José Serra, no mesmo dia da segunda derrota presidencial, anunciou todo satisfeito: “Isto não é uma despedida, um adeus, e sim um até logo”. Aécio queria esperar, decidiu: “Minha hora é agora”.

Helio Fernandes

Com esse ministério trivialidade-inutilidade-interinidade, a oposição (ou seja lá o que representa a palavra num regime “presidencialista-pluripartidário”) despertou. Não era letargia, apenas silêncio, para não desfechar ou ratificar a crise interna do PSDB.

Mas Aécio, que só pretendia agir depois da posse de Dona Dilma, percebeu, foi aconselhado a quebrar o silêncio imediatamente, mostrar ao país, “o líder do PSDB sou eu, e com isso acumulo a liderança de toda a oposição”.

José Serra não tem charme, carisma, liderança, já conseguiu na vida pública (e logicamente particular) muito mais do que merecia. Foi tudo inesperadamente, até ele acreditou que poderia ser presidente da República, o que faltava no “currículo”.

Não enganou ninguém. Desde 2002, digo, “Serra jamais será presidente”. Lógico, era análise e não adivinhação. Embora não seja brilhante nem tenha passado (nem presente ou futuro) de analista-estrategista, o que Serra afirmou no dia da derrota final (e está no título destas notas) foi uma boa jogada e deu margem a várias interpretações.

Amigos e inimigos, correligionários e  adversários identificaram como provocação. Até podia ser, mas pela primeira vez Serra fazia jogada inteligente (!), que confundiu até mesmo seu grande protetor, Fernando Henrique Cardoso, a quem deve tudo. (O resto veio com o exílio, no qual conquistou 300 títulos sem autenticidade e que nenhuma Universidade ou autoridade do Brasil reconhece).

Enquanto Serra “sofre” dependendo da longevidade, o ex-governador e agora senador de Minas, é atingido pelo mesmo “sofrimento”, só que na contramão. Todos dizem há anos: “Aécio é muito moço, pode esperar”. Mas na verdade já não é tão moço, já foi.

Governador de Minas aos 42 anos, reeeleito com 46, na certidão de nascimento está com 50 anos, mas na realidade eleitoral e política, tem 54. Pois a próxima eleição presidencial será em 2014. E para o “jovem” Aécio só restou essa disputa, não há nenhuma outra possibilidade.

Mas no Brasil político e eleitoral, existe uma figura que assusta todo e qualquer possível adversário. Seu nome? Luiz Inácio Lula da Silva. O ex-governador de São Paulo já cumpriu a sua cota de derrotas para o mesmo vencedor. Sonha com o terceiro “enfrentamento”, em 2014, estaria com 72 anos, Lula com 69. Mas a diferença não estaria na idade e sim no destino.

Não é por acaso e sim por destinação, que alguém como Lula disputa cinco (5) vezes seguidas a presidência da República, três (3) vezes é derrotado, mas não é destruído. Continua, ganha duas vezes, tenta e não consegue outro mandato, mas deixará o governo (deixará também o Poder?) COGITADÍSSIMO para novo mandato, dependendo das circunstâncias.

Dá a impressão de estar se divertindo muito, ao contrário de Sarney e FHC, que vivem o último ciclo da amargura, ressentimento, no limite da depressão. Que já exibem, e não fortuitamente, que palavra.

Serra, bem ao contrário, não consegue definir “o que aconteceu comigo”, confissão que faz a amigos, entre os quais não inclui o ex-presidente FHC. O candidatíssimo Aécio Neves também não considera FHC e Serra grandes e visíveis amigos.

Isso é fácil de explicar e resumir, constatando as caminhadas do ex-governador de Minas, ao assumir publicamente que é candidato a presidente em 2014, sem ter a obsessão ou a necessidade de sair vencedor. Pode ter nova oportunidade em 2018, com 58 anos, idade que terá dentro de oito anos, e que todos já ultrapassaram agora.

Não estou fazendo divagações e sim analisando os fatos, nomes e circunstâncias que estão aí. Aécio foi a São Paulo, almoçou com FHC, conversou (no palácio) longamente com Alckmin, não procurou nem deu um simples telefonema para José Serra. Esquecimento? Descuido? Poderia mandar para Serra um simples “correio eletrônico” (detesto e-mail), que não precisa nem exige resposta, a não ser também dessa forma impessoal.

Depois, Aécio foi a Brasília, e com quem esteve longamente? Com o senador (vitorioso) Agripino Maia, líder do DEM. E já escolhido presidente do partido, contra a EXTINÇÃO desse DEM. E não foi por acaso que Aécio FORTALECEU a posição dos que querem manter o DEM, e não destruí-lo.

(Como fez o prefeito Kassab, que se aproveitou do DEM (para obter a legenda), do PSDB de Serra (para vencer), e agora trabalha para abandonar tudo e todos e se mudar para o PMDB. (Por isso, o prefeito de São Paulo esperava a visita de Aécio, ficou no mesmo vazio de José Serra).

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PS – Puxa, Nossa Senhora, tanta coisa vai acontecer e já está acontecendo, esta é apenas “uma visitação” aos fatos.

PS2 – Mas haja o que houver, Aécio está respondendo ao discurso de Serra depois da derrota para Dilma.

PS3 – Aécio está deixando bem claro para Serra: “No que depender de mim e do PSDB, você não está dando adeus nem até logo. Sua saída da vida pública aconteceu sem DESPEDIDA e sem SAUDADE.

Lobão assumirá Minas e Energia, mesmo irregular

Helio Fernandes

Não será vetado, por total impossibilidade. Talvez cumpra um ano de mandato e seja substituído. É irregular desde que nasceu, foi perdendo o constrangimento com a convivência e a intimidade com Sarney. Embora este tenha enriquecido mais e primeiro.

(Além de Lobão, Sarney “emplacou” no ministério um deputado só lembrado agora, aos 80 anos. Exatamente a idade da depressão de Sarney, que preside do Senado com as mãos trêmulas, mas as exigências, firmes).

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PAI E FILHO, AMBOS “FERRARISTAS”

O filho Lobinho, suplente e tão enriquecido quanto o pai. Com Lobão Ministro, (ninguém teve cacife para punir ninguém do PMDB), assume no Senado o filho, que não disputou eleição, é suplente, como no mandato anterior.

Lobão e Lobinho andam em velocidade pelas ruas de Brasília, sempre de Ferrari. Mas não confundam as coisas: cada um tem a sua Ferrari, não admitem andar de “carona”.

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DESPRESTÍGIO E DESGASTE DO PMDB

Se esse ministério continuar no ritmo em que vai, não dura nem o ano todo de 2011. Com raras exceções, é de quinta categoria. No governo Lula (o de verdade), o PMDB tinha prestígio mesmo, seus ministros eram poderosos. E agora?

Romero Jucá, líder no Senado dos governos FHC e Lula, está em silêncio, esperando o convite “para a terceira liderança”. Amigos garantem: “Será indicado, não precisa nem pode ser agora”. Que República.

Para variar, ACUSADÍSSIMO quando foi Ministro da Previdência, resistiu 16 anos na liderança dos governos contrários. (E isso tem importância?)

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A MARAVILHA QUE É A TRANSPETRO

Com a BR, potências da Petrobras. De certa forma, mais poderosos que o presidente da estatal, não prestam contas a ninguém. O presidente dessa Transpetro, há anos, é o ex-senador (e também ex-amicíssimo de Jereissati) Sergio Machado.

Indicado, favorecido e nomeado por Renan Calheiros. Ninguém fala em substituição. Nem pode. Renan voltou mais poderoso. Pode deixar Sarney ficar mais dois anos na presidência do Senado, “depois é a minha vez”. Afirma e não há como desmentir.

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E O SECRETARIADO DE BRASÍLIA?

O Governador eleito de Brasília, Agnelo Queiroz, está na maior dificuldade para encontrar, selecionar e nomear secretários. Por causa da influência de Roriz, Arruda e Paulo Otávio.

Mais uma vez a “justiça” protege Ricardo Teixeira, arquiva processo

Helio Fernandes

Conforme noticiei, outra ação-processo contra Ricardo Teixeira, vinda da CPI de 2001, foi julgada (?) no Tribunal Regional Federal da 2ª Região. E o presidente da CBF, (o “papa” da Copa de 2014) conseguiu ARQUIVAR mais uma denúncia.

Ao contrário do que dizem seus assessores, Teixeira nunca foi ABSOLVIDO ou INOCENTADO. Ele faz melhor, arquiva (“trancamento) as ações, assim não cabe recurso. E o CNJ (Conselho Nacional de Justiça, criado para “moralizar a Justiça”, ficará (ou continuará) em silêncio?

O “Jornal do Commercio” deixa o Rio, a prefeitura compra a sede na Rua do Livramento.

Helio Fernandes

Esse “Associado” disputa com o jornal do mesmo nome do Recife, para saber qual é o mais antigo do Brasil. É ali na saída do Túnel João Ricardo, o menor, o mais antigo e o mais sujo do Rio.

Funciona num edifício com projeto de Oscar Niemeyer. Construído numa casinha “geminada”, onde funcionou até morrer, a revista “O Cruzeiro”, inesquecível para o repórter.

O jornal vai para Brasília, pretende ser impresso nas oficinas do “Correio Braziliense”. (A Rádio Tupi ainda não tem local para funcionar). Esse prédio agora negociado, foi inaugurado em 1961, num jantar com a presença do então já presidente, João Goulart.

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PS – Chateaubriand, o criador do maior império mundial (proporcionalmente) de mídia, não pôde ir, teve um derrame cerebral.

PS2 – Morreria em 1968, os “Diários Associados” não resistiram. Criou o “Condomínio Associado”, malabarismo jurídico genial de Nehemias Gueiros, grande advogado-estrategista. Mas os filhos de Chateaubriand estão ganhando tudo não Justiça, representados pelo notável advogado Ivan Nunes Ferreira.

PS3 – O prefeito quer criar ali, um Centro de Imprensa para a Copa de 14 e a Olimpíada de 16. Mas seu mandato acaba em 2012, muito antes.

Conversa com leitores-comentaristas, sobre a deputada Manuela D’Ávila e a importância do pensamento livre

Antonio Santos Aquino: “Hélio, se fosse só bonita, Manuela D’Ávila não seria nomeada para o Ministério dos Esportes. O que também “pesou” em sua nomeação foi o ministro da Justiça já nomeado, de quem é namorada”.

Comentário de Helio Fernandes:
Gostei de você dar a notícia, Aquino. Embora tenham namorado ostensivamente, se eu publicasse, iriam dizer que estava invadindo a privacidade. Além do mais, mesmo que a ascensão do deputado tenha sido notável, ainda não tem cacife para torná-la “cacique esportivo”.

Razões da indicação, não confirmada nessa tumultuada transição. 1 – Teve quase 500 mil votos, agora, pelo Rio Grande do Sul. 2 – Pertence ao PCdoB, “dono” do ministério. 3 – Competente.

Como você vê, Aquino, não entrou na contagem dos quesitos que ela é tão bonita quanto você é bem-informado. Agora, parece que Manuela e Cardozo não estão mais juntos, e o leitor-comentarista Leandro Almeida nos informa que ela voltou para o antigo namorado, ex-colega de faculdade.

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A VERDADEIRA E TOTAL LIBERDADE

Ofélia Alvarenga: “Escrevi o que sinto. Tal como o faço agora, livremente. Não é o que você faz aqui, felizmente, nessa Tribuna em que toda e qualquer pessoa expressa seu pensamento livremente, não é mesmo? Ser livre é tudo. Por isto eu jamais seria comunista, como pensam alguns sobre os eleitores da Dilma Rousseff. Ela há de dar certo. O destino de uma pessoa só acaba quando acaba a vida dela. E eu espero e desejo que Dilma tenha saúde e viva muito. Assim como eu gostaria de viver mais 4 anos pelo menos pra ver que deu certo”.

Comentário de Helio Fernandes:
Obrigado por mais um texto defendendo o direito das pessoas fazerem o que bem entenderem, seja o que for. Além da narrativa clara, estruturada do princípio ao fim, sem a intenção de agradar ninguém, esse final, que retirei, com dificuldade, de um texto que seria todo destacável, nada descartável.

Muitos adoram rotular as pessoas, “marcá-las com seus preconceitos ou suas “definições”, mas que deveriam servir apenas a eles mesmos.

Corretíssima sua esperança que Dona Dilma “tenha saúde e viva muito”. O câncer linfático, que atingiu a ainda candidata, não é o pior dos males. Gabriel Garcia Marques, o escritor colombiano que ganhou o Nobel de Literatura, ficou 6 anos nos EUA se tratando. Há 20 que não tem nada, escrevendo admiravelmente. Esse não será o grande problema dela.

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ENTREVISTA NO JORNAL DA ABI

Carlo Germani: “Prezada Ofelia, você é uma alma boa. Portadora de inteligência e honestidade, jamais poderia aceitar a causa comunista. Mas desejo que você viva muito para ver o Brasil que eu ambiciono, e não esse engodo que você apoia. Há tempo para saber a verdade. PS: Aproveitando o clima, indico excelente material histórico com o mestre Helio Fernandes no jornal da ABI de 2006”.

Comentário de Helio Fernandes:
Na certa ela responderá a você, Carlo, é um direito importante dela, como acredito que seja o seu. Quanto à “entrevista” que dei em 2006 ao excelente “Jornal da ABI”, (criado por Mauricio Azedo assim que assumiu), foi inteiramente inesperada. Era apenas uma conversa no auditório, com poucas pessoas, nada organizado ou preparado.

Comecei a falar, parei quando se completavam 6 horas, tivemos que ir embora. Não levantei da cadeira um minuto, não bebi um gole d’água (como o Maurício registrou perplexo), ao transformar a conversa em entrevista. Com a excelente repercussão, a ABI passou a fazer uma série de entrevistas, admiráveis.

Brasília posta em frangalhos

Carlos Chagas

Há que começar  com a premissa de que todo mundo é inocente até que se lhe prove a culpa. Caso provada, a Justiça deve seguir o seu curso. A imagem de Brasília já se encontrava em frangalhos, depois da cassação do senador Luís Estevão e da renúncia do senador Joaquim Roriz, ambos por roubalheira. Sobreveio depois o maior de todos os escândalos, levando o governador José Roberto Arruda à prisão  e deputados distritais a perderem seus mandatos por transformarem a coisa pública em cosa-nostra.

Pois quando já se imaginava a possibilidade de uma penosa reconstrução, eis que outro representante da capital federal no Congresso é acusado de improbidade no exercício da importante  função de relator do Orçamento da União para 2011. Suplente de Roriz, Gim Argello assumiu sua cadeira no Senado e passou a  responder  a processo junto ao Supremo Tribunal Federal, acusado de fraudar licitações quando presidente da Câmara Legislativa local. Mesmo assim, tornou-se a principal figura na condução da lei que sempre foi a causa maior da existência de todos os parlamentos.

O diabo é que acaba de renunciar, não ao Senado, por enquanto, mas à relatoria, forçado pela unanimidade de seus companheiros. É acusado de ter apresentado emendas pessoais ao Orçamento beneficiando entidades-fantasma,  ONGs inexistentes ou sem endereço.

A ainda senadora Ideli Salvatti, cujo  mandato  não foi renovado, é a nova relatora, mas apenas até fevereiro, quando se inicia nova Legislatura, na qual Argelo dispõe de quatro anos. Ele pertence ao PTB, dizem que é amigo  da presidente Dilma Rousseff, mas o PMDB já anuncia  nova temporada de caça. A intenção do partido majoritário é de  levar o senador a julgamento pelo Conselho de Ética, forçando-o à renúncia ou tendo a cassação como alternativa. Sua posição não é nada confortável, até porque o segundo  suplente desse malfadado mandato de Joaquim Roriz é do PMDB…

Vale terminar como iniciamos: todo mundo é inocente até que se lhe prove a culpa. Mas se culpa tiver havido no comportamento de Gim Argelo, ele que se prepare.

FISCALIZAÇÃO E INDEPENDÊNCIA

Na presença  de dois presidentes da República, um que sai e uma que entra, tomou posse o novo presidente do Tribunal de Contas da União. Benjamim Zymler provou que vai ser carne de pescoço quando discursou. Com educação e firmeza, disse que aquela corte não irá retroceder na fiscalização das obras públicas.  Continuará duro e com  independência,  exercendo suas funções na expectativa de que, em seu diálogo com o governo, estará contribuindo para o aprimoramento da democracia.

Há uma singularidade na carreira de Zymler: ele é oriundo do quadro de funcionários do TCU, em meio a colegas em maioria  provenientes do Congresso. Sua formação é rígida e certamente sem a intenção de entrar em atrito com o governo, será objetivo na denúncia de eventuais obras públicas em desacordo com as normas da administração federal.

SUBMISSÃO

Submeteu-se o Banco Central aos objetivos   da presidente Dilma Rousseff,  de ver baixarem os juros. Na recente reunião do Copom foram mantidos os índices atuais, permanecendo a taxa Selig em 10.75%, contrariando as tendências do ainda presidente Henrique Meirelles, pela sua elevação. O fato de não ter havido aumento pode significar reduções, a partir do ano que vem. Pelo jeito, o perigo da volta da inflação não será combatido pela alta dos juros, fórmula, aliás, repudiada pelas maiores economias do planeta.

FÉRIAS

Nos tempos do presidente Mao, em viagem à China, este que vos escreve perguntou a um dos dirigentes do “bando dos quatro”, naquela época todo-poderoso, Yau-Wen-Yuan, porque os chineses não tinham direito a férias. Indignou-se o  depois posto em desgraça responsável pela comunicação social do governo. Respondeu que todo trabalhador chinês tinha 53 dias de férias anuais. E explicou: aos domingos eles não trabalham …

Não precisamos chegar a tanto, mas esta semana a Comissão de Constituição e Justiça do Senado debateu a questão das férias de 60 dias para os magistrados. Insurgiu-se o  senador Demóstenes Torres, na presidência dos trabalhos, achando injustificável o privilégio da categoria. Por que o pedreiro, o motorista e o marceneiro, entre tantos outros trabalhadores, não dispunham dessa prerrogativa?  Dividiram-se as opiniões, com os senadores que são advogados defendendo os dois meses para os juízes, porque também representariam igual período de descanso para os causídicos.

A questão é delicada, mas, convenhamos, se os magistrados andam sobrecarregados de processos para julgar, nem por isso as demais profissões devem ser consideradas mais amenas.

Itamarati induz Lula a erro no caso Palestina-Israel

Pedro do Coutto

Há iniciativas que o presidente Lula assume, repentinamente, induzido pelo chanceler Celso Amorim, ou pelo assessor especial Marco Aurélio Garcia, paras as quais não se encontra explicação lógica nem aparente, tampouco coerente. Seja sob o ângulo político, seja pelo prisma econômico, seja até sob a ótica geográfica internacional. Foi exatamente o caso do reconhecimento, pelo governo brasileiro, do estado da Autoridade Nacional Palestina com base nas fronteiras anteriores a 67, mês de junho, quando da guerra dos seis dias com Israel. O governo de Brasília assumiu tal posicionamento atendendo pedido do presidente da ANP, Mahomoud Abas, enviado a 24 de novembro. No dia 1 de dezembro, sete dias depois, assumiu logo a tese e o tema. Equivocou-se.

Não se pode reconhecer áreas ocupadas até hoje por Israel. Trata-se, o que seria legítimo, de apoiar moção dirigida à ONU pleiteando aquela demarcação que desapareceu há 43 anos em meio a poeira do deserto e das batalhas. Inclusive o chanceler Celso Amorim deveria ter explicado ao presidente da República que a ocupação não envolveu terras  palestinas. Envolveu quase 30% do território do Egito, a partir da Faixa de Gaza, colinas de Golan, espaço da Síria e da administração de Jerusalém que, a partir daquele confronto, caiu sob domínio total de Israel.

A cidade santa era dividida em duas partes: a ocidental (israelense), a oriental palestina e jordaniana. Com a tomada de Jerusalém que, na crucificação de Cristo os romanos tentaram, mas não conseguiram, o governo de Israel assegurou apenas a passagem para o Muro das Lamentações. Porém dominou totalmente a cidade de mais de três mil anos de existência. Tanto assim que, também a partir de 67, Telavive deixou de ser a capital israelense, substituída por Jerusalém.

Aceitar, sem discussão a análise, o reconhecimento da totalidade palestina no Oriente Médio significa instalar embaixadas ou consulados nas cidades hoje sob o domínio dos judeus. Situação difícil. Sobretudo em face do precedente da questão. Em 67, mês de junho, o presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser foi à televisão no Cairo e anunciou a invasão de Israel, prometendo recompensa em dobro no Céu aos que tombassem na batalha que considerou santa. O Egito estava em aliança com a ANP, naquele tempo Organização Nacional Palestina, com a Síria e a Jordânia do rei Hussein, pai. Nasser dirigiu-se especialmente aos jornalistas dizendo: ”Saiam de Telaviv, pois amanhã estaremos aí para cortar a cabeça dos judeus e será difícil saber quem é jornalista e quem não é.”

Ao ouvir o pronunciamento ameaçador, a primeira ministra Golda Meir ordenou imediatamente o ataque. Antecipou-se a Nasser e, com isso, Israel arrasou a aviação egípcia no solo. Em seguida, ocupou a faixa de Gaza, as Colinas de Golan, a Cisjordânia, toda Jerusalém. O general Moshe Dayan comandou a ofensiva. Golda Meir chancelou a ocupação militar que não avançou mais por ordem de Washington, governo Lyndon Johnson, auge da Guerra do Vietnam.

Abdel Nasser morreu em 70 (tinha menos de 60 anos) e em 1973 Anwar Sadat, seu sucessor, desencadeou a Guerra do Yom Kipur, retomando parte do Egito ocupado. A ONU vem tentando o cessar-fogo na Cisjordânia, porém não colocou em votação até hoje qualquer resolução restabelecendo a geografia de antes de 67. Estes os fatos. Com base neles, o Itamarati deveria ter sugerido a Lula formular um projeto de resolução para mudar o quadro atual. Nunca partir individualmente para reconhecer um Estado que não
existe.

O escândalo não é do orçamento, como estão chamando. E sim o fato de colocar Gim Argello como relator. Sem escrúpulos desde que vendia carros usados, suplente “efetivado” com a renúncia de Roriz.

Helio Fernandes

Mestre Afonso Arinos, tão importante, se consagrou só com o nome, (nem precisou do Mello Franco histórico da família) costumava dizer: “O mais importante para um país é o seu orçamento. Se o Congresso, durante o ano todo, votar apenas o orçamento, não precisará fazer mais nada”.

Isso é indiscutível, mas o Congreso, Câmara e Senado (Afonso Arinos foi deputado e senador) passou a vida ignorando as declarações e afirmações dele. Só que agora ultrapassaram todos os limites ou falta de representatividade.

Gim Argello já entrou no Senado violentando essa mesma representatividade, assumiu quase o mandato inteiro (mais de 7 anos) do corrupto Joaquim Roriz. Mas não era nada melhor do que o várias vezes ex-governador de Brasília.

Não deviam ter dado posse ao suplente de Roriz, precisavam antes investigar a sua procedência. Como todos sabiam que Roriz seria candidato (eleito mais uma vez) a governador de Brasília, Argello teria garantido e assegurado, 4 anos no Senado.

Como Roriz não agüentou o peso de tanta denúncia de corrupção, renunciou imediatamente para não ser cassado. Assim, esse desconhecido Argello teve a suplência (que terminaria 4 anos depois) transformada em “efetivação”, logo, logo, com o aplauso do Senado.

Gostam de fazer e fizeram para Argello: aplaudem mas investigam, não para condenar, e sim para “engavetar”. Só que como todo aventureiro, Argello, mesmo completo analfabeto, era simpático com todos, “esqueceram” e não usaram o que descobriram, desde os tempos em que foi vendedor de carros usados.

Esse Gim (da selva que é a capital?) foi dominando tudo, incluído nas melhores Comissões, “louvado” (desculpem, Tom e Vinicius) até por jornalistas que se dizem e se julgam importantíssimos e independentes, mas que não ultrapassam a linha demarcada por “ordens superiores”.

Até que sem qualquer notícia, protesto ou revolta, Argello foi feito relator da mais importante Comissão do Senado e, logicamente, do Congresso.

Quando descobriram (?) que ele estava “destinando” (é a palavra usada por parlamentares) verbas para empresas fantasmas, nem precisaram pedir ou exigir, renunciou. Foi com uma renúncia que entrou no Senado, com outra saiu do cargo de relator do orçamento.

Mas continuará no Senado, e até proclama audaciosamente, sabe que nada lhe acontecerá: “Estou em posição confortável para ser fiscal diário das investigações e acusações que I-N-J-U-S-T-A-M-E-N-T-E envolveram meu nome”. Se eram injustas, por que renunciou apressadamente?

***

PS – Afonso Arinos, entre tantas lições e conselhos, (como o que citei no início) também pregava: “O orçamento deve ser IMPOSITIVO e não apenas AUTORIZATIVO”. Perfeito. No poderoso presidencialismo brasileiro, da FEDERAÇÂO e não da CONFEDERAÇÃO (dos EUA), o Presidente da República faz o que quer.

PS2 – Em 1919, derrotado por Epitácio Pessoa, candidato do “sistema”. Rui Barbosa abandonou a vida pública, ia completar 70 anos. Confidenciou ao seu grande amigo, senador Antonio Azeredo: “Meu erro, e me arrependo disso, foi escolher a Federação e não a Confederação. Hesitei durante meses”.

PS3 – Os EUA discutiram longamente, na Convenção da Filadélfia, se a Constituição deveria ser FEDERALISTA ou ESTADUALISTA. Por decisão de um debate empolgante, ela ficou sendo 70 por cento ESTADUALISTA e apenas 30 por cento FEDERALISTA. Ótimo para os estados e municípios.

PS4 – Além de todos os inconvenientes, no sistema FEDERATIVO, os municípios representam pouco. Quando o presidente REPASSA verbas orçamentárias para os municípios, é como se estivesse fazendo um favor.

PS5 – Apesar dos 190 milhões de brasileiros morarem em municípios. Desde o presidente da República, qualquer que seja, (ou tenha sido nos 121 anos) até o mais humilde cidadão.

PS6 – Infelizmente, jamais mudaremos o “sistema”, não porque a Federação seja “cláusula pétrea” e sim por falta de interesse  geral. Já tivemos tantas Constituições e destruímos tantas “cláusulas pétreas” que ficaremos ESTAGNADOS. Ou com o RETROCESSO de 80 anos em 8, de FHC. Ou com o ACERTO PARCIAL de Lula, por simples intuição.

O pequeno e poderoso Rio Grande do Norte na formação do ministério

Helio Fernandes

Até o momento em que escrevo, Garibaldi Alves (PMDB, ex-presidente do Senado) e Agripino Maia (líder do DEM no Senado e quase presidente do partido), reeleitos, estão cotadíssimos, na chamada SITUAÇÃO e na OPOSIÇÃO. (Embora não exista nenhuma das duas).

Garibaldi está confirmado como  Ministro da Previdência. Mas no Planalto (ainda não Alvorada) sussurram que isso é mais uma estratégia do que uma indicação.

Explicação para a estratégia: Seu primo Henrique Eduardo Alves, depois de 10 mandatos sem obter compensação, quer ser presidente da Câmara. Aí, com a nomeação de Garibaldi, ficaria muito Rio Grande do Norte.

Sua missão; convencer Henrique Eduardo Alves a aceitar o rodízio na presidência da Câmara. Um petista agora, e um peemedebista (ele) dentro de dois anos. Se conseguir, Dona Dilma agradece de coração.

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Eduardo Braga é Ministro,
Alfredo Nascimento também

Sem a menor satisfação, a confirmação. Praticamente há um ano, revelei que Eduardo Braga seria Ministro da candidata Dilma, que ainda começava a campanha. E disse mais: será candidato a prefeito de Manaus em 2012 (por causa da Copa do Mundo e da Olimpíada).

Quando o ex-governador se lançou ao Senado, com a mulher como SUPLENTE, vi logo o que aconteceria e FUI BUSCAR a informação na fonte.

Também anunciei, seis meses antes, mais um FATO do Amazonas, só que este tinha duas versões ou opções. 1 – Duas vezes ministro dos Transportes de Lula, Alfredo Nascimento se lançou candidato a governador do Amazonas. Se dizia eleito, afirmei que seria derrotado por Eduardo Braga, que elegeu o próprio vice Omar Aziz, deixando Nascimento com mais 4 anos no Senado.

2 – Derrotado para governador, o ex-cabo do Exército ainda é senador. Como não sabe o que fazer no Senado, aceita ser ministro pela terceira vez. Como já disse, favorece o amigo de Lula, João Pedro, do PT, que fica mais 4 anos como suplente no Senado.

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Sarney, o invencível, consegue
fazer um Ministro de 80 anos

Apesar da DEPRESSÃO dos 80 anos, o ex-presidente que assumiu o mandato inteirinho do efetivo, continua dominando. E conseguiu fazer Ministro do Turismo um maranhense, Pedro Novais. da mesma idade, que não entende nada do assunto.

Sarney: “Meu filho, meu filho”. Queria que o filho fosse de novo Ministro do Meio Ambiente, não conseguiu, era exagerado. Além do Ministério ter ficado muito importante depois de Carlos Minc, o filho Zeca é do PV. O que daria impressão de que seria RECOMPENSA ou COMPENSAÇÃO, tanto faz, para Dona Marina.

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Moreira Franco ganhou um cargo
e Michel Temer perdeu um amigo

O ex-governador do Estado do Rio em 1987, (há 23 anos) é fascinado por ditados, fácil saber quais. Vetado para Ministro importante, “esquecido” por Temer, raciocinou, (um dos poucos do PMDB e de outros partidos que faz esse exercício cansativo) e decidiu aceitar uma Secretaria.

É a de Assuntos Estratégicos, o título pelo menos sugere importância. Não ficou de fora. E sabe que Secretarias como essa, “viraram” Ministérios. Na Secretaria de Comunicação Social, logo, logo seu ocupante também passou a Ministro.

Moreira Franco já ultrapassou tanta coisa. Desde a “operação Pró-Consult, para não dar posse a Brizola em 1982. A todas as extraordinárias acusações depois. A derrota para o Senado em 1998. E imediatamente a posse no Planalto como Assessor Especial de FHC. Este do PSDB, Moreira Franco do PMDB. É “inderrotável”, a não ser acidentalmente.

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Mercadante ganha a Ciência
e Tecnologia. E dona Suplicy?

Nessa “briga” por Ministérios, acontece de tudo. Com derrotados ou vencedores. Mercadante, “esquecido”desde que se elegeu senador em 2002, (mesma eleição de Lula) só acumulou amarguras. Com o governo de amigos e com o povo, nem se fala.

Lula ficou arrependido de ter “insistido” com ele para disputar o governo de São Paulo. (Durante meses afirmei aqui, Alckmin ganhará no primeiro turno, ganhou). Se Mercadante tivesse disputado a reeleição para o Senado, com a saída de Quércia e Tuma, poderia ter ganho. Dona Suplicy não ganhou?

Lula “arranjou” para Mercadante a Ciência e Tecnologia, enquanto Dona Suplicy continua esperando qualquer ministério. Sem ele, tem que assumir mesmo no Senado, ao lado do ex-marido. Se escolher ficar perto dele, comentarão. Se ficar longe, estranharão. Meu Deus, um ministério, “Graças a Deus”.

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Ideli Salvatti agora será
a salvação do orçamento

Derrotada em Santa Catarina, (só ela não percebeu que não seria governadora?) ficou sem nada. Até surgiu o “boato” de que seria “Ministra da Pesca”. Ficou esperando o destino.

Com a concretização das acusações do relator do orçamento (leia a matéria anterior) foi chamada pelo próprio Lula. No caso, era ele mesmo, não avançava sobre Dona Dilma. Líder de Lula no Senado, foi colocada como relatora do Orçamento. Agora será mesmo Ministra da Pesca. Não conseguiu alguma coisa mais importante.

A deputada Maria do Rosário (PT-RS) foi confirmada para a Secretaria de Direitos Humanos, e a jornalista Helena Chagas vai mesmo substituir Franklin Martins na Secretaria de Comunicação Social.  Ambos os cargos tem oficialmente status de Ministro, assim como a Secretaria de Assuntos Estratégicos e o Banco Central.

Conversa com leitores-comentaristas: Café Filho-Vargas-Juscelino, e a importância do inconformismo.

José Antonio: “Café Filho foi vice de Vargas, e não de Juscelino. Sempre foi um nome fraco. Improbabilíssimo que tenha ajudado a eleger VARGAS presidente”.

Comentário de Helio Fernandes:

Ah! José Antonio, eu não disse que Café Filho foi vice de Juscelino, e sim que foi ele quem criou as maiores dificuldades para a posse de Juscelino, presidente eleito e ainda não empossado, em 1955.

Posso tentar mudar o Engenho de Dentro para onde está o Engenho Novo, seria simples pretensão territorial. Mas mudar eleitoralmente um vice de Vargas para Juscelino, não me atreveria. Além do mais, depois da Constituição de 1946, o vice se elegia separado do presidente, portanto, não era IMPROBABILÍSSIMO que Café ajudasse Vargas, e sim impossível.

Vargas, que disputava a primeira eleição, mesmo depois de 15 anos no Poder, estava inseguro. E convidou Ademar de Barros (PSP, ex-interventor de São Paulo) para vice. Ademar aceitou o acordo de partidos, mas não quis ser candidato, indicou Café Filho. Que se elegeu e não era fraco, como você acredita.

Bom orador, (“mitingueiro”, como se dizia) de 1946 a 1950 fazia um discurso diário, criticando Vargas, com a frase: “Lembrai-vos de 37”. Foi o grande destaque depois do fim da Constituinte, em 18 de setembro de 1946.

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José Reis Barata: “Precisamos plantar o inconformismo; adubá-lo com constância cívica, cidadã e republicana. Realçar e prestigiar o lado bom da virtude. A vida é um conflito pessoal e social, sempre existem dois lados: o vício e a virtude; “uma notícia ruim, outra boa.”. O momento é de “notícias” ruins e não podemos nos acostumar, pacificamente, a elas sob pena de que elas passem a ser nossa realidade, invertendo valores, valores civilizados. Fazendo, assim, do universo o inverso”.

Comentário de Helio Fernandes:

Notável, José Reis, o que você escreveu é para ser lido e comentado por quem quiser. Retirei esse trecho, lógico, tudo o que você disse, está aqui. Mas essas poucas linhas que destaquei, valem pela grandeza das afirmações e pela seriedade e importância.

Além do mais, é o retrato ou o instantâneo, o objetivo deste blog, nem quero dizer, da minha vida. O debate e a discussão representam e alimentam a “consciência cívica” que você quer que plantemos com o fervor do inconformismo. Um forte abraço.

Ministros de primeira e de segunda classe

Carlos Chagas

Tantas tem sido as exigências feitas, as protelações aceitas  e as  humilhações sofridas pelos  partidos na formação do ministério  Dilma Rousseff que o resultado não poderia ser outro: vai-se delineando o perfil  de um frankenstein,  no que se refere às vagas postas à disposição dos políticos. Não se fala da chamada cota pessoal da presidente eleita, corretamente preenchida, ainda que não se torne necessário concordar com os conceitos dos escolhidos. Mas formam um time coordenado, pronto para entrar em campo. Já os indicados pelo PMDB, PT, PSB, PR, PDT, PC do B e penduricalhos, com raras exceções, dão a impressão de jamais terem sido apresentados à bola, às chuteiras e às traves.

Assim, estabelecida a diferença, a pergunta que se faz é sobre qual o primeiro desses ministros pela metade será catapultado sem hesitação nem misericórdia. Quantos  meses vai durar esse plantel até que um ou mais de  seus expoentes receba o bilhete azul? O temperamento da presidente eleita não deixa dúvidas sobre a inflexibilidade de suas cobranças e a consequência de sua frustração.

Estamos diante de singular dicotomia, porque serão empossados em  janeiro ministros de primeira e ministros de segunda classe. Raras vezes, no passado, registrou-se fenômeno igual: atores competentes,  de um lado, figurantes indecisos,  de outro.

Fulanizar será falta de caridade, mas basta ver como certos nomes passam da área social para o setor de infra-estrutura, ou deste para o de serviços,   como quem muda de camisa. Imaginam-se   prontos para executar a partitura que lhes cair sobre o nariz,  jamais tendo praticado com um oboé, um clarinete ou um bumbo. Ainda bem que não lhes está sendo  oferecido o violino ou o piano.

Uma conclusão lateral a tirar: parece que o governo funcionaria   melhor  com menos ministros.

LONGOS INTERREGNOS

Não dá para aceitar  o presidente Lula  declarando que nem um centavo será retirado das obras do PAC, no governo Dilma Rousseff, sem ter  combinado a observação com a presidente eleita. Pode ter sido uma forma de deixar claro que as divergências  entre eles serão naturais, que não haverá um comandante oculto no palácio do Planalto. A manutenção de Guido Mantega no ministério da Fazenda foi uma sugestão do Lula. Como explicar, assim, que tenha sido desmentido por seu próprio mentor?

Tem gente achando que esses desencontros são reais, devendo-se  ao longo período entre a eleição e a posse, quando passam a conviver dois presidentes da República, o que entra e o que sai. Devem conformar-se porque no passado já foi pior. As posses costumavam realizar-se no último dia de janeiro, não no primeiro. Mas o que dizer da República Velha, quando as eleições aconteciam a Primeiro de Março e as posses, a Quinze de Novembro? Só para refrescar a memória de quem ignora por que: na primeira data comemorava-se a vitória do Brasil na Guerra do Paraguai; na segunda, a Proclamação da República. Já imaginaram oito meses e meio para Dilma esgrimir com os partidos e escolher o ministério,  com o Lula governando? Seria bom que no bojo da reforma política sempre anunciada e nunca realizada um parlamentar apresentasse emenda constitucional estabelecendo a posse do eleito uma semana depois de proclamados os resultados pela Justiça Eleitoral.

MENOS VIAGENS

A primeira viagem  de Dilma Rousseff ao exterior  será em janeiro,  aos Estados Unidos, para encontro com o presidente Barack Obama. É claro que no correr de seu governo  a presidente atenderá a uma série de compromissos externos, na medida de suas necessidades, mas, pelo jeito, viajará menos do que o Lula. Sua prioridade maior será o território nacional.

PERSEGUIÇÃO

Decidiu o Tribunal Superior Eleitoral, através da ministra Carmem Lúcia, também integrante do Supremo Tribunal Federal, não reconhecer a eleição do casal Capiberibe, votado no Amapá, João para senador, Janete para deputada federal. Sua votação foi considerada nula e no Senado assumirá o derrotado Gilvam Borges.

Com todo o respeito, à luz da voz rouca das ruas de Macapá, a decisão é injusta. Primeiro porque venceram a eleição. Depois porque haviam sido objeto de discutível cassação quando ocupavam os dois cargos, acusados de comprar três eleitoras, no pleito de 2002, por 26 reais cada uma. Ficou provado, depois, que elas mentiram à Justiça Eleitoral, sendo subornadas pelos adversários dos Capiberibe. Mesmo assim, 26 reais por voto, sendo apenas três, é ridículo. Por conta daquela cassação,  agora foram impedidos de receber o diploma a que tem direito pelo voto.

Novo ministério: uma articulação descoordenada

Pedro do Coutto

Efetivamente as queixas e reclamações colocadas à mesa dos entendimentos tanto pelo PT quanto pelo PMDB, em torno da formação política do ministério da presidente Dilma Roussef, resultam basicamente de uma articulação descoordenada em sua essência. Para início de conversa, está predominando uma dualidade impossível na prática: o fato de Michel Temer ocupar, ao mesmo tempo, a vice-presidência da República e a presidência nacional do PMDB. Não pode assim desempenhar o papel de Arlequim de Goldoni, peça que no passado alcançou grande sucesso nos palcos do Rio. Nos palcos, pois foi montada em mais de um teatro. Temer, como o personagem italiano, tem que cobrir dois palcos simultaneamente. Sai de um, parte para outro. Sai de outro, volta para o primeiro. Afinal ele equilibra mais o governo do qual vai fazer parte, ou as reivindicações do Partido do Movimento Democrático Brasileiro?

É difícil estabelecer uma linha divisória entre os dois planos. É difícil chegar a um denominador comum. No governo Lula, o PMDB ocupou – e ocupa – cinco ministérios. No esquema Rousseff, passaria a deter quatro. Menos um. Porém é possível que esse um de hoje seja mais importante que os dois de amanhã. Mas pode ser o contrário. Um caso de pesagem na balança da influência. Tanto na área política, quanto na esfera econômica.

Entretanto, não é a descoordenação que até agora está se impondo o único problema. Há outros. A começar pelo binômio competência-representatividade, essencial a qualquer governo que sobretudo começa e, portanto, ainda não ganhou a velocidade de cruzeiro, como se diz no espaço aéreo. O fato, aliás como considerava o presidente Juscelino, é que só se pode responder às pressões partidárias realizando-se coisas concretas. Pois ninguém pode prover atendimentos políticos se não fizer nada. Esta condicionante é eterna. Mas para isso é indispensável a competência pessoal e também o espírito construtivo. Uma qualidade sem a outra não leva a nada.

Isso porque o conhecimento humano, na área pública, que é a do governo, não pode se restringir a um exercício de narcisismo, mas sim a de seu ajustamento à visão coletiva. Afinal de contas, a política é o único instrumento possível de realização em favor da sociedade. Se nãose direcionar no sentido do progresso social, nada feito. Todo o seu potencial será esterilizado. E aí não se sai do lugar. Não se sai do lugar só, não. Anda-se pata trás, pois enquanto nada se faz, a população não para de crescer.

A desarticulação a que me refiro, entretanto, não se restringe apenas, o que já seria muito, à formação da nova equipe de governo, nela incluídos os cargos nas empresas estatais. Vai além. Veja-se agora, manchete de O Globo de ontem, a reação do presidente Lula aos cortes no PAC anunciados pelo ministro Guido Mantega, um choque político ruim para a administração que começa a fechar as cortinas do Palácio do Planalto. Sobretudo porque o titular da Fazenda foi confirmado por Dilma no posto. Mantega não tem razão. Ele ainda não assumiu novamente e há um presidente na República. Não poderia tomar a iniciativa que tomou sem consultar um homem chamado Lula da Silva que o nomeou para a Fazend há vários anos. Além do mais, cortar investimentos é a pior solução. Porque não cogita ele cortar as despesas do país com os juros que paga por ano à rede bancária para girar a dívida interna?
O programa de investimentos é de 94 bilhões de reais num orçamento de 1 trilhão e 767 bilhões, como a Secretaria do Tesouro publicou no Diário Oficial de 30 de setembro. A percentagem não chega a 1%. Enquanto isso o desembolso com juros é de 220 bilhões de reais. Onde será mais lógico reduzir? A resposta não é difícil. Difícil é coordenar uma articulação desarticulada. Vamos ver o que acontece.

Transtorno, engarrafamento e até revolta, na formação do ministério Dilma, perdão, continuação de Lula. Presidentes do PMDB e PT, desprestigiados, desconsiderados, desprezados.

Helio Fernandes

Altamente compreensível a dificuldade de organizar um ministério que tenha a face visível e a face oculta, sem que se saiba quem maneja uma e quem faz a maquiagem da outra. Só que, haja o que houver, esse não é um ministério “representativo”, “fazedor”, “prestigiado”.

Na verdade, entre esses 37 ministros (ninguém acredita ou imagina que Dona Dilma possa “se arrumar” com menos do que esse número) não existe um só NOTÁVEL. Muitos não são identificados nem pelo síndico do próprio prédio.

Quase tudo foi premeditado, preestabelecido, “consignado” em folha para favorecer alguém ou muita gente. Como os 29 partidos não existem, tudo se encaminha para consolidar as cúpulas dos 3 ou 4 maiores, PMDB, PT (qual dos dois?) e adendos ou apaniguados.

O presidente do PMDB, Michel Temer, vai ser, sem qualquer possibilidade de erro, o “Café Filho” de Juscelino, o “Itamar Franco” de Collor, o “segundo de Janio” (no caso, João Goulart, que foi manejado e recrutado por Janio para servir à sua “renúncia”, que só pode usar a palavra renúncia entre aspas).

Embora tenha tudo para ser o fantasma do governo Dilma (a não ser que espere alguma coisa mais alta em pouco tempo), Temer não conseguiu o que queria. O ex-Ministro da Justiça, o preclaro e prolífico Marcio Thomaz Bastos, faz consultas para ver se o “vice-eleito”, pode acumular com a presidência do PMDB. Não pode, mas o Doutor Marcio está dando um jeito.

Ficará na presidência do PMDB, sujeito a chuvas e trovoadas, até o dia 31 deste dezembro. Dominará a Câmara também até o mesmo dia 31 , sabe que não pode mais continuar, não será mais deputado. Nesse caso, nem o genial Thomaz Bastos poderá transformar Temer num novo Pimenta Neves.

Segundo me dizem, Dona Dilma percebeu (não acredito) e não atendeu as pretensões (ou exigências) do vice. Criou problemas para ele e para o PMDB que ainda preside. Há 15 dias escrevi aqui com exclusividade: “Temer tem duas indicações para Ministro. A primeira, Moreira Franco. A segunda, Wagner Rossi, continuando na Agricultura”.

Expliquei: como Dilma não vai dar dois ministros a Temer pessoalmente, a situação é a seguinte. Como Temer é amigo de Moreira Franco, mas o ex-governador tem luz própria, o vice pode preferir Rossi, ministério suculento e sem criar problema. Se indicar o segundo antes do primeiro, a explosão será politicamente e publicamente ouvida a quilômetros de distância. (De Brasília a SP e Estado do Rio).

Tendo preferido Rossi, Moreira Franco foi preterido. Gritou, continua gritando. Como ficou a “ver navios”, pode ser Ministro dos Portos, ele que jamais aportou num cargo como esse. Quando era genro de Amaral Peixoto, ele e o sogro “enjoavam” na barca da Cantareira. Como Temer resolverá essa questão?

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O “ESQUEMA” DE DUTRA

Pior ainda o desprestígio de José Eduardo Dutra, que fica ocupando, aleatoriamente, a cadeira de presidente do PT. Mas preparou tudo com Dona Dilma, ela mesmo não nega o fato. Tendo sido derrotado três vezes na sua terra (Sergipe), manipulou um esquema invencível.

Se colocou como suplente de um senador do Estado, com a combinação: o senador seria Ministro logo, logo, e o presidente do PT assumiria a “vaga” de senador, para a qual o bravo povo de Sergipe recusou-o duas vezes.

Depois das três derrotas no Sergipe (uma para governador), Eduardo Dutra, revirando “baú de guardados e esquecidos”, descobriu um diploma de geólogo, amarelado mas autêntico. Mostrou a Lula, foi nomeado presidente da Petrobras. Tão desastrado que não chegou a completar um ano na maior empresa brasileira.

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FALTAM TRÊS GOVERNADORES

Enquanto isso acontece (sem desprezo pelo Sergipe), três governadores importantes do Nordeste não foram consultados, chamados, nem fizeram oferecimento de ministérios.

São governadores que apoiaram Dona Dilma, ganharam no primeiro turno, foram reeleitos, estão esperando a compensação para seus estados. Eduardo Campos (Pernambuco), Jaques Wagner (Bahia) e Cid Gomes (Ceará).

Têm mais representatividade pessoal do que os políticos que ficam em Brasília. E os três estados, importantíssimos pelo território, população, produção e consumo. Por que dão a impressão de estarem implorando? Precisam exigir.

O que comentam: “Ciro seria indicado pelo irmão governador”. Respondem quase no mesmo tom: “Um irmão indicando outro?”. Acho que Ciro fez muita bobagem desde a primeira candidatura a presidente. Mas já foi prefeito mocíssimo, governador, ministro, pode ser tudo, menos “protegido” do irmão. (Isto não é louvação, e sim contatação).

Dona Dilma não pode desdenhar do apoio desses três governadores importantes. Um deles, da Bahia, é do próprio PT, mais um inconveniente para ele: pode crescer muito internamente, criando problemas para 2014. Perguntam: mas agora, já tratam ou especulam sobre 2014, tanto tempo antes?

Todas ou quase todas as escolhas são rumorosas e polêmicas, para dizer o mínimo. O tolo mas espertíssimo Jobim (parece contradição, mas é a realidade) não acreditava que fosse continuar. Mas, com a invasão do Alemão, quando receberam ordens do próprio Lula, os Comandantes da Marinha, Exército e Aeronáutica (pela ordem da formação ou fundação) compreenderam a importância de manter o subserviente Jobim (já expliquei as razões, não vou repetir).

Mas pelo fato de ser o próprio Macunaima , (o herói sem nenhum caráter) mesmo “exigido” pelos Comandantes, pode não ser confirmado. Seria uma vitoria da comunidade.

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MANUELA NOS ESPORTES

Está praticamente consagrada, indicada e nomeada Manuela D’Avila. Do PCdoB, a mais votada do Rio Grande do Sul, e além do mais, muito bonita. O atual Ministro, Orlando Silva, terá outro cargo, não de nível ministerial, mas esportivamente altíssimo, por causa da Copa de 2014.

O que se diz em Brasília: se Manuela ocupar mesmo o cargo, vai mandar de verdade, por causa da Copa. Já dizem até, “será a Carla Bruni brasileira”. Comparação com a mulher do presidente da França. Só que Manuela é mais bonita.

Falta preencher muitos ministérios, ou melhor, satisfazer petistas-lulistas, e petistas-abandonados e naturalmente insatisfeitos. O ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha, que foi colhido pelo mensalão quando levantava voo, quer voltar ao cargo de antes.

Só que o grupo de Henrique Eduardo Alvez, Geddel Vieira Lima, Eduardo Cunha e outros (inacreditáveis) dizem: “Mensalão não”. Ha!Ha!Ha! João Paulo rebate: “Desses eu ganho”. (nem falo na luta interna do PMDB, pela presidência do Senado. Parece que está entre Sarney e Renan Calheiros, não é verdade. Dona Dilma quer ser ouvida.

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PS – É preciso premiar derrotados, como Ideli Salvatti e Mercadante, perderam tudo, derrotadíssimos, não querem ficar no limbo ou no ostracismo.

PS2 – E Dona Suplicy, que conseguiu se beneficiar da doença de Quércia e de Tuma (que morreu depois da eleição), quer tudo. Como ainda não decidiu se será candidata a prefeita em 2012 ou governadora em 2014 (tudo em SP, lógico), precisa de um ministério para esperar em segurança.

PS3 – Como revelei ontem com exclusividade (e já dissera logo depois da vitória de Dona Dilma), Alfredo Nascimento quer ser ministro dos Transportes pela terceira vez. Tem várias “credenciais”. 1 – Altamente incompetente. 2 – Derrotado. 3 – Favorece a permanência no Senado, como suplente, do amigo de Lula, João Pedro (PT).

PS4 – O derrotado Ministro dos Transportes, entrará na cota do desconhecido e inexistente PR. O suplente João Pedro é muito melhor  em tudo do que Alfredo Nascimento, mas não disputou eleição.

PS5 – Certos ou quase certos, 10 ou 11 ministros. Quantos faltam para chegar a 37? Hoje, dia 8, é preciso ir mais “lentamente”, ou ficará pior do que está.

Em Brasília, o vice é ex-cunhado de Roriz

Helio Fernandes

O governador eleito Agnelo Queiroz, também acusado de possuir mansão e recursos sem a menor explicação, teve que se compor. Era do PCdoB (já não se fazem mais comunistas-stalinistas como antigamente), para ser indicado, teve que aceitar a exigência pessoal do presidente Lula: entregar no PT.

Com isso, veio a “indicação” (leiam pressão) para colocar como vice o ex-cunhado de Roriz. (Ainda mantêm ótimo relacionamento). Arruda e Paulo Otavio têm uma rede política e administrativa (no sentido mais negativo do mundo), pressionam por aí.

Na formação do governo, Agnelo diz, “indicações oficiais só depois do dia 20”. Como a posse geral (fora do Parlamento) é dia 1º de janeiro, muita gente ainda vai sofrer na capital.

Não haverá alta de juros agora

Helio Fernandes

O presidente “escolhido e indicado” para o BC, já estava preparado para SUBIR os juros, tirando-os dos 10,75%. Como Meirelles se adiantou e “arruinou” deliberadamente o consumo,  já fez muito pior do que elevação da “Taxa Selic”.

Os bancos (principalmente Itaú, Bradesco, Santander. HSBC e até o do Silvio Santos) foram beneficiados, passarão o “Natal sem fome”. Como acontece com eles em todas as circunstâncias.

Só para aproveitar a oportunidade: esses bancos, a cada trimestre apresentam lucros de BILHÕES e BILHÕES. Batem recordes, pagam salários miseráveis. E despedem funcionários, caixas e caixas desativadas e filas enormes.

Engenho Novo – Meyer – Engenho de Dentro. Agradecimento à MEMÓRIA de Ofélia Alvarenga

Helio Fernandes

Tenho que lamentar e pedir desculpas, pelo descuido de ter o Meyer como comparação, e citar o Engenho Novo, (que vem antes, no sentido da cidade) e esquecer o Engenho de Dentro, que vem depois. E que era o objetivo, pois é lá que está o Engenhão.

Nenhuma queixa, faço coisas demais, mas minha vida é assim desde que comecei a trabalhar aos 11 anos de idade, e com 13 entrar na revista “O Cruzeiro”, sem sequer saber o que iria fazer. E naquela época, ainda não estabelecer a diferença entre destino, inteligência, cultura e genética.

Mas o lado bom de tudo isto, não passa pelas retificações (naturais, muitas, a todas agradeço) e sim pelo texto de Ofélia Alvarenga. Narração, lembranças e recordações que ela trata de forma deliciosa. Se eu não tivesse “tentado” colocar o Engenho Novo no lugar que pertence por direito de conquista ao Engenho de Dentro, não teríamos a narrativa dela. A segunda.

Aos que citaram outras construções sem nenhuma “estaca” (ou viga), até concordo, mas sem a altura e a profundidade da Estação do Engenho de Dentro. Esta continua sem ser igualada. (Quanto à “retificação” a respeito da Estação da Luz, em São Paulo, maravilhosa a estação, mas sem a altura do agora popular Engenhão).

Jorge Baleia citou a King’s Cross Station. Mas em todos os livros de Sherlock Holmes ou sobre ele, a estação é citada como Charing Cross. E todas as vezes que fui a Londres, principalmente a caminho do Estádio de Wembley (o antigo, não conheço o novo, inaugurado há pouco), minha ida até lá era iniciada em Charing Cross.

Mas estamos fugindo da leitura da Ofélia. Os episódios que ela deixa entrever dos trens superlotados, “eu era muito ingênua”, são históricos. E praticamente só reconhecidos muito mais tarde, e desvendados como o que significavam de fato.

Era tudo impossível de deslindar ou de impedir, fazia parte do “cotidiano indevassável e indisfarçável”. Os trens trafegavam tão superlotados, a qualquer hora, que as pessoas ficavam coladas uma às outras, as segundas intenções chegavam primeiro. E o nosso atraso natural, o metrô do século XIX, ainda não chegou aqui.

Ofélia teve o prazer de contar tanta coisa agradável que ficou na distância do tempo. Eu e o Millor terminamos o primário na GENIAL e ADMIRÁVEL escola pública da época. Onde depois, 40 anos mais tarde, o Millor “fundaria a Universidade do Meyer”, embora já estivéssemos muito longe.

Entre o primário e o ginasial, ainda lá, uma das minhas maiores satisfações, era atravessar o belíssimo “Jardim do Meyer”, dobrar à direita, logo veria a Rua Aristides Caire e a casa do grande jornalista Agripino Grieco.

Foi o mais temido, lido e respeitado jornalista da época. Ninguém resistia à sua cultura, sua demolidora palavra escrita e às polêmicas, nas quais derrotava todos, sem exceção.

Sua casa tinha 30 mil livros, que maravilha viver. E estava construindo um “puxado”, (como se dizia), pois os livros na paravam de chegar, não dava tempo de comprar. Uma dia me disse: “Esses 30 mil livros foram todos lidos”. Não mentia.

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PS – Já devia ter mais de 50 anos, seus dois filhos já se aposentaram como embaixadores. Foi a minha primeira admiração visível, com quem eu podia falar e, principalmente, ouvir. Só que fui logo embora, não houve nem  tempo para que me influenciasse.

PS2 – Escrevi que a revista “O Cruzeiro” foi um emprego, aos 13 anos, e não o cumprimento de uma vocação. Podia ser destinação, nunca saberei.

PS3 – Agradecimento total a Ofélia Alvarenga por ter aproveitado o meu equívoco, não para corrigi-lo, mas para ampliá-lo com sabedoria, a cultura e a inteligência da memória.

PS4 – Freud costumava dizer: “É brincando que se dizem as grandes verdades”. E concluía: “Não existe equívoco, e sim a autenticidade que você não conhece, mas só reconhece quando se exprimiu sem querer”.

Aumentar ou reduzir o consumo?

Carlos Chagas

Mestre Hélio Fernandes, mais uma vez, acertou na mosca: para evitar a crise, Barack Obama colocou mais 600 bilhões de dólares no mercado. Pelos mesmo motivos, Henrique Meirelles tirou de circulação 61 bilhões  de reais. Lá, a estratégia é aumentar o consumo. Aqui, reduzi-lo.

Some-se à nossa política restritiva as sucessivas ameaças de Guido Mantega, que continuará na Fazenda  promete cortes nos investimentos, diminuição de gastos públicos essenciais, ajuste fiscal e até a possibilidade de aumento de impostos.

Alguém anda pisando no tomate e, pelo jeito, não é o presidente americano. A principal alegação para a popularidade do presidente Lula repousa na inclusão de milhões de cidadãos na sociedade de consumo. Quem jamais possuiu um fogareiro agora compra fogões,  geladeiras, máquinas de lavar e aparelhos de televisão. Muitos que viajavam de trem e de metrô adquiriram automóveis, mesmo usados, em prestações a perder de vista. Os que iam  de ônibus vão de avião. Aqueles acostumados a duas refeições por dia fazem três.

Se a estratégia é reduzir o consumo, a redução atingirá primeiro  os emergentes. Junto com a impopularidade previsível para o novo governo e a nova presidente da República. Dá para entender?

PREMONIÇÃO

Coincidência ou não, o presidente Lula foi vaiado pelos estudantes da Universidade de Brasília, segunda-feira, ao inaugurar um pavilhão que homenageia a  memória de Darcy Ribeiro. A prioridade, para os jovens, era outra, numa instituição que cada dia mais deixa a desejar. Não passou recibo,  o primeiro-companheiro, acompanhado do presidente do Uruguai. Sem referir-se aos apupos, ateve-se ao texto do discurso preparado  antes, surpreendendo pela falta de seus peculiares improvisos. Raríssimas vezes nos últimos oito anos o Lula recebeu vaias. Estariam os estudantes reagindo às medidas de contenção anunciadas pela equipe econômica de Dilma Rousseff?

CONSIDERAÇÕES SOBRE O CONTEÚDO

Aferram-se os meios de comunicação na defesa da  proibição constitucional de restrições à liberdade de expressão do pensamento. Nada mais justo e necessário.  Censura, nunca mais!  Anuncia-se estar o poder público, também pela Constituição, buscando mecanismos para evitar excessos e abusos praticados através da mídia. Fala-se numa agência a ser  criada, composta e mantida  pelo Poder Executivo, com a função de analisar e determinar punições para abusos e excessos.  Sempre a posteriori,  depois das matérias divulgadas, para não exprimir atentado ao conteúdo jornalístico.

Mas quem garante que depois de sucessivas multas,  suspensões e até cassação de concessões, os meios de comunicação não venham a  suprimir determinado tipo de matéria descritiva ou opinativa que  desagrade aqueles a quem coube  aplicar as punições? Estará o conteúdo, então, sofrendo restrições.  Solução, mesmo, para evitar o mau uso dos meios de comunicação, só pode estar no Poder Judiciário. Estimular  preconceitos de raça,  classe ou religião, induzir ao crime, à violência e ao tóxico, contrariar os bons costumes, ofender a honra alheia – tudo isso precisa ser punido, depois de acontecido. Mas apenas por decisão da Justiça.

UM VERBO PERNICIOSO

Volta à moda o verbo “refundar”, aliás, um atentado à semântica. Porque se uma determinada instituição vai ser “refundada”, é porque deixou de existir a que foi “fundada”. A palavra certa seria reformar.  Ou então fundar outra instituição.

O raciocínio vale para os partidos políticos, no caso,  para o PSDB.  Seus líderes, a começar pelos  luminares, os portadores de mil diplomas, estão falando em “refundá-lo”. Com todo o respeito, uma bobagem, até porque como seria o novo ninho tucano? Adotaria agora, ou deixaria sair pelo ralo, se já adotada, a social-democracia? No  máximo deveriam ser revistos o programa e os estatutos do PSDB, bem como renovada sua direção. Ou, então, programe-se o enterro do partido  e providencie-se a troca ornitológica: em vez de tucanos, a Fênix…

Adeus a Talarico, grande figura humana, testemunha da História

Pedro do Coutto

A história moderna do Brasil, se é que se pode chamá-la assim considerando-se os últimos 80 anos, da revolução de 30 aos dias de hoje, perdeu ontem uma testemunha importante, notável figura humana, que viveu os bastidores do trabalhismo, José Gomes Talarico. Viajou aos 94 anos para a eternidade, e seus arquivos, sugiro à viúva Francisca, devem se incorporar aos da Fundação Getúlio Vargas, no centro de memória coordenado pela professora Marly Mota.

São importantes para iluminar sombras e pontos ainda obscuros do passar do tempo desde a passeata da UNE, da qual participou em 42 e que culminou com a demissão de Filinto Muller da chefia de Polícia, até o crepúsculo marcado por sua nomeação pelo governador Leonel Brizola, para o Tribunal de Contas do Rio de Janeiro. Foi deputado federal, estadual, assessor do presidente João Goulart, seu amigo pessoal, jamais se afastou dele mesmo quando para encontrá-lo tinha que voar a Montevidéu e seguir para a fazenda de Taquarembó. Nos trajetos constantes, prisões também freqüentes pelos governos da ditadura militar, ciclo dos generais no poder, iniciado com a queda de Jango em 64, concluído em 85 com a posse de José Sarney na presidência da República.

Talarico foi um dos fundadores da União Nacional dos Estudantes, em 37, um dos fundadores do PTB de Vargas em 45. Percorreu muitas décadas difíceis. E as viveu intensa e apaixonadamente. Mas sempre colocando a amizade, fraternidade, dignidade humana acima de tudo. Como um historiador francês disse de Clemenceau, o tigre da guerra de 14/18: devia ser enterrado de pé, pois assim ficaria com o coração acima do estômago e com a cabeça acima do coração. Foi um grande emotivo. Por tudo que fez e de que participou há de ter levado muitos segredos para o túmulo.

Porém no depoimento que – acredito – ele deu ao setor de História Oral da FGV, há de ter dissipado nuvens. Se não o fez, não tenho certeza, penso que Marly Mota poderá tentar fazê-lo. Comecemos pela passeata da UNE, 42, início de agosto. Vinte navios mercantes brasileiros haviam sido covardemente afundados por submarinos nazistas. Os estudantes saíram às ruas do Rio. Talarico
entre eles. Foram pedir autorização a Filinto Muller para realizar a manifestação. Vargas havia demitido na véspera o ministro da Justiça, Francisco Campos. Filinto negou. Os estudantes não se conformaram e foram ao ministério. Ocupava interinamente o cargo um diplomata de 29 anos, Vasco Leitão da Cunha. Autorizou a passeata. Inconformado, Muller rumou direto ao Palácio do Catete para entregar o cargo a Getúlio. Quando entrou na sala, já estava demitido por Vargas. Assumia a chefia de Polícia Hildebrando de Goes.

Talarico viveu o cerco ao Palácio do Catete, últimas horas de Vargas. O cerco ao Palácio Laranjeiras, últimas horas de Jango no poder. Viveria também as últimas horas de João Goulart na vida. O cenário era a tristeza na fazenda Taquarembó. Talarico contou a mim, numa entrevista para a Tribuna da Imprensa, que Jango, sem o saber, teve um motorista tupamaro. Por este motivo foi convocado ao Ministério do Interior. Não disposto a ser inquirido, Goulart viajou de carro do Uruguai para outra fazenda sua, esta em Rosário, Argentina. Chegou ao entardecer. Momentos finais de sua vida. Jantou, tomou remédios para o coração, era cardíaco. Morreu de madrugada. Seria a operação Condor? Personagem misterioso, me disse Talarico, entrou na casa e arrebatou a medicação. Misteriosamente também.Talarico não soube como, uma das propriedades de Jango fora vendida enquanto atravessava os pampas e se aproximava de Rosário. Talvez os arquivos do grande Talarico revelem. Ou então alguma mensagem que ele mande do Céu, onde, tenho certeza, ele se encontra.

Demitido, desprezado, abandonado, sem ser lembrado para nada, Meirelles arruína o progresso do Brasil. Corta o DINHEIRO do CONSUMO, a forma mais correta do DESENVOLVIMENTO. Quem autorizou?

Helio Fernandes

O Brasil está cada vez mais surrealista. Além do ministério Dilma estar sendo negociado e indicado por Lula, quase todos estão resistindo nos cargos, a maioria vai sendo mantida. E além de mantidos, tomam livremente medidas que afetarão o presente e o futuro do país.

È o caso do “feemiista” Henrique Meirelles, ainda e por poucos dias, presidente do Banco Central. Como se sabe, pretendia permanecer, tentou intimidar e “seqüestrar” a vontade da presidente eleita.

Analisou mal, ela ficou revoltada, imediatamente dispensou-o. Mas essa “dispensa-demissão”, só vale a partir de 1º de janeiro de 2011. Devia ter sido EXONERADO A PEDIDO, no mesmo dia em que revelou a ameaça a Dona Dilma.

Sem consultar ninguém, na contramão da economia do desenvolvimento, sem autorização de Lula ou de Dilma, apenas por vingança e naturalmente para servir os interesses de sempre, colossais, D-E-C-I-D-I-U.

E além de todos os inconvenientes e de contrariar decisões inteiramente diferentes de países muito mais importantes e sensatos (como os EUA). Meirelles anunciou sua providência, desta forma; “Temos que reprimir e diminuir o consumo. Se o DINHEIRO continuar circulando, se o crédito continuar FÁCIL e BARATO, o consumo aumentará muito, imediatamente teremos o “AUMENTO DA INFLAÇÃO”.

Determinou a retirada da circulação de 61 BILHÕES de reais. Isso já vale a partir de ontem. Sem dúvida que a EXPLICAÇÃO dada ou pretendida pelo presidente do BC, será atingida, o CONSUMO diminuirá. Mas e o D-E-S-E-N-V-O-L-V-I-M-E-N-T-O? Sabendo-se que seu superior hierárquico, (mantido no cargo) Guido Mantega, é “acusado” precisamente de “desenvolvimentista”, o imprescindível seria consultá-lo.

Circulam nos meios econômicos e principalmente em Brasília, várias versões ou rumores, vá lá, a respeito do ataque de Meirelles ao CONSUMO.

1 – Serviria ao FMI, Meirelles precisa muito do órgão para projetar e balizar seu futuro.

2 – Mostraria e demonstraria que ainda tem muito Poder de fogo. É bem capaz de tomar medidas no dia 28 de dezembro para serem publicadas no Diário Oficial de 29 ou 30.

3 – Atingiria Guido Mantega, até pessoalmente. No início de Mantega na Fazenda, divergiam. Depois, “romperam, brigaram para valer, não se falavam nem em público”. Os fatos se agravaram quando Mantega foi MANTIDO e ele, DEMITIDO.

4 – E finalmente visava o novo presidente do BC, Alexandre Tombini. Ex-subordinado e seguidor, que aceitou “seu cargo” sem sequer consultá-lo.

5 – Como sabia que Tombini preparava AUMENTO DOS JUROS, tomou essa decisão para cerceá-lo, refreá-lo, contrariá-lo. (Assim que foi indicado presidente do BC, escrevi aqui, com exclusividade: “Os juros ficarão maiores a partir de janeiro ou fevereiro. É uma “tombinada” de um economista AUMENTISTA ou ALTISTA”. (Sem jogo duplo de palavras).

Só para lembrar: mais um menos 1 mês antes, para ESTIMULAR O CONSUMO, o presidente Obama colocou 600 BILHÕES DE DÓLARES NA CIRCULAÇÃO. Praticamente 1 TRILHÃO DE REAIS.

Como não produziu totalmente o efeito esperado, o consumo aumentou pouco, Obama anunciou: “Estamos estudando a possibilidade de aumentar o estímulo de DÓLARES na circulação”.

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PS – Meirelles RETIROU 61 BILHÕES de reais, Obama AUMENTOU 1 TRILHÃO (já convertido em real), ou seja, 15 vezes mais, com a agravante. Na Matriz, mais dinheiro para CONSUMO. Na Filial, menos dinheiro para o mesmo CONSUMO.

PS2 – Em relação à inflação, antes de Obama (e com ele), quando SENTIAM que AMEAÇAVA, baixavam, os juros. Aqui todos conhecem o REMÉDIO que mata: JUROS de 10,75%.

PS3 – Jornalões desinformados, dizem: “Tombini e Mantega foram consultados”. Ha!Ha!Ha! Meirelles não é de consultar ninguém. Mesmo nos quatro primeiros anos, mandava mais do que Palocci. Com este demitido, desprezível e desairosamente, que palavra, ficou absoluto.

PS4 – Nem tomou conhecimento do “substituto”, o próprio Mantega. E se tivessem sido ouvidos, e se APROVASSEM, insensatez completa.

PS5 – É bem verdade que Meirelles teve o cuidado de RESSALTAR, REGISTRAR e RESSALVAR: “Os bancos repassarão o aumento dos seus custos para o CONSUMIDOR”. Isso já a partir de ontem.

PS6 – Se alguém imaginava que os bancos seriam prejudicados com o aumento do COMPULSÓRIO, não sabe de nada. Meirelles não pode ser presidente da FEBRABAN, não preside banco. Mas pode ser executivo de qualquer um. Mais possibilidades para Itaú, Bradesco e Santander, se quiser ficar no Brasil.

PMDB vetou Moreira Franco, Michel Temer aceitou

Helio Fernandes

Amigos, amigos, ministérios à parte. O ex-governador do Estado do Rio foi recusado pelo PMDB para ministro ou cargo no segundo escalão. Aceitará sem aborrecimento, uma secretaria de terceiro escalão.

A cúpula do PMDB não tinha dúvida: mantendo Rossi na Agricultura, Temer não lutaria por Moreira Franco. Este aceitaria a presidência da Caixa Econômica, já é diretor. Henrique Eduardo Alves não quis nem conversa diante da exigência de deputados: “Se Moreira Franco for Ministro, você não presidirá a Câmara”.

Isso agora, é oficioso, não demora a ser oficial.