao invés de defenderem o interesse público.

Já privatizaram as estradas e pontes. Agora, vão privatizar absurdamente os aeroportos. Só falta privatizar as Forças Armadas, mas eles vão chegar lá…

Quanto ao livro do Amaury, ainda não li. Acredito que seja uma compilação de tudo que já foi publicado contra as privatizações, o que daria mil livros. Se houvesse alguma grande novidade, os jornais já teriam registrado. O que ele está dizendo, já se sabia, inclusive sobre Serra, Dantas, Veronica etc. Mas o livro não deixa de ser muito importante. Mostra a decadência da política brasileira, que está num baixo nível desanimador. Não existe um só líder. Tenho esperanças nos deputados federais Reguffe e Carlos Sampaio, parecem dois políticos decentes e preparados, mas não têm visibilidade, a imprensa os despreza.

Repensando o Brasil e a administração pública, para acabar com a superposição de responsabilidades

Mário Assis

Pela sua extensão territorial, distribuição da população, diversidade cultural e outras peculiares características regionais, urge repensar a divisão politica e as atribuições e responsabilidades dos entes federativos brasileiros – União, estados e municípios.

O atual modelo é gerador de desperdícios, propicia a manipulação dos recursos de forma centralizada na União, transforma os deputados federais em “vereadores” federais na incessante busca por recursos orçamentários federais, via as temíveis emendas ao orçamento, que, por sua vez, permitem uma série de desvios, superfaturamentos e corrupção.

Assim, as grandes questões nacionais são tratadas na Câmara dos Deputados por um seleto e pequeno grupo de parlamentares que realmente têm condições de estabelecer um debate sério e competente. Os demais, a grande maioria, que estimo em 80% da Casa, o chamado baixo clero, está lá para os seus “negócios”.

Por outro lado, administrativamente, há um outro caos. Pela estrutura organizacional inchada, a total falta de condições do Governo praticar o princípio da coordenação das ações, projetos e execução orçamentária, gera superposições de atribuições, atomização das ações administrativas, falhas nos controles e, resultando, nessa ebulição política com escândalos pipocando em toda a estrutura administrativa.

Esse mesmo processo é replicado, em graus variados, nos Estados e Municípios. Hoje a maior superposição observada ocorre nas áreas de educação, saúde e segurança pública. Temos hospitais federais, estaduais e municipais concorrendo entre si, desperdiçando recursos de toda a oredem e não prestando um atendimento no mínimo razoável á população. O mesmo ocorre na educação.

Na área da segurança, ainda é mais complicado. Temos a Polícia Federal, nos Estados as polícias militar e civil e nos municípios guardas municipais armadas e desarmadas. Só um exemplo: no Chile há apenas uma polícia em todo o país, os Carabineros. E funciona.

Então, a questão é desafiadora e exige coragem. Proponho o fim do ente federativo Estado, que é um parasita que tem como hospedeiro a sociedade. Todas as suas atribuições e responsabilidades – que replicam as federais e municipais – poderiam ser organizacionalmente executadas pelos entes federal e municipais.

É óbvio que isso exigirá uma reestruturação regional, reforma tributária para descentralizar recursos e, principalmente, uma melhora qualitativa dos gestores municipais. Enfim, uma efetiva e real reforma administrativa. Uma revolução na estrutura organizacional, na gestão e na divisão política do país. Um novo e contemporâneo modelo de gestão pública, com responsabilidade e fim da impunidade pelos atos desidiosas, incompetentes ou corruptos.

Essa conversa é longa. Essas são, apenas, considerações introdutórias do tema.

Helio Fernandes relembra o AI-5, que passou à História apenas como sigla. Foi tão selvagem, cruel e ditatorial, que não precisava mais nada.

O comentarista Jose Guilherme Schossland oportunamente nos envia essa pérola, um artigo de Helio Fernandes publicado no ano passado sobre o aniversário do AI-5, que completa hoje 43 anos.

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Helio Fernandes

Esse 13 de dezembro é inesquecível. Não apenas para os atingidos, cassados, presos e desaparecidos, mas também para todo o país. Não começou nesse dia 13, vinha de antes, muito antes, na vontade de alguns, e na execução de alguns outros. E a palavra execução define e desarvora tudo.

Acho, não tenho certeza, que é a primeira vez que escrevo sobre esse “documento único” na História do Brasil, Monarquia ou República. Vou me prender, que palavra, apenas a fatos, nenhuma divagação, análise anterior, suposição ou seja o que for. Aqui, o que aconteceu a partir da divulgação desse Ato Institucional número 5, que como todos sabemos, se transformou histórica e ditatorialmente apenas numa sigla.

Retrocesso no tempo, apenas de uma semana, com duas participações de Djalma Marinho, extraordinária figura. No dia 5 de dezembro de 1968, eleição para presidente da Câmara, Djalma contra Nelson Marchesan, do Rio Grande do Sul, apoiado pela ditadura.

Eu era tão amigo de Djalma que não pude deixar de ir a Brasília. Assisti pessoalmente o massacre do deputado do Rio Grande do Norte. Ele era presidente da Comissão de Constituição e Justiça, que uma semana depois julgaria a licença para processar o jornalista-deputado do MDB, Marcio Moreira Alves.

Trocaram todos os oposicionistas da Comissão, ofereceram a Djalma Marinho não só a vitória para presidente da Câmara, mas o que ele quisesse. Os homens como Djalma jamais querem alguma coisa, resistência é o único objetivo, a recompensa. A obrigação do dever cumprido, sem lamento, ressentimento, aborrecimento, mas também sem dar a impressão de heroísmo.

No dia seguinte vim para o Rio. Tudo o que atingiria a muitos (cassação, prisão, censura, mais perseguição) já acontecera ao repórter há muito tempo. Também não podia fazer nada, a censura era brutal e de corpo presente, existiam quase tantos censores (policiais) quanto repórteres, um clima apavorante.

No dia 12 foi votada a licença para processar o jornalista, apenas um pretexto para ENDURECER o mais possível. Posso dizer com total segurança, não se esperava a derrota do governo ditatorial, a mobilização foi espantosa. Até o senador Daniel Krieger, um homem de sensibilidade, teve que trabalhar pela CASSAÇÃO do deputado. Embora senador e a votação fosse na Câmara, foi requisitadíssimo, principalmente pelo carrasco-mor, o Ministro da Justiça, Gama e Silva.

Queriam terminar tudo no dia 12 mesmo, Costa e Silva estava no Rio, no Laranjeiras, deu ordens ao Chefe da Casa Militar, Jayme Portela, D-U-R-Í-S-S-I-M-O: “Não quero ver ninguém, nem atender telefone”. (Ainda não havia celular, claro).

Costa e Silva ficou no segundo andar, com dois amigos civis, sem cargos no governo. Viu filmes (bangue-bangue, que adorava) até por volta de 3 da manhã. Não dormiu, lógico, quem dormiria com quase todos os oficiais das três Armas contra ele?

Só atendia o general Portela, que lhe dizia invariavelmente: “Gama e Silva precisa falar com o senhor, com urgência”. O presidente desligava, ou dizia: “Amanhã, amanhã resolveremos”. O Ministério da Justiça, ponta de lança dos militares mais ansiosos ou exaltados, não parava de agir, se considerava o mentor de tudo.

No dia seguinte, 13 de dezembro, Costa e Silva determinou ao Chefe da Casa Militar, que convocasse reunião ministerial no próprio Laranjeiras, às 13 horas. Discutiram pouco, não houve debate, todos estavam A FAVOR, mesmo alguns que no passado combateram ditaduras ostensivas ou não.

Costa e Silva, surpreendentemente ou para se vingar, já que sabia que estava praticamente deposto pelo Alto Comando, dizia o nome do Ministro e perguntava: “Como vota o senhor Ministro?”. Só o coronel Passarinho, narcisista e exibicionista, fingiu que pensava, demorou um pouco, e explodiu: “Presidente, VOTO A FAVOR do Ato Institucional, ÀS FAVAS COMO OS ESCRÚPULOS”.

O documento já estava redigido, Costa e Silva assinou tudo, o que fazer? Às 20,30, em cadeia da Agência Nacional, o AI-5 foi lido pelo locutor Alberto Cury, irmão de Jorge Cury e do cantor Ivon Cury. Era o fim de um período, a imposição de um regime que sacrificou a todos, incluindo o próprio presidente. Que não sobreviveu, morreria menos de um ano depois, já fora considerado INCAPACITADO.

Eu estava em casa, naquela época existiam jornais MATUTINOS e VESPERTINOS. Os matutinos saíam entre meia-noite e 1 da madrugada, os vespertinos (Tribuna, Globo, Correio da Noite) começavam a circular ao meio-dia. Trabalhávamos até as 6 da tarde, voltávamos às 6 da manhã, fechávamos, rodávamos e circulávamos, por volta de meio dia.

Ouvi a leitura do documento, comecei a me vestir. Rosinha me perguntou: “Você acabou de chegar, vai sair?”. Abraçando-a carinhosamente (o que até hoje é redundância ou pleonasmo), respondi: “Serei preso imediatamente, prefiro ser preso no jornal. Além do mais, tenho que tomar várias providências.

Já ia saindo, o telefone tocou, Rosinha atendeu, disse: “Helio, é o Carlos Lacerda”. Peguei o telefone, disse: “Você talvez seja a única pessoa que eu atenderia, estou indo para o jornal, no Rio devo ser o primeiro a ser preso, a Tribuna fica a 100 metros da Polícia Central”. O ex-governador, simplesmente: “E eu?”.

Respondi sem qualquer dúvida: “Carlos, você será preso e cassado”. Aí, do outro lado, um rugido e a resposta: “Não vou ser preso nem cassado, você está acostumado a adivinhar e acertar, mas essa você vai errar completamente”. Desliguei, o que fazer?

Cheguei ao jornal por volta das 10 horas da noite. Às 11 horas e quase 45 minutos, fui preso. Levado para a Polícia Central, quando entrava naquele edifício tétrico e assustador, o relógio macabro marcava exatamente meia noite, os dois ponteiros se divertiam. O repórter não demonstrava, mas como em outras oportunidades, assustadíssimo e com medo, mas não deixando ninguém perceber.

Me levaram para o Regimento Caetano de Farias, fiquei satisfeitíssimo: eu não fora o primeiro a ser preso, entrei num matagal sujíssimo (mas enorme, o que era ótimo), de lá do fundo surgiu a figura de Osvaldo Peralva. Grande jornalista, Redator-Chefe (como se chamava na época) do “Correio da Manhã”, intimíssimo amigo, ficamos conversando, não havia onde dormir. Até a manhã do dia seguinte, já 14, não apareceu mais ninguém.

Às 8 horas da manhã, quem chegava, evidentemente preso? Carlos Lacerda. Me abraçou como se não tivéssemos falado na véspera, garantiu: “Está bem, Helio, você acertou pela metade, estou preso mas NÃO SEREI CASSADO.

Respondi sem hostilidade, mas sem mascarar a realidade: “Está certo, trouxeram você para cá, apenas por diversão”.

Fomos todos levados para uma estrebaria (o quartel era um centro hípico), dormíamos no chão, não era o mais importante. Chegaram dois advogados que não conhecíamos. Às duas da tarde, uma festa: a entrada de Mario Lago, que foi preso no Teatro Princesa Isabel. Estava de saiote (fazia um personagem da Escócia), foi logo dizendo: “Aqui só quem me conhece é o Helio e o Carlos Lacerda, estou vestido assim, mas não sou viado”. (Na época era dito assim mesmo).

Eu e Lacerda tivemos momentos ótimos, de recordações, e péssimos, de crítica minha a ele. Lacerda só ficou do dia 14 até 22, eu, Peralva e Mário Lago ficamos até o dia 6 de janeiro, “Dia de Reis”. Os ditadores, geralmente, entre uma tortura e outra, são muito católicos.

Carlos Lacerda mandou um filho falar com o Cardeal (amigo dele), outro conversar com o general Sizeno Sarmento (que fora Secretário de Segurança dele governador), e o terceiro foi a São Paulo ver o que Abreu Sodré, grande amigo dele (e “governador”) podia fazer.

***

PS – Um dia disse a ele, que não gostou: “Carlos, preso não pede nem concede nada. Resiste e pronto”. Passamos Natal e Ano Novo lá, Lacerda não.

PS2 – No dia 30, soubemos, Lacerda foi cassado, nenhuma surpresa, só para ele. No dia 2 de janeiro de 1969, viajou para a Europa, ficaria lá mais ou menos 3 ou 4 anos. Teve a generosidade de ir se despedir de mim e de Mario Lago.

PS3 – Nunca mais participou de nada, voltou em 1973, se enclausurou na Nova Fronteira, editora que adorava. Nunca mais nos vimos. Morreu em 1977, de forma estranhíssima, da mesma morte sem explicação válida que atingiu Juscelino e Jango.

PS4 – Tinha 63 anos. Na prisão, num momento de calma, confessou: “Vou viajar, só volto à política para ser presidente”. Morreu dois anos antes da ANISTIA AMPLA, GERAL E IRRESTRITA.

PS5 – O país paga até hoje, nunca se reabilitou. Apesar de muitos acreditarem que tudo vai bem, “e que Dona Dilma será a salvação da lavoura”, como se dizia antigamente.”

Governo brasileiro abriu mão do controle da política econômica do petróleo

Gabriel Brito

No último dia 7 de novembro, o Brasil finalmente teve uma dura lição sobre as conseqüências da entrega da soberania nacional a empresas estrangeiras. Operadora do campo de Frade, na Bacia de Campos, a empresa anglo-americana Chevron causou o maior desastre ambiental da história do país ao permitir vazamento de óleo do poço que perfurava.

Após primárias investigações, logo se notou enorme negligência da empresa e uso de equipamentos ultrapassados e envelhecidos – além de fiscalização nula.

Diante de tamanho quadro de confusão do público, o economista e estudioso da área petrolífera Wladmir Coelho denuncia o caráter depredador e imediatista da exploração do ouro negro, dentro de um bizarro quadro de duas legislações para o setor: uma para o Pré-Sal, e outra para o petróleo que já se havia descoberto.

A despeito da ninharia dos royalties, ambas as leis têm em comum o entreguismo e o objetivo de manter intactas as reservas e lucros de multinacionais cada vez mais desesperadas por novos pólos de exploração petrolífera.

Como avalia a atuação da ANP e do Ibama na questão até aqui?

Wladimir Coelho: O governo brasileiro, ao impor, seguindo a vontade dos oligopólios, a nova legislação petrolífera – temos duas e, neste caso, refiro-me à legislação do chamado Pré-Sal –, abriu mão do controle da política econômica do petróleo.O modelo de regulação, simbolizado nesta representante dos oligopólios chamada ANP, torna o Estado fraco diante do poder econômico das petrolíferas. A resposta ideal do governo seria a imediata intervenção no atual modelo de exploração predatória, voltado à criação de meios rápidos para a exportação do petróleo e ignorando as normas básicas de segurança.Entretanto, desde os anos 90, o Brasil abriu mão de sua soberania energética, submetendo-se aos ditames do fundamentalismo neoliberal. Acabar com o modelo de exploração predatória significa considerar a possibilidade de instituir o monopólio através de uma empresa nacional com responsabilidade de garantir a segurança energética nacional. Aliás, esta empresa existe desde 1953…Fora desta fórmula, vamos continuar assistindo ao festival pirotécnico destas agências que seguem o mesmo modelo de suas similares mundo afora. Quanto à multa, a declaração de um executivo da Chevron a Reuters resume tudo: “A multa é pequena em relação ao valor de mercado da Chevron”. Em tempo: a multa foi estipulada em U$ 28 milhões, enquanto a empresa é avaliada em U$ 187 bilhões. Tem razão o executivo.

Acredita que o acidente possa ensejar discussões mais sérias acerca das leis de exploração do petróleo, tanto sobre os leilões já em andamento como do Pré-Sal ainda a ser explorado? Ou veremos meras cortinas de fumaça que em nada mudarão a lógica da exploração desse mineral?

Wladimir Coelho: Sem dúvida o momento possibilita o início da discussão do modelo de exploração. Todavia, sabemos dos limites oferecidos à análise do tema tendo em vista o poder econômico dos oligopólios.A campanha publicitária em torno das potencialidades do Pré-Sal foi realizada a partir da idéia e necessidade de sua rápida exploração como forma de salvar o Brasil. Modificar este imaginário não será uma tarefa fácil. Entretanto, as forças identificadas com a defesa dos interesses nacionais deveriam aumentar as suas mobilizações neste momento, dissipando, pra usar o termo da pergunta, a cortina de fumaça dos Royalties como principal vantagem do Pré-Sal.

Mas o senhor não acredita que o governo brasileiro pode aproveitar esse enorme fiasco de uma multinacional estrangeira para levar adiante projetos que visem uma maior fatia da receita petrolífera para nosso país, sofrendo menos com o lobby escuso em favor de tais multinacionais? Ou o entreguismo continuará se disfarçando em medidas paliativas e discussões sobre as migalhas dos royalties, tal como se vê nos últimos tempos?

Wladimir Coelho: Nos Estados Unidos todas as limitações criadas para impedir a exploração de risco no mar ou no Alasca estão caindo. Enquanto o governo brasileiro sequer insinuou utilizar os termos da moratória da exploração do Pré-Sal, nos EUA isso chegou a acontecer no Golfo e no Alasca, para rever os métodos de extração, fiscalização e segurança aplicados.Além disso, a exploração predatória do Pré-Sal assume hoje um papel pouco debatido diante da crise financeira mundial. Trata-se da destinação dos eventuais recursos decorrentes da exploração, pagos ao Estado, à formação de um fundo para compra de títulos (públicos e privados), contribuindo deste modo para a retirada de circulação dos famosos ativos tóxicos encalhados nos cofres dos banqueiros.O modelo de exploração do petróleo brasileiro, infelizmente, segue a nossa terrível tradição colonial.

Em sua opinião, que modelo o Brasil deveria aplicar na exploração do petróleo do Pré-Sal?

Wladimir Coelho: Defendo o modelo que busca a autossuficiência, cuja implantação iniciou-se em 1953 e nunca chegou a sua efetividade. Para este fim torna-se necessário o controle do petróleo em sua condição de bem mineral e econômico. Controlar o petróleo é controlar a base da produção.Vejamos: o governo anuncia – como forma de superar a crise financeira internacional – a necessidade de fortalecimento do mercado interno. Todavia, para gerar esta riqueza nacional, sabemos todos, torna-se necessária uma política econômica que assegure o abastecimento de matéria prima e combustível. O petróleo é a base desta política.Os meios para garantir tal segurança na produção não estão na existência de uma agência reguladora destinada à distribuição de áreas produtivas entre os oligopólios, mas no fortalecimento de uma empresa nacional comprometida com o projeto de desenvolvimento.Acredito que o fortalecimento da Petrobras, retomando o papel de executora da política econômica do petróleo, torna-se necessário diante das evidentes intenções coloniais presentes na forma regulatória implantada no Brasil.

(Transcrito do blog correiodacidadania)

Governo anuncia que Pimentel tem apoio da presidente Dilma. E alguém esperava outra coisa?

Carlos Newton

Após participar de uma reunião do grupo de coordenação política com a presidenta Dilma, ministros e líderes de partidos da base aliada, a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) afirmou ontem que o ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior), tem o respaldo da presidente Dilma Rousseff.

“Nós temos, em primeiro lugar, o apoio da presidenta. Ele [Pimentel] acompanhou a presidenta na viagem importante que aconteceu nesse final de semana à Argentina e nós temos a convicção de que o ministro Pimentel tem prestado todos os esclarecimentos”, afirmou Ideli, no Palácio do Planalto.

Ninguém esperava outra coisa. Este tem sido o comportamento-padrão da presidente Dilma Rousseff em relação a todos os ministros envolvidos em atos de corrupção ou tráfico de influência, e Fernando Pimentel é apenas o sétimo da lista, arrolado emdenúncias relacionadas às atividades de sua empresa de consultoria, a P-21.

Segundo a ministra Ideli Salvatti, a avaliação dos líderes do governo é de que as explicações de Pimentel, que prestou as tais consultorias nos anos de 2009 e 2010, “têm sido satisfatórias” e por isso não houve necessidade de levar o tema para o Congresso Nacional. Ou seja, não somente a presidente Dilma se comporta da forma padrão, como todos os integrantes do grupo de coordenação política fazem o mesmo, tentando empurrar o assunto para a frente.

Na semana passada, o governo se articulou para derrotar requerimento apresentado pela oposição para levar o ministro a prestar esclarecimentos ao Legislativo. Mas ainda há requerimento pendente no Senado sobre o assunto, e Pimentel vai acabar sendo convocado.

“É sempre importante e relevante realçar que ele não estava exercendo nenhum cargo público quando exerceu o seu trabalho de economista prestando as consultorias. Ele não era nem ministro, nem prefeito, deputado, nem senador. Ele estava exercendo a tarefa profissional dele de economista”, alegou Ideli Salvatti, dando uma conotação toda peculiar e até supostamente razoável para a irregularidade que antigamente era conhecida como tráfico de influência.

Como ninguém avisou a imprensa de que houve essas alterações semânticas e criminais, o cerco ao ministro Pimentel vai continuar, repetindo monotonamente tudo o que aconteceu com os seis precursores: Antonio Palocci (PT), Alfredo Nascimento (PR), Wagner Rossi (PMDB), Pedro Novais (PMDB), Orlando Silva (PCdoB) e Carlos Lupi (PDT). É como esses filmes que são insistentemente reprisados na televisão. A gente já está cansado de saber o final.

Uma rosa no espinheiro

Carlos Chagas

Com a aprovação de seu nome, hoje, no plenário do Senado, como a décima-primeira ministra do Supremo Tribunal Federal, apenas a partir de fevereiro a jurista Rosa Weber terá sua prova de fogo na mais alta corte nacional de justiça. Porque mesmo se empossada este mês, coisa de que muita gente duvida, por conta do recesso natalino, não haverá tempo para que se pronuncie sobre a validade da lei ficha limpa, sob análise dos demais ministros.

Em especial porque, segundo especulações, o placar está dando empate de 5 a 5. Caberia à nova ministra o desempate, não com relação à validade da lei para as eleições do ano que vem, com a qual a maioria da casa concorda, mas a respeito de nuanças envolvendo a reintegração de Jader Barbalho. O ex-presidente do Senado foi o mais votado no Pará, nas eleições do ano passado, mas teve sua diplomação impugnada por conta da ficha suja. O problema é que na Paraíba, no Espírito Santo e no Amapá registraram-se casos idênticos e os três mais votados e impugnados acabaram tomando posse. No Senado, salvo exceções, o PMDB sustenta o direito de Jader retornar, mas no Supremo, as opiniões se dividem. Problema para Rosa Weber decidir…

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EMBATE PAULISTANO

Como rescaldo da pesquisa divulgada domingo pelo Datafolha a respeito da disputa pela prefeitura de São Paulo, discute-se a respeito da polarização em torno de duas candidaturas, apenas desconhecendo-se uma delas. Porque lugar garantido, apesar dos índices ainda modestos, terá Fernando Haddad. Melhor dizendo, terá o Lula, seu patrocinador.

Dificilmente a multidão organizada em torno do ex-presidente deixará de atender seu apelo em favor do ainda ministro da Educação. Sobra a outra perna que pisará no segundo turno. A lógica indicaria José Serra, se os tucanos tivessem lógica e plano de vôo, além da capacidade de convencer o ex-governador. Na hipótese, porém, de Serra manter-se intransigente, abre-se o leque para o imponderável. Hoje, seria Celso Russomano, pelo menos conforme a pesquisa referida. Na gangorra que começa a movimentar-se, só uma certeza: nenhum dos cinco candidatos alternativos do PSDB teria chance.

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A OPÇÃO EMPURRADA COM A BARRIGA

Sinais existem de que a presidente Dilma Rousseff não decidirá, em 2012, se a Força Aérea receberá caças franceses, americanos ou russos. Poderá empurrar a decisão com a barriga, não apenas pela falta de recursos para a aquisição das minguadas 36 novas aeronaves, mas porque entre os Rafale, os F-15 e os Sukhoi, dividem-se as opiniões civís e militares.

O problema é que a FAB vem sendo cada vez mais sucateada. Metade de seus aviões encontra-se em solo, sem condições de voar. Os caças de que dispomos completarão seu ciclo de vida antes de 2015. Venezuela, Colômbia, Peru e Chile já dispõem de frota aérea de guerra superior à nossa. Dirão os ingênuos que não há guerra, mas se houver, como acontece há pelo menos quatro mil anos?

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AURELIANO NÃO PRENDEU GOLBERY…

João Figueiredo encontrava-se em Cleveland, para uma operação de ponte safena, e Aureliano Chaves ficou mais de 40 dias na presidência da República. Em vez de apenas guardar o lugar, decidiu governar, desdobrando-se em cobranças aos ministros, reuniões que se estendiam pela noite e audiências a adversários que o titular jamais concedera. Demonstrava que poderia ser o sucessor, mas a intriga acabou com suas chances. Todos os dias o SNI mandava relatórios maldosos, que o general Octávio Medeiros se encarregava de transmitir ao chefe.

Acabaram rompidos, o presidente e seu vice, mas alguém de bom senso indagou de Figueiredo, depois de sua volta, o porquê daquela implicância. Sem querer reconhecer que era simples ressentimento e inveja, ele deu o argumento final: “É que o Aureliano não mandou prender o Golbery…”

O general Golbery havia deixado a chefia do Gabinete Civil como desafeto do presidente, por conta da inação diante do Riocentro, e não perdia oportunidade de criticá-lo. Numa entrevista publicada pelo Correio Braziliense, havia chamado Figueiredo de incompetente, indolente e coisas piores. Como militar da reserva, estava sujeito às restrições do regulamento disciplinar. Réplica para a qual o presidente não teve tréplica: “E por que você não manda prender o Golbery agora?”

A historinha se conta a propósito da crise envolvendo o ministro Fernando Pimentel. Por que o vice Michel Temer não aproveitou para demiti-lo, quando Dilma viajou para a Argentina, semana passada?

Apoio de Lula é muito forte, mas Haddad é um candidato fraco

Pedro do Coutto

A pesquisa do Datafolha sobre as eleições para prefeito de São Paulo apontou duas realidades divergentes. Personagens à procura de autor como na peça de Pirandello. A Folha de São Paulo na edição de segunda-feira 12, publicou matéria sobre o tema. Lula muito forte, tanto assim que 48% dos eleitores admitem a possibilidade de votar num candidato apoiado por ele. Mas, aí é que está, não deram certeza, só a possibilidade. É o que sustento sempre: depende do candidato e não apenas isso. O voto nas urnas ficará condicionado ao desempenho na campanha.

Hoje, o ministro da Educação alcança apenas 3 pontos. Portanto, ainda não conseguiu decolar. Muito menos alçar vôo capaz de passar a sensação de firmeza.O apoio de Lula, sem dúvida o grande eleitor do país, como as eleições de 2010 comprovaram, por si só não é suficiente. O êxito da jornada está condicionado à desenvoltura do candidato que recebe seu apoio. Três pontos é muito pouco para a largada, inclusive levando-se em conta o empenho do ex-presidente.

José Serra não se pode dizer que esteja bem: assinala 18 pontos em matéria de intenção de voto, mas tem uma rejeição de 35%. Esta, entretanto, pode diminuir se o apoio de Aécio Neves, maior interessado em sua candidatura a prefeito, acrescentar alguma escala positiva. Muito simples. Se Serra candidatar-se à prefeitura da capital paulista, o caminho para o ex-governador de Minas fica absolutamente livre para uma jornada nas estrelas rumo ao Planalto .Difícil. Mas, sob a ótica de Aécio, fundamental. Conserva seu mandato de senador e realiza uma pesquisa em tempo real a respeito de sua aceitação pelo eleitorado.

Jovem, Aécio sabe que, no lado das oposições, dificilmente surgirá nome melhor que o dele para, mesmo derrotado em 2014, tentar chegar ao poder em 2018, quatro anos depois. Exemplos não faltam.O mais próximo, o de Lula. Na França, o de François Mitterrand. Trata-se de um lance de dados, para citar o poeta Mallarmé. Inclusive a candidatura de Aécio daqui a três anos funcionaria para torná-lo conhecido nacionalmente.

Até o momento é uma fortíssima liderança mas restrita às montanhas de Minas. Tem a seu lado, no seu estado, a tentativa de levá-lo novamente ao poder central. Os último presidente mineiro foi Juscelino Kubitschek, eleito em 55. Portanto há mais de 50 anos. Tancredo Neves, vítima do destino, foi eleito mas não tomou posse, e Itamar Franco, eleito vice, sucedeu a Collor de Mello. Mas estas são outras questões. Pertencem ao passado, à memória nacional.

A respeito de JK, a opinião a seguir era dele, dita a mim numa entrevista para o Correio da Manhã. Estávamos na campanha presidencial de 60, o PSD e o PTB cobravam maior ação e esperança mais intensa de Juscelino ao lado do general Lott. Ele me disse: o candidato tem que se afirmar por si, ter vôo próprio, não depender inteiramente do apoio de pessoa alguma. Porque – acentuou – se for forte, os apoios vêm em decorrência. E não o contrário.

O povo sente essa realidade e verifica que, ao depender do apoio do poder, o candidato revela tacitamente sua incerteza na vitória, no êxito de campanha. JK não apoiou Lott e Jango também não. JK manteve-se neutro. João Goulart aderiu de bom grado ao movimento Jan-Jan, que lhe deu 900 mil votos em São Paulo e 700 mil no Paraná. Não fosse isso, perderia para Milton Campos. Naquele tempo a eleição de vice era separada da eleição do presidente. A memória política existe para lembrar fatos e equacionar os exemplos do passado ao panorama do presente. A vida é assim.

A denúncia da tortura

Sebastião Nery

No fim do ano, o mais belo livro do ano : – “As Capas Desta Historia”. São mais de 300 capas de jornais alternativos, clandestinos e no exílio, inclusive no Golpe Militar (de1964 à anistia em 1979), lançado pelo Instituto Vladimir Herzog, editor e coordenador Ricardo Carvalho com José Luiz Del Roio, Vladimir Sacchetta e José Mauricio de Oliveira.

O capitulo de abertura – “Precursores Desta Historia” – é uma magnífica pesquisa histórica, que começa com o volume I do “Correio Braziliense ou Armazem Literário”, fundado em Londres em 1808 por Hipólito José da Costa, patrono da imprensa brasileira, que nasce brigando.

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BARATA

E logo vem a primeira pagina da “Sentinela da Liberdade”, do baiano Cipriano Barata, em 1823 (“Na Guarita do Quartel General de Pirajá, Mudada Despoticamente para o Rio de Janeiro e de lá para o Forte do Mar da Bahia, Donde Generosamente Brada “Alerta”!). “Por conta de seus artigos libertários, Cipriano Barata ficou sete anos preso em Recife”.

E há mais o “Tiphis Pernambucano” de Frei Caneca, “a “Semana Ilustrada”,, a “Revista Ilustrada”, “A Lanterna”, “O Parafuso”, “A Plebe”, “Crônica Subversiva”, “Spartacus”, “O Debate”, “O Cosmopolita”, “O Despertar”, “O Trabalhador Graphico”, “A Luta”, “O Semeador”, “A Hora Social”, “O Homem do Povo”, “O Jornal do Subiroff”, “ A Manha” (do Barão de Itararé)), a maioria anarquistas, todos jornais do fim do século 19 e primeira metade do século 20,

E nasce em Minas, em 1952, o “Binomio”, dos jornalistas José Maria Rabelo e Euro Arantes, o mais duradouro dos jornais alternativos do pais, afinal fechado pelo golpe militar de 1964.

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1964

O golpe militar de 1964 fez surgir mais um longo capitulo da imprensa de resistência no pais. Começou com o “Pif-Paf”, de Millor Fernandes, em maio de 1964, dois meses depois do golpe. E vieram “A Carapuça”, de Sergio Porto, o saudoso Stanislaw Ponte Preta, “O Sol”, da genialidade de Reynaldo Jardim e o “Folhetim”, da “Folha de S. Paulo”. E “O Pasquim” ocupou a praça, com seu humor criativo, avassalador, devastador, inteligente, corajoso, detergente.

Na pagina 46, o livro publica: – “Em 1971, a esquerda nacionalista voltou às bancas com POLITIKA. O jornal, publicado no Rio de Janeiro por Sebastião Nery, retomou as idéias de Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola, opondo-se à subordinação da economia brasileira aos interesses do capitalismo. Politika bateu de frente com a ditadura, chegou à tiragem de 38 mil exemplares e sobreviveu nas bancas por mais de dois anos, apesar da censura prévia e da forte pressão econômica exercida pelos militares”

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TORTURA

A página 47 é toda ela dedicada à primeira página do POLITIKA: “Rio, 11 a 17 de dezembro de 1972 Ano II – Número 60 – Cr$ 2,00”. E a manchete em letras garrafais, tomando toda a página: -“ INQUISIÇÃO E TORTURAS NO BRASIL”. Textos de Aliomar Baleeiro, Moacyr Werneck de Castro, Marcos Freire, Sebastião Nery, Roland Corbisier, Susanne Eckle e Edmar Morel.

De manhã cedo, o jornal chegou às bancas e a polícia chegou à minha casa. Tinha sido um desafio calculado, proposital, premeditado. Tortura era uma palavra esconjurada pela ditadura que, naquele 1972, a estava praticando de uma maneira ainda mais escancarada e criminosa. Eu não tinha o que negar e como negar. Fizera conscientemente, sabendo que alguma coisa ia acontecer e algum preço ia pagar. Depois de dois dias de ameaças e medo, sem dormir, sentado em um banquinho duro e descarado, vendo que eu não tinha tido a conivência de ninguém da censura e apenas a havia driblado, sem mostrar a capa e os textos antecipadamente, eles me mandaram embora, aos gritos: – “Da próxima vez que falar em tortura vai experimentar.”

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POLITIKA

Não experimentei. E guardo até hoje essa capa-manchete do POLITIKA denunciando a tortura como uma vingança pelos companheiros torturados e um diploma que eu me dei a mim mesmo.

O plantão de resistência do POLITIKA foi substituído a partir de 1974 pela bravura e generosidade publica de Fernando Gasparian com o OPINIÃO e Raimundo Pereira com o MOVIMENTO,ambos com recursos e equipes de jornalistas bem maiores do que o nosso pobre e valente POLITIKA, comandado por mim, Philomena Gebran e Oliveira Bastos. A história só acontece quando cada um cumpre sua tarefa.