O novo sacrifício do vice

Carlos Chagas

Não passou despercebido. mas ficou sem maiores comentários o novo sacrifício feito pelo personagem que, sem sombra de duvidas, teria a unanimidade  nacional caso houvesse eleição para escolher  o maior dos brasileiros da atualidade. Falamos do vice-presidente José Alencar, que no último dia 3  não se desincompatibilizou. Se quisesse, estaria eleito por antecipação para o governo de Minas, da mesma forma  como conquistaria uma cadeira no Senado. A simples menção dessas duas  possibilidades causou  horror entre gregos e troianos, ou seja, do governador Aécio Neves ao PT mineiro, e ao PMDB, o sentimento foi de pavor.

Por certo que ninguém passou recibo. Pelo contrário, todos aplaudiram a hipótese de Alencar disputar em outubro o Palácio da Liberdade ou a volta ao Senado. Mas tremeram uns e outros diante da  desarrumação político-partidária que uma decisão dessas causaria em suas projeções.

O vice-presidente chegou a declarar que seu futuro eleitoral dependeria dos médicos, ou seja, se o liberassem pelo diagnóstico da cura do câncer que o acometeu, estaria disposto. Só que não foram os médicos, de resto cautelosos, a causa de sua disposição por permanecer no Palácio do Jaburu. Foi seu espírito cívico e sua profunda devoção por Minas Gerais. Percebeu que  pelo óbvio passeio que seria o  seu reencontro com as urnas, viraria a política mineira de pernas para o ar.  Começando por melar os planos  do presidente Lula de conciliar o inconciliável, ou seja, reunir numa só aliança  Hélio Costa, do PMDB,  e Fernando Pimentel e Patrus Ananias, do PT. Depois, porque reduziria a pó a pretensão do já agora ex-governador Aécio Neves de fazer governador o seu  vice, Antonio Anastásia. Iriam todos para o fundo do poço.

Assim, em função de sua lealdade para  o presidente Lula e de sua devoção eterna para Minas, José Alencar sacrificou-se. Ficou.

Vulgarização

Do jeito que as coisas vão, nem mesmo os cientistas políticos darão atenção às pesquisas eleitorais. A mais recente, da Vox Populi, divulgada no fim de semana, causou tanta emoção no país quanto causaria a notícia de mais um dia de sol no litoral do Nordeste. Porque revelou, a consulta, o mesmo que outras anteriores, com as variações geradas pela metodologia de cada empresa: se as eleições fossem hoje, José Serra estaria eleito, tanto faz se batendo Dilma Rousseff por 9, 5 ou 4 pontos, dependendo da presença ou não de Ciro Gomes. Nas simulações para o segundo turno, as que realmente importam, o ex-governador de São Paulo até aumentaria a diferença.

Seria bom que os institutos dessem uma parada. Suspendessem as consultas por algum tempo, quem sabe até  depois da Copa  do  Mundo. Porque o risco é de sedimentarem o fato consumado e aumentarem o desinteresse popular pela eleição. De tanto ver Serra na frente, o cidadão comum poderá dar de ombros e aceitar os números como definitivos, quando na realidade poderá não ser bem assim.

Melhor seria, para os pesquisadores manterem a credibilidade de suas pesquisas  e  continuarem amealhando clientes para as eleições futuras, que promovessem um intervalo.   Não propriamente comercial, mas com vistas a não vulgarizar suas atividades comerciais…

Os ministros que saíram para tentar outros voos, podem aterrisar no vazio, posando para a eternidade, mas na verdade, pousando numa paisagem destruidora. Os que ficaram, esperam farta compensação

Dez ministros deixaram os cargos. É exigência constitucional, apesar do Brasil ter tantas Constituições, muitas delas não valem nada. Algumas foram ultrapassadas pelo Estado Novo, outras por Atos Institucionais. Mas a desincompatibilização é ritual que não pode ser desobedecido.

Dos 37 ministros de Lula, 27 ficaram nos cargos, não por fidelidade, mas por saberem que não têm votos para coisa alguma. Apenas 10 fizeram a opção por candidaturas por se acharem bons de votos ou por confiarem no apoio de Lula.

Vejamos o que almejam ou pretendem alguns deles, e as possibilidades.

Geddel Vieira Lima

Deixou de ser ministro por mais 9 meses, não é o mais grave ou o mais importante. O pior é ficar 4 anos sem mandato, por conta da absurda coincidência das eleições, único país do mundo onde existe essa impropriedade.

Depois de dizer horrores (pior até do que o prefeito Eduardo Paes) de Lula, agora precisa do apoio do presidente, pelo menos para fingir que vai para o segundo turno. Não vai.

Lula não pode deixar de pedir votos para Jacques Wagner, que sempre foi leal e é do PT. Além do mais, a luta é com Paulo Souto, franco favorito em 2006, que agora tem tudo para ir á forra. Que tristeza para Geddel.

José Pimentel

Ministro da Previdência praticamente desconhecido, deixa o cargo, declarando: “Não sei se serei candidato a governador, senador ou deputado federal”. Ha!Ha!Ha! Quem coloca tantas opções, não tem nenhuma. Será deputado federal. Governador reeleito, Cid Gomes, inacreditavelmente sem adversários. Surgiu um do interior, quase que imediatamente desistiu.

Os dois senadores serão o ex-ministro Eunicio de Oliveira e Tasso Jereissati, reeleito. O candidato do PMDB terá, proporcionalmente, a maior votação para o cargo. Jereissati também muito bem votado, logo depois de Eunicio.

Carlos Minc

Da mesma forma que o prefeito de Paris, sempre disse: “Não quero sair do Rio, é a minha cidade, minha paixão, minha razão de existir”. Surpreendentemente, foi feito ministro, o melhor de todos os 37 de Lula. Fez, não deixou que fizessem o que contrariava suas convicções.

Pela atuação, teria que ser governador do Estado do Rio, ganharia de Cabral de mil a zero. Ou senador. Só que pelo destruidor sistema político-partidário-eleitoral do Brasil, será mais uma vez deputado estadual.

É o que ele quer, pretende e deseja. Confesso que conhecendo o Minc desde os tempos de Pedro Álvares Cabral (perdão pelo sobrenome), não acreditei que ele se saísse tão bem. Terá a maior votação do Estado do Rio, ótimo para ele. Mas não para o Brasil, que deveria aproveitar esses grandes valores.

Reinhold Stephanes

Ficou sempre entre o Ministério da Agricultura e a Câmara dos Deputados. Agora, deixando o ministério volta à Câmara. E pode até ser ministro novamente, com Dona Dilma ou Serra.

Tem uma condição cada vez mais rara na vida pública: não se interessa em desviar ou deixar desviar o dinheiro público.

Alfredo Nascimento

É o grande aproveitador do defeituoso sistema brasileiro da acumulação de cargos e a superposição deles. No primeiro mandato de Lula foi ministro dos Transportes. Quando foi se despedir para ser senador, Lula pediu: “Põe o João Pedro como suplente”. Sabia que se ganhasse (ganhou) voltaria ao ministério para João Pedro assumir como suplente. (Já está há 3 anos no Senado, sem povo, sem voto, sem urna).

Agora é candidato a governador, mas tem mandato de senador até 2014. Se for eleito, o amigo de Lula, João Pedro, ganha mais 4 anos no Senado, não mais como suplente e sim como efetivo. Nascimento já foi favorito, está ameaçado de perder para o vice do governador Eduardo Braga. Mas Lula disse a ele: “Vou ao Amazonas quantas vezes for necessário, para eleger você e derrotar Artur Virgílio”.

Edison Lobão

Em vez do Ronaldo, é o verdadeiro fenômeno. Sem a menor preocupação com coisa alguma elevada e consagradora, foi senador, governador, ministro, que República. Comandando as Minas e Energia no apagão, deu a mais tola e idiota das “explicações”, devia ter sido demitido.

Ainda “torce” para ser vice de Dona Dilma, acha que ela não perde. Um fato melancólico: seu filho será novamente o “suplente 30”.

Fato auspicioso e que deveria ser comemorado em praça pública: o ministro já é Mauricio Zimmermann, a maior autoridade do Brasil em energia elétrica.

Henrique Meirelles

Dos que permanecem, o mais indeciso e retardado (nos dois sentidos da palavra) foi o presidente do Banco Central. Na verdade não sabia o que era melhor, sair ou ficar, tentou negociar com Lula. Como este resolveu endurecer, não conseguiu.

Já “mantido”, lamentou publicamente: “Não me vejo disputando eleição dentro de 4 anos”. Ha!Ha!Ha!

Guido Mantega

Tinha como certo que Meirelles sairia, conquistaria a liberdade. No esquema hierárquico, o BC vem depois do Ministério da Fazenda. Na realidade, Mantega era chamado sempre depois de Meirelles, o que fará da vida?

Paulo Bernardo

Aprisionado pela própria inércia, que é sinônimo de incompetência, não pôde sair, o que é diferente de “decidir ficar”. Só um objetivo: eleger a mulher para o Senado. Em 2006 não conseguiu, as chances agora, muito maiores.

Celso Amorim

Há meses anunciou que podia ser candidato ao Senado. Logo, logo corrigiu, “serei candidato a deputado”. Ficou no cargo, todo o esforço agora, é conseguir um bom posto diplomático, com Serra ou com Dilma.

Carlos Lupi

Há meses fez pesquisa sobre o futuro eleitoral, a conclusão: não se elege nem deputado estadual. Assim, melhor continuar 9 meses ministro.

Quem sabe não ganha um novo cargo? Embora seja repudiado pelo próprio PDT. Com Brizola, foi duas vezes candidato a senador, nas duas ficou longe.

Nelson Jobim

Dava a impressão de ser candidato a tudo. Principalmente por já ter sido Executivo, Legislativo e Judiciário. No fim do ano, espera ser “promovido” a Brigadeiro. Por causa dos caças. Devia ter sido cassado quando confessou ter fraudado a Constituição de 1988.

***

PS – Dos que saíram e dos que ficaram, todos dependem de Lula. Para uma vitória agora, ou uma volta se Dona Dilma vencer. Incrível: mesmo os que acham que ela vence, só pensam (?) em Lula como fonte do Poder.

O presidente Lula e o futuro

Carlos Chagas

Faltando nove meses para o fim do mandato do presidente Lula, vale indagar qual a marca que seu governo deixará registrada para o futuro. Sem precipitações, é claro, porque a História não se escreve às pressas nem ao sabor das emoções. É preciso que os fatos sejam decantados, mas não custa arriscar uma incursão despretensiosa a respeito do rótulo que o primeiro-companheiro verá colado no pacote  de sua passagem pelo poder.

De início,  é bom recordar que todos os antigos presidentes da República se inscreveram na galeria da memória nacional, com características hoje consolidadas.  Umas vibrantes, outras nem tanto. Estas edificantes, aquelas lamentáveis.

Só para ficarmos nos mais populares: Getúlio Vargas aparece sob a imagem maior das leis trabalhistas, que criou, transformando-o numa espécie de campeão das massas assalariadas. Juscelino Kubitschek surge como o empreendedor do desenvolvimento nacional, sedimentando as bases da transformação econômica  do país.

E o Lula, candidato óbvio a integrar-se no rol dos mais populares?

A glória de ter sido o primeiro operário a chegar ao governo esbarra no fato de não ter promovido as reformas estruturais de base prometidas e exigidas pelo seu passado, tanto assim que continua como o preferido das elites neoliberais  – uma contradição que a História  dificilmente explicará ou perdoará.

Constituirá sua marca fundamental apenas o assistencialismo, ou seja, a oportunidade perdida por não haver promovido as mudanças esperadas pela maioria dos que o elegeram?  O PAC fica longe do Plano de Metas de Juscelino, ao tempo em que o bolsa-família perde de goleada para as garantias do trabalho estabelecidas por Getúlio. Em suma, a  marca  com que o Lula se apresentará para o  futuro parece inconclusa. Mas como ainda faltam nove meses…

Ja estão retaliando o poder

Não se fala das principais figuras que cercam os dois principais candidatos às eleições de outubro. É claro que teriam que gravitar em torno de Dilma Rousseff conselheiros e assessores variados, naturalmente candidatos a ministros, se ela vencer. Como ao redor de José Serra, outro time de auxiliares de peso que também é melhor não fulanizar, para não  desagradar outros.

Do que tratamos hoje é daqueles representantes ou controladores de grupos, cartéis e interesses, que, ao primeiro sinal de eleições, buscam infiltrar-se e cercar os candidatos favoritos, preparados para obter e usufruir os mesmos benefícios do poder que usufruem e obtêm através dos tempos.

Já foram os barões do café, na República Velha. Os latifundiários, sempre, as empresas petrolíferas, depois.  s industriais das principais atividades, os banqueiros e os especuladores, que entraram para nunca mais sair. Donos  da mídia, também. No reverso da medalha, gestores das grandes estatais,  dirigentes de centrais sindicais e de movimentos sociais. Sem esquecer uma parcela de intelectuais e alguns chefes  de partidos políticos em ascensão.

É bom que Dilma e Serra fiquem alerta, porque a corrida já começou. Diretamente ou por interpostas pessoas,  os mesmos de sempre se aproximam. Não querem ser ministros, apenas condôminos e beneficiários das principais decisões de governo.

UVAS VERDES, SÓ PARA CÃES

A fábula é por demais conhecida. A raposa desejou as uvas, no alto  da parreira. Pulou, tentou subir,  esfalfou-se e não  conseguiu pega-las. Dando as costas, comentou: “uvas verdes, só para cães…”

Com todo o respeito, é mais ou menos o que Henrique Meirelles deve estar falando, frustrado que foi ao decidir continuar no Banco Central. A vice-presidência na chapa de Dilma Rousseff dissolveu-se como um sorvete ao sol. O governo de Goiás, ou uma cadeira de senador, também.

Pois agora vem o competente gestor da política  monetária explicando que sua presença é  necessária no Banco Central para consolidar as conquistas realizadas e evitar a sombra da inflação…

Marta deixa Ciro fora de foco

Pedro do Coutto

A pesquisa do Datafolha pela FSP de 1º de abril e bem comentada pela repórter Ana Flor, revela que Marta Suplicy  lidera disparado as intenções de voto de São Paulo para o Senado. Se as eleições fossem hoje, 43%. Com Romeu Tuma em segundo com 25 pontos e Orestes Quércia em terceiro com 22%. A ex vereadora Soninha aparece com 18 pontos. São duas as vagas em jogo. A primeira parece definida. Porém há dúvidas quanto a segunda. Quércia pode ultrapassar Tuma. Mas não é esta a questão essencial.

A questão essencial é que a melhor solução para o PT encontrava-se dentro da própria legenda partidária. Marta acrescenta a Dilma Roussef muito mais votos em São Paulo do que Ciro Gomes poderia somar. Aliás, vendo-se bem a questão, Ciro não acrescenta nada. Seu nome sequer aparece no levantamento. Para governador tampouco, já que o PT inclina-se para Mercadante, que atinge 13 pontos contra 49 de Geraldo Alckmin. Ciro Gomes, se a lei permitisse – mas não permite – deveria voltar urgentemente para o Ceará. Porém como isso não é possível, terá que se contentar a ser deputado federal por São Paulo. Não há lugar para ele em eleições majoritárias. Há menos que Mercadante, sentindo a derrota antecipada saia da disputa pelo governo e retire seu nome entre os candidatos a governador. Pode ser deputado. Enfim, a manobra Ciro não deu certo. Ficou ridícula.

O que a lei permite é que como o pleito de outubro renova dois terços do Senado, cada partido ou coligação pode disputar com dois candidatos. Mas é difícil a concordância. O exemplo ocorreu no Rio em 1954.

Agora, por exemplo, pode ocorrer em Minas, uma parte dos setores do PSDB votar em Aécio Neves para Senador e outra parte preferir outro nome. Cada corrente votando no seu nome. A candidatura Aécio, porém, no fundo, libera Itamar Franco para vice de Serra. Serra não tem muitos nomes disponíveis para a vice, especialmente de Minas Gerais, segundo colégio eleitoral do país. Nem Dilma, já que o PMDB fechou com a candidatura Michel Temer. E o PMDB é essencial para o PT em função da organização partidária e do tempo disponível na televisão. Henrique Meirelles permanece no Bacen, tanto na vitória de Dilma ou de Serra.

Mas voltando ao tema Senado, as eleições são confusas. As coligações funcionam pouco. Cito um exemplo. Há outros. No Rio em 1954, logo após a morte de Vargas, o Ibope apontou o favoritismo de Caiado de Castro, ex-chefe da Casa Militar. O segundo lugar era disputado por Hamilton Nogueira, eleito em 45, e Gilberto Marinho, o primeiro pela UDN, o segundo pelo PSD. Carlos Lacerda mandou os udenistas votarem nos dois. O que aconteceu? Os udenistas seguiram Lacerda, mas o PSD votou apenas em Gilberto. Resultado: elegeram-se Caiado e Gilberto. Hamilton rompeu com Lacerda e nunca mais lhe dirigiu a palavra.

Agora, no RJ, vai acontecer a mesma coisa: Crivella recebe os votos de seus adeptos que, nem por isso, os devolvem a Lindberg Farias. Com isso, deve ir para o espaço a candidatura de Jorge Picciani. Teve recursos para fornecer 170 mil votos a seu filho, Leonardo, para deputado federal. Para o Senado, tal volume de recursos não funciona.

Com isso, por precipitação em vetar Dilma  no palanque de Garotinho, o governador Sergio Cabral ficou numa sinuca de bico. No mínimo perdeu a principal articulação com Picciani para o Senado. Errou.

Na ABL, futebol, arte, técnica e tática

Pedro do Coutto

Recebo do presidente da Academia Brasileira de Letras, Marcos Vilaça, convite para assistir a um seminário cobre futebol e literatura, bela iniciativa, cujo êxito está desde já assegurado pelo toque mágico que o autor de “Coronel, Coronéis”, imprime a tudo que realiza. Além de Vilaça, Domício Proença Filho também na coordenação. Existe muita literatura de qualidade a respeito, mas, a meu ver, falta uma obra que tenha focalizado a essência mais profunda do futebol.

Trata-se do único esporte em que , às vezes, a tática consegue neutralizar a técnica e a arte. Isso porque o objeto da disputa, que é a bola, encontra-se permanentemente exposto à exceção quando está nas mãos do goleiro e este com os dois pés no chão. Pode haver ocupação de espaços à vontade, choque físico natural, marcação de dois ou três homens sobre um. Exemplo maior da vitória da tática sobre a técnica e a arte foi o Brasil X Uruguai de 50, a que assisti e do qual sou a última testemunha viva da tática previamente anunciada pelo líder da equipe uruguaia, Obdúlio Varela.

Era uma quinta-feira, 13 de Julho, ao meio-dia, quando os uruguaios encerraram o treino no campo do Fluminense. Subindo as escadas que levam do vestiário ao restaurante que existia na sede, Obdúlio depara-se com Preguinho, João Coelho Neto, filho do escritor e acadêmico, e, que em 1930, quando Obdúlio tinha 10 anos foi autor do primeiro gol de uma seleção brasileira em Copa do Mundo. Camisa 10 era a que Prego usava. Através do tempo tornaram-se amigos. E Preguinho cumprimentou Obdúlio pelo fato de o Uruguai estar na final.

O regulamento era diferente do de hoje. Tínhamos vencido a Espanha por 6 X 1, o Uruguai por 2 X 1, gol de Obdúlio no final do jogo. A Seleção Brasileira derrotara a Suécia por 7 X 2, o Uruguai empatou por 2 X 2.

– Obdúlio, disse o Prego, agora, entretanto, domingo, não vai dar para vocês.

– Não vai dar por quê, perguntou Varela.

– Os resultados estão aí, respondeu Prego.

Obdúlio apanhou um paliteiro e disse:

– Prego, nós não vamos jogar contra vocês como a Espanha e a Suécia. Nós vamos atuar assim: – e revelou – :Máspoli no gol, Teixeira na zaga direita, Matias Gonzales no meio da área, vamos recuar Gambote do meio campo para a zaga (como Piazza atuou na nossa seleção de 70), Rodriguez Andrade na lateral esquerda. No meio campo eu, Julio Perez e Moran, ponta-esquerda que recuava para marcar França, ponta-direita brasileiro. Já na frente, Miguez, Schiaffino e Andre Gighia. Nós só vamos marcar o time brasileiro a partir de nosso campo.

Nascia ali o primeiro quatro-três-três da história do futebol.

– De todos nós – acrescentou Obdúlio, o único lançador de bola é Julio Perez (que atuava no estilo Gerson, mas não era tão bom). – Por isso eu disse aos homens de frente, Miguel e Schiaffino que não tirassem os olhos de Perez.  Porque o lançamento poderia ir por cima ou por baixo de Danilo e Bauer, que vão avançar vendo nosso espaço vazio pela frente.

O recuo de Moran congestionou o meio-campo, pois Friança era um ponta improvisado, cuja preferência nítida era meia-direita. Ele procurava encostar em Zizinho, Ademir e Jair. Com isso facilitava a marcação uruguaia. Fizemos o primeiro gol. Mas Obdúlio conteve o time:  – Ninguém sai (avança), se sairmos vamos tomar de quatro.

Mas surgiu  o inesperado. Gighia passava todas por Bigode. E o meio-campo brasileiro formado por Bauer, Danilo e Jair não caía para a esquerda para dar cobertura a Bigode.

No primeiro lance fatal, Gighia balança o corpo e passa fácil por Bigode. O meio-campo não voltou, o zagueiro central Juvenal não sai na cobertura. Barbosa teme o chute e fecha o ângulo esquerdo. Percebendo a abertura de nossa defesa. Gighia cruza para Schiaffino, que, de voleio empata a partida. Sete minutos depois a jogada se repete. Só que Barbosa teme o centro e se prepara para sair da meta. Gighia percebe novamente com clareza a desordem na defesa brasileira. Avança mais, entra na área e chuta no canto esquerdo de Barbosa. Não foi frango, como dizem muitos que sequer assistiram à partida. Foi uma vitória, isso sim, da tática sobre a arte e a técnica.

Na conversa, o técnico do Fluminense, achando lógico o raciocínio de Obdúlio, procurou Flávio Costa. Este apenas respondeu encerrando o assunto: –  Se é sobre o jogo de domingo me procura segunda-feira.

No futebol a tática é tão eterna quanto a arte.

De dentro da TV Globo, seu editor de Economia desmonta a poderosa rede. Conta tudo o que aconteceu em 1982 e 1989, não esquece ou esconde um detalhe, explica simplesmente “É O QUE VI E OUVI”

Foi muito. E foi quase tudo. E Paulo Henrique Amorim não precisou se movimentar apressadamente, como ele mesmo afirmou, VIA E OUVIA. Naquele tempo, os espaços da TV Globo não eram tão grandes assim. Portanto, chegando simplesmente para trabalhar, já estava no meio da fogueira que os insensatos acendiam e não conseguiam apagar.

Sempre lutei (ou tentei) ser bem informado, em todos os setores ou lugares. Mas a narrativa feita por Paulo Henrique Amorim, que nos foi enviada por Marcos Vinicius, tem a vantagem de quem VÊ E OUVE de dentro da própria fortaleza, e tem a qualidade e a independência de mostrar como tudo se passou.

Mas ele não se preocupa apenas em descer Armando Nogueira do altar em que tentaram colocá-lo (leia-se; “endeusá-lo e canonizá-lo”), mas contesta a própria TV Globo, que permitiu e “construiu” todo o clima das duas datas.

A TV Globo surgiu de uma aliança ILEGÍTIMA com a Time-Life, cresceu com a “compra” da TV Paulista de quem nunca foi dono de nada, e até hoje os verdadeiros proprietários lutam da Justiça tentando reaver seus direitos sobre a emissora. A TV Globo era tão aproveitadora que lançou o Jornal Nacional nunca época que nem tinha rede, o nome surgiu por causa do Banco Nacional.

Dentro e fora da Globo o fato era ridicularizado, até hoje a organização deve royalties à família do dono do Nacional, depois governador, ministro e candidato a presidente.

Desculpem, não vou repetir o que Paulo Henrique Amorim conta com impressionantes minúcias, detalhes e conhecimento. Peço apenas que leiam, releiam e comentem o que ele revelou, denunciou, mostrou de forma irrespondível.

Se puderem, não deixem de ler o blog (ou site) do Eliakim Araújo, que trabalhou na Globo nos tempos em que estes fatos aconteceram. (Agora, ele e a mulher, há muitos anos nos EUA, fazem programa de grande sucesso). Não deixou de entrar no assunto, afinal foi personagem de muita coisa, conheceu muito bem a TV Globo e Armando Nogueira, sabe a parte que cabe a cada um nesse latifúndio.

1 – “Armando Nogueira não foi demitido em 1982, foi diminuído”.

2 – “Apesar de todas as virtudes do Armando CANTADAS AGORA EM PROSA E VERSO, não dá para esquecer que ele esteve à frente do jornalismo mais comprometido do Brasil durante os anos da ditadura militar”.

3 – “O Jornal Nacional era considerado o “PORTA-VOZ DO REGIME”. As ordens militares eram obedecidas sem questionamento. Não vi em nenhuma oportunidade, alguma tentativa de desobedecer ou driblar a censura”.

4 – “Entrei na Globo num momento em que o seu jornalismo passava por grave crise de credibilidade, carros eram ameaçados nas ruas pela própria população”.

5 – “A TV Globo não se livrava da acusação de tentar fraudar a eleição de Brizola para dar a vitória a Moreira Franco”.

6 – “Em 1984, no episódio das DIRETAS, JÁ, onde atuei como off no comício da Candelária, a TV Globo ignorava completamente os movimentos populares que cresciam em todo o país”.

7 – “Mas para a direção da TV Globo, não bastava ignorar o movimento popular, era PROIBIDO usar as DIRETAS mesmo como notícia”.

8 – “Em 1989, segundo e último debate entre Collor-Lula, eu estava representando a Manchete. Havia deixado a Globo. Era visível que Lula estava abatido, cansado”.

9 – Armando Nogueira esteve à frente do jornalismo da Globo, em todos os episódios nebulosos que contei com absoluta fidelidade”.

Era lógico, claro e mais do que evidente, que Roberto Marinho humilhava Armando Nogueira, mas este se deixava gostosamente humilhar e manipular, para gozar seus 15 minutos de fama. Infelizmente, esses 15 minutos chegaram tarde, muito tarde, e rigorosamente mentirosos, a bravura do elogio fácil e enganador.

***

PS – De 1982 a 1989, Armando Nogueira ficou na Globo, HUMILHADO E OFENDIDO, embora não soubesse quem era Dostoievski.

PS2 – Sete anos de pastor, Jacob serviu Labão, pai de Rachel, serena e bela. Mas não servia ao pai, servia a ela. (No texto bíblico, se trocarem os nomes e introduzirem Armando Nogueira e Roberto Marinho, nenhuma violência ou reticência).

PS3 – Como não há nada pessoal, Armando Nogueira não conseguiu ser CANONIZADO, mas mandou para o inferno o “jornalismo” da TV Globo. Nem o título era original, pertencia a um banco.

PS4 – A TV Globo botava banca, subserviente a um banco. Isso ficará (e é mesmo) para sempre inesquecível.

A candidata perde tempo

Carlos Chagas

No ninho dos tucanos, vai prevalecendo a natureza das coisas: Aécio Neves já admite tornar-se companheiro de chapa de José Serra e, à medida em que a campanha se desenvolva,  mais clara ficará a força da dupla. Nada que faça antecipar resultados, é claro, porque eleições sempre revelam surpresas. Mas Minas e São Paulo unidos sempre geram consequências no quadro nacional.

Vale, hoje, voltar a atenção para o reverso da medalha. E a chapa  encabeçada por Dilma Rousseff, como se comporá? O PMDB já foi convidado pelo presidente Lula  a indicar o candidato a vice-presidente, mas com o crescimento da  agora ex-chefe da Casa Civil, algumas exigências emergiram. Primeiro, o Lula quis uma lista tríplice, isto é, não pretendia ficar engessado na imposição do nome de Michel Temer, de quem não é um fã ardoroso.

Depois, foi um chute  de proporções razoáveis no traseiro dos dirigentes  do maior partido nacional  quando  as pesquisas indicaram diferença mínima   entre os percentuais de Dilma e Serra. Entraram em campo a arrogância e a empáfia dos companheiros, que imaginaram não precisar depender mais do PMDB. Por que ficariam prisioneiros de um partido já considerado nem tão importante assim para a vitória da candidata oficial? Nomes variados surgiram para a vice-presidência,  no PMDB e fora dele. Henrique Meirelles,  Hélio Costa, Edison Lobão e até Ciro Gomes.

Com a gangorra sempre balançando, veio a pesquisa mais recente, onde a distância voltou a aumentar entre os dois pretendentes à presidência da República. Serra abriu diferença de nove pontos sobre Dilma, nem se falando  nas simulações para o segundo turno. Resultado: o presidente Lula e o PT de novo passaram a cortejar o PMDB e, como conseqüência, Michel Temer. Há quem dê como certa, hoje, a candidatura do presidente da Câmara e do partido.

E amanhã? Amanhã, tudo pode mudar outra vez. Em sã consciência, ninguém sabe ao certo quem será o companheiro de chapa de Dilma Rousseff. Há tempo, é lógico, até as convenções marcadas para junho, mas se a indecisão prevalecer, perde tempo a candidata. Perderá votos, também?

Imagens oportunas

Mil personagens da História do Brasil continuam merecendo estudos mais aprofundados, à medida em que o tempo passa. Uma delas foi o coronel da Força Pública de São Paulo, Miguel Costa, revolucionário de 1924, em São Paulo,  no ano seguinte  comandante maior da rebelião,  chegando a ostentar por algum tempo a chefia e o nome da mais célebre coluna militar revolucionária, afinal transformada em “Coluna Prestes”. Com a vitória da Revolução de 30, o velho coronel feito general ocupou a Chefia de Polícia do primeiro interventor em São Paulo, João Alberto.

É aqui que o personagem mais nos chama a atenção.  Tido como socialista,  execrado pelas elites paulistas, também possuía características fascistas, fundador da Legião de Outubro.   Dele se dizia manter  o marxismo no coração e os marxistas na cadeia.

Por que essa referência inusitada a episódios tão distantes? Porque do governo Lula pode-se fazer um paralelo: mantém o MST no coração, mas os sem-terra na cadeia…

No caso Proconsult, via Embratel, Armando Nogueira tentou convencer Brizola: “Eu estava em São Paulo, não tive nada a ver com isso”

Muitos dos que acompanham este blog mandaram mensagens pedindo que opinasse sobre Armando Nogueira, em meio ao lamentável festival de lamentos e lamentações, que inundou, abastardou e desonrou a imprensa brasileira. Minha resposta foi simplesmente relatar fatos que envolveram esse “festejado” jornalista, ao qual, já disse aqui, dei seu primeiro emprego, como repórter esportivo no Diário Carioca.

E não há réplica quando se trata de fatos, como fica mais do que demonstrado, porque até agora nenhum “admirador” de Armando Nogueira enviou mensagem a este blog negando as verdades que tenho revelado, ao recordar apenas dois acontecimentos que, por si só, denegririam a carreira de qualquer jornalista. Leiam os comentários e tirem suas conclusões.

Como todos deveriam lembrar (especialmente os profissionais das outras organizações jornalísticas espalhadas pelo Brasil, já que a Globo não tem o menor interesse em reviver os escândalos em que esteve envolvida), em 1982 tivemos o caso Proconsult, uma farsa com participação ativa, decisiva e definitiva da Central de Jornalismo da TV Globo, da qual era diretor o próprio Armando Nogueira. Era um golpe monumental e extremamente audacioso, armado para fraudar a contagem de votos e tirar a vitória de Brizola.

O que a Globo e seus cúmplices (quais seriam?) não sabiam é que o policiamento das atividades da empresa Proconsult (contratada pela Justiça Eleitoral para fazer a “computação” dos votos) estaria a cargo de um delegado impar, inatacável e incorruptível. (Detalhe: esse fato também é rigorosamente verdadeiro e jamais foi revelado por nenhum dos “jornalões”. Tanto tempo depois, estou passando essa informação em absoluta primeira mão. É um fato nunca dantes revelado).

Esse delegado chama-se Manoel Vidal, um nome que honra a Polícia Civil do Estado do Rio. Sua carreira é sem igual. Foi o corregedor mais rigoroso que a Polícia já teve, afastou e processou uma quantidade enorme de policiais corruptos, inclusive delegados, fazendo a corporação “cortar a própria carne”. Depois, ocupou a Chefia de Policia, realizando uma administração exemplar.

Pois bem, ao comandar o policiamento na Proconsult, Dr. Vidal (doutor mesmo, não é “doutor” como Roberto Marinho) percebeu que havia algo estranho, muito estranho. Não demorou a perceber que estava num covil de lobos, disfarçados de cordeiros (um posicionamento que se encaixa na biografia de Armando Nogueira). Imediatamente, Dr. Vidal alertou o delegado Arnaldo Campana, muito ligado a Brizola, que contatou e alertou o candidato do PDT. (Repito, tudo isso é rigorosamente verdadeiro e esses pormenores até hoje jamais haviam sido revelados em nenhum outro veículo de comunicação).

Ao mesmo tempo, a apuração paralela montada pela Organização Jornal do Brasil e comandada por Paulo Henrique Amorim e Pedro do Coutto (nosso colega na Tribuna impressa e aqui no blog) não batia com os números divulgados pela TV Globo.

Ao ver que a vitória, garantidíssima nas urnas, estava sendo ardilosa, escandalosa e criminosamente arrancada de suas mãos, Brizola não titubeou, que palavra. Sem apoio da imprensa nacional (essa mesma imprensa que hoje tanto louva um personagem como Armando Nogueira), procurou os correspondentes estrangeiros e lhes concedeu uma explosiva entrevista.

Houve então o escândalo internacional, que destruiu a farsa e a fraude. Os carros da Organização Globo eram apedrejados nas ruas, uma vergonha imensurável. Gritava-se: “O POVO NÃO É BOBO, ABAIXO A REDE GLOBO”.

Como dizia Maysa Matarazzo, “meu mundo caiu”: a imagem da Globo desabou, levando junto com ela a trama e golpe armado contra Brizola. Seus votos enfim começaram a aparecer na TV Globo, a batalha estava ganha.

No desespero, o que fez Armando Nogueira? Mandou convidar Brizola para uma entrevista ao vivo na TV Globo e dela participou, não de corpo presente, mas através de um “telão”. Estrategicamente, Armando estava em São Paulo, para onde fugira quando o escândalo veio a público. E o que fez na entrevista? (LEIA ABAIXO, NA ÍNTEGRA) Armando simplesmente tentou “convencer” e “comover” Brizola, defendendo a lisura “dos 2 mil jornalistas da TV Globo”) e pedindo-lhe para “desagravar” a emissora. Brizola foi discreto e polido, mas não fez desagravo algum, não retirou nenhuma das acusações que fizera aos jornalistas estrangeiros.

Alguém foi punido? De onde surgiu a Proconsult? Quem a contratou? Quais foram os responsáveis pela trama Proconsult-Globo? Como diria Érico Veríssimo, “o resto é silêncio”.

Armando Nogueira perdeu o prestígio, mas não perdeu a pose. Já não mandava mais nada na TV Globo. Ficou encostado, para alguma eventualidade. e Roberto Marinho “importou” Alberico Souza Cruz, que era diretor de jornalismo da emissora em Minas Gerais e veio fazer no Rio uma dobradinha com o então diretor de telejornais de rede, Woile Guimarães.

O tempo passou, mas nada mudou. Em 1989, Armando Nogueira (ele, sempre ele) e Alberico Sousa Cruz estiveram no centro da polêmica sobre a edição do debate entre os candidatos à Presidência, Collor e Lula. A tristemente “famosa” edição do debate foi ao ar no Jornal Nacional no dia 15 de dezembro, antevéspera do segundo turno das eleições. A TV Globo claramente manipulou o resumo do debate a favor de Collor, mostrando os melhores momentos do candidato e os piores de Lula. Alberico Sousa Cruz sempre negou ter participado do episódio. Será? O testemunho do jornalista Paulo Henrique Amorim (que era editor de Economia da TV Globo na época), reproduzido em comentário de Marcos Vinicius, postado ontem à noite na matéria Assessor de Lula rebate “críticas sobre apoio do Brasil a Cuba, mostra exatamente o contrário. E Armando Nogueira, que então era chefe de Alberico, não sabia de nada? Ha!Ha!Ha!

Poucas semanas depois, logo após a posse de Collor, bem no começo de 1990, quando o assunto já “começara a esfriar”, Armando Nogueira foi demitido e Alberico Souza Cruz assumiu o lugar dele como diretor da TV Globo.

A elegante, educada e até espirituosa
entrevista de Brizola a Armando Nogueira, depois
de ter abortado a fraude da Globo/Proconsult

Segue agora o trecho principal da entrevista de Brizola à TV Globo, em 1982, depois do então candidato do PDT ao governo do Rio ter denunciado o chamado golpe da Proconsult, articulado com participação da Organização Globo para fraudar o resultado das urnas.

A entrevista foi feita pelos jornalistas Paulo César de Araújo e André Gustavo Stumpf, com participação “muito especial” de Armando Nogueira, que não teve coragem de encarar Brizola de frente e se refugiou em São Paulo, de onde apareceu no vídeo via Embratel, como se dizia antigamente (era como se o agora “genial” Armando Nogueira estivesse dizendo a Brizola: “Eu estava em São Paulo, não tive nada a ver com isso”). E o que Armando Nogueira, diretor da Central Globo de Jornalismo, estava fazendo em São Paulo, numa importantíssima eleição, quando na época todo o jornalismo de cobertura nacional da Rede Globo estava concentrado no Rio?

Paulo César de Araújo Um momentinho só, porque agora nós vamos aos nossos estúdios, em São Paulo, onde o nosso companheiro Armando Nogueira tem uma pergunta a fazer ao senhor (Brizola)…

Leonel BrizolaCom muito prazer!…

Paulo César de Araújo – Pois não, Armando…

Armando Nogueira – Boa noite, governador!

Leonel Brizola –
Boa noite!…

Armando NogueiraEstamos acompanhando aqui a sua entrevista, com natural interesse, e a certa altura pareceu que o senhor ficou preocupado, em dado momento da apuração, com a correção do trabalho dos profissionais da Rede Globo, entre os quais eu figuro, humildemente, mas com muito orgulho. E eu perguntaria ao senhor, governador, se é justo que profissionais com um passado, alguns com um futuro, quase todos com um futuro, devam merecer, numa hora de paixão, um tratamento tão rigoroso da parte de um homem público, por parte de quem a gente tem um apreço. Eu gostaria de fazer esta pergunta, que ela é quase pessoal. O senhor me desculpe introduzir uma pergunta pessoal, mas em nome de cerca de dois mil jornalistas… E eu me sinto no dever de fazer essa pergunta ao senhor…

Leonel Brizola
Perfeito. Com muito carinho, com muito prazer, Armando. Sabe que eu dou essa resposta com aquela franqueza que me caracteriza – não é verdade? E nós devemos sempre usar esse método da franqueza, da lealdade. Eu registrei o que era real. Eu não cheguei a entrar no mérito. Eu não cheguei, de forma nenhuma, a considerar que tivesse havido má fé… Não cheguei, absolutamente. Eu registrei uma situação real existente aqui no Rio de Janeiro e também os meus próprios sentimentos. Porque eu senti o nosso Rio, no conjunto, desmerecido. Chegava a ser anunciado: “Olha, logo em seguida, vem o Rio de Janeiro!” E depois vinha o Acre, vinha Rondônia, e nada… Então, eu registrei isto: é que faltava essa informação. Agora, pode ser que tenha entupido… os canais tenham se entupido aí. Havia dificuldades… Porque numa organização grande é assim, às vezes o gigantismo‚ uma doença das organizações. Isto pode acontecer, isto pode ocorrer. Isto sem desmerecer os profissionais., não é verdade? Muitas vezes, grandes médicos vão fazer uma operação e o doente morre. Quer dizer, eu registro o fato, apenas, sem fazer nenhum desmerecimento. E o faço com lealdade, com espírito limpo. E, querendo com isso, que retiremos lições deste fato, porque isto incentivou a muitas coisas, no Rio de Janeiro, desagradáveis. E que nos levou a um trabalho intenso. Eu próprio, daqui, neste momento, Armando, a mensagem que eu dirijo, a todos quantos me ouvem, com a consideração da minha palavra, de uma mensagem minha, que se mantenham tranqüilos, mantenham-se calmos, cabeça fria. A nossa fiscalização não deve se atritar com ninguém; ao contrário, agir com eficiência, agir com uma atenção especial… Vamos trabalhar, no sentido de que a verdade eleitoral flua e surja, seja qual for. E perante ela nós temos que nos curvamos. Lutar, cuidar, para evitar as fraudes, evitar qualquer irregularidade. Vamos honrar a justiça, vamos respeitar, vamos considerar. Fazer com que a justiça paire acima de qualquer suspeita, seja prestigiada. Se não tivermos uma justiça prestigiada, não temos ordem jurídica, não temos democracia, não temos nada; muito menos a verdade eleitoral. Quer dizer. não tome esses meus comentários, Armando, como uma desconsideração, como um desmerecimento aos profissionais. Ao contrário, eu até fiquei admirado como é que um conjunto, uma equipe extraordinária de profissionais, como são vocês todos, pudesse entrar nesse descompasso que houve. E tanto que gerou esse estado de espírito. Mas, felizmente, eu acho que tudo está retomando, compreendeu, aos seus níveis normais. Eu fiquei aqui muito honrado de ouvir essa projeção final, que está canalizando no sentido de um reconhecimento da possibilidade de que a maioria eleitoral se estabeleça em torno de meu nome. Como veria também, se a verdade fosse outra. De modo que não tem nenhum sentido… Eu quero que o amigo Armando Nogueira considere que não há nenhum conteúdo de desmerecimento a vocês todos, que certamente estão trabalhando muitíssimo, no cumprimento dessa nobre tarefa.

Armando NogueiraPois é, governador, eu gostaria que o senhor, já neste estado de espirito de compreensão, o senhor aproveitasse a oportunidade para, ao desagravar a Rede Globo, desagravar também de certa maneira o Tribunal Regional Eleitoral. Porque, o senhor sabe, que, fosse qual fosse a discrepância dos números, jamais os magistrados da Justiça Eleitoral iam se deixar perturbar por uma manipulação. Eu sei o que é a Justiça Eleitoral… E o senhor sabe também, porque o senhor exaltou essa retidão da Justiça Eleitoral, ao longo de toda a campanha, e o senhor sabe perfeitamente que os números que estão chegando agora – eles estão chegando porque eles correm um ritmo normal e não o delírio, governador. Nós não entramos no delírio dos números. Aqui, em São Paulo, também, no primeiro dia, nós ficamos aquém, mas quisemos ficar aquém da fantasia, para ficar de acordo com a realidade, governador. Eu peço licença para não importunar mais a sua entrevista. Vou continuar, como telespectador. Muito obrigado.

Leonel Brizola Não, mas pode crer que foi uma satisfação muito grande contar com a sua participação, sobretudo uma honra maior ainda. Mas eu gostaria de dizer o seguinte: que, agora, sim, nós discordamos. Em primeiro lugar, nunca, em nenhum momento, tanto eu quanto o PDT, pusemos em dúvida a lisura da Justiça Eleitoral. Ao contrário, nós trabalhamos para que ela fosse respeitada na campanha eleitoral. E (ela) foi muito desconsiderada, principalmente por parte do candidato do governo e a sua campanha. E muitos outros setores, que desconsideraram reiteradamente a Justiça Eleitoral. De modo que eu não tenho nada que desagravar a Justiça Eleitoral, Armando. Ao contrário, o meu primeiro passo como candidato foi visitar a Justiça Eleitoral e prestigiá-la. Eu tenho uma tradição de prestígio e de acatamento ao Poder Judiciário. Agora, a minha referência sobre uma possibilidade de fraude não se refere aos juízes; se refere a este submundo que passou a se mover, em função desta confusão que se criou aqui. Porque nós temos indícios muito concretos a este respeito. Então, isto pode se passar, independentemente do cuidado do zelo dos juizes. E depois constatar essas providências é muito difícil. Nas minhas críticas – porque, na verdade, é crítica mesmo, no bom sentido, no sentido elevado. Não tem nada com exaltação, me desculpe, Armando. Pelo contrário, a cabeça aqui, oh… quando começa a adquirir uma temperaturazinha, eu boto na geladeira. Cabeça fria, a minha… Mas como é que eu posso me conformar que vocês computem a toda hora urnas do interior e deixem as urnas da cidade, aqui?… Custa muito mais uma viagem – me desculpe, lá de Campos, lá de Bom Jesus, lá  de Itaperuna, do que uma corrida de automóvel ali em Bonsucesso, ali na Baixada. E isso foi ficando para trás. E eu acho que era uma idéia parelha do resultado das eleições. Isso se foi – alguém teve a intenção de esvaziar, enfim, a projeção dos resultados do Rio de Janeiro, cometeu um erro. Porque, ao contrário, isso vai dar um refluxo, porque agora toda a Nação está acompanhando o que está ocorrendo no Rio de Janeiro. Mas, enfim, Armando, olha, com toda a franqueza, pode crer que, em mim, não existe mais nenhuma restrição a esse respeito. Sempre para mim, do passado recente, remoto, eu colho dele lições. Eu acho que essa é a grande conduta para qualquer um de nós. Pode crer que, assumindo essas responsabilidades de governo, no Rio de Janeiro, nós vamos ter de trabalhar juntos. Nós vamos ser companheiros de viagem. Vamos ter de conviver. Vamos ter de trabalhar juntos por essa comunidade, que vocês aqui têm as raízes sob ela, não é verdade? Então, falar em Rede Globo, falar no Rio de Janeiro, é como falar de uma coisa só. Isso tudo está  entrosado, está interligado. E nós vamos ser companheiros de viagem, vamos trabalhar juntos. Podemos discordar num momento, discordar noutro, mas vai nos sobrar terreno comum de trabalho conjunto, por essa terra e por essa gente querida do Rio de Janeiro.

***

PS – Repararam que, nessa entrevista, Armando Nogueira, já chama Brizola de “governador”? Pena que o texto transcrito não seja capaz de transmitir a emoção do momento, o nervosismo, a hesitação, o gaguejar do hoje “genial” jornalista dos obituários da “grande” imprensa.

PS2 – Nos mais diversos jornais, os responsáveis por esses textos, ao lembrarem a “carreira” do “festejado” jornalista esportivo, mais parecem acometidos de Parkinson ou Alzheimer, não têm memória, simplesmente passaram a borracha na carreira dele.

PS3 – Mas o real Armando Nogueira, esse era muito diferente. Pessoas que o conheceram de perto, como Boni e Daniel Filho, agora misericordiosamente lhe fizeram os maiores elogios. Mas lá no fundo lembram como ele era, sempre se queixando de tudo, reclamando dos colegas e culpando subalternos, a ponto de Walter Clark, que à época dirigia a emissora, ter apelidado Armando Nogueira de “Neném Dodói”. Era assim que o chamavam, rindo dele.

PS4 – Disseram que “Armando Nogueira era genial com as palavras”, mais uma balela ou falsidade. Quando ele afirmou, “agora que a TV Globo está DESAGRAVADA”, queria dizer DESMASCARADA. As palavras têm sentido exato, não podem ser MANUSEADAS.

PS5 – Desculpem, ficou um pouco extenso, mas acho que vale a pena, é um documento que ficará eternamente na internet, mostrando a realidade dos fatos, que não podem ser desmentidos.

Começou a baixaria

Carlos Chagas

Senão abaixo da linha da cintura, ao menos no umbigo eles já começaram a bater. Não parece nada edificante essa nova etapa da sucessão presidencial que vem por aí.

O presidente Lula, cada vez mais encarnado na candidatura Dilma Rousseff, demonstrou que a disputa é com ele, não com ela, ao recomendar a José Serra que meta o pé no barro, mostre que trabalhou mais como governante e não durma até às 10 da manhã. Denunciou uma estranha relação do adversário com “um formador de opinião pública”, sem dizer quem era.

O já hoje ex-governador de São Paulo manifestou repúdio à espetacularização e à busca pela notícia fácil, acentuando nunca haver cedido à demagogia nem incentivado o silêncio da cumplicidade ou a conivência com o mal-feito. Arrematou sustentando que não se pode governar com roubalheira.

Interprete como quiser, quem quiser, mas a verdade é que os contendores já se agridem com virulência, apesar da ausência de citações nominais. Afinal, quem dorme até 10 da manhã, mesmo com a contrapartida de deitar-se às 4 da madrugada? No  reverso da medalha, a roubalheira não se refere ao mensalão e penduricalhos? O que dizer do silêncio da cumplicidade?

Fluindo a corrente como vai, logo a sucessão se transformará num debate marcado pela baixaria e as agressões pessoais entre Lula e Serra, obrigando Dilma a adotar a mesma estratégia. Para evitar a lambança explícita, só mesmo Aécio Neves, cada vez mais próximo de ser levado pelo destino à candidatura à vice-presidência na chapa tucana. Na mesma hora em que o presidente e o governador paulista  trocavam farpas do tamanho de postes, o mineiro aconselhava “superar a lógica do enfrentamento pela lógica do entendimento”. Conseguirá?

Absurdos

Assumiram oito vice-governadores no lugar dos titulares que, desincompatibilizando-se, concorrerão ao Senado. Já haviam sido  reeleitos, não podiam pleitear  um terceiro mandato.

O estranho nessa história é que muitos dos vice-governadores agora  em exercício posicionam-se para disputar os governos, em outubro,  e não precisarão deixar os cargos. Da mesma forma como os governadores de primeiro mandato, em busca  do segundo.

Trata-se de um absurdo, tendo em vista que para pleitear cadeiras no Senado ou, mesmo, a presidência da República, os governadores têm que renunciar. Para reeleger-se uma vez,  não é preciso. Nem eles, nem os prefeitos e nem os presidentes da República. É o que dispôs a emenda constitucional da reeleição, imposta ao Congresso por Fernando Henrique Cardoso, apenas para que pudesse concorrer a um segundo mandato, depois de haver sido eleito apenas para o primeiro. Sem largar o osso.

A hora de se rever essa anomalia está chegando. Poderá constituir   a primeira grande reforma  política promovida pelo novo Congresso, a instalar-se ano que vem.

Jobim  é o favorito

Caso o Supremo Tribunal Federal aprove o pedido de intervenção federal em Brasília, provavelmente dia 23 deste mês,  no governo o nome mais cotado para interventor  é o do ministro Nelson Jobim, que precisaria deixar a Defesa. Caberá ao presidente Lula definir os limites e os personagens da intervenção, capaz de atingir também o Legislativo local. Como não há precedentes na vigência da Constituição de 1988, prevê-se uma negociação  prévia entre o Planalto e o Supremo. Adiantaria muito pouco, assim, a Câmara Legislativa local eleger um governador-tampão.

Fantasmas do passado

No segundo semestre de 1937 a sucessão presidencial estava nas ruas. O governador de São Paulo, Armando de Salles Oliveira, havia renunciado para concorrer pela oposição, representante que era das elites e da oligarquia cafeeira. Getúlio Vargas, então presidente, pensou em  lançar outro paulista para dividir o estado, mas Macedo Soares refugou. Surgiu, assim, a candidatura dita situacionista do ministro da Viação, José Américo de Almeida, com pruridos socialistas.

Na verdade, Getúlio manobrava para permanecer no poder, contando com o apoio das Forças Armadas e alegando o perigo comunista, para ele impossível de ser vencido dentro das normas democráticas da Constituição de 1934. Era tudo uma farsa, aparecendo até mesmo uma denúncia  falsa da tomada do poder pelos comunistas, o Plano Cohen.

A imprensa estava cooptada. Aa elites,  também. Até uma nova Constituição foi elaborada em segredo, de cunho nitidamente fascista.

Os dois candidatos tiveram conhecimento do golpe em marcha. Reuniram-se e lançaram  um manifesto, onde no final apelavam para os militares, “à espera do gesto que mata ou da palavra que salva”. Não adiantou, a 10 de novembro Getúlio criou o Estado Novo e instaurou a ditadura.

Ainda bem que o passado não se repete, senão como farsa. Depois da queda do muro de Berlim desapareceu o perigo comunista. E as Forças Armadas mantém-se completamente afastadas da política…

Decisões processuais na Justiça do Trabalho estimulam novas ações

Roberto Monteiro Pinho

O dano causado pela enxurrada de decisões processuais contra o empregador na Justiça do Trabalho está provocando um fenômeno de novas ações, porque estimula o seu ajuizamento, por conta da notícia de que o ingresso de uma ação nesta especializada é sinônimo de enriquecimento. Na ruptura do contrato laboral, existindo de direito, mesmo diante de injunção legal, é frágil o direito do acionado (rda), no entanto em que pese o assoreamento jurídico aparente, neste instituto de conhecimento (inicial trabalhista), quando se tratar de prova de vínculo, de toda sorte, é preciso se ater à questão da aplicação do bom direito por parte do juízo, até porque neste caso funda-se na idéia de que todo o pagamento que feito sem que seja devido deverá de ser restituído, conforme preceitua o, “Art. 876. Todo aquele que recebeu o que lhe não era devido fica obrigado a restituir; obrigação que incumbe àquele que recebe dívida condicional antes de cumprida a condição”.

Com predominância na fase de execução, quando existe titulo executivo transitado em julgado, no caso de indulgência ao crédito da parte autora, o acionado é  penalizado com a recente reforma do CPC que manda arbitrar, desde logo, em até 20% do valor atualizado do débito (art.601) nas execuções, o que inclui até os juros de mora, ou em até 20% sobre o valor da causa corrigido no processo ordinário (art.18, § 2º). Ocorre ainda que a previsão constante do art. 600, II, do CPC, que considera ato atentatório à dignidade da justiça o do devedor que “se opõe maliciosamente à execução empregando ardis e meios artificiosos”, se traduz em clara expressão da utilização de conceitos abertos e indeterminados, tal como ocorre, por exemplo, no tratamento da litigância de má-fé pelo Código (art. 17).

No ensinamento de Pontes de Miranda: “em todos os atos a que o art. 600, II, alude, há a má-fé, que o juiz deve reprovar”. Este é o pensamento universal quanto ao devedor litigante de má fé no processo em que é acionado, do outro lado, quando sucede ao contrário, em que à parte autora simula uma falsa lide para tirara proveito dos meandros da justiça e da própria lei, pouco temos.

O fato é que o processo trabalhista se move igual a “centopéia”, que pode chegar a 320 patas, isso porque são inúmeros os tentáculos que flexibilizam as ações dos seus magistrados, a maior parte com o objetivo de tirar do ”rico para dar ao pobre”, numa reedição avançada “do ind dúbio pro misero”, mesmo nos casos do clássico da doutrina, em que existindo dúvida sobre a interpretação de uma regra jurídica de Direito do Trabalho, se opta por aquela mais benéfica ao trabalhador.

Este formato de cunho sociológico purista e de recheio populista, nivela o Direito do Trabalho, na ótica dos juristas, porque, “tem como finalidade compensar as desigualdades econômica e jurídica existentes na relação entre capital e trabalho, mediante a criação de outras desigualdades de natureza jurídica e segundo a dignidade do trabalhador”. Há quem questione as injunções detectadas nos processos do trabalho, sendo essas fruto a insipiência da CLT, que não fornece a ferramenta necessária para gerar uma execução de qualidade, trazendo como conseqüência à morosidade na solução do conflito.

Existe no universo das relações de trabalho, uma remota possibilidade de se admitir o instituto da jurisdição voluntária, que traz à baila a discussão sobre ser correto ou não falar em jurisdição quando não há lide. Aliás, a jurisdição graciosa, de regra, (que já existe na especializada), pressupõe a inexistência de conflito, visto que nessa ocasião o Poder Judiciário terá uma atuação meramente administrativa, conforme entendem alguns autores, apenas cuidando para que a vontade das partes prevaleça, porém sem ofensa a interesses públicos. A questão é bem polêmica, visto sabermos que o Judiciário Trabalhista tem se mostrado relutante em admitir tal prática, a par da ausência de previsão legal na CLT. Convém registrar que a Constituição Federal, por meio de seu artigo 114, parágrafo 1º, previu a aplicação da arbitragem para a solução de conflitos coletivos de trabalho, no qual sua aplicabilidade está condicionada ao insucesso da negociação coletiva, note-se que não faz referência aos dissídios individuais. De acordo com essa permissão constitucional e baseado-se na Lei 9.307 de 24 de setembro de 1996, que dispôs novidades ao instituto da arbitragem, regulando-a e viabilizando-a, como meio de incrementar as opções de soluções de conflito e desafogar o Judiciário, enquanto possível.

Preocupante resistência corporativista

Então se houvesse, mas não existe esta possibilidade na JT, da aceitação dos acordos realizados nos escritórios de advocacia dentro do formato jurídico da arbitragem, mesmo que este viesse dar oxigenação da linha doutrinária da magistratura do trabalho, nas questões individuais da relação de trabalho, onde existir bem disponível. Já existe uma linha filosófica no seio da advocacia, que este formato de solução de conflitos individuas no ramo laboral, poderia ser objeto de solução pacifica através deste moderno instituto da arbitragem, da mesma forma que é admitida e enfrentada no colegiado do SEDI.

Pelo que se analisa, admite-se que mesmo que tal procedimento estive condicionado a homologação no judiciário laboral, porque ainda sim seria operante e altamente saudável para a celeridade processual e de forte assessoramento ao plano de metas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que pesquisa meios para atender a demanda de ações. Isso porque estaria este reexame da matéria negociada na arbitragem, sanada a fim de evitar enriquecimento ilícito e requerida à compensação nos termos do art. 767/CLT.

Embora este meio voluntário de solução de conflito estar próximo da conhecida lei da Arbitragem n° 9.307/96, enquanto ao examinar o CPC, e seu arsenal de subsídios, e fácil reconhecer porque este importa o artigo 769 da CLT. Ele prevê que o direito processual comum será aplicado a Justiça do Trabalho de forma subsidiária exclusivamente naquilo em que for compatível com as normas previstas no Título X (Do Processo Judiciário do Trabalho) da CLT, e em casos de omissão. Resta saber se o CPC, como norma subsidiária do direito trabalhista teria aplicação no tocante (ex vi art. 769 da CLT) a fazer com que seja admitido pela Justiça do Trabalho procedimento em que se dirijam as partes a tal Órgão, não com o intuito de dirimir um conflito (dissídio), mas na intenção de verem homologado um acordo celebrado extrajudicialmente, na pratica por assistência de advogados, sem que neste documento fosse necessária a interferência do Estado-juiz, conforme vem ocorrendo. Este capitulo teria o anteparo do próprio judiciário, servindo do art. 129 do CPC, que é claro ao dispor que: “Convencendo-se, pelas circunstâncias da causa de que autor e réu se serviram do processo para praticar ato simulado ou conseguir fim proibido por lei, o juiz proferirá sentença que obste aos objetivos das partes”.

Pesquisando o arsenal doutrinário no universo do direito, encontramos o pensamento do mestre Cândido Rangel Dinamarco a “jurisdição voluntária é a atividade jurisdicional destinada a pacificar pessoas mediante a tutela a uma delas ou a ambas, em casos de conflitos postos diante do juiz sem confronto entre possíveis direitos de uma ou de outra”. O mesmo autor sinaliza que a jurisdição voluntária não consiste em dirimir diretamente conflitos entre as pessoas, visto não serem julgadas pretensões antagônicas; mas destina-se a dar tutela a uma das partes ou a ambas, conforme determine o ordenamento jurídico.

Está patente e facilmente perceptível que o Estado-juiz, mesmo quando não atua em atividade tipicamente contenciosa, de qualquer forma acaba por contribuir com a pacificação social na medida em que dá aos particulares a certeza de que, com a interferência do Poder Judiciário em uma determinada relação jurídica, ter-se-á a garantia (mesmo que relativa) que esta se norteará pela obediência ao ordenamento jurídico, daí não havendo confronto ideológico, sob a saga da proteção insana ao hipossuficiente e não a concepção de apaziguamento da questão, teremos a solução do conflito, sem estender a ação pelo meio da severa gramática jurídica.

È fato que existe uma linha tênue neste modelo de solução de controvérsia extrajudicial, conforme alerta Rosemary de Oliveira Pires ao asseverar que: “Há quem venha defendendo, ainda, a possibilidade de homologação judicial de transação extrajudicial, sustentando ser forma de jurisdição voluntária admissível no processo trabalhista, à luz da conjugação do art. 114 da Constituição Federal, do art. 57 da Lei nº 9099/95 e do inciso III do art. 584 do CPC”. Contudo, dando sua opinião sobre o assunto, registra o seguinte, referindo-se ao posicionamento mencionado: Todavia, de tal entendimento não compartilhamos, pois que a jurisdição voluntária, repita-se, deve ter previsão legal expressa e, para isso, não é suficiente a disposição contida na Lei nº 9099, de 26.12.95, já que este regula, com especificidade, apenas os Juizados Especiais Civis e Criminais e, assim, não pode ter sua aplicação estendida para a Justiça do Trabalho, não autorizada a exegese ampla do art. 114 da CLT.

A nebulosa que esconde a questão deste modelo proposto reside única e exclusivamente no ponto em que ninguém é antes provado ser honesto, sem que por seu ato este seja honesto, daí entender que não existe valia na ação empreendedora da solução de conflitos pela via da arbitragem é o mesmo que condenar, antes mesmo de analisada a questão exposta.

Assessor de Lula rebate “críticas sobre apoio do Brasil a Cuba

Como sempre, Marco Aurelio Garcia vê as coisas usando óculos bifocais com lentes trocadas. Ninguém ficou contra “o apoio ao país Cuba”.

O que repercutiu miseravelmente, a palavra é essa, foi o fato do presidente ter chamado resistentes em greve de fome, de BANDIDOS. Isso é inaceitável, incraditável. Lula deveri pedir desculpas.

Dificuldades adiam definição da candidatura de Meirelles às vésperas da desincompatibilização

Denise Rothenburg e Luciano Pires

Nem a vice de Dilma nem o sucessor no Banco Central. Nas conversas palacianas que manteve nos últimos dias, Henrique Meirelles não obteve do presidente Lula o que mais desejava e ainda viu crescer o risco de não emplacar o Diretor de Normas, Alexandre Tombini, como futuro presidente do BC.

Nas últimas 24 horas, Dilma Rousseff defendeu a nomeação do secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, para substituir Meirelles. Assim, sem a  garantia de que Lula moveria montanhas para fazer dele, Meirelles, companheiro de chapa de Dilma, e sem Tombini no Banco Central, Meirelles arremeteu e sua saída do BC vai tentar nas próximas horas demover Lula de nomear Barbosa.

Na dúvida, Meirelles foi ao gabinete do presidente ontem à tarde. Mas Lula não o recebeu, porque estava reunido com o senador Osmar Dias (PDT-PR), tentando atraí-lo para a montagem do palanque de Dilma no Paraná.


Mario Filho, o maior jornalista esportivo de todos os tempos, morreu sem ninguém saber

Esse, sim, eterno, escrevendo, criando, (os Jogos da Primavera), com um livro extraordinário e insuperável, devia ser reeditado, para distribuir entre os jovens, “O negro no futebol brasileiro”. É a maravilhosa história das nossas raízes no futebol.

O Estádio do Maracanã só saiu por causa dele, o prefeito Mendes de Moraes queria construir dois: um público e outro privado, nas suas contas pessoais. Merecidamente o Maracanã tem o nome dele, por favor, substituir ou trocar o nome, de maneira alguma.

Chegando da Copa de 66 na Inglaterra, (a única na qual o Brasil foi eliminado na primeira fase) Mário Filho morreu, quase que ignorado. E era dono do Jornal dos Sports, que informou e formou gerações e gerações.

O primeiro serviço de Armando Nogueira, já não muito moço, aos 23 anos, foi cobrir a chegada da seleção da Iugulsávia para a Copa de 50. Deu trabalho para o copidesque, que então dominava as redações.

Verdade seja dita, ele não sabia que era tão genial quanto o descreveram ou exaltaram. Até um título tolo e sem qualquer mérito, foi desenterrado quando ele morreu: “O homem que driblou a morte”. Quanta besteira, Armando Nogueira. Títulos altamente criativos, vou citar dois, poderia lembrar uns 100.

Joel Silveira, o maior repórter de todos os tempos, aos 19 anos chegava de Sergipe e escrevia, “Os grã-finos de São Paulo”, não parou mais. Fez entrevista com o deputado Domingos Velasco, socialista e católico, colocou o título inesquecível: “Na esquerda, com Deus”. Ou então na Tribuna da Imprensa, durante a ditadura, quando o “governador” de São Paulo e o do Rio almoçaram: “Chagas e Maluf se encontram, a polícia não aparece”.

Não foi poeta, e genial poucos são. Não escrevia, com dificuldade alinhavava as palavras, soletrava, se empolgava e se deslumbrava. Ao contrário de Mario Filho, viveu na época da televisão. Soterraram-no de impropérios que pretendiam consagradores, mas esqueceram precisamente a televisão.

Dois dos episódios jornalísticos mais vergonhosos da televisão, levam a marca de Armando Nogueira. Não era por maldade, (nada a ver com o filme, “A marca da maldade”, de Orson Welles) e sim por ser impossível para ele e para muitos, ultrapassa o que estava dentro dele, a convicção de ser sempre servo, submisso e subserviente.

Em 1982 cumpriu tudo o que seu mestre mandava, tentou de todos os modos e maneiras fraudar o resultado das eleições, convencer a opinião pública de que Brizola não ganhara a eleição. O próprio Brizola, indomável, foi à sede da “Vênus Platinada”, recuperou a eleição que havia ganho nas ruas. Espertíssimo, Roberto Marinho devolveu a eleição para Brizola, nem consultou “seu diretor”.

Não teve coragem de pedir demissão, a subserviência foi sempre maior do que a consciência. Ficou diretor sem mandar nada, com Roberto Marinho ninguém mandava, esqueceram disso. Até que chegou o fim em 1989.

Com a eleição direta para presidente, (depois da ditadura, surgiu o primeiro debate, copiando o de Kennedy-Nixon em 1960) entre Lula-Collor, no segundo turno. Até hoje o fato é lembrado. A TV Globo repetia 1982, se julgava, como se julga até hoje, invencível, inviolável e imperturbável. Editou o debate, de forma vergonhosa, espantosa e até delituosa.

Perdeu, mas era comum em Roberto Marinho, jogou toda a culpa em Armando Nogueira, o que era pelo menos 70 por cento verdadeiro. Ficou vagando por aí, divagando nas palavras que nem imaginava que fossem geniais, só vai saber agora, já está sabendo, surpreendidíssimo. Devia haver um limite para elogio póstumo, principalmente disparatado e inverídico.

Já contei: o grande poeta (esse, verdadeiro e dos maiores) Manuel Bandeira, gostava de escrever conversando com ele mesmo. Perfeccionista, quando não gostava, rasgava e dizia: “Quanta besteira, Manuel Bandeira”. Com ele em vida, comparei, criei, repeti: “Quanta besteira, Armando Nogueira”.

Conheço meus personagens. Coisa que não acontece com os exibicionistas, que na fúria de aparecerem, enterraram o jornalista, chamando de genial. Se fosse em Portugal, diriam apenas: “Bestial, pá”.

***

PS – Respondendo a muitos que perguntam (justamente) se o fim de Armando Nogueira foi em 1982 ou em 1989. A queda e o desgaste começaram com o fiasco e o fracasso de 1982, Brizola tomou posse, Roberto Marinho acreditava que ele fosse se vingar.

PS2 – 1982, “foi a primeira ruga na face do personagem”. Como disse antes, foi mantido, apesar de execrado. 1989 foi o envelhecimento e o envilecimento, nenhum jogo de palavras, Roberto Marinho se cansara de servos, submissos e subservientes.

Não deixe de ler amanhã:
A elegante, educada e até espirituosa
entrevista de Brizola a Armando Nogueira, depois
de ter abortado a fraude da Globo/Proconsult

Palavras de Lula ao passar o cargo

Será cerimônia tristíssima para ele, alegríssima para os outros, que só podem ser Dilma ou Serra.

(Lula poderia fazer como Floriano, que não entregou a faixa a Prudente. Copiando Figueiredo, que saiu pelos fundos do Planalto para não encontrar com o ex-amigo Sarney. Ou Lacerda, que renunciou para não ver o inimigo Negrão).

Lula entregará o cargo, quer aparecer mais uma vez. Para Serra, dirá: “Nos vemos dentro de 4 anos”. Para Dilma: “Enfim, sós”.

‘Los tres hermanos”

Lula não gostou da capa da revista “Brasília em Dia”, onde aparece caricaturado pelo excelente William, ao lado de Fidel e Raul Castro. Tentou protestar e reclamar, no fim de governo não é boa idéia.

Remédios mais caros

20 mil remédios terão os preços aumentados. Como quanto mais velho, menos dinheiro da aposentadoria e mais necessidade de medicamentos, e fácil descobrir quem será atingido. E Lula, fica em silêncio?

Fogaça, dois palanques

Senador não reeleito, se elegeu e se reeelegeu prefeito. Agora, candidato a governador, sobe no palanque de Dona Dilma, ao mesmo tempo que desce no de Serra.

A governadora em exercício, não se reeelege nem que a eleição vá para o terceiro turno.

Campanha eleitoral na internet

Terá enorme importância na internet. O PT e o PSDB estão recrutando pelo menos duas mil pessoas (cada um) para utilizar essa ferramenta. Ficarão encarregados de plantar notas e responder ao que bem entenderem.

A grande vantagem, e ao mesmo tempo desvantagem da internet, é o anonimato ou a possibilidade de esconderem o nome. José Serra e Dilma Rousseff podem aparecer como Osvaldo Horatio ou Madalena de Jesus. Muito cuidado, total fiscalização, nenhuma censura.

Em campo o time reserva

Carlos Chagas

Com todo o respeito aos dez secretários-executivos e chefes de gabinete  ontem transformados em ministros, a pergunta que se faz é contundente: alguém, fora da Esplanada dos Ministérios, já ouviu falar deles? Os nomes relacionados pelos jornais não dizem nada, em termos políticos. E os ministérios, desde o Império, são organismos eminentemente políticos.

O resultado é que o presidente Lula, na reta final de seu governo, acaba de compor um miniministério.  Botou em campo o time reserva, mesmo ciente de que os minutos finais da partida são os mais importantes para a vitória ou a derrota no campeonato.

As devidas desculpas, mesmo sem citações nominais, também vão para os ministros que ficaram, com raras exceções, da mesma forma carentes de expressão política.

A gente se pergunta o porquê desse ato final do primeiro-companheiro. Será porque fica mais fácil para o técnico orientar auxiliares ainda não consagrados pela crônica esportiva? Senão pernas-de-pau, ao menos um conjunto  inexperiente que põe um olho na bola e outro no treinador.

Quando deputados ou senadores consagrados pedirem audiência para forçar benesses, favores e nomeações, terão os novos ministros condições de rejeitar? Sempre será possível que revelações apareçam, mas fácil não parece.

Poderia ser diferente? Claro. Mesmo sabendo que os políticos profissionais disputarão a reeleição, impedidos por isso de integrar o ministério, bem que o presidente Lula poderia, até para coroar seu governo, lançar mão de luminares, de cidadãos apolíticos com destaque  nas diversas atividades a que se dedicam. Formaria uma seleção digna de ganhar a Copa do Mundo. Como preferiu, mesmo, escalar um time de  reservas, corre o risco de enfrentar arquibancadas vazias no fim da partida.

O rolo compressor

Tem gente sem dormir, em Brasília, em especial depois que o delator Durval Barbosa ameaçou metade dos políticos locais  com um rolo compressor. Locais e nacionais, ressalta-se, porque a boataria envolve até altos  dirigentes  de partidos supostamente brindados com regalos pecuniários do ex-governador José Roberto Arruda. Enquanto habitava o mundo dos vivos, ele imaginava altíssimos vôos, como tornar-se companheiro de chapa de José Serra, indicado pelo DEM. Também tratava do “Plano B”, que seria sua reeleição, necessitando para isso do apoio do PMDB. Que se cuidem os donos desses dois partidos. E de outros, porque Durval Barbosa mostra-se disposto  a jogar barro no ventilador.

Marmita requentada

Marina Silva chegou à perigosa conclusão de que só crescerá nas pesquisas caso venha a bater  firme no governo. Sua definição sobre o PAC II é contundente: “marmita requentada”. Desfaz-se aos poucos o ameno clima que marcava o relacionamento da candidata com o presidente Lula. Como Ciro Gomes vem poupando cada vez menos o PT, e José Serra logo assestará sua metralhadora sobre os detentores do poder, Dilma Rousseff ficará  sozinha na trincheira, com a função de rechaçar a invasão.

Aquilo que o governador Aécio Neves sustenta ser exclusiva característica de Minas, onde não existem inimigos, mas apenas adversários, ameaça desfazer-se na sucessão presidencial. Daqui até outubro chumbo grosso cruzará o céu da disputa. Tomara que ninguém saia mortalmente ferido.

Primeiro de abril

Hoje é primeiro de abril. Que tal imaginarmos a realização em Brasília da mais formidável reunião de líderes mundiais, sob a presidência do Lula, para a celebração da paz e da concórdia no Oriente Médio? Ou o compromisso dos presidentes dos Estados Unidos e da Rússia de destruírem em quinze minutos todo o seu arsenal atômico? Por que não se supor um pacto mundial pela extinção do terrorismo? Mais a destinação de metade da riqueza mundial  para a recuperação dos países pobres e miseráveis?

Aqui no Brasil, então, nossa imaginação não teria limites: a prisão de todos  os implicados no mensalão; a devolução dos recursos destinados pelo governo às ONGs fajutas; a realização de todas as promessas contidas no PAC I;  a dissolução dos partidos políticos cujos dirigentes se envolveram em maracutaias; a utilização em escolas e hospitais dos bilhões carreados pelo governo em publicidade e propaganda… E quanta coisa a mais?

Lula afasta-se mais de Cabral

Pedro do Coutto

As declarações do prefeito Lindberg Farias – O Globo de 30 de março – anunciando que, no Estado do Rio de Janeiro, o presidente Lula pedirá votos para sua candidatura a senador e também para a reeleição de Marcelo Crivella, reportagem de Cássio Bruno, evidentemente garante a reeleição do representante da Igreja Universal, que sempre alcança 20 por cento nas votações de que participou. E deve também assegurar a vitória de Lindberg Farias, escolhido candidato único do PT, quando pela lei a legenda pode concorrer com dois nomes, já que são as duas vagas em jogo.

Isso de um lado. De outro, a afirmação de Lula o aproxima mais de Anthony Garotinho e o distancia de forma acentuada do governador Sérgio Cabral. Por que isso? Simplesmente porque Cabral apóia Jorge Picciani, do PMDB, para o Senado, o principal atingido pela afirmação do presidente. Os votos que Picciani vai perder em conseqüência da opção de Lula vão se refletir é claro, não apenas nele, mas na chapa que integra como companheiro inseparável do governador, desde o tempo em que o primeiro presidia a Assembléia Legislativa e o segundo ocupava o cargo estratégico de primeiro secretário em matéria de administração interna da Casa.

Lula pedindo votos para Lindberg atinge Sérgio Cabral de forma indireta, quebrando a base de Picciani no interior do Estado. Base das mais possantes, uma vez que, com ela, conseguiu que seu filho Leonardo alcançasse 170 mil para deputado federal. Ter 170 mil votos não é brincadeira. O milionário Ronaldo Cesar Coelho elegeu-se com 50 a 60 mil votos. Portanto, o esforço em favor de Leonardo foi quase três vezes maior. Dose para dinossauro.

Sem o apoio de Lula, os recursos eleitorais de Picciani não valem nada. Não serão suficientes para elegê-lo nem em segundo lugar, porque inclusive existe ainda a candidata do Partido Verde, Aspásia Camargo, que, a meu ver, deveria ser substituída por uma pessoa mais afirmativa como a vereadora Teresa Bergher, muito mais disposta ao combate do que a postura fria e defensiva de Aspásia. Mas esta é outra questão.

O principal é que o apoio de Lula a Marcelo Crivella, que por sua vez já tem o apoio de Wagner Montes, para quem trabalha na TV Record, deixará o bispo forte demais, praticamente imbatível. Picciani, sem Cabral, ou com Cabral enfraquecido, não representa nada.

O poder econômico pode pesar para as eleições proporcionais. Mas nenhum efeito produz em disputas majoritárias. Se fosse assim, Ermírio de Moraes não teria perdido o governo de São Paulo para Orestes Quércia em 86. E perdeu. O que provavelmente aconteceu foi de Lula ter se irritado com Sérgio Cabral com a sua infeliz declaração de que não votaria em Dilma Rousseff se a chefe da Casa Civil subisse no palanque de Garotinho. Ora, um presidente da República não pode receber ameaça e menos ainda ultimatos desse tipo. O resultado aí está: o apoio a Lindberg, que é do PT, mas paralelamente o apoio a Crivella que pertence aos quadros do PR.

No episódio – que para Noel Rosa foi um palpite infeliz – Sérgio Cabral pode ter jogado fora, pela janela do destino, a sua reeleição ao Palácio Guanabara. Inclusive porque ele lidera o páreo até agora, mas o segundo turno contra Gabeira ou Anthony Garotinho passou a ser ainda mais certo agora.

Política é como a vida humana. Os episódios nunca se encerram em si. Continua, produzem reflexos, projetam-se no espelho dos fatos que, como todos os reflexos, trocam as imagens de um lado para outro. Marcelo Crivella surge como o primeiro vitorioso nas eleições do Rio. E, claro, vai apoiar Dilma Rousseff. Antes de Cabral fazê-lo. O governador cometeu um gol contra si mesmo terrível.

Roberto Marinho, Armando Nogueira, a Proconsult

(Trecho do livro “Brizola Tinha Razão”,
do jornalista FC Leite Filho)

“No dia 18 de novembro de 1982, inconformado com a demora na divulgação dos resultados da eleição, em que era tido por todos como candidato vitorioso ao governo do Rio de Janeiro, Leonel Brizola procurou a imprensa internacional para denunciar uma tentativa de fraudar a apuração e declarar eleito o candidato do PDS Moreira Franco.

Mais tarde, o candidato do PDT foi à sede da Rede Globo de Televisão, no Jardim Botânico, no Rio, e exigiu espaço para falar. Ele via na emissora o braço direito da conspiração, pelo modo faccioso com que se comportou, ao desconhecer os resultados favoráveis a Brizola, que eram corretamente projetados pelo Jornal do Brasil; e a Rádio Jornal do Brasil.

Como se verificou depois, segundo denúncias que também partiram de funcionários da própria Rede Globo, as Organizações Globo, juntamente com o SNI estavam envolvidas naquilo que mais tarde se tornou conhecido como a Operação Proconsult.

Esta operação, que levava o nome da empresa encarregada de proceder à apuração do Rio de Janeiro, a Proconsult-Racimec – de propriedade de antigos oficiais de informação do Exército – tinha como objetivo virar na marra os resultados em favor do candidato do Governo federal na época, Moreira Franco.

A estratégia consistia em sonegar os resultados da capital, a cidade do Rio, que reúne mais de dois terços do eleitorado do Estado, e onde Brizola obteve cerca de 70% dos votos, e só divulgar uma média das apurações do interior, onde Moreira era majoritário, com as da periferia e parte da capital, de modo que situasse sempre Moreira Franco à frente dos votos. Isto era para infundir no público a convicção de que Moreira Franco e não Leonel Brizola ganharia a eleição.

Da contenção dos resultados da capital, a Proconsult passaria para a inversão pura e simples dos mapas eleitorais, em favor de Moreira .Franco, na proporção que o público fosse trabalhado subrepticiamente pela Rede Globo a achar que o candidato do PDS, que já fazia declarações nas emissoras de rádio e televisão na qualidade de virtual governador, tinha sido mesmo o vitorioso.

As denúncias de Brizola, que logo chegaram à opinião pública nacional acabaram provocando grande impacto popular, com reações nas ruas do Rio contra os veículos das Organizações Globo, que não incluam somente a televisão, mas o jornal O Globo e a Rádio Globo.

Pressionada por aquilo que ameaçava se transformar numa rebelião popular de proporção nacional contra a Globo, a emissora não teve outra saída, senão conceder espaço a Brizola para fazer a denúncia e abortar a conspiração contra as urnas, em plena cidade do Rio de Janeiro. E isto foi feito no horário de depois das 22 horas daquele dia 18 de novembro de 1982.

Ali mesmo, Leonel Brizola assegurou a verdade eleitoral. Logo depois de sua entrevista, á tarde, aos correspondentes estrangeiros, a Globo passou a admitir que Brizola encaminhava-se para chegar à frente dos votos e não mais Moreira Franco, como a emissora vinha insinuando, desde o início da apuração, que tentou esconder, juntamente com o SNI.

Até à noite de 18 de novembro, os resultados chocavam-se violentamente com os da Rádio Jornal do Brasil;, que projetou a vitória de Brizola sobre Moreira Franco, com mais de 100 mil votos de vantagem, desde o término da votação, no dia 15 de novembro.

A fala de Brizola na Rede Globo teve um efeito tão fulminante que a emissora se viu obrigada a suspender, no outro dia, 19 de novembro de 1982, toda a programação eleitoral, que incluía inserções quase de hora em hora sobre a marcha da apuração, a partir de um grande aparato, em que havia até computadores dentro do estúdio, para manuseio dos apresentadores. Os resultados eleitorais passaram então a ser divulgados, agora com correção, dentro dos telejornais.”

Comentário, rigorosamente verdadeiro, de Helio Fernandes:
Na TV Globo, o comando era de Roberto Marinho, através de Armando Nogueira. No Jornal do Brasil e Rádio Jornal do Brasil, o trabalho jornalístico era feito por Pedro do Coutto e Paulo Henrique Amorim, que mais tarde passou para a própria Globo.

Como não gostava de perder, Roberto Marinho demitiu Armando Nogueira, que era Diretor de Jornalismo da televisão, ficou no ostracismo. Anos mais tarde, entrou na SporTV, cuidando apenas de fatos esportivos.

***

PS – Quem lançou Armando Nogueira no jornalismo foi este repórter. Dei a ele o primeiro emprego, na seção de esportes do Diário Carioca. Eu era chefe de Redação, acumulando com o comando da página de esportes.

PS2 – Eu e o Horacinho de Carvalho (dono do jornal), íamos fazer uma revista de esportes, eu já havia até registrado do título, XUTE, assim mesmo, sempre gostei de revistas com 4 letras no título: Life, Time, por aí.

PS3 – Tenho os dois livros do Armando Nogueira, com dedicatórias enormes, “Meu mestre, meu máximo mestre”, e vai por aí. O que aconteceu com ele, e com outros, (como Evandro Carlos de Andrade), é que entravam para a Organização Globo, me evitavam, com receio do doutor Roberto Marinho, que eu combati a vida inteira.

PS4 – Basta isso, poderia ir muito mais longe, não entro nesse Maracanã de lamento sem lamentação mas lamentável.